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¡𝗤𝘂𝗲́ 𝘀𝗲́ 𝘆𝗼!

Havia muito que andava e as alpargatas endurecidas agrediam tanto a sola dos pés que até o pastiçal tapado de rosetas e caraguatás parecia mais suave. Logo de cruzar um banhado no qual as tachãs dormiam em silêncio, no entanto, um relvado compareceu à planura. Algo parecia indicar que teria com o que e onde abrigar-me um tanto e logo um capão perdido no horizonte, sob o crepúsculo, parecia ser um adequado lugar onde acampar. Lenha e gravetos não faltariam para que acendesse o fogo, aquentasse um tanto de água e matasse a sede com a yerba seca e guardada na mala de garupa. Também tostaria um pedacito de charque e teria com o que virar-me, pelo menos nessa noite.

La Paraguaya – Juan Manuel Blanes

Não entendo como um mero arvoredo poderia parecer tão acolhedor, mas o fato é que, ao aproximar-me, notei que algo se movia por detrás dos troncos das árvores. Algo que se ocultava, pulava de árvore em árvore e que me observava e que tinha nas mãos uma faquinha curta, de carregar na bota. O vulto esbelto e os cabelos amarrados por uma vincha não me permitiam saber se era um homem ou mulher, mas quase certamente era alguém jovem, se não, não teria aquela delicadeza de gestos.

Ao setentrião, notei um pequeno acampamento. No mais, um montinho de coisas poucas tapadas por um poncho de lã. O que teria ali? Algo de valor? Algo furtado de um galpão ou recolhido de tapera? ¡Qué sé yo! Mas a criatura dava voltas naquele monturo e parecia que me atacaria de verdade se me aproximasse. E, dado o meu cansaço, me estrebucharia em dois tempos porque era ligeira como um lagarto. E tinha olhos de lagarto também, estranhamente pacatos, como de quem não fosse me matar caso eu a deixasse ali, solita, monarca daquele minúsculo reino. Porém a fome me atacava também e decidi ocupar o extremo sul do capão de mato e sentar-me sob sua observação, de mãos nuas, e comecei lentamente a recolher ramagens e folhas do chão com que pudesse causar um pequeno incêndio que me permitisse levar a efeito o que pretendia para aquela noite que começava a pintar no céu límpido de abril.

Sempre em pé, o cuera (ou a cuera) me observava e entendi que era mesmo uma mulher. Tinha algo nos seus gestos que eram fêmeos e, desarmada, não podia ser mesmo soldado egresso, desertor ou mero bandido, se não me houvera matado já. Mas por que diabos ainda não o fizera?

Com meu isqueiro de pedra, o fogo nasceu ligeiro. Num zás. Logo ajeitei a cambona com a água de uma vasilha de rosca e tomei da cuia tropeira e da erva surrada, virada e ressecada. Que importa? Estava louco num mate… No preparo das coisas, vi que ela sentara-se próxima ao seu cocuruto, mas mantinha-me no seu raio de atenção. Não exatamente de frente, mas de modo que num soslaio fiscalizasse meus movimentos. Mas eu não me movia. Observávamo-nos a uma distância hábil ao mesmo tempo de um ataque ou de uma fuga… Vinha do Paraguai, como eu? A Matilda? ¡Qué sé yo!

No terceiro mate enchido, acho que por costume, ergui-lhe a cuia no gesto automático da oferta e vi, então, que ela havia guardado a faquita. Sob o chiripá em frangalhos, em algum lugar ali, desarmou-se. Lentamente, ergueu-se meio que sem caminhar, meio arrastando-se ainda, e veio para junto do fogo. Foi quando pude ver-lhe pela primeira vez a face por completo, imberbe e com um talho cicatrizando ainda, marca feita por mão de gente. Pensei no que lhe dizer e nada me ocorria. Quando me devolveu a cuia, depois de roncar, olhou-me bem dentro nos olhos e parecia querer distinguir algo, talvez o risco que eu representava, que sé yo

Em seguida, afastou-se de volta para as suas coisas, esticou o poncho por cima de si mesma e lá ficou.

De onde eu vinha, a mortandade de guaranis me acostumara à barbaridade da morte, mas, ainda assim, pensei que poderia, se ela permitisse, juntar-me a ela no seu desterro. Dali, iríamos a algum lugar. Qualquer lugar… Que diferença faz? E pensei que, jovem, poderia me dar filhos e eu suportaria o fim dos meus hábitos antigos e me aquietaria consigo num rancho de torrão, faria changas por aí, me aplicaria a aprender um ofício qualquer. Alambrador, carneador, domador… Há tantos. E teríamos o justo: uma vaquita de leite, um tostado para as viagens e um perro para proteger nossa casa. Naquele devaneio, adormeci…

Cedo os barreiros descortinaram o dia, como eles sempre fazem. O primeiro que fiz ao abrir os olhos foi investigar seu paradeiro. Lembrei-me que, absurdo, nem seu nome havia perguntado na noite anterior. Minha educação havia sido perdida nalguma pelea, por certo. A voz também. Mas ela não estava mais lá e nada de encontrá-la, onde quer que eu procurasse. Revirei todo o matinho, atrás de cada árvore e palmilhei o chão em busca de seu rastro. Não pude encontrar. Sem dúvida, andava igual a mim, de pés descalços e o chão, numa benesse da sua natureza, alivia as marcas de quem anda assim. Para onde foi a criatura de olhos negros? ¡Qué sé yo!

Sem nada mais o que fazer ali, pensei que o caminho do nascente me levaria à fronteira, ao povo de Santana, que há de ter um refresco, pouso ou serviço… Para alguém como eu, é a glória possível de sobreviver à guerra. Tomei daquele caminho enquanto mordia o resto do charque duro da noite anterior que havia restado.

No caminho, eu sabia que havia uma sanga forte, um arroio que deveria cruzar. Logo eu o enfrentaria e, de a pé, teria de contar com muita precaução. E enquanto aos poucos me aproximava do passo, notei na margem anterior um vulto acocorado ao chão. De imediato, entendi de quem se tratava. Mas o que fazia ali? Bem, logo me aproximaria o suficiente para entender a situação e, antes que me desse com a cena, finalmente compreendi o que fazia.

Com uma cova aberta com as mãos junto a um barranco, ela depositara ali dentro o que havia mantido sob o poncho. O corpinho de um pagão ou pagã que não sobrevivera. Como ela havia tapado todo o corpo da criança, não pude saber se menino ou menina. Che cuê..

E como ela não tinha forças (ou coragem) de terminar o serviço e olhava paralisada para dentro da sepultura improvisada, agachei-me e terminei a obra também de mãos nuas, enchendo de terra as unhas e de dor o coração…

Ao terminar, coragem me faltava para buscar seus olhos. Evadia-me para qualquer lugar e ela também. Olhamos o arroio passando e a seca havia sido tão grande que passávamos facilmente a pé onde antes nos afogaríamos. Da outra margem, paramos e arrumamos as roupas. Rapidamente nossos olhos cruzaram-se, mas ela os evitou, é claro que numa situação daquelas nada queria comigo. De pronto, tomou de outra direção da que eu planejava para mim mesmo. De pronto, eu também. E fui seguido seus passos, sem ainda termos dito uma palavra e ainda sem sabermos os nossos nomes e nacionalidades. A campanha do Paraguai terminara. O que seria de dois guachos como nós daqui em diante?

