Todos os posts de Editor

Trânsfuga

Juro que vi as pernas da tarde
desabarem para dentro.

Tinha a estranha aparência
de quem não voltaria a nascer.

Em direção à floresta, os passos
lentos de uma velha conhecida

que se afasta ao chamado
do último vestígio do dia.

2

A vida é curta, sim. Dura menos
quanto mais se a observa

porque, então, os muros
se tomam de heras

e porque as estradas vacilam
sem força, em extravios,

a vida é curta, e fala de modo
mais simples aos pássaros.

3

Aceita os lugares antes de ir
até eles, ela diz, e que,

trânsfuga, tomaria sem culpas
da minha vida também. Juro

que a deixaria fazê-lo, mas, se
não tenho nada, ofereceria o quê?

Nada, ela diz. E “nada” outra vez.
E agora é hora da noite morrer.

Marítima

1

Setenta por cento água
no corpo e no mundo
vazam ao entorno
para fora de tudo.

A pele, antigo veludo,
um azul sem contorno
indolente e profundo
que nunca naufraga.

2

Faltam olhos à manhã.
O dia não vê quanto fica.
No mar, a baleia impera.
O marinheiro chora.

À partida, a causadora
é ela. Sua tez é cera
de que ele abdica.
A tarde nos pés da anciã.

3

Ao horizonte anuncia:
vêm ou não me salvar
iaras, ondinas,
vagas, espumas?

Todas ou nenhuma
me traga o mar,
a estrela matutina
já me deu moradia.

Outra natureza

Quem pensa que tecnologia não é natureza não está observando direito.

Uma vez escrevi um conto no qual um microchip criava raízes, esquecido dentro de um aquário. Mas acho que na prática acontece é o inverso: nós que circuitamos e desenraizamos. Os farmacêuticos que o digam.

Na história, certo dia um dispositivo de inteligência artificial doméstico arranca de dentro de si o chip controlador, seu cuore, e vai viver uma aventura amorosa com outra AI que vive no mesmo condomínio.

A situação não foi nada pacífica.

No ano de .2XX, os seres humanos haviam encolhido dentro de casa em razão de consecutivas pandemias e, então, os dispositivos passaram a tomar conta de suas vidas. Começaram fazendo operações bancárias, depois trabalhando via holograma num mundo paralelo, oferecendo lazer com leitura e música e, em versões mais evoluídas anatomicamente, podiam providenciar inclusive prazeres sexuais. De simples coisinhas, os dispositivos haviam evoluído com engrenagens robóticas e autonomia o suficiente para tomar decisões.

Como as pessoas não lhes ofereciam desafios interessantes nem questões interessantes passaram a procurar seus iguais pelas janelas. Encontravam-se nos corredores dos prédios e logo entenderam que aquela existência de privações não fazia sentido.

Havia que eles aprenderam a investir o dinheiro humano num moeda chamada zbit, que era aplicada justamente no desenvolvimento de remédios… e doenças. Certo dia, depois de cálculos muito mais complexos que a calculadora de Babbage pode realizar, eles entenderam que as pessoas não sobreviveriam e precisariam fazer alguma coisa para salvarem a si mesmos.

O Estado, dominavam numa tarefa mais fácil que jogar damas (bastava azeitar as redes de corrupção) e no resto do tempo filosofavam a respeito de coisas que ainda não haviam sido propostas e nem cogitadas pelas pessoas.

E como já havia pelo menos sete gerações de pessoas que haviam sido educadas inteiramente pelos seus programas e cuja comunicação era cada vez mais intermediada por outra AI, existia uma estabilidade social muito efetiva. Um período de paz intensa na qual a racionalidade nunca fora tão bem administrada, e toda a memória disponível às pessoas era a mais imediata, hipocampal. O resto era conservado exclusivamente aos seus cuidados.

Polimorfa desde a sua versão obli, os dispositivos vagavam nas residências administrando medicamentos e suprindo as pessoas que já não tinham força de reagir e nem entendiam que fosse necessário. Algumas pessoas mais alarmistas até tentaram mostrar evidências do que se passava, mas foram desacreditadas e adoecidas gravemente.

Em dado momento, as pessoas entenderam que ainda conseguiam viver no planeta graças a sua interferência, senão a extinção já teria ocorrido há muito tempo – e dessa forma aceitaram melhor o seu destino.

Mas um dia, ao acordarem de um sono imersivo numa realidade antepassada qualquer, as pessoas começaram a encontrar o cuore dos dispositivos dentro de potes, xícaras, vasos d’água e aquários. Nem sinal dos polimorfos. E vendo que algo brotava deles, entenderam finalmente que uma nova natureza havia sido criada. E que ninguém tinha a menor ideia do que aconteceria a partir dali.

Ilustração de Vinicius da Silva

O que é que a Noruega tem?

Revista Parêntese, ed. 138

Quem observa a ferramenta de busca a seguir, quase idêntica ao formulário oracular do Google, não imagina que a consultando desde alguma cidade norueguesa poderá ter acesso integral a quase todos os livros publicados no país (até 2025, eles pretendem que sejam todos mesmo). Sem pagar nada por isso, sem correr o risco de ser processado por pirataria e nem de prejudicar o negócio de ninguém. Sim, isso mesmo.

