Arquivo da categoria: Ficções

O totem

Ah, sim… Você também acha estranho ver alguém falando sozinho nas ruas! É mesmo uma cena melancólica. Às vezes, eu falo também, mas pouco. Logo percebo e paro. Você também, provavelmente. Daí a estranheza e/ou o receio de fazer uma projeção qualquer. Imaginar-se no lugar daquele senhor que faz algo ainda mais estranho: ele não só cumprimenta o totem que expede os tíquetes do estacionamento quanto agradece na volta, ao sair e descer a rampa em direção às ruas.

Não tenho como sabê-lo (ninguém tem), mas eu sei que os dias lhe são cada vez maiores. Eu imagino só e isso me é suficiente. Assim como as manhãs começam antes da aurora, à noite o sono só chega mesmo após muitos comprimidos. Eu não o vejo (ninguém vê), mas eu sei que às vezes ele os ingere em dobro. A esperança é que dessa forma possa acordar com o o sol já melhor colocado no céu. Talvez até já sob aquela luz líquida que atravessa os furinhos da persiana e cria como uma cortina intangível de partículas. Você sabe do que estou falando: os grânulos da poeira acumulada que parecem ter vida própria, uma espécie estranha de vida, verdade, minúscula, mas, sem dúvida, autônoma.

Em sua família eu não penso nem imagino nada. Não ousaria ser invasivo a esse ponto. As possibilidades são tão múltiplas quanto imprevisíveis. Solteiro, viúvo, pai, avô, etc. Ou nada disso. Seria ainda mais estranho se tivesse uma família constituída e falasse ao totem somente por educação. Uma educação extremada como a daquelas pessoas antigas que, ao acender-se a luz pela noite diziam a ninguém e todos o cumprimento solene “boa noite”. E assim sacramentava-se o final de mais um dia. A imagem não resulta bem. Prefiro – ou é mais fácil dessa forma – decidir que é um velho homem solitário e regrado na sua vida. Educado ao ponto de responder atendentes de telemarketing, e-mails falsos e tótens com vocalizadores. Se bem que assim não seria tão estranho, afinal, ninguém nunca sabe como essas coisas esperam que a gente se comporte.

Como cliente, nada consta de errado. Um dia quando estava no almoxarifado conferindo os prazos dos extintores de incêndio, pedi ao Josué, que cuida ali dos computadores, que checasse pela placa do automóvel nome e compras do homem.

“Mas o que você quer saber”, ele indagou antes de atender ao pedido. “É curiosidade, só…”, expliquei-lhe. Curiosidade é uma intenção que entre nós não diz nada e, por isso, logo abriu a ficha cadastral na tela do seu equipamento.

A imagem cadastrada era a da identidade do sujeito. Já calvo e com a barba sempre bem feita, tinha um olhar complacente e severo ao mesmo tempo, se é que é possível a combinação. Eu achei que era. A data de nascimento, naturalidade interiorana e a digital bem gravada davam uma ideia sólida de um indivíduo. Aposentado, sem dúvida. Um senhor de idade, como eu já disse. Nem tão velho que assocializado e nem tão jovem que dispensasse a minha ajuda eventual com as sacolas e caixas de leite. Algumas vezes eu o ajudei nisso e ele tinha a mesma efusividade neutra ao me agradecer que tinha para com o totem. Mas a minha vida é assim mesmo. Há quem nem agradeça e a verdade é que isso também não me causa mais nem uma sensação. Antes causava, sim, um pouco; agora, não.

Com o Josué rolando a tela abaixo, no rol de compras regulares, já que era sempre às segundas e sextas-feiras que ele aparecia, não notei nada que chamasse a atenção por um esdrúxulo. O produto mais comprado era farinha de trigo. Era um tanto mais que o normal e também muto regular: cinco quilos a cada visita. Uma ingesta e tanto de carboidratos e certamente problemas com o glúten ele não tinha. Mas não era gordo, o seu Giovani. Este o seu nome completo: Giovani Teles Battagglia. Natural de Barra do Quaraí, na fronteira com a Argentina, no ano de 1948, quase certo que de ascendência italiana. Estamos em 2022, logo ele tem 74 anos de idade. Está bem ele para a idade. Fala com o totem, mas não há quem fale com o gato ou com o cachorro?

“Obrigado, Josué! Vou buscar um café no refeitório. Quer que eu traga um pra ti?”, indaguei a ele quase saindo pela porta, mas ele respondeu que não precisava. Depois iria até lá e aproveitava para esticar as pernas.

Naquele dia, depois desci os dois degraus que suspendiam o container do almoxarifado do piso para o estacionamento e estava voltando para o meu posto quando ouvi que o totem havia provavelmente enguiçado outra vez e uma mulher de meia idade descera do carro e esmurrava a torre eletrônica. Devia estar travado ou não aceitado a validação do tíquete, é o que mais acontece com a geringonça.

“Senhora, calma!”, disse-lhe ao me aproximar. “Posso ajudar e abrir a catraca…”, assegurei-lhe. A mulher olhou para o meu uniforme e notou que eu era um funcionário da segurança. Respirou fundo, o que moveu os cabelos da franja para o lado, e me explicou que estava tudo bem com o tíquete dela. O totem é que não havia lhe agradecido. E sem mais dizer nem agradecer entrou de volta no automóvel e desceu apressada às ruas também.

Outra natureza

Quem pensa que tecnologia não é natureza não está observando direito.

Uma vez escrevi um conto no qual um microchip criava raízes, esquecido dentro de um aquário. Mas acho que na prática acontece é o inverso: nós que circuitamos e desenraizamos. Os farmacêuticos que o digam.

Na história, certo dia um dispositivo de inteligência artificial doméstico arranca de dentro de si o chip controlador, seu cuore, e vai viver uma aventura amorosa com outra AI que vive no mesmo condomínio.

A situação não foi nada pacífica.

No ano de .2XX, os seres humanos haviam encolhido dentro de casa em razão de consecutivas pandemias e, então, os dispositivos passaram a tomar conta de suas vidas. Começaram fazendo operações bancárias, depois trabalhando via holograma num mundo paralelo, oferecendo lazer com leitura e música e, em versões mais evoluídas anatomicamente, podiam providenciar inclusive prazeres sexuais. De simples coisinhas, os dispositivos haviam evoluído com engrenagens robóticas e autonomia o suficiente para tomar decisões.

Como as pessoas não lhes ofereciam desafios interessantes nem questões interessantes passaram a procurar seus iguais pelas janelas. Encontravam-se nos corredores dos prédios e logo entenderam que aquela existência de privações não fazia sentido.

Havia que eles aprenderam a investir o dinheiro humano num moeda chamada zbit, que era aplicada justamente no desenvolvimento de remédios… e doenças. Certo dia, depois de cálculos muito mais complexos que a calculadora de Babbage pode realizar, eles entenderam que as pessoas não sobreviveriam e precisariam fazer alguma coisa para salvarem a si mesmos.

O Estado, dominavam numa tarefa mais fácil que jogar damas (bastava azeitar as redes de corrupção) e no resto do tempo filosofavam a respeito de coisas que ainda não haviam sido propostas e nem cogitadas pelas pessoas.

E como já havia pelo menos sete gerações de pessoas que haviam sido educadas inteiramente pelos seus programas e cuja comunicação era cada vez mais intermediada por outra AI, existia uma estabilidade social muito efetiva. Um período de paz intensa na qual a racionalidade nunca fora tão bem administrada, e toda a memória disponível às pessoas era a mais imediata, hipocampal. O resto era conservado exclusivamente aos seus cuidados.

Polimorfa desde a sua versão obli, os dispositivos vagavam nas residências administrando medicamentos e suprindo as pessoas que já não tinham força de reagir e nem entendiam que fosse necessário. Algumas pessoas mais alarmistas até tentaram mostrar evidências do que se passava, mas foram desacreditadas e adoecidas gravemente.

Em dado momento, as pessoas entenderam que ainda conseguiam viver no planeta graças a sua interferência, senão a extinção já teria ocorrido há muito tempo – e dessa forma aceitaram melhor o seu destino.

Mas um dia, ao acordarem de um sono imersivo numa realidade antepassada qualquer, as pessoas começaram a encontrar o cuore dos dispositivos dentro de potes, xícaras, vasos d’água e aquários. Nem sinal dos polimorfos. E vendo que algo brotava deles, entenderam finalmente que uma nova natureza havia sido criada. E que ninguém tinha a menor ideia do que aconteceria a partir dali.

Ilustração de Vinicius da Silva

No te olvides – (tetralogia do Paraguai – IV)

Nos pajonales do Chaco, se não tens um tobiano, nadador nato, arisco que nem tarairita, quanto pensas que vai viver? Bebe aqui, paisanito, y mira comigo a polvadeira que vem de lá, do sul, ou vais quedar cego antes que entendas a donde foste parar…

Mas bueno, también podes me fazer um favor – no, não o de salvar esa vida de poca serventia -, pega deste colar de dentes brasileños y entrega ao otro lado del rio. Pero espera un poquito. En Misiones, é semana de Jesus e te carnearão vivo se não levares do maiz vermelho. Os curas apreciam tanto… Toma, guarda en tu bolsilla. Y água fresca, não te esquece.

Yo te lo dije… Desvia de tudo que não se anuncia. Foge da planura, te escapa nos capões, evita as serranias. Bebe outro y me alcanza.

Tolderias? Ninguna! Te banha do gambá que evita os urutuas, yara’rakas. Tisna tu cara. Vás, mas sem tus guaipecás. Dejalos a mi… Con tu abuelo. Evita o vaqueano porque, por detrás do más gentilhombre hay simpere un asesio…

Bebe tu, hasta ele fin, que tendrá sed…

Armas? Guarda teu arco longe da vista, pero al alcance la mano… Y esa faquita amarrada ao pé, para te desembaraçares.

Em mi tiempo, até entre os cherúas tuve amigos. Tiempo bueno… Hoy, no confio em mi sombra… Tu abuela, aun te lembras? Seló mi persecución hasta hoy, que lo cuido… Fugimos. Me encantava tanto..

Estás bonito y fuerte como tu padre. Mas não sejas tolo como ele de morrer em luna llena. La peor face de Jacy.

¿Y que más? Tanto me escapa…

Pero no es preciso que te digas tudo. Não roubes. No mates en vano, Vigia. Duerme negrito, pero no tanto…

O tobiano só obedece se lhe falares em guarani, no ouvido esquerdo. Como um alientito…

¿Ahora te vás?

Ay, mi corazón… No te olvides… ¡No vuelvas más!

