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Os velhinhos do Centro de Porto Alegre

Entre a José Montaury e a Rua da Praia, num remoto ponto quase ao centro da Galeria Chaves, há um café no qual uma eterna reunião dos velhinhos do centro está sempre acontecendo.

Ninguém sabe quando o primeiro chegou até ali, mas fato é que o centro de Porto Alegre é gris como a cabeleira dos velhinhos que ainda não a perderam. Às vezes, de passar sem pressa naquele túnel, sento-me perto deles para ouvir-lhes algo. Algo de que roube-os para uma crônica e não lhes falte, que não se rouba nada aos velhos. Isso não se faz.

O interessante deles, em sua conversa, é que os fatos políticos fazem confusões como a escalação dos clubes. E ninguém liga. Parece muito natural. Num alvoroço comedido, eles dizem que o Manga não podia ter tomado aquele gol tão fácil assim. Que o Brizola está na Austrália sem o que fazer, podia voltar e agitar a cabeça de quem às vezes nem parece tê-la. E outras sandices que parecem começar numa década, passar por outra e acabar em nenhuma, com seus olhos meio parados lamentando o futuro que não conhecerão.

Hoje cedo passava ali e notei um livro numa livraria nova e parei para olhar melhor. Nas mesas do café, um velhinho só, como um farol à espera de uma fisionomia conhecida. Sempre resta um, eu já disse. Menos quando as portas fecham no fim da tarde e eles somem como uma espécie de fantasmas vivos. Na calada da fatalidade da noite.

É o último dia da livraria, ela diz. Amanhã não estará mais ali. O ponto, diz a vendedora, se tornou caro demais para tão poucos leitores. O lugar é estranho e a vendedora diz que é a última livraria do centro. É a última que tenta vender ainda livros novos, de acordo com ela. Mas me parece que há outras, digo-lhe. Ela não sabe. As outras são sebos nas quais os velhinhos vivem a resvalar os olhos desinteressados em livros que não lerão mais do que o nome na capa e o título, pois eles já leram demais.

Apesar dos passos lentos, os velhinhos do centro desenham itinerários precisos nas ruelas. Mal um foi visto entrando ou saindo da Martins ou da Aurora, outro está atravessando a Praça da Alfândega. Sem sentarem-se, lógico, pois há os assaltos previsíveis e os achaques infalíveis.

Os passos lentos procuram caminhos mais curtos e às vezes somem nos táxis sem mais explicações. Para voltar amanhã, se o futuro assim permitir.

Ainda estrangeiro aqui, depois de tanto tempo, o único destino que me permito sonhar em Porto Alegre é me tornar um velhinho destes. Se é que já não me tornei..

Sim, se discute (3ª ed. revista e atualizada)

Das coisas mais infames que existem na vida de uma pessoa é você fazer propaganda do que você mesmo não faz. Deus me livre uma coisa dessas! Não é por isso, mas eu tenho dito (ou tentado dizer) aos meus amigos/as escritore/as que publicar apenas não é suficiente para que um livro permaneça. Eu não estou falando em permanecer na história, que é algo para poucos e dependente de um sistema complexo, mas permanecer acessível, encontrável e legível. Quem nunca pagou o olho da cara num livro da Estante Virtual que atire a primeira pedra.

Uma das maneiras de garantir isso seria levar os livros às bibliotecas e torcer para que algum passante lembrasse do seu nome ou a biblioteca contasse com um sistema de divulgação eficiente a ponto de chegar às pessoas. Poucas têm, infelizmente. Talvez em outros lugares do mundo, mais bem equipados. Aqui, vivemos a dura realidade de 800 bibliotecas fechadas nos últimos 5 anos. Nas livrarias, só lançamentos..

Outra maneira de conservação seria colocar o livro à venda numa livraria digital e contar com algum sistema de divulgação, principalmente se você espera que o volume seja adquirido com a finalidade da leitura. Há que considerar uma curva natural no interesse por qualquer publicação e, sendo realista, poucas são ascendentes.

Como quem já fez de tudo isso um pouco, a maneira que eu decidi para este volume específico foi usar o Google Livros. Nele hospedei uma versão livre do livro, uma na qual se pode ler o texto na íntegra e ainda contar com a randomização na busca geral. Dá um trabalho fazer tudo isso, mas, para quem não está buscando lucro financeiro, fica à disposição na search engine. Para quem lançou seus livros há tempos e não pretende republicá-los, eu acho que há poucas providências melhores.