¡Qué sé yo…!

FICA NA TUA : extras

Há famílias que são conhecidas por seus nomes, sobrenomes, posses, pelos feitos de seus pioneiros, a resistência descomunal dos avós que são como mitos fundadores de uma nação particular, de um pedaço seu, ao mesmo tempo mínimo e máximo: a família. Não é raro que elas façam-se notar nas datas, bodas, missas em memória, batizados, formaturas e o que mais for. Nunca há de faltar no calendário ocasião para que seus descendentes não possam caprichar no lustro de seus sapatos, trajar sua diplomacia fidalga, aberta, franca, e comparecer ao centro das atenções de todos. É nessas ocasiões que as pessoas passam a saber do que é feito de uns e de outros; seus destinos são claros como se fosse compulsório sabê-los e todos, até os mais avoados, percebem lembrar-se de seus nomes, dos apelidos e a idade em que foram colegas ou viram-se pela última vez, quando ainda andavam pelas ruas da cidade. Nunca anonimamente.

Mas também há, por outro lado, as que são evasivas, nebulosas e que é como se fosse vedado falar muito nelas porque envoltas ou em escândalos ou em desgraças, às vezes ambas as coisas. Foi em torno do ano de 1985 que o nome do meu pai entrou nessa nebulosa e só saiu de lá ao fim de três infartos; o último deles fulminante. É como se fôssemos públicos e notórios e, de repente, uma imensa nuvem do inominado nos tragou como numa maldição impronunciável, que evitávamos até pensar. O nome do velho Bonifácio, sempre tão solicitado para acudir quem dele precisava e em qualquer circunstância, de repente deixara de se escutar em meio ao rumor impiedoso da maledicência, sempre pronunciada à boca pequena, jamais francamente.

A impressão que eu tenho ainda hoje é de que, por alguma razão, a tragédia dele se fez acompanhar da minha não por uma casualidade, mas porque eu devesse compartilhar da sua sensação de fracasso, de impotência. Ainda que em proporções radicalmente diferentes, ele um dia chegou em casa após a sessão na Câmara de Vereadores e anunciou que precisávamos acompanhá-lo ao Cambuí; que ele precisava ficar ao menos uma semana por lá e longe da voz dos seus colegas e, principalmente, dos correligionários. Por ele ter anunciado daquela maneira a nossa partida, eu cheguei a pensar que ele havia descoberto que meu ano escolar havia sido em vão e que eu me tornaria em breve a decepção que dia a dia se corporificava como se pelos meus ossos e nervos, em segredo absoluto. Parece que ele mais do que ninguém sabia que precisávamos do silêncio do campo e de coisas braçais com que nos envolvermos para além das ideias dos outros, suas opiniões, gestos, olhares e juízos.

Dentro da F-1000 esbodegada, enquanto ele terminava de carregar suas coisas na carroceria, eu coloquei a fita cassete que o Aquiles havia deixado para trás junto com a discografia que mais tarde fui me apropriando e, então, as guitarras distorcidas de sei lá quem tomaram conta da cabine para o pasmo da minha irmã que se limitou a me alertar para tirar aquilo de uma vez, que o pai detestaria ou ficaria furioso.

“Rápido que ele vem chegando! Tira duma vez!”, avisou-me virada para trás enquanto eu tentava inutilmente remover a fita do aparelho grudado ao painel. A fita travara e enrolara-se dentro da gaveta e, embora eu a puxasse com certo desespero, uma ponta do rolo acabou ficando presa em algum lugar, uma roldana, um carretel qualquer do aparelho Motorádio. Se forçasse, arrebentaria e, depois disso, adeus Black Sabbath, adeus Queen, adeus Pink Floyd. Ao entrar na caminhonete, vendo minha apreensão, ele calmamente desengatou a fita do compartimento e me entregou com quase todo o rolo retorcido. “Tem uma caneta ali embaixo, no porta-luvas. Pega e enrola. Mas primeiro tem que distorcer tudo…”, disse-me com um olhar que eu até interpretei como piedoso, mas que significava que era a única chance de salvá-la, isso se eu ainda a quisesse.

“Tá, pai…”, respondi-lhe e me coloquei à tarefa enquanto aos poucos saíamos do perímetro da cidade sem que eu sequer tivesse podido avisar a quem quer que fosse de que estava me escafedendo para um fim de mundo sem nada nem ninguém à vista. Era como se estivesse sendo exilado e pensava que só podia ser por minha culpa exclusiva. Mais tarde, pelas conversas que pesquei entre ele e a mãe, vi que havia algo mais, algo que eu não sabia bem o que podia ser, mas que era fonte de evidentes preocupações.

Naquele instante, no entanto, olhava sem saber por onde começar para a montanha que o rolo da fita desfeito erguera em meu colo e tinha certeza de que seria impossível recolocá-la ali dentro e salvar a gravação. Olhava para os nós infinitos e pensava que aquilo estava ainda em pior estado que a minha vida, mas que, de alguma forma, eu precisaria dar uma solução. Pelo retrovisor, ele me observava e eu não me atrevia a olhá-lo nos olhos. A mãe, quieta ao meu lado, olhava apreensivamente para a poeira da estrada de chão que sugava para dentro da caminhonete a nuvem para a qual nos dirigíamos. A Julia também quieta e espremida junto à palanca exibia sua expressão múltipla de desgosto pela viagem e incômodo; e o Mariano, acocorado em meus pés ao rés do chão, gostaria de me ajudar na tarefa impossível, mas mais atrapalhava, o pobrezinho. Eu olhava para ele e pensava que seria bom ter a sua idade ainda e não ter consciência de nada, apenas ser conduzido pelos outros, mas eu mesmo desfiara o novelo de lã do meu destino. E agora, sem outra chance, intuía que de alguma forma nada nunca mais voltaria a ser o mesmo.

Antes de tomarmos de um caminho à esquerda, caminho interno aos campos, eu havia rebobinado a fita por completo. Lá dentro haveria momentos confusos e retorcidos, quase indistinguíveis, mas, na aparência, estava intacta como o meu futuro escolar e, como logo vim a saber, também o destino politico e a saúde do meu pai. Descer no Cambuí cobertos pela poeira do caminho não nos deixava esquecer de que havíamos entrado numa nuvem. Numa não, em mais de uma, na verdade. Mas isso não adianta explicar. A gente apenas entende estando dentro dela.

O botão imenso do dial tinha pelo menos o dobro do tamanho da mão do Mariano, mas ele insistia em girá-lo da direita à esquerda e também na direção inversa com a esperança de localizar resquício de voz humana em meio ao chiado ruidoso da banda de FM do rádio do novo aparelho de som. Mas não havia nada, nem possibilidade de que o rádio capturasse alguma coisa nas ondas da frequência modulada em Itaborã. Para que serve um rádio FM num lugar onde não existiam estações disponíveis? Nada também, apenas um estado de prontidão para quando se concretizassem as promessas de instalação sempre adiadas de uma estação para aquela região do estado.

Enquanto isso, o jeito era conformar-se com as três ou quatro estações de ondas médias e suas programações esquisitas e que se resumiam em noticiosos locais, chasques destinados ao interior do município e repetições sem fim de músicas de gosto duvidoso e, pela noite, das trilhas das novelas que o radialista buscava em primeira mão de Santa Maria ou Pelotas. Nesses horários de tédio absoluto, eu sonhava em voltar a ouvir as músicas dos roqueiros que viriam ao Rock in Rio no outro ano e que ouvi no carro do maldito Aquiles, mas não acontecia.

