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A arte de ser não sendo

Tavares e copo

“Sou, mas quem não é?”. Essa era a indagação convidativa que o personagem Tavares, criado pelo humorista Chico Anysio, costumava fazer – olhando direto ao câmera – logo após descortinar alguma de suas canalhices ou malfadadas aventuras amorosas, do alto de seu topete e de dentro do seu terno amarfanhado. Na falta de uma obra filosófica de maior vulto, o Brasil pode realmente orgulhar-se de uma proposição ética deste porte ter impregnado o senso comum por tanto tempo na história recente, mesmo que “midiaticamente”, ao tempo que a atualidade é cada vez mais recheada de humor ofensivo e piadas prontas com quase nenhum sentido provocativo. Tempos explícitos estes. Ironicamente, é uma época em que não se lida bem com ironias. Mais do que nunca é preciso ser claro e objetivo. Trata-se de um país austero, em desenvolvimento. A China da América do Sul ou talvez, como certa vez afirmou o hoje senador Fernando Collor de Mello, o rabo do cachorro do primeiro mundo ao invés do indesejável focinho do porco do terceiro.

Um país sério requer cidadãos sérios, mas por estas paragens uma coisa não tem necessariamente algo a ver com a outra. A cidadania daqui, descrita com pormenores no clássico de Lima Barreto, Os Bruzundangas, sequer requer um update significativo se transportada para o séc. XXI. Ainda perambulam por aí a nobreza oficial e suboficial descrita no folhetinesco romance, assim como a plebe e outros tipos, que não podem nunca faltar. Em seu tempo, Lima Barreto fez as vezes de humorista também, fosse porque a realidade é mesmo uma coisa risível ou porque talvez não haja modo mais eficaz de suportá-la. Na vida prática, entretanto, sua vida não foi feita de risos nem de comédia. Dado por insano e possivelmente alcoolista, morreu precocemente, aos 41 anos. Um gênio interrompido. Em quase um século, pouco se recobrou da lucidez do escritor carioca, com a qual nem mesmo os mais arrojados modernistas da geração de 20 se identificaram efetivamente. Talvez a literatura de Lima Barreto tenha sido, à época, séria demais para o Brasil e só agora se possa perceber isso.

Parecer ser, a bem da verdade, sempre foi mais importante do que “ser”. A história tem sido pródiga em exemplos de falsidades, desde políticos nanicos que queriam parecer gigantes, medíocres que gostariam de passar-se por gênios e falastrões de outras áreas, dos mais diversos ramos. Não é o caso aqui de citar nomes, mas apenas de convocar a memória particular do leitor. Sem dúvida, qualquer um guarda registros ativos deste comportamento tão tipicamente universal e atemporal. Afinal, ser ou não ser, tirando Shakespeare e a filosofia existencialista, importa bem pouco na época do apogeu das redes sociais, na qual identidades são inventadas, ilustradas e compartilhadas. Mas identidades servem para isso mesmo, para o uso. Trata-se da forma pela qual cada um se apresenta, mas não necessariamente pela qual é reconhecido. Daí as pessoas se enganarem tanto ou, como quis provar Eduardo Gianetti em Auto-engano, se auto-enganarem. Os recursos para tanto são tão abundantes que é cada vez mesmo mais impossível resistir a si mesmo. É o triunfo da egocracia sobre a democracia, cuja religião não poderia ser outra que não uma combinação de consumismo desenfreado e exibicionismo.

O debate de ideias, nessa perspectiva, é sempre uma coisa inviável e indesejável. O que prepondera hoje são discursos particulares e narrativos, sobre os quais não cabem indagações. É uma forma confortável de solidão mantida por canais particulares (o meu twitter, o seu facebook, o blog dele) de informação nos quais a pessoa é ao mesmo tempo personagem, autor e testemunha. O outro é uma categoria defasada que a própria psicanálise custa em manter de pé. O outro é um tipo de sombra, um leitor, um intérprete que lida com informações tão imprecisas quanto líquidas (ou até vaporosas) e que pode ser tanto um absoluto desconhecido quanto um familiar com o qual não se convive. O mútuo desconhecimento garante uma certa indiferença e uma empatia precária. O reconhecimento é desvirtuado e sempre aponta numa supervalorização da diferença. Identidade é uma coisa que se ofereça e que se obtenha, mas quando se trata de reconhecimento e aceitação tudo se complica.

Por essas e outras é que o bordão “Sou, mas quem não é?” se encontra há muito superado e fazem tanto sucesso atualmente as comédias stand-up. Afinal, o que há ali que não sejam monólogos pretensamente engraçados onde cada um e todos riem a sós? Aliás, quem em sã consciência aceitaria um convite desses, como o de Chico Anysio? Querer parecer com alguém que não se reconhece é um tipo de paradoxo inextrincável. É algo inviável. Semelhança se busca com ícones, com os modelos, os arquétipos reeditados. O discurso da tolerância e da diferença, por outro lado, é procurado com impressionante sofreguidão, mesmo que se obtenha com isso muita complacência e quase nenhum respeito autêntico. Significa que o respeito apenas é devido ao se aderir a uma identidade comum, mesmo que daí não resulte efeito social algum. Revive-se o tribalismo de sempre, agora talvez como e-tribalismo. E o mais incrível de tudo é que, com toda essa horizontalidade, a estrutura de castas mantém-se intacta. Com o cimento do imobilismo social, a nação conta com cidadãos hiperconectados, mas órfãos e desiguais como sempre. O triste é que as tentativas atuais de tornar essa época cômica, como logrou Lima Barreto há quase um século, tornaram-se um espetáculo repetitivo borrado pelas cores da violência social. O Tavares, de Chico Anysio, dizia saber quem era e convidava seu interlocutor a assumir-se autenticamente. Definitivamente, não se fazem mais Tavares nem Silvas nem Souzas e nem etcéteras como antigamente.

