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Confissões manifestantes

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Sempre estive curioso pelo oculto. O oculto do próprio real, cumpre dizer, não o oculto do ocultismo. Não que eu menospreze o que não é sabido nem nominado, mas tenho dificuldade patente em apreender a linguagem das brujas (que las hay hay?). O oculto que é meramente desconhecido por ignorância, tenho curiosidade por ele. Fico aflito só em imaginar que a gravidade ou a relatividade existam independentemente da compreensão que temos dela. Assim como a economia monetária, a política internacional e muitas correntes filosóficas que ignoro por completo e, ainda assim, estão determinando minha vida. Nossas vidas.

Recentemente nada tem me intrigado mais que saber para onde foi o imenso sentimento de indignação que percorreu o país de norte a sul há cerca de dois meses. Acabou? Foi para casa? Para o shopping? Tomou Rivotril? Voltou a dormir? Ou, pior dos piores, não era nada disso, teria sido apenas um mal entendido? Uma invasão de um sentimento absolutamente virtual no real? Uma mera confusão provocada pelo choque de memes da internet, palavras de ordem aleatórias e uma dose de insatisfação popular?

Há poucos dias atrás consegui uma pista interessantíssima por onde começar a pensar no assunto. Um amigo, adesista de última hora aos protestos, me revelou o que segue. Seu depoimento é banal e ao mesmo tempo fundamental, mais ou menos na mesma medida.

Ele me diz que nunca na vida protestou por coisa nenhuma. De origem humilde, esforçou-se bastante para chegar a universidade e formar-se. Mas conseguiu. Durante praticamente toda a vida valeu-se do transporte coletivo, nunca teve facilidades, mesmo quando a família precisou morar em uma área conflagrada da cidade. Escapou de “algumas” e hoje vive com a mãe, a mulher e o filho em um bairro mais tranquilo. Trabalha, paga seus impostos, tem o nome limpo no SERASA e joga um futebol no fim de semana, com os colegas de trabalho. Ele se diz bem feliz da sua vida, o que o faz, sobretudo, um amigo agradável.

Quando os protestos começaram, aqui em Porto Alegre, não pensou em aderir, não sentia que tivesse um porquê para ir às ruas, uma necessidade expressa. Nunca tinha visto aquilo na vida, porque cresceu no hiato entre a redemocratização e a era Lula, mas vendo que entre as pessoas cada vez mais havia pessoas como ele próprio, resolveu ir à rua também. Por um desejo de identificação, apenas. Não levava cartaz nenhum nas mãos, apenas os olhos abertos e a voz para o coro daqueles que cantavam e gritavam por melhores condições de vida. Havia coisas que os outros gritavam que ele não gritou e pulinhos que os outros deram que ele não pulou. Estava ali a sério e pela vontade de sentir-se participante de alguma coisa. Não depredou coisa nenhuma e acompanhou as marchas inclusive nos dias mais frios do inverno. Mesmo assim conheceu a ardência do gás lacrimogêneo e correu da polícia, que bobo ele não é nem nunca foi.

Tudo normal até aí, mas ele relata também que, pensando com um pouco de distanciamento, não se sentia lá muito à vontade nos protestos. Disse que não sabia se podia confiar em quem estava ao seu lado ou não, ali não eram todos iguais, nem bandeira de partido havia, fora os sujeitos com aquela máscara sorridente e ameaçadora. Ônus da vida na metrópole, o anonimato e a desconfiança mútua estão inscritos como se no DNA de seus habitantes. Ainda mais em aglomerações. Também ele disse que não se sentia digno o suficiente para reclamar da vida, porque nunca na vida o tinha feito. Se a vida é de viver, o que ele fazia era vivê-la. Com seus prazeres e dissabores. Tudo muito claro e certo.

O que me espanta no seu depoimento é que ele revela o que deveria ser óbvio, mas não o é, que é o simples fato de que as pessoas não se sentem à vontade em um protesto. Claro, isso se você não está na vanguarda, com muita vontade de queimar um contêiner de lixo ou bater de frente com a policia militar, mas simplesmente acompanhando as pessoas. Ele diz que sentia um dever cívico de estar ali, porque não gosta do esquema político, nem dos partidos e nem das pessoas que fazem a política, mas que era um dever que, se pudesse, abriria mão. Na sua concepção de democracia, protestar é um gesto excepcional. O natural é levar a vida, com seus cotidianamentes.