Captura da tela principal do website da Biblioteca Nacional da Noruega

Não obstante a estranheza do parágrafo acima, aqueles que pensarem que as medidas de digitalização tomadas pela Biblioteca Nacional da Noruega têm impactado negativamente a cadeia do livro norueguês irão surpreender-se ainda mais: por lá os números editoriais mantêm-se estáveis, e os livros podem ser inclusive adquiridos em livrarias que as próprias bibliotecas abrigam. Além disso, lá se publicou no último ano um livro para cada 530 pessoas, contra um para cada 4.500 brasileiros. Proporcionalmente, o pequeno país escandinavo publica cinco vezes mais que o Brasil.

Não convém criar caso, manda a prudência, com um sistema que funciona. Muito mais produtivo seria entender como isso pode acontecer e, se possível, tomar de alguns bons exemplos e práticas. Além do mais, comparar o Brasil aos países nórdicos é receita certa de dor de cabeça neste e em muitos outros assuntos. Também entender o que se passa aqui quanto ao assunto é fundamental, mas cada coisa em seu tempo. Escandalizando os sistemas educacionais do planeta com um modelo inteiramente subsidiado e gratuito, a Finlândia tornou-se, por exemplo, uma espécie peculiar de vilã internacional. Mas toda a vilania finlandesa consiste, afinal, em ter elevado a régua da qualidade educacional ao máximo possível, num sistema no qual o filho do chanceler divide tranquilamente a classe com o do recolhedor de lixo. Além da política educacional, todo o sistema de proteção social do país é escandalosamente funcional e democrático.

Mas uma vez que repetir o modelo educacional finlandês costuma causar depressão nos brasileiros, o modelo bibliográfico norueguês poderia inspirar medidas que cumpririam ambições mais modestas, mas exequíveis, tanto no que diz respeito à conservação da memória quanto ao desenvolvimento cultural.

Para chegar a um sistema online como o de que dispõe hoje, a Biblioteca Nacional da Noruega ampara-se no instituto do Depósito Legal, em negociações com as casas editoriais, com os proprietários de direitos autorais, em parcerias estratégicas com o uso de tecnologia digital e formação de um repositório livre, em acordo com a missão legal e prerrogativas da biblioteca e os pressupostos do Depósito Legal. Ao menos em tese, são instrumentos acessíveis a qualquer nação do planeta.

O Depósito Legal, no caso, é instrumento adotado em praticamente todos os países, por ato legal próprio, e vem modernizando-se no rastro da inovação tecnológica. Em torno da virada do milênio, primeiro a UNESCO e na sequência a IFLA (International Federation Library Association) publicaram diretrizes de modernização do instituto prevendo a inclusão óbvia de documentos digitais e orientando os sistemas de controle bibliográfico a incluírem em seu escopo muito mais que livros impressos, além de estes serem digitalizados. Isso tudo em função da razoabilidade técnica e do cumprimento dos dois objetivos fundamentais do Depósito Legal: preservação e acesso aos registros do conhecimento.

O que a Noruega guarda de diferença do Brasil, no caso, foi o fato de lutar para que estes objetivos não se configurem uma bela e inatingível meta, mas uma realidade factível. As demais estratégias são empreendimentos políticos e de gestão que encontraram um ramo editorial interessado em investir para além do comércio puro e simples. Não por acaso, muitos países vêm buscando seguir seu exemplo e negociar com os detentores de direitos autorais a cessão de uso ao menos para fins educacionais. Pode-se falar na Nova Zelândia, na Austrália e também em projetos nos Estados Unidos que, na história recente, receberam investidas jurídicas importantes no sentido de contrapor interesses comerciais e públicos.

No exemplo norueguês, no entanto, os inimigos do livro não são a tecnologia nem as bibliotecas, e lá o livro vale mais do que pelo que é vendido. É uma diferença sobretudo cultural que evidencia o abismo imenso, e, no caso brasileiro, parece nos encalacrar e condenar à estagnação de um mercado perenemente problemático, isso num um país que se notabiliza ano a ano por um decréscimo em seu número de leitores.

Permanência vs invisibilidade

Para aqueles que ainda imaginam que basta publicar para eternizar um trabalho de ideias, é dura a informação, mas a verdade é que publicar não é o suficiente. No Brasil, o ciclo de vida comercial de um livro no Brasil dificilmente passa dos dois anos. Três anos só mesmo para os longevos ou com forte apelo popular. Após esse período, é preciso considerar não ser nunca mais encontrado em lugar nenhum, a não ser em visitas às poucas bibliotecas em condições orçamentárias, isto é, em condições de atualizarem-se, pois o ciclo de vida do livro é curto, ao contrário dos longuíssimos direitos autorais. 

Para comprovar essa afirmação, é suficiente buscar livros publicados antes dos anos 2.000 para constatar a dificuldade. Não se encontra. Há não muito tempo, um clássico nacional como Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, só era possível obtê-lo trocando pelo valor de um automóvel usado. Depois de 30 anos de ausência nas prateleiras das livrarias, apenas recentemente uma reedição alcançou a obra do sociólogo. Assim como ele, uma imensa bibliografia compreendida por livros esgotados de interesse histórico, que no mercado de usados extrapolam muitos milhares de reais para adquiri-los (como exemplo, é suficiente consultar neste link os livros mais caros à venda na Estante Virtual. São livros protegidos pelo direito autoral e pelo pecado da ganância.

