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As visionárias: quatro mulheres e a salvação da filosofia em tempos sombrios

Com cara e nome de best-seller, o lançamento As Visionárias: quatro mulheres e a salvação da filosofia em tempos sombrios 1933-1943 (Todavia, 2022), de Wolfram Eilenberger, transforma a história filosófica do período mais crítico do séc. XX em literatura de fácil digestão. Não é um pecado, sem dúvida, mas o livro de Eilenberger comete várias tentativas de aproximação um tanto exageradas ao afrontar visões políticas antagônicas narrando simultaneamente o percurso de vida e pensamento de Simone Weil, Ayn Rand, Simone de Beauvoir e Hannah Arendt. O que pode parecer à primeira vista algo forçado, afinal, pode não ser mais que uma busca mal declarada por impacto editorial e um contraponto feminino ao seu livro anterior, Tempo de Mágicos (Todavia, 2019), no qual esmiuçou obra e biografia de Walter Benjamin, Martin Heidegger, Ernst Cassirer e Ludwig Wittgenstein.

Precisamente, ele narra o período de uma década sem, entretanto, chegar ao fim da Segunda Guerra Mundial, mas até onde Simone Weil esteve viva e sustentou como pode vida e pensamento quando o mundo desabou de vez sobre a Europa e sob os regimes totalitários. Trata-se de um recorte arbitrário porque, a exceção de Weil, as demais pensadoras continuaram produzindo além da sua data de corte: o ano de 1943.

Das pensadoras que escolheu para seu livro, é Weil quem notadamente aparece mais. Seja enfrentando a derrocada política e histórica das grandes nações europeias, o impacto pós-revolucionário bolchevista, percorrendo pessoalmente as condições de vida dos trabalhadores ou um peculiar caminho filosófico e espiritual, Weil é como a coluna dorsal do livro de Eillenberger. Não é que as demais filósofas tenham menor relevância em seu livro, longe disso, mas a mobilidade de Weil nesse período foi realmente além de uma carreira acadêmica ou literária e o desfecho de sua vida breve, mas lancinante, aos 34 anos de idade, coincide justamente com o ápice do horror da guerra. Se isso pode servir de consolo, é mesmo difícil imaginar que um espírito como o dela sobrevivesse ao horror desse tempo, afinal.

Quanto às demais pensadoras, o livro limita-se muito em sua busca de fugir às perseguições totalitárias e por afirmação intelectual.

No caso de Ayn Rand, vê-se o tanto de trauma que guardou durante toda a vida do processo revolucionário de 1917 e do efeito psicológico e existencial do expurgo sofrido na Universidade Estatal de São Petersburgo. Após esse momento inicial de estudos, quando se revelou superdotada, ela parte para os Estados Unidos e lá inicia seu trabalho como roteirista e escritora, levando muito anos até afirmar-se. Depois disso, o livro preenche suas aparições com citações de A revolta de Atlas e de suas posições ultraliberais, mas, no fundo, Eilenberger parece pouco inclinado a contar mais a seu respeito – ou porque sua vida tenha sido menos movimentada que as demais “visionárias” escolhidas por ele ou, enfim, porque ele entendeu que seria o suficiente.

Quanto a Simone de Beauvoir, a escritora e filósofa francesa aparece desde o princípio  lutando para publicar seus textos inéditos e às voltas com o seu envolvimento afetivo-intelectual com Jean Paul Sartre. Antes, narra também seus encontros com Simone Weil e o impacto desta em sua visão de mundo. Na Paris ocupada, pouco a pouco o ar se torna irrespirável e com Sartre no front, envolvido já em debater com Heidegger em O ser e o nada, ela então mergulha na leitura e escrita de sua obra da maturidade, O segundo sexo. Isso não sem desencontrar-se e reencontrar-se com ele diversas vezes. De alguma maneira, pelo pinçado por Eilenberger, Beavouir parece desenvolver-se intelectualmente melhor quando está distante de Sartre, num relacionamento que vai tomar sua vida e culminar no exasperante relato de A cerimônia do adeus.

Igualmente em processo de fuga dos nazistas, entre todas Arendt é a que comparece menos na narrativa de Eilenberger. O mesmo pode-se dizer dos seus estudos a respeito da ideologia política e do totalitarismo. Mesmo o envolvimento com Heidegger e os encontros derradeiros com o amigo Walter Benjamin aparecem pouco. Já os embates com o movimento sionista por um lado, e o comunista, por outro, reafirmam-na no livro em seu livro como uma pensadora interessada sobretudo nas condições políticas da liberdade.

Arendt, que recentemente teve a biografia de Ann Heberlein publicada no Brasil pela Companhia das Letras (Arendt entre o amor e o mal: uma biografia), é intelectual bem mais exigente do que pode ser obtido numa crônica como a proposta por Eilenberger. Mesmo sem poder ser classificado como simplista, seu livro muitas vezes passa raspando por questões relevantes à filosofia política para deter-se muito mais numa espécie de crônica histórica e jornalística. O mesmo pode-se dizer a respeito das demais “visionárias”, pois mais se saberá a respeito de Simone Weil por meio do trabalho biográfico de Maria Clara Bingemer, Simone Weil: a força e a fraqueza do amor (Rocco, 2007) de Beavouir pela recente biografia de Kate Kirkpatrick, Simone de Beauvoir: Uma vida (Crítica, 2020) e de Ayn Rand pelo há pouco lançado Ayn Rand e os devaneios do coletivismo: breves lições (LVM, 2019). De qualquer modo, como forma de introduzir vida e obra de pensadoras de importância universal, o livro não se perde e é bem movimentado em sua narrativa multifocal. Não se deve imaginar que seja superior aos trabalhos biográficos disponíveis individualmente nem que aprofunde as questões com as quais lidaram em profundidade as “visionárias”, porém, como atração leiga e como forma de mostrar que as mulheres estiveram ao tempo dos grandes dilemas do séc. XX, quando a urgência da guerra mais as provocou, é bastante interessante. Em última análise, é um testemunho da força intelectual de filósofas que, muitas vezes discrepantes entre si, viveram radicalmente os momentos da Segunda Guerra Mundial e deram parte de questões que continuam influenciado o mundo, prova de seu vigor e de que, prefira-se mais a uma ou outra, integram por seus méritos próprios a história do pensamento ocidental.

