Categoria: Crônicas

Eu, robôEu, robô

Tardes de sábado boas mesmo têm de ter o bom e saudável tédio criativo. Esses dias eu vi de um famoso escritor que a pandemia estaria impedindo-o de escrever e ele dizia que precisava caminhar para escrever, então não estava escrevendo mais nada nos últimos tempos. Não é que ele escrevesse caminhando, mas haveria algo no andar à toa que lhe seria fundamental para o pensamento e, lógico, também para a escrita. Eu também acho e gosto muito de andar, principalmente no centro de Porto Alegre. Apesar de que o centro nunca esteve tão depauperado e abandonado, eu gosto, e para mim não há outro lugar em Porto Alegre que me dê tanta vontade de caminhar por caminhar. Sinto falta mesmo.

A pandemia nos roubou a liberdade de caminhar por aí e nos jogou de cabeça no mundo das redes, onde também não há tédio. Não sei como acontecem as antologias da pandemia sem que os escritores possam deambular livremente e o combustível da escrita, o tédio, a sedimentar pensamentos e emoções. Mas há quem consiga e eu fico realmente admirado.

Quando era criança, eu gostava muito de inventar histórias absurdas para os meus amigos. Era uma coisa meio teatral que eu fazia e só me dava por satisfeito quando conseguia convencê-los da minha representação. Não sei em que momento da minha infância me desviei das artes cênicas, mas acho que aquele tédio absoluto das tardes interioranas (e o livre trânsito pelas ruas da Bagé dos anos 70) me compelia a inventar alguma coisa. Qualquer coisa..

Naquelas eras glaciais, a tevê mal pegava e a programação das ruas era bem mais convidativa. Além disso, só na vizinhança havia dezenas de crianças para interagir realmente. E crianças naquela época consistiam um conceito bem mais elástico do que hoje. A adolescência e seus ritos de consumo chegaram por lá mais pro fim dos 80.

Nessa época é que apareceu lá em casa um disco do Kraftwerk, que um dos meus irmãos descobriu não sei de onde. Eu simplesmente surtei com aquilo e andava como um robô pela casa, esticando braços e pernas e endurecendo joelhos, cotovelos e o pescoço que ganhara engrenagens.

Numa tarde daquelas, decidi que um grande amigo e vizinho, crédulo como ele só, ele teria que acreditar que eu realmente me transformara num robô. De cara ele não quis embarcar muito na minha narrativa, mas, pouco a pouco, fui convencendo a ele e saímos pra rua comigo caminhando ainda daquele jeito robótico. Os vizinhos adultos me olhavam com certa desconfiança e como eu não esmorecesse, o meu amigo por fim cedeu – em prantos – quando eu disse que logo à noite um OVNI vinha me buscar a adeus planeta Terra, adeus rua, adeus tudo..

É inacreditável, mas é a mais pura verdade. São todos fatos verídicos, inclusive eu ter me transformado em robô..

Brincadeiras à parte, eu até hoje não entendi como esse amigo conseguia acreditar em mim, já que uma vez por semana eu era uma coisa diferente.. Outras vezes fui vampiro, lobisomem e outras coisas improváveis e ele sempre acreditou. Religiosamente. Quando enfim parei de representar, ele também parou de acreditar em mim. Tinha a convicção de que devia ser criança ainda um tempo mais, mas o meu tempo já havia se acabado. E assim foi que nos afastamos. Quando a primeira transformação de verdade aconteceu, mas só para mim..

Uma passadinha pela MartinsUma passadinha pela Martins

Não há lugar nem mais e nem menos porto-alegrense em Porto Alegre que a Martins. Mesmo tendo atravessado a Riachuelo para o lado de lá, não é por sua peregrinação que ela perdeu algo meio indefinível e inconfundível que ela tem, como um teor só seu: um combinado de ácaro, do papel acartonado das brochuras antigas e de algumas camadas de histórias amalgamadas ao longo de quase 7 décadas de existência, guardadas entre as prateleiras lotadas de livros que, é preciso ser honesto, só se encontram mesmo na “Martins”.

