Sequestro eleitoral

A maior das dívidas eleitorais não é aquela a quem cabe julgar, já consagrados os vencedores do pleito, os Tribunais de Contas. Tampouco é a que está nas mãos dos costumeiros e pomposos doadores de campanha que, pasmados pela ambiguidade, chegam mesmo a fazer donativos a campanhas até mesmo oponentes, espreitando qualquer resultado possível. A maior das dívidas eleitorais, entretanto, é aquela que o povo tem para com seus representantes.

Ao contrário do que possa parecer num exame apressado, são os governantes e demais ocupantes de cargos públicos que tomam do povo sua confiança e credibilidade, e não vice-versa. Logo que acaba o período eleitoral, um vazio intenso assola a sociedade. Esse vazio é a expressão do desejo e da esperança de cada um que foi tomada pelos candidatos e transmitida agora através das urnas eletrônicas que se instalam por todo o país, coletando o voto das periferias e dos bairros nobres, dos confins setentrionais e meridionais e também das grandes capitais, no que é chamado por alguns de “a mais legítima festa democrática”.

Ruim com ele, pior sem ele

A definição de democracia como o mero direito ao voto, apesar de muito encontrada na cobertura jornalística nestes dias, é praticamente um sequestro que se pratica nas intenções individuais. É como se ao cidadão fosse dito: “Muito bem, você já fez sua parte e mostrou no que crê, agora nós daremos um jeito nisso (de acordo com a nossa própria agenda de interesses, é claro), você não precisa mais se preocupar com isso. Volte daqui há 4 anos.” Assim, sequestrado, o cidadão guarda seu comprovante de votação e pode assistir a máquina burocrática do Estado recompor-se para, entre muitas outras coisas, passar a preocupar-se em como fixar-se no poder ou, no caso dos derrotados, equipar-se em novas estratégias mais eficazes para tentar chegar lá mais uma vez.

Sem quem se ofereça a pagar pelo resgate de sua credibilidade e sem nenhuma instituição formal para a qual possa reclamar a titularidade de sua dívida, o cidadão comum já pode vagar tranquilamente mais uma vez, sabendo-se refém e impotente diante de sua própria impotência delegada. Ao longo destes quatro anos, farão com que frequente eventos fundamentais que chegarão a sobrepor-se no calendário, lhe dirão que ocupe espaços participativos nos quais o Estado tem sempre a palavra final ou, quando não a tem, faz desses ínfimos momentos participativos exatamente o que bem entende, de acordo com as influências mais influentes e, em temas mais críticos como aborto, ensino laico, homossexualidade, reforma agrária e ações afirmativas, por exemplo, os muxoxos costumeiros através dos quais vem conduzindo a sociedade brasileira desde sua redemocratização.

Mas, ao menos, há o direito ao voto. Um direito obrigatório, é verdade, e que se fosse opcional talvez mostrasse o único possível verdadeiro raio x da sociedade brasileira. Ruim com ele, muito pior sem ele. Mais importante que o voto só mesmo o Twitter porque, afinal, de que vale ter um candidato em segredo? Muito provavelmente no futuro, com a democracia “aperfeiçoada”, a urna eletrônica terá conexão até mesmo com as redes sociais, dispensando definitivamente a duplicação de esforços. Ou então as redes sociais poderiam até mesmo substituir a urna eletrônica, bastaria verificar o candidato mais mencionado e pronto, sem falar na possibilidade do retorno do voto nulo, onde os inconformados sempre puderam exercer, na época do voto em papel, o seu pleno direito à contrariedade.

Retornar à vida comum

Agora que está acabando o período de escândalos, pelo menos o período em que oportunamente eles vêm à público, que está terminando finalmente o período de promessas, cartas coletivas de apoio a A ou B, marketing político, promessas, jingles enfadonhos, compromissos esquivos, declarações medievais e tantas outras espécies de fenômenos típicos do período eleitoral, o sopro da esperança voltará ao seu estado de sempre, o de permanente adiamento. A vida prática da população comum continuará a ocupar as páginas do que em muitos jornais chama-se “Geral”, e também da polícia, não se pode negar isso. Seus sonhos serão transferidos para a crônica esportiva e à antecipação dos capítulos das telenovelas.

Profecias à parte, os exemplos acima referem-se ao passado, não ao futuro, e é muito provável que ele torne mesmo a repetir-se. Um déjà-vu sinistro que revelará mais uma vez a mesmice e a perpétua imobilidade social brasileira. No último momento, provavelmente ainda restará dúvida em todas as mentes, afinal tentaram lhe convencer de que esta eleição, como nunca antes, se trata de algo como um cara ou coroa e que a moeda em questão tem duas faces, bem e mal. Diante da perspectiva de continuidade do atual governo ou diante da opção contrária, os dias que restam deveriam ser decisivos para algo mais que o resultado final, mas é tolice pensar nisso, numa hora dessas.

Por sorte que você já sabe que foi sequestrado. Só falta lhe colocarem de encosto à parede.

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Do que depende a sobrevivência da leitura?

Lucio Carvalho

Também publicado na Via Política, Observatório da Imprensa, Planeta Educação, Pauta Social, UbaWeb, O Educacionista, Inclusive, Guia Global, BC UFRGS, Ministério da Cultura, União Brasileira de Escritores RN, Senai – SP, Movimento Cultura Brasil, Tudo Sobre Leitura, Pró-Leitura, eBook Reader.

O término da 21ª Bienal do Livro de São Paulo mais uma vez colocou em evidência um espectro que ronda o mercado editorial e o universo de leitores já há alguns anos: o fantasma do livro digital. É bom lembrar, antes de mais nada, que um fantasma não é essencialmente uma entidade maléfica, assim como não o é, em essência, o livro digital, ou e-book. Mas algumas leituras muito apressadas e propagandas mais apressadas ainda têm causado reações precipitadíssimas, para o bem ou para o mal mas, sobretudo, por uma compreensão parcial de tudo o que envolve o livro digital, o próprio livro, a leitura e até mesmo a educação como ela é, pois ainda trata-se da principal fonte de formação de novos leitores.

Muitas pessoas têm confundido o conceito de livro digital com os aparelhos leitores, ou e-readers. Ao contrário do livro convencional, vendido em exemplares únicos, o livro digital tem outra forma de distribuição. Depois de adquirido, poderá ser lido nos aparelhos leitores, equipamentos portáteis capazes de reproduzir o conteúdo escrito, seja qual for o seu gênero, em telas com tecnologias diversas e alguns outros recursos com conexão remota a redes, internet, entre outros. Portanto o que muitas vem se chamando de livro digital não é um livro, é meramente um conjunto digital de dados decodificado e exibido em um equipamento. No plano comercial, os aparelhos leitores não estão atrelados a editoras, mas a empresas de tecnologia que podem arbitrar formatos tecnológicos específicos e proprietários impedindo, inclusive, que um determinado conteúdo possa ser lido em qualquer outro dispositivo que não aquele através do qual foi comercializado. Diferentemente dos volumes impressos, cujo suporte é único, os livros digitais trazem à seara da informação escrita um fantasma ainda muito pouco conhecido no meio editorial, mas que tem poderes muito significativos. O fantasma atende por DRM, ou digital rights management, e já revela-se mesmo que disfarçadamente em muitos destes equipamentos, principalmente nos mais vendidos entre eles: o Kindle, da Amazon e o iPAD, da Apple.