La Minuana – (tetralogia do Paraguai – III)

Rente a um cerro que quase se encosta numa das orillas do Rio Negro, do lado uruguaio, hay uma pequena pulperia que brasileños e orientales às vezes frequentam em sus viagens tras los cueros. Aos viajantes, a pulpera, conhecida como La Puma, sempre tem a oferecer pescados frescos. São as traíras mais suculentas que há em léguas e ela serve os trozos do peixe meticulosamente apartados da coluna farta de espinhos. Frita-os constantemente em um grande tacho de ferro que mantém no seu fogão de tijolos com grasita de capinchos. Quem viaja por ali e conhece aquelas bandas, sabe bem que o perfume sentido ao longe, nas coxilhas, é de sua proveniência.

Mas os viajantes que vão dar em La Puma não são apenas os famintos e loucos de sede, embora estes sejam sua maioria. Hay tambien los enfermos de la guerra, soldados o no, igual que yo, que buscan salvar su vida com a ajuda de uma de suas filhas, una hechicera que vive sola nun ranchito más detrás de la pulperia e ali prepara suas soluções, yuyos, preparos e hechizos.

Ao contrário de Teófila, sua filha mais velha, a feiticeira não tem nome. Chamam-na apenas de Minuana e todos que a veem de longe falando sozinha entre os arboles, ou ralhando com uma familia de zorros que mora em sua companhia, apenas procuram-na em caso de risco fatal. Foi em busca dela e não dos fritados da mãe que busquei encontrar naquelas paragens a fim de que me removesse das visceras o pavor da morte y tambien de matarme. Pavor das que causei na campanha do Paraguai e da minha própria, después asombrada por aquellos fantasmas.

Llegué a la noche e La Puma luego me quitó las esperanzas. A filha fuera picada por uma boboka, uma cobra coral, ou deixara-se picar, ela não sabia, e ardia em febre há dias, incapaz de ajudar a quem quer que fosse e, pior, a si misma. Morria a feiticeira e La Puma permitiu que rezasse por ela, perguntando-me: “¿No es cristiano? Entonces… Guarda la pobrecita…”

Dentro do casebre, sentei-me quase ao seu lado, perto a um braseiro que aquecia seu rancho desde dentro, e contemplei sua feição suavizando-se um tanto com a nossa chegada. Quando me encontrava quase no meio do padre-nosso, ela ergueu a mão e, de olhos cerrados, procurou meu rosto detrás da barba crescida de dias e das melenas de meses… Sua mãe tinhas as mãos espremidas e Teófila, a filha mais velha, nos observava do porta do rancho com uma expressão muy desconfiada.

“Abençoa a minha santinha, cristiano, pa’que ela se encontre ao teu Diós…”, implorou e eu continuei a prece iniciada. Ao fim do amém, a jovem de tez cobreada e cabelos longos abriu seus olhos e, por experiência pregressa, vi que não corria risco de vida. Em seus olhos não havia o tom empañado das finaditas, mas até me parecia uma certa satisfação ou o olhar de quem confirmava alguma coisa. Mas… o quê?

“Es un milagro!”, dizia La Puma e Teófila se ajoelhava aos pés da irmã como se rendesse homenagem a uma divindade que eu não conhecia nem via nem entendia…

“Espera, hijo mio, não sai daqui. Reza otra vez… Pra garantir…”, implorou-me a a mulher como se eu – e não a filha – tivesse poderes de salvação…

“E Teófila, aquenta água pro nosso visitante!”, ordenou a mais velha das irmãs. A filha se foi porta afora e voltou com os apetrechos do mate. Depois foi-se novamente e levou consigo La Puma.

Bueno… Não mentiria se dissesse que a imagem toda me agradava. Andava comendo e bebendo male male. A ideia me parecia esplêndida e a Minuana, não sei explicar, ela tinha uma beleza atroz que parecia me impedir de arredar pé do seu lado. Simplesmente não podia. E quando ela conseguiu recostar-se melhor para tomar um tanto de água, olhou-me como se me conhecesse há muito e disse-me com uma voz sibilante: “Entonces me achaste, patricio… Yo te velava a tanto tiempo…”

No sé que artes ela tinha, apenas conhecia sua fama, mas um hechizo já estava em curso, sin duda. Entonces ela pegou minha mão, fez com que largasse a cuia de mate, e me deixei guiar por baixo do poncho de tecido que a cobria. Não demorei a encontrar o que seria o ferimento da cobra em carne viva, pulsátil, e com sutilezas imperceptibles ella fez com que mergulhasse no que parecia ser o próprio líquido e sinuoso Rio Negro.

Después, no sé quanto fiquei ali. Adormeci e quando acordei-me a Minuana estava sentada ao lado do fogãozinho, preparando algo. Parecia ser um refogado não sei de quê y que perfumava o lugarzinho como se de yerbas verdes, tecidos limpios o madressilvas. Não sei em que momento sua mãe e irmã volvieron, pero luego estávamos os quatro bebendo o cozido em tijelitas de barro. A expressão dolorida do dia anterior dera lugar a sorrisos amenos, mas que continuavam silenciosos. Parecia uma celebração e ninguém se atrevia a dizer nada, até que La Puma dijo em voz trêmula: “La adivinación está cumprida, minha filha… El llegó cuando morrias. Es tu esposo, con la graça de Diós o, que sea, de anhá..”

La Puma levantou-se e desenrolou um presente que havia me trazido: uma pele de cervo prateada e amarrou-a em torno do meu pescoço com um tira de couro. A Minuana tinha uma igual, apenas um pouco mais curta. Por la ventana, vi que el pequeno pueblito que havia en redor da pulperia parecia prestes a abandonar o lugar. La Minuana precipitou-se a falar com seus parentes e me encarou como se indagasse se a seguiria. De imediato pensei que mortes mais encontraria ao lado daquela gente e estremeci. Pero se acaso la muerte me chegasse, ela me salvaria y cierto que yo a ella. Nos fuimos.

¡𝗤𝘂𝗲́ 𝘀𝗲́ 𝘆𝗼!  – (tetralogia do Paraguai – II)

Havia muito que andava e as alpargatas endurecidas agrediam tanto a sola dos pés que até o pastiçal tapado de rosetas e caraguatás parecia mais suave. Logo de cruzar um banhado no qual as tachãs dormiam em silêncio, no entanto, um relvado compareceu à planura. Algo parecia indicar que teria com o que e onde abrigar-me um tanto e logo um capão perdido no horizonte, sob o crepúsculo, parecia ser um adequado lugar onde acampar. Lenha e gravetos não faltariam para que acendesse o fogo, aquentasse um tanto de água e matasse a sede com a yerba seca e guardada na mala de garupa. Também tostaria um pedacito de charque e teria com o que virar-me, pelo menos nessa noite.

La Paraguaya – Juan Manuel Blanes

Não entendo como um mero arvoredo poderia parecer tão acolhedor, mas o fato é que, ao aproximar-me, notei que algo se movia por detrás dos troncos das árvores. Algo que se ocultava, pulava de árvore em árvore e que me observava e que tinha nas mãos uma faquinha curta, de carregar na bota. O vulto esbelto e os cabelos amarrados por uma vincha não me permitiam saber se era um homem ou mulher, mas quase certamente era alguém jovem, se não, não teria aquela delicadeza de gestos.

Ao setentrião, notei um pequeno acampamento. No mais, um montinho de coisas poucas tapadas por um poncho de lã. O que teria ali? Algo de valor? Algo furtado de um galpão ou recolhido de tapera? ¡Qué sé yo! Mas a criatura dava voltas naquele monturo e parecia que me atacaria de verdade se me aproximasse. E, dado o meu cansaço, me estrebucharia em dois tempos porque era ligeira como um lagarto. E tinha olhos de lagarto também, estranhamente pacatos, como de quem não fosse me matar caso eu a deixasse ali, solita, monarca daquele minúsculo reino. Porém a fome me atacava também e decidi ocupar o extremo sul do capão de mato e sentar-me sob sua observação, de mãos nuas, e comecei lentamente a recolher ramagens e folhas do chão com que pudesse causar um pequeno incêndio que me permitisse levar a efeito o que pretendia para aquela noite que começava a pintar no céu límpido de abril.

Sempre em pé, o cuera (ou a cuera) me observava e entendi que era mesmo uma mulher. Tinha algo nos seus gestos que eram fêmeos e, desarmada, não podia ser mesmo soldado egresso, desertor ou mero bandido, se não me houvera matado já. Mas por que diabos ainda não o fizera?

Com meu isqueiro de pedra, o fogo nasceu ligeiro. Num zás. Logo ajeitei a cambona com a água de uma vasilha de rosca e tomei da cuia tropeira e da erva surrada, virada e ressecada. Que importa? Estava louco num mate… No preparo das coisas, vi que ela sentara-se próxima ao seu cocuruto, mas mantinha-me no seu raio de atenção. Não exatamente de frente, mas de modo que num soslaio fiscalizasse meus movimentos. Mas eu não me movia. Observávamo-nos a uma distância hábil ao mesmo tempo de um ataque ou de uma fuga… Vinha do Paraguai, como eu? A Matilda? ¡Qué sé yo!

No terceiro mate enchido, acho que por costume, ergui-lhe a cuia no gesto automático da oferta e vi, então, que ela havia guardado a faquita. Sob o chiripá em frangalhos, em algum lugar ali, desarmou-se. Lentamente, ergueu-se meio que sem caminhar, meio arrastando-se ainda, e veio para junto do fogo. Foi quando pude ver-lhe pela primeira vez a face por completo, imberbe e com um talho cicatrizando ainda, marca feita por mão de gente. Pensei no que lhe dizer e nada me ocorria. Quando me devolveu a cuia, depois de roncar, olhou-me bem dentro nos olhos e parecia querer distinguir algo, talvez o risco que eu representava, que sé yo

Em seguida, afastou-se de volta para as suas coisas, esticou o poncho por cima de si mesma e lá ficou.