Quando vim morar em Porto Alegre, década de 80, a Riachuelo ainda era conhecida como a rua dos livros. Havia, além da Martins, muitos outros sebos, livrarias e casas editoriais com sede ali, como a Vozes e a Sulina. Hoje ainda há alguns sebos, mas residuais. Bem como as bibliotecas, os sebos adoecem e não é por uma concorrência mais voraz ou por uma tecnologia superveniente, é que o passado sucumbe sem armas pelo desinteresse das pessoas cada vez mais focadas no presente e preocupadas com o futuro.

Mesmo assim, em nenhum outro sebo como a Martins eu sinto algo como uma perenidade. Não sei explicar, mas é diferente dos museus e das bibliotecas e muito, muito diferente das livrarias mais antenadas aos lançamentos. É que ali, se é possível encontrar os livros que por certo só mesmo a “Martins” editaria, também é o lugar onde se pode recuperar um título remoto de uma edição esgotada de meados do séc. XX. Mas não um livro banal, um livro incomum sobre botânica ou a história das ferrovias ou um ensaio remoto sobre um aspecto qualquer da revolução de 23, que a maioria das pessoas jamais saberá que houve.

E ali, vasculhando sem querer a história do município de Tupanciretã ou uma biografia não autorizada de um caudilho qualquer, parece claro (mas não tão claro) que há como um degrau para onde se pode descer um pouco mais numa literatura feita nem sempre por grandes nomes da história literária, mas por estudiosos municipais que, por ócio ou diletantismo, pulicaram até por conta própria textos que revelariam mais do que está posto no “cânon”, por detalhado e envolvido.

Todavia, a Martins não parece nem um pouco provinciana. Parece Porto Alegre mesmo, de um outro paradigma de cosmopolitismo não comum aqui (mais encontrável em Montevideo ou Buenos Aires). De um modo como não se permite a Porto Alegre ser, educada como foi um dia, com as pessoas mais simples do interior que a construíram. É bom ir na Martins nem que seja de passagem. A gente vê ali dentro que o tempo na verdade não acabou e nem vai acabar se nós mesmos não acabarmos com ele.

Vindo a Porto Alegre, não dá pra deixar de conhecer. Nem ponto turístico e histórico é, mas só mesmo porque nós em algum momento nos tornamos uns ingratos. E não adianta ir noutro lugar, história como na Martins não se encontra por aí.

Obs: a imagem é da fachada tal qual eu a conheci, não como é hoje.

19 de agosto de 2021.

GigantismoGigantismo

Quem não gosta de poema gigante bom sujeito não é.

Nada tenho contra os que se afeiçoam às formas breves, mas eu sou da tribo dos poemas gigantes.

No futuro, ainda irei fazer uma coletânea pessoal dos melhores poemas gigantes da literatura.

Dos poemas que não economizam a língua, mas a exploram com um túnel infinito, uma “casa louca” sem fim nem destino..

Eu gosto dos poemas que vão revirando o leitor por dentro, como se fossem extinguir de dentro do cliente o seu fôlego final, e que o derrubam não diante de si e seus poderes, mas do verbo e seus particulares, indefiníveis significados.

Poemas que não colhem da natureza nem nela interferem, mas a nutrem com a sua tormenta em que sonho e realidade se mesclam, pensamento e sentimento se confundem, verdade e beleza se complementam..

Não é que despreze os epigramáticos e os minimalistas, eu os admiro, mas a minha natureza é de falar até esgotar dentro de mim qualquer queixa que se abre sem que eu a possa dominar.

Os poemas que viram a página e se remendam e se retalham e se remendam novamente. E assim indefinidamente. E ainda viram outra página.

Em absoluto, nada contra os fragmentos, os elementos óptico-visuais ou a percepção sumária.

Em absoluto, nada contra os flagrantes nas asas das mariposas, mas, nesse mesmo momento, um vulcão derramou magma por todo um continente. Me entenda..

Enfrentar a brevidade é um desejo incontrolável de prolongar a noite e postergar o amanhecer. Não render-se ao tempo nem constranger-se ao espaço. Ao menos nas palavras — só onde parece possível —, extravasá-los. Deixá-los de lado ou para trás.

O poema sinfônico, inconsolável, que as reticências conduzem de andante a adagio e daí para outra coisa e são longos demais, como a vida.

E depois que todos já estiverem exaustos, o poema os reavivará, pois é cedo, sempre é precoce demais o tempo da sua morte..