O déjà-vu da pipoca

“A igualdade é um ideal que se concretiza numa fila de cinema.”
Anônimo.

Ontem experimentei na própria pele o verdadeiro e inefável sentido da igualdade, o único possível entre todos os imagináveis, que pode ser vivido por qualquer um que ouse enfrentar uma fila de cinema, à tarde, em plenas férias de julho, acompanhado de seus filhos e de aparentemente todas as crianças e adolescentes da cidade. É uma experiência que eu recomendo e que é capaz de fazer você se sentir alguém tão comum quanto uma pipoca num sacolão de pipocas ou, como estou pensando, de experimentar por breves momentos uma experiência de comunismo real, que hoje só existiria na Pipocolândia. Desculpem a falta de originalidade do exemplo, mas é uma questão de impregnação sensorial, para que não faltem aqui alguns termos científicos, indispensáveis numa crônica de bom gosto.

Não é por ainda estar tentando decantar, com a ajuda inestimável desse maravilhoso legado do séc. XX, o analgésico em comprimido, a cefaleia que se abateu sobre minha pobre cabecinha desde aqueles momentos, mas eu cuido muito de tirar lições excepcionais de fatos absolutamente corriqueiros, como estar na fila do cinema, naquela situação. Faço isso para poder me certificar que eu mesmo crio meus déjà-vus e também que tenho força o suficiente para resistir ao inferno das minhas próprias decisões – o que, afinal, pode dar no mesmo. Ai das pessoas que não insistem nos seus erros: elas pensam que sabem o que estão perdendo…

Voltemos à Pipocolândia. Lá, como quero insistir, todos são iguais. A fila é a heterogeneidade mais uniforme que pode existir. É a cultuada diversidade humana em sua forma carnal e cabal. Lugar ideal onde um criança de seis anos de idade pode conversar naturalmente sobre os mesmos assuntos que seu avô, aposentado compulsório (que saudade da repartição, hein?), apontando as telas dos seus celulares, respirando a igualdade definitiva daquele paraiso democrático e outros odores derivados do milho mas, a essa altura, isso é definitivamente o que menos importa. O que importa é o dever cívico de não fugir à fila, como os mártires jamais fugiriam aos desígnios heroicos das revoluções.

Ah, as revoluções. Dizer que chegamos ao comunismo real sem necessidade de nenhuma delas! Eu só tenho certeza que uma começaria ali se aquele jovem com franja (isso é quase um pleonasmo inevitável) ousasse entrar na frente daquele tio, quero dizer, senhor. Vamos lá, pessoal, vamos evitar que cabeças rolem, vamos começar o murmurinho – segredo de todas as turbas – “Sim, é aquele ali, seu guarda, está tentando furar a fila!”. Só mesmo no comunismo se vigia e pune tanto as pessoas! Por isso que vou ao cinema nessas condições, em absoluta tranquilidade. E levo até a família.

Não repara na bagunça

Pessoa varrendo a sujeira para baixo do tapete

De Collor pra cá, nenhum negócio prosperou tanto no Brasil quanto as consultorias ao poder público. Comparado aos seus sucessores, Collor ainda guarda uma marca característica inigualável, a de ter se valido dos poderes do além, na pessoa da mãe Diná, pra tomar decisões. Hoje, há uma tal sorte de corporações especializadas em auxiliar os poderes pátrios que os préstimos dos que invocam o além soam infantis, diante do inestimável favor que fazem tais iniciativas ao povo brasileiro em troca de polpudos contratos. Algumas pessoas não tementes às forças ocultas que insistem em dar as caras por aqui chegam a sugerir que se aquele presidente tivesse à época um bom staff de consultores, seu impeachment teria sido até evitado, mas Collor era infantil demais até mesmo para um país como o Brasil.

O ramo é tão bom que consiste na principal atividade dos políticos afastados da sua ocupação preferencial, seja por condenação, demissão voluntária ou falta de votos. Não é preciso sequer citar nomes recentes para refrescar a memória. Fundamental mesmo é admitir que demandas civis e populares provavelmente serão sempre secundárias em relação às prioridades da tecnocracia. Por isso que campanhas permanentes em prol da educação pública, da saúde de qualidade e medidas concretas de enfrentamento às desigualdades serão sempre secundárias em relação à atenção governamental. Os 10% do PIB para a educação não virão jamais justamente por isso, porque subverteriam fatalmente o clientelismo e a tendência aparentemente inevitável do país em priorizar a burocracia. É tão simples que todo mundo faz questão de fazer de conta que não percebe mais. É como quando se diz às visitas inesperadas: não repara na bagunça.