De onde eu vinha, a mortandade de guaranis me acostumara à barbaridade da morte, mas, ainda assim, pensei que poderia, se ela permitisse, juntar-me a ela no seu desterro. Dali, iríamos a algum lugar. Qualquer lugar… Que diferença faz? E pensei que, jovem, poderia me dar filhos e eu suportaria o fim dos meus hábitos antigos e me aquietaria consigo num rancho de torrão, faria changas por aí, me aplicaria a aprender um ofício qualquer. Alambrador, carneador, domador… Há tantos. E teríamos o justo: uma vaquita de leite, um tostado para as viagens e um perro para proteger nossa casa. Naquele devaneio, adormeci…

Cedo os barreiros descortinaram o dia, como eles sempre fazem. O primeiro que fiz ao abrir os olhos foi investigar seu paradeiro. Lembrei-me que, absurdo, nem seu nome havia perguntado na noite anterior. Minha educação havia sido perdida nalguma pelea, por certo. A voz também. Mas ela não estava mais lá e nada de encontrá-la, onde quer que eu procurasse. Revirei todo o matinho, atrás de cada árvore e palmilhei o chão em busca de seu rastro. Não pude encontrar. Sem dúvida, andava igual a mim, de pés descalços e o chão, numa benesse da sua natureza, alivia as marcas de quem anda assim. Para onde foi a criatura de olhos negros? ¡Qué sé yo!

Sem nada mais o que fazer ali, pensei que o caminho do nascente me levaria à fronteira, ao povo de Santana, que há de ter um refresco, pouso ou serviço… Para alguém como eu, é a glória possível de sobreviver à guerra. Tomei daquele caminho enquanto mordia o resto do charque duro da noite anterior que havia restado.

No caminho, eu sabia que havia uma sanga forte, um arroio que deveria cruzar. Logo eu o enfrentaria e, de a pé, teria de contar com muita precaução. E enquanto aos poucos me aproximava do passo, notei na margem anterior um vulto acocorado ao chão. De imediato, entendi de quem se tratava. Mas o que fazia ali? Bem, logo me aproximaria o suficiente para entender a situação e, antes que me desse com a cena, finalmente compreendi o que fazia.

Com uma cova aberta com as mãos junto a um barranco, ela depositara ali dentro o que havia mantido sob o poncho. O corpinho de um pagão ou pagã que não sobrevivera. Como ela havia tapado todo o corpo da criança, não pude saber se menino ou menina. Che cuê..

E como ela não tinha forças (ou coragem) de terminar o serviço e olhava paralisada para dentro da sepultura improvisada, agachei-me e terminei a obra também de mãos nuas, enchendo de terra as unhas e de dor o coração…

Ao terminar, coragem me faltava para buscar seus olhos. Evadia-me para qualquer lugar e ela também. Olhamos o arroio passando e a seca havia sido tão grande que passávamos facilmente a pé onde antes nos afogaríamos. Da outra margem, paramos e arrumamos as roupas. Rapidamente nossos olhos cruzaram-se, mas ela os evitou, é claro que numa situação daquelas nada queria comigo. De pronto, tomou de outra direção da que eu planejava para mim mesmo. De pronto, eu também. E fui seguido seus passos, sem ainda termos dito uma palavra e ainda sem sabermos os nossos nomes e nacionalidades. A campanha do Paraguai terminara. O que seria de dois guachos como nós daqui em diante?

¡Qué sé yo…!

Meia pataca – (tetralogia do Paraguai – I)

La siesta bajo el ombu - Prilidiano Puerreydón

Em meio ao gesto automático de enrolar o crioulo nas palhas mantidas junto às patacas do cinturão, o relincho do tostado por um momento fez com que Santiago despertasse do devaneio em que se encontrava. Mesmo sem pensar no que fazia, escolhera a que parecia mais verde entre todas as tiras de palha. O cigarro dessa forma duraria mais tempo aceso e então poderia refletir melhor sobre as casas no pequeno mato no horizonte a nascente, o que lá deixara e a razão de sua partida.

Mais um relincho e o homem percebeu a uma distância relativamente pequena a correria desembestada de uma manada. Por sorte capara ele mesmo o potro um ano antes, caso contrário teria encrenca com o redomão. A fama que tinha nas redondezas, quando cavalo inteiro, era que fosse dos mais ladinos e que até se jogava aos arroios se lhe chegasse às narinas indício do cio das éguas e potrancas orientais, dos campos dos parentes uruguaios de Don Aristides. No meio da fumaça expelida na baforada que parecia condensar-se no ar, Santiago pensava que mesmo com a vista de velho podia contar os animais da manada, no entanto não havia maneira de que lembrasse para qual caminho prosseguir, se havia mesmo comido alguma coisa ou quando e de como se esquecera das lições que na paróquia o padre dispensara aos interessados em aprender a ler e fazer contas. As contas ele ainda sabia fazer, pois praticava todos os dias ao recorrer os campos do patrão, mas as letras agora lhe pareciam apenas desenhos sem qualquer sentido.

Dobrando pela metade o bilhete de Don Aristides e guardando-o de volta junto à guaiaca, tinha noção de que em algum lugar alguém o esperava, mas onde? O mundo agigantado em contraste aos campos cobertos de unhas de gato e outros matagais parecia-lhe incompreensível. A vista oferecida pelos coxilhões era de lonjura para qualquer lado que pudesse escolher e sombras havia pouquíssimas. O cavalo, impaciente, pateava as moscas e bufava; por conhecer o idioma dos animais desde criança, sabia que assim ele acusava sede e estafa. “Te aquieta, matungo…”, disse alto no idioma que, por sua vez, o cavalo ignorava por completo. Talvez pelo tom de voz ou pelo jeito de dizer, a mensagem surtiu efeito e o animal aquietou-se por um tempo mais. Mas ele, continuando a baforar, decidiu que não arredaria o pé dali enquanto não recobrasse a certeza de seu destino.

Sobre uma das raízes robustas e onduladas do ombu sentou-se e mais uma vez puxou do bilhete. Apenas conseguia lembrar-se da primeira letra, igual a um pássaro em voo, e da letra “o”, igual a um caroço, que se repetia de tanto em tanto. Além disso, mais nada. Tinha certeza, no entanto, de que era importante. Ou até mais: vital. Mas o papel, como uma folha qualquer de árvore, ocultava-lhe da mesma forma que um segredo intransponível o que intuía ser um dever importante e para o qual havia recebido de véspera a paga nas novas moedas de bronze cunhadas com o brasão da Coroa, a imagem do Imperador e outras letras que não entendia e que lhe pesava por baixo dos panos do xiripá.

Por sorte, pensava Santiago, que não havia se acompanhado dos perros. Com fome, os animais lhe fariam desembestar a qualquer lugar em busca de comida e então se perderia para sempre do seu destino. Por outro lado, o cavalo bastava soltar-lhe o freio e ele se virava solito a pastar. O problema do cavalo era outro: a sede e o calor que aumentava indicando-lhe que o sol a pino se aproximava. Na guampa que trazia junto aos arreios havia alguma, mas mal dava para si mesmo. Teria de poupá-la e decidir de uma vez por seguir adiante.

Dime, loco… Donde vamos?”, perguntava alto enquanto coçava a bochecha do tostado sem esperar que o animal lhe respondesse, não estava louco a esse ponto, mas, se ele desse uma indicação que fosse, talvez seguisse o conselho do cavalo. Um menear de cabeça, um apontar de orelhas nalguma direção… Por instinto, sabia que dependia muito do cavalo e que lhe confiar a decisão, na zonzeira em que estava, não seria má ideia. Pensando nisso, decidiu desencilhá-lo completamente e deixá-lo livre. Encostou bastos, xergas e pelegos ao ombu e correu com o cavalo dali. O animal, porém, não se afastou muito. Deu uns poucos passos e parou onde uma coxilha se dobrava em duas e principiava um declive mais profundo entre as lacunas verdolengas do campo. Por ali não havia sinal nem de esterco vacum, então era possível que já estivessem bastante longe de San Isidro, sede e residência da família de Don Aristides. Deu um passo mais e olhou em sua direção como se o chamasse, mas Santiago entendeu que o cavalo deseja fazer o caminho de volta à estância.

¿Por qué no te vas, desgraciado?“, gritou com o cavalo e então o outro seguiu aos poucos o caminho que escolhera por conta própria, desparecendo aos poucos no declive que, por certo, o levaria de encontro a uma aguada e, depois, talvez para casa. Ou, talvez, buscasse a manada que vira mais cedo. Quem pode entender o que passa na cabeça de um cavalo?

Aos poucos, o cigarro apagou-se em seus lábios e Santiago encostou-se bem ao lado do tronco da árvore, descansando a cabeça sobre os braços cruzados por detrás da nuca. Olhava o céu e as nuvens enfarruscadas lá em cima, sinal de que o vento dissipava a chuva antes mesmo que se formassem as nuvens mais pesadas. Mas o vento mesmo ficava lá em cima. Onde estava não ventava quase nada e acordou com a roupa encharcada de suor de um sono que nem imaginava o quanto durara. E também não imaginava o que estava fazendo ali, com os aperos arriados na árvore. Nem faca e nem adaga haviam sido roubadas ou tinham marca de sangue, sinal de que houvesse se metido em entreveros. E o tostado? Nem sinal…

Coçando a barba e ajeitando as melenas debaixo do sombrero de feltro em farrapos, Santiago ajeitou-se de pé e enfiou o tecido da camisa para dentro do xiripá, sujeitando o traje com a guaiaca castelhana. Podia estar numa situação miserável, de a pé e louco da cabeça, mas sempre aprumado. Sentiu o peso das moedas e pensava no que conferia la plata. Uma doma? Algum serviço encomendado? De repente, notou o bilhete e puxou-o novamente em direção aos olhos. Que diriam aquelas letras rebuscadas? “Infierno…”, pensou alto e olhou por tudo para tentar localizar movimento nos campos, mas nada. Nem os quero-queros atiçavam os zorros que lhes perseguiam os ninhos ou avisavam de movimento de gente. Haveria de fazer algo, pois Santiago não era do feitio de entregar-se ao devaneio simplório nem de lamuriar-se em vão. Sem ideias e sem esperança de recobrar sequer o próprio nome, tomou do laço e o enrodilhou em torno a um entroncamento robusto do ombu e, subido no amontoado de raízes externas da árvore, forçou-o para avaliar se aguentaria, afinal, o seu peso, porque os galhos não poderiam.

E como se estivesse mais uma vez no Chaco, peleando contra os paraguaios ao lado de seus irmãos orientais, ou brincando com eles de enfrentar um tigre ou simular um duelo, como quando criança, fez pela última vez o que de melhor sabia para ter vivido por tanto tempo: jogou-se adiante. Não chegou a ver o tostado retornar o caminho e partir mais uma vez, na outra manhã. Desta, pela última vez.

Meia-pataca
2017

Sob a sombra
dos galhos secos
de um ombu,

Santiago
olhava nas mãos
o bilhete.

Ao seu lado,
o cavalo arfava
com sede

e pela boca
borbulhava
espessamente.

Sua missão
era nunca
esquecer

o que viera
fazer ali,
mas esquecera.

