Ninguém é mais escravo do que aquele que pensa que é livre sem realmente sê-lo

Ainda não entendo bem como, mas eu já estive num lugar que não existe. Estive com o meu filho quando ele tinha, talvez, três ou quatro anos. Mais provável que quatro.

Ficava o lugar num desses sobradinhos que têm ali quase no final da Venâncio Aires, perto do Pronto-Socorro. Um consultório num sobrepiso que alcançamos por uma escada guarnecida por apenas um corrimão, do lado direito. O outro, do esquerdo, parecia ter sido removido. Isso dava para ver pelo desgaste na parede. Era tão estreita a passagem que precisávamos passar um diante do outro e deixei que ele a subisse em minha frente, assim poderia cuidar de que não tropeçasse e evitaria qualquer acidente.

Alguém havia nos indicado uma médica que atendia ali e poderia nos ajudar com ele, que se atrasava em seu desenvolvimento e com quatro anos falava apenas sílabas. Eu tinha realmente uma loucura por ouvir a sua voz pronunciando uma palavra por inteiro e por isso a qualquer promessa que nos acenassem eu o levaria. Não penso que tivesse alternativa a não ser essa e a indicação de um amigo também confiável me bastou.

Fomos lá num dia que eu não lembro mais se fazia sol como o dessa fotografia ou se estava nublado, mas não chovia. Disso lembro-me bem. Subimos sem pressa porque morávamos relativamente perto dali. Desde que vivo em Porto Alegre, sempre morei perto da Redenção; é como estar próximo a um pulmão, ainda mais se vemos o parque do alto de um prédio. Subimos a escadaria de madeira e não havia ninguém numa sala onde espalhavam-se algumas cadeiras e pinturas decorativas a óleo de paisagens marinhas. Sob os quadros, a parede com uma cor para mim indefinida entre o amarelo e o azul. No meu daltonismo, eu a via um tanto dourada, mas é claro que não era essa sua cor real, apenas uma distorção promovida pela minha condição genética.

Para o meu filho, a genética promoveu outras surpresas. Um gen a mais no cromossomo 21 e talvez outras combinações imperceptíveis do seu genoma. Mesmo que a gente não saiba bem tudo o que pode haver escrito nele, em seus olhos a síndrome era evidente e indisfarçável. Acho que quando a doutora finalmente apareceu na sala de espera para nos receber ela demorou muito pouco para entender a ele e sua situação. O diagnóstico pelo fenótipo é o mais rápido entre todos: é como ter a pele negra ou amarela ou vermelha. Basta um exame de olhos e está pronto. Eu também percebi que ela tinha ascendência germânica pelo tom de pele e pelo sotaque carregado nos erres. Seu nome era Gerlinda Ehrenberg. Sehr geehrte Frau Ehrenberg e seu sorriso de Mona Lisa mais indecifrável que o código genético de um indescoberto faraó do Egito.

Dra. Ehrenberg, assim ela se apresentou quando finalmente entramos no consultório, um lugar tão vazio quanto a sala de espera e todo aquele andar do simpático sobradinho.

“O menino nasceu assim, eu já perrrcebi, senhorrrr Carrrvalho. Mas nós vamos corrigirrrr isso, fique trrranquilo”, anunciou e, ao contrário daquilo me apaziguar, senti um desconforto absoluto. Ela alternava o olhar para ele e para mim sem parar, parecendo uma tentativa de evitar o contato visual.

“Vamos operrrá-lo”, falou; e naquele momento ele pulou do meu colo correndo para dentro do corredor com suas pernas gordinhas, o tênis Bibi e o cabelo de capacete.

A mim, no entanto, ela bloqueava a passagem e então eu vi, saídos não sei de onde, dois soldados usando a Parteiadler e a cruz de ferro que logo tomaram-me pelos braços. Ela o seguiu pelo corredor cor de neve dormida e colocou a mão em sua cabeça. Ele não debatia-se, parecia aceitar a situação como se fossem dois antigos conhecidos, professores ou parentes.

Frau Ehrenberg insistia em me dizer “Fique trrranquilo, senhorrr Carrrvalho” e mais alguma coisa em alemão aos soldados que imediatamente pararam ao ouvir o que ele sem explicação alguma começou a gritar: “Warten, warten, warten!”

Ela agachou-se para ficar na mesma altura do meu filho e ele, que nunca havia dito uma palavra por completo, falou com a maior clareza possível: “Niemand ist mehr Sklave als der sich für frei hält ohne es zu seyn.”

Frau Ehrenberg ficou paralisada ao ouvi-lo e os soldados imediatamente desmaiaram, como se estivessem encantados por sua voz, pela frase de Goethe ou por ambas as coisas. Aproveitando o lapso, alcancei-os e empurrei com toda a força a médica para o lado e tomei a escada quase desabando. O filho no colo brincava de enfiar os dedos no meu nariz e ria.

Na rua, o movimento era intenso, mas corríamos sem olhar para trás. Quando pareceu seguro virar o rosto, vi Frau Ehrenberg tomando a rua também, mas atravessou-a sem olhar para os lados. Uma ambulância que saía do Pronto Socorro em alta velocidade engoliu sua imagem rígida dentro do casaco cinza e o penteado armado em laquê. Eu apenas torcia para que o acidente a tivesse matado.

No lugar onde estivéramos pouco antes, já não havia mais aquele sobrado. Em seu lugar, um novo, quadrado como um bloco, servia de estacionamento a outro prédio com jeito de recém construído. Nem os soldados acudiam Frau Ehrenberg, levada às pressas pela mesma ambulância. Talvez eles tenham ficado lá dentro dormindo encantados, como os soldados da Bela Adormecida. Eu não preciso que morram igual a Frau Ehrenberg, mas espero que seja assim que eles continuem para sempre.

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