DRM e o futuro dos direitos autorais

De acordo com a Free Software Foundation, o DRM seria mais apropriadamente denominado por digital restrictions management, uma vez que sua funcionalidade está muito mais para a gestão das restrições de uso do conteúdo digital do lado do usuário que do fabricante. Tratam-se de parâmetros inseridos nos conteúdos digitais com capacidade para coletar dados do uso bem como determinar padrões de durabilidade, acesso a cópias e intercâmbio de formatos. Desenvolvido inicialmente por demanda dos fabricantes e distribuidores de música, é um tipo de tecnologia utilizada na transferência de vários tipos de conteúdo digital, inclusive na transmissão televisiva em formato digital.

Ao passo em que muitos avanços e iniciativas tem ocorrido em função de ampliar e não restringir os direitos do lado dos consumidores e a sociedade procurado garantir o acesso universal à informaçao principalmente em ambientes educacionais, o mercado editorial tem se movido fundamentalmente em torno das iniciativas que podem lhe garantir a sobrevivência e sustentabilidade. A discussão recente em torno da reforma da Lei de Direitos Autorais e os interesses que aí têm se debatido comprovam que muitos rounds serão travados no sentido de deitar à lona as possibilidades concretas de um avanço num curto espaço de tempo. Como o movimento de livre distribuição e licenciamento não deixa de crescer, é de esperar que o mercado venha obrigatoriamente a reconfigurar-se em função do novo habitus de acesso à informação, e não vice-versa. A novíssima sociedade da informação, que acostumou-se a ver na informação e em sua circulação um mercado a ser explorado, tem necessitado redimensionar-se constantemente, sob pena de inadequar-se aos novos meios de troca e acesso que são criados de forma incessante.

Consumidores no lugar de leitores

Criadas como peças fundamentais na geografia urbana das cidades desde antes da idade moderna, as bibliotecas públicas encarnam desde então um espírito democrático como poucos espaços públicos tem obtido. Seja pelo acesso franqueado como por suas características elementares, como o empréstimo domiciliar, seria muito ingenuidade imaginar que as corporações empenhadas na criação de aparelhos leitores de livros guardam esse tipo de preocupação ou, acaso, seria imaginável que a Amazon ou o iTunes venham a emprestar gratuitamente seus conteúdos digitais?

Por isso, a grande diferença entre os serviços de bibliotecas públicas e o negócio dos conteúdos digitais está em que a perspectiva lucrativa aqui se instala em definitivo entre editores e leitores. Mesmo as iniciativas de implantação de grandes bibliotecas digitais, patrocinadas muitas vezes por gigantes tecnológicos como HP ou a Google, não visam alterar em praticamente nada as relações de acesso ao conteúdo da informação. Sua revolução está nos meios e na sempre presente perspectiva de oferta de serviços comerciais agregados. Assim, tais iniciativas assentam-se sobre obras em domínio público ou criadas já dentro do espírito de livre reprodução, como as obras licenciadas através da Creative Commons. Para novas edições e conteúdos presentes e futuros não há um projeto descrito ou tão benevolente a ponto de imaginar-se que a intenção edificante destas corporações visa exclusivamente a universalização do acesso à informação.

Iniciativa pioneira e que se mantem há 40 anos de forma voluntária, o Projeto Gutenberg é o exemplo vivo de que iniciativas não comerciais emperram em limites de expansão por falta de investimento. Contando com donativos e sem o apoio de grandes bibliotecas ou de seus consórcios, mesmo assim guarda a semente de um plano ousado: reinventar em formatos não-proprietários o sonho de uma fonte livre de consulta e leitura. Mesmo iniciativas que contam com o apoio do governo no caso brasileiro, e destinado a pesquisa de ponta, como a produção científica da pós-graduação patinam ainda em dificuldades técnicas para levar a idéia de uma Biblioteca Digital de Teses a ser popularizada entre instituições menores, como faculdades do interior do Brasil.

Em 2003, o jornalista Élio Gaspari já advertia ironicamente que o único banco que não dá certo no Brasil é o banco de teses. Passados sete anos, nem o MEC nem a CAPES forneceram sequer uma explicação remota acerca das razões pelas quais o projeto mantem-se sem acesso a conteúdo integral e é realizado em separado a outras iniciativas particulares de divulgação científica. Talvez sejam razões semelhantes as que levam a Google manter indefinidamente em versão beta seu projeto Schoolar. O que pode estar custando a ser percebido é a necessidade de democratizar as fontes antes de fomentar-se o acesso e de o meio acadêmico comprometer-se a dar o exemplo abrindo mão de direitos comerciais e a sociedade, por sua vez, desconsiderar propostas que visam o monopólio ou uso terciário da informação, oferecida como subproduto de iniciativas essencialmente comerciais.

Um desenho universal para os e-readers

Reclamado principalmente pelas pessoas com deficiência visual, que vêem os livros em braille sendo progressivamente relegados à edições especiais e a perspectiva de que novos recursos tecnológicos venham a possibilitar seu acesso a conteúdos de outra maneira indisponíveis, os recursos de acessibilidade dos e-readers são duramente criticados por esta parcela da população. No Brasil, iniciativas como o MOLLA – Movimento pelo Livro e Leitura Acessíveis no Brasil , são pertinazes na denúncia de práticas editoriais discriminatórias e realizam um trabalho que procura garantir que o acesso à informação, como um direito universal, seja efetivado através de compromissos sociais que atendam às especificidades humanas como um todo, como recomenda o conceito de desenho universal. Nessa perspectiva, tem chamado atenção quanto a algumas dificuldades de uso dos e-readers, como a inacessibilidade das telas de toque (touchscreen) e incapacidade de conversão texto-áudio, fatores limitantes do acesso por pessoas com deficiência visual ou mobilidade reduzida.

Umberto Eco e a obsessão terminativa

O semiólogo e escritor italiano Umberto Eco lançou no começo deste ano o livro-entrevista “Não contem com o fim do livro” no qual discute algumas questões como a segurança de dados dos conteúdos digitais, a fidedignidade e a história da humanidade e seus registros. Em dado momento da entrevista, Eco comenta que não entende as razões pelas quais iniciou-se o que ele chamou de “obsessão” pelo fim do livro. Para ele os livros continuarão a existir porque não trata-se de uma experiência, mas de um produto com uma credibilidade de 500 anos, ao passo em que os recursos tecnológicos têm sido substituídos pelo menos a cada cinco anos. No seu caso, diz que não trocaria sua biblioteca por outra digital pela simples razão de que nada o asseguraria de que as informações estivessem disponíveis a qualquer momento e a salvo de bugs. Uma leitura sem risco de bugs ou perdas maiores para Eco continua a ser um privilégio exclusivo dos impressos.

Do hipertexto à hipoleitura

É possível que estas palavras, cada uma delas, jamais sejam gravadas na celulose do papel, matéria-prima dos impressos de um modo geral, sejam livros, revistas ou jornais. A bem da verdade, nem uma prova em rascunho para revisão será impressa numa simples impressora doméstica. Seu único registro estará no meio digital, no código binário e na memória de quem, ao lê-las, decida por utilizá-las em algum tipo de raciocínio que possa somar ou contestar alguma informação previamente assimilada. O registro da informação é uma necessidade que a capacidade de atenção e memória humana exigem. A medida em que evoluiu, a humanidade foi criando mecanismos acessórios para estes fins. Dicionários, enciclopédias e outras formas sistematizadas de informação que hoje convergem, aparentemente de forma inexorável, para os recursos digitais.