Os cativos

Revista Parêntese

Na Argentina e no Chile, principalmente, o tema da “cativa” é recorrente desde o romantismo de Echeverria e parece ter chegado com força ao séc. XXI. É uma figura histórica que, ao que eu saiba, nunca figurou na literatura rio-grandense, mas, nos países hispânicos, é tema regular desde o romantismo a imagem da cautiva capturada pelos malones dos índígenas pampeanos.

Começa em Echevarria, passa por Juan de San Martin, entra nas canções de Ariel Ramirez e Félix Luna e, recentemente, figurou num romance que chegou ao Man Booker Prize em 2020, “As aventuras da China Iron”, que narra nada menos que a fuga para os territórios indígenas da esposa infeliz de Martin Fierro. No antimodelo feminista neo-romântico desse último, nada daquilo de louvar as mujeres robadas. Há, por outro lado, uma busca idealizada por uma vida de liberdade entre indígenas libertários.

Por aqui, na literatura do Rio Grande, os indígenas comparecem muito menos e isso competiu por séculos numa dúvida histórico-antropológica: ou eles foram dizimados na colonização paulista ou foram reciclados na genética mestiça do gaúcho, um dos únicos matizes da miscigenação com uma caracterização vencedora na história cultural brasileira.

É bem verdade que os escritores gaúchos do séc. XX, a começar por Simões Lopes Neto, que foi recuperar a lenda de Sepé da tradição popular, buscaram recompor um lapso considerável que se explica em muito pela “idade” do Rio Grande comparado, por exemplo, a Buenos Aires, fundada em 1580. Politicamente, o Rio Grande do Sul nasceu apenas poucas décadas antes da Revolução Farroupilha, então parece inevitável que o gaúcho brasileiro aconteça histórica e literariamente quase ao mesmo tempo do indígena, quando um deveria preceder o outro. Na Argentina, a situação é outra. Lá, o antecedente seminal é o próprio indígena. Ele que é o elemento anterior (tanto que o folclorista e cantor Atahualpa Yupanqui diz em uma de suas composições: “detrás, hay un indio“).

Por aqui, a própria disputa em torno a Sepé querelada na década de 50 pelos integrantes do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul reforça a frouxidão deste nó histórico. Nossas referências habituais, apesar disso, são as missioneiras e não as dos indígenas “selvagens”. Malones e cautivos não aparecem na literatura rio-grandense porque os registros históricos encontraram o Rio Grande do Sul já no desenlace das etnias originárias e os nossos indígenas pampeanos não registraram sua passagem no mundo, eles que foram registrados. Todo o legado vem indireto, como quase inteiramente precisamos importar do Prata um folclore e motivos. No Guia do Folclore Gaúcho (1951), de Augusto Meyer, ele já alertava quanto à “pobreza do acervo indígena incorporado ao folclore gaúcho”.

Por essa razão, parece meio postiço e ilusório falar em “herança” charrua. Se os brasileiros tiveram algum interesse nos charruas que não fossem os mesmos dos espanhóis (colocá-los em guerra a serviço dos colonos), teríamos uma postura mais decente com o uso do nome da etnia. Os uruguaios pelo menos vêm tentando fazê-lo com literatura de muito boa qualidade, como o Bernabé, Bernabé (1988) de Tomás de Mattos que Sergio Faraco traduziu para a Mercado Aberto e é pouquíssimo debatido aqui, como se a história dos charruas não nos pertencesse, apenas o seu nome. Por outro lado, os rio-grandenses ainda parecem estar buscando representar legado mais significativos dos povos originários, num afã de recomposição cultural. Na literatura, no entanto, ainda não arredamos muito o pé do pobre Sepé, morto e bem morto. E justamente por quem…

Eu não sei bem o que houve aqui, creio que ninguém se arrisca peremptoriamente, mas acredito que de tudo um pouco. Em relação aos indígenas, mantemos uma relação extremamente dúbia. Ora recusamos sua contribuição ao legado cultural e reivindicamos o europeísmo colonial ora homenageamos etnias que, junto aos hermanos uruguaios, contribuímos em extinguir da face da Terra: principalmente as tribos charruas, minuanas e etc. É o que dizem as evidências históricas.

A nossa tendência contemporânea de ideologizar a vida das minorias massacradas por vezes parece ter os mesmos compromissos com a factividade dos românticos do séc. XIX. O indígena gaúcho parece mesmo ter sido sempre um ser evasivo, duro e indócil, como muitas tribos das Américas que renunciaram à paz submissa com os colonizadores. E é bem provável mesmo que tenha se extinto detrás do clamor das guerras e malones. Mas nem por isso eram anjos. A idealização dos brancos, todavia, é tinta que não lhes sai fácil do rosto. Passa o tempo, e o máximo que acontece é uma dar lugar a outra.

Por que escrever?, de Philip Roth

A rigor, é desde a publicação de Nêmesis (Companhia das Letras, 2011) que os leitores brasileiros deixaram de contar com textos inéditos de Philip Roth por aqui. E como parece mesmo que o escritor falecido em 2018 foi definitivo em sua aposentadoria anunciada em 2012 e não deixou nenhuma novela ou romance para publicação póstuma, nos últimos tempos restou apenas aos seus leitores e devotos matar amargamente as saudades do autor por meio das notícias envolvendo o polêmico cancelamento da biografia de Blake Bailey, Philip Roth: The Biography (Skyhorse, 2021), a única entre as disponíveis que efetivamente contou com sua colaboração direta. Na prática, restaram efetivamente apenas as notícias: a tradução do livro em si continua suspensa pela Companhia das Letras, editora brasileira interessada na sua publicação antes da polêmica exposição envolvendo Bailey, acusado no começo de 2021 por diversos crimes sexuais.

Agora, a mesma Companhia das Letras oferece ao público brasileiro uma edição retrospectiva compilando dezenas de ensaios e entrevistas de Roth a respeito de literatura e de seu ofício de escritor. Trata-se de um volumoso livro (568 páginas) intitulado Por que escrever?: Conversas e ensaios sobre literatura (1960-2013). Talvez antecipando a retomada da aguardada tradução, garante-se dessa forma que a editora ao menos ocupará os interessados em Roth com uma boa dose de textos de sua autoria até então inéditos em português. Isso não terá ocorrido sem críticas duras ao gesto de suspensão anterior, pois, afinal, as questões apresentadas referiam-se ao biógrafo de Roth e não a ele mesmo. Enquanto prossegue o embaraço, não custa lembrar que Bailey acabou encontrando nova casa para publicar seu livro nos Estados Unidos e a Dom Quixote, de Portugal, promete lançar sua tradução ainda no primeiro semestre deste ano.

