Arquivo da categoria: Poesia

Lucio Carvalho (1971—)

Poemas de “Falso Alarde” na Escamandro. 18/09/2018

escamandro

Lucio Carvalho nasceu em Bagé, Rio Grande do Sul, em 1971.  Tradutor bissexto, publicou a coletânea de contos A aposta, o livro de artigos e ensaios Inclusão em pauta e o livro de poemas Falso alarde. Há uma década, é redator e co-editor da revista Inclusive – Inclusão e Cidadania. Escreve ficção, poesia, crítica e artigos jornalísticos para diversas publicações.

* * *

Antílope

andei muito por aqui
mas hoje esqueço
se há marcas para encontrar
como em João e Maria
ou se houve, de repente,
nova devastação
de tanto em tanto
os cometas invadem o espaço
e suas caudas de luz e detrito
espalham terror e espanto
mas elas não fazem por si sós
dependem dos outros portanto
com meus cabelos nas árvores é diferente
são marcas de mim mesmo
e o chão fez brotar
de uma forma indecente
tudo o que derreti
no seu…

Ver o post original 585 mais palavras

Acostumei-me a estar só

Ricardo Guiraldes (1886-1927)
trad. do espanhol

Acostumei-me a estar só, como o ombú foi acostumado à pampa.
Minha alma é uma esfera observando o próprio centro de sua força.
Para caminhar pela vida, mantenho-me nas pernas da vontade e da coragem.
A noção de minha própria existência me impede de desabar.
Viver é a obrigação a ser mantida.
Ignoro a covardia quando digo-me “eu devo”.

O trapezista

Sam Bean (1974 – )
trad. do inglês

Por favor, lembre-se de mim
com alegria,
ainda próximo à roseira, rindo
e cheio de machucados no queixo.
Na época em que
contávamos, ainda acordados,
cada carro preto que passava
por sua casa, abaixo da colina,
até que alguém nos pegou na cozinha
com mapas, sob uma cadeia montanhosa,
um cofrinho de porco
e uma remota visão do futuro.

Mas, por favor, lembre-se de mim
carinhosamente…

Ouvi dizer que você continua linda
e que eles ficaram dizendo
que os portões perolados
tinham graffitis eloquentes
tipo “nós nos encontraremos de novo”
e “foda-se o homem”
e “diga para minha mãe não se preocupar”
e anjos com seus cumprimentos
cinzentos
feitos sempre com tanta pressa.

E, por favor, lembre-se de mim
no Halloween
fazendo todos os vizinhos de idiotas
com nossos rostos pintados de branco.

Pela meia-noite
nós esquecemos um ao outro
e quando a manhã chegou
eu estava morto de vergonha.

Somente agora parece tão bobo:
aquela época deixou este mundo
e depois retornou
e agora você está iluminada pela cidade.

Então, por favor, lembre-se de mim
de uma forma errada.
Na janela da mais alta torre
eles passam por nós,
mas alto demais
para ver a estrada vazia no happy hour.
Partem e ressoam
iguais aos portões
em torno do reino sagrado
com palavras como
“Achados e Perdidos”
e “Não olhe para baixo”
e “Alguém me salve da tentação”.

Por favor, lembre-se de mim
como no sonho,
éramos como bebês esfolados
entre as árvores caídas
e dormindo rápido
à parte os leões e as damas
que lhe chamaram como você prefere
e podem até mesmo
presenteá-la pelo seu comportamento
e uma chance efêmera de ver
um trapézio
balançar tão alto quanto
quem a socorreria.

Mas, por favor, lembre-se de mim
em minha tristeza
e como eu perdi tudo o que queria…

Aqueles cachorros que amam a chuva
a perseguir trens.

Os pássaros coloridos lá em cima correndo
em círculos em volta do poço
e onde ele descansa
na parede atrás do St. Peter
tão brilhante no cinza
com tinta spray
“Quem diabos pode sempre entender?”

