Arquivo da tag: tradução

Poesia de María Zambrano

María Zambrano Alarcón (1904 – 1991 ) foi uma intelectual, filósofa e ensaísta espanhola. Foi aluna de Ortega y Gasset e também de Xavier Zubiri e de Manuel García Morente. Sua extensa obra apenas foi reconhecida na Espanha no último período do século XX , após um longo exílio. Já idosa, recebeu os dois maiores prêmios literários concedidos na Espanha: o Prêmio Príncipe das Astúrias, em1981, e o Prêmio Cervantes, em 1988. No Brasil, tem uma única obra publicada, o livro Filosofia e Poesia, pela editora  Moinhos, em 2021. As traduções a seguir basearam-se na edição preparada por Javier Sánchez Menéndez para a Ediciones de la Isla de Siltolá, de Sevilha, em 2018.

QUE TUDO se pacifique como uma lamparina.
Como quando o mar sorri,
como o teu rosto, se de repente esqueces…
Esqueces porque eu já esqueci tudo. Não sei de nada.
Nada a teu respeito.
Nada sob tua sombra amarela, semente da árvore do esquecimento.
E tudo será como antes.
Quando nem tu e nem eu havíamos nascido.
Mas… Nascemos?… Talvez não, ainda não.
Nada, ainda nada. Nunca nada.
Somos o agora sem pensamentos.
Lábios sem suspiros, mar sem horizonte,
como uma lamparina que sobrevive ao esquecimento.

QUE TODO se apacigüe como una luz de aceite.
Como la mar si sonríe,
como tu rostro si de pronto olvidas.
Olvida porque yo he olvidado ya todo. Nada sé.
Cerca de ti nada sé.
Nada sé bajo tu sombra, amarilla simiente del árbol del olvido.
Y todo volverá a ser como antes.
Antes, cuando ni tú ni yo habíamos nacido.
Pero, ¿nacimos acaso?… O tal vez, no, todavía no.
Nada, todavía nada. Nunca nada.
Somos presente sin pensamientos.
Labios sin suspiros, mar sin horizontes, como una luz de aceite se ha extendido el olvido.


NEM BRISA nem sombra.
Por que, morte, te escondes assim?
Sai, salta, solta-te desse abismo!
Foge! Quem te segura?
Por que não apagas o universo com o teu olhar?
Por que não desfaz as pedras
com a tua sombra, com a tua morte, só com tua sombra,
com a mão vazia,
com teu rosto de estátua,
presença nua a quem nada resiste?
Ensina, mostra teu rosto para os mundos,
já não há mais espaço
sem céu, sem vento, sem palavras.
Eu só quero afundar no silêncio.

NI BRISA ni sombra.
¿Por qué, muerte, así te escondes?
Sal, salte, sácate de tu abismo, escápate tú, ¿quién te retiene?
¿Por qué no borras con tu mirada el universo?
¿Por qué no deshaces las piedras con tu sombra, muerte, sólo con tu sombra, con tu mano desnuda,
con tu rostro de estatua, desnuda presencia a quien nada resiste?
Enseña, muestra tu cara a los mundos, que ya no haya espacio,
ni cielos, ni viento, ni palabras.
Quiero hundirme en el silencio.


AO MEU ANJO

… Não há mistério,
apenas trabalho, tristeza,
e essa erva amarga.
Mas me conduzes
sem que eu te peça nada.
Sim, eu quero ser as tuas asas
despencadas, derramando
chuva de lágrimas por mim.
Porque tu me lamentas,
lamentas pelo meu ser,
porque sentes o meu amor contigo.
Sou tua feiura, a estranha
impotência a ti confiada.
Como eu te peso,
eu, a invisível,
sou tua pedra,
o óleo que unge tuas asas,
sou teu arrasto
e, nos instantes infinitos,
teu desespero.

Ó Anjo!
Serei eu teu inferno?
Eterno retorno
da tua leveza que aprisionei.
De uma forma obscura
eu me ponho a teus pés
para ser queimada, esfumada,
vítima necessária da tua liberdade.
Não me deixe existir,
é o que te peço.
Avalia bem,
sou tu, mas irredutível.
Até quando vai
a tua condenação?