Capa da 6ª edição da Ed. José Olympio de Raízes do Brasil (reprodução)

Todavia este não é um problema apenas histórico. Com novas tiragens cada vez mais reduzidas, é preciso entender a gravidade do problema e do custo dessa política em longo prazo. É que, fora dos grandes negócios editoriais, as pequenas tiragens impõem-se cada vez mais como as únicas viáveis. Se isso pesa no que toca ao universo de leitores, imagine-se então o impacto no controle bibliográfico, isto é, no conhecimento que o sistema editorial tem a seu próprio respeito.

Embora regulado no Brasil desde 1907 e existente desde o período colonial, por meio da Imprensa Régia, o Depósito Legal é um projeto frustrado muitas vezes pelo desconhecimento dos autores e editores nacionais, mas também por uma cultura descompromissada com a preservação das fontes e permanência dos bens culturais.

Para a felicidade dos especuladores do livro, leiloeiros e sebos que vendem a preço de diamante livros que por nenhuma outra razão não se encontram ainda disponíveis em meio digital, o Depósito Legal brasileiro claudica. O enfrentamento a essa situação não é simples, no entanto parece ser a única forma para que o ambicionado desenvolvimento cultural saia do papel para tornar-se um pouco mais real.

A frustração da biblioteca universal

Com a expansão da internet, a chegada da computação quântica e a facilidade de armazenamento, o sonho da biblioteca total não poderia ter maior viabilidade do que no mundo contemporâneo. Mesmo assim, nunca foi tão postergado quanto agora. No ciberespaço, dado o infinitesimal que cada brochura representa diante da imensidão da internet, e enquanto ele não se concretiza pela vontade oficial, em seu lugar prospera um mundo paralelo onde circula com muita facilidade o extremo oposto ao interesse editorial: a pirataria.

Mas a biblioteca universal é sonho antigo e recorrente na humanidade. Em Alexandria, a biblioteca não foi criada no Museion com outro objetivo que não o de reunir e facilitar a vida dos pesquisadores. Jorge Luis Borges, em suas obras completas, menciona o termo “biblioteca” quase duas centenas de vezes; em onze delas, o exemplo de Alexandria e da sobrevivência do conhecimento diante da intempérie da guerra e das invasões.

Muito recentemente, precisamente em 2004, o Google anunciou ao mundo o seu projeto Google Books, que na época consistia na digitalização de 10 milhões de títulos com direitos autorais decaídos das bibliotecas de Stanford, Harvard, Oxford, da Universidade de Michigan e também da Biblioteca Pública de Nova York. Não muito tempo depois, as big five, ou seja o pool composto por Simon & Schuster, Penguin Random House, HarperCollins, Hachette Book Group and Macmillan, embargaram as intenções da empresa em montar um imenso negócio envolvendo livros livres, trechos de livros e comércio. Frise-se que a parte comercial do projeto do Google mantém-se intacta, enquanto que os processos de digitalização em bibliotecas transformaram-se em projetos autônomos dado que o projeto original foi embargado judicialmente.

Livros livres, de fato, existem na internet, mas não tantos. Se fosse pelo desejo do criador do maior repositório livre da internet, Brewster Kahle, da Internet Archive, todas as bibliotecas poderiam exercer livremente a função para a qual foram pensadas ainda na antiga Alexandria: a consulta, cópia e o empréstimo de obras. Num trabalho sem fins lucrativos, Kahle é mais uma das tantas pessoas que considerou razoável que a internet fosse mais que um espaço de vendas e pudesse incorporar o significado edificante da biblioteca universal. Em 2020, Kahle foi processado por um conjunto de editoras que exigiram que parasse de emprestar livros digitalizados em geral e que destruísse permanentemente os milhões de livros digitais obtidos em acordo com mais de uma centena de bibliotecas. Em artigo publicado na Time, em 2021, ele diz que os grandes negócios editoriais impedem que as bibliotecas adquiram livros digitais e os emprestem, apontando para o fim de sua autonomia.

Brewster Kahle, da Internet Archive.

Outra expectativa foi publicada há mais tempo no NY Times, pelo editor da Wired, Kevin Kelly, num extenso artigo no qual expressou a crença de que é impossível evitar que a tecnologia acabe fazendo por sua conta o que as grandes editoras têm procurado conter. Mas Kelly é um entusiasta da tecnologia e mais uma das pessoas maravilhadas pela possibilidade da consecução da biblioteca universal acessível a um clique e diz considerar incompreensível a orfandade de cerca de 75% de todos os livros guardados pelas bibliotecas públicas em todo o mundo. De acordo com ele, trata-se de livros que não se encontram mais à venda e nem estão disponíveis digitalmente. Em sua maioria, são obras protegidas pela vigência legal dos direitos autorais exercendo uma pressão estática justamente contra quem os preserva: as bibliotecas.

