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Notícias botânicas sobre o #protestopoa

Nota à imprensa #2

Inconformadas com o fim dos protestos populares na capital gaúcha, querência amada, diversas árvores resolveram tomar
para si a dianteira das manifestações abandonadas pelos residentes daquela bonita localidade. Incorporando gestos tresloucados e extremados como o suicídio arbóreo e assim evitando a intervenção prévia dos técnicos ambientais do município (onde está esse pessoal afinal?) ou a decapitação programada pelos mandatários aldeães, famosos por chacinar vegetais enfileirados e impertinentes, as árvores decidiram programar uma série de incursões visando alarmar os transeuntes locais. Preocupações preocupantes de imediato são levantadas nas reuniões e amontoados de gente por aí. Publicitários e cinegrafistas comentam se, até o Natal, restará uma sequer em pé para edulcorar as tradicionais e aguardadas propagandas de supermercado. Jornalistas locais tentam averiguar nas redes sociais (vai querer que eles se misturem ao populacho?) se há um correspondente Bloco de Lutas organizando as manifestações e tentam identificar se há algum tipo de orientação anarquista no autodeclínio das plantas. Estadistas e polícia já teriam expedido mandados de busca e apreensão na expectativa de descobrir a espécie de literatura que anda inspirando as baderneiras criaturas (sim, árvores são seres vivos) e aquela parte da demografia que preza muito exercitar as panturrilhas, mas desde que no exterior, finalmente parece ter-se importado em saber onde é que estão as tais árvores. Vê-se que a comoção é geral. Rumores espalhados pela rádio-sabiá-da-madrugada têm informado que os vegetais planejam intensificar as manifestações com vandalismo. Estaria claro para elas que só o suicídio não tem sido o suficiente. O efeito mesmo só é notado ao cair na cabeça de alguém, pessoa física, já que com esse patrimônio público ninguém mais parece preocupado.

Simples assim

cianças bricando

O dia do brinquedo está aí novamente. Todos os anos ele vem. Basta estar minimante conectado ao mundo e suas mídias para perceber que ele vem chegando. Num passe de mágica, ou melhor, através de campanhas publicitárias milimetricamente pensadas, as crianças tomam conta das propagandas de TV, outdoors, internet e qualquer lugar onde se possa despertar seu desejo. Especialmente se ele apontar para a fonte de uma das palavras mais prometidas do mundo contemporâneo: o divertimento.

Trata-se de um imperativo absoluto em se tratando de crianças e uma promessa irresistível em se tratando dos adultos, afinal estes últimos parecem pessoas condicionadas a crer que é possível comprar tudo na vida, até mesmo divertimento. Na língua portuguesa, divertimento é apenas um substantivo comum, mas na mente de fabricantes de brinquedos e publicitários é um mantra rentável como poucos.

Você não está enganado, até de comida divertida você já viu anúncio. E mais de um, mais de dois, até. Na mente da indústria destinada à criança e seus marqueteiros, é mais importante que o produto traga o rótulo de “divertido” que o selo de aprovação do INMETRO. E para seus pais, mesmo que idealmente não devesse ser assim, parece que também. De certo modo, funciona como um tipo de certificado de garantia. Significa que, de posse do brinquedo, a diversão está garantida. Abstrai-se inclusive a necessidade de brincar. A posse do objeto é mais que suficiente e assim se criam legiões de adictos ao consumismo irracional, como efeito último da prática social.

Embora a ONU diga que o Dia Mundial da Criança é o dia 20 de novembro e a UNICEF afirme que o 24 de agosto é o Dia da Infância, é o 12 de outubro que se consagrou como o dia delas, o Dia das Crianças. Mas o que as crianças têm efetivamente de seu em suas pequenas vidas? A sua escola? A sua rua? A sua casa? Não, as crianças não têm nada de seu, nem suas pequenas posses, muito menos o “seu” próprio dia.