A internet é formada essencialmente por recursos digitais interconectados e multiplicados em uma desrazão. Muitas das pessoas que afirmam tratar-se de bilhões de páginas não erram, mas não acertam jamais em saber o quanto de informação repetida ou informação incompleta é armazenada e acessada permanentemente. Por muito tempo soube-se que a Bíblia e o Manifesto Comunista foram os livros mais impressos do mundo. Hoje sabe-se que muitas páginas da internet superam este número em n vezes. Por muito tempo soube-se que quem lia o Novo Testamento ou o Manifesto Comunista teriam conhecido a vida de Cristo ou as idéias centrais do comunismo. Hoje é impossível saber o que todas as pessoas que acessaram determinada página da internet, como por exemplo a página de pesquisa do Google, foram até lá buscando, o que leram e o que conheceram efetivamente a partir daí. A distinção fundamental entre os exemplos supra são os suportes de inscrição. No primeiro, o texto e a estrutura convencional, circunscrita. No outro, o hipertexto e a estrutura aberta, diametral.

Seria um tipo de limite absurdo imaginar um novo recurso tecnológico capaz de fazer o processamento e exibição de um texto e ao mesmo tempo compartilhar uma conexão com a internet que não contasse com esse tipo de recurso e que não tivesse por base alguma forma derivada de hipertexto. Quando pensa-se em dispositivos capazes de ler o livro digital somente um purismo radical pensaria num dispositivo que imitasse o livro em papel. Já houve quem sugerisse que os e-readers devessem inclusive emitir o odor produzido pelos ácaros, para preservar-se a leitura como se tratassem de brochuras antigas. São devaneios curiosos mas que não interessam ao principal, que é sobrevivência da leitura, apesar das tecnologias.

Antes que o livro mudasse, a própria leitura mudou. Em uma época marcada pelo exagero do uso da imagem, a palavra talvez encontre-se em decadência e o discurso fragmentado e cada vez mais dissociativo. Mesmo assim, o desafio da leitura continua a ser como uma busca por consistência no acesso aos bens culturais. Maiores ainda são as dificuldades de concretizar uma leitura on-line porque há sempre uma forma de que anúncios publicitários resolvam sacudir as telas de leitura e inúmeras portas de saída convocando a atenção do incauto leitor. As pessoas que estão atualmente preocupadas em saber qual tecnologia vai consolidar-se em lugar do livro nos próximos cinco anos poderiam parar de pensar um pouco em aparelhos e pensar mais em como a leitura e seu acesso poderão ser garantidos e ampliados a todas as pessoas porque, do contrário, não haverá evolução a encontrar neste processo, mas uma ainda maior elitização do que a já existente.

Eu, também (Yo, también): diferente como ele mesmo

Cartaz do filme, onde vê-se Lola Duenas e Pablo Pineda sorrindo juntos

“Para que quer ser uma pessoa normal?” Essa é pergunta que Laura, a personagem interpretada por Lola Dueñas, em Yo, también, premiado em 2009 no Festival de Cinema de San Sebastián e ainda inédito no Brasil, faz a Daniel, vivido nas telas pelo espanhol Pablo Pineda. Apaixonado, Daniel vê no apelo à normalidade algo como uma credencial para a concretização de seu desejo de viver integralmente seus próprios desejos. Entretanto é a personagem de Lola quem é desafiada a despir-se de seus preconceitos e aceitar o potencial afetivo dessa relação que une em um extremo uma mulher de meia-idade insatisfeita com a própria vida e, no outro, Daniel, homem que, nascido com a síndrome de Down, luta com ganas por sua emancipação existencial.

Na crítica estrangeira, Yo, también é muitas vezes tratado como se fosse um documentário sobre a deficiência intelectual. Longe disso, é um filme sobre relações humanas, estabelecida entre seres humanos adultos e que buscam sua felicidade e realização em meio ao cotidiano de pessoas comuns. Talvez então fosse mais apropriado classificá-lo entre os filmes de ficção científica, ou você já viu (no cinema ou até mesmo na vida real) pessoas com síndrome de Down sendo retratadas como pessoas adultas e donas do próprio nariz e desejos?

Muito melhor que tudo isso, é um filme divertido, sem ser um filme humorístico ou abusar de apelos cômicos. É divertido porque, como dizem seus diretores, os novatos Antonio Naharro e Álvaro Pastor, na vida é preciso um certo humor, até para poder sobreviver-se a ela. Mas é igualmente dramático na medida em que não abdica de mostrar portas fechadas, desilusões, frustrações ou perdas. O melhor de tudo é que consegue voltar a ser divertido quando mostra a possibilidade vívida de ir-se sempre muito além dos limites sociais e da trivialidade dos preconceitos e dos “nãos” que a vida, em todas as suas formas e estruturas sociais, insistentemente apresenta a quem quer somente o direito de viver a pleno a própria vida.

Trailer do filme

De uma maneira muito própria ao cinema espanhol contemporâneo, no qual as relações afetivas aparecem muito vinculadas ao desejo e à liberdade, seus diretores não procuram um casal com química perfeita, idealizações mesmo que vistos pela lente da “diferença”, mas um choque explosivo de temperamentos no qual o afeto anda de mãos dadas com a angústia, com a incompreensão, mas que é obtido em sua plenitude fora de qualquer clichê costumeiro quando da exposição de pessoas aparentemente “incapacitadas” para a vida afetiva e sexual.

Yo, también exigirá muito da capacidade do público em torcer o nariz diante de relações aparentemente improváveis. Irá incomodar quem pensa que as pessoas têm lugares próprios para existir e o espaço social limitado por abstrações arbitrárias. Surpreenderá aqueles que estão presos a estereótipos e às visões simplistas do ser humano e da deficiência intelectual. De ideias que os reduzem a eternos filhos e crianças, acabando por anulá-los em imagens cristalizadas e condená-los a um mundo ínfimo e sem esperança. Yo, también vai, sem que se possa perceber muito claramente, contar-nos que toda essa representação finalmente está ruindo e que daí não há mais volta. Se há dúvida que isso é possível, assistir o filme poderá ser uma forma simples de perceber o que pessoas como Pablo Pineda e tantas outras estão, pelo mundo afora, fazendo já por suas próprias vidas.

Ator, mas só por um momento

Ao contrário de Lola que, como atriz, já atuou em dois outros filmes, ainda em pós-produção, após Yo, también, Pablo já declarou em entrevista (ver vídeo a seguir) que não pretende voltar a trabalhar como ator. Antes dessa experiência, Pablo já era relativamente conhecido no mundo inteiro por ter sido a primeira pessoa com síndrome de Down, em solo europeu, a lograr um título universitário. Formado em Pedagogia em 1999 e prestes titular-se psicopedagogo, diz que sua participação na produção mudou sua vida, mas queixa-se das perguntas repetitivas dos jornalistas que já o denominaram inclusive de “superdotado”. Dizendo-se uma pessoa realista, Pablo está mais preocupado em lançar novos olhares sobre a síndrome de Down e que, longe de imaginar-se como um ator, prefere ver-se no papel de alguém que luta por oportunidades para as pessoas com deficiência intelectual e que não esquece, por mais holofotes que sejam lançados em sua direção, que esse compromisso diz respeito ao verdadeiro sentido de autonomia individual e responsabilidade coletiva do qual ele dá indícios também na composição de seu papel.