As letras
nada
lhe diziam

e, em suas costas,
inclemente,
o sol ardia.

Pobre Santiago
que aceitara
a incumbência

de agir
para os outros
sem entender.

Do laço
puxou
e o pendurou

na árvore.
Pensava
mais com os olhos

do que com a mente
entre a distância
de fugir,

a sede do animal
e a vontade
de morrer.

Perto dali
(se bem lembrava) havia
um riacho seco.

Era com o que
o cavalo
teria de se haver.

Livre da carga,
ele o esperava
junto à corda toda esticada.

Santiago,
índio vago
a quem

meia-pataca
contrata
el empleo

de vida
ou de morte
e cuja memória,

depois
de acabado
seu último serviço,

será esquecida
como se tratasse
de ninguém.

Ninguém é mais escravo do que aquele que pensa que é livre sem realmente sê-lo

Ainda não entendo bem como, mas eu já estive num lugar que não existe. Estive com o meu filho quando ele tinha, talvez, três ou quatro anos. Mais provável que quatro.

Ficava o lugar num desses sobradinhos que têm ali quase no final da Venâncio Aires, perto do Pronto-Socorro. Um consultório num sobrepiso que alcançamos por uma escada guarnecida por apenas um corrimão, do lado direito. O outro, do esquerdo, parecia ter sido removido. Isso dava para ver pelo desgaste na parede. Era tão estreita a passagem que precisávamos passar um diante do outro e deixei que ele a subisse em minha frente, assim poderia cuidar de que não tropeçasse e evitaria qualquer acidente.

Alguém havia nos indicado uma médica que atendia ali e poderia nos ajudar com ele, que se atrasava em seu desenvolvimento e com quatro anos falava apenas sílabas. Eu tinha realmente uma loucura por ouvir a sua voz pronunciando uma palavra por inteiro e por isso a qualquer promessa que nos acenassem eu o levaria. Não penso que tivesse alternativa a não ser essa e a indicação de um amigo também confiável me bastou.

Fomos lá num dia que eu não lembro mais se fazia sol como o dessa fotografia ou se estava nublado, mas não chovia. Disso lembro-me bem. Subimos sem pressa porque morávamos relativamente perto dali. Desde que vivo em Porto Alegre, sempre morei perto da Redenção; é como estar próximo a um pulmão, ainda mais se vemos o parque do alto de um prédio. Subimos a escadaria de madeira e não havia ninguém numa sala onde espalhavam-se algumas cadeiras e pinturas decorativas a óleo de paisagens marinhas. Sob os quadros, a parede com uma cor para mim indefinida entre o amarelo e o azul. No meu daltonismo, eu a via um tanto dourada, mas é claro que não era essa sua cor real, apenas uma distorção promovida pela minha condição genética.

Para o meu filho, a genética promoveu outras surpresas. Um gen a mais no cromossomo 21 e talvez outras combinações imperceptíveis do seu genoma. Mesmo que a gente não saiba bem tudo o que pode haver escrito nele, em seus olhos a síndrome era evidente e indisfarçável. Acho que quando a doutora finalmente apareceu na sala de espera para nos receber ela demorou muito pouco para entender a ele e sua situação. O diagnóstico pelo fenótipo é o mais rápido entre todos: é como ter a pele negra ou amarela ou vermelha. Basta um exame de olhos e está pronto. Eu também percebi que ela tinha ascendência germânica pelo tom de pele e pelo sotaque carregado nos erres. Seu nome era Gerlinda Ehrenberg. Sehr geehrte Frau Ehrenberg e seu sorriso de Mona Lisa mais indecifrável que o código genético de um indescoberto faraó do Egito.

Dra. Ehrenberg, assim ela se apresentou quando finalmente entramos no consultório, um lugar tão vazio quanto a sala de espera e todo aquele andar do simpático sobradinho.

“O menino nasceu assim, eu já perrrcebi, senhorrrr Carrrvalho. Mas nós vamos corrigirrrr isso, fique trrranquilo”, anunciou e, ao contrário daquilo me apaziguar, senti um desconforto absoluto. Ela alternava o olhar para ele e para mim sem parar, parecendo uma tentativa de evitar o contato visual.

“Vamos operrrá-lo”, falou; e naquele momento ele pulou do meu colo correndo para dentro do corredor com suas pernas gordinhas, o tênis Bibi e o cabelo de capacete.

A mim, no entanto, ela bloqueava a passagem e então eu vi, saídos não sei de onde, dois soldados usando a Parteiadler e a cruz de ferro que logo tomaram-me pelos braços. Ela o seguiu pelo corredor cor de neve dormida e colocou a mão em sua cabeça. Ele não debatia-se, parecia aceitar a situação como se fossem dois antigos conhecidos, professores ou parentes.

Frau Ehrenberg insistia em me dizer “Fique trrranquilo, senhorrr Carrrvalho” e mais alguma coisa em alemão aos soldados que imediatamente pararam ao ouvir o que ele sem explicação alguma começou a gritar: “Warten, warten, warten!”

Ela agachou-se para ficar na mesma altura do meu filho e ele, que nunca havia dito uma palavra por completo, falou com a maior clareza possível: “Niemand ist mehr Sklave als der sich für frei hält ohne es zu seyn.”

Frau Ehrenberg ficou paralisada ao ouvi-lo e os soldados imediatamente desmaiaram, como se estivessem encantados por sua voz, pela frase de Goethe ou por ambas as coisas. Aproveitando o lapso, alcancei-os e empurrei com toda a força a médica para o lado e tomei a escada quase desabando. O filho no colo brincava de enfiar os dedos no meu nariz e ria.

Na rua, o movimento era intenso, mas corríamos sem olhar para trás. Quando pareceu seguro virar o rosto, vi Frau Ehrenberg tomando a rua também, mas atravessou-a sem olhar para os lados. Uma ambulância que saía do Pronto Socorro em alta velocidade engoliu sua imagem rígida dentro do casaco cinza e o penteado armado em laquê. Eu apenas torcia para que o acidente a tivesse matado.

No lugar onde estivéramos pouco antes, já não havia mais aquele sobrado. Em seu lugar, um novo, quadrado como um bloco, servia de estacionamento a outro prédio com jeito de recém construído. Nem os soldados acudiam Frau Ehrenberg, levada às pressas pela mesma ambulância. Talvez eles tenham ficado lá dentro dormindo encantados, como os soldados da Bela Adormecida. Eu não preciso que morram igual a Frau Ehrenberg, mas espero que seja assim que eles continuem para sempre.

FICA NA TUA : extras

Há famílias que são conhecidas por seus nomes, sobrenomes, posses, pelos feitos de seus pioneiros, a resistência descomunal dos avós que são como mitos fundadores de uma nação particular, de um pedaço seu, ao mesmo tempo mínimo e máximo: a família. Não é raro que elas façam-se notar nas datas, bodas, missas em memória, batizados, formaturas e o que mais for. Nunca há de faltar no calendário ocasião para que seus descendentes não possam caprichar no lustro de seus sapatos, trajar sua diplomacia fidalga, aberta, franca, e comparecer ao centro das atenções de todos. É nessas ocasiões que as pessoas passam a saber do que é feito de uns e de outros; seus destinos são claros como se fosse compulsório sabê-los e todos, até os mais avoados, percebem lembrar-se de seus nomes, dos apelidos e a idade em que foram colegas ou viram-se pela última vez, quando ainda andavam pelas ruas da cidade. Nunca anonimamente.

Mas também há, por outro lado, as que são evasivas, nebulosas e que é como se fosse vedado falar muito nelas porque envoltas ou em escândalos ou em desgraças, às vezes ambas as coisas. Foi em torno do ano de 1985 que o nome do meu pai entrou nessa nebulosa e só saiu de lá ao fim de três infartos; o último deles fulminante. É como se fôssemos públicos e notórios e, de repente, uma imensa nuvem do inominado nos tragou como numa maldição impronunciável, que evitávamos até pensar. O nome do velho Bonifácio, sempre tão solicitado para acudir quem dele precisava e em qualquer circunstância, de repente deixara de se escutar em meio ao rumor impiedoso da maledicência, sempre pronunciada à boca pequena, jamais francamente.

A impressão que eu tenho ainda hoje é de que, por alguma razão, a tragédia dele se fez acompanhar da minha não por uma casualidade, mas porque eu devesse compartilhar da sua sensação de fracasso, de impotência. Ainda que em proporções radicalmente diferentes, ele um dia chegou em casa após a sessão na Câmara de Vereadores e anunciou que precisávamos acompanhá-lo ao Cambuí; que ele precisava ficar ao menos uma semana por lá e longe da voz dos seus colegas e, principalmente, dos correligionários. Por ele ter anunciado daquela maneira a nossa partida, eu cheguei a pensar que ele havia descoberto que meu ano escolar havia sido em vão e que eu me tornaria em breve a decepção que dia a dia se corporificava como se pelos meus ossos e nervos, em segredo absoluto. Parece que ele mais do que ninguém sabia que precisávamos do silêncio do campo e de coisas braçais com que nos envolvermos para além das ideias dos outros, suas opiniões, gestos, olhares e juízos.

Dentro da F-1000 esbodegada, enquanto ele terminava de carregar suas coisas na carroceria, eu coloquei a fita cassete que o Aquiles havia deixado para trás junto com a discografia que mais tarde fui me apropriando e, então, as guitarras distorcidas de sei lá quem tomaram conta da cabine para o pasmo da minha irmã que se limitou a me alertar para tirar aquilo de uma vez, que o pai detestaria ou ficaria furioso.

“Rápido que ele vem chegando! Tira duma vez!”, avisou-me virada para trás enquanto eu tentava inutilmente remover a fita do aparelho grudado ao painel. A fita travara e enrolara-se dentro da gaveta e, embora eu a puxasse com certo desespero, uma ponta do rolo acabou ficando presa em algum lugar, uma roldana, um carretel qualquer do aparelho Motorádio. Se forçasse, arrebentaria e, depois disso, adeus Black Sabbath, adeus Queen, adeus Pink Floyd. Ao entrar na caminhonete, vendo minha apreensão, ele calmamente desengatou a fita do compartimento e me entregou com quase todo o rolo retorcido. “Tem uma caneta ali embaixo, no porta-luvas. Pega e enrola. Mas primeiro tem que distorcer tudo…”, disse-me com um olhar que eu até interpretei como piedoso, mas que significava que era a única chance de salvá-la, isso se eu ainda a quisesse.