Muitas editoras usam o sistema do Google para publicar amostras dos livros e vendê-los. Instituições públicas para distribuir conteúdo livre também (uma minoria). Eu decidi usar para que o conteúdo não se evapore quando os sites saírem do ar, os jornais nem sei onde forem parar e assim por diante.

Já quanto a antecipar “a que interesses serve” um livro como o meu, acho que não sou a pessoa mais apta a dizer. Desconfio que sirva aos meus interesses mesmo, embora se trate de um livro de 400 páginas em que não falo um momento sequer em mim mesmo, mas em dezenas ou centenas de outras pessoas. Escritores, poetas, músicos, artistas em geral e até políticos (incidentalmente). Pessoas muitas que estão vivas e produtivas, outras que já partiram.

Essa é a terceira edição que faço desse livro, tudo por minha conta mesmo, e reúno artigos, ensaios e resenhas que fui publicando ao longo dos anos na mídia impressa e digital por aí afora. Não tenho planos de voltar a imprimir cópias dele, mas não é impossível. De qualquer modo, isso teria um custo que agora não pretendo investir.. Não sei mesmo é se haveria necessidade. Teria de imprimir e vender em torno de 50 exemplares de um livro de crítica já publicadas para fechar a conta. Acho muito porque o interesse das pessoas nesse tipo de conteúdo é bem do momento.. E o momento é algo breve mesmo. Porém, para referência, é outra história e nessa perspectiva o Google serve bem, na falta de um depósito legal digital eficiente que pudesse ter a mesma eficácia.

Pelo sim, pelo não, o livro existe e pode ser lido a um toque apenas.

Para acessá-lo, siga o link https://bit.ly/3UpUkji

O totem

Ah, sim… Você também acha estranho ver alguém falando sozinho nas ruas! É mesmo uma cena melancólica. Às vezes, eu falo também, mas pouco. Logo percebo e paro. Você também, provavelmente. Daí a estranheza e/ou o receio de fazer uma projeção qualquer. Imaginar-se no lugar daquele senhor que faz algo ainda mais estranho: ele não só cumprimenta o totem que expede os tíquetes do estacionamento quanto agradece na volta, ao sair e descer a rampa em direção às ruas.

Não tenho como sabê-lo (ninguém tem), mas eu sei que os dias lhe são cada vez maiores. Eu imagino só e isso me é suficiente. Assim como as manhãs começam antes da aurora, à noite o sono só chega mesmo após muitos comprimidos. Eu não o vejo (ninguém vê), mas eu sei que às vezes ele os ingere em dobro. A esperança é que dessa forma possa acordar com o o sol já melhor colocado no céu. Talvez até já sob aquela luz líquida que atravessa os furinhos da persiana e cria como uma cortina intangível de partículas. Você sabe do que estou falando: os grânulos da poeira acumulada que parecem ter vida própria, uma espécie estranha de vida, verdade, minúscula, mas, sem dúvida, autônoma.

Em sua família eu não penso nem imagino nada. Não ousaria ser invasivo a esse ponto. As possibilidades são tão múltiplas quanto imprevisíveis. Solteiro, viúvo, pai, avô, etc. Ou nada disso. Seria ainda mais estranho se tivesse uma família constituída e falasse ao totem somente por educação. Uma educação extremada como a daquelas pessoas antigas que, ao acender-se a luz pela noite diziam a ninguém e todos o cumprimento solene “boa noite”. E assim sacramentava-se o final de mais um dia. A imagem não resulta bem. Prefiro – ou é mais fácil dessa forma – decidir que é um velho homem solitário e regrado na sua vida. Educado ao ponto de responder atendentes de telemarketing, e-mails falsos e tótens com vocalizadores. Se bem que assim não seria tão estranho, afinal, ninguém nunca sabe como essas coisas esperam que a gente se comporte.

Como cliente, nada consta de errado. Um dia quando estava no almoxarifado conferindo os prazos dos extintores de incêndio, pedi ao Josué, que cuida ali dos computadores, que checasse pela placa do automóvel nome e compras do homem.

“Mas o que você quer saber”, ele indagou antes de atender ao pedido. “É curiosidade, só…”, expliquei-lhe. Curiosidade é uma intenção que entre nós não diz nada e, por isso, logo abriu a ficha cadastral na tela do seu equipamento.