À vontade mesmo ele diz que estaria no shopping, fazendo compras, no estádio torcendo pelo seu time, na sala de casa assistindo TV com a família ou navegando no aquário das redes sociais. À vontade ele diz que está quando vai ao supermercado e não falta dinheiro para pagar as compras. Quando deixa os filhos na escola e eles ficam ao encargo de professores interessados em sua educação. Quando precisa de médicos e basta pegar o telefone e marcar uma consulta. Porque isso foi tornando-se cada vez mais improvável de obter assim, com essa tranquilidade, ele pensou que era hora de unir-se ao coro dos descontentes, mesmo que mais tarde eles fossem resumidos socialmente em minorias absolutas, como os Anonymous ou os Black Blocs. Não ele. Ele era a maioria, mas agora ele sumiu também. E junto a sua indignação anterior, agora também acompanhado por certa decepção. A decepção do dissenso. A decepção do “não sei se vale a pena fazer alguma coisa”.

O que ele queria é o que o transporte público fosse outro, a educação e a saúde também. Essas coisas que se chamam direitos sociais. E que os serviços pelos quais ele paga também fossem outros. Nada disso, ele não havia saído a rua para depor os governantes, mas para reclamar que eles governassem. Para que as coisas funcionassem do mesmo modo que sua vida funcionava, com hora marcada, tributo pago, dever cumprido.

Mas será que, por não aparecer às claras, a insatisfação deixa simplesmente de existir? Onde a guardamos, quando a ocultamos e depositamos (uns mais, outros menos) alguma fé nas jogadas políticas que visam amortecer o sentimento público de revolta e a impaciência civil?

A impressão que fica é a de que, enquanto não pagarmos para nos revoltarmos, deve-se tolerar tudo, como se há tolerado através dos tempos. Seria o caso, talvez, de estabelecer o ticket-protesto, porque parece que há um convencimento de que a única lógica da qual se pode integrar socialmente nestes tempos é a lógica do consumidor. É pagar ou não ter.

Porque tenho filhos pequenos, me vi compelido lá pelas tantas a conhecer um pouco sobre desenvolvimento infantil. O psicólogo suíço Jean Piaget foi o autor que pensou a teoria da permanência do objeto, pela qual se explica um marco específico de desenvolvimento no qual a criança é capaz de entrever a presença de um objeto mesmo ele estando oculto. É a famosa brincadeira do “achou”, que tantas gargalhadas rendem aos infantes e seus pais. Pois bem, não sei se as outras pessoas sentem-se assim também, mas eu mantenho (talvez de forma infantil) a expectativa de que a população saia do encobrimento e volte a manifestar-se, nem que seja por abstrações incondenáveis, como “dignidade”, “direitos”, etc.

Talvez ainda mais certo fosse subir alguns degraus da escala do desenvolvimento e apelar logo para o poder dos verdadeiros ocultistas, videntes, cartomantes, etc. Já que grande parte dos cientistas e analistas falhou em prever os fatos do “inverno brasileiro” e superstimou seus efeitos, a chance de entender onde nós guardamos o pinguinho de civilidade demonstrado dias atrás voltou a estar lá fora, no oculto, já que nossa “revolta interior” parece aquietar-se facilmente com doses regulares de sossego e consumo. O resultado dessa pasmaceira é conhecido, é a manutenção da insatisfação geral em oculto. É receber em conta-gotas o que deveria ser água corrente. E se isso era para ser apenas uma brincadeira de crianças, sinto muito, então já perdeu a graça. Melhor deixar o véu cair e ver cara a cara quem é quem.