A MI ÁNGEL

… Y no hay misterio
sólo trabajos, pesadumbre,
y esa amarga yerba.
Pero tú me conduces
y nada te pido.
Sí, quiero ser tus alas
caídas, ahora, llanto,
lluvia de lágrimas por mí.
Porque tú me lloras,
lloras mi no ser
porque me sientes amantísima a tu lado.
Soy tu fealdad, tu impotencia
extranjera a ti confiada.
Cómo te peso,
yo, la invisible,
soy tu piedra,
el aceite que unta tus alas,
tu rémora
y, en instantes infinitos,
tu desesperación.

¡Oh, Ángel!
¿Seré tu infierno?
Eterno retorno
de tu ligereza por mí aprisionada.
Como una oscura cosa
me ofrezco a tus pies
para ser quemada, ahumada,
víctima necesaria de tu libertad.
No me dejes existir, pues que te
peso.
Tú me mides,
soy tu irreductible,
¿hasta cuándo?,
tu condena.


FALA UMA PEDRA

Porque me olharam, porque fui levada, possuída, deixei de viver.
Enfeitiçada, sou apenas um apoio, mas nada me sustenta.
Sempre aqui,
súdita do espaço.
Onde está agora o olhar que me fascinara?
Precisavas de mim para ser tua sombra?
Possuidora, és tão frágil que só com mágica te estabeleces.
Tu, aquela que nasceu assustada, a inválida,
tu me amaste para então cair sobre mim.
O amor que indicas, me diz, é isso?
Eu era luz, reflexo, mas e tu? Diz,
não podias
revelar-te a mim?
Mas não; eu sou o teu ser, eu, teu suporte.
Eu, enterro do meu ânimo e prova do teu não-ser.
Agora, estás longe.
E andas, mendiga, em busca de comida.
Feitiços de alma, gestos do Senhor.
Novos amigos, ainda invisíveis, virão me procurar.
Não, eles cairão, cairão para que tu te ergas, levantes.
Tu virás me procurar, já sem me conhecer, sem saber.
Mas eu sei. Eu não sei de nada.
Eu sou a memória
acusadora, que nada trai, resistente, adversária.
Eu, peso de tua história.
Eu, também a tua calma.
O lugar maleável
e hostil que não se opõe a ti.
Tu poderás?
E também sou tua calúnia, a mentira já lançada, e não me temas.
Tu me nomeias: matéria.
Nada mais.
Mas tu voltas, alienada, cúmplice, derrotada.
Como és ignorante… a sábia.

HABLA UNA PIEDRA

Porque he sido mirada, porque fui tomada, poseída, cesé de vivir.
Hechizada, sólo soy un soporte, mas nada me sostiene.
Aquí, siempre
súbdita del espacio.
¿Adonde estás, ¡ah!, mirada que me fascinaste?
¿Me necesitabas para ser tu sombra?
Poseedora, tan frágil que necesitas hechizar para erigirte.
Tú, la que naciste asustada, la inválida,
me amaste para caerte en mí.
El amor que nombras, dime, ¿es eso?
Era yo luz, reflejo, ¿y tú? Di,
¿no podías
revelarme tu ser?
Pero no; yo soy tu ser, Yo, tu soporte.
Yo, sepultura de mi aliento y prueba de tu no-ser.
Estás ahora lejos.
Andas, pordiosera, en busca de alimentos.
Hechizas alma, gestos del Señor.
Nuevos compañeros, ya invisibles, vendrán a buscarme.
No, caerán, solamente esos caerán para que tú te erijas, te levantes.
Tú vendrás a buscarme, tú, ya sin conocerme, sin saber.
Pero yo sé. Yo sé nada.
Yo soy memoria
acusadora, delatora nada, resistente memoria, adversaria.
Yo, peso de tu historia.
Yo, también tu calma.
Yo, el lugar manejable[7]
y el hostil no que se te opone.
¿Podrás?
Soy también tu calumnia, tu mentira ya arrojada, y no me temas.
Me nombras: materia.
Nada más.
Pero vuelves, enajenada, cómplice, vencida.
Ignorante tú, la sabia.


ESTOU MUITO exausta para escrever, muito ocupada. Só podia mesmo fazer poesia, porque poesia é tudo e nela não é preciso dividir-se. Pensar divide a pessoa; de outro modo, o poeta é sempre um. Daí a angústia indescritível, e daí a força e a legitimidade da poesia.