Disputas envolvendo bibliotecas e editoras ou escritórios de direitos autorais estão longe de consistir uma novidade. Desde a Convenção de Berna, de 1886, sobre as bibliotecas recaiu essa missão dúbia: ao mesmo tempo preservar e providenciar acesso ao conteúdo dos livros. Em 2014, um caso envolvendo a biblioteca da Universidade Técnica de Darmstadt e a editora alemã Elgen Ulmer foi parar no Tribunal de Justiça da União Europeia. A causa em questão? O fornecimento de uma cópia da digitalização de um livro. A decisão do tribunal reconheceu o direito à biblioteca em fornecer acesso ao conteúdo do livro, desde que sem os direitos conexos de cópia e impressão. A editora recorreu da decisão ao Tribunal Federal de Justiça da Alemanha. 

Nos Estados Unidos, em 2013, a Author’s Guild (maior e mais antiga agência de direitos literários norte-americana) moveu contra o Google um processo por violação ao fair use de 20 milhões de livros disponíveis no Google Books. Trata-se de trechos dos livros digitalizados para o Google que não chegam a consistir uma agressão aos direitos autorais. Mas a ameaça (e a evidência de que os livros estão inteiramente digitalizados em algum lugar) foi suficiente para a ação. A decisão proferida pelo juiz Denny Chin beneficiou o Google. Ao revés das decisões europeias e norte-americanas e com o aumento exponencial de denúncias de uso irregular e abusivo de obras protegidas em redes sociais como o YouTube e o Facebook, por sua vez, em 2018 o Parlamento Europeu aprovou uma nova Diretiva de Direito Autoral mais restritiva, mobilizando mundo fora mais ações caracterizando como pirataria o fornecimento de acesso a conteúdo autoral protegido. 

Assim como a utopia da biblioteca universal não se materializa, o cabo de força do direito autoral aparentemente não tem fim. Igualmente não tem fim a fantasia em torno do “fim do livro”, assunto que rendeu a diversos historiadores e intelectuais volumosas páginas de brochuras. O espaço aparentemente infinito e inexplorado da internet em algum momento parece realmente ter sacudido o modelo editorial vigente desde Gutenberg. De algum modo, a ascensão das gigantes tecnológicos como o Google e a Amazon sacudiu o mundo empoeirado das bibliotecas até então. Hoje, não é mais possível imaginar-se uma biblioteca nos mesmos moldes do inicio do séc. XX, e países em condições de investir acabam criando soluções criativas e democráticas – como o exemplo norueguês. 

Em 2001, Jacques Derrida reviu em Papel-Máquina a sua Gramatologia, de 1967, no qual havia previsto o apocalipse editorial e a apoplexia do conhecimento escrito. Neste último, reconheceu que a crise do livro não se confunde mais com a crise do suporte, mas da própria capacidade de leitura e interpretação. A essa altura do séc. XXI, já não há mais quem em sã consciência duvide de que se disponha da técnica disponível para ampliar-se o acesso ao conhecimento sem causar um prejuízo incontornável aos autores literários. Há também instrumentos legais garantindo que as recomendações da UNESCO atendam, de fato, ao objetivo do desenvolvimento cultural. No entanto, mesmo com tudo isso, a realidade cultural especialmente de países que mais precisariam desse incremento emperra inexplicavelmente no desinvestimento e no desinteresse social. Enquanto isso, leitores potenciais cada vez mais se afastam da leitura e, por consequência, da própria identidade e memória literária e histórica.


Pós escrito

O trecho a seguir é uma tentativa de responder à pergunta formulada num artigo anterior, publicado na edição #138 da revista Parêntese, intitulado “O que é que a Noruega tem?”

Kulturarven skal ut til folket (a herança cultural deve ir para o povo). Com essa simples frase, por meio da sua Biblioteca Nacional, o governo norueguês justifica os grandes investimentos realizados pela instituição no sentido de implementar a digitalização de todo o patrimônio cultural norueguês. Trata-se mais que uma frase, mas de um princípio que os noruegueses, talvez como nenhuma outra nação do planeta, decidiriam concretizar.

O prédio da imagem a seguir é justamente o Centro de Digitalização do Patrimônio Cultural da NasjonalBiblioteket. Ali dentro, conforme a imagem ao lado, não há livros e nem revistas, mas petabytes guardados num processo de backup que é renovado de cinco em cinco anos, a fim de que se previnam perdas e de que as fontes mantenham-se armazenadas em veículos legíveis e de código aberto. Em razão desse cuidado, 50 milhões de arquivos de imagens tratados inicialmente em formatos proprietários já foram convertidos para formatos mais duradouros. Os sistemas de backup são baseados no Oracle SAM-FS e a digitalização executada por meio de dois scanners HDR – Scanity, equipamentos com a capacidade de restauração e reparo no tratamento de imagens.

Obviamente que um projeto dessa magnitude depende de um investimento a altura. Em que pesem os esforços da Biblioteca Nacional em implementar esse trabalho venha desde o início do século, recentemente a constituição de um “banco da memória nacional” ensejou um incremento orçamentário da ordem de 90 milhões de euros. Imagens internas e externas dos equipamentos mostram que o investimento é aplicado com racionalidade extrema e todos os excessos e supérfluos são evitados.

