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Uma pequena fábula de algodão

Contam que o homem começou a tremer do nada e seu balanço foi aos poucos aumentando o andamento da orquestra inteira. Primeiro o pianista ergueu os braços como a perguntar o que havia. Depois o resto dos metais, as madeiras, o baixista e o baterista, todos foram parando, já não encontravam meio de sustentar o chão para o homem, que passou a levitar diante de todos. A fumaça era grande e espessa. É mil novecentos e vinte e tantos. Tudo parece cena de filme antigo e o preto na face do homem brilha por causa da luz do lustre de cristal. Ainda é o único jeito de brilhar, pondo-se em água, tal como nos algodoais do Mississipi. Pode-se perceber como seu timbre tem como se a voz de uma criança sedenta. Ninguém sabe o que ele sente mas ele sabe que gosta do que sente. É como hashish, mas hoje sequer ele esteve no porto. Na verdade, ele foi à capela e rezou em silêncio, sem devoção. Saiu de lá com o estojo do tenor abraçado diante do corpo. Possesso, é o que estão dizendo, mas quem vai saber que deuses é que eles seguem afinal de contas? Mas não foi por isso que o homem de terno branco chegou até sua frente, segurando suas pernas e implorou chorando: “Por Deus homem, pare com isso.” E quando ele parou finalmente, foi a última vez que ele tocou o primeiro solo de saxofone da história da música dos negros daquele lugar. E ninguém jamais lembrou da levitação nem de nada do que viram ou do que pensaram ter visto.