A naturalização desse modo de governar tem trazido a administração pública, de um modo geral, a um estado de colapso permanente, no qual os equipamentos públicos se deterioram, os serviços públicos são cada vez mais terceirizados, os cidadãos considerados meramente como agentes tributários e, de tanto em tanto tempo, também como eleitores (ou como bobos, se preferirem). É a democracia que dá certo no Brasil, já que qualquer iniciativa participativa é dominada pelo estado e os redutos políticos não são nunca ameaçados. É um país que parece vocacionado para o centro, para a acomodação dos interesses de todos, seja lá quem venha a governá-lo.

As consultorias via de regra são milionárias. As mesquinharias da administração pública, essas podem ser resolvidas pelos servidores públicos. Quando envolvem grandes numerais, são questões que exigem extremo cuidado: se as entrega à iniciativa privada. Diagnósticos, indicadores e projeções são feitas como uma maquiagem fora de moda. Os resultados normalmente são inócuos, a não ser pelo material gráfico que se produz e a extensa lista de eventos e comemorações. No começo do século XX, o escritor Lima Barreto fez da realidade daquele momento um panorama ímpar que, ao que parece, se transformou em patrimônio imaterial permanente. Está lá, em Os Bruzundangas, o retrato desse simpático país que costuma chamar seus gênios de loucos, mas que adora lotar de nomes de políticos suas ruas e rodar as gráficas do Tesouro para a satisfação geral da nação.

Um pesadelo

A realidade é tão sem graça que provavelmente ninguém pagaria por ela.

Se ela tivesse um bom preço, talvez alguns até pensassem um pouco mais a respeito.

Não é o caso, porque a realidade não tem custo ou é impagável.

É dura como pão dormido ou mole como algodão molhado. É desinteressante até mesmo num segundo exame.

Há qualquer coisa bem mais bela com que valha a pena perder um pouco de tempo. Uma imagem. A música. O som da água ou do vento ou a memória.

Quer procurá-la? Ela partiu debaixo das rodas do carro do pipoqueiro, mas ficou na pegada dos cães que há pouco pisaram aquela poça d’água, evaporando.

A realidade não deixa sombra por onde passa, nem dúvida ou certezas.

É algo que se pegue, mas que não se aponte. Se alguém decide falar dela, desaparece. Demonstrada em números, oculta-se, impronunciável.

É uma das palavras perdidas dos idiomas antigos que não chegaram até o tempo presente. Por isso o que há sobre ela é um esboço incompleto que as lembranças não alcançam. Uma definição imprecisa que mais parece um sonho.

Em um sonho, alguém sonha com ela. Não é um herói ou um deus, é um homem como todos os que acordaram na manhã de hoje. Seus olhos aguardam no espelho, mas ao acordar ele lembra apenas da primeira sílaba e nem lembra dos olhos que estavam lá, pendurados como óculos. É um verdadeiro espanto, percebe, um pesadelo.

Então ele sai para a rua decidido a encontrá-la. Ele pagará qualquer preço e, se preciso, roubará. Aquilo que ele sentiu como real e que restou somente em lembrança é só o que ele deseja. Ele não pensa em mais nada.

Por que não vai ao cinema?

Ou dar farelo aos pássaros?

Ou à zona do meretrício?

A perseguição continua. O homem e a realidade.

Um duvida do outro e um depende do outro.

Ambos estão para si mesmos como o universo para os outros universos.

Há um modo de acabar com ela, ele sabe. Há vários.

Se outra noite chegar, ele resistirá?

As estrelas não são reais. Elas também já morreram. São um excesso de luz vagando no tempo impreciso e no espaço obscuro.

Alguém pode lhe dizer isso? Que não vale pagar o preço?

Antes que pense melhor, já está decidido.

Ali vai ele, entre os outros. Há uns muito grandes e outros pequenos. Homens, mulheres e crianças.

Logo não será possível distingui-lo dos demais. Nem ele nem o rastro do cão.

Enredado

Essa noite sonhei com uma rede social revolucionária. Estava clicando a esmo e de repente fui tragado como no eixo de um tornado, ou como se tivesso sido levado pela turba. Caí num lugar cheio de desconhecidos. Pessoas com ideias estranhas a respeito do mundo e de si mesmas. Nada que me soasse familiar e, se reparasse bem, nem eu parecia comigo mesmo ou, pelo menos, como a mim imaginava. Éramos desconhecidos completos que compartilhavam o mesmo tempo histórico e a mesma tela defronte. Em todo o resto, divergíamos.

Nenhum torcia para o mesmo time nem pegava no pé do time de ninguém. Havia times para todos e todos estavam felizes com isso. Isso era um motivo perpétuo de felicidade geral, porque um campeonato assim deveria ser infinito, se todos jogassem contra todos. E sempre havia alguém entrando e bradando seu hino e empunhando sua bandeira, observado de canto de olho pela turba, um hábito herdado do mundo real.