Às vezes, eu chegava a entrar na fila dos candidatos à escolha de música (a aventura consistia em entrar ao vivo na programação, por telefone, e pedir ao locutor a execução de uma faixa especial), mas logo me desanimava porque sempre havia dezenas de pessoas com a mesmíssima ideia. Eu chegava mesmo a deixar o tape-deck preparado para gravação na expectativa de que o radialista repetisse Bohemian Raphsody. Ele havia a executado algumas vezes e eu pensava que poderia repetir a qualquer momento, mas quem levava a melhor era Julia. Ao contrário de mim, minha irmã mais velha não se incomodava com as predileções do sujeito que, ainda por cima, dera de sortear aqueles discos horríveis das novelas aos seus ouvintes, além de outros brindes insólitos como tíquetes promocionais de um motel que se tornara seu principal patrocinador noturno e que ele locutava languidamente sob uma trilha extraída sei lá de que porcarias de filmes de quinta categoria.

Ao fim de um tempo, Julia tinha uma fita cassete de 90 minutos gravada em ambos os lados com Foreigners, Erasurers e afins. A minha continuava intacta, esperando o dia em que Itaborã ganhasse a prometida FM. Isso só mudou um pouco lá em casa quando o Alexandre apareceu um dia portando sob a axila uma pequena coleção de vinis herdados do cabeludo Aquiles e deixou, mediante súplicas, alguns ali comigo. Ao lado dos discos da mãe e do pai e das malditas trilhas das novelas das oito, a prateleira vertical ao rés do móvel ganhou a companhia do disco branco do Queen, um Led Zeppelin sem título na capa (só um velho carregando uma montanha de feno), um outro maluco carregando um sabre e de capacete e o operístico disco ao vivo do Supertramp em Paris. Eu finalmente conseguia fazer frente às coisas horrorosas a que sistematicamente todos me submetiam.

Outra vantagem era a presença do Alexandre que, por alguma razão intuitiva, afastava completamente Julia do nosso ambiente musical. O Mariano não se importava e, como um bebê crescido, até se divertia com o rock pesado. No mais das vezes ele ficava por ali pintando e recortando e não nos incomodava. O mesmo não acontecia com a minha irmã.

“Ele vai morar aqui agora?”, chegou a perguntar a respeito da insistente presença do Alexandre. Eu disse que não iria, ora essa, mas queria saber o que lhe incomodava. “Esse aí ainda vai te botar em maus lençóis”, tentou me advertir. “Se tu sabe alguma coisa dele, fala ué. Ou cale-se para sempre…”, retorqui. Mas não precisou, ela apenas com o olhar insinuava alguma coisa, algum perigo, mas eu não tinha paciência para esses códigos mais, especialmente porque incrivelmente o radialista tocava algo que me interessava.

Os acordes iniciais do coro e do piano de Freddie Mercury soaram pela primeira vez a 100 watts de potência e até a mãe veio escutar aquela música que só tinha ouvido então pela televisão, mas havia gostado muito. Bom gosto musical ela sempre teve mesmo. E paciência de sobra, imensa e eterna.

É agora que enguiça. Daqui a segundos. O arranhão atravessa os sulcos e faz ancorar ali dentro a agulha de diamante. E até que alguém levante-se do sofá, a voz de Roger Waters ficará repetindo-se sob o coro da própria voz, ao fundo e aos gritos, como num surto paranóide. As vozes buscando alertar a si mesmo de algo terrível, talvez o anúncio de que eclodiu, finalmente, a terceira guerra mundial e assim serão recompensados todos os loucos do mundo de tanto tempo de ameaças e promessas.

“Troca esse disco, Antônio”, eu ouço a Ana Luiza dizendo-me enquanto folheia a revista Veja com a retrospectiva da década, do século, do milênio.

Eu também quero, mas não consigo. Há muito tempo não o escutava. Quinze, vinte anos? Ou mais? Não conseguia escutá-lo. Era como levar-me de volta a um lugar e tempo que não existiam mais e, mesmo assim, aquilo me puxava para o interior de alguma outra coisa, igual a uma ressaca incurável. Sugava-me para dentro de memórias que talvez fosse melhor esquecer, como se a gente tivesse mesmo disso a opção. Um botão de loudness que ao menos abafasse o ruídos dos carros, o rádio pendendo de estação em estação, as memórias nos lugares onde andei e também os por onde deveria ter andado, mas apenas pensei e imaginei.

“O que foi? Olha o estado da minha barriga. Não vai querer que eu me levante daqui só pra isso, vai?”, ela indaga.

“Claro que não! Só um pouquinho… Eu já vou…”, respondo-lhe.

Sem perguntar-lhe, penso em aproveitar o impulso e ir fazer um café. As bolachas da padaria Mundial estão no ponto certo. Um dia a mais e precisarão ir ao forno, amolecerão por dentro e, apesar da casca dura por fora, por dentro imperceptivelmente amolecem, vão amolecendo. O mesmo se dá comigo. Há ruínas e maldições que eu não deixo que ela veja. Nunca deixei. Foi pelo que que ela me amou mesmo? Pelo verniz de fora ou pelo sangue de dentro? Eu não sei, nunca perguntei e nunca perguntarei. Talvez as duas coisas ou, talvez, outra coisa. Algo completamente fora do meu alcance e domínio.

Disco estranho esse. Parece que é o único que tenho ouvido há anos. Enquanto a chaleira aquece a água, noto um gato atravessando os muros que o irmão dela galgava como um Tarzã, em busca de levar-me para conhecer o mundo ao seu lado, como um escorte e aprendiz. O que ele queria de mim, o Alexandre? De uma criança, como eu? A companhia? Parece tão pouco provável, agora. Acho que nem ele sabia. Tenho certeza disso e também de que deixei a água ferver e, por isso, vou queimar o café. A Ana Luiza detesta café queimado, mas é o que teremos.

Com a bandeja que a mãe servia broinhas e quitutes aos visitantes do velho Bonifácio, carrego as xícaras e a travessa de bolachas. Deposito-a sobre a mesa de centro da sala, quadrangular, e alcanço-lhe a louça ondulada segurando-a pelo pires.

“Não vai trocar o disco?”, pergunta de novo sobre o “The final cut” no prato do aparelho em torre. Levanto-me e penso em vasculhar ali, para ver se encontro outro que possa ter vontade de escutar, mas tomo outro caminho e me dirijo à janela. Fico olhando a rua e o movimento nulo, apenas das janelas abrindo-se e fechando-se anonimamente.

Amanhã, quando não estivermos mais aqui, o disco ainda estará ali. O Mariano não escuta mais música por meio dele, só pelo computador e quase sempre conduzido pelos fones de ouvido, com o silêncio ao redor. Ele quer me gravar não sei quantos discos, duzentos talvez, num CD, e me oferecer. Duzentos discos é música demais. Pensando bem, só “The final cut” é disco demais.

Volto à mesa e sento-me bem diante dela e respondo-lhe: “Não… Vamos aproveitar o silêncio enquanto dá. Amanhã, voltamos pra casa, lembra?”.