No que importa, o livro que agora chega às livrarias é oportunidade para aqueles mais interessados na literatura de Roth do que nos bastidores da sua intimidade completarem finalmente a sua coleção em língua portuguesa. Com a edição, obtém-se o bônus de enfim desviar a atenção de situações alheias ao escritor que, incompreensivelmente, no último ano tornaram-se mais importantes que a repercussão do seu trabalho autoral. Nesse aspecto, Por que escrever?: Conversas e ensaios sobre literatura não poderia ser mais lapidar.

Desde o ensaio de abertura em que Roth contempla o retrato de Kafka para daí imaginar um destino mais longevo para o escritor tcheco, passando por comentários a respeito de escritores seus contemporâneos, como Philp Guston e Saul Bellow e transcrições de suas conversas com Primo Levi, Isaac Bashevis Singer e Milan Kundera, entre outros, até o capítulo final de “explicações” no qual responde sobre o próprio trabalho, vê-se um Roth que se propunha a oferecer um legado crítico tão relevante quanto sua obra ficcional. E o melhor de tudo: numa ensaística na qual se reconhece imediatamente os traços de sua inteligência e humor. Veja-se, por exemplo, o ensaio como no qual ele enfrenta a Wikipedia a fim de corrigir uma entrada a respeito de A marca humana (Companhia das Letras, 2002) e a enciclopédia não assimila imediatamente a sua observação, exigindo-lhe uma “fonte confiável”. Roth não se dá por vencido e publica a devolutiva na The New Yorker. No livro, o ensaio aparece completo, sem as supressões da revista.

Parte considerável do livro compõe-se também por discursos em premiações recebidas, entrevistas e ensaios que já haviam sido publicados anteriormente em Shop Talk (Mariner Books, 2001), mas a compilação apresenta ainda textos inéditos em relação à edição norte-americana, de 2017. As entrevistas são na realidade homenagens que ele faz a escritores com quem travou relação e enfrentavam dificuldades em seus países de origem, principalmente aqueles provenientes do leste europeu, como Milan Kundera e Ivan Klíma. Os ensaios a respeito de sua própria obra, todavia, tornam o livro mais apetecível para seus leitores habituais.  Para estes, servem como um anexo indispensável o seu ensaio de aniversário de 45 anos de O complexo de Portnoy (Companhia das Letras, 2004) e o discurso sugestivamente intitulado A impiedosa intimidade da ficção, pronunciado nas comemorações dos seus oitenta anos, em 2013, no Museu de Newark. Em síntese, é praticamente um livro de referência que fixa o legado a seu respeito com seus próprios textos.

Por falar em “legado”, inobstante as “ameaças” literárias que sua obra vem sofrendo recentemente em razão de alegada misoginia e sexismo, mais ou menos no mesmo revés de Bailey, críticos, estudiosos e até amigos de Roth passaram a considerar que seu espólio deveria manter-se disponível para que outros biógrafos nele se debruçassem e dessa forma pudessem até mesmo oferecer novas versões de sua biografia. Ao que parece, junto às caixas de correspondência e demais notas, Roth teria entregado a Bailey pelo menos dois manuscritos inéditos justamente contestando o livro de memórias de Claire Bloom, Leaving a Doll’s House: A Memoir (Little Brown and Co, 1998), atriz com quem viveu por cerca de 14 anos. O temor é que esses manuscritos e os documentos que pudessem consistir em novo apanhado ou publicação recebam a destinação que em vida Roth solicitou aos encarregados do seu espólio: a completa destruição. Por ora, trata-se de um drama sem desfecho.

Quando ainda vivia, Roth havia destinado à biblioteca pública de Newark uma coleção de 7.000 livros anotados, fotografias e documentos pessoais organizados por ele mesmo e algo em torno de 1/5 do seu patrimônio financeiro (cerca de 2 milhões de dólares) para que a biblioteca se reequipasse. Parece que ao aposentar-se com a publicação de Nêmesis, Roth dedicou-se a organizar a eternização de sua memória e seu legado, o que inclui o seu acerto com Bailey. Por meio de sua biblioteca pessoal é possível conhecer suas anotações em Dostoievsky, Colette e Machado de Assis, entre outros. Provavelmente é desse espólio que resultam os ensaios, discursos e apresentação da presente edição de Por que escrever?: Conversas e ensaios sobre literatura (1960-2013).

Daí pode-se presumir, portanto, que a curiosidade literária acerca de Roth será plenamente aplacada com a edição. É claro que isso se confirmaria apenas caso o interesse vulgar na pessoa, fofocas e informações desencontradas preenchessem menos o interesse das pessoas que propriamente sua obra e vida literária. Quanto a isso, é bem provável que Roth soubesse bem que seria algo impossível de deter, narrar ou conduzir com exclusividade. Certamente não a ponto de prever que sua memória fosse embargada por razões esdrúxulas, mas porque seus confrontos com o moralismo fatalmente se chocariam com a contemporânea tara social do cancelamento. Para estes leitores, Por que escrever?: Conversas e ensaios sobre literatura (1960-2013) é excelente oportunidade de conhecer de Roth mais no que ele é interessante, um autor fundamental de sua época histórica e com um talento incomum para narrar. Para os que não morrerão de um pasmo ao saber dos incidentes pessoais da vida do autor, espera-se que a biografia saia de uma vez por todas e suspenda-se a onda de exorcismos pelo menos no que se trata de um monstro literário como ele. Não é algo certo de se esperar, mas nunca custa muito o apelo ao bom senso e à razão.

Canções espirituais

Há um encontro subterrâneo entre Minas Gerais e o Rio Grande do Sul. Existe há muito, eu desconfiava. Tive provas disso há pouco. Ontem mesmo.

Ouvi ontem seus rumores eclodindo em ondas sonoras (como se água extravasada do solo) nos “Olhos D’água” do disco surpreendente que uniu de um lado Calos Di Jaguarão e, de outro, o belo-horizontino Nelson Angelo.

