A outra face, de Armando Moura Filho

Foi bem por essa época, há uns dois anos, que recebi pelo correio os originais de um poeta que aos 75 anos de idade havia começado a escrever e publicar esparsamente nas redes. O nome do incauto? Armando Moura Filho.

O pacote continha uma matéria bruta de quem obviamente havia andado a escrever sem se preocupar com o amanhã. E eu acho que exatamente isso me encantou na tarefa de ajudá-lo a organizar do “pacote” um volume, um livro: este “A outra face” que agora nasce pelas mãos do Roberto Prym e da Bestiário/Class.

Enquanto aguardo meu exemplar, fico aqui pensando que, no que diz respeito à poesia, é incrível que eu ainda não tenha nada muito certo em mente. Nem muito e nem nada: prefiro mesmo não ter. Acredito realmente que cada pessoa constitui uma trajetória a despeito das influências, leituras, grupos, amizades… E também que é preciso não saber muito bem o que se está fazendo como regra e também o que estão fazendo o vizinho, o parente, o amigo e assim por diante.

Não é que eu desconheça ótimas obras planejadas ou outras excelentes arquitetadas mental e formalmente, mas esse não é o meu ponto: o que eu quero dizer é que o/a poeta às vezes melhor se sairá se não estiver certo nem de sua predestinação e nem estiver cioso da sua qualidade.

Quanto à qualidade, as razões são óbvias: a autoindulgência costuma ser traiçoeira e comprometedora. Já a vaidade excessiva dificilmente não soa grotesca. Nesse raciocínio, chego a ser meio extremista, é preciso duvidar, sim, até o último ponto e, mesmo depois de impresso e publicado, continuar insatisfeito. Pode não ser essa uma receita de sucesso, mas seguramente é de honestidade. Neste caso, honestidade para consigo mesmo. Isso posso garantir que não falta ao Armando.

Às vezes, vejo por aqui poetas que anunciam “amar” seu poemas ou dizendo de um ou outro dentre a própria criação os seus “prediletos”. É um comportamento que me parece estranhíssimo. Não é que para mim um artista não possa estabelecer um vínculo estético-afetivo com a própria obra, porém isso cria um impasse na apreciação que é terrível. Ou seria viável esperar por uma apreciação que, mediante essa negociação, ocorresse com a liberdade necessária e não parecesse afronta pessoal?

Do Armando eu posso garantir isso: a falta de afetação e a busca sincera por uma poética consequente com sua vida, suas perdas e interesses e dúvidas.

Desde a primeira vez que li a montanha de folhas soltas, me passou que daria um livro com uma intensa vitalidade. Ali estão os mundos de um homem solitário e solidário, o mundo movediço e noturno dos advogados, o das narrativas mais prosaicas que filosóficas e de quem se entrega menos facilmente ao devaneio que às intrigas. Intrigante, não é? E é mesmo.

O nome do livro mudou, caro Armando, mas para mim continuará a ser “Old Parr” (o cavalo e o uísque). Acompanhado por um “18 anos” e um long play do Sinatra, é livro de se aproveitar cada página.

Cheers!

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