ESTOY DEMASIADO rendida para escribir, demasiado poseída. Sólo podría hacer poesía, pues la poesía es todo y en ella uno no tiene que escindirse. El pensar escinde a la persona; mientras el poeta es siempre uno. De ahí la angustia indecible, y de ahí la fuerza y la legitimidad de la poesía.

Um lugar para ficar

Nick Drake
trad. do inglês

Quando eu era jovem, ainda mais do que agora
Nunca vi a verdade pendurada na porta
E agora estou mais velho, vejo isso em meu rosto
E agora preciso levantar, limpar este lugar

Eu era verde, mais verde que os montes
Onde as flores crescem e o sol ainda brilha
Agora estou mais escuro que o mar mais profundo
Então apenas me aceite, me dê um lugar para ficar

E eu era forte, forte como o sol
E pensei que o veria quando o dia acabasse
Agora estou mais fraco que o azul mais pálido
Oh, tão fraco nessa espera por você

3 canções de Karen Dalton

Karen Dalton (1937-1993) foi uma cantora e compositora norte-americana descendente de indígenas Cherokee e que chegou em Nova York, vinda de Oklahoma, para integrar o movimento de folk music do Greenwich Village. Gravou dois discos de estúdio, It’s So Hard to Tell Who’s Going to Love You the Best e In My Own Time, entre 1969 e 1971, e possui algumas gravações ao vivo. Em 2012, uma coleção de suas letras, poemas e escritos foi reunida em livro por Peter Walker. Em 2015, diversos artistas produziram um disco de suas músicas inéditas, intitulado Remembering mountais. Sobre sua vida, carreira e destino trágico, o cineasta Win Wenders produziu em 2020 o documentário Karen Dalton: In My Own Time. Neste ano, 2022, 12 novas gravações e imagens de Karen vieram a público com a edição do disco Shuckin’ Sugar.

Katie Cruel

Quando cheguei na cidade
Me chamavam “joia itinerante”
Agora eles mudaram de tom
Me chamam de Katie Cruel

Eu vou pela floresta
E através da lama pegadiça
Caminho sob a estrada
A fim de ouvir meu coração

Se eu estivesse onde queria
Então estaria onde não estou
Aqui estou porque preciso
Onde queria, não posso mais

Quando eu dei por aqui
Trouxeram bebidas sem fim
Agora mudaram de tom
Trazem as garrafas vazias

Se eu estivesse onde queria
Então estaria onde não estou
Aqui estou porque preciso
Onde queria, não posso mais

Katie Cruel

When I first came to town
They call me the roving jewel
Now they’ve change their tune
Call me Katie Cruel

Through the woods I go
And through the boggy mire
Straight way down the road
‘Til I come to my heart’s desire

If I was where I would be
Then I’d be where I am not
Here I am where I must be
Where I would be, I cannot

When I first came to town
They brought me drinks of plenty
Now they’ve changed their tune
And hand me the bottles empty

If I was where I would be
Then I’d be where I am not
Here I am where I must be
Where I would be, I cannot


Algo em mente

Ontem
De qualquer modo você o fez, está tudo bem
Eu vi você transformar seus dias em noites
Você não sabia
Você não pode fazer isso se não tentar
E algo está em sua mente, não é assim?

Um dia desses você vai ver que estava quebrando a cabeça
Deixando todos os seus sonhos para trás
Você não viu
Você não pode fazer isso se não tentar
E você tem algo em mente, não é?

Talvez num outro dia você vai querer sentir de outra maneira
Mas você não pode parar de chorar
E você não tem uma só coisa a dizer
E sente que quer fugir
Mas não adianta tentar, de qualquer jeito
Eu vi o que está escrito na parede
Quem não puder se manter sempre irá cair
Você não sabia?
Você não pode fazer isso se não tentar

E você tem algo mente, não é assim?
Você tem algo em mente, não tem?

Something on your mind

Yesterday, any way you made it was just fine
So you turned your days into night-time
Didn’t you know, you can’t make it without ever even trying?
And something’s on your mind, isn’t it?

Let these times show you that you’re breaking up the lines
Leaving all your dreams too far behind
Didn’t you see, you can’t make it without ever even trying?
And something’s on your mind

Maybe another day you’ll want to feel another way, you can’t stop crying
You haven’t got a thing to say, you feel you want to run away
There’s no use trying, anyway
I’ve seen the writing on the wall
Who cannot maintain will always fall
Well, you know, you can’t make it without ever even trying
Something’s on your mind, isn’t it?
Tell the truth now, isn’t it?

