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Granada

Ao final, somente restarão
estes poemas que falam do amor.

Do amor que não resta em palavras,
de palavras que nem guardam o que é amar.

O mais será como as cócegas
sumindo nas pernas de um cão

e tudo o que impacientou seu sangue
momentaneamente.

A água de amanhã no rio de ontem.
A sede adiada outrora

(enfim saciada).
Todo mundo verte de si “amor”

na esperança de se ver cultivado
alhures.

Depois, dobrado ao fundo de uma caixa
num poema incompreensivel,

o amor abandonado a si mesmo
é uma folha triste e mesmo assim

ninguém em são consciência
se libertaria de amar.

Preferimos o seu assalto, mesmo que ele
nos tome a capacidade de entender.

O amor que os poetas cantam
tão mal, às vezes, bem

como caluniosamente.
O amor que tínhamos para dar

guardado num diploma de amante.
Mas o afeto consignado a troco de nada,

afinal, é o que de melhor foi feito.
Agora, repara em ti as avarias.

Pena o teu coração
explodido nessa granada.

Polar

Ela mora no outro lado da cidade.
Nas ranhuras de um espelho arranhado.

E toca com os dedos na luz
em pingos de chuva trançados.

Ela mora na pintura de um vaso
e é a única que o conhece de dentro.

Ela é quem eu posso ver
quando o sol se abandona no céu.

O seu olhar não está à venda,
disso ela sabe perfeitamente bem.

E sob farrapos de algodão partido
irá aguardar pela chuva

como se fosse cumprimentar a noite
e permanecer até o final

e dissesse tudo o que é preciso ouvir
uma última vez.

Mas ela pode apenas estar me enganando.
Do outro lado da cidade,

os filmes acabam antes do fim
e não são refeitos pela memória.

Mas eu espero que dessa vez ela esqueça
porque eu me sinto quebrado

como fica um pedaço de gelo
que é mascado na boca de um urso.

Porto Alegre, 7

Todos os dias
aconteces cedo,
quando a primeira luz
ainda não ligou
teu autorama atropelado
que as sirenes da noite
por alguma razão
que eu não entendo
em algum a hora da noite
silenciaram.

Esse despertador que ofereces,
este sabiá desorientado,
acorda também
certo rumor intestino teu.
Ele me alcança os ouvidos
com sotaques que não manténs
e do eco desses
animais alucinantes
e de gente que também
é fantástica demais
para que pareçam reais
(mesmo à memória,
que aceita tudo)
e assim me sobrescreves
todos os dias.

Um dia desses
precisamos entrar
em acordo com isso
e justamente,
mas então como ficariam
as coisas que não se acomodaram
perfeitamente em ti?
E como é que ficariam
aqueles que te armazenaram
como o cenário de vidas
delicadamente pouco importantes?
Tu não farias nada?

Quanto agressiva tu sabes ser, cidade
nada imperfeita e nem torta
e que, sobe lomba e desce lomba,
esconde-se num espelho brônzeo
e se magnetiza?

Mas ao menos uma coisa é certa:
tu és imparcialmente boa e ruim
e, às vezes, podemos imaginar
a vida noutro lugar
enquanto fertilizas
em nós coisas estranhas como
músicas, filmes, saudades, poemas…

A porta aberta

Entrarei em sua casa sem
nunca ter lido os seus livros.

E tomo da asa no escuro
(não a sã, mas a ferida),

depois entrego
meu sangue, e sou tragado

em silêncio
até perder outra vida.

Ficarei se for cedo,
concordo, mas,

no escuro, a porta aberta
também me indica a saída.

Ninguém quer

Ao homem foi dado o pior:
amar ao humano.

Inútil pensar em escolher
(isso também foi vedado),

como em amar às terças-feiras
somente depois de marcado

o encontro do céu e do inferno,
mas em território mundano.

O que significa entre a dor e
as piores misérias.

O que significa ocorrer
também sem amor

necessariamente.
Amar é perda de tempo e,

perder-se do tempo,
desfavoravelmente,

ninguém quer.

2

Mas amar ao humano
não é mal necessário

(e nem necessário não é):
vive-se bem sem amar.

Senão de que forma
sobreviver aos enganos?

Senão de que forma
amaria fulano

a beltrano ou
a outro qualquer?

Dessa forma, ao homem
foi dado o pior:

antes amar a si mesmo –
no que seria leviano.

Cortar e inocular na carne,
por gosto, o veneno,

ninguém quer.