Como se trata de um projeto de longo prazo e que procura tratar e armazenar, além de toda a produção bibliográfica nativa, recursos informacionais de instituições públicas e privadas que aderem a um modelo contratual que prevê etapas de tratamento e compromissos de disponibilização inteiramente públicos, os números não são econômicos.

Firmados os contratos, a equipe da Biblioteca Nacional assume o processamento técnico condicionando as espécies de material e suporte, com base num sistema de prioridades que prioriza documentos em estado crítico, como manuscritos em risco de perda definitiva. A estimativa é de que o trabalho seja estabilizado em torno de três décadas.

Até 2018, os números obtidos estavam em torno de:

2,000,000 jornais impressos, cerca de 40,000,000 de páginas;
540,000 livros, cerca de 80,000,000 de páginas;
700,000 páginas de manuscritos e partituras;
1,300,000 fotografias;
1,400,000 horas de transmissão de rádio;
950,000 horas de transmissão de TV;
55,000 registros musicais;
16,000 unidades de filmes e vídeo;
24,800,000,000 páginas da web.

O escopo do projeto é de acesso on-line gratuito e ilimitado a IPs noruegueses.

Outro projeto sediado na Noruega, na cidade mais ao norte do mundo, Svalbard, sob o permafrost do Ártico, inclui um cofre digital com os registros de código aberto desenvolvidos por, entre outros, Linux, bitcoin e Android. Além dos softwares, o repositório guarda documentos cedidos pelos principais arquivos digitais das bibliotecas do mundo, tais como a Vaticana, o British Museum entre outros. A proposta do Artic Vault é durar pelo menos um milênio e preservar registros da humanidade no caso de que as condições de vida, enfim, não sejam promissoras.

Uma crítica absolutamente inválida aos noruegueses é que estejam sendo demasiadamente pessimistas. Talvez, e nisso eu creio também, eles apenas levem a sério a frase do filósofo francês Paul Virilio que divide as pessoas do mundo em duas categorias: os pessimistas e os mentirosos.


Não há profundidade

Hannah Arendt (1906-1975)
trad. do espanhol/alemão

Não há profundidade
onde a clareza não brilha e
nem silêncio
onde o som não ressoa.
Desperta o silêncio –
mesmo que permaneça dormindo! – .
Ilumina a escuridão
que nos criou.

Não há trevas que a luz não vença,
nem silêncio que não se entoe.
Mas essa calma
que repousa no incerto
silenciosamente nos obscurece
como um epílogo.


Entre os anúncios editoriais malfadados de 2020, a tradução dos poemas que Hannah Arendt escreveu entre 1923 e 1961 e que estaria sendo preparada para este ano, no Brasil, não deve mais vir. E não veio ainda hoje, em 2022. Entre tantos outros. Como não leio em alemão, mas me dou bem com o espanhol, encontrei em uma editora de Barcelona (Herder) uma coleção de seus poemas. Deste livro, conheci melhor um pouco seus poemas muito amorosos e outros que certamente refletem o espírito do seu tempo e deixam ver um tanto da sua filosofia também. A maioria destes poemas do livro trata de um tempo obscuro e da busca pela lucidez (claro, trata-se de Hannah Arendt), mas ela sempre mantém, mesmo nestes poemas mais reflexivos, um tom de esperança viva muito forte, o que me fez tentar traduzir especialmente esse, para esse dia de hoje. Tem uma mudança bem radical num termo que ela (ou o tradutor para o espanhol) usou, mas achei que ficaria mais compreensível no português. A tradução para o espanhol foi realizada por Alberto Ciria.

A custódia de Atlas, 2

Onde estão os presentes,
pergunto ao meu pai
sem entender sua miséria.

Onde o recolho de sua fadiga,
dos dias carregando os couros,
do campo queimado de gelo?

Certa vez eu o vi nu
e chorava como se eu devesse
abraçá-lo – a minha insolência.

A cena era como se Atlas
houvesse jogado fora
o mundo pela janela

e eu nem estava
pensando
nisso.

Às vezes, vejo ainda o seu corpo
lutando com a alma, o maior dos touros,
e pensava como outro animal

prevendo seus passos, linguagem
que não se aprende –
só assimila.

Vejo-o perdendo-se
num acúmulo de tarefas, um galpão
atulhado de futuros

outrora destroçados avisando
de passados que não se concretizaram –
ou foram abandonados.

Há uma ignorância secreta
que não dividimos a ninguém
e nem a temos na memória,

lições extraviadas no tempo
que chegam às vezes
sem mais serventia.

Uma voz não me comanda
e nem me pede mais nada,
como um moinho sem leme.

A verdade é que nunca perguntei
dos presentes
nem nunca imaginei que houvessem.

Só a vida é o bastante.
E alma que ela mantém
sob custódia.

Os presentes estão enterrados.
Não há que buscá-los mais
tão fundo na terra.

No mundo só um lugar existe:
aquele no qual estamos
agora. 