Se poderia ter dito isso em três versos, três sílabas? Sim, mas eu levei três dias..

Para meu proveito, é claro, porque não me passa convencer a ninguém de que estou certo ou tenho razão.

No dia dos escritores, cada qual é a quintessência do seu quintal, e ninguém tem nada com isso.

Acho lindo um quintal modesto, de cultivados, mas não invejo.. Que posso fazer se o meu quintal é do tamanho de um universo?.

O milagre da leituraO milagre da leitura

Nos últimos dias voltei a vasculhar aqui livros antigos, da literatura rio-grandense, e dei com essa edição de Simões Lopes Neto. Por muito tempo tive uma com o texto puro, apenas. Lá pelas tantas, entendi que queria essa pelos paratextos. Eu queria uma que tivese esta introdução, este prefácio e este posfácio. Nem lembro quanto paguei pelo livro, mas não foi pouco. Esta edição hoje não está nem nos sebos, apenas em casas de leilão. Comprei o meu exemplar já meio esbodegado, lombada descosturada e as páginas ainda inteiras no fólio, sem corte. Eu abri para ler o que queria e guardei onde ele estava até hoje cedo, quando fui consultar um trecho das Lendas do Sul.

Eu nunca havia percebido que o livro tinha uma capa impressa tão absolutamente torta, desenquadrada mesmo. E fiquei olhando o livro, enquanto manuseava o papel pesado em que foi impresso, e as palavras passando meio indistintas no folhear.

Ler é uma coisa estranha: as palavras estão ali, mas dependem completamente de alguém que as reordene em sua mente. No livro, são traços apenas. Digo, no objeto livro. Mas o livro em si não contém a obra. A obra é um mistério – é “o” mistério. O livro é apenas um caminho de acesso ao mistério outra vez oculto no livro.

De um livro que perdeu a capa (ou se a imprimiu torta ou errada), ou mais que isso, que perdeu partes suas, páginas, capítulos inteiros, pode-se dizer que é uma obra decomposta, destruída? Que deixou de ser obra?

Este livro da imagem, por exemplo, quantas páginas precisamos ler para perceber a sua imortalidade? E por que acontece com outros livros que nós os matamos desde a primeira página, os condenemos a uma mudez definitiva? E às vezes aceitamos inclusive que outros os matem por nós?

A minha conclusão é que é ilusório acessar a verdadeira obra de um livro. O livro sempre diz muito pouco da obra, que é a escrita da mente de alguém. A leitura, eu acho, é a realização improvável desse milagre.

PortfolioPortfolio

Mas tu não sabes sobre a mãe? Quem era ela, a mulher que às vezes deixava a casa por conta e fiava-se a dormir tardes inteiras e, de noite, quando todos dormiam, ela lia sem parar os poucos livros da casa, descobrindo sob as letras coisas de outras casas e que de alguma forma também nos diziam respeito? A bem dizer, eram casas iguais a nossa, fossem maiores ou mais humildes. Casas são portfolios das mães e a mãe cuidava de tudo, mesmo quando não fosse propriamente ela. Desde que se aposentou, decidiu cuidar dela mesma. Os filhos adultos não lhe deveriam trazer dissabores, mas os filhos são na mesma medida amores e dissabores. Trazem-nos o que são e nos incomoda que se pareçam tanto a nós mesmos, depois que nos percebemos velhos, também quase iguais a nossas mães e pais.

Hoje há esse vento frio soprando na rua e o cão lhe espreita entre os silêncios o ruido da sua chegada. Pensam que os cães sabem pelo faro, mas a verdade é que sabem pelo ouvido. Os tacos no corredor, as chinelas arrastadas no assoalho indicam a ele se passará a tarde só ou em sua companhia. Esse cachorro é da mãe, é seu último filho. Ela o cuida com desinteresse e isso lhe é suficiente. Esses dias o flagrei uivando, coisa de nunca, e entendi que era para ela. Quando cantaste tu para ela pela última vez, se ela te deu todas notas que tinha? Deu tudo, aliás, menos o essencial, é claro, por seu tácito direito.

Mas a mãe nunca foi tua, deixe de bestagem. Ela foi dela e do homem que ela escolheu, nem sei se por toda a vida. O querer não é contínuo, ata-se e desata-se como trocam-se as folhas do calendário, como alternam-se dia e noite, têm-se os olhos abertos ou fechados.