Passe livre para grandes expectativas

Saimos do facebook

Tente contar nos dedos o número 21. Os 20 dedos dos seres humanos não são sequer suficientes para chegar a esse total. Vinte e um anos é mais que a maioridade penal. É tempo suficiente – em tempos de adolescência precoce – para a gestação de duas gerações de brasileiros, considerando as meninas que, aos 12, estão tendo seus primeiros filhos. Vinte e um anos é o hiato que separa a semana passada do ano em que se deflagrou no país aquilo que se chamou de movimento Fora-Collor, um dos últimos momentos nos quais a população, por um estrito interesse civil, tomou as ruas das principais cidades brasileiras.

É muito provável que boa parte dos adolescentes que foram às ruas na última semana em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e cerca de outras quinze cidades, tendo como principal bordão o aumento das tarifas do transporte coletivo, sequer tenham nascido antes de 1992, quando os adolescentes de então pintaram o rosto de verde-amarelo e ganharam as avenidas pedindo o impeachment do Presidente Fernando Collor de Mello. Não é de se imaginar, portanto, que se trata de pessoas que tenham aprendido a lição dos mais velhos, assim como aqueles por certo não aprenderam com os manifestantes do movimento Diretas-Já, que ocorrera dez anos antes, em 1983, no que seria, para os manifestantes de agora, algo tão remoto quanto a Revolta da Chibata ou o golpe militar de 1964, assim como o respectivo movimento estudantil dos anos de chumbo.

Mesmo que se pretendesse, seria bastante difícil encontrar na história recente do Brasil respaldo para mobilizações populares como as que ocorreram na última semana. Por vinte e um anos, parece que o Brasil experimentou e se deliciou com a pax economica, sob a alternância dos governos de PSDB e PT. Não por acaso, as grandes reuniões populares no período se deram única e exclusivamente nos grandes comícios, principalmente aqueles liderados pelo então candidato Luis Inácio Lula da Silva. Catalisando a expectativa por um governo identificado com os movimentos sociais populares, parecia que pouco mais havia a se desejar socialmente. Bastava que o candidato da proposta “alternativa” chegasse legítima e democraticamente ao poder e então a população poderia desfrutar tranquilamente da nação e fruir de seus direitos, sem qualquer necessidade de protesto. O tom parece fabular, mas os fatos são tão reais que renderam ao candidato, antes o intragável “sapo barbudo”, a própria reeleição e, mais tarde, a eleição de seu sucessor, no caso a Presidente Dilma Rousseff.

A identificação com a qual os protestos da última semana guardam com os movimentos políticos tradicionais, portanto, são bastante tênues. Basta ver que os protestos não incorporam demandas históricas dos movimentos sociais populares, como a reforma agrária, para citar apenas um dos mais relevantes, ou reivindicações semelhantes na América do Sul, como no Chile, onde os estudantes pedem por educação pública de qualidade. Além disso, não se encontram nos protestos, por exemplo, bandeiras do Movimento Sem Terra, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto ou de centrais sindicais. As de partidos políticos são bem poucas, à exceção do PSOL e do PSTU que, como se sabe, fazem oposição ao governo federal e à grande maioria dos governos regionais e locais. Talvez não haja mesmo nenhum tipo de reconhecimento por parte destes movimentos tradicionais com o movimento atual e, muito provavelmente, tal reconhecimento sequer seja pretendido. Ao invés do rosto de lavradores ou de trabalhadores cansados, há rostos muitos jovens e, não invariavelmente, de pessoas que portam a máscara do V, personagem principal do filme V – de Vingança e símbolo do grupo de ativismo hacker Anonymous.

Coincidentemente, na mesma semana passou pelo Brasil o sociólogo espanhol Manuel Castells, que conferenciou em São Paulo e Porto Alegre sobre o tema “Redes de indignação e esperança – movimentos sociais na era da internet”, homônimo do livro que lançará em setembro no Brasil, dentro do ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento. Em Porto Alegre, Castells falou sobre os pontos em comum entre os movimentos que ganharam corpo a partir do uso massivo da comunicação horizontal das redes sociais e da importância das imagens – principalmente as de repressão aos protestos – como elemento de motivação e indignação civil. Segundo ele, “as imagens indignantes divulgadas pela internet foram as detonadoras de todos esses movimentos”. Em relação à violência, Castells foi categórico ao afirmar que o uso de violência nos protestos acaba por selar seu próprio fim, nem tanto por legitimar o uso de maior repressão mas, principalmente, por abolir a autorreflexão, que considera o espírito renovador dos movimentos.