Ali não se discutia religião, arte, política ou astrologia porque abstrações são desimportantes no submundo onírico virtual. O fundamental é a conexão, a qualidade da banda e a fonte das ideias, o que não tem nada em absoluto com as ideologias do mundo de lá, aquele também chamado de cartográfico.

Apesar de cada um soar como um estrangeiro ao outro, aos poucos tudo (e todos) começou a fundir-se, pessoas a confundir-se e toda riqueza advinda de tão vasta diversidade foi se concentrando, reunindo e amesquinhando. O brilho inicial daquela profusão linguistica foi ensimesmando-se ao ponto de parecer um solilóquio em esperanto, ou uma marcha fúnebre.

O marasmo ficou tão grande que alguma coisa precisava acontecer, com urgência. Uma nova coisa, nem que fosse um novo gadget. Uma revolução também, seria ótimo. E aí foi que flagrei-me num sonho dentro de outro, tragado como num tornado, levado pela turba, mais uma vez. E de repente, de uma voz que soava familiar, eu ouvi algo – tenho quase certeza que em espanhol: “una revolución no termina hasta que otra empeze”.

Então, aliviado, acordei.

Pessoas sem poros, paisagens sem brisa

Chega o fim-de-ano e uma compulsão antiga, a do envio massivo de textos e mensagens de auto-ajuda, me fazem voltar a buscar na simplicidade de suas ideias o único sentido da vida, que sempre vem bem embalado nesses textos, prontos para o consumo. Com o reforço das redes sociais, ficou praticamente impossível resistir a eles. Então é melhor relaxar e deixar que comecem a desfilar diante dos olhos longas e sábias palavras de poetas antigos, frases rápidas e absolutas de poetas modernos, receitas de como buscar a felicidade e fórmulas comprovando a sua existência. E eu as vou devorando, convencido de que minha vida será modificada ao conhecê-las. Não posso nem irei perder nenhuma delas.

Não há nada mais legítimo, na vida, que procurar seu sentido, sua substância. É uma habilidade intrínseca do ser humano, o questionamento, e foi o que fez com que ele sempre andasse a buscar o que não tinha, ser o que não era, mudar o que não lhe satisfazia, e por aí vai. De certo modo é o que está a ser buscado ainda, em sondas que enviamos aos confins do nada, universo afora, e em imagens que flagramos do minúsculo invisível aos próprios sentidos. A impressão é de que a investigação é sempre melhor que o resultado. Ainda somos como os caçadores de Lascaux, absortos pela busca. Atentos a cada detalhe, mas com o foco fixo no que nos falta.

Uma das outras formas de ser atingido pela auto-ajuda, e em cheio, são as imagens. Alguns dizem que apenas uma delas vale por mil palavras, às vezes. Outras vezes as imagens nos deixam sem palavra alguma, como as crianças somalis, os animais que mimetizam o comportamento humano, as estatísticas da nossa ocupação no planeta e o saldo das diferenças entre os descendentes do tronco de Adão e Eva, as tão conclamadas diferenças. São imagens impressionantes, mas que nos incomodam bem pouco, porque se trata sempre de um real remoto, uma virtualidade serializada e tão presente quanto os anéis de Saturno. Na nossa vida, são espécies de exceção que compartilhamos sem parar, e nos enviamos a todos, assim como a todos nos estranhamos e reconhecemos, numa dinâmica que nos leva de roldão a algum lugar ou a lugar nenhum, ou todos ao mesmo lugar.

As grandes novidades do ano, a essa altura, já estão bem velhas. Ninguém mais lembra delas. São como tótens de ocasião, flagrados em alta definição. São imagens de um tsunami de fatos, onde o passado se fixa, mas que não se pode acessar a não ser por contemplação. São pessoas sem poros e paisagens sem brisa. Os escândalos foram escandalosamente escondidos sob as fitas de vermelho do Natal e o presente mais clamado, o intangível tempo, oferecemos em sacrifício a tudo do que não abdicamos: notícias, alôs, e-mails, acenos, afagos, auto-afagos, auto-ajuda. E então ei-la aqui, mais uma vez, a auto-ajuda e sua impossibilidade semântica.

Mesmo impossível, não há quem abdique definitivamente da auto-ajuda ou liberte-se sem cicatrizes do auto-engano (ou dos grandes engodos). Precisamos e cada vez mais de uma mensagem-expediente com o poder de produzir versões da realidade, desejos, interesses sociais e até ideais particulares. Somos esse eu constante e coletivo que balança na cauda longa dessa época horizontal, mas ainda habitada por mitos ou fantasmas que não calam-se, apesar do tempo e das novas novidades. A auto-ajuda é um remédio poderoso para a solidão desses tempos. Através dela, mantemos a ilusão da auto-suficiência e podemos até negligenciar o outro sem culpa, pois ela ensina que o eu é o bastante, mesmo que seja sempre preciso dizer isso a alguém. A auto-ajuda é o fim, sem perplexidade, da ajuda, do entender, da disponibilidade. Mas ainda há poucos que percebem que ela não é a solução nem o segredo, mas o próprio problema e o escracho da indiferença.