Deixa ela dormir, ingrato. Não a acordes…

Mas é claro que, se a acordares, verás naquelas retinas que nunca envelheceram o mesmo amor reservado e silencioso que ela te dedicou quando tu nem imaginavas, porque isso são coisas de sempre, esse prazo que não se aquilata. Estás para ela como sua corrente sanguínea. A certeza última dos seus dias será essa mesma certeza, a de ter feito o que lhe permitiram, pois todos a solicitavam sempre, como a madona de quem até Jesus se afastou para poder ser Jesus.

Esteja tranquilo que no teu dedo verde, bom de cuidar as plantas, está aquele sangue doce de que vieste, um fardo alegre, nada além disso. E que serviu para lhe dar alegrias tolas de infância e estes são os momentos com que ela sonha, a pobre, quando viver não parece ter tanto sentido.

Deixa ela dormir… Ou aproveita e a acordes. Um instante só, o do reconhecimento, é só o que ela pede agora.

O CentroO Centro

Andei ontem no Centro. Sempre que posso, evito andar por lá. E falho sempre. Não sei que tipo de coisa maldita têm aquelas ruas e prédios acanhados, aquela gente sem viço, roupas surradas e comércio decadente que me botam uma tristeza profunda na alma. Parece que estão ali num mostruário de sobreviventes. Por lá eu não penso nunca em humanidade, em sociedade, essas abstrações. É cada qual uma pessoa só e ninguém, absolutamente ninguém, parece-se aos demais. A diversidade verdadeira é uma condição sobre a qual não se poderia abstrair, ela se esboroaria a menor palavra dita ao acaso. Palavra com erro crasso na pronúncia, palavra desviada das conjugações e sotaque indefinido. Não subentende-se nada nas pessoas que andam por ali. Consigo imaginar de que vida vêm, e o destino que terão ao final da sua linha de ônibus. Todas são um livro imenso, ainda por ser escrito. Passo na portaria de um prédio art noveau de uma demolição intacta, que o tempo roeu e desgastou, e o porteiro me examina como se eu fosse entrar ali. Teria algum negócio a saldar, uma joia a empenhar, uma dívida para cobrar ou quitar. Mas não era eu. Eu seguia andando e passei por um negócio de árabes, mulheres usando o hijab. E coreanos vendendo quinquilharias eletrônicas duvidosas. E sudaneses com tapetes estendidos, como seus ancestrais faziam do outro lado do oceano. Seguranças conversavam à frente de uma loja, contando piadas ou aventuras para a atenção dos outros. Quem por ali passasse não seria revistado. O Centro não exije revista, basta que não se destoe muito. Subo à minha consulta de última hora, de um médico que achei por acaso e atendia sorridente quando toda a cidade já fechou as portas, emigrou. O consultório ameno com a música de um saxofone antiquado, eu poderia ficar ali por vários dias. Mas ele pingou uma gota de colírio em meu olho e quando eu vinha de volta nem notei que era quase Natal. A decoração natalina no Centro é perene e seus melhores produtos amanhecem enguiçados. Há uma graça nisso e um tácito acordo de quem compra um presente desses a uma criança. É como se fosse dito “aproveite bem”. É sua única noite de festa. As demais serão iguais, idênticas às anteriores. Uma caravana a qual todos sabem ir. É o que há de ser feito: atravessar as ruas e o tempo de cada um, tempo intransferível, inescrutável sob as retinas. Numa esquina, encontro um táxi e sinto que faria bem se fugisse. A sensação é a de ter colocado o pé numa ratoeira. És o rato, pensas o quê? O que és? Um rato fugindo pelos bueiros a que avança a água subterrânea. O Centro é o disfarce perfeito de uma cidade, e também sua maior nudez. É bom estar aqui. É mau. As sombras dos prédios não permitem sair. A secretária do médico perdeu a casa na enchente e até hoje dorme no consultório, improvisada. Este homem amistoso deveria ser o prefeito, ela conta à substituta do plantão. Neste ano vai viajar ao interior, passar o réveillon com a família. A outra mulher sorri e nada diz. Essa é a verdadeira e única consciência: ouvir. Ouvir o silêncio da cidade, o que ele diz. E também o que ele não diz.