A imagem cadastrada era a da identidade do sujeito. Já calvo e com a barba sempre bem feita, tinha um olhar complacente e severo ao mesmo tempo, se é que é possível a combinação. Eu achei que era. A data de nascimento, naturalidade interiorana e a digital bem gravada davam uma ideia sólida de um indivíduo. Aposentado, sem dúvida. Um senhor de idade, como eu já disse. Nem tão velho que assocializado e nem tão jovem que dispensasse a minha ajuda eventual com as sacolas e caixas de leite. Algumas vezes eu o ajudei nisso e ele tinha a mesma efusividade neutra ao me agradecer que tinha para com o totem. Mas a minha vida é assim mesmo. Há quem nem agradeça e a verdade é que isso também não me causa mais nem uma sensação. Antes causava, sim, um pouco; agora, não.

Com o Josué rolando a tela abaixo, no rol de compras regulares, já que era sempre às segundas e sextas-feiras que ele aparecia, não notei nada que chamasse a atenção por um esdrúxulo. O produto mais comprado era farinha de trigo. Era um tanto mais que o normal e também muto regular: cinco quilos a cada visita. Uma ingesta e tanto de carboidratos e certamente problemas com o glúten ele não tinha. Mas não era gordo, o seu Giovani. Este o seu nome completo: Giovani Teles Battagglia. Natural de Barra do Quaraí, na fronteira com a Argentina, no ano de 1948, quase certo que de ascendência italiana. Estamos em 2022, logo ele tem 74 anos de idade. Está bem ele para a idade. Fala com o totem, mas não há quem fale com o gato ou com o cachorro?

“Obrigado, Josué! Vou buscar um café no refeitório. Quer que eu traga um pra ti?”, indaguei a ele quase saindo pela porta, mas ele respondeu que não precisava. Depois iria até lá e aproveitava para esticar as pernas.

Naquele dia, depois desci os dois degraus que suspendiam o container do almoxarifado do piso para o estacionamento e estava voltando para o meu posto quando ouvi que o totem havia provavelmente enguiçado outra vez e uma mulher de meia idade descera do carro e esmurrava a torre eletrônica. Devia estar travado ou não aceitado a validação do tíquete, é o que mais acontece com a geringonça.

“Senhora, calma!”, disse-lhe ao me aproximar. “Posso ajudar e abrir a catraca…”, assegurei-lhe. A mulher olhou para o meu uniforme e notou que eu era um funcionário da segurança. Respirou fundo, o que moveu os cabelos da franja para o lado, e me explicou que estava tudo bem com o tíquete dela. O totem é que não havia lhe agradecido. E sem mais dizer nem agradecer entrou de volta no automóvel e desceu apressada às ruas também.

Gênesis

World, world, I cannot get the close enough!
Edna St. VINCENT Millay

Nem na bruma desfeita,
nada no sentimento do sol
acusa a morte da lua.

No instante em que
a aurora súbita
esquece da noite,
o mar joga longe
os avisos dos rios
de quando, como,
e se irão desaguar.

Alto demais,
o monte não inquieta
o vale. E deita-lhe
o olhar revolvido
em relvado.

Nuvens se lamentam
às costas de Deus.

Prefeririam manter-se
inertes na lagoa
ou então sob o fosso
do poço profundo.

Nem um animal
ainda contamina
a paisagem.

Só pedra sobre pedra,
o vento enlouquecido
não entende aonde ir
e muito menos o que fazer.

O primeiro dia
é subterrâneo
e amorfo, num tempo
que não se aquilata.

Um sol apenas no céu
a tudo aniquila e arrebata.

Gema periclitante entre os astros
sem lágrima nem riso.

Há espaços vagos ainda
para que se criem culturas,
religiões, espécies,
mas nada se decide
nesse império de dúvida
e vacilação universais.

De outro modo, tudo
acontece por si mesmo.

Tudo locupleta-se em vão.

Para ter criado este mundo,
Deus estava desocupado,
necessariamente.

Sem intenção ou projeto,
sem cálculo ou culpa,
desejo ou luto,
assistência ou atenção,
desde o primeiro minuto –
sem entender de que forma –
tudo já havia abandonado.

Nascemos foi por esquecimento.

A estética da recepção na era da economia da atenção

Eu nem sei como começar a escrever/dizer isso, mas esse livro da capa abaixo, publicação da Arquipélago, editora aqui de Porto Alegre, é raso, superficial, simples, direto e objetivo demais para o seu objetivo. Ele é perfeito mesmo.

Não vai se encontrar nele nem um vestígio de profundidade ética, filosófica ou mesmo um detalhamento tecnológico, todavia seu autor é um sujeito que não está vendendo clichês, como pode parecer numa leitura expressa, ele está realmente escrevendo expressamente a respeito da forma como administramos nossa atenção e somos administrados a ponto de nos confundirmos completamente com o verdadeiro propósito da tecnologia comercial, nos tornarmos randômicos e nossas coisas pessoais transformadas em anúncios, em comércio emocional.