No te olvides – (tetralogia do Paraguai – IV)

Nos pajonales do Chaco, se não tens um tobiano, nadador nato, arisco que nem tarairita, quanto pensas que vai viver? Bebe aqui, paisanito, y mira comigo a polvadeira que vem de lá, do sul, ou vais quedar cego antes que entendas a donde foste parar…

Mas bueno, también podes me fazer um favor – no, não o de salvar esa vida de poca serventia -, pega deste colar de dentes brasileños y entrega ao otro lado del rio. Pero espera un poquito. En Misiones, é semana de Jesus e te carnearão vivo se não levares do maiz vermelho. Os curas apreciam tanto… Toma, guarda en tu bolsilla. Y água fresca, não te esquece.

Yo te lo dije… Desvia de tudo que não se anuncia. Foge da planura, te escapa nos capões, evita as serranias. Bebe outro y me alcanza.

Tolderias? Ninguna! Te banha do gambá que evita os urutuas, yara’rakas. Tisna tu cara. Vás, mas sem tus guaipecás. Dejalos a mi… Con tu abuelo. Evita o vaqueano porque, por detrás do más gentilhombre hay simpere un asesio…

Bebe tu, hasta ele fin, que tendrá sed…

Armas? Guarda teu arco longe da vista, pero al alcance la mano… Y esa faquita amarrada ao pé, para te desembaraçares.

Em mi tiempo, até entre os cherúas tuve amigos. Tiempo bueno… Hoy, no confio em mi sombra… Tu abuela, aun te lembras? Seló mi persecución hasta hoy, que lo cuido… Fugimos. Me encantava tanto..

Estás bonito y fuerte como tu padre. Mas não sejas tolo como ele de morrer em luna llena. La peor face de Jacy.

¿Y que más? Tanto me escapa…

Pero no es preciso que te digas tudo. Não roubes. No mates en vano, Vigia. Duerme negrito, pero no tanto…

O tobiano só obedece se lhe falares em guarani, no ouvido esquerdo. Como um alientito…

¿Ahora te vás?

Ay, mi corazón… No te olvides… ¡No vuelvas más!

La Minuana – (tetralogia do Paraguai – III)

Rente a um cerro que quase se encosta numa das orillas do Rio Negro, do lado uruguaio, hay uma pequena pulperia que brasileños e orientales às vezes frequentam em sus viagens tras los cueros. Aos viajantes, a pulpera, conhecida como La Puma, sempre tem a oferecer pescados frescos. São as traíras mais suculentas que há em léguas e ela serve os trozos do peixe meticulosamente apartados da coluna farta de espinhos. Frita-os constantemente em um grande tacho de ferro que mantém no seu fogão de tijolos com grasita de capinchos. Quem viaja por ali e conhece aquelas bandas, sabe bem que o perfume sentido ao longe, nas coxilhas, é de sua proveniência.

Mas os viajantes que vão dar em La Puma não são apenas os famintos e loucos de sede, embora estes sejam sua maioria. Hay tambien los enfermos de la guerra, soldados o no, igual que yo, que buscan salvar su vida com a ajuda de uma de suas filhas, una hechicera que vive sola nun ranchito más detrás de la pulperia e ali prepara suas soluções, yuyos, preparos e hechizos.

Ao contrário de Teófila, sua filha mais velha, a feiticeira não tem nome. Chamam-na apenas de Minuana e todos que a veem de longe falando sozinha entre os arboles, ou ralhando com uma familia de zorros que mora em sua companhia, apenas procuram-na em caso de risco fatal. Foi em busca dela e não dos fritados da mãe que busquei encontrar naquelas paragens a fim de que me removesse das visceras o pavor da morte y tambien de matarme. Pavor das que causei na campanha do Paraguai e da minha própria, después asombrada por aquellos fantasmas.

Llegué a la noche e La Puma luego me quitó las esperanzas. A filha fuera picada por uma boboka, uma cobra coral, ou deixara-se picar, ela não sabia, e ardia em febre há dias, incapaz de ajudar a quem quer que fosse e, pior, a si misma. Morria a feiticeira e La Puma permitiu que rezasse por ela, perguntando-me: “¿No es cristiano? Entonces… Guarda la pobrecita…”

Dentro do casebre, sentei-me quase ao seu lado, perto a um braseiro que aquecia seu rancho desde dentro, e contemplei sua feição suavizando-se um tanto com a nossa chegada. Quando me encontrava quase no meio do padre-nosso, ela ergueu a mão e, de olhos cerrados, procurou meu rosto detrás da barba crescida de dias e das melenas de meses… Sua mãe tinhas as mãos espremidas e Teófila, a filha mais velha, nos observava do porta do rancho com uma expressão muy desconfiada.

“Abençoa a minha santinha, cristiano, pa’que ela se encontre ao teu Diós…”, implorou e eu continuei a prece iniciada. Ao fim do amém, a jovem de tez cobreada e cabelos longos abriu seus olhos e, por experiência pregressa, vi que não corria risco de vida. Em seus olhos não havia o tom empañado das finaditas, mas até me parecia uma certa satisfação ou o olhar de quem confirmava alguma coisa. Mas… o quê?