Uma das tantas imagens que circularam nas redes sociais no fim de semana mostrando um jovem carregando um cartaz onde se pode ler a frase “Saímos do Facebook” é possivelmente uma das mais emblemáticas dos eventos. Até mais do que as imagens que registraram a violência da policia militar paulista contra jornalistas, a fotografia diz muito a respeito do sentimento da novíssima geração de manifestantes. Trata-se de uma geração sobretaxada de adjetivos pouco elogiosos. São os “alienados da internet”, os “indignados de sofá” que, seguindo o exemplo de jovens que, como eles, tomaram as ruas em diversos lugares do mundo por outras razões que não o custo da passagem de ônibus, saíram pelo menos de casa, que ao Facebook provavelmente continuam conectados nos seus smartphones. Mas a imagem indubitavelmente responde a uma provocação patente, ou talvez até mais que isso, a um tipo peculiar de menosprezo que os mais velhos costumam ter para com os adolescentes. Talvez se trate de amargura pura e simples, o fato é que o comportamento impõe um distanciamento destes em relação aos mais jovens, como se lhes fosse repetida a mimetizada frase “não me representa”. De fato, seus representantes estão mesmo em outro lugar, ocupando não as ruas, mas os cargos políticos, escolhidos através dos tradicionais esquemas representativos que os manifestantes de agora parecem menosprezar.

Turbulenta pela própria natureza, a adolescência é tanto o quadro da desproteção do indivíduo diante do mundo quanto a imagem de sua afirmação. Se os adolescentes estão massivamente na internet e redes sociais, pode-se ver agora que se trata mais do que avatares, que têm também um corpo físico. O processo de sua individuação social leva-os da anomia à identidade, assim como à responsabilização civil e penal. O fato de muitos estarem ali mascarados revela o quanto se encontram “anonimizados”, e sua existência real situada em um limiar ainda mais sutil que o de um perfil no Facebook ou no Twitter, sem que alguém os esteja representando ou conferindo-lhes um discurso. O movimento civil é um pequeno passo além dos limites da casa paterna, mas é um passo sem volta. Mais do que um protesto específico pela redução do valor das passagens, como bem mostra o vídeo “20 centavos“, trata-se de um saldo negativo de expectativas sociais acumuladas que nem o “milagre econômico” da era Lula, significado pela ideologia e pela expansão do consumismo, conseguiu conter e que regurgitou por conta própria, evidenciando uma insatisfação social amortecida.

No momento, a sociedade observa as manifestações ainda atônita com a energia agregada nos sucessivos protestos. Como num tipo de espasmo, muitos ainda se encontram no processo de absorver o impacto dessa possibilidade há pouco sequer imaginada, a de que pessoas aparentemente desconectadas umas das outras poderiam unir-se na velocidade de um clique em torno de um sentimento de indignação. Se há pretensões revolucionárias no processo de pensamento subjacente aos movimentos ou se será encontrado algum eco em outros setores insatisfeitos, isso é algo que ainda não se pode saber. Se as formas tradicionais de representação política perderam completamente o sentido no espaço de uma semana e passou-se a viver a realidade de um movimento autoexplicativo, horizontal e planificado então talvez seja oportuno lembrar aos novéis manifestantes que a história dos movimentos populares no Brasil tem bem mais de uma semana de vida e que os demais atores políticos esperam logo poder conhecer suas propostas (em Porto Alegre, Castells comentou que, em Nova York, o Occupy chegou a sistematizar mais de 300 propostas) e contar com sua solidariedade (que o digam os sem-terra, os professores, os desalojados da Copa, os indígenas, etc.). A não ser que se trate de um movimento autolimitado, muitas pessoas já esperam pela sequência dos fatos e que seus resultados finais possam ser mais reais que um ou dois memes. Se as perspectivas de participação popular para os protestos são excelentes e parecem a cada dia pipocar por novas cidades, as expectativas sociais não poderiam ser menores.