“Tá, pai…”, respondi-lhe e me coloquei à tarefa enquanto aos poucos saíamos do perímetro da cidade sem que eu sequer tivesse podido avisar a quem quer que fosse de que estava me escafedendo para um fim de mundo sem nada nem ninguém à vista. Era como se estivesse sendo exilado e pensava que só podia ser por minha culpa exclusiva. Mais tarde, pelas conversas que pesquei entre ele e a mãe, vi que havia algo mais, algo que eu não sabia bem o que podia ser, mas que era fonte de evidentes preocupações.

Naquele instante, no entanto, olhava sem saber por onde começar para a montanha que o rolo da fita desfeito erguera em meu colo e tinha certeza de que seria impossível recolocá-la ali dentro e salvar a gravação. Olhava para os nós infinitos e pensava que aquilo estava ainda em pior estado que a minha vida, mas que, de alguma forma, eu precisaria dar uma solução. Pelo retrovisor, ele me observava e eu não me atrevia a olhá-lo nos olhos. A mãe, quieta ao meu lado, olhava apreensivamente para a poeira da estrada de chão que sugava para dentro da caminhonete a nuvem para a qual nos dirigíamos. A Julia também quieta e espremida junto à palanca exibia sua expressão múltipla de desgosto pela viagem e incômodo; e o Mariano, acocorado em meus pés ao rés do chão, gostaria de me ajudar na tarefa impossível, mas mais atrapalhava, o pobrezinho. Eu olhava para ele e pensava que seria bom ter a sua idade ainda e não ter consciência de nada, apenas ser conduzido pelos outros, mas eu mesmo desfiara o novelo de lã do meu destino. E agora, sem outra chance, intuía que de alguma forma nada nunca mais voltaria a ser o mesmo.

Antes de tomarmos de um caminho à esquerda, caminho interno aos campos, eu havia rebobinado a fita por completo. Lá dentro haveria momentos confusos e retorcidos, quase indistinguíveis, mas, na aparência, estava intacta como o meu futuro escolar e, como logo vim a saber, também o destino politico e a saúde do meu pai. Descer no Cambuí cobertos pela poeira do caminho não nos deixava esquecer de que havíamos entrado numa nuvem. Numa não, em mais de uma, na verdade. Mas isso não adianta explicar. A gente apenas entende estando dentro dela.

O botão imenso do dial tinha pelo menos o dobro do tamanho da mão do Mariano, mas ele insistia em girá-lo da direita à esquerda e também na direção inversa com a esperança de localizar resquício de voz humana em meio ao chiado ruidoso da banda de FM do rádio do novo aparelho de som. Mas não havia nada, nem possibilidade de que o rádio capturasse alguma coisa nas ondas da frequência modulada em Itaborã. Para que serve um rádio FM num lugar onde não existiam estações disponíveis? Nada também, apenas um estado de prontidão para quando se concretizassem as promessas de instalação sempre adiadas de uma estação para aquela região do estado.

Enquanto isso, o jeito era conformar-se com as três ou quatro estações de ondas médias e suas programações esquisitas e que se resumiam em noticiosos locais, chasques destinados ao interior do município e repetições sem fim de músicas de gosto duvidoso e, pela noite, das trilhas das novelas que o radialista buscava em primeira mão de Santa Maria ou Pelotas. Nesses horários de tédio absoluto, eu sonhava em voltar a ouvir as músicas dos roqueiros que viriam ao Rock in Rio no outro ano e que ouvi no carro do maldito Aquiles, mas não acontecia.

Às vezes, eu chegava a entrar na fila dos candidatos à escolha de música (a aventura consistia em entrar ao vivo na programação, por telefone, e pedir ao locutor a execução de uma faixa especial), mas logo me desanimava porque sempre havia dezenas de pessoas com a mesmíssima ideia. Eu chegava mesmo a deixar o tape-deck preparado para gravação na expectativa de que o radialista repetisse Bohemian Raphsody. Ele havia a executado algumas vezes e eu pensava que poderia repetir a qualquer momento, mas quem levava a melhor era Julia. Ao contrário de mim, minha irmã mais velha não se incomodava com as predileções do sujeito que, ainda por cima, dera de sortear aqueles discos horríveis das novelas aos seus ouvintes, além de outros brindes insólitos como tíquetes promocionais de um motel que se tornara seu principal patrocinador noturno e que ele locutava languidamente sob uma trilha extraída sei lá de que porcarias de filmes de quinta categoria.

Ao fim de um tempo, Julia tinha uma fita cassete de 90 minutos gravada em ambos os lados com Foreigners, Erasurers e afins. A minha continuava intacta, esperando o dia em que Itaborã ganhasse a prometida FM. Isso só mudou um pouco lá em casa quando o Alexandre apareceu um dia portando sob a axila uma pequena coleção de vinis herdados do cabeludo Aquiles e deixou, mediante súplicas, alguns ali comigo. Ao lado dos discos da mãe e do pai e das malditas trilhas das novelas das oito, a prateleira vertical ao rés do móvel ganhou a companhia do disco branco do Queen, um Led Zeppelin sem título na capa (só um velho carregando uma montanha de feno), um outro maluco carregando um sabre e de capacete e o operístico disco ao vivo do Supertramp em Paris. Eu finalmente conseguia fazer frente às coisas horrorosas a que sistematicamente todos me submetiam.

Outra vantagem era a presença do Alexandre que, por alguma razão intuitiva, afastava completamente Julia do nosso ambiente musical. O Mariano não se importava e, como um bebê crescido, até se divertia com o rock pesado. No mais das vezes ele ficava por ali pintando e recortando e não nos incomodava. O mesmo não acontecia com a minha irmã.

“Ele vai morar aqui agora?”, chegou a perguntar a respeito da insistente presença do Alexandre. Eu disse que não iria, ora essa, mas queria saber o que lhe incomodava. “Esse aí ainda vai te botar em maus lençóis”, tentou me advertir. “Se tu sabe alguma coisa dele, fala ué. Ou cale-se para sempre…”, retorqui. Mas não precisou, ela apenas com o olhar insinuava alguma coisa, algum perigo, mas eu não tinha paciência para esses códigos mais, especialmente porque incrivelmente o radialista tocava algo que me interessava.

Os acordes iniciais do coro e do piano de Freddie Mercury soaram pela primeira vez a 100 watts de potência e até a mãe veio escutar aquela música que só tinha ouvido então pela televisão, mas havia gostado muito. Bom gosto musical ela sempre teve mesmo. E paciência de sobra, imensa e eterna.

É agora que enguiça. Daqui a segundos. O arranhão atravessa os sulcos e faz ancorar ali dentro a agulha de diamante. E até que alguém levante-se do sofá, a voz de Roger Waters ficará repetindo-se sob o coro da própria voz, ao fundo e aos gritos, como num surto paranóide. As vozes buscando alertar a si mesmo de algo terrível, talvez o anúncio de que eclodiu, finalmente, a terceira guerra mundial e assim serão recompensados todos os loucos do mundo de tanto tempo de ameaças e promessas.

“Troca esse disco, Antônio”, eu ouço a Ana Luiza dizendo-me enquanto folheia a revista Veja com a retrospectiva da década, do século, do milênio.

Eu também quero, mas não consigo. Há muito tempo não o escutava. Quinze, vinte anos? Ou mais? Não conseguia escutá-lo. Era como levar-me de volta a um lugar e tempo que não existiam mais e, mesmo assim, aquilo me puxava para o interior de alguma outra coisa, igual a uma ressaca incurável. Sugava-me para dentro de memórias que talvez fosse melhor esquecer, como se a gente tivesse mesmo disso a opção. Um botão de loudness que ao menos abafasse o ruídos dos carros, o rádio pendendo de estação em estação, as memórias nos lugares onde andei e também os por onde deveria ter andado, mas apenas pensei e imaginei.

“O que foi? Olha o estado da minha barriga. Não vai querer que eu me levante daqui só pra isso, vai?”, ela indaga.

“Claro que não! Só um pouquinho… Eu já vou…”, respondo-lhe.

Sem perguntar-lhe, penso em aproveitar o impulso e ir fazer um café. As bolachas da padaria Mundial estão no ponto certo. Um dia a mais e precisarão ir ao forno, amolecerão por dentro e, apesar da casca dura por fora, por dentro imperceptivelmente amolecem, vão amolecendo. O mesmo se dá comigo. Há ruínas e maldições que eu não deixo que ela veja. Nunca deixei. Foi pelo que que ela me amou mesmo? Pelo verniz de fora ou pelo sangue de dentro? Eu não sei, nunca perguntei e nunca perguntarei. Talvez as duas coisas ou, talvez, outra coisa. Algo completamente fora do meu alcance e domínio.

Disco estranho esse. Parece que é o único que tenho ouvido há anos. Enquanto a chaleira aquece a água, noto um gato atravessando os muros que o irmão dela galgava como um Tarzã, em busca de levar-me para conhecer o mundo ao seu lado, como um escorte e aprendiz. O que ele queria de mim, o Alexandre? De uma criança, como eu? A companhia? Parece tão pouco provável, agora. Acho que nem ele sabia. Tenho certeza disso e também de que deixei a água ferver e, por isso, vou queimar o café. A Ana Luiza detesta café queimado, mas é o que teremos.

Com a bandeja que a mãe servia broinhas e quitutes aos visitantes do velho Bonifácio, carrego as xícaras e a travessa de bolachas. Deposito-a sobre a mesa de centro da sala, quadrangular, e alcanço-lhe a louça ondulada segurando-a pelo pires.

“Não vai trocar o disco?”, pergunta de novo sobre o “The final cut” no prato do aparelho em torre. Levanto-me e penso em vasculhar ali, para ver se encontro outro que possa ter vontade de escutar, mas tomo outro caminho e me dirijo à janela. Fico olhando a rua e o movimento nulo, apenas das janelas abrindo-se e fechando-se anonimamente.

Amanhã, quando não estivermos mais aqui, o disco ainda estará ali. O Mariano não escuta mais música por meio dele, só pelo computador e quase sempre conduzido pelos fones de ouvido, com o silêncio ao redor. Ele quer me gravar não sei quantos discos, duzentos talvez, num CD, e me oferecer. Duzentos discos é música demais. Pensando bem, só “The final cut” é disco demais.

Volto à mesa e sento-me bem diante dela e respondo-lhe: “Não… Vamos aproveitar o silêncio enquanto dá. Amanhã, voltamos pra casa, lembra?”.