Mesmo que estejam no centro do mundo contemporâneo e de sua horda de vendedores reais e virtuais, estão ali mais no sentido dos adolescentes e adultos que virão a ser do que propriamente as pessoas que são, com suas ideias impertinentes sobre a vida e o mundo. As crianças são seres marginais sendo socializados a marretadas culturais e pedagógicas. E adocicadas pelo consumo que os próprios pais lhe oferecem e presenteiam.

Tão logo chegam à escola, quando têm uma decente para ir, sua curiosidade natural é substituída pela necessidade imperiosa da repetição e sua criatividade adestrada a aguardar a vez, uma vez que muitas vezes nem nunca virá, dependendo do modelo “pedagógico” adotado pela instituição escolar. Sem falar quando chega tarde demais, quando outros “divertimentos” já levaram sua atenção para muito longe dali.

Mas no Dia das Crianças, neste e em todos os próximos, elas poderão brincar como se fossem livres, que sua liberdade na verdade já foi subtraída e sugada justamente por aqueles que deveriam zelar por esse momento fugaz em que o ser humano consegue evadir-se naturalmente do destino social da mediocridade e da serialização. É preciso conter a rebeldia natural das crianças e sacar-lhes do calendário uma vida livre e cheia de brincadeiras e fantasia. Um dia no ano não deveria ser o suficiente?

Nesse ano, não dê presentes a seu(s) filho(s). Deixe-o(s) brincar. Simples assim.

O homem do saco

vergonhoso2

Quando criança nunca tive daqueles medos imensos, tenebrosos, que as crianças costumam ter de seres esdrúxulos e coisas incompreensíveis. Eu tinha medo do homem do saco.

Figura fácil do Oiapoque ao Chuí, nesses anos todos o homem do saco tem servido ao propósito repetitivo da chantagem e da ameaça. E para todos os pretextos, altos e baixos, especialmente na boca daqueles que procuram calar sem maior trabalho a voz impertinente das crianças. Criança boazinha tem medo do homem do saco e fica quietinha no seu cantinho. Não incomoda nem dá trabalho.

O homem do saco é pior que o lobo mau e que o bicho papão juntos porque, ao contrário destas criaturas improváveis, ele tem a familiar imagem da figura humana. E chega uma altura na vida das crianças que os seres humanos reais passam a ficar mais assustadores que entidades tolas como monstros e aparições. A data normalmente coincide com a época em que as crianças começam a perceber que o escudo familiar é poroso e o mundo mais largo que a calçada em frente a própria casa.

No dia de ontem, uma cena fotografada em Fortaleza, Ceará, me mostrou mais uma vez que as crianças invariavelmente têm razão em suas apreensões em relação aos adultos. cubano2Sim, os adultos podem ser assustadores e, tendo a oportunidade, não deixarão dúvida alguma sobre isso. A tendência deve integrar um instinto primevo remanescente que custa a evoluir para outra coisa qualquer. É claro que, de posse de uma convicção tomada por um instinto desses, as pessoas podem enfim dar a entrever o seu pior. Como, talvez, o homem do saco que portam dentro de si mesmas. Ou até mesmo o bicho papão.

O pior de tudo é saber que são pessoas que estavam absolutamente convencidas da conveniência do seu gesto. Que pensam inclusive que esse é um gesto político como qualquer outra forma de protesto. Que estariam defendendo os autênticos interesses nacionais através do achincalhamento e da ofensa pública de pessoas que obviamente estão ali agarradas a uma oportunidade (desprezível para os de cá) que não teriam de outra forma e para a qual não deram causa ou motivo. Alguns pensam que isso é um mero caso de miopia política, que é um protesto sem foco, etc. Negativo. Nada disso. É grosseria mesmo. Da mais pura e autêntica. Grosseria made in Brazil. Grosseria com nível superior completo, diga-se de passagem.