Pablo em entrevista ao programa Cuatro A Raíz

Antes de Pablo, Pascal Duquenne fora premiado em Cannes, por “O Oitavo Dia”

Cena de “O Oitavo Dia”, onde Pascal Duquenne e Daniel Auteuil caminham num campo verde

Treze anos antes da premiação de Yo, también em San Sebastián, em 1996, o belga Pascal Duquenne dividiu com o consagrado ator francês Daniel Auteuil a Palma de Ouro de melhor ator por Le huitième jour (no Brasil, “O Oitavo Dia”), refilmagem de um filme finlandês de 1960. Motivo de grande comoção, O Oitavo Dia estreou a presença de um ator com síndrome de Down representando vigorosamente sua personagem na cena dos festivais internacionais. Foi a primeira vez em que a pessoa com deficiência intelectual era mostrada em grande estilo, em primeiro plano, já não mais como cenário. Ali, entretanto, o tom dramático se fazia bem mais intenso e a personagem vivia como que à deriva, numa situação de abandono que acabaria por levá-la a um desfecho fatal, a despeito de seu “efeito transformador” sobre os outros, principalmente a personagem de Auteuil. Desde então, outros filmes de ficção foram feitos com a presença de atores com síndrome de Down, como o espanhol León y Olvido e o norte-americano My Brother. Igualmente dramáticos e com roteiros muito centrados nos dramas familiares, suas personagens não chegam a transpor as questões de dependência pessoal e focam preferencialmente os aspectos incapacitantes de suas vidas. No mais recente “A Outra Margem”, realização portuguesa de 2007, o tom dramático é amenizado, mas a presença quase-angelical, transformadora dos outros – como em O Oitavo Dia, lança luz a um resgate de dignidade para a vida dos “diferentes”, sejam pessoas com deficiência ou, no caso do filme português, do outro protagonista, um travesti vivido pelo ator Filipe Duarte.

Yo, también não é um filme melhor ou pior que os acima citados, mesmo porque são histórias muito diferentes as aí contadas. O distal entre eles está, entretanto, na proximidade que realiza entre as personagens, como se atravessassem uma ponte que os demais focam à distância ou ignoram por completo. Essa é uma diferença muito importante que não deve ser esquecida. Se os filmes acima podem ser categorizados como filmes sobre a deficiência intelectual, Yo, también deve ficar fora dessa relação e aparecer em uma outra que acaba de inaugurar, como filmes que mostram pessoas e seus desejos, esperanças e dificuldades, entre elas as pessoas com deficiência intelectual. Fora isso, nada de “anormal”. Ainda assim, é um filme diferente. Diferente como ele mesmo. Afinal, não é isso mesmo a diferença?

O ciberativismo e o deserto do real

Tenho um problema em minha vida. Todos têm, com maior ou menor gravidade, em maior ou menor número. Alguns problemas de algumas pessoas chegam a durar uma vida inteira e passam, mesmo assim, insolúveis. Problemas podem mesmo dar causa ao fim de muitas vidas. Podem mudar seu rumo. Podem tirar do rumo uma vida que parecia ter tido desde sempre e para sempre um destino certo. Um problema pode ser um tipo de fatalidade, mas também pode ser previsível. Imprevisível é maneira como as pessoas tratam dos problemas. Os seus e os dos outros. Em seu tempo, o Barão de Itararé diria que o “mal alheio pesa como um cabelo” mas, no tempo presente, nos dias de hoje, no modo de vida contemporâneo (hoje é 12 de maio de 2010, são 10 horas da noite), inventou-se um modo prático de exorcismo dos problemas alheios, chama-se o “ciberativismo”.

Trinta anos antes de morrer, ainda em 1978, o francês Jean Baudrillard anunciava o fim do social e a sobrevivência passiva das massas, as multidões, a maioria silenciosa. O ciberativismo é como o corolário do fatalismo denunciado por Baudrillard e, apesar, da interconectividade rondar cada impulso elétrico do planeta, cada bit emitido e recebido, ela não chega a romper o silêncio do real, o silêncio do deserto do real. Não que o cyberatvismo vá, por seu próprio instrumento, provocar a derrocada do movimento social feito na sola do sapato, mas ele traz consigo a mesma sina da democracia representativa, ou seja, o fim da necessidade do diálogo social, da contraposição, da denúncia, do debate, do embate, da dúvida. É como a sacralização da representação política através de um único motor: simplesmente a razão do indivíduo. Esse é o ponto, aliás, que responde bem às expectativas contemporâneas: os dilemas sociais resolvidos num mero exame de consciência. Os efeitos, as consequências dos problemas soam como nomes remotos de coisas que acontecem aos outros. Miséria? Sim. Dá-se um clique contra a miséria. Na fantasia proposta, o problema passa a estar nas mãos de quem os pode resolver. Fome? Um horror. Dá-se um clique contra a fome, mas um bilhão de pessoas continua a sem ter o que comer e o clique, o fabuloso clique, não converteu sequer um centavo em favor destas pessoas. E o seu problema continua lá. Lá dentro. Na barriga delas.

Não é estranha a adesão dos indivíduos a estes instrumentos da impessoalidade que a internet propiciou. As causas pelas quais se procuram adesão através das e-petitions (petições eletrônicas) são mesmo nobres e não nega-se a importância de que as pessoas criem canais de manifestação que, de outra forma, estariam fechados e circunscritos aos interlocutores privilegiados da burocracia inerente ao sistema de representação. O que está em questão não é uma disputa ideológica, mas a extensão do instrumento enquanto potência criadora de interesses e o que é feito dessa energia. O que está em questão é que o instrumento em si mesmo não significa a expressão do sentimento individual ou coletivo, mas uma amarração em torno de uma idéia representada virtualmente, um tipo de intenção delegada com efeito demonstrativo. Demonstrada a simpatia ou antipatia por uma idéia, a adesão ou condenação de um gesto ou ato político, então, o que vem a seguir?

A falta de respostas, a replicação e manutenção dos problemas: este é o nosso deserto do real. Muito em breve talvez a cyberparticipação seja a forma exclusiva de manifestação cívica. Talvez faça parte da televisão interativa, que deveria acompanhar a televisão digital. Talvez os orçamentos públicos sejam decididos como se decide o Big Brother, por telefone, talvez o voto deixe de ser obrigatório, o fato é que nada disso garante a operacionalização concreta do real no real, que sempre dependerá de que alguém imprima um gesto e altere o gesto de outra ou outras pessoas. Talvez isso pudesse garantir que os problemas de todas as pessoas fossem resolvidos. Na pior das hipóteses, que pudessem ser redimensionados, reequacionados. Mas a dimensão fantástica da experiência virtual impõe como uma película revestindo o real, o intocável real.

O ciberativismo não é um novo movimento social, mas é um novo movimento de massas. Talvez possa ser o único instrumento aceitável numa sociedade de indivíduos cada vez mais enclausurados nos seus instrumentos de conexão, seus computadores, telefones e dispositivos. Campanhas virtuais estão mobilizando cada vez mais as pessoas a pensar e a clicar. O desafio agora está em ir além do clique, além da decisão do clique, além da intenção. Um clique não é uma procuração de interlocução social. O indivíduo não pode se abster da sua vontade política, mesmo que seja para exercer a passividade e pregar o ceticismo mais completo.

Quando um organismo como a FAO propõe como ação uma petição on-line para pressionar os governos a erradicar a fome (ver aqui), é de pensar se seu objetivo é simplesmente mobilizar as pessoas a dar um clique e nada mais ou se efetivamente há alguma expectativa concreta de que os governos sintam-se pressionados por esse tipo de iniciativa e que, por conta disso, resolvam solucionar o problema da fome em definitivo. Betinho, o irmão do Henfil, foi a pessoa que mais lutou contra a fome no Brasil e no seu documento de fundação da Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e pela Vida, a primeira grande rede de pessoas e instituições que se reuniu em torno de um objetivo no Brasil pós-ditadura, disse que “quando uma sociedade deixa matar crianças é porque começou seu suicídio como sociedade.” O que é preciso pensar nesse momento é se o ciberativismo e sua rede de cliques sem face tem alguma proposta para conter esse suicídio, pois ele já se encontra em curso. Caso contrário estamos ainda falando do mesmo deserto do real. E nele tudo segue igual: nem sequer a chuva chove mais no molhado. Se estiver vendo alguma coisa, leve em consideração a possibilidade de ser um holograma ou uma miragem.
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Se ainda não leu, leia também. Se já leu, leia novamente: A alma da fome é política, por Herbert de Souza e Carla Rodrigues.