A Ana Luiza respira fundo e, dentro da sua barriga, o nosso filho (ou filha) suspira também. Amanhã, é voltar para casa e deixar o que está onde está, no ritmo impossível que se move de décadas em décadas, de vidas em vidas. Ou, pelo menos, até que a mãe decida reorganizar o mundo doméstico, porque ela sempre conseguiu isso (e eu nunca entendi como): reorganizar o mundo. É uma herança sua que não caiu para mim. Mas nada que reclamar. A vida é assim mesmo: cada um na sua.

A debreagem serve para mudar de marcha. Se dentro de uma velocidade ascendente, ela permite que o tracionamento do diferencial aumente ainda mais o giro e a rotação do motor. Numa transmissão descendente, ocorre exatamente o contrário; nesse caso, o veículo vai manter o giro numa velocidade menor de transmissão. É mais ou menos isso. Se for isso mesmo, vai dar certo, mas, se não der, eu faço dar de qualquer jeito. O pedal não vai sair mesmo do lugar e eu não tenho necessidade nenhuma de andar rápido. Depois da quarta vez, não é possível que eu me atrapalhe outra vez nessa idiotice.

Do lado de fora, externo à janela, escuto a voz do fiscal indagando-me sem imaginar que já é o meu quarto exame. Quarto ou quinto, eu nem sem mais. Houve um momento em que comecei a acreditar que, dadas as circunstâncias, sem um suborno, nunca que eles me entregariam a carteira. Nisso resultou o Bonifácio ter morrido antes de me ensinar a chateação que é dirigir. Assim, só me resta mesmo passar por isso tudo e quantas vezes for necessário. Novidade? Nenhuma. Na minha vida, tudo foi sempre assim mesmo.

“Pronto?”, pergunta o sujeito de óculos de sol e cabelo ondulado. Olhando rápido, a figura dele me parece um pouco a do Alexandre e eu fico imaginando se fosse ele ali, em seu lugar, como é que tudo se daria.

Mais velho, não mais o moleque invasor de pátios, mas ainda com aquela fisionomia debochada, como se me fiscalizasse sempre os erros em falso, fingiria me apoiar com o seu ardil teatral inigualável. Como um fantasma que me fosse recolher dos escombros dos meus fracassos, depois colocaria o braço sobre o meu ombro e me arrastaria para alguma loucura improvisada ou planejada, não importa, planejando vingar-se comigo, este o seu objetivo final e inicial.

Então é isso. Parece que vou mesmo fazer o teste para um sósia do Alexandre me avaliar e isso me parece ainda mais absurdo e inaceitável.

É delírio, claro que é, mas eu poderia atropelar a criatura e ir fazer companhia ao próprio no Presídio Central, que é onde ele deve estar agora. Mas quem pode saber onde anda o Alexandre? Pode estar no exterior, quem vai saber? Pode estar em qualquer lugar, até mesmo em espírito dentro do fiscal da minha prova de baliza e, se eu estiver certo nisso, então eu estou fodido mesmo.

O Alexandre sempre foi mestre em ver a minha incompetência, a falta de habilidade, as muitas incompetências. Ele saberia sobretudo me mostrar como fazer, mas sem mostrar, e depois diria que eu é que não faço nada certo e que ele me ensinou o que sabia e fez tudo o que podia por mim, paciência se eu fracassasse. Talvez assim eu me tornasse um homem, um adulto, e deixasse para trás o moleque superprotegido, filho de lá sei quem, do vereador não sei das quantas, e tratasse de ser alguém por conta própria.

Do lado de fora, no meio da rua ainda, o sujeito esperava a minha resposta e, talvez, o certo fosse abandonar o carro ali mesmo e voltar a pé para casa, atravessando os bairros de Porto Alegre como uma espécie de fugitivo, de desertor. Abandonar o carro? Sim, abandonaria… Mas não daria o gostinho a um sósia do Alexandre de me ver fazendo tudo errado e atestando ali que eu era apenas um impostor.

Imediatamente penso na frustração da Ana Luiza e da sua recomendação expressa. “Não vai esquecer de dar o sinal antes de dobrar”, ela lembrou-me muitas vezes de que só isso já poderia complicar em definitivo a minha situação. De acordo com ela, a Maria Clara rodou só por isso. Não sei quantas vezes a Maria Clara fez a prova, acho que umas vinte. Mas conseguiu, não conseguiu? Então fica tranquila, eu lhe disse, eu também vou conseguir.

“Pronto!”, eu respondo finalmente e o sujeito então faz a volta no carro, abre a porta, entra e senta-se ao meu lado. Com uma prancheta nas mãos, ele anotará cada deslize meu, como um Alexandre que se separou do original e ganhou vida própria com o único intuito de me perseguir vida afora. E me tirará pontos até cassar por completo a minha pretensão. A verdade é que não precisava ser o Alexandre para ser o Alexandre, e isso me parecia cada vez mais translucidamente claro, assim como a certeza de que provavelmente haveria ainda no meu futuro outros Alexandres. Muitos deles. Não vai ser por isso. Eu já me livrara uma vez do pior deles, do primeiro e autêntico, que me custaria livrar-me de todos eles (meras cópias–carbono) se fosse preciso?

Ligo o carro e parto.

De imediato, o sujeito anota algo na sua prancheta. Eu havia partido sem dar sinal, exatamente como a Ana Luiza me advertira. Mas que bosta! Menos um ponto logo de partida… Sem sequer olhar para o lado, noto que o sorriso do Alexandre estava bem ali mais uma vez. Não há prisão ou jaula que possa prender o desgraçado. Seja como for, algo me diz que, dessa vez, se eu quiser, não vou cometer nenhum erro mais. E, se desejar, vou sair do perímetro da cidade, passar pela ponte, tomar a BR em direção à fronteira e, então, vou finalmente entregar aos cuidados do Alexandre mais este Alexandre, isso se não abandoná-lo no acostamento desolado junto com o carro de merda e sem freios nem embreagem que eles oferecem para fazermos as provas.

Ao final do circuito, desço do carro e olho de novo para o fiscal. Não sei o quanto errei, não fiz contas, mas trouxe o que tinha até o fim. Também isso parece um destino para mim, repetir-me e continuar tentando quando parece impossível ou já seja inútil. É estranho, mas agora já não me parece tanto assim que seu perfil lembrasse o Alexandre. Não lembrava o de ninguém que eu conhecesse, nem ele e nem ninguém entre os demais candidatos reunidos sob uma paineira da praça e o calor extemporâneo de abril, onde aguardávamos que ele anunciasse os felizardos.

Igual a um fantasma, ele evaporara da minha mente, mas por quanto tempo estarei livre da sua presença? Eu não sei. Nunca soube… Mesmo preso, ele está sempre voltando. Voltando e me reencontrando. Qualquer hora dessas ele voltará outra vez e me reencontrará. Pelo jeito, ainda que eu esteja tão velho quase a ponto de me tornar mero adubo e nada mais reste nem da minha e nem da sua passagem em toda a superfície do planeta, ele me reencontrará.

Um a um, ele foi dizendo os nomes e outra vez o meu não estava entre eles. Na hora, baixei a cabeça e fiz menção de voltar a pé, não importava a distância que estivesse de casa eu iria a pé, como se numa procissão solitária que só a mim cabia cumprir. E como se ele notasse a minha frustração, ou por uma razão que não entendo me absolvesse de continuar aquele martírio, com a mesma voz que ele me anunciava dentro do seu time de basquete quando eu não era ainda mais que uma criança, nos pátios do Lourdes, ouviu-o dizendo: “Tem mais um nome aqui… Antônio?”

Olhei para trás procurando encontrá-lo mais uma vez. Era óbvio que ele já estava ali novamente, com aquele sorriso que insinuaria dizer que havia sido ele quem havia me libertado do martírio infernal, portanto tudo se tratava de uma concessão sua, nada disso de mérito meu. Mas o sorriso do fiscal era franco e parecia mesmo contente em me alcançar um papel que me autorizava a trafegar até que o documento estivesse pronto. Se o Alexandre mostrara alguma vez aquele sorriso? Bem, só a mim cabe decidir pensar com ou sem rancor e eu não tinha, nunca tive, rancor algum do Alexandre. Receio, sim. Cuidado em dobro ou em triplo também. No entanto aceitei todas as vezes que ele me empurrou para frente, mesmo quando foi com força demasiada. E quando foi ele a me jogar no chão, uma única vez isso aconteceu de verdade, sem nem entendê-lo ele acabou me ensinando a levantar também. Mas isso não tem mais qualquer importância. A ninguém é dada a opção de escolher os momentos que se vai viver com os outros. Vive-se apenas e quase sempre sem muita consciência do que está se passando. Vive-se porque é aquela a vida que está disponível, não há escolha nenhuma sendo feita. Nesse momento, a única escolha que eu gostaria mesmo de fazer era quanto a quem estaria na minha carona para dar uma volta em torno da praça central de Itaborã. A primeira como habilitado, como se entrasse numa cápsula do tempo e isso fosse mesmo possível. A despeito de tudo, só haveria um convidado possível. E ele estaria rindo sim, talvez até gritasse, mas ele colocaria o som tão alto, tão alto, que não perderíamos tempo tentando dizer mais nada.

Faça aqui download da versão
para impressão em formato pdf
.

Esquiladores

“Nunca le interessou seguir a comparsa?”, perguntou-me a seco o noviço, como se fosse de intimidade, gente do meu sangue ou do meu conhecer. Ali eu estava por comando do padrinho e não apreciava dar respostas a meu respeito. Não bastava que lhe entregasse a borrega pronta pra carga das tesouras? Agora o que mais queria saber de mim esse daí?

“Nunca.. Sou das casas.”, resmunguei bem quando levava a mão no quarto de uma outra, lanuda, uma corriedale sebenta que, na brasa certa, perfumaria até o pago vizinho. Mas uma borrega assim o patrão deveria reservar pra cria, só num ato de desespero le passaria a faca. Ou então em reunião de domingo, quando algum parente se apachorrasse no casarão a modo de desassossegar a peonada da casa e impedir que a Jandira arredasse o pé do fogão.

Ah, Jandira! Pedaço de torresmo apertado.. Faz pouco a vi passando com um tacho pras goiabas e figadas. Doçura que ela passaria daqueles olhos melados de pronto ao açúcar que se emenda nos bocados que ela saber fazer igual a ninguém mais. Os outros só sabem de ouvir dizer, mas eu, que me assentei como sota por confiança do padrinho, sei porque ela me alcança de vez em quando uns apanhaditos nuns potes de matéria plástica que agora andam chegando com tudo por aqui, comida, remédios e o que mais. Esse o nosso namoro.