Ontem nós fomos flagrados numa fotografia furtiva como uma nação de homens do saco, ainda que seja evidente que há pessoas de outra espécie por aqui também. Mas isso não importa, ontem a representação daquelas pessoas foi taxativa e mais impactante que nossa melhor imagem idealizada. Ali estavam pessoas tranquilas da sua vida demonstrando o seu pior, a sua incivilidade, a sua homendosaquice. Por isso estou com a cabeça ensacada. Com o saco da vergonha. Agora meu problema já é outro. Estou pensando em como é que vou conseguir tirar isso da minha cabeça..

Vamos ouvir juntos Anitta e Beto Guedes?

Anitta e Beto Guedes

Alerto, você não deve pensar de imediato no que esses dois nomes estão fazendo juntos aí em cima. Também não se trata de um daqueles encontros improváveis que alguns programas de auditório ainda promovem vez ou outra. A questão deve, por outro lado, ser resumida na simples necessidade de aceitar-se os fatos como eles são. E isso no meu caso é inevitável, já que tenho filhos em idade de intensa curiosidade com o mundo e suas manifestações culturais, no sentido o mais amplo possível, como se antevê no título acima. Foi o que fiz no último mês, quando o ar polar invadiu o sul do Brasil e trancafiou a mim e minha família em casa, assim como fez com muita gente por essas bandas de cá. Pelo menos com aqueles que não deram no pé em direção ao norte do globo à mera menção de um friozinho de zero grau…

Eu não sei se minha memória infantil confere com a realidade, mas a impressão que tenho dos invernos da minha infância sempre foi a de que eles duravam meses. Meses a fio. Uns seis meses, mais ou menos. Lá na fronteira com o Uruguai, onde nasci, o inverno parecia assim, simétrico ao verão, pulando-se estações intermediárias. Mas aquele povo, ainda assim, andava lépido nas ruas, incluso eu.

Atualmente, uma semana ininterrupta de temperaturas abaixo dos dez centígrados seria capaz de me colocar praticamente em estado de hibernação absoluta, caso possível. O fato é que é sabidamente impraticável obter esse paraíso, quero dizer, a hibernação, quando se divide o teto com crianças, especialmente quando o hit do momento colou-se com toda a força na mente incauta de uma menina de nove anos de idade, não por acaso minha própria filha.

Não invoco piedade de ninguém nesse instante que revelo finalmente que estive no cativeiro polar, por quase uma semana – nas férias de julho – ao som de “O Show das Poderosas“, na voz (?) inconfundível (!) de Anitta. Sim, Anitta, a funkeira pop que canta (?!) trajando lingerie estilo sexshop. Porém, como é evidente que sobrevivi para dar este relato, presume-se que outros fatos se interpuseram. Exato. Foram interpostos. Um armistício, digamos assim. Claro que não, isso não é absolutamente sério. Mas não por minha causa, que sou belicoso assumido, mas graças ao Beto Guedes (sim, o cantor mineiro), que trouxe paz a este humilde lar de um modo que quem o conhece sabe que eu não preciso nem dizer mais nada.

Pois o Beto foi cantando as músicas de A Página do Relâmpago Elétrico, de Amor de Índio, dos Contos da Lua Vaga, do Sol de Primavera e de repente nem mesmo o frio intenso das ruas conseguiu mais nos enregelar. Ainda mais com o perfume sempre renovado da cozinha… No inverno, todo o mundo sabe, a gente estoca comida. E usa. Por sorte, em Porto Alegre ainda se encontram boas frutas da estação para contrabalançar as calorias que não são poucas. E quem não descascou bergamotas e laranjas de umbigo no sol do inverno, eu lamento dizer, não pode dizer que é gaúcho de verdade. Nem com foto de cuia na mão. Mesmo assim, apenas se trata de uma substituição dos perfumes. E também dos sons, sobre aquele outro fato…

É claro, e que não reste dúvida disso, que não cometi nenhum tipo de violência ao apresentar a meus filhos as canções que imortalizaram, pelo menos para mim, esse gênio da música brasileira chamado Alberto de Castro Guedes. Até porque (se for o caso, tente comprovar isso também) naturalmente as crianças vão aprender a cantar e a gostar (e sobretudo entender) de cantar até mesmo – ou especialmente – os choros do seu Godofredo Guedes, que o filho Beto gravou magistralmente, em Cantar, Casinha de Palha, etc.