Saiba também o que diz o presidente da FAO. Mas cuidado que ele está furioso!

Dina Di. Como não noticiar a morte de uma rainha.

Leia também os textos de Jéssica Balbino,
Negligência de clínica leva Dina Di a morte.
e Um Adeus a Rainha do Rap.

Nessa história, uma mulher me servirá de exemplo.
(Assim começa a letra de “Confidências de uma presidiária”)

A rainha está morta. Está morta, mas a dúvida persiste: como noticiar a morte de uma rainha? Pela lógica, seria suficiente reservar o destaque dos jornais, a manchete dos portais ou, da forma atualmente mais usual, disparar uma torrente de tweets na internet. Mas como levar isso a efeito se a rainha é uma brasileira e tem como nome Viviane Lopes Matias? Como, tratando-se de uma rainha que nasceu numa família brasileira, viveu uma vida de brasileira e morreu por complicações no parto de um filho, mesma causa que acaba anualmente com a vida de milhares de mulheres brasileiras?

A essa altura, é conveniente fazer outra pergunta: mas afinal, de quem se trata? Que rainha pode ter tido uma vida descrita dessa forma e, mesmo rainha, mesmo depois de morta, continuar incógnita, transitando entre os nomes dos jornais em linhas escassas, junto aos “meros mortais”? Viviane era mais conhecida pelo seu nome de cantora, Dina Di, e provavelmente nunca tenha feito questão de apartar-se do povo, das pessoas comuns, e isso pode explicar em parte o quase nenhum destaque da notícia de sua morte, no último 19 de março.

Apesar de ter habitado nos últimos 20 anos, com todo o direito, a alta cúpula do rap brasileiro, Dina Di é muito mais conhecida como “guerreira” do que como “rainha”. É claro, onde estão os reis, mesmo simbolicamente? No trono, longe das dores do povo, a quem conhecem por mensageiros, cercados por bajuladores e traidores. Dina Di sempre esteve à vontade na linha de frente, empunhando o ritmo e a poesia (rythm and poetry) como armas de quem combate de peito aberto as agruras da vida e, por isso mesmo, as conhece do princípio ao fim.

Pensando bem, que rainha diria em alto e bom tom que “tem que ter base e pó pro seu olhar de cansaço”?

Enquanto viveu, Dina Di nunca esteve em trono algum, com exceção ao ganhar em 2009 o Prêmio Hutúz, iniciativa de Celso Athayde e da Central Única das Favelas, na categoria de grupo feminino da década, que levou junto com o Visão de Rua. Sua voz, como ela mesma declarou, encontrava a paz quando podia confortar presidiárias. Foi a elas a quem dirigiu sua primeira “canção” de trabalho, “Confidências de uma presidiária”. E quando abraçava as mães que perdem seus filhos precocemente pelo vício, pelo tráfico e pela violência habitual de quem habita as periferias de São Paulo, de Campinas, sua cidade, ou de qualquer outro lugar, porque, como diz a rima, “periferia continua sendo periferia em qualquer lugar”. A voz de Dina Di, que tem o perfeito sotaque brasileiro, jamais acariciou a hipocrisia de uma sociedade cindida entre possuidores e excluídos, mas rasgou noites e noites em bailes de rap e tocou muitos corações, fossem femininos ou não.

Em algum das centenas de blogs que registraram o merecido destaque pela sua morte, há um depoimento que demonstra a força de sua presença: “por causa da Dina Di eu não abandonei minha família e não descuidei dos meus filhos.” É o sinal definitivo de que o recado chegou ao ouvido de quem precisava ouvir e que a mensagem não foi meramente jogada aos quatro ventos.

Como lembra GOG, ou mais simplesmente Genival Oliveira Gonçalves, seu parceiro e amigo, voz seminal do rap brasileiro e militante desde antes do nascimento do hip-hop, em artigo publicado em seu site, lembra a fala de outro parceiro do rap, Gato Preto: “dê-me as rosas ainda em vida, porque morto não sentirei o seu perfume.” E a guerreira Dina Di soube espalhar como ninguém rosas (e suas dores) por toda sua vida e trajetória. Não viveu por suas dores e feridas, mas jamais deixou de respeitá-las.

Os “súditos” da rainha Dina Di são os habitantes urbanos que se embalam como podem nessa vida onde o que resta é, como define a gíria, “jogar-se”. Como eles, Dina Di também se jogou. Antes disso, a vida jogou-a na própria vida. Sua biografia se parece à biografia de milhares de mulheres que vivem uma vida muito real, com a diferença de que decidiu escrevê-la a partir da sua vontade de viver. Quem conhece ou ainda venha a dedicar-se a conhecer o trabalho de Dina Di e de tantos outros compositores do rap nacional vai perceber que ali há, além de uma construção muitas vezes primorosa, uma narrativa construída totalmente através de suas vidas, de sua verdadeira identidade.

Em 2002, a jornalista Eliane Brum, de Época, reportou a insurgência feminina na cena do rap nacional e Dina Di foi seu destaque. Ali, dá para saber, entre outras coisas, que ela tinha consciência perfeita de sua vida e de suas possibilidades: “uma mina que não tem emprego, nem estudo, nem chance” e que muitas vezes fazia e cantava rap para mostrar que estava viva, que não esquecessem sua existência.

A “família real” de Dina Di não é composta de pessoas reunidas por um sobrenome pomposo, mas por pessoas que se ajudaram, deram as mãos, samples e scracths em muitos momentos, em faixas produzidas em estúdios muitas vezes caseiros. Casada, deixa dois filhos e um marido, a quem dedicou o CD “A Noiva de Thock”. Em sua biografia, o pai faleceu precocemente e a mãe foi assassinada em casa. Passou muitas vezes pela FEBEM e estudou numa escola que não confere diplomas, mas sentenças. Sobreviveu não por heroísmo: por ser da família brasileira e que muito bem Rappin Hood lembra que por essas e muitas outras “o brasileiro é aquele que não desiste nuuuunca”.

Dina Di também não desistiu, tentou viver de todas as formas, porém acabou por confirmar a estatística que denunciou em suas próprias composições. Mulheres morrendo em maternidades, em seus corredores ou longe deles, segundo dados da UNICEF e divulgados pela BBC, atingem as raias da indecência. Nos países subdesenvolvidos, as chances de não sobreviver ao procedimento do parto, por complicações, é 300 vezes maior que nos países desenvolvidos. Essa é o mesmo tipo de indecência que exclui crianças e adolescentes, de forma sistemática, do ensino básico e os colocam na rua, no subemprego e na marginalidade antes do fim do ensino médio. Em alguma faixa de seus discos, ela diz: “terceira série foi o suficiente”. É desse jeito. Mesmo assim Dina Di será sempre autora de uma epopeia em versos. Impressionante? Impressionante mesmo é ter mantido a vontade e convicção de traduzir em ritmo e poesia uma vida vivida nessas condições.

Numa de suas letras, talvez a mais marcante delas, “Marcas da adolescência”, ela confessa: “eu quero educar meu filho e quem sabe até paz”. Um desejo que revela o sonho de viver uma vida tranquila, mas, ficar por aí, mesmo que pareça simples, também comporta grandes dificuldades, não se resolve em um passe de mágica. Não no Brasil ou quando se está abaixo da linha da pobreza. Quem explica isso é uma de suas fontes e referências, os Racionais MCs, que, na letra de “Negro drama”, sentencia que “para quem vive na guerra, a paz nunca existiu”. Dina Di, ou Viviane, comprovou isso até o último de seus dias.