A Ana Luiza respira fundo e, dentro da sua barriga, o nosso filho (ou filha) suspira também. Amanhã, é voltar para casa e deixar o que está onde está, no ritmo impossível que se move de décadas em décadas, de vidas em vidas. Ou, pelo menos, até que a mãe decida reorganizar o mundo doméstico, porque ela sempre conseguiu isso (e eu nunca entendi como): reorganizar o mundo. É uma herança sua que não caiu para mim. Mas nada que reclamar. A vida é assim mesmo: cada um na sua.

A debreagem serve para mudar de marcha. Se dentro de uma velocidade ascendente, ela permite que o tracionamento do diferencial aumente ainda mais o giro e a rotação do motor. Numa transmissão descendente, ocorre exatamente o contrário; nesse caso, o veículo vai manter o giro numa velocidade menor de transmissão. É mais ou menos isso. Se for isso mesmo, vai dar certo, mas, se não der, eu faço dar de qualquer jeito. O pedal não vai sair mesmo do lugar e eu não tenho necessidade nenhuma de andar rápido. Depois da quarta vez, não é possível que eu me atrapalhe outra vez nessa idiotice.

Do lado de fora, externo à janela, escuto a voz do fiscal indagando-me sem imaginar que já é o meu quarto exame. Quarto ou quinto, eu nem sem mais. Houve um momento em que comecei a acreditar que, dadas as circunstâncias, sem um suborno, nunca que eles me entregariam a carteira. Nisso resultou o Bonifácio ter morrido antes de me ensinar a chateação que é dirigir. Assim, só me resta mesmo passar por isso tudo e quantas vezes for necessário. Novidade? Nenhuma. Na minha vida, tudo foi sempre assim mesmo.

“Pronto?”, pergunta o sujeito de óculos de sol e cabelo ondulado. Olhando rápido, a figura dele me parece um pouco a do Alexandre e eu fico imaginando se fosse ele ali, em seu lugar, como é que tudo se daria.

Mais velho, não mais o moleque invasor de pátios, mas ainda com aquela fisionomia debochada, como se me fiscalizasse sempre os erros em falso, fingiria me apoiar com o seu ardil teatral inigualável. Como um fantasma que me fosse recolher dos escombros dos meus fracassos, depois colocaria o braço sobre o meu ombro e me arrastaria para alguma loucura improvisada ou planejada, não importa, planejando vingar-se comigo, este o seu objetivo final e inicial.

Então é isso. Parece que vou mesmo fazer o teste para um sósia do Alexandre me avaliar e isso me parece ainda mais absurdo e inaceitável.

É delírio, claro que é, mas eu poderia atropelar a criatura e ir fazer companhia ao próprio no Presídio Central, que é onde ele deve estar agora. Mas quem pode saber onde anda o Alexandre? Pode estar no exterior, quem vai saber? Pode estar em qualquer lugar, até mesmo em espírito dentro do fiscal da minha prova de baliza e, se eu estiver certo nisso, então eu estou fodido mesmo.

O Alexandre sempre foi mestre em ver a minha incompetência, a falta de habilidade, as muitas incompetências. Ele saberia sobretudo me mostrar como fazer, mas sem mostrar, e depois diria que eu é que não faço nada certo e que ele me ensinou o que sabia e fez tudo o que podia por mim, paciência se eu fracassasse. Talvez assim eu me tornasse um homem, um adulto, e deixasse para trás o moleque superprotegido, filho de lá sei quem, do vereador não sei das quantas, e tratasse de ser alguém por conta própria.

Do lado de fora, no meio da rua ainda, o sujeito esperava a minha resposta e, talvez, o certo fosse abandonar o carro ali mesmo e voltar a pé para casa, atravessando os bairros de Porto Alegre como uma espécie de fugitivo, de desertor. Abandonar o carro? Sim, abandonaria… Mas não daria o gostinho a um sósia do Alexandre de me ver fazendo tudo errado e atestando ali que eu era apenas um impostor.

Imediatamente penso na frustração da Ana Luiza e da sua recomendação expressa. “Não vai esquecer de dar o sinal antes de dobrar”, ela lembrou-me muitas vezes de que só isso já poderia complicar em definitivo a minha situação. De acordo com ela, a Maria Clara rodou só por isso. Não sei quantas vezes a Maria Clara fez a prova, acho que umas vinte. Mas conseguiu, não conseguiu? Então fica tranquila, eu lhe disse, eu também vou conseguir.

“Pronto!”, eu respondo finalmente e o sujeito então faz a volta no carro, abre a porta, entra e senta-se ao meu lado. Com uma prancheta nas mãos, ele anotará cada deslize meu, como um Alexandre que se separou do original e ganhou vida própria com o único intuito de me perseguir vida afora. E me tirará pontos até cassar por completo a minha pretensão. A verdade é que não precisava ser o Alexandre para ser o Alexandre, e isso me parecia cada vez mais translucidamente claro, assim como a certeza de que provavelmente haveria ainda no meu futuro outros Alexandres. Muitos deles. Não vai ser por isso. Eu já me livrara uma vez do pior deles, do primeiro e autêntico, que me custaria livrar-me de todos eles (meras cópias–carbono) se fosse preciso?

Ligo o carro e parto.

De imediato, o sujeito anota algo na sua prancheta. Eu havia partido sem dar sinal, exatamente como a Ana Luiza me advertira. Mas que bosta! Menos um ponto logo de partida… Sem sequer olhar para o lado, noto que o sorriso do Alexandre estava bem ali mais uma vez. Não há prisão ou jaula que possa prender o desgraçado. Seja como for, algo me diz que, dessa vez, se eu quiser, não vou cometer nenhum erro mais. E, se desejar, vou sair do perímetro da cidade, passar pela ponte, tomar a BR em direção à fronteira e, então, vou finalmente entregar aos cuidados do Alexandre mais este Alexandre, isso se não abandoná-lo no acostamento desolado junto com o carro de merda e sem freios nem embreagem que eles oferecem para fazermos as provas.

Ao final do circuito, desço do carro e olho de novo para o fiscal. Não sei o quanto errei, não fiz contas, mas trouxe o que tinha até o fim. Também isso parece um destino para mim, repetir-me e continuar tentando quando parece impossível ou já seja inútil. É estranho, mas agora já não me parece tanto assim que seu perfil lembrasse o Alexandre. Não lembrava o de ninguém que eu conhecesse, nem ele e nem ninguém entre os demais candidatos reunidos sob uma paineira da praça e o calor extemporâneo de abril, onde aguardávamos que ele anunciasse os felizardos.

Igual a um fantasma, ele evaporara da minha mente, mas por quanto tempo estarei livre da sua presença? Eu não sei. Nunca soube… Mesmo preso, ele está sempre voltando. Voltando e me reencontrando. Qualquer hora dessas ele voltará outra vez e me reencontrará. Pelo jeito, ainda que eu esteja tão velho quase a ponto de me tornar mero adubo e nada mais reste nem da minha e nem da sua passagem em toda a superfície do planeta, ele me reencontrará.

Um a um, ele foi dizendo os nomes e outra vez o meu não estava entre eles. Na hora, baixei a cabeça e fiz menção de voltar a pé, não importava a distância que estivesse de casa eu iria a pé, como se numa procissão solitária que só a mim cabia cumprir. E como se ele notasse a minha frustração, ou por uma razão que não entendo me absolvesse de continuar aquele martírio, com a mesma voz que ele me anunciava dentro do seu time de basquete quando eu não era ainda mais que uma criança, nos pátios do Lourdes, ouviu-o dizendo: “Tem mais um nome aqui… Antônio?”