Enquanto sou avisado que uma nova mensagem está chegando, calculo onde e como ela irá me atingir. Se em culpas que não tenho, se no tempo que perdi por gostar de simplesmente sentir o vento em meu rosto, caminhando pelas ruas, com os demais, igual a eles. Já sei: essa mensagem vai me dizer que tudo é especial, mágico, nada é comezinho, inútil, em vão. Vai me dizer: seja você mesmo, mas eu não quero ser “mais” eu mesmo do que já sou. Tenho a vontade imediata de responder: não, não seja você mesmo. E já que a transmutação de corpos é inviável, vou insitir em tentar me colocar no lugar do outro ou, pelo menos, em não deixar de reconhecer sua identidade e trajetória, buscando outros pontos de vista, desacomodar-me das próprias crenças e do próprio conforto, levar-me pelo assombro e pela magia que há nos olhos dos outros e sua experiência.

Assim como eu não posso me auto-ajudar, mas posso pedir ajuda, também não irei ser mais eu mesmo (como se antes eu tivesse sido outro), minhas ideias serão apenas ideias entre ideias, meus sentimentos apenas um modo peculiar de perceber a vida (aos quais, por matutice, me reservo a exclusiva tutela), meus sonhos continuarão a ter o mesmo valor dos sonhos alheios, e serão ainda apenas um trecho de todos os sonhos do mundo. Enquanto não podemos sonhar (ou viver) juntos, precisamos mesmo de auto-ajuda. E muita. Mesmo que em mensagens destinadas ao mundo inteiro. Por isso, não abro mão de nenhuma delas. E vou até o fim.

O dia do brinquedo

Caixa de presente em formato de coração. A tampa está aberta.

12 de outubro é o dia do brinquedo, mas ainda não chegou o dia das crianças. O dia das crianças é todo o dia e é nenhum. É todo o dia porque as crianças estão mais do que nunca no centro da atenção do mundo adulto, seus negócios e seus problemas, apesar de nenhuma delas ter sido consultada quanto a sua participação nisso tudo. Seu dia é nenhum dia porque, quando se pensa nas crianças, normalmente se pensa em seu futuro e quase nunca em seu presente.

Nas grandes cidades, há muito tempo as crianças pobres estão na intempérie das ruas e, as que têm melhor sorte, aprisionadas em suas casas. Faz tanto tempo que os pobres estão nas ruas que isso já se tornou natural. Parece que são crianças que não vieram de lugar nenhum, mas que brotaram do chão como um tipo estranho de criaturas agrestes. Com certeza são crianças que não tem para onde ir e, se perguntadas, espantarão os adultos pela exata percepção que têm de quem ninguém virá buscá-las. O que se furtou destas crianças que não têm nada é o seu futuro.

As crianças que não são as que estão nas ruas, por sua vez, também não têm o que desejam. Nem o seu desejo. Seu querer é, quando muito, o que lhes disseram que talvez gostassem e quisessem. Por falta de tempo e de brincar, são como simulações adultas e imperfeitas. Seus jogos e brincadeiras não poderiam ser outros que não os videogames, onde treinam a estupidez dos adultos e condenam-se a seu modo de vida seduzidas por ele e nele sufocadas. E o que se furtou destas crianças que tem tudo também é o seu futuro.

O dia do brinquedo não vai resolver o problema nem das crianças pobres, nem das crianças não pobres. Mesmo coincidindo com feriado nacional, os adultos não prestarão atenção nas crianças, mas nos brinquedos. E não há quem os possa culpar por isso. Está claro que prover as crianças de inutilidades se tornou mais importante que lhes garantir dignidade e compartilhar afeto. São trezentos e sessenta e quatro dias nos quais isso fica claro e evidente. Então não é preciso tentar passar um dia da vida das crianças como se num clipe ou comercial de TV. Um dia idílico e inocente como só pode haver num clipe ou comercial de TV porque, no dia do brinquedo, a TV magicamente se enche de comerciais onde não se vendem brinquedos e as crianças estão brincando de verdade. Tudo o que havia para vender-se, na verdade, já foi vendido.

No dia do brinquedo não há o encontro da criança pobre com a criança não pobre. Não será justamente no dia do brinquedo que elas brincarão juntas. Esse encontro se dará, como o usual, através da vidraça dos carros, e não causará nada a nenhuma delas. Nem surpresa, nem estranhamento. Esqueça de uma troca de fagulha mágica nos olhares. Desista do toque angelical do dedo sujo no dedo limpo. Não são trezentos e sessenta quatro dias de diferença que lacraram essa realidade, mas a própria história desse país e desse mundo. Tem-se repetido muito que hoje é preciso desesperadamente descobrir uma forma de evitar que esse mesmo mundo vá de vez ladeira abaixo ao abismo da sustentabilidade econômica. As crianças? As crianças podem esperar. Dê-se a elas o dia do brinquedo.

* Coordenador-Geral da Inclusive (www.inclusive.org.br) e autor de Morphopolis (www.morphopolis.wordpress.com)

Amostras para o futuro: em 2010, precisamos de menos proteção à diversidade

Visão externa do Planeta TerraNo primeiro ou segundo dia, todos nós apontávamos para os nossos países.
No terceiro ou quarto dia, estávamos apontando para os nossos continentes.
No quinto dia, só percebíamos uma única Terra.