À primeira vista, parece um livro oportunista que deseja despejar platitudes a respeito da “vida” digital. Desconfiamos, aliás, de tudo o que nos desafie a essa forma de vida que, se traz vantagens, traz também adoecimentos, depressão, ansiedade, etc, etc, etc.

No livro, importa menos o que ele tem a dizer sobre algoritmos, vigilância e liberdade do que a transformação voluntária de nós mesmos em recurso, num processo de despersonalização às avessas, no qual o eu é inflado e o social cada vez mais encapsulado. É um assunto que, a bem da verdade, todo mudo conhece. Está aqui, ali, por toda a parte. Dormimos e acordamos nele, às veze no meio da noite se a compulsão assim determinar a nossa gestualidade, afinal, são dois cliques e o mundo parece abrir-se onde quer que estejamos. Ainda mais quando a realidade imediata é opressiva, entediante, como no trabalho, na burocracia e assim em tudo.

A meu ver, ele gasta muito falando da economia afetiva das redes. Trolls, haters, etc. Quando esmiuça algumas características do seu ex-empregador, o Google, é mais interessante. Seu autor não é um doutrinador e tem a escrita leve de um técnico, de um engenheiro, não um pensador ou literato.

Do ponto de vista que me interessa mais, o literário e seus meandros, todavia ele passa longe. Em algum momento, apesar de que numa busca encontrei muito pouco, estudos sobre a estética da recepção na era da economia da atenção serão indispensáveis para se entender as coisas. Talvez isso até já esteja elaborado e escrito num tweet ou num meme – certamente está – e por isso mesmo a aparência de superficialidade nos incomode sobremaneira, na nossa pretensão ao complexo. É incrível que essa simplicidade nos faz ver como o óbvio é perfeito para a tarefa de ocultação das coisas. Tudo é tão simples que não pode ser tão simples, mas, de fato, é. Prova é que aqui estamos falando exatamente nisso.

Marítima, 2

O dia inteiro esticando a corda.
Todo o santo dia puxando o barco.
Um dia ele desencalha, eu sei,
do fundo do desfiladeiro
onde eu mesmo o enfiei.

2

De domingo a domingo
subo a escada fraca.
Busco ar no parapeito.
O peso é demasiado,
e eu aguento.

3

Às vezes, a tarde é triste.
Um banjo gigante.
E posso senti-lo vibrar
todo estourado.
Cordas por esticar.

4

Se não, destruo paisagens.
O boi que por nada enlouqueceu.
Partes quebradas de ave.
O aquário que é um esqueleto.
E a água toda vazou.

5

A corda puxa tanto
e não raro parece infinita.
Para o que serve puxar,
eu me pergunto,
mas azar… E mais ela desliza.

6

O sal marinho?
Um tanto resta na mão.
Mas desadoçam meu lábio
as ausências. O dia
dá de morrer também.

A Pedra do Segredo

Numa das estreitas furnas que se podem ver nessa rocha gigantesca, diz uma lenda corrente na região de Caçapava do Sul ser o lugar onde foram depositados os ossos do cacique guarani José Tiaraju, o Sepé. Junto aos ossos, haveria também incertos tesouros em prata e ouro dos jesuítas que muitas pessoas se animam ainda a procurar. Até hoje, nem uma pataca parece ter sido efetivamente encontrada.

O lugar fica nas bordas do escudo rio-grandense, na Serra de Santa Bárbara, não muito distante do centro da cidade de Caçapava. Apesar da aparência monolítica, na verdade trata-se de um imenso amontoado de pedras gigantescas desabadas umas sobre as outras desde que não havia vida no planeta. É o que explica as grutas e cavernas que atravessam de lado a lado o monte de pedras gigantescas. Nas frestas entre as pedras sobraram espaços de circulação e escoamento e assim se formaram as furnas.

Chama-se Caverna da Escuridão o lugar no qual o enterro de Sepé supostamente possa ter acontecido. Lugar assombrado, dizem, onde as fogueiras se extinguem e fantasmas dos indígenas afastam os visitantes mais atrevidos.

Eu nunca estive lá. Conheço a história de ouvir falar e ler a respeito. Como é uma lenda, também tenho minhas suposições.

O que eu mais fico pensando é como se poderia ter certeza mesmo que o Sepé supostamente enterrado ali se trate do alferes guarani.