Muitas coisas estranhas no disco, a começar por encontrar-se na fronteira ao extremo-sul do Brasil/Uruguai um compositor totalmente deslocado da musicalidade mais característica do Rio Grande do Sul e suas platinidades. Lá nas bordas do rio Jaguarão, é como se um autêntico “clubeiro” tivesse se extraviado dos destinos da constelação de músicos que “brotaram” na famosa esquina mineira, confluência da Divinópolis com Paraisópolis.

Conheço as composições dele, Carlos, desde o disco “Clarice”, de Simone Guimarães e da sua estonteante “Trilogia da Sereia”. Depois eles fizeram juntos um disco (Sinhá-vida) que tem, entre outras, a hipnótica “Ingazeiro“. A Simone eu conhecia de antes. Falei do seu radinho e discos seus que me tocaram muito e toquei muito também, que a sua voz tem algo que solicita ouvir mais, e mais. E mais um pouco só… E nunca para mais.

Mas ele eu não conhecia. Talvez intuísse, mas isso só conta pra gente biruta mesmo. Mas já percebi o que têm de encontro dele com o Nelson Angelo. O Nelson conheço desde que nem tinha tamanho de gente, do disco “Geraes”, do Milton Nascimento. O Nelson é compositor de “Fazenda”, a música que é um lugar só no Brasil e ao mesmo tempo todas as suas fazendas. Isso quem disse foi Caetano Veloso, não eu. O que eu percebi é que são duas pessoas aquáticas e que, por essa essa estranha razão, uniram-se numa celebração do sagrado da água e de outros “Cantos Espirituais”. É o nome do disco deles, aliás.

Disco cheio de chuva, canções molhadas, barrentas até, água de rios. Bonito de ouvir e molhar também. De perder a hora. Parece feito em tempos outros, com poesia meio como a de Cacaso e outros que cantavam só – o visto e o vivido. Quer dizer, só cantavam mesmo. Isso que é bom no disco. Isso que é bom, afinal.

O melhor livro do ano (de 1987)

Nada mais absurda que a difundida ideia de que um romance excelente inspira a procurarem-se outros ainda melhores. É uma falácia de salão. O mais habitual de acontecer às pessoas, de fato, é uma excomunhão do tempo perdido e a indagação mental de como aquele autor ou autora passou tanto tempo imperceptível, ainda mais quando se descobre tratar-se de um romance publicado no longínquo 1987. Apenas que ninguém consegue suportar a ideia de que a literatura às vezes é intragável desde a primeira página e, por razões estranhas à arte, como o apreço ao bom nome do autor ou de uma casa editorial, insiste-se em perseguir recompensas que de imediato mostram-se improváveis. Também o tabu de não maldizer o consagrado impede que prospere a crítica honesta e, em seu lugar, quando muito, o silêncio constrangido, substrato ideal dos pactos de mediocridade.

Como A Porta (Intrínseca, 2021) é inexplicavelmente o primeiro livro traduzido e publicado no Brasil da escritora húngara Magda Szabó, infelizmente é um pouco mais difícil obter traduções em português de seus outros livros. A menos que se recorra às livrarias e editoras estrangeiras, nada feito. Se valeria à pena? Não só valeria, no meu juízo, mas seria igualmente fator de economia financeira e temporal, tendo-se em vista que as ofertas editoriais por abundantes não redundam necessariamente em significantes. Talvez em húngaro, o tal idioma do diabo*, fosse complexa demais a leitura, mas nos mais familiares é certamente uma boa viagem.

Especular a razão do seu obscurecimento é bastante simples. Apesar de que, no leste europeu, nos anos 50 e 60 rasgou-se o véu férreo da cortina, seus escritores, principalmente aqueles que afrontaram os regimes comunistas, foram por aqui solenemente ignorados, essa que é a forma primeva do que hoje se denomina “cancelamento”. Ora, um autor que não se dobrasse às exigências históricas e revolucionárias a inteligência tropical e caribenha consagrava um grande vazio, um deserto de referências. Nesse sentido, poucos escritores que viveram o desterro das invasões múltiplas em países como Polônia, Checoeslováquia e Hungria atravessaram a cortina de fumaça que se estabeleceu acima de seus nomes e obras. Era como se não fosse preciso saber a dificuldade que era viver e sobreviver sob o tacão comunista, afinal, como então se manteria a aura utópica?

Mas Magda Szabó, assim como o bem mais difundido por aqui Sándor Márai, faz um uso soberbo da característica mefistofélica do seu idioma. É por melíflua, acessível e clara que ela torna ainda mais estranha a tomada de consciência interpessoal marcante entre a narradora e a fabulosa personagem Emerenc, síntese dos traumas humanos comuns a quem tem de viver apesar da irracionalidade histórica a que a política e o poder sempre conduzem.

Para além de tudo, é um salto para fora da obviedade e previsibilidade das listas de favoritos que logo estarão por aí. A porta, de Magda Szabó, é um livro que é mesmo uma porta a outro universo de violências e silêncios que uma pessoa e uma cultura sonegam à outra em prol da sobrevivência. É um “atravessar” conduzido por uma narradora magistral. Quando me perguntarem, se perguntarem, qual o meu “livro do ano” eu já posso dizê-lo: é “A porta”. Do ano de 1987, mas que isso importa?

* No prefácio que Guimarães Rosa escreveu para a antologia de contos húngaros que o amigo Paulo Rónai verteu diretamente ao português, em 1957 (Antologia do conto húngaro), ele fez a definição do que lhe parecia o idioma magiar, um entre os que ele estudava. A palavra escolhida foi “diabólico”. De acordo com ele, a língua ideal com que se falar ao próprio capiroto.

A casa do filósofo está a queimar

Artigo publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, 24/07/2021.

Não foram poucos os pensadores do mundo contemporâneo com alcance global que, desde janeiro do ano passado, emitiram opiniões quanto ao impacto da pandemia no mundo político e no mundo das ideias. De Edgar Morin, a Bertrand Brasil (Record) publicou em 2020 “É hora de mudarmos de via: as lições do coronavírus”. Yuval Harari, autor do best-seller Sapiens, teve seus artigos compilados pela Companhia das Letras em “Notas sobre a pandemia”. Slavoj Žižek projetou a reinvenção do comunismo em lançamento da Boitempo: “Pandemia: Covid-19 e a reinvenção do comunismo”. Judith Butler analisou a questão do luto e do acesso desigual à saúde com o seu “Vida precária: os poderes do luto e da violência” (Autêntica). Mas Alain Badiou, Byung Chul-Han, Angela Davis, Theodore Dalrymple, David Harvey, Bruno Latour e outros nomes menos difundidos por aqui também publicaram artigos e movimentaram a vida mental do planeta enquanto o vírus se espalhava em suas mutações, além dos próprios autores brasileiros. Entre todos, todavia, ninguém como o italiano Giorgio Agamben se expôs tanto e foi tão combatido em suas polêmicas. É dele que a Âyiné publica agora “Quando a casa queima”, obra na qual o pensador italiano leva ao expoente máximo a sua compreensão biopolítica (e filosófica) do momento.

