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Gênesis

World, world, I cannot get the close enough!
Edna St. VINCENT Millay

Nem na bruma desfeita,
nada no sentimento do sol
acusa a morte da lua.

No instante em que
a aurora súbita
esquece da noite,
o mar joga longe
os avisos dos rios
de quando, como,
e se irão desaguar.

Alto demais,
o monte não inquieta
o vale. E deita-lhe
o olhar revolvido
em relvado.

Nuvens se lamentam
às costas de Deus.

Prefeririam manter-se
inertes na lagoa
ou então sob o fosso
do poço profundo.

Nem um animal
ainda contamina
a paisagem.

Só pedra sobre pedra,
o vento enlouquecido
não entende aonde ir
e muito menos o que fazer.

O primeiro dia
é subterrâneo
e amorfo, num tempo
que não se aquilata.

Um sol apenas no céu
a tudo aniquila e arrebata.

Gema periclitante entre os astros
sem lágrima nem riso.

Há espaços vagos ainda
para que se criem culturas,
religiões, espécies,
mas nada se decide
nesse império de dúvida
e vacilação universais.

De outro modo, tudo
acontece por si mesmo.

Tudo locupleta-se em vão.

Para ter criado este mundo,
Deus estava desocupado,
necessariamente.

Sem intenção ou projeto,
sem cálculo ou culpa,
desejo ou luto,
assistência ou atenção,
desde o primeiro minuto –
sem entender de que forma –
tudo já havia abandonado.

Nascemos foi por esquecimento.

Marítima, 2

O dia inteiro esticando a corda.
Todo o santo dia puxando o barco.
Um dia ele desencalha, eu sei,
do fundo do desfiladeiro
onde eu mesmo o enfiei.

2

De domingo a domingo
subo a escada fraca.
Busco ar no parapeito.
O peso é demasiado,
e eu aguento.

3

Às vezes, a tarde é triste.
Um banjo gigante.
E posso senti-lo vibrar
todo estourado.
Cordas por esticar.

4

Se não, destruo paisagens.
O boi que por nada enlouqueceu.
Partes quebradas de ave.
O aquário que é um esqueleto.
E a água toda vazou.

5

A corda puxa tanto
e não raro parece infinita.
Para o que serve puxar,
eu me pergunto,
mas azar… E mais ela desliza.

6

O sal marinho?
Um tanto resta na mão.
Mas desadoçam meu lábio
as ausências. O dia
dá de morrer também.

Trânsfuga

Juro que vi as pernas da tarde
desabarem para dentro.

Tinha a estranha aparência
de quem não voltaria a nascer.

Em direção à floresta, os passos
lentos de uma velha conhecida

que se afasta ao chamado
do último vestígio do dia.

2

A vida é curta, sim. Dura menos
quanto mais se a observa

porque, então, os muros
se tomam de heras

e porque as estradas vacilam
sem força, em extravios,

a vida é curta, e fala de modo
mais simples aos pássaros.

3

Aceita os lugares antes de ir
até eles, ela diz, e que,

trânsfuga, tomaria sem culpas
da minha vida também. Juro

que a deixaria fazê-lo, mas, se
não tenho nada, ofereceria o quê?

Nada, ela diz. E “nada” outra vez.
E agora é hora da noite morrer.

Marítima

1

Setenta por cento água
no corpo e no mundo
vazam ao entorno
para fora de tudo.

A pele, antigo veludo,
um azul sem contorno
indolente e profundo
que nunca naufraga.

2

Faltam olhos à manhã.
O dia não vê quanto fica.
No mar, a baleia impera.
O marinheiro chora.

À partida, a causadora
é ela. Sua tez é cera
de que ele abdica.
A tarde nos pés da anciã.

3

Ao horizonte anuncia:
vêm ou não me salvar
iaras, ondinas,
vagas, espumas?

Todas ou nenhuma
me traga o mar,
a estrela matutina
já me deu moradia.

Não há profundidade

Hannah Arendt (1906-1975)
trad. do espanhol/alemão

Não há profundidade
onde a clareza não brilha e
nem silêncio
onde o som não ressoa.
Desperta o silêncio –
mesmo que permaneça dormindo! – .
Ilumina a escuridão
que nos criou.

Não há trevas que a luz não vença,
nem silêncio que não se entoe.
Mas essa calma
que repousa no incerto
silenciosamente nos obscurece
como um epílogo.