“Devia… O amigo é bem bueno de martelo!”, disse-me no que não soube interpretar como elogio sincero ou adulação. Tem dias que o guri anda me cercando, querendo saber de quem é quem, do quanto é quanto, do porque de cada por quê. Eu com a minha carranca quieta pensei que o afugentaria, mas que nada… Agora vive a querer saber de tudo, até mesmo da Jandira, o desaforado.

O noviço esse é mais um a esticar o olho comprido a cada vez que ela passa ao longe, todo mundo estica, mas o certo é que se eu arranjo mesmo um ranchito pra nós, o padre da vila nos faz o ofício de casar direito, que eu faço é muita questão. E ter uma vida direita, de trabalho, retidão. Mas o guri, é claro, olha pra ela como fêmea, não vê a mulher nem muito menos a pessoa. E porque ele olha pra ela, eu também olho pra ele e assim parecemos um rodeio parado numa tronqueira, que nem o gado, examinando-se.

“E aquela cabocla, que parece? É Jurandira que chama?”, indagou com ares de inocente ignorância. “Jandira”, corrigi de pronto. “Que tem ela?”, aticei o linguarudo a dar com os dentes na língua enquanto olhava o velo pela metade no lombo da borrega aos seus pés, esperando o fim daquela prosa que os demais nem podiam ouviar, pois o patrão sintonizara o rádio sobre um tonel alto ali de modo a entreter a comparsa inteira. Por ali, dos nove homens mais o noviço, todos eram sabidos de alguma conversa das redondezas e gostavam de prosear, mas a programação e o noticiário da cidade calava a todos, subitamente interessados em coisas como carnaval, futebol, telenovela. Menos o noviço que então continuou seu inquérito e sentenças: “Lindaça!”

“Mas não é pro teu bico!”, adverti e ele riu meio debochado, como se quisesse mesmo é testar meu interesse nela. Mas falei mais alto ainda que o rádio, alterado, e os outros levantaram os olhos em nossa direção. “E já vai terminando essa borrega que o curral tá até a boca!”, concluí e ele fechou o cenho, olhando pra baixo e torceu o nariz pelo corridão que lhe dei.

O calor grande de novembro perto do meio dia me levou à cozinha do mais velho deles, que lhes servia também de cozinheiro, deixando o toc-toc das tesouras pra trás e a montanha de velo e garreio acumulada no galpão por embolsar, eu e o guri, nos embolsadores emparelhados bem ao lado do portão. Tomei com o homem um ou dois mates e decidi almoçar por minha conta, sem a conversalhada dos esquiladores. No meu quartinho, tomei do carreteiro encostado, acresci um punhado mais de arroz do pote e, coisa de nunca, levei a mão na caninha que alguém esqueceu por ali. Azeda, não me entrou lá muito bem, mas sequei o que havia na garrafa pensando que a Jandira talvez não se desse tanto ao respeito e se aparecesse demais agora que a comparsa se instalara. Que tanta curiosidade tinha, afinal, a chinoca, se já nos havíamos até prometido? Ora, o que faz a aguardente com um hombre, não é mesmo? Leva a confabulações sem sentido, talvez…

Sesteado, mal sesteado, acordei-me com a têmpora latejando e o suor escorrendo no pescoço empapando a camisa. E pensar que agora ainda iria me enfurnar que nem tatu num embolsador mais quente que um fogaréu. Chegando lá, quedelhe o noviço? Desgraça de guri.. Bueno, como preciso começar de algum lugar, vou eu mesmo embolsando os pacotes de lã branca e pisoteando aquilo até firmar o garrão… Dali, ouço a comparsa se arranjando no galpão ao lado e o rádio naquela hora tocando, felizmente, umas rancheiras das buenas que até me passaram um pouco o incômodo da canha em mau horário.

“Buenas!”, ouço do lado de fora e finalmente é o noviço que apareceu. “Onde andava?”, pergunto-lhe enquanto sigo no pisoteio. “Ah, fui ali na sanga lavar os pés e afiar umas tesouras…”, respondeu-me. “Menos mal…”, comentei. “E quem tava lá?”, indagou numa simulação dele mesmo me responder e continuou: “A Jandira…”

No mesmo instante, senti que não gostaria de saber o que mais ele me diria, mas o atrevido continuou: “Ela levou panelas pra ariar e me ofereci pra le ajudar, mas fique tranquilo que moça direita como aquela nunca eu vi. Não me deu confiança e me despachou pra longe com um corridão que senti medo até…” E ia contando devagarinho de modo que eu conseguia lá dentro da estopa escura imaginar a cena e pensava que se fosse ele ali dentro e eu ali fora, não me custaria nada esticar a adaga pra dentro até encerrar aquele falatório. E foi tecendo elogios e me dizendo da minha sorte de um casamento feliz que com certeza, de acordo com ele, nos destinaria o futuro. Funcionou, pois me acalmei e ainda mais porque a esquila já andava em vias de acabar e desse modo aqueles aporreados todos se iriam pra bem longe da Santa Eulália, que voltaria ao seu sossego habitual.

Passou a tarde, não restou uma felpa mais a embolsar e os rebanhos todos do padrinho foram devidamente depilados. As ovelhas ficavam meio feiotas rapadas, mas, assim, o verão lhes seria possível. O meu também, porque o entrevero todo de gente que se junta apenas por evento às vezes vai de encontro a maus elementos. Não que tivesse visto algum suspeito, mas sempre tem um mais quietarrão que a gente imagina o que tenha de oculto naqueles silêncios sem fim. No outro dia cedo já não estariam mais ali e pra logo haveria um truco ou uma bisca pra pescar dos mais animados algum trocado de aposta. Mas não me aprocheguei ao assado que montaram no costado do ombu e me aquietei cedo. A dor de cabeça, como um mau pensamento sem expressão, voltara e fizera com que me deitasse com as galinhas. Nem me dei conta que, estranho, a Jandira não passou pra dar seus boas noites. Só no outro dia fui notar, mas aí já era tarde.

Foi o chefe da comparsa quem me segredou no primeiro mate, antes da alvorada, que viu o noviço, mais cedo, tomar o rumo da estrada, não sabia pra que lado, e com a Jandira no seu costado. A informação me entrou mais amarga que a erva uruguaia do mate, mais que carqueja verde, entrou como um veneno e cogitei de encilhar o baio e me tocar atrás deles. “Mas ela saiu sorridente…”, advertiu o velho gaúcho, como se dizendo que não estava indo obrigada, de modo algum..

Os demais esquiladores fingiam não ouvir a conversa, mas me olhavam de um modo compassivo e parecia que as conversas paralelas eram todos de um consolo que me ofereciam. O velho me fez sentar e contou histórias da sua vida e me fez refletir. Refletir e decidir. Perguntei-lhe aonde iriam agora que haviam acabado com a Santa Eulália. “Vamos à Santana, coisa ligeira, e depois Melo, no Uruguai…”, disse-me o esquilador com seu chapéu coco e barba espessa. Logo eles começaram a juntar as coisas e em breve partiriam num F600 dos mais bem cuidados, posse do chefe da esquila. Deixei que arrumassem suas coisas e tratassem de partir, pois precisava acertar a lida com o padrinho, igual a todos os dias. E foi o que fiz. O padrinho, quando soube do que me acontecera, lamentou minha má sorte e até me tentou consolar, mas nada mais podia fazer por mim. Ninguém podia. Talvez só eu mesmo e foi o que fiz ao me adiantar à saída da comparsa, na porteira do corredor, e levar o pouco que era meu numa mala de garupa, um par de botas, roupas gastas e duas bombachas de serviço, pra subir na carroceria e realizar outro sonho de guri: atravessar finalmente a fronteira.

Malgrado a lua cheia

Chegamos ontem de fora. Nunca mais voltaremos lá, eles disseram. O pai já tem a saudade dentro dos olhos que eu vejo, qualquer um vê. A mãe tem esperança e vive a clamar por ela. E nós, crianças, viemos porque nos ordenaram. Mas parece que tudo isso há de ser bom. Uma nova vida. Vamos finalmente ao colégio e aprenderemos a fazer contas direito, sem precisarmos mais das contas de osso dos arreios. E ler e escrever, porque as lições da tia Anastácia mal dão para ler gibi, apesar de que, pelo menos no julgar da mãe, foram um bom começo.

A casa é boa, novinha. O pai gastou acho que até o casco das vaquinhas para construí-la. E eu e o mano ajudamos em tudo o que pudemos. Carregar tijolo, fazer a massa de cimento e todo o trabalho de pá fomos nós que fizemos. Pedreiros mesmo foram o pai e o tio Antônio, que veio antes e foi quem os convenceu a segui-lo, para trabalhar com ele na construção; ele e a tia Janjona, com certeza. Todo esse lado da cidade, se entendi bem, antes fora um banhado e, com cargas de pedra e terra e socador, aplainaram tudo. Veio o conjunto de casas; dentre as quais, a nossa.

Como o tio Antônio sempre tem razão em tudo o que diz, bastou o aceite da mãe para ele se convencer ainda mais rápido e logo ela começou a desfazer-se das coisas que não queria mais ver pela frente. Trastes de couro, latas, plásticos, caixinhas e caixotes, tudo foi queimado numa fogueira imensa; salvaram-se as roupas apresentáveis, segundo o seu juízo, para nós e os filhos das comadres incrédulas, mais as panelas, louça, talheres e os quadros da família do pai que decoravam nosso rancho, além da imagem do Sagrado Coração de Jesus, benzida sei lá por quem, mas a quem ela destinava rezas e promessas quando as coisas não iam bem e isso era, nos últimos tempos, mais do que frequente. Por isso viemos. Chegamos ontem de fora e, por enquanto, só o pai mostra um pouco de desassossego e abandono, mas sem dar um pio. Mostra só pelo modo de olhar e no silêncio de quem toma o mate ainda do mesmo jeito, repassando mentalmente a lida, sabe-se lá de que jeito ou por quê.

Eu não penso que seria melhor ter ficado e nem aposto todas as minhas fichas que vai ser um folguedo, mas vou procurar viver cada dia como se fosse único e tratar de buscar com o que me entreter quando largarem um pouco de mim. Que mais poderia me ocorrer?

Nos fundos da casa há um arrabalde, um pátio abandonado de uma casa do bairro antigo virada em tapera, onde já vi que tem jogo de bola, mas só vou lá com permissão, que não se pense coisas a meu respeito. Respeito, aliás, é o que a mãe disse para eu nunca esquecer, mesmo quando eu mal entendia o que isso poderia ser, mas pressentia que tudo se resumia em ficar quieto e obedecer, que o resto nunca era coisa de criança. E responsabilidade também era outra palavra de que ela gostava muito e eu entendia como podia sobre o que é certo e o que não é, apesar de que, de acordo com ela, isso deveria depender apenas de mim mesmo.