E, por favor, lembre-se,
de vez em quando…
No carro atrás do carnaval,
com minha mão entre seus joelhos
e você virou para mim
dizendo “O espetáculo do trapezista foi maravilhoso,
mas nunca foi feito para durar”…
O palhaço que passava
me viu cheio de raiva
quando o estacionamento lotou
com os cachorros do circo.
Tinha algo perigoso.

Então, por favor, lembre-se de mim,
finalmente,
machucando-me em minha subida,
querida…
Mas se eu alcançar os portões perolados
farei o meu melhor desenho
de Deus e Lúcifer,
um garoto e uma garota,
um anjo beijando um pecador,
um macaco e um homem
e uma banda marchando
ao redor dos trapezistas amedrontados.

Nesta noite, neste mundo

Alejandra Pizarnik (1936-1972)
trad. do espanhol

nesta noite, neste mundo
as palavras do sonho de infância de quem morreu
nunca são o que alguém deseja dizer
a língua materna esteriliza
a língua é um órgão de conhecimento
do fracasso de todo o poema
castrado por sua própria língua
que é o órgão da recriação
do reconhecimento
porém não o da ressurreição
nem o da negação
do meu horizonte de maldades e seu cão
e nada é promessa
entre o dizível
que equivale a mentir
(tudo o que se pode dizer é mentira)
o resto é silêncio –
apenas que o silêncio não existe

não
as palavras
não criam o amor
criam a ausência
se digo água, beberei?
se digo pão, comerei?

nesta noite, neste mundo
é extraordinário o silêncio desta noite
o que acontece com a alma é que não se vê
o que acontece com a mente é que não se vê
o que passa com o espírito é que não se vê

de onde vem esta conspiração de invisibilidades?
nenhuma palavra é visível

sombras
são recintos viscosos onde se oculta
a pedra da loucura –
os corredores escuros
percorri a todos
oh! fica um pouco mais entre nós

minha pessoa está ferida
minha primeira pessoa do singular

escrevo como quem ergue uma faca na escuridão
escrevo como estou dizendo
a sinceridade absoluta continuaria sendo
o impossível
oh! fica um pouco mais entre nós!

os resquícios das palavras
desabitando o palácio da linguagem
o conhecimento entre as pernas
o que fizeste do dom do sexo?
oh! meus mortos
eu os engoli, me engasguei
não posso mais dominar

palavras abafam-se
tudo desliza
até a negra liquefação

e o cão da maldade
nesta noite, neste mundo
onde tudo é possível
salvo
o poema

eu digo
sabendo que não se trata disso
nunca se trata disso
oh! ajuda-me a escrever o poema mais prescindível
o que não sirva nem para
ser imprestável
ajuda-me a escrever palavras
nesta noite, neste mundo

A magia apenas

De toda a poesia, prefiro a metafísica. Penso que tenho mais facilidade (e curiosidade) em compreender o inapreensível, o que passa e o que não se registra do que a concretude das coisas materiais. Além disso, penso que as coisas concretas estão muito bem nas mãos dos prosadores, dos engenheiros, arquitetos, construtores e pedreiros. Não me ocorre competir com sua perícia em desenhar e erguer o mundo das coisas nem por hipótese. Também não me ocorre competir com os estudiosos das relações sociais a primazia da interpretação do mundo político, por isso gosto menos da poesia politica do que da romântica, mesmo que esta se detenha ao mínimo eu. Pois é deste mínimo eu, e especialmente da retina para dentro, que me ocorre ser a grande competência da poesia, para onde qualquer ciência parece incapaz de descrever e qualquer credo se mostra insuficiente para confortar e tudo é tão somente tentativa e erro do ser na sua travessia pela vida.