Olhei para trás procurando encontrá-lo mais uma vez. Era óbvio que ele já estava ali novamente, com aquele sorriso que insinuaria dizer que havia sido ele quem havia me libertado do martírio infernal, portanto tudo se tratava de uma concessão sua, nada disso de mérito meu. Mas o sorriso do fiscal era franco e parecia mesmo contente em me alcançar um papel que me autorizava a trafegar até que o documento estivesse pronto. Se o Alexandre mostrara alguma vez aquele sorriso? Bem, só a mim cabe decidir pensar com ou sem rancor e eu não tinha, nunca tive, rancor algum do Alexandre. Receio, sim. Cuidado em dobro ou em triplo também. No entanto aceitei todas as vezes que ele me empurrou para frente, mesmo quando foi com força demasiada. E quando foi ele a me jogar no chão, uma única vez isso aconteceu de verdade, sem nem entendê-lo ele acabou me ensinando a levantar também. Mas isso não tem mais qualquer importância. A ninguém é dada a opção de escolher os momentos que se vai viver com os outros. Vive-se apenas e quase sempre sem muita consciência do que está se passando. Vive-se porque é aquela a vida que está disponível, não há escolha nenhuma sendo feita. Nesse momento, a única escolha que eu gostaria mesmo de fazer era quanto a quem estaria na minha carona para dar uma volta em torno da praça central de Itaborã. A primeira como habilitado, como se entrasse numa cápsula do tempo e isso fosse mesmo possível. A despeito de tudo, só haveria um convidado possível. E ele estaria rindo sim, talvez até gritasse, mas ele colocaria o som tão alto, tão alto, que não perderíamos tempo tentando dizer mais nada.

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Esquiladores

“Nunca le interessou seguir a comparsa?”, perguntou-me a seco o noviço, como se fosse de intimidade, gente do meu sangue ou do meu conhecer. Ali eu estava por comando do padrinho e não apreciava dar respostas a meu respeito. Não bastava que lhe entregasse a borrega pronta pra carga das tesouras? Agora o que mais queria saber de mim esse daí?

“Nunca.. Sou das casas.”, resmunguei bem quando levava a mão no quarto de uma outra, lanuda, uma corriedale sebenta que, na brasa certa, perfumaria até o pago vizinho. Mas uma borrega assim o patrão deveria reservar pra cria, só num ato de desespero le passaria a faca. Ou então em reunião de domingo, quando algum parente se apachorrasse no casarão a modo de desassossegar a peonada da casa e impedir que a Jandira arredasse o pé do fogão.

Ah, Jandira! Pedaço de torresmo apertado.. Faz pouco a vi passando com um tacho pras goiabas e figadas. Doçura que ela passaria daqueles olhos melados de pronto ao açúcar que se emenda nos bocados que ela saber fazer igual a ninguém mais. Os outros só sabem de ouvir dizer, mas eu, que me assentei como sota por confiança do padrinho, sei porque ela me alcança de vez em quando uns apanhaditos nuns potes de matéria plástica que agora andam chegando com tudo por aqui, comida, remédios e o que mais. Esse o nosso namoro.

“Devia… O amigo é bem bueno de martelo!”, disse-me no que não soube interpretar como elogio sincero ou adulação. Tem dias que o guri anda me cercando, querendo saber de quem é quem, do quanto é quanto, do porque de cada por quê. Eu com a minha carranca quieta pensei que o afugentaria, mas que nada… Agora vive a querer saber de tudo, até mesmo da Jandira, o desaforado.

O noviço esse é mais um a esticar o olho comprido a cada vez que ela passa ao longe, todo mundo estica, mas o certo é que se eu arranjo mesmo um ranchito pra nós, o padre da vila nos faz o ofício de casar direito, que eu faço é muita questão. E ter uma vida direita, de trabalho, retidão. Mas o guri, é claro, olha pra ela como fêmea, não vê a mulher nem muito menos a pessoa. E porque ele olha pra ela, eu também olho pra ele e assim parecemos um rodeio parado numa tronqueira, que nem o gado, examinando-se.

“E aquela cabocla, que parece? É Jurandira que chama?”, indagou com ares de inocente ignorância. “Jandira”, corrigi de pronto. “Que tem ela?”, aticei o linguarudo a dar com os dentes na língua enquanto olhava o velo pela metade no lombo da borrega aos seus pés, esperando o fim daquela prosa que os demais nem podiam ouviar, pois o patrão sintonizara o rádio sobre um tonel alto ali de modo a entreter a comparsa inteira. Por ali, dos nove homens mais o noviço, todos eram sabidos de alguma conversa das redondezas e gostavam de prosear, mas a programação e o noticiário da cidade calava a todos, subitamente interessados em coisas como carnaval, futebol, telenovela. Menos o noviço que então continuou seu inquérito e sentenças: “Lindaça!”

“Mas não é pro teu bico!”, adverti e ele riu meio debochado, como se quisesse mesmo é testar meu interesse nela. Mas falei mais alto ainda que o rádio, alterado, e os outros levantaram os olhos em nossa direção. “E já vai terminando essa borrega que o curral tá até a boca!”, concluí e ele fechou o cenho, olhando pra baixo e torceu o nariz pelo corridão que lhe dei.

O calor grande de novembro perto do meio dia me levou à cozinha do mais velho deles, que lhes servia também de cozinheiro, deixando o toc-toc das tesouras pra trás e a montanha de velo e garreio acumulada no galpão por embolsar, eu e o guri, nos embolsadores emparelhados bem ao lado do portão. Tomei com o homem um ou dois mates e decidi almoçar por minha conta, sem a conversalhada dos esquiladores. No meu quartinho, tomei do carreteiro encostado, acresci um punhado mais de arroz do pote e, coisa de nunca, levei a mão na caninha que alguém esqueceu por ali. Azeda, não me entrou lá muito bem, mas sequei o que havia na garrafa pensando que a Jandira talvez não se desse tanto ao respeito e se aparecesse demais agora que a comparsa se instalara. Que tanta curiosidade tinha, afinal, a chinoca, se já nos havíamos até prometido? Ora, o que faz a aguardente com um hombre, não é mesmo? Leva a confabulações sem sentido, talvez…

Sesteado, mal sesteado, acordei-me com a têmpora latejando e o suor escorrendo no pescoço empapando a camisa. E pensar que agora ainda iria me enfurnar que nem tatu num embolsador mais quente que um fogaréu. Chegando lá, quedelhe o noviço? Desgraça de guri.. Bueno, como preciso começar de algum lugar, vou eu mesmo embolsando os pacotes de lã branca e pisoteando aquilo até firmar o garrão… Dali, ouço a comparsa se arranjando no galpão ao lado e o rádio naquela hora tocando, felizmente, umas rancheiras das buenas que até me passaram um pouco o incômodo da canha em mau horário.