Princípe sultão Bin Salmon Al-saud, astronauta da Arábia Saudita,
citado por Carl Sagan em Bilhões e Bilhões: reflexões sobre vida e morte na virada do milênio.

Antes de mais nada a resposta é não. Nem eu fui tomado de assalto por um espírito anti-natalino nem o título acima se refere a um objetivo de algum tipo de organização ultra-conservadora. Muito menos foram os lemas de “A Onda” que serviram para fundar dentro de mim esse tipo de crença. Pelo contrário, é tudo verdade. Eu acredito mesmo nisso, que precisamos de fato de menos respeito e proteção à diversidade em 2010. E no futuro também.

Diversidade foi, sem dúvida, uma das palavras que qualquer um de nós mais deparou no ano que se encerra e engana-se que pensa que no próximo será diferente. Diversidade foi, sem nenhuma dúvida, a palavra tomada em sentido mais desigual o possível que ouvimos, lemos e também dissemos no ano que vai se encerrando e também engana-se quem imagina que, em 2010, isso será diferente.

Em 2010, todas as vezes em que a diversidade for novamente mencionada com o sentido de reforçar fronteiras, de instituir ou reforçar as diferenças entre as pessoas e grupos de pessoas, vou insistir nisso, em que respeitar a diversidade não pode ser um argumento para que se insista em segmentar a sociedade ou a cultura. Em que se perpetue a incomunicabilidade das diferenças sob o pretexto de valorizá-las. Em que não se fale da diversidade como se ela já não existisse e precisasse ser criada e fundamentada permanentemente. Em que se divorcie a diversidade da intersubjetividade inerente ao convívio humano. Toda vez que a diversidade for tomada como um conjunto generalista de identidades incomuns, eu estarei insistindo que este é o tipo de idéia que deve ser combatida. Que, se procurarmos reter os conflitos sociais indefinidamente, estaremos congelando a imagem da sociedade em uma idealização fantasiosa e em realidades sempre particulares.

A sacralização conceitual em torno do conceito de diversidade é o tipo da armadilha na qual muitas interpretações da sociedade contemporânea tem se amarrado com impressionante veemência. São, como denominou o antropólogo Clifford Geertz, os patíbulos teóricos nos quais é possível testar a prevalência de dominâncias culturais e ideológicas sem risco algum, como numa experiência controlada, como se tratasse disso. Então sei muito bem o risco de afrontar esse conceito que ficou tão caro a políticos, organismos internacionais, governos, ONGs e publicitários. Mas, sem o risco, como posso estar certo que também estou apto a errar?

A impressão de que criamos referências para demarcar nosso tempo histórico parece algo muito simples de perceber quando um ano se aproxima de chegar ao fim. Ao lado de retrospectivas, dos fatos que inscreveram-se com maior ou menor importância na história das sociedades, sejam fenômenos naturais ou decisões politicas, sejam filmes, músicas ou o comportamento que melhor caracterizou uma determinada época, algumas idéias sobressaem-se entre outras. São as idéias que “pegam”. São tão boas que parecem ter sido criadas por publicitários, mas estes apenas a perceberam num tipo de frequencia na qual são especializados em captar e também em revender, é o seu ofício. Essa retroalimentação tem, por sua vez, a funcionalidade de providenciar o reforço da própria idéia, então mais e mais ela é explorada, dimensionada e equacionada, até que se chegue a um quase completo esgotamento de seu significado. Na mente das pessoas, é como aquela propaganda que não resiste ao zap depois de dois segundos. Então a idéia está batida. E então ela é uma sucata. Deixa de ser possível ao ser humano mortal distinguir entre o que ela guarda de referência, de original, e o que é criação, adereço ou fantasia.

Em 2010, não podemos correr o risco de sucatear a diversidade, tornando-nos brandos e acuados como exemplares de espécies em extinção. Mais que enxergar a diferença, temos a urgência de aprender a trocar com ela, mudar através dela, transformar contextos a partir da nossa capacidade ilimitada de comunicação para então podermos, enquanto humanidade, transformar a maior chaga que criamos entre nós mesmos: as condições de desigualdade entre quem somos. Em 2010, espero sinceramente que a diversidade não possa existir para justificar a desigualdade, exilando a perspectiva de uma humanidade que precisa aprender a querer menos proteção individual e a oferecer mais de si mesma. Não podemos proteger a diversidade como numa redoma, mas provocarmo-nos a tentar ver até que ponto guardamos mais em comum que um genoma e um planeta. Poderemos mesmo fazer diferente em 2010 ou continuaremos os mesmos de sempre, como sentenciou Caetano Veloso, os velhos homens humanos? Que amostras de nossa capacidade queremos e podemos oferecer desde já para o futuro?

Sobre meninas, lobos e sereias: a infância entre a natureza e a cultura

vinheta

Para Isabel

Depois do primeiro dia em que o Lobo Mau ameaçou entrar aqui em casa, fui introduzido provisoriamente na mitologia da minha filha de cinco anos. Todas as noites, depois que ela adormece, eu tenho feito incursões na floresta em busca desse famigerado devorador de menininhas encapuzadas e porquinhos desavisados, além de bradar da nossa janela que a nossa casa é área livre de lobos maus e demais monstros de 242 olhos e 343 bocas, pelas suas últimas contas.

