Desmatamento

É tarde já, muito tarde
para recolher minhas sombras.
Tarde para recuperar milagres
que deixei para depois.

Há menos de um ano
prometi um livro de versos
que hoje eu não entendo mais
o que seriam.

Esqueci porque ficou tarde
e posso fazer tanto agora
e é preciso lustrar o tempo,
mas sequer é a mesma mão.

O tempo é um volume de coisas
que não aconteceram
em lugar de outras
precedentes, que existiram.

Primeiro a escada que os pés,
as roupas que o corpo,
as ruas que a vida urbana,
as árvores que a floresta.

Mero conforto dos relógios,
o tempo é essa preguiça
que adormece em olhos de criança
pouco antes de dormir.

Mas meus poemas não eram
para ser sobre o tempo.
Seriam mais complexos,
como uma purificada matemática.

Palavras essenciais
para dizer essencialmente
que a esse momento da vida
tudo já entardeceu.

Há um aplastamento de fatos
como massa de bolo
mole pingando da colher
espessamente.

Os animais e suas fúrias
ilustrativas,
é tarde também para eles
e seus efeitos.

Tantos dias por vir
ficarão sem saber o que seriam,
mas os lugares sem as viagens
não se amofinam.

Ganham sentido em encontrar
alguém no caminho.
Em mim, talvez,
se eu permitir.

Os lugares e as pessoas
parecem estátuas vivas
e pinturas vulgares
e dissimuladas.

Nem parecem quanto dizem,
não valem quanto custam,
não são grande coisa,
nada disso.

Têm pressa e desespero
de existir,
de acontecer,
de inferir.

Que estou dizendo?
Não sei sobre o que seria
o livro aquele,
pois esqueci.

Não se fazem colheitas na floresta,
não se fazem pontes ali.
É preciso aceitar a chuva
sem comedimento.

É tarde para esperar
e, se agora há um lugar para ir
só para dentro,
eu compreendo:

tenho resgates
para fazer em mim
quando acabar
o desmatamento.

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