Something’s on your mind, isn’t it?
Something’s on your mind


Relembrando montanhas

O sol cairá no desfiladeiro
Eu rezo em cada pedra e árvore
Deixe a beleza no fim
E que tudo fique belo
E que tudo termine belo

Agora o tempo é seu, você estará sozinha
Em seu quarto, lembrando-se das montanhas
Você acha ainda que as estações mudam sem o seu coração?
Você está sonhando?
Todos os dias iremos até você, desiludindo-a
Você saberá que não há separação sem tristeza

Então você sentará perto da janela, vendo os dias passarem
Sozinha em seu quarto, lembrando montanhas
Você pensa em todos os caminhos que não seguiu?
Você está sonhando?
A cada lugar que vamos, você não sabe, mas amanhã
Eu acredito que amanhã você encontrará
O que a trará de volta

Remembering mountains

Sun will fall across the canyon wall
My prayer on every stone and tree
Let the last be beauty
All in beauty, all in beauty

Now your time is your own, you’ll be alone
And sit in your room remembering mountains
Do you think the seasons change without your heart?
Are you dreaming?
Every day and night we’ll come to your mind, undeceiving
You will know there’s no parting without sorrow

So you sit by the window, watching the days go
Alone in your room remembering mountains
Do you think of all the ways that you didn’t follow?
Are you dreaming?
Every way we lead, you are undefined, tomorrow
I’m believing you will find tomorrow
Brings you to return

Poesia de Hannah Arendt

Prometida para o ano de 2020, a edição brasileira dos poemas de Hannah Arendt ainda não aportou nas livrarias nacionais. Tampouco há notícia de que o lançamento esteja no prelo ou ao menos a caminho. O hiato não é bem uma novidade: entre os anúncios de publicação e o efetivamente publicado, sempre restam lacunas. Ao contrário de outros países, no Brasil a poesia de Hannah Arendt infelizmente parece ter caído nesse limbo editorial.

Com poemas escritos entre 1923 e 1961, sua produção é a de uma poeta bissexta que, todavia, praticou os versos ao longo de toda a sua vida. É muito possível que tenham escapado aos editores alguns poemas registrados em diários ou correspondências, porém na edição completa de sua poesia tem sido considerados os 71 poemas publicados em 2015 na Alemanha sob o título Ich selbst, auch ich tanze, pela Piper Verlag.

As traduções mundo afora não demoraram. No mesmo ano de publicação, em 2015, a espanhola Herder Editorial publicou o trabalho de tradução organizado por Alberto Ciria, intitulado Poemas e que traz o posfácio da professora e estudiosa Irmela von der Lühe, da Universidade Livre de Berlim, também prsente na edição alemã. Em 2020, em Portugal, publicou-se uma coleção limpa de seus poemas pela Sr Teste, traduzidos por José Aigner. Nos Estados Unidos, prepara-se a edição para o começo de 2023 do trabalho de tradução da pesquisadora e biógrafa de Hannah, Samantha Rose Hill. Em artigos e estudos, traduções de seus poemas apareceram ainda antes: na década de 1990 na França e em torno de 2013 no Brasil, em trabalho apresentado por Odílio Aguiar e Rosiane Mariano, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Amiga pessoal de muitos poetas, entre eles W. H. Auden, com quem se correspondeu e a quem dedicou um célebre ensaio na New Yorker, Hannah, contudo, nunca se identificou como poeta e toda a sua produção conhecida é póstuma. Entre seus poetas preferidos, Schiller, Heine, Goethe e o seu contemporâneo Bertold Brecht.

Estranharão os leitores, talvez, o encontro com uma poesia muito amorosa e com muitas referências aos amigos As edições incluem um poema aqui traduzido, escrito por Hannah aos 17 anos, ou seja, uma produção bastante precoce. São poemas que certamente refletem o espírito do seu tempo e deixam ver um tanto da sua filosofia também. A maioria destes poemas do livro trata de um tempo obscuro e da busca pela lucidez, no entanto ela sempre mantém, mesmo nestes poemas mais obscuros e reflexivos, um tom de esperança viva muito forte, o que também é muito presente e marcante em sua obra filosófica.