Engana-se quem imagina que eu tema enfrentar esse e outros tipos de perigos pelos meus filhos, afinal estou mais que inebriado por esse heroísmo que me emprestaram. O problema é que minha presença mitológica tem data marcada para ser revelada em sua dimensão mesquinha e humana. E isso em nome da cultura e do esforço civilizatório que vem sendo efetuado na escola, na socialização e também pelos meios de comunicação, que muito em breve irão me deixar tão minúsculo como uma formiga e irão colocar a prova minha capacidade de resistir por mim mesmo, pois minha estatura heróica estará desfeita então definitivamente. Daqui há algum tempo minha filha saberá que, a isso tudo, Freud e depois seus seguidores demonstraram (certamente não por demonstração) fazer parte de um complexo de implicações ético-sexuais tomado por base, coincidentemente ou não, numa outra mitologia – essa muito mais capaz que a minha. Isso, entretanto, faz parte de uma outra história.

São bem conhecidas as teorias nas quais o pensamento fantástico e a elaboração do medo e outros sensações infantis exercem um papel constituinte na personalidade infantil e a importância de sublimá-las desde cedo, através da composição e narrativa de situações vividas por personagens mágicos e mitológicos, parece mesmo incontestável. Ao menos há indícios de que esse tipo de narrativa vem acompanhando o ser humano desde épocas bem distantes (*). De certo modo, tenho a comprovação viva disso ao constatar que cada vez menos venho sendo chamado a defender o lar do Lobo Mau, o que vivencio como algo inevitável.

Muitos teóricos do desenvolvimento humano defendem que esse modo mágico de pensar é característico de um processo típico de evolução infantil e que, seja pelo próprio amadurecimento, seja pela progressiva instrumentação do saber decorrente da assimilação dos bens culturais, a coerência cultural infantil obtida através de uma percepção do mundo realizada através do aprendizado, do convívio social e também de sua própria evolução moral tende a fazê-lo rapidamente apenas memória. Seria um modo de pensar transitório e que a educação formal teria a função de aperfeiçoá-lo, qualificá-lo, sofisticá-lo… Coisa de criança, dito com mais simplicidade. Poucos pensadores postularam a infância como um estágio humano em si mesmo, não um vir a ser, mas um estar sendo. O polonês Janus Korczak foi um deles e, não por acaso, sua obra constituiu a base da Declaração dos Direitos da Criança (além de sua obra, Korczak fez do respeito à criança a sua própria vida) (**).

O que fica evidente, para quem acompanha o desenvolvimento de ao menos uma criança, é que essa noção de evolução é uma construção psicossocial que inicia na cisão entre natureza e cultura e que, a pretexto de civilizar os novos cidadãos, a visão particular da criança é logo na vida descontinuada e desvalorizada sistematicamente pela família, pelos grupos, pela escola, pela sociedade, enfim. Essa ruptura implica no descrédito da fantasia, na substituição da narrativa pela representação e, como pretendo insistir, na expulsão da criança do reino da natureza e sua relocação no habitat social. Interessante que essa é uma opção que não é dada à criança, mas que lhe é imposta. Simplesmente é o percurso “natural” que, naturalmente, também tem uma construção cultural que não é tão natural assim (***).

Trata-se de uma ruptura tão violenta que, ao longo da vida, costumamos nos referir à infância como um lugar e tempo perdidos, onde repousam as boas lembranças e a inocência. Mesmo assim, qual o pai ou educador que não vibra ao constatar que um filho ou aluno conquista novos estágios de seu desenvolvimento e abandona de vez a infância, suas quimeras, parlendas, garatujas e lobos-maus? Entretanto o espaço social da infância, como o temos hoje, não pode ser denominado exatamente como o “melhor dos mundos”, havendo uma série de violências a considerar que implicam não apenas no fim da inocência e dos estágios primários de organização do pensamento, mas também em sua degradação enquanto modo de vida em si mesmo. Um espaço no qual os bens de consumo determinam o valor dos bens culturais e onde a fantasia e a mitologia própria da infância são compelidas a abrir espaço para o pensamento lógico e a razão práticas, como se fornecessem uma interpretação definitivamente correta do ser e do estar no mundo e em seus lugares, para crianças ou adultos.

Não tenho intenção alguma em procurar preservar um estoicismo infantil ou “congelar” o desenvolvimento de meus filhos mas, se é para destinar uma cultura às crianças de um modo geral, é muito bom que seja algo que valha à pena de verdade. Como é provável que tenhamos de entregar-lhes, como produto de nossa obra, um mundo inconcluso e que muitas vezes também temos dificuldade de compreender e transformar em efetivo, por isso penso que já seria muito se pudéssemos legar-lhes não um conhecimento estéril e uma ciência que justifica um mundo que é bom para tão poucos (e tão ruim para a própria natureza), mas uma evolução de verdade, dentro de um conceito honesto que respeite inclusive as crianças pelo que elas são, não uma etapa, mas como sujeitos efetivos de direitos. Assim, poderemos ter alguma dignidade ao desfazer, cedo ou tarde, seu mundo de fantasias, não apenas deixando vazios que serão ocupados por compensações artificiais que mais tarde o mundo lhe trará sem pudor e, infelizmente, de forma cada vez mais precoce e menos sutil.