“Buenas!”, ouço do lado de fora e finalmente é o noviço que apareceu. “Onde andava?”, pergunto-lhe enquanto sigo no pisoteio. “Ah, fui ali na sanga lavar os pés e afiar umas tesouras…”, respondeu-me. “Menos mal…”, comentei. “E quem tava lá?”, indagou numa simulação dele mesmo me responder e continuou: “A Jandira…”

No mesmo instante, senti que não gostaria de saber o que mais ele me diria, mas o atrevido continuou: “Ela levou panelas pra ariar e me ofereci pra le ajudar, mas fique tranquilo que moça direita como aquela nunca eu vi. Não me deu confiança e me despachou pra longe com um corridão que senti medo até…” E ia contando devagarinho de modo que eu conseguia lá dentro da estopa escura imaginar a cena e pensava que se fosse ele ali dentro e eu ali fora, não me custaria nada esticar a adaga pra dentro até encerrar aquele falatório. E foi tecendo elogios e me dizendo da minha sorte de um casamento feliz que com certeza, de acordo com ele, nos destinaria o futuro. Funcionou, pois me acalmei e ainda mais porque a esquila já andava em vias de acabar e desse modo aqueles aporreados todos se iriam pra bem longe da Santa Eulália, que voltaria ao seu sossego habitual.

Passou a tarde, não restou uma felpa mais a embolsar e os rebanhos todos do padrinho foram devidamente depilados. As ovelhas ficavam meio feiotas rapadas, mas, assim, o verão lhes seria possível. O meu também, porque o entrevero todo de gente que se junta apenas por evento às vezes vai de encontro a maus elementos. Não que tivesse visto algum suspeito, mas sempre tem um mais quietarrão que a gente imagina o que tenha de oculto naqueles silêncios sem fim. No outro dia cedo já não estariam mais ali e pra logo haveria um truco ou uma bisca pra pescar dos mais animados algum trocado de aposta. Mas não me aprocheguei ao assado que montaram no costado do ombu e me aquietei cedo. A dor de cabeça, como um mau pensamento sem expressão, voltara e fizera com que me deitasse com as galinhas. Nem me dei conta que, estranho, a Jandira não passou pra dar seus boas noites. Só no outro dia fui notar, mas aí já era tarde.

Foi o chefe da comparsa quem me segredou no primeiro mate, antes da alvorada, que viu o noviço, mais cedo, tomar o rumo da estrada, não sabia pra que lado, e com a Jandira no seu costado. A informação me entrou mais amarga que a erva uruguaia do mate, mais que carqueja verde, entrou como um veneno e cogitei de encilhar o baio e me tocar atrás deles. “Mas ela saiu sorridente…”, advertiu o velho gaúcho, como se dizendo que não estava indo obrigada, de modo algum..

Os demais esquiladores fingiam não ouvir a conversa, mas me olhavam de um modo compassivo e parecia que as conversas paralelas eram todos de um consolo que me ofereciam. O velho me fez sentar e contou histórias da sua vida e me fez refletir. Refletir e decidir. Perguntei-lhe aonde iriam agora que haviam acabado com a Santa Eulália. “Vamos à Santana, coisa ligeira, e depois Melo, no Uruguai…”, disse-me o esquilador com seu chapéu coco e barba espessa. Logo eles começaram a juntar as coisas e em breve partiriam num F600 dos mais bem cuidados, posse do chefe da esquila. Deixei que arrumassem suas coisas e tratassem de partir, pois precisava acertar a lida com o padrinho, igual a todos os dias. E foi o que fiz. O padrinho, quando soube do que me acontecera, lamentou minha má sorte e até me tentou consolar, mas nada mais podia fazer por mim. Ninguém podia. Talvez só eu mesmo e foi o que fiz ao me adiantar à saída da comparsa, na porteira do corredor, e levar o pouco que era meu numa mala de garupa, um par de botas, roupas gastas e duas bombachas de serviço, pra subir na carroceria e realizar outro sonho de guri: atravessar finalmente a fronteira.

Malgrado a lua cheia

Chegamos ontem de fora. Nunca mais voltaremos lá, eles disseram. O pai já tem a saudade dentro dos olhos que eu vejo, qualquer um vê. A mãe tem esperança e vive a clamar por ela. E nós, crianças, viemos porque nos ordenaram. Mas parece que tudo isso há de ser bom. Uma nova vida. Vamos finalmente ao colégio e aprenderemos a fazer contas direito, sem precisarmos mais das contas de osso dos arreios. E ler e escrever, porque as lições da tia Anastácia mal dão para ler gibi, apesar de que, pelo menos no julgar da mãe, foram um bom começo.

A casa é boa, novinha. O pai gastou acho que até o casco das vaquinhas para construí-la. E eu e o mano ajudamos em tudo o que pudemos. Carregar tijolo, fazer a massa de cimento e todo o trabalho de pá fomos nós que fizemos. Pedreiros mesmo foram o pai e o tio Antônio, que veio antes e foi quem os convenceu a segui-lo, para trabalhar com ele na construção; ele e a tia Janjona, com certeza. Todo esse lado da cidade, se entendi bem, antes fora um banhado e, com cargas de pedra e terra e socador, aplainaram tudo. Veio o conjunto de casas; dentre as quais, a nossa.

Como o tio Antônio sempre tem razão em tudo o que diz, bastou o aceite da mãe para ele se convencer ainda mais rápido e logo ela começou a desfazer-se das coisas que não queria mais ver pela frente. Trastes de couro, latas, plásticos, caixinhas e caixotes, tudo foi queimado numa fogueira imensa; salvaram-se as roupas apresentáveis, segundo o seu juízo, para nós e os filhos das comadres incrédulas, mais as panelas, louça, talheres e os quadros da família do pai que decoravam nosso rancho, além da imagem do Sagrado Coração de Jesus, benzida sei lá por quem, mas a quem ela destinava rezas e promessas quando as coisas não iam bem e isso era, nos últimos tempos, mais do que frequente. Por isso viemos. Chegamos ontem de fora e, por enquanto, só o pai mostra um pouco de desassossego e abandono, mas sem dar um pio. Mostra só pelo modo de olhar e no silêncio de quem toma o mate ainda do mesmo jeito, repassando mentalmente a lida, sabe-se lá de que jeito ou por quê.

Eu não penso que seria melhor ter ficado e nem aposto todas as minhas fichas que vai ser um folguedo, mas vou procurar viver cada dia como se fosse único e tratar de buscar com o que me entreter quando largarem um pouco de mim. Que mais poderia me ocorrer?

Nos fundos da casa há um arrabalde, um pátio abandonado de uma casa do bairro antigo virada em tapera, onde já vi que tem jogo de bola, mas só vou lá com permissão, que não se pense coisas a meu respeito. Respeito, aliás, é o que a mãe disse para eu nunca esquecer, mesmo quando eu mal entendia o que isso poderia ser, mas pressentia que tudo se resumia em ficar quieto e obedecer, que o resto nunca era coisa de criança. E responsabilidade também era outra palavra de que ela gostava muito e eu entendia como podia sobre o que é certo e o que não é, apesar de que, de acordo com ela, isso deveria depender apenas de mim mesmo.

Acho que a nossa casa nova é pequena, mas que é melhor do que a que tínhamos antes não resta dúvida. Nosso rancho na campanha era mais espaçoso, mas cheio de frinchas. Ali os chupões gostavam de dormir e o medo de pegar doença sempre estava no rol de rezas da mãe, que contaminou dos próprios medos as gurias, se bem que guria é sempre meio fiasquenta mesmo. Instalar a cozinha nos fundos da casa não agradou a mãe, que gosta de bombear o movimento, mas ela vai se acostumar, é o que diz o tio Antônio. A mana diz que ele fala isso para tudo e chora escondida sem razão aparente. Anda assim desde que chegamos, a pobrezinha. Acontece que decisão é decisão e não há mais o que se possa fazer. O tio não sabe consolá-la e diz coisas horríveis sobre viver na miséria e outras barbaridades. Quando exagera, o pai intervém: “Mas já não estamos aqui? Pra que tudo isso, che?”