[5] Müdigkeit

Dämmernder Abend –
Leise verklagend
Tönt noch der Vogel Ruf
Die ich erschuf.

Graue Wände
Fallen hernieder,
Meine Hände
Finden sich wieder.

Was ich geliebt
Kann ich nicht fassen,
Was mich umgibt
Kann ich nicht lassen.

Alles versinkt.
Dämmern steigt auf.
Nichts mich bezwingt –

Cansaço

Como um lamento silencioso
o crepúsculo soa ainda
a chamada dos pássaros
que eu criei.

Paredes cinzentas
desmoronam
enquanto minhas mãos
se reencontram.

O que vim a amar
não posso pegá-lo.
O que me rodeia
não o posso deixar.

Tudo se funde.
Paira o poente.
Nada me poderá submeter:
assim a vida segue seu curso.


[20] An die nacht

Neig Dich, Du Tröstende, leis meinem Herzen.
Schenke mir, Schweigende, Lindrung der Schmerzen.Deck Deine Schatten vor Alles zu Helle –
Gib mir Ermatten und Flucht vor der Grelle.

Lass mir Dein Schweigen, die kühlende Löse,
Lass mich im Dunkel verhüllen das Böse.
Wenn Helle mich peinigt mit neuen Gesichten;
Gib Du mir die Kraft zum steten Verrichten.

Para a noite

Tu que consolas, inclina-te muda sobre meu coração.
Tu que te aquietas, reserva alívio às minhas dores.
Cobre com tua sombra o que está claro demais
e me traz indiferença para que eu fuja ao estridor.

Deixa para mim teu silêncio, a tua libertação.
Deixa que se oculte o mal em meio à escuridão.
E quando a luz me atormentar com novos fantasmas
dá-me força para prosseguir meu desígnio.


[36] Ohne titel

Flüsse ohne Brücke
Häuser ohne Wand
Wenn der Zug durchquert es –
Alles unerkannt

Menschen ohne Schatten
Arme ohne Hand

Sem título

Rios sem pontes,
casas sem paredes:
não se reconhece nada
à passagem do trem.

Homens sem sombras,
braços sem mãos.


[55] Ohne titel

Helle scheint
in jeder Tiefe;
Laut ertönt
in jeder Stille.
Weckt das Stumme –
dass es schliefe! –,
hellt das Dunkel,
das uns schuf.

Licht bricht
alle Finsternisse,
Töne singen
jedes Schweigen.
Nur die Ruh’
im Ungewissen
dunkelt still
das letzte Zeigen.

Sem título

Não há profundidade
onde a clareza não brilha e
nem silêncio
onde o som não ressoa.

Desperta o silêncio –
mesmo que permaneça dormindo! – .
Ilumina a escuridão
que nos criou.

Não há trevas que a luz não vença
nem silêncio que não se entoe.

Mas essa calma
que repousa no incerto
silenciosamente nos obscurece
como um epílogo.

Canto fúnebre sem música

Edna St. Vincent Millay (1892-1950)
trad. do inglês

Não aceito que vão abaixo, à terra dura, os corações afáveis.
Eu sei que é assim, tem sido assim, desde sempre:
Vão-se de uma vez só sábios e amáveis. Coroados
Com louros e lírios, partem; mas não me peçam que aceite.

Amantes e pensadores, todos ao fundo da terra!
Unam-se ao indistinto, à poeira, ao pó.
Um trecho ou dois é o que resta
Do que sentiam, mas está perdido o melhor.

Os chistes, o olhar honesto, o riso, o amor,
Eles se foram. Para o alimento das rosas curvilíneas. Elegantes
São as flores. E perfumadas, eu sei. Mas não aprovo.
Mais preciosa era a luz em seus olhos do que todas as rosas do mundo.

E descem, descem, descem à escuridão da campa
E delicadamente vão. O belo, o bravo, os bons quase perfeitos.
Tranquilamente os engraçados e valorosos a morte encampa.
Eu sei. Mas eu não aprovo. Eu não aceito.

Ricardo Guiraldes (1886-1927)
trad. do espanhol

Eu já me perdi de mim mesmo.

Às vezes, tomo as lembranças entre as mãos, com carinho, e busco a infância distante, onde ficaram minha fé e minha força. Eu as vejo ainda lá, detrás de uma intransponível transparência no tempo mostrando com desprezo minha impropriedade de agora e mais admiro a chama tremeluzente de sua firmeza.

