A custódia de Atlas, 2

Onde estão os presentes,
pergunto ao meu pai
sem entender sua miséria.

Onde o recolho de sua fadiga,
dos dias carregando os couros,
do campo queimado de gelo?

Certa vez eu o vi nu
e chorava como se eu devesse
abraçá-lo – a minha insolência.

A cena era como se Atlas
houvesse jogado fora
o mundo pela janela

e eu nem estava
pensando
nisso.

Às vezes, vejo ainda o seu corpo
lutando com a alma, o maior dos touros,
e pensava como outro animal

prevendo seus passos, linguagem
que não se aprende –
só assimila.

Vejo-o perdendo-se
num acúmulo de tarefas, um galpão
atulhado de futuros

outrora destroçados avisando
de passados que não se concretizaram –
ou foram abandonados.

Há uma ignorância secreta
que não dividimos a ninguém
e nem a temos na memória,

lições extraviadas no tempo
que chegam às vezes
sem mais serventia.

Uma voz não me comanda
e nem me pede mais nada,
como um moinho sem leme.

A verdade é que nunca perguntei
dos presentes
nem nunca imaginei que houvessem.

Só a vida é o bastante.
E alma que ela mantém
sob custódia.

Os presentes estão enterrados.
Não há que buscá-los mais
tão fundo na terra.

No mundo só um lugar existe:
aquele no qual estamos
agora. 

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