Entre os anúncios editoriais malfadados de 2020, a tradução dos poemas que Hannah Arendt escreveu entre 1923 e 1961 e que estaria sendo preparada para este ano, no Brasil, não deve mais vir. E não veio ainda hoje, em 2022. Entre tantos outros. Como não leio em alemão, mas me dou bem com o espanhol, encontrei em uma editora de Barcelona (Herder) uma coleção de seus poemas. Deste livro, conheci melhor um pouco seus poemas muito amorosos e outros que certamente refletem o espírito do seu tempo e deixam ver um tanto da sua filosofia também. A maioria destes poemas do livro trata de um tempo obscuro e da busca pela lucidez (claro, trata-se de Hannah Arendt), mas ela sempre mantém, mesmo nestes poemas mais reflexivos, um tom de esperança viva muito forte, o que me fez tentar traduzir especialmente esse, para esse dia de hoje. Tem uma mudança bem radical num termo que ela (ou o tradutor para o espanhol) usou, mas achei que ficaria mais compreensível no português. A tradução para o espanhol foi realizada por Alberto Ciria.

O céu ainda não está pronto

Não sei o que procuro tão longe,
eu não invento coisas contra a natureza.

Mais estrelas sob o tecido poroso,
alma das nuvens borrifadas,
não invento.

Não olho nem embaixo da cama
e deixo a porta sempre fechada.

Desorganiza-me o universo
e a obsessão dos quasares
onde eles nem desejariam ser vistos.

Não entendo do que adiantaria.

Mas não resisto.

Há muito céu depois e também sobre
os dias desmoronados.

Nós somos incompententes
para sabê-lo, eu sei, mas foste
sem tempo que eu te avisasse
que o céu ainda não está pronto
como tu sempre me mostravas.

Sempre um pássaro, rastros dos aviões,
fiação dos postes, folhas anônimas
de árvores sem autonomia
o importunavam.

Sempre algo imperfeito, telhas
dobradas pelo vento, a imagem silenciosa
de casas, prédios, madeira, alvenaria.

A mão de alguém passando rápido
tocando um cão pela coleira.

Um cão pela coleira.

Eu diria que
havia muito que melhorá-lo,
sinceramente, mas a realidade
é densa e intratável e se afasta
para uma sorte de ignorâncias.

Será menos suportável de agora
em diante porque me dividias
nem que fosse a vez de um suspiro.

Não há outro céu que eu invente
e é com isso que mais me amedronto:
bem como este céu é incompleto
eu também não estava pronto.

Benévola

Olhando três vezes para a frente,
esbarro no ainda não visto
por acidente – a saudação
absurda que o dia às vezes faz
à noite depois de arruinada.

Muitos são dias sem sentimentos,
mas vou pelo caminho de antes.
É o que entendo melhor. Vou pela mão
do meu filho e sorrio às suas coisas
quanto menores pareçam.

É tão pouco pintar a manhã.. Basta
um tanto da tinta esquecida nos potes:
nada de azul aqui porque é cedo demais
e o sangue ainda encharca o nascente.
Mas não se pode arredar esse frio, nem

a rua e seu carrear de pedidos
frustrados. Contudo a luz do dia
impinge uma transigência benévola
em tudo. De uma sacola de bondades,
eu também tomo de algo qualquer

pensando em ocupar meu dia, mas ele
não quer saber e vai me esculpindo
à madeira, para a festa dos cravos
como uma vez fez ao pobre Jesus.
Viver não é mais do que escrever na areia

e, depois, tudo pode se perder.
Palavra e silêncio? O mesmo.
A mim servia um dia só de eterno.
E eu daria tudo mais uma vez, mas
ninguém deve oferecer o que não tem.

Dourado

Ó céu que consentes a noite,
que espelhas o trágico,
e sustentas o sublime.

Ó céu que me viste nascer
e me verás partir
e suspendes o infinito.

Onde me ocultas
o que devo saber
com todas as letras?

Onde me revelas
a noção de tudo
o que posso suportar?

não há tantos de ti
para tantos de nós

o suposto espetáculo de uns
que encerra o de outros

a permissão às flores
a confissão aos pássaros

ó céu cujo lamento
é só silêncio, como o meu

Onde deitarás meu consolo?
Numa praia distante
que eu não alcance?

Como drenarás
nossas histórias
se não escutas?

E por que te conto ainda
do que me esvaziei
como se ainda brotasse?

É o teu tamanho de abóbada?
A tua arte de nuvens?
O teu chamado perpétuo?

ó céu da minha infância
mais azul que o azul

eu te peguei uma vez
como a bolhas de sabão

e parti teus pedaços
como se fosse comê-los

ó ceu que consentes a morte
tu não esquecerás de mim

A tua voz de alaúde
é o que embaralha
o sentido de tudo

e é o que faz errarmos
uns nos destinos dos outros
como arrimos que desmoronam.

A tua seta
a flechar um a um
os dias e uma a uma as estações.

Mas tu não envelheces
e te acomodas para este banquete
em que nos degustas.

ó céu que inicias sem esperança
todos os dias

e que recomeças a morrer
a cada noite

parte que és de outro universo
navegas por nós, no tempo

mas nossa memória é curta
não é de ouro

ó céu
não és de ouro também