Categoria: Poesia

NêmesisNêmesis

Volto ao livro que o mar me devolveu
do ventre escuro daquele monstro raro —

as páginas rotas vieram foi de um inferno
das profundezas azuis, do mais interno,

borradas, desfeitas, inolentes, sem cor.
Ao espelho, o monstro parece inocente.

A pele rasgada era dura como as ostras.
Ele? Cheio d’água, vísceras à mostra..

Ninguém me caça, diz. Ninguém me pesca..
Estar sozinho e quieto é o que ele busca.

Rente ao dorso uma vez só dormiu uma sereia,
mas de encanto quebrado — morta baleia.

Andou por todos os mares, foi o que disseram.
No porto, os marinheiros nunca souberam.

Coxo, arrasta-se na rampa para o acerto final
com outro monstro ainda maior, nêmesis letal

que o afundará em funduras e fissuras. Lá,
o livro morrerá com suas páginas destorcidas:

o fausto de sempre, até emergir noutro, expondo
a tantos queiram o seu fatídico tesouro.

BarnaclesBarnacles

Para todos os efeitos, e sem
razão aparente, o mar arrastou
a pedra que estava aqui.
Era onde pousava meus olhos,
pensando se havia sentido
em tanta espera, mas os sonhos
bem se acomodavam no futuro.

Agora, onde piso, o chão se desfaz.
Onde aponto, a porta é fechada.
Volto para dentro de mim
e o silêncio das vagas é rumor
deposto em vão. Em palavras
que avançam sem direção
e levam consigo essa voz.

A liberdade? Encarcerou-se
num lugar distante. Mas, através dela,
refugo ao horror e o desassossego
que fracassa a força dos braços,
dobra joelhos e drena os olhos
dessa alma velha, fluida,
e por quem pouco me apego.

No passado, fui outra pessoa,
e a quase tudo eu previa —
até mesmo de olhos fechados.
Mas viver não pode ser pensado,
apenas vivido,
e o que é falso se revela
sob qualquer ponto de vista.

O mar, imenso por analogia,
termina onde a vista alcança;
a pedra, um edifício precário
que submerge e borbulha;
o tempo, que tudo movimenta
sem interesse em nada ou ninguém,
nunca reparte sua energia.

Porto Alegre, 10Porto Alegre, 10

Sentado um instante num banco do parque,
notei algo em que havia pisado mais cedo
e que continua engastado nos pés —
uma pedrinha que encontrou um sulco
onde enfiar-se, como uma felpa
se acomoda na pele, incomodando,
e queremos de uma vez arrancá-la.

De que rua eu a trouxe?, penso,
e já não tenho certeza onde estive.
Ultimamente tenho trocado, sem perceber,
nomes de ruas por nomes de gente.

Foi, talvez, onde antes encontrei
um cachorro magro de dar pena
e que se defendia dos passantes
tão feroz quanto um lobo.

Há muitos animais que rondam aqui,
uns de inacreditável memória
(isso bem ao contrário de mim
que me desencontro de ti
como se estivesse chegando
sempre pela primeira vez).

Mais cedo eu andava com tanta pressa
que outra vez não percebia
que é sempre uma corrida em vão.

Já havia perdido a hora e então me dei ao direito
de sentar um momento num dos bancos vazios
e lembrar de quantas vezes o fizera.
Mas sempre há algo de novo no cenário,
nem que seja uma árvore tombada
que subitamente a memória acusa
e que à vista não se revela.

Ou pode ser uma criança nascida quase em 2026
e que o pai decidiu que aprenderia a andar
nessa areia dos passeios do parque
porque nisso deve haver
uma forma especial de aprendizagem.

Talvez ali uma pedra também encontre
aquele pequeno corpo
e se inscreva numa cicatriz,
dessas que são imunes ao esquecimento.

Plumose AnemonePlumose Anemone

Verdades simples —
não se pode dobrá-las.

São como o óbvio, sem peso,
e, ao mesmo tempo, insuportáveis.

É o que se observa sem dolo
do que é desfeito sem zelo.

Cada qual reporte o seu fardo
e a sua carência de cor.

O tratamento que se dispensa
à memória e ao que passou:

síntese de um sentimento ambíguo
que nunca se esclareceu

no volume de um universo
agora repartido em dois.

2

Pessoas são ramos deitados
que o vento atirou à praia,

tapetes de folhas brancas
para o passeio de um deus

que ensina com incômodos
muito mais do que com lições.

3

Seus braços de anêmona
deliram no mar profundo

espumando em bolhas vazias
e esponjas saturadas

(a areia nas profundezas
se reacomoda impalpável

para que volte a arrastar as
notas desse estranho solfejo).