A mais cruel das artesA mais cruel das artes

A música é a mais cruel das artes. Não se pode enganar a música porque ela te desmente em dois compassos. Não adianta..

Na verdade, nas artes visuais e literárias se dá o mesmo. Apenas que a sensibilidade receptiva é menos exigente. Na música, a inabilidade é gritante e mesmo uma pessoa não instruída musicalmente percebe as falhas de execução e etc. Não existe, simplesmente, o estilo “mal tocado”.

A música nesse sentido é cruel, mas, por outro lado, a destreza técnica permite que a sensibilidade se acentue. E dessa forma composições ganham roupagens, interpretações ganham nuances, melhorias. Nesse aspecto, a literatura é mais cruel. O que está feito, está feito. Ninguém consertará uma obra escrita. Ninguém a reinterpretará e realçará o que ali não existe. É impossível.

Mas a música, se é cruel à primeira audição, é permissiva com que a melhorem.

É isso o que fazem muitos intérpretes e arranjadores. Mas não é por acaso, são músicos que estudam e praticam desde a tenra infância e, se têm algum dom, o aperfeiçoam com trabalho, e não pouco.

Dos artistas, respeito mais os músicos, ainda mais porque sua produção é desvanecente, se evapora no ar, não fica nada.

Dos instrumentos musicais, o violão é o mais cruel. Há que montar o som. O instrumento não está te esperando, está desafiando. A lida com o violão é uma tauromaquia e a vida do guitarrista é ser derrubado e atravessado – eis a crueldade – pelo que ele mesmo consegue extrair do instrumento.

Tenho muitos violonistas que acompanho na internet, do mundo afora. Concertistas, intérpretes impecáveis. Gente que estuda o instrumento desde a tenra idade: 6, 7 anos.

Edith Pageaud é um dessas instrumentistas. Toca violão desde os 6 anos e com 7 já havia sido premiada em recitais nacionais. Dom? Eu acredito que sim, mas dom trabalhado, burilado. O dom pelo dom não necessariamente gera boa arte. É preciso algo mais, enfim, é óbvio.

Nessa interpretação de Piazzolla, Edith altera a execução com timbres e outras técnicas que ela executa à perfeição. No entanto, pelo menos eu ouço assim, o equilíbrio que ela obtém é total, o efeito estético é homogêneo, tempos e contratempos estão tão internalizados que não há forma de se desarmonizarem.

Então, o que acontece é que a música ganha, aumenta. Podemos escutá-la com uma particularidade.

Nas outras artes – eu pouco sei de artes visuais – me parece que isso é impossível. Na literatura, todos os erros e fiascos são em bronze, como dizia o Mario Quintana.

Não sei.

A música é a mais cruel das artes, mas a literatura é mais cruel que a música de muitas mais maneiras.

Me dá meu chapéuMe dá meu chapéu

A Cidade Baixa não tem desses cafés do Bom Fim, onde os velhos sentam para tomar um pingado e aproveitar o sol do outono, como uns gatos desalojados da vida doméstica. O comércio da Cidade Baixa é essencialmente etílico, salvo uns bistrozinhos de preços, acho eu, completamente desproporcionais. São poucos desses café de calçada, e os que se mantém em sua maioria são envidraçados. A razão disso é óbvia e não é meu assunto aqui.

O bom desses cafés nem é o café, mas essa companhia de cãs e calvas. Tem quem fuja com medo de ser confundido, mas se é uma vaidade (ou tolice) que nunca tive na juventude, não vai ser agora. É que se a idade traz o desconforto da proximidade cada vez mais breve para com a visitante fatal, por contrapartida traz uma espécie de tranquilidade. Tranquilidade que é um pouco cansaço também, mas sobretudo falta de pressa. De pressa e de surpresa.

É que é muito diferente conversar com alguém que só viu, por exemplo, os governantes deste milênio mal parido e com quem tem na memória os ecos de uma Segunda Guerra Mundial. Há uma forma diferente de sopesar as coisas, é isso que digo, que é algo tranquilizante. Para mim, é. Porque hoje vivemos a era do escândalo e da obscenidade e essas pessoas conhecem espécie de bem e de mal muito menos óbvios que, obviamente, não se extinguiram.