Quem é que quer viver na miséria? Que eu saiba, ninguém. Por isso viemos. Chegamos ontem. E agora, como é quase noite, no arrabalde a gurizada já está jogando bola. Sem jeito, peço ao pai para ir até lá. Ele parece ficar pensando, mas não tanto e deixa que eu me vá, desde que volte antes de cair a noite cerrada e que leve o Miguel comigo e tome conta dele.

São quatro guris jogando uma bola meio murcha, feita de um couro grosseiro, mas melhor que todas as bolas de meia ou esterco de vaca com que nos virávamos lá fora, em partidas que sempre se esfarelavam em guerras campais. Encostei-me no muro e, longe, para dentro do pátio, vejo que no fundo do arrabalde há árvores crescidas, pereiras e não sei que outras. E um casarão em ruínas, com as paredes pela metade. É bem lá no meio dele que, depois de um chutão de alguém, a bola vai cair. Os outros guris se exclamam puta merda e puta aquilo, mas ninguém se apresenta para ir até lá; eu e o Miguel nos aproximamos e eu me ofereço para ir lá buscar a bola. “Deixa que eu busco!”, falei. Os outros ficaram quietos, mas o maior deles, ainda assim menor um pouco do que eu, foi quem me alertou: “Dizem que lá tem fantasma, uma mulher velha que, Deus o livre, é horrorosa e prende quem vai até lá.” Eu me ri da conversa do outro. “Que nada. Vou lá e já volto”, anunciei e disse ao Miguel para que ficasse com eles. Em coisa de um instante eu estaria de volta com a bola perdida.

Claro que lá não tinha nada mesmo, só uma casa velha com umas madeiras destruídas no chão, resto de piso e vidros quebrados, mas a bola mesmo eu não consegui encontrar. E procurei tanto quanto pude. De longe, de repente notei que o Miguel não estava mais com eles e então fiquei pensando no que deveria fazer: se continuava procurando a bola entre os escombros da casa para exibi-la como um troféu ou se corria para ver onde se enfiara o maldito guri. Antes de me decidir, resolvi procurar mais um pouco. E um pouco mais. E o tempo foi passando e a noite foi caindo. De repente, já não havia mais luz o suficiente para procurar o que quer que fosse e decidi voltar. “Onde está o maninho?”, perguntei a eles, embolados perto da cerca que divisava o campinho improvisado junto ao arrabalde da tapera. O maior deles, de novo, foi quem veio falar: “Ele se foi. Saiu correndo e eu é que não ia sair atrás dele. Nem sei onde vocês moram…”. Sem apresentar-me nem jogar um instantezinho que fosse, saí correndo atrás do Miguel. Deus me livre se algo lhe acontece, a tunda que eu vou tomar…

A noite já caíra e a hora de estar em casa já estava quase passando. Talvez o Miguel estivesse já com eles ou brincando com as gurias na frente de casa, mas ele nunca fez isso comigo, sempre me esperou para tudo. Desgraça de guri! Onde se enfiou essa merda de guri?

Estivesse onde estivesse, eu não voltaria para casa sem ele. Pensei em fazer a volta pelos fundos das outras casas, atravessar o cercado dos pátios e ir conferir se ele estava lá dentro ou não, mas a cachorrada não deixaria que eu me aproximasse em silêncio. E pensei também no pior, como não pensaria? E se um carro ou caminhão tivesse pegado ele de frente? Mas aqui mal passa carroça, ainda mais a essa hora da noite, isso não pode ser… Vou chegando pela rua de terra, pulo a valeta dos esgotos e, ao longe, vejo na porta da casa o pai sozinho, tomando o mate no seu mochinho enquanto a mãe, decerto, apronta a janta com as gurias; nada do Miguel por lá, pelo jeito. Como fui deixar uma criança pequena como ele sozinha, com estranhos? Agora está perdido sei lá onde; agora estou perdido também… Melhor que eu me suma no mundo… Que sei eu do que vai ser de mim se volto para casa sem ele e se ele nunca mais aparece… O pai não vai me matar, mas nunca mais fala comigo. A mãe me perdoa porque seu coração é grande e medroso demais para me esconjurar da própria vida. As manas eu nem sei, aquelas choronas. Por que não trouxe uma delas para botar o Miguel a cabresto, como fazíamos aos cavalos quando brincávamos lá fora, todos juntos, na taipa do açude, de açular tachãs e maçanicos?

Sem ideia mais nenhuma do que seria a minha vida nesse lugar de desgraça, pensei em fugir ao tio Antônio, mas também me faltava coragem. Acho que nunca mais ergueria os olhos para ninguém, envergonhado até o fundo dos ossos. Orgulho da minha coragem também não me serviria mais para nada. No fundo, eu era só mais um covarde. O covarde que perdeu o irmão para se aparecer em um jogo de bola de estranhos de quem nem o nome sabia direito. Um merda legítimo. Por que vou viver com isso na minha vida? E que fedor é esse que sobe da água que vai por essa sanga? Podridão? Esgoto? Quem sabe me atiro aqui dentro e causo uma tragédia na vida da família inteira, que chegou ontem de fora, cheia de esperança para uma vida nova na cidade?

De repente, entendo que não posso fazer nada e devo ir para casa e mostrar minha cara estúpida para a mãe e para o pai e receber deles o que eles julgarem certo, nada mais que isso, mesmo que seja uma sova com o rabo-de-tatu que, com certeza, o pai não jogou fora. E lembro-me do Miguelito aprendendo a cavalgar ao meu lado, no petiço gateado e de como gostava de galopear nas minhas costas, brincando e rolando no pasto, fosse de dia ou de noite. Sento-me numa pedra ao lado do sangão, apesar do fedor tremendo, e minhas lágrimas caem misturando-se em sabe-se lá o que corre ali dentro, embora o aspecto não deixe muitas dúvidas, malgrado a lua cheia. Mas então sinto aquelas mesmas cócegas de sempre por baixo dos braços e penso que não pode ser quem parece ser, mas felizmente é justamente quem é. É o Miguelito. E eu nem preciso virar a cabeça para conferir que é ele mesmo.

Chorando quase a soluçar, abraço-me nele, gordinho como sempre. “Que foi? Pra que tudo isso?”, ele pergunta. Vejo que tem nas mãos dois caniços finos e compridos de taquara. “Nada, desgraçado… Onde te enfiaste? Fugiu de mim por quê? Por que não esperou, filho de uma égua?”, emendei perguntas no coitadinho. “Eu fui buscar os caniços, não vê? Olha essa lua cheia lá em cima… A gente nunca perdeu uma assim…”, disse daquele jeito ainda meio desengonçado de criança pequena. Enxuguei o rosto para que ele não percebesse que eu chorava e peguei o meu caniço das suas mãos, pouco maior que o dele. Ele trazia moscas e pedaços de minhoca para isca de lambari e jogamos juntos as linhas naquela água duvidosa. De onde estávamos, via-se a luz apagadiça da porta da nossa casa nova e o vulto do pai ainda sentado ali na frente, tomando um mate a essa altura já bem lavado, não duvido. As manas estavam para dentro, provavelmente ajudando em alguma coisa ou tentando ajustar a TV nova, presente do tio Antônio e da tia Janjona, ai que ela me escute dizer seu nome assim. É Maria das Graças, por gentileza… O Miguel me cutucou de lado, sem dizer uma palavra e perguntei: “O que foi?”