Quando um filósofo oferece ao mundo a sua compreensão de um assunto, não há garantia alguma de que será compreendido, bem recebido ou sequer tolerado. Pensar o mundo requer tanto uma visão abrangente quanto um potencial de leitura do qual cada vez mais as pessoas têm abdicado em prol dos filtros que a leitura por meio da internet canaliza às pessoas em suas convicções ou preferências, a depender de como se queira denominá-las. E pensar a contemporaneidade parece cada vez mais requerer um atestado de frequência escolar, mesmo que alguém como o centenário Edgar Morin não se furte nem a pensá-lo e nem a emitir suas impressões sobre o tempo de agora e, como visionário, também o mundo do futuro. Essa, porém, é uma ressalva improdutiva dado que o pensamento acompanha a vida e pode ser dado como sua grande fonte de energia. Ao longo dos últimos anos, Agamben vem se notabilizando pela cimentação de um edifício teórico baseado na ideia do estado de exceção, confluência da biopolítica foucaultiana e das técnicas de controle de Estado cada vez mais amparadas pela indústria tecnológica. A crise do coronavírus e suas medidas de contenção caíram como uma luva, portanto, para que ele desenvolvesse os pensamentos mais polêmicos entre todos os que vêm refletindo quanto à crise e seu enfrentamento.

Embora seja injusto afunilar o trabalho de Agamben unicamente em direção aos seus escritos mais recentes a respeito da pandemia, seu gesto em prol de uma defesa da autonomia da vontade caiu malissimamente mal na opinião púbica planetária porque justamente ao mesmo tempo em que a Itália (e logo depois o mundo inteiro) mesma se via na dificuldade extrema com a crise sanitária, mal tendo como dar conta de seus mortos. Após a publicação do seu polêmico texto inaugural a respeito da crise, A invenção de uma pandemia, o mundo ficou um tanto chocado com as opiniões do italiano ao classificar as medidas de contenção da vírus como “irracionais” e “imotivadas”. Lido com o distanciamento de ano e meio transcorrido e um saldo de quatro milhões de mortes, o artigo soa escandaloso, pois mesmo uma reclamação à liberdade factual foi generalizada como se a pandemia pudesse resumir-se num subterfúgio dos governantes para limitar e condicionar a experiência da vida social sem qualquer prazo ou transigência.

O rigor que Agamben aplicou na interpretação do decreto-lei do governo italiano que deu providências em relação ao surto do coronavírus na Itália, em fevereiro de 2020, por sua vez foi aplicado de volta ao seu próprio artigo. Apesar de que Žižek tenha cogitado inicialmente seguir um caminho semelhante de análise, Agamben não parou de refletir e publicar a respeito do assunto em sua editora, a Quodlibet, e dali espalhar-se ao mundo. Se o caráter suspensivo da pandemia atingiu aos demais pensadores ou levou-os a considerar outros aspectos e derivações do problema, nele se radicalizaram.

Não é de hoje que filósofos que causam escândalo conseguem às vezes serem mais interessantes do que aqueles que simplesmente surfam na opinião pública. Neste caso, Agamben pode ser considerado o único a tomar de uma onda gigante como o surto pandêmico e refletir, diante disso, quanto ao desnudamento total do ser humano em relação ao mundo político. Assim, mesmo que contestado, ele demonstra que o pensamento é sempre uma atividade de risco. O fato de ele jogar-se a um risco não calculado poderia inicialmente tê-lo detido em suas reflexões, porém isso também não aconteceu. Ao longo de 2020 e 2021, ele publicou quase duas dezenas de outros artigos em que prosseguiu discutindo as implicações da pandemia e suas medidas de controle, culminando neste “Quando a casa queima”, que a editora Âyiné agora traduz para o público brasileiro.

Com um título que remete à fábula budista da “casa em chamas”, Agamben desvela um mundo de pessoas conformadas e amedrontadas por um estágio derradeiro do estado de exceção que ele já vinha pensando desde o seu Homo Sacer, de 1995, no qual as pessoas teriam sacrificado voluntariamente a liberdade em prol da sobrevivência mais elementar. E mais drástico é que não haveria nesse sacrifício qualquer recompensa a não ser perdurar. Agamben é o filósofo que afirma que a história não oferece saídas e que o mundo, tal como a casa em chamas da parábola, oferece vida e morte na mesma receita.

Lido rapidamente, o texto de Agamben se parece mais a um esboço poético, uma sublimação extremada do espírito, que a um conjunto pragmático de soluções renovadoras para as condições de vida das pessoas no mundo pós-pandêmico. Essa imaginação, aliás, também já suspensa em vista da obtenção de um controle relativo do surto decorrente mais da técnica das vacinas do que exatamente de uma contenção autônoma das pessoas. O espanto da negligência com a vida só faz sentido quando a vida é mais valorizada que as coisas.

Este é bem o espanto de ver a menos valia que as pessoas parecem dar ao autocuidado e isso não se dá por uma disputa consciente no nível dos conceitos biopolíticos, como quer o italiano, mas pelo que cada um tolera como suportável do controle que o outro, ou o Estado, procura exercer, seja por meio da coerção legal, da reprovação moral ou do cancelamento social. Agamben sem dúvida corre o risco do cancelamento e de receber os qualificativos negativos que já recebeu, mas, por meio do livro em questão, poderá se concluir se ele vai ser consumido pela própria alegoria ou, então, surfar no topo da onda de uma liberdade de pensamento que há tempos os pensadores e humanos mortais vêm penhorando em troca da sobrevivência.