Eu ainda não fiz isso, mas um dia vou simplesmente pedir o meu pingado e tomar meu assento, não mais vou sentar à distância. Se me estranharem, digo simplesmente “ué, me esqueceram?”, e como ninguém vai querer acusar um lapso de memória, vão fazer de conta que conhecem, claro, e me recomendar que eu tire a cabeça do sol porque esqueci do chapéu. Eu, que não uso chapéu..

37,2 le matin37,2 le matin

Um dia, disse a minha filha que no passado eu havia sido um tenorista. Ela perguntou: “Terrorista??” Não, menina, tenorista vem de tenor, de sax tenor. No passado, fui um saxofonista (ou o projeto de um), disse e ela entendeu, claro, porque já havia me escutado tocando nas raras vezes que tenho tirado o tenor do estojo nestes últimos tempos.

Ontem, num post que publiquei no Facebook e comentava dos meus primeiros anos em Porto Alegre, uma amiga desde antes de Porto Alegre lembrou que naquele mesmo ano, nos pátios e corredores do Julinho (o colégio), eu às vezes levava o sax para tocar. Sempre que eu fiz isso foi provocado, nunca foi uma exibição gratuita, embora fosse este um direito a me assistir. Não, não era o caso. Eu não queria “causar” no colégio, mas no Julinho, em 1988, tinha muita gente que tocava um instrumento. Muitos iniciantes que depois estudaram a valer, profissionalizaram-se, etc. Não foi o meu caso. Isso não aconteceu comigo, mas de modo algum eu fui vencido pelo sax. Eu cheguei mesmo a dominar o instrumento, a sentir que podia fazer com ele o que eu bem queria. Aliás, é uma sensação indescritível..

Mas o post me fez lembrar de coisas que aconteceram naquele ano longínquo. Bateu uma nostalgia aqui? Não, talvez um pouquinho só, mas as histórias desse tempo são muito importantes na minha vida, apesar de eu quase nunca tratar dessas memórias. Pelo menos nunca até este momento.

Em 1988, o Julinho (apelido carinhoso do Colégio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre) era uma espécie de laboratório populacional. Gente de todo o tipo e partes da cidade vinham estudar ali, numa escola ainda muito boa e que tinha excelentes professores e uma diversidade invejável de tipos adolescentes. Além das pessoas, o Julinho era uma escola tão politizada ainda que chegava a haver facções sectárias disputando os espaços representativos do colégio: o grêmio estudantil e o centro acadêmico fundado por Leonel Brizola na década de 40 (eu mesmo vi a ata de fundação assinada por ele). Mas, enfim, o Julinho tem muitas histórias e por ali passaram pessoas que começaram coisas decisivas no estado do RS, como o movimento tradicionalista e o movimento ecológico. Mas não foi bem isso que eu encontrei e nem esse é o meu foco aqui.

Quando cheguei ali, eu estava interessado era naquela fauna e fiz amigos entre todos os guetos e subguetos do colégio: do time de basquete aos politizados, dos punks e pré-góticos aos últimos espécimes do bicho-grilismo, do povo do Partenon aos moradores do Bom Fim. Era muito bom… Tinha dias que ia para o colégio de manhã e voltava só pela noite. Nesse meio tempo foi que conheci o pessoal da música. Pessoal ainda hippie no modo de viver, isso em 1988. Gente que fazia artesanato para vender na Praça da Alfândega e muitos deles tocavam violão, guitarra, etc. Foi este o primeiro público do meu velho tenor. Eles queriam porque queriam me ver tocar e, mesmo sendo um iniciante, ok para mim. Desde ali comecei a levar o tenor para o colégio, sem atentar na atração em que isso se transformou..

Quem me alertou quanto a isso foi um bom amigo daqueles dias, chamado Zé, como o da marchinha do Nelson Coelho de Castro. O Zé era uma figura muito especial. Tinha sido presidente do grêmio, depois se afastou, mas ele andava sempre por ali porque o colégio era um ponto de encontro. Igual a mim, o Zé gostava de poesia e escrevia umas coisas, desenhava muito bem, tocava um violão menor que o mediano, mas era uma figura entusiasmada e que queria participar de tudo. Figuras que hoje não encontro mais na vida. Se encontro, nas redes, também quase nunca posso ter certeza.

