Benévola

Olhando três vezes para a frente,
esbarro no ainda não visto
por acidente – a saudação
absurda que o dia às vezes faz
à noite depois de arruinada.

Muitos são dias sem sentimentos,
mas vou pelo caminho de antes.
É o que entendo melhor. Vou pela mão
do meu filho e sorrio às suas coisas
quanto menores pareçam.

É tão pouco pintar a manhã.. Basta
um tanto da tinta esquecida nos potes:
nada de azul aqui porque é cedo demais
e o sangue ainda encharca o nascente.
Mas não se pode arredar esse frio, nem

a rua e seu carrear de pedidos
frustrados. Contudo a luz do dia
impinge uma transigência benévola
em tudo. De uma sacola de bondades,
eu também tomo de algo qualquer

pensando em ocupar meu dia, mas ele
não quer saber e vai me esculpindo
à madeira, para a festa dos cravos
como uma vez fez ao pobre Jesus.
Viver não é mais do que escrever na areia

e, depois, tudo pode se perder.
Palavra e silêncio? O mesmo.
A mim servia um dia só de eterno.
E eu daria tudo mais uma vez, mas
ninguém deve oferecer o que não tem.

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