“Sepé” é um nome que muitos caciques adotaram entre os guaranis reduzidos e também entre as nações infiéis. É um termo, aliás, originado na nação charrua e não na tupi, das pouco mais de 70 palavras que resistiram do idioma original dos indígenas que povoavam os campos do Uruguai e o sudoeste do Rio Grande do Sul.

Na língua dos charruas, significa o correspondente a “sábio”. É o que diz o Códice Vilardebó, que sistematiza a sua língua e foi compilado em torno de 1840 por um dos fundadores da Biblioteca Nacional e do Instituto Histórico e Geográfico do Uruguai.

Não que seja improvável que o alferes de São Miguel tenha andado por aquelas bandas que integraram antes da Cisplatina a maior de suas vacarias, chegando ao limite do Forte de Santa Tecla, em Bagé. A cavalo e com pouca carga, uma viagem de duas luas bastava para ir até os limites dos territórios em domínio dos jesuítas e guardados pelo exército de guaranis. Nos campos de Bagé, há registro de sua passagem, inclusive do diálogo com os demarcadores dos dois países ibéricos, logo do tratado de Madri que deu origem à guerra guaranítica.

Não muitos anos depois que Tiaraju morreu em combate, em 1756, a nação charrua do sul foi espremida em direção ao massacre de Salsipuedes, em 1831. Salvaram-se cerca de 70 indígenas, fora os que foram foram levados a Paris para estudo e exibição. Em plena campanha de independência, os charruas foram declarados inimigos públicos dos novos governantes e encontraram guarida nos acampamentos dos republicanos farroupilhas. O último cacique charrua chamava-se Polidoro e adotou (mais certo que adotaram para ele) o nome de Sepé, decerto uma homenagem a sua liderança. Nas escaramuças dos farrapos, viajaram o Rio Grande inteiro, inclusive Caçapava do Sul.

Este segundo Sepé teria vivido até o ano de 1864 e morrido em Tacuarembó, no Uruguai. Antes disso, viveu no Brasil e assistiu os remanescentes de seu povo morrerem um a um de varíola, até restarem os três últimos do seu toldo, ele e seus filhos, que não deixaram descendentes. Diziam ser o mais destemido dos charruas e antes que o passassem a cuchillo safou-se sempre com um sexto sentido inato para a guerra. Um guerreiro como poucos. Como não há um livro ou filme sobre uma pessoa assim até hoje?

Antes da colonização, como a maioria das cidades da fronteira, Caçapava do Sul foi um acampamento dos indígenas. Eles escolhiam para viver lugares estratégicos, de passagem, com boas aguadas e fartura de caça e pesca. Mas à chegada dos colonos, eram espantados para o interior dos campos, tornando-se ainda mais nômades e dependentes do roubo dos animais que agora povoavam a região. Um povo que vivera pelo menos 5.000 anos numa grande nação estável, em menos de 200 desapareceu completamente e de uma forma especialmente cruel: pelas mãos de um antigo amigo militar uruguaio a quem haviam servido, mais tarde vingado, dizem, por este Sepé menos conhecido. O militar era sobrinho do presidente Fructuoso Rivera.

Daí que ser um povo sem paradeiro nunca foi uma escolha dos indígenas, mas uma contingência. Que andaram entre as margens da Lagoa Mirim e do Rio da Prata é sabido. Seus vestígios são escassos como precária era sua tecnologia. Para guerrear, nunca usaram as armas dos homens brancos. Seus túmulos eram de pedra e tinham nos minerais sua fonte de setas e ferramentas. Quando morriam, matavam seus cavalos, que cobriam seus túmulos. As mulheres amputavam um dedo da mão a cada membro que perdiam da família. Há relatos militares de mulheres e anciãs encontradas sem nem um dedo nas mãos… No luto, ao invés de pranteá-los, gritavam seus mortos por uma lua. Depois, seguiam viagem.

Se há um Sepé que deveria ser enterrado ali dentro desse magnífico geomonumento é este segundo, mas é provável que não haja vestígio de nem um deles. O nome do primeiro ter batizado o segundo deve ser o bastante para servir de amostra do que foi o vulto de Tiaraju, e seu poder.

É triste que se saiba tão pouco a respeito dos povos originários, os chamados índios-vagos: aqueles sempre arredios e esquivos do convívio com o homem branco. Certamente intuição não lhes faltava, muito menos disposição para enfrentar a luta pela sobrevivência e a morte. Os azares da guerra.

O mais é como o nome da imensa rocha. É segredo.