“Não vamos voltar mais lá mesmo?…”, perguntou. Quando eu ia responder qualquer coisa, nem imagino o que seja, ouvimos o grito da mãe, em pé na soleira da porta, “José! Miguel! Olha a janta!” e corremos para junto do pai sem um lambari sequer nas mãos. Ele colocou o Miguel no seu colo e, olhando de frente para mim, com aqueles olhos que ainda não aprenderam a esconder a melancolia, ofereceu pela primeira vez um mate, que não é brinquedo de criança, segundo o seu costume. Parei quieto ao seu lado, acocorado. Ele perguntou: “Jogou, entonces?”.

“Capaz… Fomos pescar nesse arroio daqui, mas não tinha peixe, só bosta”, e rimos juntos até que a mãe veio quase nos puxar pela orelha para ir para dentro e apreciar, pelo menos ali no interior da casinha apertada, o perfume que ela haveria de produzir pelo resto do nosso tempo em São Gonçalo, que só poderia ser muito e bom, afinal chegamos ontem de fora e fez bem rir um pouco depois de tudo o que passei porque não sabemos, ninguém sabe, o que será a partir de amanhã.

Há cinco anos publiquei meu primeiro livro. Um livro de contos que a Ed. Movimento do Prof. Carlos Appel me ajudou a publicar. Vencidos os cinco anos contratuais, assumo de volta os direitos de publicação e reprodução. Há um tempo resolvi que vou reescrever todos os contos e republicar o livro logo mais, com o nome que tinha pensado por primeiro para ele. De “A aposta” voltará a “Interiores”. A reescrita se deve a problemas de revisão e ao meu açodamento habitual, que acabou empobrecendo muitos trechos e contos inteiros, cujas ideias não eram de todo más e que penso em salvar da minha própria negação. São contos em sua maioria rurais, eu prefiro chamá-los assim do que “regionalistas”. De gente pouco opulenta e pouco identificável com esse “gaúcho” histórico que hoje se quer descontruir e até mesmo combater. Enfim, este é o primeiro conto reescrito, chamado “Malgrado a lua cheia”.

Imperceptível

Na falta de dicionários, lia listas telefônicas. Às vezes, lia os nomes como versos; às vezes, como se gente viva e conhecida.

Lembrava-se das viagens que imaginara ter feito, por exemplo, Antonieta de Medeiros Albuquerque por Paris depois do último bombardeio e as lágrimas das pessoas lendo Éluard, mas, porque num sonho, na tradução a quatro mãos de Bandeira e Drummond.

Antonieta pensando em português enquanto caminhava em Montparnasse, onde só se pensa em francês e ao som das taças dos cafés. Antonieta afetando o vento de Paris e dizendo em meia boca: “vida besta”.

Depois, as palavras de Antonieta sumindo à medida que os olhos escorregavam para Antônia Soares do Carmo, cujo sobrenome era mais português que os poemas de Fernando Pessoa escritos em inglês. O português do nome de Antônia era salgado de mar aberto, coisa que o poeta não viu por muito em sua vida, apenas imaginou demasiadamente ao anoitecer de um dia em que sentia-se tão diferente de si mesmo que inventou ser outra pessoa. Sentia-se ou sabia-se, vá saber-se.

Antônia Soares, como Bernardo; e depois “do Carmo”, como a igreja.

Quando eram nove horas da manhã, perguntou aos relógios até que horas mais os nomes lhe ocorreriam em sua forma viva. Havia que retomar os afazeres, as leituras sérias e os cuidados com a higiene física.

É meia-noite e os nomes estão fechados na lista telefônica.

Num papel branco, marcando uma página importante, o número 555167279877 sublinhado, e esse silêncio em que ela imagina sentir-se ou saber-se examinada também.

Uma pequena fábula taoista

Contam que Laozi, o “nascido velho”, durante a dinastia Zhou em pleno Período dos Estados Belicosos, foi historiador, bibliotecário do Império e compilou de memória o Tao Te Ching, seu legado para a filosofia oriental e de todo o mundo. Um contemporâneo seu, chamado Sun Tzu, estrategista militar que nem sempre sabia como agir diante da violência dos clans e tribos que manchavam de sangue o país de dimensões continentais, algumas vezes foi ao encontro do ancião para aconselhar-se. Sun Tzu sabia do risco de encontrar o outro num estado de humor alterado, quando ele preferia simplesmente ler poesia ou caçar borboletas a meditar sobre o caminho perfeito. Ainda assim, por meio de uma tijoleta rejuntada apenas recentemente, soube-se que, de fato, houve um último encontro pouco antes dele montar num búfalo e partir da China para sempre. Na tijoleta, os ideogramas revelaram que Sun Tzu implorou por que o outro o esclarecesse quanto a melhor forma de apaziguar os ânimos dos conterrâneos e a quem dentre os contendores deveria poupar. Lá pelas tantas, teria chegado a exasperar-se, dizendo-lhe algo que, mal traduzido ao português, soaria como: “Mas mestre, todos estão esperando por sua sabedoria e, enquanto isso, vão acabar todos se matando como animais…” Laozi teria cessado seus preparativos para a viagem, erguido os olhos na direção do militar e dito-lhe: “Mas eu estou também esperando, general. Quando restarem apenas as pessoas sensatas, eu voltarei aqui e terei algo a lhes dizer.” O general finalmente entendeu o caminho dos pensamentos do homem e desistiu de vez daquela filosofia, entregando-se ele também de uma vez por todas à guerra insana. Num último gesto, ao conferir o estado do búfalo para sua partida final daquele lugar terrível, Laozi ofereceu de recordação ao general a tijoleta na qual um aprendiz havia gravado a conversa entre os dois. Sun Tzu a desprezou e, tapeando-a, jogou-a ao chão quebrando-a em muitos pedaços. Em silêncio, Laozi confirmou entristecido que o general buscava apenas justificativas para agir como pretendia, e não sabedoria. Mas um zaragateiro sobrevoou o lugar e ele voltou a sorrir. E foi na direção dele que prosseguiu ao montar o búfalo e finalmente partir.

Pavane

No tempo em que estive realmente dedicado a escrever a respeito da vida do bebê Charles Waring Darwin, o tempo de redação, não o de pesquisa, precisei de um grau de concentração que não imaginei que poderia conseguir. O tempo efetivo de que dispunha para a escrita sempre foi exíguo, urgente, em períodos isolados entre meses e às vezes até mesmo anos.

A maneira com que mais rapidamente eu conseguia me concentrar era relendo o que já havia escrito, sempre desde o começo, e colocando a tocar uma playlist de alguns compositores em sua maioria contemporâneos de Darwin (F. Chopin, R. Schumann, …).

Em algum momento, acabei colocando irresponsavelmente na lista uma peça  extemporânea de Ravel. Esta abaixo… Enquanto tocava a melodia era impossível para mim escrever uma vírgula, mas, se não fosse por ela e por uma outra melodia que me demovia internamente, nunca eu teria ido até ao final do livro. Se tivesse sido escrito no papel, aqueles originais teriam marcas que apenas eu vi e entendi.