Eles em nós

IHU on-line

Das muitas escoriações eleitorais do Brasil recente é do senso comum que resta um público fatigado da política. O inacreditável percentual de abstenções na eleição de 2018 (20,3%) é por si só autoexplicativo da dificuldade das alianças políticas engendradas pelo presidencialismo de coalizão em manter o eleitorado agregado principalmente a partir de 2013 e da ruptura do pacto popular com o petismo. Apesar disso, a curiosidade política é incessante, tanto quanto são as análises realizadas – mesmo a contrapelo de um estado de ânimo civil deprimido como o do Brasil da pandemia do Covid-19 – e respectivas publicações.

A fim de entender o Brasil e sua história política recente e procurar responder a uma questão chave (Como teve lugar isso que nos aconteceu?), o professor de literatura brasileira em Tulane, Nova Orleans, Idelber Avelar, vale-se de uma fresta pouco ou nada explorada na análise política para debater ao lado de muitos jornalistas, cientistas políticos, sociólogos e tantos outros interessados no percurso da democracia brasileira que vêm publicando ultimamente. Seu mais recente livro, Eles em nósretórica e antagonismo político no Brasil do século XXI (Record, 2021), se, por um lado, fundamenta-se teoricamente na análise de discurso e nos estudos linguísticos, por outro, pode muito bem ser lido como uma crônica de viagem temporal por meio da qual se pode rever a inflamável trajetória brasileira do início do século até os primeiros anos do governo Bolsonaro.

No livro, encontram-se os momentos cruciais da vida política nacional recente levados à reflexão com um debate aprofundado e extensa contraposição bibliográfica. Não poderia ser diferente para um autor que deseja não apenas reportar os acontecimentos e analisá-los, mas confrontá-los em relação aos diversos atores sociais envolvidos no debate público, sejam eles os militantes da base petista e seus intelectuais orgânicos, com o seu discurso mais ou menos afinado, ou a desorganização caótica característica do bolsonarismo. No entanto, apesar de valer-se do arcabouço usualmente empregado na análise literária, não é de ficção que trata Eles em nós, mas de um documento sobre um país real, de pessoas reais e que, por isso mesmo, exigem uma compreensão menos simplória que as abordagens consagradas nas polarizações eleitorais. Portanto não é apenas de categorias políticas que trata Idelber, mas da cidadania, sua relações imediatas, reais ou virtuais e da forma com essa população vem sendo desgastada no encontro das disputas em torno ao poder político no Brasil.

A forma pela qual Idelber obtém esse raio amplo de observação baseia-se em primeiro lugar em sua vontade em extrapolar da ciência política convencional. Ao beber da fonte dos estudos antropológicos e econômicos, mas também por considerar o substrato comunicativo da internet como teia de negociações simbólicas, potencializa-se em seu livro a expressão dos fenômenos culturais que perpassam as decisões eleitorais e políticas ao mesmo tempo que incide nesse caldo o olhar de quem discerne sem compromisso ideológico; pelo contrário, o seu é um olhar que se preocupa com o exame coerente e lógico dos eventos sem abrir mão de estabelecer relações entre os campos. Também seu horizonte se amplifica exponencialmente por verificar o Brasil até onde ele é menos visível e compreendido, como no interior onde se desenvolve tanto o drama ambiental e indígena quanto se dá a expansão do agronegócio, ou seja, há uma preocupação em abordar o Brasil e sua inteireza e complexidades.

No entanto é por ver mais na política do que mera dança de cadeiras e por fugir a uma recriação historicista da ocupação dos espaços públicos que Eles em nós rompe um bocado a tradição de análises lineares de cunho mais acadêmico sem, contudo, deixar de dialogar com elas. Da mesma forma, Idelber não deixa de ilustrá-lo com a leitura jornalística, de recheá-lo com declarações de políticos ou confrontá-lo a outras opiniões. Além disso, sua atenção aos embates ilocutórios das redes sociais e leituras efetuadas até mesmo em grupos do WhatsApp garante-lhe uma apreciação menos categórica da que costumam obter os estudos mais especulativos. É como um caráter informativo subjacente ao texto que guarda em muitos momentos o estilo de crônica que emprega nas análises que ele mesmo mantém nas redes sociais, espaços nos quais realiza intensa troca com seus leitores (/idelber.avelar) e (@iavelar).

Essa característica de um texto acessível, todavia, não diminui em nada da profundidade e do impacto de suas observações. Pelo contrário, o reconhecimento de categorias políticas expressas no mundo objetivo conforme as pessoas lidam cotidianamente confere ao seu texto um elemento de intenso realismo, pois ele não parte tanto de especulações teóricas quanto de fatos reportados que qualquer leitor pode imediatamente reconhecer. Quem quer que tenha testemunhado ou participado dos eventos políticos de 2013, por exemplo, poderá rever finalmente com algum distanciamento aqueles momentos que detrataram a confiança popular na gestão petista e cujo eventos foram versados livremente por intérpretes políticos atordoados. Também logo mais, na crise energética e ambiental, nos eventos preparativos à Copa do Mundo, na evolução do fenômeno lavajatista e culminando na campanha eleitoral de 2018 quando, colapsados pela realidade, deixou o Brasil levar-se ao governo de quem melhor soube encampar as forças antagônicas e o reverb das massas insatisfeitas. Em vista do caráter nebuloso causal e da dificuldade hermenêutica generalizada, é bem possível que muitos leitores perceberão que faltava quem procurasse desvelar o ornitorrinco brasileiro com o auxílio de figuras de linguagem, procedimentos retóricos e um tanto de lógica, ainda que isso pareça o mais estranho de tudo.

Da emergência da era das narrativas, é natural que emergisse, portanto, uma leitura habituada a desvelar os recursos retóricos e a safar-se da virulência argumentativa que vai se colando ao real como camadas sobrepostas. A dificuldade que representa desbastar os muitos encobrimentos semânticos e os jogos de interesse que estão sempre no centro da disputa política não é tarefa de simples execução, muito pelo contrário. O esforço visível de Idelber consiste em estar ao tempo e ao centro da intempérie dos fatos e das sobreinterpretações criadas a todo o tempo pelos múltiplos interessados, em tautologias e aproximações que se multiplicam numa razão infernal como a disponível na internet, meio de expressão das opiniões e laboratório de testes por excelência das ideias políticas na contemporaneidade. Daí que a crítica literária e especialidades linguísticas ofereçam uma lente das mais interessantes para se observar o mundo político e fugir à “cacofonia” de livros sobre o Brasil atual e o endosso costumeiro que se faz ao modo com que se vinha fazendo e compreendendo política, de acordo com ele um sintoma intelectual da própria crise.