Acho que a nossa casa nova é pequena, mas que é melhor do que a que tínhamos antes não resta dúvida. Nosso rancho na campanha era mais espaçoso, mas cheio de frinchas. Ali os chupões gostavam de dormir e o medo de pegar doença sempre estava no rol de rezas da mãe, que contaminou dos próprios medos as gurias, se bem que guria é sempre meio fiasquenta mesmo. Instalar a cozinha nos fundos da casa não agradou a mãe, que gosta de bombear o movimento, mas ela vai se acostumar, é o que diz o tio Antônio. A mana diz que ele fala isso para tudo e chora escondida sem razão aparente. Anda assim desde que chegamos, a pobrezinha. Acontece que decisão é decisão e não há mais o que se possa fazer. O tio não sabe consolá-la e diz coisas horríveis sobre viver na miséria e outras barbaridades. Quando exagera, o pai intervém: “Mas já não estamos aqui? Pra que tudo isso, che?”

Quem é que quer viver na miséria? Que eu saiba, ninguém. Por isso viemos. Chegamos ontem. E agora, como é quase noite, no arrabalde a gurizada já está jogando bola. Sem jeito, peço ao pai para ir até lá. Ele parece ficar pensando, mas não tanto e deixa que eu me vá, desde que volte antes de cair a noite cerrada e que leve o Miguel comigo e tome conta dele.

São quatro guris jogando uma bola meio murcha, feita de um couro grosseiro, mas melhor que todas as bolas de meia ou esterco de vaca com que nos virávamos lá fora, em partidas que sempre se esfarelavam em guerras campais. Encostei-me no muro e, longe, para dentro do pátio, vejo que no fundo do arrabalde há árvores crescidas, pereiras e não sei que outras. E um casarão em ruínas, com as paredes pela metade. É bem lá no meio dele que, depois de um chutão de alguém, a bola vai cair. Os outros guris se exclamam puta merda e puta aquilo, mas ninguém se apresenta para ir até lá; eu e o Miguel nos aproximamos e eu me ofereço para ir lá buscar a bola. “Deixa que eu busco!”, falei. Os outros ficaram quietos, mas o maior deles, ainda assim menor um pouco do que eu, foi quem me alertou: “Dizem que lá tem fantasma, uma mulher velha que, Deus o livre, é horrorosa e prende quem vai até lá.” Eu me ri da conversa do outro. “Que nada. Vou lá e já volto”, anunciei e disse ao Miguel para que ficasse com eles. Em coisa de um instante eu estaria de volta com a bola perdida.

Claro que lá não tinha nada mesmo, só uma casa velha com umas madeiras destruídas no chão, resto de piso e vidros quebrados, mas a bola mesmo eu não consegui encontrar. E procurei tanto quanto pude. De longe, de repente notei que o Miguel não estava mais com eles e então fiquei pensando no que deveria fazer: se continuava procurando a bola entre os escombros da casa para exibi-la como um troféu ou se corria para ver onde se enfiara o maldito guri. Antes de me decidir, resolvi procurar mais um pouco. E um pouco mais. E o tempo foi passando e a noite foi caindo. De repente, já não havia mais luz o suficiente para procurar o que quer que fosse e decidi voltar. “Onde está o maninho?”, perguntei a eles, embolados perto da cerca que divisava o campinho improvisado junto ao arrabalde da tapera. O maior deles, de novo, foi quem veio falar: “Ele se foi. Saiu correndo e eu é que não ia sair atrás dele. Nem sei onde vocês moram…”. Sem apresentar-me nem jogar um instantezinho que fosse, saí correndo atrás do Miguel. Deus me livre se algo lhe acontece, a tunda que eu vou tomar…

A noite já caíra e a hora de estar em casa já estava quase passando. Talvez o Miguel estivesse já com eles ou brincando com as gurias na frente de casa, mas ele nunca fez isso comigo, sempre me esperou para tudo. Desgraça de guri! Onde se enfiou essa merda de guri?

Estivesse onde estivesse, eu não voltaria para casa sem ele. Pensei em fazer a volta pelos fundos das outras casas, atravessar o cercado dos pátios e ir conferir se ele estava lá dentro ou não, mas a cachorrada não deixaria que eu me aproximasse em silêncio. E pensei também no pior, como não pensaria? E se um carro ou caminhão tivesse pegado ele de frente? Mas aqui mal passa carroça, ainda mais a essa hora da noite, isso não pode ser… Vou chegando pela rua de terra, pulo a valeta dos esgotos e, ao longe, vejo na porta da casa o pai sozinho, tomando o mate no seu mochinho enquanto a mãe, decerto, apronta a janta com as gurias; nada do Miguel por lá, pelo jeito. Como fui deixar uma criança pequena como ele sozinha, com estranhos? Agora está perdido sei lá onde; agora estou perdido também… Melhor que eu me suma no mundo… Que sei eu do que vai ser de mim se volto para casa sem ele e se ele nunca mais aparece… O pai não vai me matar, mas nunca mais fala comigo. A mãe me perdoa porque seu coração é grande e medroso demais para me esconjurar da própria vida. As manas eu nem sei, aquelas choronas. Por que não trouxe uma delas para botar o Miguel a cabresto, como fazíamos aos cavalos quando brincávamos lá fora, todos juntos, na taipa do açude, de açular tachãs e maçanicos?

Sem ideia mais nenhuma do que seria a minha vida nesse lugar de desgraça, pensei em fugir ao tio Antônio, mas também me faltava coragem. Acho que nunca mais ergueria os olhos para ninguém, envergonhado até o fundo dos ossos. Orgulho da minha coragem também não me serviria mais para nada. No fundo, eu era só mais um covarde. O covarde que perdeu o irmão para se aparecer em um jogo de bola de estranhos de quem nem o nome sabia direito. Um merda legítimo. Por que vou viver com isso na minha vida? E que fedor é esse que sobe da água que vai por essa sanga? Podridão? Esgoto? Quem sabe me atiro aqui dentro e causo uma tragédia na vida da família inteira, que chegou ontem de fora, cheia de esperança para uma vida nova na cidade?

De repente, entendo que não posso fazer nada e devo ir para casa e mostrar minha cara estúpida para a mãe e para o pai e receber deles o que eles julgarem certo, nada mais que isso, mesmo que seja uma sova com o rabo-de-tatu que, com certeza, o pai não jogou fora. E lembro-me do Miguelito aprendendo a cavalgar ao meu lado, no petiço gateado e de como gostava de galopear nas minhas costas, brincando e rolando no pasto, fosse de dia ou de noite. Sento-me numa pedra ao lado do sangão, apesar do fedor tremendo, e minhas lágrimas caem misturando-se em sabe-se lá o que corre ali dentro, embora o aspecto não deixe muitas dúvidas, malgrado a lua cheia. Mas então sinto aquelas mesmas cócegas de sempre por baixo dos braços e penso que não pode ser quem parece ser, mas felizmente é justamente quem é. É o Miguelito. E eu nem preciso virar a cabeça para conferir que é ele mesmo.

Chorando quase a soluçar, abraço-me nele, gordinho como sempre. “Que foi? Pra que tudo isso?”, ele pergunta. Vejo que tem nas mãos dois caniços finos e compridos de taquara. “Nada, desgraçado… Onde te enfiaste? Fugiu de mim por quê? Por que não esperou, filho de uma égua?”, emendei perguntas no coitadinho. “Eu fui buscar os caniços, não vê? Olha essa lua cheia lá em cima… A gente nunca perdeu uma assim…”, disse daquele jeito ainda meio desengonçado de criança pequena. Enxuguei o rosto para que ele não percebesse que eu chorava e peguei o meu caniço das suas mãos, pouco maior que o dele. Ele trazia moscas e pedaços de minhoca para isca de lambari e jogamos juntos as linhas naquela água duvidosa. De onde estávamos, via-se a luz apagadiça da porta da nossa casa nova e o vulto do pai ainda sentado ali na frente, tomando um mate a essa altura já bem lavado, não duvido. As manas estavam para dentro, provavelmente ajudando em alguma coisa ou tentando ajustar a TV nova, presente do tio Antônio e da tia Janjona, ai que ela me escute dizer seu nome assim. É Maria das Graças, por gentileza… O Miguel me cutucou de lado, sem dizer uma palavra e perguntei: “O que foi?”

“Não vamos voltar mais lá mesmo?…”, perguntou. Quando eu ia responder qualquer coisa, nem imagino o que seja, ouvimos o grito da mãe, em pé na soleira da porta, “José! Miguel! Olha a janta!” e corremos para junto do pai sem um lambari sequer nas mãos. Ele colocou o Miguel no seu colo e, olhando de frente para mim, com aqueles olhos que ainda não aprenderam a esconder a melancolia, ofereceu pela primeira vez um mate, que não é brinquedo de criança, segundo o seu costume. Parei quieto ao seu lado, acocorado. Ele perguntou: “Jogou, entonces?”.

“Capaz… Fomos pescar nesse arroio daqui, mas não tinha peixe, só bosta”, e rimos juntos até que a mãe veio quase nos puxar pela orelha para ir para dentro e apreciar, pelo menos ali no interior da casinha apertada, o perfume que ela haveria de produzir pelo resto do nosso tempo em São Gonçalo, que só poderia ser muito e bom, afinal chegamos ontem de fora e fez bem rir um pouco depois de tudo o que passei porque não sabemos, ninguém sabe, o que será a partir de amanhã.

Há cinco anos publiquei meu primeiro livro. Um livro de contos que a Ed. Movimento do Prof. Carlos Appel me ajudou a publicar. Vencidos os cinco anos contratuais, assumo de volta os direitos de publicação e reprodução. Há um tempo resolvi que vou reescrever todos os contos e republicar o livro logo mais, com o nome que tinha pensado por primeiro para ele. De “A aposta” voltará a “Interiores”. A reescrita se deve a problemas de revisão e ao meu açodamento habitual, que acabou empobrecendo muitos trechos e contos inteiros, cujas ideias não eram de todo más e que penso em salvar da minha própria negação. São contos em sua maioria rurais, eu prefiro chamá-los assim do que “regionalistas”. De gente pouco opulenta e pouco identificável com esse “gaúcho” histórico que hoje se quer descontruir e até mesmo combater. Enfim, este é o primeiro conto reescrito, chamado “Malgrado a lua cheia”.