Eu tentei ensinar o Zé a tocar o tenor. Dizia para ele que um cara negro tinha muito mais a ver com o instrumento do que eu, mas não deu muito certo. O tenor é assim. Requer um adestramento mútuo. O som começa na boca e, antes da boca, na alma. Não dá para “arranhar” o tenor e, até que o som saia “adestrado”, vai um longo tempo de incomodação aos demais. O Zé me devolvia o instrumento e dizia que eu tocasse que as gurias estavam vindo. Na prática, eu era um grande chamariz para o Zé, o pilantra. Só que atraí também os enciumados cabeludos das guitarras.. Fazer o quê? Lamento, quando o senhor tenor chega, não tem para ninguém mais.

Um destes “rivais”, hoje um excelente músico e professor, gostava muito de me provocar. Toca isso, toca aquilo, ele dizia. Eu não caía na dele, tocava o que eu queria: especialmente o Love Theme de Blade Runner e a trilha de 37,2 Le Matin, ou simplesmente Betty Blue..

O Zé delirava porque realmente o pessoal chegava para conferir. Ninguém que toque um tenor por aí passa despercebido e eu, nesse época, “me encarnei” no negócio. Tocava em qualquer lugar: na sacada de casa, virado para dentro do armário, no arco da Redenção, no Jardim Botânico.. Onde me tolerassem estava eu tocando a blue note indefectível de Betty Blue e praticando mais coisas que eu mesmo inventava do que o professor me passava. É incomparável, mas não é errado dizer que eu me tornei uma espécie de Sonny Rollins porto-alegrense, praticando incansavelmente da mesma forma que o grande Sonny fazia na ponte de Manhattan, claro, com as devidas proporções..

Enquanto o Zé andava às voltas com as gurias, eu, nessa época, só tinha olhos para uma. Então não é justo que me acusem que eu usava o tenor como um instrumento de sedução. Eu queria tocar mesmo e, com meu esforço solitário e heroico, consegui reunir coragem para desafiar o Jimmy Page do Julinho, que me olhava sempre de cima com um sorrisinho irônico. Numa jam bucólica realizada numa noite daquelas, alguém ficou desmoralizado e não fui eu.. hehe Saí de lá com a minha namorada e com os amigos enquanto o pobre diabo ficou tentando remendar as cordas do seu violão e voltar sozinho para casa igual a um humilhado bluesman. Meses mais tarde, tocamos juntos num bar medonho que haviam inaugurado em Ipanema e fizemos as pazes, mantido o devido respeito.

Não é nostalgia, certo? É, sim.. Eu aproveitei a minha adolescência o quanto pude, mas ela não durou muito mais. Mais alguns anos de idas e vindas e o mundo deu meia volta, tão logo o muro de Berlim veio abaixo. Os anos 90, yuppies e certinhos, extinguiram aqueles tipos de Porto Alegre. De repente, instaurou-se a monotonia consumista que ainda vigora. Embora nesses dias calorentos eu ouvi alguém praticando alguma coisa interessante aqui perto. Se eu cruzo com ele ou ela não me custa pegar do estojo e lustrar um pouquinho o tenor para que ele não faça muito feio.

Tempus fugitTempus fugit

Uma vez, não sei que vez, não sei há quanto tempo, li um crítico comentando a respeito de determinado poeta, que aquele seria alguém apenas obcecado em escrever sobre o tempo. Sobre a passagem do tempo e o que o isso causa ou deixa de causar em relação às pessoas e ao mundo.

Para este crítico, o tempo seria apenas uma entidade dimensional, uma categoria física, um elemento óbvio e inexorável, nada além disso. Ainda, a constatação de sua passagem seria motivo poético frágil e superficial, e amostra de pouco conteúdo dada a sua repetição episódica na produção escrita do outro.

Para aquele poeta, de outra forma, o tempo era a própria vida acontecendo, depositando-se na realidade, materializando-se nas coisas todas, em todas as paisagens, nas impressões sensíveis do ser humano sobre tudo, inclusive sobre si mesmo e em sua capacidade de perceber ao mundo e as interações que nele ocorrem.

