O guardador de carros

Depois de Alberto Caeiro

Quase sempre a essa mesma hora
o guardador de carros
assovia estridentemente

(eu nunca guardei carros,
mas é como se os guardasse).

Quem ele chama? O que quer?
Assim, caso ele soubesse,
não precisaria de olhos
tão marejados – e os carros,
como monstros súbitos do acaso,
um dia o estatelariam no chão,
verdes como se fossem da natureza
remanescente os seres estacionários
que a vingariam em sua fúria;
e Deus, que os colocou em pé
e lhes deu vida pela primeira vez,
saberia que falhara da mesma forma
que falha um poeta ao imaginar
em que diferença faz dizer ou não dizer

(que diferença faz?).

Poderia ser outro, não eu,
a guardar carros, se fosse ele,
mas concilio o que faço
ao que não posso fazer
e escrevo as memórias no chão
no rastro que os carros deixam ali.

Os carros são melhores e mais caros
que a minha vida e os admiro
como a imagens cobertas por véus

(que diferença eu faço?).

Posso aprender a fazer contas um dia,
se eles não corressem tanto
e usassem luz baixa
e fizessem sinal ao dobrar.

Mesmo eu sendo tangido por eles
eu nunca sei por quem eles são
e não me espantaria saber
que comandam seus donos
e eventualmente podem ceifar-lhes as vidas
e roubar toda a sua fortuna

(que diferença lhes faz?).

Quando a noite se aproxima
e a luz dos postes se acende
eu penso no que me faria ser
outra pessoa, justamente,
mas se não existem milagres –
exceto os da imaginação –
eu interrompo o pensamento
porque um novo carro chegou
para mim, no estacionamento

(quando foi que não percebi
que me transformara nele?).

Aqui estou sentado
como quem não pensa em nada,
contando o troco em moedas
que me jogaram à calçada

(sinto que agora estou
muito mais próximo a Deus,
mas o rio que corre perto daqui
está podre e cheio de pneus
e sinto que a terra abaixo
um dia destes cedeu).

Eu não me engano com nada –
a vida foi sempre assim –
e eu não notei o assovio
que eu mesmo, não o vento,
mandava a mim.

Ele me mostraria a morte
e suas cores sombrias,
ele me seria o inusitado aroma
a lembrar o tempo em que estou aqui.

Os dias a passar por mim,
eu a mal notar os dias.
O mistério suntuoso e inútil
da água correndo no rio.

Todo o ruído que é feito
por eles – os carros – é perfeito:
uma sinfonia absoluta
em buzinas, motores e gritos.

Mas eu, que penso em mim como noutro
qualquer, guardo carros
até por moedas.

Por tudo (eu nunca guardei carros,
mas é como se os guardasse),
prefiro a noite quieta e soturna
a observar borboletas.

E se todos dormem a essa hora,
então eu posso também.

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