4

Como a música se expande
da mente em direção aos sons,

o silêncio em silêncio percorre
no que se alimenta do chão.

As flores e o mal-estar
dos lugares repletos de gente.

5

Mas aqui só vejo o que escuto.
Há muito troquei os sentidos.

E de tocar o que me desmanchava —
a pele perdeu seus pudores.

Contra a luzContra a luz

Às vezes, sem o que pensar, procuro imaginar se ao longo da vida conhecerei todos os seus olhos..

Os olhos da tarde, que esperam milagres, incrédulos e entregues. No crepúsculo, o horizonte transformando-se pouco a pouco em passado e memória.

Ao anoitecer, infiltram-se em mim como se atravessa uma tenda. Mas, quando é noite alta, voltam a fechar-se. Parecem saber de tudo, mas tudo lhes é revelado outra vez para que repousem, ainda mais tarde, como estrelas destapadas do céu..

Passará muito tempo, e a vida continuará a mesma. Mas já passou tempo demais, e a vida dói por isso.

Outra vez amanhece. As abelhas bebem o néctar na borda das taças e os dragões dissiparam-se no voo — não há sombras contra o sol.

No mundo, há o que é certo, há o que deve ser e o que não se pode devassar: olhos erguidos contra a luz da manhã, os ramos de avenca, o torso nas mãos..

Ao meio dia, as maxilas destroem um naco de pão e a carne recolhida das brasas.

E, depois, serão vistos à distância no que anseiam e no que lhes impede. Passa ainda mais tempo e sua atenção é reclamada. Assim é todo o dia.

Mais tarde, é hora de voltar ao ermo silencioso, ao que não precisa ser visto, ao tão bem apreendido.

Mas não há regresso desde que fomos enredados.

Apenas mantém-se a consciência de viver nestas mesmas almas, mas desde então em corpos trocados.

Pelos meus cálculosPelos meus cálculos

Três minutos é o tempo que o ar resiste
dentro do corpo, de onde não há escape.
E tudo o que ele atinge, guarda ou conserva
se perde de uma só vez, num disparate.

Leva tempo para se entender algumas coisas,
uma vida às vezes nem é o suficiente
e o que se percebe nem sempre é tão claro,
mas tudo existe em medidas diferentes.

O tempo e suas horas, minutos, segundos.
A sua casa é uma espiral circundante
na qual todos podem inventar de tudo
até que tudo se torne redundante…

Aprendi isso por nada, olhando o céu
e, no chão, o rastro dos pés dos animais.
Meu calculismo é pensar por comparações
até que, por um excesso, fica demais.

Três minutos é muito tempo. Quanto leva
o boi, errando de vereda em vereda?
O bom animal nunca pensa que morreria
tocado pelo homem no cavalo, o que assovia.

Três minutos é muito pouco. Quanto dura
viver a vida em resumo? O que importa
se ganhaste apenas dinheiro? Apenas fama?
Ou vulto? Vale do quê, mesmo, a sabedoria?

Olhando ignorante os degraus da escada,
pensei no que daria por um minuto mais…
Daria tudo, é claro, e corri abaixo
salvando a mim mesmo de forma incidental.

Pelos meus cálculos, não tenho para muito,
e porque a vida não se retém em fotografia,
os pés não param e o olhar nunca repousa.
Nada desdenho, só mal reparo – eis minha escusa.

O bilheteO bilhete

O novo ano trouxe velhas penitências
bem embrulhadas, como presentes
preparados há tempos, de um antigo banquete.

Há tempos ouvindo a mesma coisa,
tomo cuidado com o que posso escutar.
Não são tantas lascas nas pedras, mas há.

É raro quando o comum se revela estranho.
É uma tempestade que permanece em segredo –
e o que existe se reveste de ausências.

Aperto os joelhos entre os braços, gasto
tempo demais com máquinas quebradas
e coisas arruinadas que nem valem nada.

Os olhos eu abro porque vai começar a chover.
Tudo parece tão limpo.. E, o frio, glacial.
O relógio é que bate cada vez mais cedo…

Desse modo qualquer um pode vir a morrer:
não há o sustento do sol e a noite vindoura
ainda dorme, malgrado lhe envie o bilhete.

DesconsoladoDesconsolado

No peito um coração desengrenado
badala erroneamente cada instante
e espaços desocupam-se pela vida.

Nesta moldura, o tempo se estreita,
nenhum encanto dura, e o espanto
de uma estação a outra é esquecido.

Há névoa nas palavras? Limpe-as…
Pureza em demasia? Não será em vão?
E se for apenas silêncio? O som?