Perdi-me de mim mesmo quando mais fundo me busquei, como se a força de viver houvesse morrido.

Levo meus braços a frente e o que há é um sem fim. Como alcançar?

Espero.

Uma voz maior me dirá: Vem!

E, a partir daí, caminharei com tudo revelado, de joelhos, num campo de feridas, carregando na garganta o travo da vitória.

O fim dessa dor será antecipado pela foice dos meus passos, como uma saudação do trigo ante a segadora.

Perdi-me de mim mesmo e espero.

Senhor, eu tenho os braços estendidos…

O homem sofre a sua vergonha na minha carne.

As palavras hostis e as ofensas me parecem a verdadeira fortuna.

A culpa de cada um é de nós todos. Por que não sofrê-la? Preciso aprender:
a resistência à dor que tuas mãos me impõem;
serenidade intransponível ante a quem me ultraja.

E, melhor que julgar aos demais, limpar-me das próprias imundícies.

Se tenho ao alto as mãos, quanto mais baixo meu gesto aconteça, que ele então seja esquecido.

[Fé. In: Poemas místicos. 200 exemplares publicados por Adelina del Carril de Guiraldes. Buenos Aires, 1928.]

Os dragões me vencem

Juan Eduardo Cirlot (1916-1973)
trad. do espanhol

Vasculho no silêncio da gruta
as runas sob o branco da lua.
E, enquanto vou procurando,
afio minha espada com o nada.
Há algo no coração que é de dragão.

Eu luto contra um monstro, mas não o mato.

Buscar, continuo buscando:
o castelo do anel,
o estreito nessa voz branca.

Tenho um nome de sombra;
o meu não é um nome de homem.

Eu rasgo de preto para branco,
arranco do branco para o rubro,
eu rasgo do rubro; eu quero o ouro –
o ouro do seu ser e seu morrer,
cálice azul em que a luz descoberta
sela a lucidez do infinito.

Eu ontem beijei teus lábios

Pedro Salinas (1891-1951)
trad. do espanhol

Foi ontem que beijei tua boca.
Os lábios, a tensão
rubra. Foi um beijo tão curto,
durou mais que um raio,
mais que um milagre. Depois disso
não quis mais nada
e também nada havia pretendido antes.
Começou e terminou nele.

Hoje estou beijando um beijo;
e só, só com a minha boca.
Tocar a sua com meus lábios,
não, não mais …
– Como fui perder isso? –
Eu os coloquei
no beijo que te dei,
ontem, com as bocas juntas
do beijo que eles beijaram.
E esse beijo dura mais tempo
que o silêncio, que a luz.
Porque não é mais a carne
nem a boca o que eu beijo,
tudo isso foge de mim.
Não. Mas o beijo de
agora está durando mais.

Eu perdi algo nos montes

Sibylle Baier
trad. do inglês

Nos últimos tempos
Eu sempre choro
Quando passo pelos montes

Oh, o que as imagens me trazem
Oh, eu espero tanto
Pelas raízes da floresta
A origem das minhas brutalidades

Eu perdi algo nos montes
Eu perdi algo..

Outros crescem nas cidades
Eu cresci nesses montes
Onde primeiro o amor e a alma surgem
Lá vão os tempos da minha vida
Quando me sentia doida, desvairada
E somente a campina me trazia esperança

Quando minha perna passar da grama alta, eu morrerei
Eu vou morrer sob o jasmineiro –
Sob a árvore mais velha –
Então eu não preciso estar preparada

Eu vou morrer sob o jasmineiro
E sob uma velha árvore
Eu não preciso me preparar para um novo dia
Onde vou preencher a profundidade do que sinto?

Você vai dizer que eu não sou o pisco da floresta
Mas como eu poderia não deixar sinais
De que perdi algo nos montes?

Eu perdi alguma coisa nos montes
Oh, eu perdi algo nas montes..

Agora eu me inclino no peitoril da janela
E eu choro, embora seja bobagem
E eu estou sonhando completamente..

Oh eu sei, mais a oeste existem estas montanhas
Marcadas por macieiras, sulcadas pela corredeira
Isso me leva aonde eu quiser

Bem, eu perdi algo nos montes
Eu perdi algo nos montes.
Oh, eu perdi algo..