Enquanto posso, vou aproveitar a missão de trazer de volta à praia as sereias, que foram expulsas pelo lixo que homens malvados jogaram ao mar (e como jogaram lixo ao mar nos últimos tempos…). Se um dia minha filha não encontrar mais as sereias que hoje a encantam, não terá sido porque eu as tenha expulsado, até porque não tenho certeza de como elas devam deixar de “existir” no mundo. Com certeza elas acabarão por um dia decidir ficar nas profundezas dos oceanos mas, secretamente, torço para que minha filha jamais esqueça que um dia elas já estiveram “presentes” e que lutamos juntos para que não fossem enxotadas pelo nosso lixo civilizatório. Minha filha tem toda a razão em dizer que a natureza é sua filha. Eu penso que ela é a própria natureza. Pelo menos é o que de mais semelhante à natureza eu tenho ainda perto de mim.

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Ver Bettelheim, Bruno. A Psicanálise dos Contos de Fadas. Paz e Terra, 2007. (*)
Ver Korczak, Janus. Como amar uma criança. Paz e Terra, 1997. (**)
Ver Aries, Philippe. História social da criança e da família. Ed. LTC, 1981. (***)

Um frasco de tomates. Dos assassinos, por favor.

A partir de agora estou emprestando opiniões. Sim, estou quase as oferecendo como num mercado público. As minhas idéias são como tomates numa feira e há outros que tem as suas oferecidas como relíquias de antiquário, como objetos indispensáveis – tais como peças íntimas ou coisas mais secretas – e, ainda, como imagens santificadas, no estilo santinho de paróquia, prontas para o culto. Assim como os cientistas que optaram enclausurar o saber ou os políticos que juntam tomates, antiguidades, peças íntimas, santinhos ou o que quer que seja para convencer os outros de que são portadores indefectíveis da legitimidade representativa, ofereço os meus tomates que, desde já, estão à disposição de quem os queira – com a reserva de que eu mesmo os possa arremessar contra alvos de minha livre escolha, quando eu tiver vontade.

tomatoes

Logo serei rotulado de iconoclasta, irresponsável, intrometido, tenho certeza disso. Sim, anarquista também, ótimo e previsível! Mas qual o problema nisso? Além do mais, em termos de opiniões, não há uma classe de distinção senão a arbitrada por aqueles que tem interesse em sufocar todas as demais. Não quero sufocar ninguém e, por algo talvez mais que sorte, não me sinto também sufocado. Estou respirando por enquanto com medo apenas da gripe suína. Além do mais, os anos de chumbo acabaram, não é verdade? As instituições públicas e privadas, civis ou comerciais, me acompanham nesse raciocínio: estão a todo o momento registrando estar a serviço da democracia e do exclusivo interesse público. Ora, eu também. Por essa linha de pensamento, estamos vivendo a verdadeira paz perpétua, como queria Kant. Apenas precisamos, por precaução, ter em mãos o 0800 certo.

Um dos problemas de oferecer idéias é de que, ao serem consumidas (no caso dos meus tomates, garanto o uso de sementes livres de transgênicos e cultivos à distância de pesticidas), elas assumem um novo aspecto, formato e até mesmo teor. O leitor, esse objeto de admiração e alvo de toda argumentação, é um devorador incansável de palavras e signos. Muito provavelmente ele já terá, inclusive, experimentado o sabor desta idéia e, antes de que chegue ao fim da quinta linha (afinal já se acostumou a “entender” tudo em três linhas no Twitter), provavelmente estará admirando a imagem de um desastre natural, de um corpo nu moldado serialmente ou de um anúncio publicitário que pode estar saltitando na tela do computador, do smartphone e, muito em breve, da própria TV, que dizem será interativa, sabe-se lá em que acepção de “interação”. A tecnologia vem causando revoluções inúteis impressionantes e deixando um legado importante que se há de conhecer muito em breve. É a horizontalização da atitude em contraposição à verticalização da liderança. É como falava determinada personagem que vi esses dias num filme que não guardei nem o nome: “você está cheio de nadas”. É isso aí. Eu também estou cheio de nadas. Quem não está? Esse é um dos tomates que andaram me atirando recentemente e eu agora pretendo remixá-lo para depois, quem sabe?, passar a oferecê-lo como se fosse o primeiro tomate brotado no planeta. Como não tenho como garantir minha boa pontaria ou interesse na minha oferta, vou baixar o volume do canal dos discursos vigentes e me ocupar em descascar os meus tomates.

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Tomates utilizados nesse mix:

“Idéias não são metais que se fundam.”
Gaspar Silveira Martins

“Triste não é mudar de idéias, triste é não ter idéias para mudar.”
Aparício Torelly, o Barão de Itararé

“Não há nada mais conservador do que a utopia,
pois ela nunca redimensiona sua perspectiva.”
Jean Baudrillard

“O que você precisa pra sair daí?”
Marcelo D2

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Cartaz do clássico trash “O ataque dos tomates assassinos”.