Esta canção de pássaro, estranho
aviso insolente deformando o vento,
nela é que tudo se transporta.

A paisagem é de uma sorte aleatória.
O destino? Vive também em seu peito,
numa árvore que pode ser esbulhada.

O desapego despega-se, reapega-se
e imagens novas rasuram-se aos olhos
fazendo como faz um sol encoberto:

o que ali está, está além do alcance
de todos. Uma sabedoria indisponível,
um desconsolo tão grande, o de um poeta.

NovembroNovembro

Novembro me tirou meia dúzia
de palavras soltas na boca.

Palavras que, pensando bem,
não levariam a nada.

A não ser que me levassem a outro Natal,
esqueci o que faziam ali. E desde aí
inventaram a revolta de lançar-se fora
por conta própria — mas então já era dezembro.

Dezembro, que é mês de esperanças, ciladas
e estranhezas delicadas como esquecer.

Há prazos que pesam nos fatos demais,
as uvas açulando as raposas
com as mesmas mentiras de sempre.

No centro deteriorado do verão
todos dormem ou, antes, partiram.

Cada palavra é uma trinca quimera
que não pode nos escolher.
Nós que a dizemos, diria-se.

E o calendário dependurado apenas
um acaso de víspora, uma pedra cega,
mera orelha de lince o ciclone final.

E agora já nada sobrará
dos famintos aos famintos.
A sede? Suspende-se.. A porta? Sumiu…

No ano que vem, meu bem,
viajaremos antes que se conclua a primavera.

ParoleeParolee

Ó deixe essas lágrimas para amanhã..

Os dias de antes, a bebida de muitos,
outros amores vividos já além das mãos,
caminhos distantes também não tocam os pés.

Não vá inventar nada agora, chorar mesmo
de vai nada adiantar, ó deixe
as lágrimas para amanhã, enquanto sente
outra vez que o céu sorri para os demais.

Deixe também as moedas
no fundo do bolso, acaso ainda precise
ou a fome ou a sede retornem.

Não deve esquecer a sorte que teve o cão
ao fugir de casa, dos olhos turvos
do animal mais dócil do mundo esteja livre
e da forma que ele enganava a noite
com seu canto engasgado parecendo
que vinha de outra vida a nascer.

Ainda uma vez, olhe as tábuas do cais
e mais uma vez essa ponte que nunca cai
e o que ao levante do dia foi posto a dormir.

Os velhos e suas sobrancelhas espetadas —
a revolta que há nestes fios, ó entenda,
é mais feroz que a revelação da verdade.

Marilia, a quem você julga que amou, foi mais doce
com outros antes e você, seu último amor
e que a amparou nos braços ao desfalecer,
nem assim pensou que não aguentaria,
afinal, é para isso e não outra coisa
que há no seu peito o tal músculo, o valentão.

Nunca houve quem defendesse como você.
Esqueceu como defendeu a ofensa de um amigo
igual fosse a si mesmo?

E toque de novo aquela maldita canção
para que a noite resulte alegre e as estrelas
virem-se um momento só em nossa direção.

Estão bem guardadas as coisas acontecidas
para que nunca mais seja preciso revê-las.

E ao lado das vividas, as destruídas
estão apagadas como numa tevê enguiçada
que nunca mais ligou, um rádio velho
preso na mesma e eterna estação.

A essa hora, o olho arde tanto quanto um estômago.

A essa hora, o estômago vira quanto um oceano.

Mágoas ao fundo do mar borbulham
e um resto de vida quer viver, mas nada se pretende
e a portaria está por fechar e é devido
sair em silêncio e que nada indevido aconteça
ainda mais se for chamado “felicidade”.

Os cães fugitivos cumprem um destino melhor..

As portas estão bem fechadas, janelas, chão e paredes.

Os olhos de Marilia, lembre bem, eram mais fundos
que uma prisão e tampouco foi amor de verdade.

Que seja, é o que você pensou.

A parte dos livros? Despeje no pote dos micos..

Assim haverá alguém mais feliz
eliminadas da face do mundo essas tristezas,
essas infâmias, essas pobres parolas.

Mas antes derrame contra o muro a fel amarga
e volte para casa com a alma mais doce..

E sem, é óbvio, muito mais exigências.

Na vida lhe chamaram de tudo, santo, corvo, chacal,
ameba, quadrúpede, besta, pai, animal..

Também noivo da morte, santo, viuvinha —
do fundo do quintal nada disso de flor,
seu erva daninha..

Entre em acordo com o nome que sua mãe deu
(e quase ninguém além dela mesmo conheceu).

Vá até lá, e em paz, ao menos na noite de Natal —
é permitido a quem viveu toda a vida uma condicional.