Das hipérboles e exageros dos muitos discursos com que se vem moldando a imagem da população, do gerenciamento político dos antagonismos partidários e coalizões até a ruptura e emergência do bolsonarismo como redenção antagônica, da quebra do “equilíbrio oximorônico” e da dificuldade dialética de equacionar-se um entedimento comum, do esvaziamento argumentativo e o “lexicocídio” daí resultante, da desorganização narrativa à dessensibilização lexical dos nomes em seus enunciados ao giro retórico da radicalização bolsonarista, Idelber realiza em seu livro o mapeamento discursivo de um país que por duas décadas passou a transmigrar livremente no tempo (sem nunca ser o país do futuro e sem jamais abandonar os ranços do passado), ancorando-se agora no mais oblíquo embaraço.

Por fim, cabe lembrar que seu objetivo era entender “como teve lugar isso que nos aconteceu” e não “por culpa de quem isso nos aconteceu”, como é praxe no tribunal continuado das redes sociais. Se cada assunto abordado no livro é o bastante para refletir longamente, por outro lado a prosa do professor de literatura garante uma fruição nada opaca e bem humorada sempre que possível. Aos leitores acostumados a receber afagos teórico-ideológicos nas próprias convicções, é uma oportunidade de confrontarem-se consigo mesmos no que costuma ser mais habitual na literatura de ficção: a suspensão voluntária da descrença. Pode requerer algum esforço no começo, mas, no decorrer do livro, ficará cada vez mais claro que a argumentação é suficientemente forte para sustentar-se em pé e prender e surpreender o leitor imbuído de curiosidade honesta.

À espera de um igual

Revista Sepé

Alguém imaginaria ser necessário sobrepor uma camada de mármore sobre Michelangelo – ou deitar uma nova pincelada em Leonardo – para mostrar o que há ali? Dificilmente. Qualquer tentativa nesse sentido seria fútil e vã na mesma medida. Seria absurda.

Nesse e em outros aspectos, o mesmo eu poderia dizer de À espera de um igual, livro que o Thomaz Albornoz Neves lançou nesse 2020 mais que conturbado.

Quase nada posso dizer a mais que não seja simplesmente recomendá-lo porque, como o que se refere à escultura, é um livro do qual já foram extraídos todos os excessos e quem for comentá-lo corre o risco de deitar sombra ao que tem por única luz a emitida desde si próprio. Por essa razão, é preciso evitá-lo com veemência. Da mesma forma, penso eu de qualquer deslumbramento de apreciação que predicaria o que por si só é substantivo.

Assim que me cabe apenas tentar estimular que os demais, aqueles que ainda não o conhecem, que o façam e, de preferência, por sua própria condução. Afirmo isso porque acredito que um leitor que se aproxima do trabalho de um poeta deve ter ciência de que se aproxima de alguém e que, portanto, é preciso despir-se de preconceitos e adentrar esse ambiente no qual a palavra mesma demonstra-se pelo que comporta e sempre de forma inigualável. Porque, por mais objetiva que seja a poesia de alguém – ou imagética -, há uma essencialidade subjetiva a mover aquela visão de mundo e, caso nos afirmemos em nossas reservas estéticas ou morais, realizaremos sempre uma leitura parcial, incompleta e todos acabarão sendo vitimados pela insuficiência de um perspectivismo que na arte não tem qualquer sentido. A poesia é mesmo uma arte que requer tanto do leitor quanto do poeta.

Há muito por conhecer no universo do trabalho de Thomaz que, em certa medida, é o mesmo trabalho que ele desvela ao reconhecer-se – não é à toa que “conhecer-se” é uma tarefa grega das mais complexas. Mas a graça maior da sua poesia é que ela nos dá a ver – aos leitores gaúchos, principalmente – uma imagem do pampa que se decalca da historicidade e cujos elementos mais naturais e triviais surgem no relevo, flagrados no êxtase poético, à visada do poeta.

Eu já disse virtualmente ao Thomaz que a sua poesia me parece ter a mesma matriz da poesia que Ricardo Güiraldes realizou no começo do século passado na Argentina, transfigurando a solidão do homem do campo em matéria mística e estética. Não é por estar morto que não possa ser ele – talvez – o igual de que o Thomaz nos fala, dado que a poesia (muitas vezes) sobrevive ao poeta. Mas igualmente é provável que um leitor atento e suficientemente desprevenido encontre-o na poesia do próprio Thomaz e, deste modo, possa ele mesmo acabar revelando-se para nós este igual.

De Moraes

Revista Sepé

Muitas vezes me parece que o Mauro Moras é um poeta e cantor que se pode encontrar mais facilmente entre um mate e outro, num galpão silencioso, do que sobre um palco, sob refletores ou numa avenida qualquer, embora isso não seja impossível. Ou então desencilhando o pingo, já meio estropiado da lida, arrumando a boina sobre a cabeça. Campeirismo, caiporismo, caipirismo ou o que seja, o Mauro tem a poesia popular reverberando dentro de si no que de mais afetivo o ser humano pode ter. Ouvi-lo é sempre como ouvir a um tio antigo, paciencioso e sereno. É a impressão que confirmo ao terminar de ouvir as 12 faixas de De Moraes, disco que lançou pela Minuano Discos, agora em 2020, logo do início da pandemia do coronavírus.

Pelo menos, até onde procurei, não estão no Spotify ou no Deezer nem uma das 12 faixas do disco. Talvez seja mais fácil encontrá-las na sintonia de um radinho de pilhas do que “catando milho” nos botõezinhos dos aplicativos de telefone. Mas creio eu que isso tenha uma razão de ser. Essa transição pela qual a produção musical vem passando talvez seja apressada demais para um sujeito tão sem pressa quanto ele parece ser.

Para quem não conhece o trabalho do Mauro Moraes de outros tempos ou dos registros históricos que fez com José Claudio Machado e Bebeto Alves, cabe ainda uma apresentação: trata-se de um canto nativista do começo ao fim. Nativismo é o nome de um movimento cultural do Rio Grande do Sul que busca revivificar, não retificar, o hábito popular e cultural da população do meio rural e seus elementos mais naturais, não pitorescos. Foi por onde Mauro encontrou as formas de expressar uma poesia ao mesmo tempo emocionada e reflexiva.