Dos poetas brasileiros, dos antigos – que dos contemporâneos é impossível saber – ao menos, os metafísicos nunca foram muito valorizados por aqui. Isso talvez porque não seja essa a nossa maior vocação como país tropical, exposto, luminoso, etc. Mas há muitos poetas com momentos introspectivos e metafísicos muito poderosos. Penso no primeiro Vinícius de Moraes (a quem Manuel Bandeira detestou), Murilo Mendes, Carlos Drummond, o próprio Bandeira em seus momentos mais intimistas, Mario Quintana, Jorge de Lima, Cecília Meireles e sua dedicação à poesia lírica, Augusto Frederico Schmidt, Lucio Cardoso, Augusto dos Anjos e sua lugubridade, alguma Adélia Prado…

Mas, mesmo diante de nomes tão conhecidos como os acima, nem um outro mais que o tão pouco conhecido e avesso Dante Milano, que rigorosamente empreendeu uma poesia que se sabia falha inclusive ao investir-se como instrumento racional. É esta capacidade de perceber-se alheio e ao mesmo tempo completamente acessível que me parece fazê-lo o mais intangível dos poetas brasileiros. Um poeta despido inteiramente das atribuições alheias e ao mesmo tempo artífice pleno da própria existência e de seu estilo.

De seus poemas, este soneto abaixo – (além dele, há tantos poemas complexos de Dante Milano) -, mas o soneto abaixo não foi escrito na língua portuguesa, mas na verdadeira língua da poesia. E deste lugar atento a si, de quem se defronta consigo mesmo e não vê aventura nisso, apenas a magia em si mesma.

Monólogo
Dante Milano (1899-1991)
Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p. 148

Estar atento diante do ignorado,
reconhecer-se no desconhecido,
olhar o mundo, o espaço iluminado,
e compreender o que não tem sentido.

Guardar o que não pode ser guardado,
perder o que não pode ser perdido.
— É preciso ser puro, mas cuidado!
É preciso ser livre, mas sentido!

É preciso paciência, e que impaciência!
É preciso pensar, ou esquecer,
e conter a violência, com prudência,

qual desarmada vítima ao querer
vingar-se, sim, vingar-se da existência,
e, misteriosamente, não poder.

Dante Milano, por Cândido Portinari.

Defeateds

my dear B, when you died
I did not cry so much, but you don’t need
forgive me, I did
and still thank you
the few years that divided
all that misery
and our great and unforgettable friendship

I remember when you were sad
by continuous returns
to never realized hopes
“Life is like that,” I told you
without having any idea of what life was
and what happened to you

and when you fell in love
and that was inaccessible to you tell her or show it
because he never listen to you
and you taught me
to trust more in poetry than in love

today I’ll take a few heavy beers
in your memory

You knows
I have only good memories of us
and I want to thank you for having disappointed me early
about the good men and men of faith
and about yourself as well
this was your greatest proof of friendship

I remember we were looking together in books
which is not met in the streets and bars
and people had helmeted face
and dirty jokes and closed minds
like an crazy army

when things started to not give too sure
in your life
I did not know your address and your phone
or and even if you still remember me fondly
or contempt for it (I think I don’t deserve)

today I will drink white wine that I never could bear
in our memory

I need to forgive you by me
my descent and my destiny
you please to free himself from me
now that you cannot
I know that in one way or another I marked your life

the way the horses marks the abundant pasture
whales marks the forgotten water
the birds in the empty wind
and life marks the universe and history
(vainly)

because it was you that was my best memories
and no one else, when I was pure, but it wasn’t sweet
when not yet grown accustomed to lie and to lie
when I sought to know without any suspicion
when I would rather do nothing
to live the lie of others
and you helped me understand that we were always alone
despite the love and hate that they keep for us

my dear B, when you died
I was glad to hear that you did not suffer
more than myself to know that you died

today I’ll drink the same cheap cognac with which we faced the cold
in my memory

[uma versão em português deste poema está publicado em Falso Alarde]

Amazona ferida

Jennifer Franklin
trad. do inglês

Com seu rosto sereno e inclinado que nunca
denunciaria a dor, posso procurá-la outra vez.

