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Imperceptível

Na falta de dicionários, lia listas telefônicas. Às vezes, lia os nomes como versos; às vezes, como se gente viva e conhecida.

Lembrava-se das viagens que imaginara ter feito, por exemplo, Antonieta de Medeiros Albuquerque por Paris depois do último bombardeio e as lágrimas das pessoas lendo Éluard, mas, porque num sonho, na tradução a quatro mãos de Bandeira e Drummond.

Antonieta pensando em português enquanto caminhava em Montparnasse, onde só se pensa em francês e ao som das taças dos cafés. Antonieta afetando o vento de Paris e dizendo em meia boca: “vida besta”.

Depois, as palavras de Antonieta sumindo à medida que os olhos escorregavam para Antônia Soares do Carmo, cujo sobrenome era mais português que os poemas de Fernando Pessoa escritos em inglês. O português do nome de Antônia era salgado de mar aberto, coisa que o poeta não viu por muito em sua vida, apenas imaginou demasiadamente ao anoitecer de um dia em que sentia-se tão diferente de si mesmo que inventou ser outra pessoa. Sentia-se ou sabia-se, vá saber-se.

Antônia Soares, como Bernardo; e depois “do Carmo”, como a igreja.

Quando eram nove horas da manhã, perguntou aos relógios até que horas mais os nomes lhe ocorreriam em sua forma viva. Havia que retomar os afazeres, as leituras sérias e os cuidados com a higiene física.

É meia-noite e os nomes estão fechados na lista telefônica.

Num papel branco, marcando uma página importante, o número 555167279877 sublinhado, e esse silêncio em que ela imagina sentir-se ou saber-se examinada também.

Uma pequena fábula taoista

Contam que Laozi, o “nascido velho”, durante a dinastia Zhou, em pleno Período dos Estados Belicosos, foi historiador, bibliotecário do Império e compilou de memória o Tao Te Ching, seu legado para a filosofia oriental e de todo o mundo. Um contemporâneo seu, Sun Tzu, estrategista militar que nem sempre sabia como agir diante da violência dos clans que manchavam de sangue o continente amarelo, algumas vezes foi ao encontro do ancião para aconselhar-se. Sun Tzu sabia do risco de encontrar o outro num estado de humor alterado, quando ele preferia simplesmente ler poesia ou caçar borboletas a meditar sobre o caminho perfeito. Foi por meio de uma tijoleta rejuntada apenas recentemente que, de fato, houve um último encontro entre ambos pouco antes dele montar num búfalo e partir da China para sempre. Na tijoleta, os ideogramas revelaram que Sun Tzu implorou por que o outro o esclarecesse quanto a melhor forma de apaziguar os ânimos dos conterrâneos e a quem dentre os contendores deveria poupar. Lá pelas tantas, teria chegado a exasperar-se, dizendo-lhe algo que, mal traduzido ao português, soaria como: “Mas mestre, todos estão esperando por sua sabedoria e, enquanto isso, vão acabar matando-se como animais…” Laozi teria cessado seus preparativos para a viagem, erguido os olhos na direção do militar e dito-lhe: “Mas eu estou também esperando, general. Quando restarem apenas as pessoas sensatas, eu voltarei aqui e terei algo a lhes dizer.” O general finalmente entendeu o caminho dos pensamentos do homem e desistiu de vez daquela filosofia, entregando-se de uma vez por todas à guerra insana. Num último gesto, ao conferir o estado do búfalo para sua partida final daquele lugar terrível, Laozi ofereceu de recordação ao general a tijoleta na qual um aprendiz havia gravado a conversa entre os dois. Sun Tzu a desprezou e, tapeando-a, jogou-a ao chão quebrando-a em muitos pedaços. Em silêncio, Laozi confirmou entristecido que o general buscava apenas justificativas para agir como pretendia, e não sabedoria. Mas um zaragateiro sobrevoou o lugar e ele voltou a sorrir. E foi na direção dele que prosseguiu ao montar o búfalo e finalmente partir.

Pavane

No tempo em que estive realmente dedicado a escrever a respeito da vida do bebê Charles Waring Darwin, o tempo de redação, não o de pesquisa, precisei de um grau de concentração que não imaginei que poderia conseguir. O tempo efetivo de que dispunha para a escrita sempre foi exíguo, urgente, em períodos isolados entre meses e às vezes até mesmo anos.

A maneira com que mais rapidamente eu conseguia me concentrar era relendo o que já havia escrito, sempre desde o começo, e colocando a tocar uma playlist de alguns compositores em sua maioria contemporâneos de Darwin (F. Chopin, R. Schumann, …).

Em algum momento, acabei colocando irresponsavelmente na lista uma peça  extemporânea de Ravel. Esta abaixo… Enquanto tocava a melodia era impossível para mim escrever uma vírgula, mas, se não fosse por ela e por uma outra melodia que me demovia internamente, nunca eu teria ido até ao final do livro. Se tivesse sido escrito no papel, aqueles originais teriam marcas que apenas eu vi e entendi.

Uma pequena fábula silenciosa

corticeira

Contam que a sua alma era tão silenciosa que ela podia ouvir até a desafinação das linhas de um caniço ao pescar lambaris. Ela chegava às suas conclusões calculando a razão entre o abaulamento da corda e a velocidade pela qual o vento derrubava ao chão as folhas das corticeiras. Tinha uma tão quieta que a fazia falar pelos olhos e por seu intermédio é que também conseguia escutar. Os peixes que ela pescava eram tão pequenos que todos os demais pescadores os desprezavam e riam do seu minúsculo tamanho e ameaçavam oferecê-los aos bicos dos pintassilgos, mas mesmo estes preferiam o sabor ralo das formigas e cascudinhos. Ela então observava os peixinhos no côncavo das mãos e eles pareciam agonizar de sede, diminuindo, diminuindo.. Longe dos rios e aguadas, sentada sobre uma pedra inalcançável da qual ninguém sabia o paradeiro, temeu tanto pelos pequenos lambaris que quase se desesperou. Naquele momento sofrido, o vento se apiedou dela e, de encontro a um canavial ali perto, começou a cantarolar uma melodia mais triste que a tristeza. Ela ouviu impassível, mas, quando sentiu o que o vento queria provocar-lhe, lágrimas correram pela face e jorraram de seus olhos como numa cachoeira, até encontrar a palma de suas mãos. Os pequenos peixinhos não cessavam de minguar, quase desparecendo, mas ao toque salgado das gotas encontraram forças para subir através e foram morar lá dentro dela: em alguma água escondida.