Não me orgulho nem me jacto que meus filhos saibam cantar, por minha clara interferência, canções que um dia fizeram a minha cabeça, até porque aprendi de minha parte – e de livre vontade – toda a letra de “Prepara que agora, é a hora do show das poderosas, que descem e rebolam, afrontam as fogosas só as que incomodam, expulsam as invejosas, que ficam de cara quando toca.” Tá bom, aprendi, mas não entendi, mas isso não conta e, pior, imagino que sequer tenha alguma importância. Jamais fui partidário de doutrinações de qualquer espécie, mas mostrar aos próprios filhos que o mundo é mais que o que é vendido ou empurrado a eles (eles?) está longe de ser um crime. Talvez fosse até um dever, se a maioria dos pais não buscassem muitas vezes nestes o seu próprio rejuvenescimento. Bem, garanto que não é esse o caso. É tudo mais simples, é apenas uma questão de resposta aos estímulos.

Também não seria tolo em pensar que poderia ou teria o poder de impedir o contato de meus filhos com produtos culturais de qualquer qualidade. Penso que isso faz parte do processo cultural normal, nada mais que isso, mas tenho planos na manga, nem que sejam para uso doméstico. Se eu fosse um sujeito calculista, bastaria pensar em quem perde menos, em quem ganha mais. Aqui em casa, essa é a única matemática que importa. Por isso – e para evitar uma guerra desproporcional – quando quero ouvir um pouco de música eu logo pergunto a eles: vamos ouvir juntos Anitta e Beto Guedes?

Notícias fanstasmagóricas sobre o #protestopoa

poa

Nota à imprensa

O estadista Tarso Genro anuncia à Brigada Militar medidas para proteção dos moradores da Cidade Baixa. Fica instituido o vale-taco-de-beisebol e aulas expressas com vídeos do Chuck Norris. Os gaúchos mais antigos estão livres para ir logo aos facões. Tarso ainda disse estar perplexo pela rápida movimentação dos bondes. Fortunati diz que a EPTC não sabe das rotas destes meios de transporte. E a Brigada Militar usa os mesmos mapas de sempre, rumo ao Largo Zumbi dos Palmares, onde o povo está apenas conversando. O pau come. Enquanto isso, os vândalos – iluminados pelos fachos de luz dos helicópteros que sobrevoam o lugar – usam os mesmos mapas pelos quais os escravos negros fugiam no passado, evadindo-se ao sul. A Brigada não os bloqueia por ali, mas eles não tentam avançar à várzea, digo, ao Parque da Redenção e acima dela. A notícia é preocupante. Os moradores foram bem sucedidos na sua iniciativa. Os demais usam água e sabonete em suas extremidades. Não se pode ver sua expressão. Os jornais locais não dispõem de tecnologia para registrar essas coisas. Nos centros espíritas e terreiros, um ectoplasma vindo do Centro Histórico, de um edifício de 3 andares, projeta-se para a Riachuelo e volta logo para dentro. É o Barão de Itararé. Ele emite uma mensagem expressa aos médiuns. “Essa guerra não é minha. Vão dormir!” Sem o RBS Cop por perto, os residentes conseguem esse feito. Videntes de outras correntes espirituais, twitteiros e jornalistas procuram anunciar os próximos fatos, mas os fatos foram/serão corrompidos pela própria História e também vão dormir. Só a História não dorme. Nem com Rivotril.