Para o crítico, o tempo era apenas um intervalo cronológico sobre o qual ele analisava fenômenos literários como se fossem quantidades e não qualidades. Aqui tantas rimas, ali aquele outro tanto de metáforas, aqui as mesmas, ali outras, e assim por diante. Sua necessidade de marcação histórica desejaria afixar na produção do outro mais da sua vaga biografia que da própria poesia.

Curioso (mas nem tanto): ambos procurando sobreviver em seus livros. Um a notar que o tempo é determinante da vida, senão sua própria razão de ser. E o outro a dizer que aquilo nenhuma diferença fazia. As razões dos acontecimentos seriam outras e mais complexas que simplesmente o tempo.

Mas o poeta, em sua lírica fragmentada, apenas flagrava descontinuidades despencadas no mundo, avulsas e incomunicáveis.

Porém, o crítico advogava que não se tratava e nem interessaria tanto assim à poesia nem tempo nem o sentimento que ele provoca, mas especialmente motivos externos, concretos, e a eficácia da palavra.

Em um, o tempo era mais efetivo em transformar o homem do que a palavra e se ele não o exibisse em contraste à vida, era o mesmo que não haver vida.

Em outro, apenas uma evidência entre tantas e como tal deveria ser tratada. Nada de mais.

Cada um a seu modo, ambos viveram da mesma matéria, mas um por refutá-la enquanto no outro não havia qualquer tentativa de convencimento. Apenas lhe ocorria registrar algo dentro dos calendários vazios. O acontecido e, talvez, o não acontecido.

Ambos sentiam-se certos no que diziam e pensavam (pelo menos para si mesmos), mesmo que fossem razões inconciliáveis.

Para a felicidade de ambos (e também de seus leitores), ao que se sabe nunca se deu um debate aberto. Talvez lutassem a morrer com a forma patética das disputas. A luta com as palavras é a luta mais vã, disse Drummond. A luta “pelas” palavras também.

Seja o que houve na interpretação de cada qual, o tempo passou.

Os argumentos do critico enrijeceram-se, como monumentos implacáveis.

Já os poemas entraram em ciclo, como acontece aos poetas, que às vezes são lembrados e, no mais do tempo, permanecem esquecidos.

Às vezes, um ou outro de seus versos ainda prega um sorriso, ou causa espanto, ou flagra uma comoção casual em um novo ou velho leitor. Mas isso não se apura, nem o efeito disso.

O monumento do crítico, por outro lado, já não vive exceto na sombra que procurou fazer sobre aquele, como a luz da manhã se alonga pelo chão e se dissolve indistinguível ao anoitecer.

Lá dentro dos seus achados e parágrafos rigorosos, por mais sóbrios e acertados que sejam, os argumentos continuam sempre os mesmos, sisudos, compenetrados, razoáveis.

O tempo, seja ele o que for, tem efeito diverso, como se vê, até mesmo na palavra escrita, mas isso nunca é dado a ninguém prever como irá ou não acontecer.

A contraposição do que para um requer validade e, para o outro, é mero flerte com a transitoriedade.

Servil e generoso com uns é o tempo. Com outros, rigoroso e cruel.

Vida ele, de fato, não é, mas, se não fosse ele, haveria exatamente o que para ser dito? Nem poesia e nem considerações quanto a ela.

Lembro de Hölderlin e seu Der Zeitgeist: Igual a um menino, olhei para o chão / procurando refúgio nas cavernas e, fraco / que sou, busco um lugar no qual você, / destruidor de todas as coisas, não possa estar.

E Shakespeare: Who will believe my verse in time to come, / If it were fill’d with your most high deserts?

E Drummond: Tempo em que não se diz mais: meu amor. / Porque o amor resultou inútil. / E os olhos não choram. / E as mãos tecem apenas o rude trabalho. / E o coração está seco.

E Quintana: Quando se vê, já são seis horas! / Quando se vê, já é sexta-feira! … / Quando se vê perdemos o amor da nossa vida. / Quando se vê passaram 50 anos!

E Pessoa: Aproveitar o tempo! / Mas o que é o tempo, que eu o aproveite?

E Virgilio: Mas ele foge, entretanto, irreversivelmente o tempo foge.

E assim através dos tempos.

E passei tanto tempo lendo poesia, que nem lembro mais do que o crítico dizia..