Você sempre a amou – a primeira obra de arte
Que conheceu pelo nome. Toda a semana

Você me trouxe até ela. Desatenta pelo
Vislumbre do mármore e de seu porte

Eu não sabia que você estava mostrando a quem
Eu precisava tornar-me para protegê-la

De tudo o que não você não entendia –
A mulher poderosa surgindo acima de tudo,

Tendo de aprender a sentir cada açoite, cada corte
E continuar em pé, com olhos vazios,

Registrando tudo. Você sabia que ela era
A mãe que você precisava, que desnudaria

Seu peito e sangraria sem demonstrar
Tristeza nem arrependimento. Eu gostaria de ter

Aprendido cedo suas lições e que você
Não me tivesse visto derramar-me em lágrimas. Eu

Deveria pairar sobre você como uma rocha,
Apoiando-me em uma coluna, com o braço

Sobre a cabeça e a ferida estancada. Você me quer assim,
O terror branco ocultando meus olhos vazios,

O freio do animal amarrando meu traje rasgado –
Nua, para que visse minhas costas curvas e vazias o bastante

Para suportar o peso de todo o seu temor. Eu finjo
Ser ela, em pé sobre as pernas fortes que se recusam

A sustentar-me. Mas ela não pode amá-la. Se eu tivesse
Toda essa força, você estaria perdida. Ela não permitiria

Que você enterrasse a cabeça sob o braço amputado,
Em seu peito frio, e cantasse sua canção indistinguível.

Minha filha

Jennifer Franklin
trad. do inglês

Se você a visse, pensaria em como ela é linda.
Estranhos me param na rua para dizê-lo.

Se falasse com ela, veria que essa beleza
Não significa nada. Sua visão se deslocaria para os pombos

Na calçada. Seu contato com os olhos se tornaria
tão precário quanto o dela e escapariam lentamente

Com diferentes graus de graça. Eu nunca sei
O quanto dizer para explicar o desgosto.

Às vezes, lhes digo. Mais frequentemente fico em silêncio.
Com o sorriso dela cauterizando-me, firmo

Sua mão por todo o caminho até em casa, embalando-nos.
As mãos da florista entregam-lhe uma rosa já morta

Que ela guarda suavemente, sem rasgar as pétalas, como faz
Com as tulipas que olham para nós com sua expressão insípida,

Fingindo que podem aguentar o meu sofrimento
Em seus copos alongados, porque eu os conhecia

Antes de conhecer a dor. Eles não entendem que
Estão arruinados para mim agora. Eu plantei quinhentos

Bulbos que, como ela, germinaram dentro de mim, seu cérebro já
Formado por fios de nosso dna danificado

Ou qualquer outra coisa que os médicos não entendem.
Após o banho, ela enrola-se em mim para eu niná-la –

A única vez durante o dia que seu pequeno corpo permanece quieto.
Então eu canto, respiro nos cabelos lavados e penso

Nos esqueletos no Musée de Préhistoire
Em Les Eyzies. Os ossos da mãe e do bebê

Deitados em uma caixa de vidro nessa mesma posição
em que estamos. Eles foram enterrados de maneira incomum:

A criança enrolada na curva do braço da mãe.
Os arqueólogos estão intrigados com a posição.

Isso não me surpreende de todo. Seria fácil
Morrer dessa maneira, cada uma de nós no último suspiro,

Com rimas infantis em nossos lábios abertos
E a promessa de um sono tranquilo.

Gostaria que o meu amor morresse

Jennifer Franklin
trad. do inglês

___________a partir de Beckett

Gostaria que o meu amor morresse
Ou pelo menos que eu não a amasse

Tanto. Se eu pudesse inclinar meu coração
Para o inverno, eu não precisaria da rotação

da terra para isso. Se você não sorrisse
Ao dormir, ou não tocasse meu rosto

Com ternura, eu poderia ter ido embora
Desde quando você partiu através

Das portas do meu coração camuflado
Sem olhar para trás. Eu gostaria de não amá-la

Tanto. Gostaria que o meu amor morresse
E então eu não teria que matar tudo o que há

Em torno de mim. Então eu não teria de ser
A caçadora que me tornei. Mas você

Não vai me liberar do seu abraço poderoso.
Você me faz permanecer a seu lado com o seu

Braço delicado em meu pescoço. Ele não parece
Forte nem para pegar um animalzinho, mas ele é.