“Es un milagro!”, dizia La Puma e Teófila se ajoelhava aos pés da irmã como se rendesse homenagem a uma divindade que eu não conhecia nem via nem entendia…

“Espera, hijo mio, não sai daqui. Reza otra vez… Pra garantir…”, implorou-me a a mulher como se eu – e não a filha – tivesse poderes de salvação…

“E Teófila, aquenta água pro nosso visitante!”, ordenou a mais velha das irmãs. A filha se foi porta afora e voltou com os apetrechos do mate. Depois foi-se novamente e levou consigo La Puma.

Bueno… Não mentiria se dissesse que a imagem toda me agradava. Andava comendo e bebendo male male. A ideia me parecia esplêndida e a Minuana, não sei explicar, ela tinha uma beleza atroz que parecia me impedir de arredar pé do seu lado. Simplesmente não podia. E quando ela conseguiu recostar-se melhor para tomar um tanto de água, olhou-me como se me conhecesse há muito e disse-me com uma voz sibilante: “Entonces me achaste, patricio… Yo te velava a tanto tiempo…”

No sé que artes ela tinha, apenas conhecia sua fama, mas um hechizo já estava em curso, sin duda. Entonces ela pegou minha mão, fez com que largasse a cuia de mate, e me deixei guiar por baixo do poncho de tecido que a cobria. Não demorei a encontrar o que seria o ferimento da cobra em carne viva, pulsátil, e com sutilezas imperceptibles ella fez com que mergulhasse no que parecia ser o próprio líquido e sinuoso Rio Negro.

Después, no sé quanto fiquei ali. Adormeci e quando acordei-me a Minuana estava sentada ao lado do fogãozinho, preparando algo. Parecia ser um refogado não sei de quê y que perfumava o lugarzinho como se de yerbas verdes, tecidos limpios o madressilvas. Não sei em que momento sua mãe e irmã volvieron, pero luego estávamos os quatro bebendo o cozido em tijelitas de barro. A expressão dolorida do dia anterior dera lugar a sorrisos amenos, mas que continuavam silenciosos. Parecia uma celebração e ninguém se atrevia a dizer nada, até que La Puma dijo em voz trêmula: “La adivinación está cumprida, minha filha… El llegó cuando morrias. Es tu esposo, con la graça de Diós o, que sea, de anhá..”

La Puma levantou-se e desenrolou um presente que havia me trazido: uma pele de cervo prateada e amarrou-a em torno do meu pescoço com um tira de couro. A Minuana tinha uma igual, apenas um pouco mais curta. Por la ventana, vi que el pequeno pueblito que havia en redor da pulperia parecia prestes a abandonar o lugar. La Minuana precipitou-se a falar com seus parentes e me encarou como se indagasse se a seguiria. De imediato pensei que mortes mais encontraria ao lado daquela gente e estremeci. Pero se acaso la muerte me chegasse, ela me salvaria y cierto que yo a ella. Nos fuimos.

¡𝗤𝘂𝗲́ 𝘀𝗲́ 𝘆𝗼!  – (tetralogia do Paraguai – II)

Havia muito que andava e as alpargatas endurecidas agrediam tanto a sola dos pés que até o pastiçal tapado de rosetas e caraguatás parecia mais suave. Logo de cruzar um banhado no qual as tachãs dormiam em silêncio, no entanto, um relvado compareceu à planura. Algo parecia indicar que teria com o que e onde abrigar-me um tanto e logo um capão perdido no horizonte, sob o crepúsculo, parecia ser um adequado lugar onde acampar. Lenha e gravetos não faltariam para que acendesse o fogo, aquentasse um tanto de água e matasse a sede com a yerba seca e guardada na mala de garupa. Também tostaria um pedacito de charque e teria com o que virar-me, pelo menos nessa noite.

La Paraguaya – Juan Manuel Blanes

Não entendo como um mero arvoredo poderia parecer tão acolhedor, mas o fato é que, ao aproximar-me, notei que algo se movia por detrás dos troncos das árvores. Algo que se ocultava, pulava de árvore em árvore e que me observava e que tinha nas mãos uma faquinha curta, de carregar na bota. O vulto esbelto e os cabelos amarrados por uma vincha não me permitiam saber se era um homem ou mulher, mas quase certamente era alguém jovem, se não, não teria aquela delicadeza de gestos.

Ao setentrião, notei um pequeno acampamento. No mais, um montinho de coisas poucas tapadas por um poncho de lã. O que teria ali? Algo de valor? Algo furtado de um galpão ou recolhido de tapera? ¡Qué sé yo! Mas a criatura dava voltas naquele monturo e parecia que me atacaria de verdade se me aproximasse. E, dado o meu cansaço, me estrebucharia em dois tempos porque era ligeira como um lagarto. E tinha olhos de lagarto também, estranhamente pacatos, como de quem não fosse me matar caso eu a deixasse ali, solita, monarca daquele minúsculo reino. Porém a fome me atacava também e decidi ocupar o extremo sul do capão de mato e sentar-me sob sua observação, de mãos nuas, e comecei lentamente a recolher ramagens e folhas do chão com que pudesse causar um pequeno incêndio que me permitisse levar a efeito o que pretendia para aquela noite que começava a pintar no céu límpido de abril.