Manuel Bandeira disse, lá pelas tantas de sua vida, que fazia versos como quem morre. Dina Di, a guerreira, não a rainha, fazia versos como quem vive. Fazia versos como vivia. Por isso é custoso aceitar sua partida. Que vá assim, nesse tipo de circunstância. Dina Di, a rainha, não a guerreira, tem dois fihos que viverão sob o seu exemplo e uma multidão anônima que ainda lhe permanecerá fiel por muito e muito tempo. Este é o grande poder dos poetas, não dos reis e daqueles que assim se autoproclamam. Isso mostra que guerreiros também deixam legado e geram descendência. Isso, para muitas pessoas, é razão de alívio.

Inclusão à fórceps

Lucio Carvalho

Também publicado na Rede Saci, na Envolverde, na Pauta Social, na Adital, na Apnen Nova Odessa, no Bengala Legal e na Inclusive.

Há poucos dias li uma reportagem que, como já fazia algum tempo não acontecia, me provocou a uma terceira releitura. Apesar de plenamente desperto e até satisfeito com o que lia, afinal a notícia tratava de uma bem sucedida experiência de trabalho de pessoas com deficiência intelectual numa grande empresa, aquelas palavras sacudiram alguma parte do meu subconsciente e fizeram com que meus olhos estalassem e paralisassem por um momento, mesmo que nessa altura da minha vida os ossos já tenham se adiantado a eles nesse hábito.

Ainda agora fico pensando se tinha razão para me surpreender com a informação que vasculhava no cristal líquido da tela ou se eu é que estava numa conjunção astral que favorecia o espírito à desconfiança, como num jogo aleatório de astros e posições solares e lunares. Creio que não. Mas, então, por que raios eu vacilara tanto diante de uma notícia desse tipo? Afinal, tudo parecia certo e inquestionavelmente adequado: a notícia anunciava em tom magnânimo o esforço que se empregara para que aquelas pessoas pudessem estar incluídas naquele ambiente de trabalho, que inclusive parecia ótimo: corredores limpos, móveis novos em folha, funcionários sorridentes.

Já estou tão acostumado a essa idéia de concessão para a inclusão das pessoas com deficiência intelectual que, definitivamente, posso assegurar que não foi isso o que me surpreendeu. O que me causou o estalo foi a maneira pela qual a situação foi narrada, o mérito que ainda se dá a iniciativas que visam cumprir um rito social baseado numa representação de papéis. A idéia de incapacidade subjacente ao tom de favor da iniciativa. A incapacidade do sistema produtivo em incorporar essa força de trabalho sem que seja preciso identificá-la como “trabalho especial”, ou pior, “trabalho realizado por pessoas especiais”. A bem da verdade, pior que o estalo em si mesmo é o seu efeito ca scata e a enxurrada de sensações que a leitura é capaz de causar. O lado bom é que isso pode também servir para sacudir (e estalar) um pouco estes ossos aqui.

A idéia de que os problemas relacionados à inclusão da pessoa com deficiência intelectual serão solucionados com o seu adestramento e adaptação ao mundo tal como ele é tem ganho uma força impressionante na mentalidade social vigente: de legisladores a educadores, de familiares a formadores de opinião. Parece não restar mais dúvidas a respeito de que estamos vivendo em legítimos paraísos, lugares e espaços sociais os quais não comportam um questionamento sequer. Parece que estamos tratando de um processo no qual a única adaptação que se pode desejar é a que se opera no sujeito, pois a ele é debitado todo o ajuste necessário. O sujeito é que deve ser incluído. A sociedade apenas deve abrir suas portas (nesse caso, é bom avisar a imprensa) e a mágica finalmente estará feita.

Assumir essa narrativa, esse discurso, é como dizer que vivemos na sociedade perfeita, que aprendemos através da educação ideal e compartilhamos as mais justas oportunidades sociais no mundo do trabalho também. Por outro lado, basta questionar-se por um breve momento o funcionamento da escola convencional ou do trabalho enquanto espaços sociais de produção de mentalidades, para que as forças de guarda exijam a palavra. Mas aqui, e diga-se de passagem infelizmente, não há novidades nem risco de surpresa: há uma grande abundância de nomes, manchetes e ainda uma extrema carência de coisas, de realidades. Nesse contexto, a inclusão obedece a modelos tão rígidos que não oferece perigo aos modelos de organização social ao qual submetem-se alunos e trabalhadores, educadores e também patrões.

Sem reflexão, sem impostura, sem diálogo, sem contradição, sem discordância, sem que os alunos levantem-se das cadeiras, sem que os trabalhadores assumam a consciência de seu lugar e papel, sem que educadores e famílias assumam seus erros, sem que a liberdade seja um direito efetivamente exercido, nós só teremos uma imagem pálida de um nome de algo que precisa ser real. Em sã consciência, ninguém quer que seus filhos sejam incluídos, o que é preciso é que eles possam incluir-se por si próprios, por existir espaço inclusive para eles e para suas particularidades humanas.

Uma dinâmica social que propõe como natural uma inclusão feita unilateralmente, como à forceps, é o reflexo exato da imagem de um mundo que se recusa à transformação mas que quer de imediato parecer transformado. Sei que tentarão me convencer de que as mudanças ocorrem mesmo dessa forma, gradualmente, a seu tempo, etc. Eu concordo, desde que me reserve ao direito eventual da dúvida. A dúvida é uma maneira saudável de mantermo-nos despertos.

Nesse caso, não duvido do fato de que podemos causar mudanças profundas no mundo em que vivemos. Mas também não tenho direito a deixar de duvidar, nem que seja por um instante, na possibilidade de que o mundo é quem esteja nos transformando. E o fato de que nós possamos estar sendo transformados sem esforço, e a inclusão oferecida como brinde, tem me deixado mais aflito do que exatamente em dúvida.

No Brasil, educação pública ainda é lição de casa

Mesmo em se tratando de ano eleitoral, a educação no Brasil oferece escândalos que já não conseguem aparentemente comover a mais ninguém. A começar pelos índices de evasão que, segundo dados da UNICEF, em 2009, atingem a razão de 25% entre os alunos antes da metade do ensino médio (em alguns Estados o percentual eleva-se bastante), fato divulgado sem furor no início deste ano nos meios de comunicação. Mesmo que contribua para a ocupação da 88ª posição no ranking internacional divulgado pela Unesco, atrás inclusive de países da dimensão de Honduras e Nicarágua, é possível que isso não traga consequências diretas no que se refere à ampliação dos investimentos públicos no setor neste e nos próximos anos. O reflexo disso é bem conhecido: para esta população resta, basicamente, o subsolo da pirâmide social. Mas isso não é razão para grande preocupação, afinal 2010 também é ano de Copa do Mundo, e seremos muito lembrados de que, ao menos nesse ranking mundial, figuramos altivos em seu topo.

Mas não é apenas o ranking da Unesco que compete nesse escândalo. No dia a dia das escolas muita coisa acontece. A despeito da grande divulgação que se dá em torno da violência que ronda e adentra seus pátios e salas de aula, um tipo especial de violência social se perpetua, que é a situação salarial dos professores. Violência que tem como alvo preferencial os professores da educação fundamental, responsáveis pelo início do processo educacional e pelo espaço no qual as crianças devem despertar para o aprendizado.

Esses são aqueles profissionais que tem a pior remuneração entre os professores e, apesar disso, muitas vezes são desafiados a ir além do seu papel educacional, complementando o papel de famílias vulnerabilizadas socialmente e também daquelas atingidas pela miserabilidade e violência. Mesmo que seu desafio seja hercúleo, sua recompensa é pífia, mas não são poucos os que procuram de depositar em suas costas (largas, não quentes) a culpa pelo desastre educacional que se precipita permanentemente em solo nacional. Entretanto, isso há muito não constitui um escândalo para a sociedade brasileira, pois vigora no Brasil uma espécie de pacto social no sentido de “naturalizar” a situação, não cabendo para contornar os problemas senão uma sucessão de medidas paliativas, distribuição aleatória de responsabilidades e alguns muxoxos consternados aqui e ali, sem maiores efeitos.