Não é à toa, afinal, que Mauro se ampara quase sempre no ritmo lento e na harmonia em tom menor da milonga para desfiar sua conversa de campo e que muitas vezes extrapola o campo. Há nas suas letras uma conversa séria de preocupações universais que filosoficamente provocam e levam o poeta à composição. É um pouco estranho encontrar metáforas absolutamente campeiras, dotadas do vocabulário coloquial do dia a dia da campanha, junto a reflexões políticas e metafísicas complexas que chegam, sim, ao universo do campo, porque são do universo de todos. A questão mais intrigante por entender é a forma pela qual suas letras se harmonizam com tanta justeza aos ritmos e tons que os longos dedilhados dos violões das gravações propõem nas doze faixas do disco.

E o que dizer quando ele empresta sua arte à interpretação do amigo e parceiro de longos anos, Bebeto Alves? O que acontece quando Bebeto canta as letras de Mauro é mais ou menos um encontro de arroio com o rio, de águas que não se pecham e nem competem, mas fluem. É um encontro de vertentes profundas e o Bebeto, como ele mesmo já afirmou, é um poeta e cantor com quase nenhuma vivência campeira. Como então interpreta com tanta naturalidade uma poesia rural que não se escamoteia e chega a ser bruta nessa qualidade? Tenho uma suspeita e vou lançar aqui. Um dia vou saber por eles se confere ou não.

O Bebeto tem uma entonação que não é de quem canta, em primeiro lugar, mas de quem fala. E parece alguém que o faz do modo mais campeiro possível. Como se à sombra de uma arvoredo, antes mesmo de apear e, numa viagem no tempo e no espaço, trocasse palavras com aquela poesia, e as incorporasse. Desse modo, permitindo esse encontro em si mesmo, ele então deixa falar o tanto que há dentro dele mesmo daquela poética que finalmente se canaliza. Quando um poeta ou intérprete da poesia alheia deixa ver o universo afetivo que tem dentro de si é que essa espécie de milagre pode acontecer. Por isso, esse encontro dos dois amigos, mesmo que numa faixa apenas, é o ponto alto do disco de Mauro e também mais uma amostra do encontro feliz que já rendeu, entre outros sucessos de crítica e público, os discos Milonga abaixo de mau tempoMandado lenha e Milongamento.

Por tudo isso, a música de Mauro é em muitos momentos uma celebração da amizade, da simplicidade e de um modo de estar no mundo que é poético por não se saber poético. Desses lampejos, Mauro faz discos que são pinturas de melodia, afeto e delicadeza. Dizem que a música dos gaúchos é uma música dura, “abagualada”. Mas, no caso dele, é de uma mansidão amadurecida que dá gosto de escutar e entender. De escutar e entender para os que irão lhe escutar pela primeira vez. De entender ao escutar para outros mais treinados nas coisas que ele diz como ninguém.

Mulher do pai

Revista Sepé

O pampa, lugar sem limite certo que habita e desabita os campos, oceano verde que invade as cidades por suas bordas, que é povoado por gente, animais, veículos e que é riscado por caminhos, arroios e até ferrovias; o pampa, talvez por sua geografia e amplidão, território por excelência externo em masculinidade e doméstico em boa parte de sua representação feminina, ganhou em 2016, com o filme Mulher do pai, uma real invertida.

Escrito e dirigido por Cristiana Oliveira, exibido no Festival do Rio e em Berlim, o filme foi vencedor do Troféu Vertentes do Cinema de Melhor Filme, no qual levou ainda o prêmio de Melhor Atriz para Maria Galant, Melhor Atriz Coadjuvante para Verônica Perrrota e fotografia para Heloisa Passos. Mulher do pai coloca no centro de uma narrativa pampeana contemporânea a figura de uma adolescente de 16 anos que se vê na fronteira da infância e do mundo adulto. Apenas por isso, o filme já poderia constituir uma inovação temática ou de perspectiva, mas, além disso, além desse limiar, ele atravessa também a fronteira geográfica para dialogar com o excelente cinema produzido atualmente no Uruguai.

No filme, é Ruben, o pai de Nalu (Maria Galant), vivido pelo ator Marat Descartes, que está interiorizado ao ambiente doméstico. Cego desde os 22 anos, logo do nascimento dela e da morte da mãe da criança, ele faz trabalhos em casa, como o preparo de chás e temperos e a fiação em lã – prática tradicional na região da campanha riograndense. Filmado no vilarejo de São Sebastião e com impecável fotografia que privilegia a poética rural também no limiar da urbanidade, por outro lado as externas em sua maioria são protagonizadas por Nalu e é ela quem tem de decidir, após a morte da avó que praticamente criara pai e filha como irmãos, por ficar e cuidar do pai ou então partir para outras oportunidades de vida, em Porto Alegre.

No impasse estabelecido pela nova realidade em que passam a conviver pai e filha, que têm entre si um considerável distanciamento, vêm do outro lado da fronteira, do Uruguai, os personagens que vão catalisar o desenlace da trama e para ambos os personagens. A esse ponto, mais do que isso é desnecessário dizer, pois o filme se encontra disponível no Now e, apesar de algumas vezes exibido no Canal Brasil, é oportunidade única de ver-se (ou rever-se) a peculiar paisagem pampeana, seus hábitos e costumes mais interiores, mas numa perspectiva nada convencional. Seja pelo protagonismo feminino quanto pela atualidade temporal, o que se pode ver são pessoas vivas tratando e tendo de dar conta dos impasses humanos mais comuns e universais. É um toque de sensibilidade no trato da cultura rural e pampeana do RS como poucas vezes tem se visto recentemente em outras artes.


Roteiro e Direção: Cristiane Oliveira
Produção: Aletéia Selonk, Cristiane Oliveira, Diego Fernández
Realização: Okna Produções (Brasil) e Transparente Filma (Uruguai)
Música Original: Arthur de Faria
Direção de Fotografia: Heloisa Passos, ABC
Direção de Arte: Adriana Nascimento Borba
Elenco: Maria Galant, Marat Descartes, Verónica Perrotta, Amélia Bittencourt, Áurea Baptista, Fabiana Amorim, Jorge Esmoris, Liane Venturella, Diego Trindad
Realização: Okna Produções (Brasil) e Transparente Filma (Uruguai)
Onde assistir: Now on-line