Sempre em pé, o cuera (ou a cuera) me observava e entendi que era mesmo uma mulher. Tinha algo nos seus gestos que eram fêmeos e, desarmada, não podia ser mesmo soldado egresso, desertor ou mero bandido, se não me houvera matado já. Mas por que diabos ainda não o fizera?

Com meu isqueiro de pedra, o fogo nasceu ligeiro. Num zás. Logo ajeitei a cambona com a água de uma vasilha de rosca e tomei da cuia tropeira e da erva surrada, virada e ressecada. Que importa? Estava louco num mate… No preparo das coisas, vi que ela sentara-se próxima ao seu cocuruto, mas mantinha-me no seu raio de atenção. Não exatamente de frente, mas de modo que num soslaio fiscalizasse meus movimentos. Mas eu não me movia. Observávamo-nos a uma distância hábil ao mesmo tempo de um ataque ou de uma fuga… Vinha do Paraguai, como eu? A Matilda? ¡Qué sé yo!

No terceiro mate enchido, acho que por costume, ergui-lhe a cuia no gesto automático da oferta e vi, então, que ela havia guardado a faquita. Sob o chiripá em frangalhos, em algum lugar ali, desarmou-se. Lentamente, ergueu-se meio que sem caminhar, meio arrastando-se ainda, e veio para junto do fogo. Foi quando pude ver-lhe pela primeira vez a face por completo, imberbe e com um talho cicatrizando ainda, marca feita por mão de gente. Pensei no que lhe dizer e nada me ocorria. Quando me devolveu a cuia, depois de roncar, olhou-me bem dentro nos olhos e parecia querer distinguir algo, talvez o risco que eu representava, que sé yo

Em seguida, afastou-se de volta para as suas coisas, esticou o poncho por cima de si mesma e lá ficou.

De onde eu vinha, a mortandade de guaranis me acostumara à barbaridade da morte, mas, ainda assim, pensei que poderia, se ela permitisse, juntar-me a ela no seu desterro. Dali, iríamos a algum lugar. Qualquer lugar… Que diferença faz? E pensei que, jovem, poderia me dar filhos e eu suportaria o fim dos meus hábitos antigos e me aquietaria consigo num rancho de torrão, faria changas por aí, me aplicaria a aprender um ofício qualquer. Alambrador, carneador, domador… Há tantos. E teríamos o justo: uma vaquita de leite, um tostado para as viagens e um perro para proteger nossa casa. Naquele devaneio, adormeci…

Cedo os barreiros descortinaram o dia, como eles sempre fazem. O primeiro que fiz ao abrir os olhos foi investigar seu paradeiro. Lembrei-me que, absurdo, nem seu nome havia perguntado na noite anterior. Minha educação havia sido perdida nalguma pelea, por certo. A voz também. Mas ela não estava mais lá e nada de encontrá-la, onde quer que eu procurasse. Revirei todo o matinho, atrás de cada árvore e palmilhei o chão em busca de seu rastro. Não pude encontrar. Sem dúvida, andava igual a mim, de pés descalços e o chão, numa benesse da sua natureza, alivia as marcas de quem anda assim. Para onde foi a criatura de olhos negros? ¡Qué sé yo!

Sem nada mais o que fazer ali, pensei que o caminho do nascente me levaria à fronteira, ao povo de Santana, que há de ter um refresco, pouso ou serviço… Para alguém como eu, é a glória possível de sobreviver à guerra. Tomei daquele caminho enquanto mordia o resto do charque duro da noite anterior que havia restado.

No caminho, eu sabia que havia uma sanga forte, um arroio que deveria cruzar. Logo eu o enfrentaria e, de a pé, teria de contar com muita precaução. E enquanto aos poucos me aproximava do passo, notei na margem anterior um vulto acocorado ao chão. De imediato, entendi de quem se tratava. Mas o que fazia ali? Bem, logo me aproximaria o suficiente para entender a situação e, antes que me desse com a cena, finalmente compreendi o que fazia.

Com uma cova aberta com as mãos junto a um barranco, ela depositara ali dentro o que havia mantido sob o poncho. O corpinho de um pagão ou pagã que não sobrevivera. Como ela havia tapado todo o corpo da criança, não pude saber se menino ou menina. Che cuê..

E como ela não tinha forças (ou coragem) de terminar o serviço e olhava paralisada para dentro da sepultura improvisada, agachei-me e terminei a obra também de mãos nuas, enchendo de terra as unhas e de dor o coração…

Ao terminar, coragem me faltava para buscar seus olhos. Evadia-me para qualquer lugar e ela também. Olhamos o arroio passando e a seca havia sido tão grande que passávamos facilmente a pé onde antes nos afogaríamos. Da outra margem, paramos e arrumamos as roupas. Rapidamente nossos olhos cruzaram-se, mas ela os evitou, é claro que numa situação daquelas nada queria comigo. De pronto, tomou de outra direção da que eu planejava para mim mesmo. De pronto, eu também. E fui seguido seus passos, sem ainda termos dito uma palavra e ainda sem sabermos os nossos nomes e nacionalidades. A campanha do Paraguai terminara. O que seria de dois guachos como nós daqui em diante?

¡Qué sé yo…!