O desinteresse público pela educação é mais notório ainda quando o que está em questão é a educação pública. A começar pelo destino dos investimentos governamentais que, de acordo com análise orçamentária do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), é ainda inferior às metas de superávit primário, mesmo que a dívida externa já tenha sido anunciada como debelada. O Governo Federal executa um orçamento que altera muito pouco as desigualdades sociais e, se acordarmos que a educação é um fator mais relevante no equilíbrio social que o saldo da balança comercial, por exemplo, o que temos é a repetição de um cenário já conhecido há muito tempo, o cenário de deterioração das condições materiais e morais da educação pública.

A sociedade, que é composta, em última análise, por famílias e pessoas, tem parte importante nesse ordenamento de fatos. Mais interessada no consumo imediato, – e a educação não pode ser convertida em objeto de desejo se as famílias não a elencarem como algo efetivamente importante em suas vidas -, a classe média tem demonstrado maior interesse em garantir seu poder aquisitivo do que em ver as camadas mais pobres obtendo acesso a um ensino qualificado e competindo consigo no ensino superior e no mercado de trabalho. Então é possível especular que esse estado de coisas tem também o amparo moral de boa parte da sociedade, que considera também como ameaças concretas as recentes iniciativas de implementação de políticas afirmativas em áreas de interesse público, como é o caso da educação.

Diante deste quadro desolador, são de grande importância campanhas como a que será lançada em abril pela Campanha Global pela Educação Link abrirá em uma nova janela ou aba. (CGE), em mais de 100 países simultaneamente, no sentido de pressionar lideranças e políticos, em pleno ano eleitoral no Brasil, a cumprir os tratados internacionais que recomendam o financiamento e a garantia da educação pública, inclusiva e de qualidade para todos. Tendo como pano de fundo a Copa do Mundo e contando com o apoio da FIFA, espera-se que os candidatos às eleições lembrem-se de priorizar a educação em suas preocupações políticas, e que a sociedade perceba que todos têm a ganhar com a qualificação e democratização da educação.

Acima de tudo, já é tempo de que a sociedade e os governos voltem a abordar a educação pública como um imperativo social de um país que quer galgar, na economia, posições no cenário global. Antes disso, é preciso voltar a fazer lições de casa relegadas historicamente ao segundo plano, e converter esforços no sentido de amarrar o desenvolvimento humano ao desempenho econômico. Já faz muito tempo que essa bola espera um pontapé e o Brasil precisa assumir que também quer fazer parte do jogo e, no jargão futebolístico, parar em definitivo de meramente jogar para a torcida.

Amostras para o futuro: em 2010, precisamos de menos proteção à diversidade

Visão externa do Planeta TerraNo primeiro ou segundo dia, todos nós apontávamos para os nossos países.
No terceiro ou quarto dia, estávamos apontando para os nossos continentes.
No quinto dia, só percebíamos uma única Terra.

Princípe sultão Bin Salmon Al-saud, astronauta da Arábia Saudita,
citado por Carl Sagan em Bilhões e Bilhões: reflexões sobre vida e morte na virada do milênio.

Antes de mais nada a resposta é não. Nem eu fui tomado de assalto por um espírito anti-natalino nem o título acima se refere a um objetivo de algum tipo de organização ultra-conservadora. Muito menos foram os lemas de “A Onda” que serviram para fundar dentro de mim esse tipo de crença. Pelo contrário, é tudo verdade. Eu acredito mesmo nisso, que precisamos de fato de menos respeito e proteção à diversidade em 2010. E no futuro também.

Diversidade foi, sem dúvida, uma das palavras que qualquer um de nós mais deparou no ano que se encerra e engana-se que pensa que no próximo será diferente. Diversidade foi, sem nenhuma dúvida, a palavra tomada em sentido mais desigual o possível que ouvimos, lemos e também dissemos no ano que vai se encerrando e também engana-se quem imagina que, em 2010, isso será diferente.

Em 2010, todas as vezes em que a diversidade for novamente mencionada com o sentido de reforçar fronteiras, de instituir ou reforçar as diferenças entre as pessoas e grupos de pessoas, vou insistir nisso, em que respeitar a diversidade não pode ser um argumento para que se insista em segmentar a sociedade ou a cultura. Em que se perpetue a incomunicabilidade das diferenças sob o pretexto de valorizá-las. Em que não se fale da diversidade como se ela já não existisse e precisasse ser criada e fundamentada permanentemente. Em que se divorcie a diversidade da intersubjetividade inerente ao convívio humano. Toda vez que a diversidade for tomada como um conjunto generalista de identidades incomuns, eu estarei insistindo que este é o tipo de idéia que deve ser combatida. Que, se procurarmos reter os conflitos sociais indefinidamente, estaremos congelando a imagem da sociedade em uma idealização fantasiosa e em realidades sempre particulares.

A sacralização conceitual em torno do conceito de diversidade é o tipo da armadilha na qual muitas interpretações da sociedade contemporânea tem se amarrado com impressionante veemência. São, como denominou o antropólogo Clifford Geertz, os patíbulos teóricos nos quais é possível testar a prevalência de dominâncias culturais e ideológicas sem risco algum, como numa experiência controlada, como se tratasse disso. Então sei muito bem o risco de afrontar esse conceito que ficou tão caro a políticos, organismos internacionais, governos, ONGs e publicitários. Mas, sem o risco, como posso estar certo que também estou apto a errar?

A impressão de que criamos referências para demarcar nosso tempo histórico parece algo muito simples de perceber quando um ano se aproxima de chegar ao fim. Ao lado de retrospectivas, dos fatos que inscreveram-se com maior ou menor importância na história das sociedades, sejam fenômenos naturais ou decisões politicas, sejam filmes, músicas ou o comportamento que melhor caracterizou uma determinada época, algumas idéias sobressaem-se entre outras. São as idéias que “pegam”. São tão boas que parecem ter sido criadas por publicitários, mas estes apenas a perceberam num tipo de frequencia na qual são especializados em captar e também em revender, é o seu ofício. Essa retroalimentação tem, por sua vez, a funcionalidade de providenciar o reforço da própria idéia, então mais e mais ela é explorada, dimensionada e equacionada, até que se chegue a um quase completo esgotamento de seu significado. Na mente das pessoas, é como aquela propaganda que não resiste ao zap depois de dois segundos. Então a idéia está batida. E então ela é uma sucata. Deixa de ser possível ao ser humano mortal distinguir entre o que ela guarda de referência, de original, e o que é criação, adereço ou fantasia.

Em 2010, não podemos correr o risco de sucatear a diversidade, tornando-nos brandos e acuados como exemplares de espécies em extinção. Mais que enxergar a diferença, temos a urgência de aprender a trocar com ela, mudar através dela, transformar contextos a partir da nossa capacidade ilimitada de comunicação para então podermos, enquanto humanidade, transformar a maior chaga que criamos entre nós mesmos: as condições de desigualdade entre quem somos. Em 2010, espero sinceramente que a diversidade não possa existir para justificar a desigualdade, exilando a perspectiva de uma humanidade que precisa aprender a querer menos proteção individual e a oferecer mais de si mesma. Não podemos proteger a diversidade como numa redoma, mas provocarmo-nos a tentar ver até que ponto guardamos mais em comum que um genoma e um planeta. Poderemos mesmo fazer diferente em 2010 ou continuaremos os mesmos de sempre, como sentenciou Caetano Veloso, os velhos homens humanos? Que amostras de nossa capacidade queremos e podemos oferecer desde já para o futuro?

Diversidade, mas por inteiro

Capa do livro “Tudo Bem Ser Diferente”, de Todd Parr.

A divulgação de campanha promovida pela ONU em parceria com setores da sociedade civil, lançada no dia 16 de novembro, com o título “Igual a você” foi proposta para falar à sociedade de igualdade e direitos humanos. De discriminação e preconceitos. A iniciativa, proposta pela UNAIDS (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids), ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), UNIFEM Brasil e Cone Sul (Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher), UNESCO no Brasil (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime), com apoio do UNIC Rio (Centro de Informação das Nações Unidas no Brasil) chega no fim de ano e depois de um ano em que se divulgou amplamente à sociedade que os índices de preconceito na escola chegam a números alarmantes, confirmando nossa era como a era do bullying e onde todas as tentativas de combater a intolerância, qualquer que seja ela, devem ganhar força na vida prática e presença significativa na mídia.

Os índices de que falo referem-se à pesquisa encomendada pelo INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) à FIPE/USP (Fundação Instituto Pesquisas Econômicas) , intitulada “Preconceito e Discriminação no Ambiente Escolar” na qual foram divulgados percentuais de preconceito que ultrapassariam os 99%, dentro das comunidades escolares de todo o Brasil. Em que pese estes dados referirem-se a grupos heterogêneos, muitos destes grupos não estão representados ou mesmo sugeridos na campanha proposta pelos organismos das Nações Unidas. É o caso das pessoas com deficiência que, a partir deste ano, com a regulamentação da política de educação especial na perspectiva inclusiva, passam a ingressar de modo mais efetivo nas escola regulares, no que seria muito importante que fossem consideradas como alvos do preconceito, fato que pesquisas como a da FIPE comprovam e que muitas famílias Brasil afora sentem na própria pele.

Além das pessoas com deficiência, não seria difícil imaginar outros grupos excluídos deixados de fora também da campanha. Os indígenas, que lutam pelo respeito e pelo direito a sua história e encontram falta de lobby no Congresso para levar adiante suas demandas centenares, ou milenares. Os idosos, que precisam enfrentar o governo e a oposição ao mesmo tempo para efetivar seu direito à aposentadoria digna. As crianças, que são vitrine preferencial de grande parte da ação social praticada no Brasil mas que são conduzidas cada vez mais sem pudor ao mundo do consumo e da precocidade. Os ciganos não poderiam ficar de fora desta lista. Os migrantes. Os presidiários. Os pobres. Além destes, os negros, as mulheres, gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais que já participam do lançamento desta campanha. Mas ninguém deveria ficar de fora. Talvez, unindo a todos, fosse enfim evidente que os de fora possam ser até mais que os de dentro.

Mas na exclusão social não cabe um ranking, como tantos que somos levados a conhecer e são divulgados com destaque em portais de conteúdo e veículos informativos. Seria um desejo lúgubre o de dar a ver uma disputa deste tipo, embora até mesmo através da pesquisa da FIPE seja possível antever alguns dados indicativos. O que não podemos aceitar é que, ao propor-se a defesa e promoção dos direitos humanos, a exclusão também seja praticada. Se os organismos das Nações Unidas perceberem a necessidade de retratar a sociedade em seu mais amplo e fiel recorte e as próximas campanhas considerarem a diversidade humana em sua maior dimensão possível então finalmente estaremos diante da lição que o recém falecido antropólogo francês Claude Lévi-Strauss nos deixou a convite da UNESCO em fins da II Guerra Mundial: a de que não há hierarquia na diversidade e representá-la só faz sentido se por inteiro.

Inclusão, sociedade e outros abusos conceituais

Muitos conceitos costumam habitar temporariamente a mentalidade da sociedade e das pessoas. Assim foi que a sustentabilidade passou a significar menos uma postura ético-ambiental e mais um termo do arcabouço aparentemente infindável do discurso político. Participação popular, democracia participativa são termos muito empregados por pessoas que são profissionais em representar os demais. Controle público já se pode ouvir da voz eletrônica de um 0800 de uma repartição pública. Sem falar no paradigma que, também por sua origem grega, impressiona, mesmo quando não há nada perto de um paradigma em questão.

Com a inclusão não haveria de ser diferente. A inclusão é uma palavra mágica que deveria recolocar o sujeito imediatamente numa condição de vida ideal, imaginada normalmente por um terceiro. Além disso, tem a vantagem de casar muito bem com outro termo: a transversalidade. Então temos que a inclusão é transversal, ou seja, é aplicável a qualquer segmento social, grupo humano ou temática. A crença de que a inclusão fica nisso é o que torna o conceito suscetível a mal-entendidos muitas vezes criados intencionalmente. Mas a inclusão é a condição da ausência, mais que da presença. Seu foco não é o sujeito e suas particularidades, mas o ethos e suas complexidades. Muito da dificuldade em desfazer a crença comum de que a luta pela inclusão seja meramente uma tentativa de reconciliação social se deve ao fato de que também muitas vezes se faz uma relação apressada com outro conceito que também ganha eco em proporções e direções geométricas: a reparação.

A reparação é possível e cabível quando aqueles a serem reparados tem em consenso que ela por si só é condição si ne qua non de resolução de um conflito. É como um passo sem o qual não é possível avançar. A noção de reparação não tem muita semelhança com a inclusão pois aqui não há uma espécie de dívida histórica, a inclusão é uma necessária interlocução nas democracias contemporâneas porque se trata da ocupação de um vazio histórico, no qual a invisibilidade é um tipo de violência pactuada por toda a sociedade. A inclusão não existe sem o seu oposto: a exclusão. E todos os processos em que se coloca a perspectiva de incluir sujeitos é porque estes mesmo sujeitos se encontram de uma forma ou de outra alijados de seus direitos fundamentais e de qualquer oportunidade social.

Quando se fala em incluir um aluno numa escola, não se fala somente em seu direito a pertencer, a ocupar um espaço social; mas, sobretudo, em destituir a escola de sua cultura excludente, onde cabem uns e não cabem outros. Quando se fala em incluir uma pessoa no mercado de trabalho, não se está falando apenas do seu direito ao acesso ao autosustento, mas na transformação do mercado num espelho de toda a sociedade, e não apenas dos privilegiados que criam o seu ordenamento. Quando se fala em inclusão, não se fala apenas por pregação da diversidade ou pela afirmação da igualdade de direitos e oportunidades, mas se admite que o estado de direito e a organização social competem e organizam uma sociedade essencialmente desigual e heterogênea. O que se busca com a inclusão é a construção de uma sociedade mais igual, que respeite mais as diferenças entre os grupos e que providencie direitos comuns aos cidadãos e seu acesso a estes direitos.

Muitas vezes será impossível avançar nesse sentido sem que se desarticule o discurso da exclusividade, do preferencial, da proteção e até mesmo da reparação. Talvez aqui estejamos falando de um paradigma, de uma situação formalmente assumida pela sociedade. Bem como pensava Thomas Khun, não há mesmo meio de suplantar um modelo de organização sem que suas bases sejam desestruturadas, desconstituídas. A sociedade brasileira ganhará muito se conceitos como sustentabilidade, participação popular, controle público, inclusão e estado de direito deixarem de ser ameaçados por discursos vazios e eventuais. Se forem incorporados como valores “da” sociedade e não conceitos com finalidade específica. Estes são termos que precisam ser “incluídos” em definitivo em nossa sociedade para que possamos começar a construir mais realidades e menos conceitos. Mais dignidade para a vida de todos e menos discurso. Para que possamos construir de uma vez um novo tempo a partir de agora.