Dia: 5 de maio de 2017

A democratização e o impeachment por Fernando GabeiraA democratização e o impeachment por Fernando Gabeira

O lado bom de resenhar um autor muito conhecido é que qualquer apresentação da pessoa é desnecessária e pode-se passar diretamente à obra em questão. Este é justamente o caso de Fernando Gabeira e seu novo Democracia tropical. O livro, que reúne a recente crônica política publicada por Gabeira na imprensa brasileira e o seu caderno de notas, é o décimo segundo do jornalista, ativista e ex-deputado federal.

Tomando como pontos de inflexão a redemocratização a partir da anistia, em 1979, e o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2016, Gabeira unifica a reflexão de quem viveu a luta armada e o combate à ditadura militar e o desfecho político do processo de consolidação da alternativa de esquerda no poder. Uma vantagem, se é que se pode chamá-la assim, de Democracia tropical em relação aos recentes lançamentos editoriais sobre o impedimento de Dilma, é o fato de que suas análises estão calcadas no trabalho jornalístico e na observação dos fatos no calor dos acontecimentos. Quer dizer, não se trata de um trabalho que visa justificar quaisquer condutas políticas, mas tão simplesmente esmiuçá-las como quem examina o tempo presente e seus atores, tão bem conhecidos dele mesmo pelo tempo em que esteve envolvido na política partidária e por ser um cronista das desventuras do poder no Brasil desde, pelo menos, meio século.

O livro poderia ser tranquilamente dado como pessimista, e isso não porque ele faça previsões tenebrosas a respeito do futuro político brasileiro, mas por ter podido confirmar as piores expectativas que vêm sendo reveladas nos últimos anos. Para o autor, a dinâmica democrática foi colocada em risco justamente porque o projeto de esquerda tornou-se nominal e apartou a política do social, configurando-se por moldar-se rapidamente aos principais núcleos de corrupção existentes. A corrupção, segundo Gabeira, é tanto o elemento de aglutinação de uma política deteriorada quanto o fenômeno pelo qual a sociedade pode depurar-se, caso aceite enfrentá-la sem reservas e exceções.

Em linhas gerais, isto é o que mais importa dizer a respeito do livro, mas ainda há mais, porque o seu texto, diferentemente da historiografia acadêmica ou da ciência política, está mais amparado na experiência do que na coleta de impressões ou na organização de fatos isolados. Além disso, Gabeira empresta à análise dos fenômenos políticos recentes a profundidade que falta aos trabalhos, digamos, hagiográficos que têm por efeito enaltecer o heroísmo da classe política e de seus exemplares. Pelo contrário, a história que Gabeira constrói não é narrada, mas flagrada nos sucessivos tropeços e muitos passos atrás que os projetos políticos costumam dar no Brasil, sejam protagonizados pelo PT, PMDB ou PSDB, partidos que dominaram o cenário nacional nas últimas décadas e cujas figuras máximas reuniram-se melancolicamente, em tempos recentes, na posição de investigados da operação Lava Jato.

Melancolia e não heroísmo, portanto, é o substrato das crônicas de Gabeira. Poderia ser enquadrado até como peça trágica, pois afinal não se trata de uma obra de ficção. A tragédia do real, apesar de tudo o que se diga a seu respeito, é a de sempre fazer-se sentir na vida mais imediata das pessoas e também na credibilidade das instituições democráticas. Contra o sentimento generalizado de falência e de embretamento, Gabeira consegue ser por ele mesmo alentador, já que não está nem nunca esteve conformado pela “governabilidade” e, ainda que não seja nem pleiteie ser um entreposto da unanimidade, é dos raros jornalistas que procuram manter uma visão límpida da história política e dos acontecimentos recentes. Para quem pensa ainda nos termos de “nós contra eles” ou outras dicotomias igualmente simplórias, talvez seja bastante difícil ou forçoso localizar nele qualquer traço de identificação ideológica. Isso importa pouco, porque de quem foi compelido a limpar de e em si mesmo os vestígios e ranços a que tantos se apegam como se conteúdo fosse, apenas se deveria exigir clareza e tranquilidade, e isso é o que não falta nas análises e registros do seu livro.

O meu amigo LeviO meu amigo Levi

Por essas tristes fatalidades da vida, precisei há cerca de um ano trocar de chip no meu aparelho celular. O antigo, infectado por um vírus, depois de promover uma onda monumental de spam em meu nome, de um dia para o outro bateu as botas e nunca mais funcionou: o finado e bom número. O novo, radiante e aparentemente intacto, trouxe com ele o nome da pessoa mais indesejável que há no planeta Terra, quiçá no sistema solar inteiro, galáxia, universo e mundos paralelos: o Levi. Guardem esse nome: L – E – V – I.

Quem me conhece sabe muito bem que eu não sou nem nunca fui o Levi. Mas o maldito sujeito, além de um dia ter possuído o número que a operadora de telefonia me legou, era o maior calavera da paróquia. Um devedor contumaz. Fichado na SERASA e em todos os sistemas de fichamento de crédito sabidos no mundo inteiro. Devedor do Bradesco, do Itaú, do Banco do Brasil, do Unibanco, da Caixa Federal, do HSBC, do Santander, do Citibank e outros mais. Acho que até do Banco Safra e outras iniciativas igualmente calaveras ele era cliente. Cliente e inadimplente, diga-se de passagem.

Evidente que, por ter herdado seu número, herdei também as cobranças desta nobre pessoa, o Levi.

Teve dias que temi pela vida do Levi, é justo que o diga. Não porque eu desejasse matá-lo (isso nunca passou pela minha cabeça), mas imaginei que se ele devia para tantas pessoas jurídicas, tranquilamente ele deveria também para pessoas físicas… Daí a ser um alvo de um esquadrão de matadores de aluguel seria uma passo relativamente simples, basta você ser um pouco chato e isso, bem… Mas não! Nunca desejei nada de ruim ao Levi. Eu queria apenas que me desassociassem do seu nome e do seu CPF e então estaríamos de boas pela vida. Não sou de guardar rancor, como se vê. Basta que me deixem em paz e estamos bem!

Por um tempo, cessaram as incontáveis ligações em busca do Levi e mensagens SMS e até os convites para grupos de credores no WhatsApp. Na minha inocência, julguei que estava finalmente livre da memória dessa criatura subitamente íntima. Vã ilusão… Um dia recomeçaram, primeiro sutil e depois enfaticamente, as cobranças e agora unificadas numa única empresa especializada. Especializadíssima, soube mais tarde. O alívio, transitório como todos os alívios, acabou por revelar-se o maior dos tormentos. A empresa desejava realmente caçar, incomodar, infernizar a vida do Levi e, para ela, se o número estivesse no meu nome ou no do Papa Francisco, eles não se comoveriam.

Sistemáticos, eles passaram a ligar cerca de 7 vezes por turno do dia, através de números os mais diversos, de prefixos de localidades tão estranhas quanto o município de Anta Gorda, no RS, como o de Jijoca de Jericoacoara, no CE. Eu, por pensar que poderia ser uma herança de um remoto e desconhecido parente milionário, por um tempo fui atendendo as ligações, confiando naquela hipótese do raio cair bem na minha cabeça. Logo vi que era apenas mais da herança e do legado do Levi e suas operações bancárias.

O suprassumo aconteceu num dia em que, estando na escola para buscar meu filho junto a outros pais e familiares, a ligação foi ineditamente convidativa. Uma gravação convidava-me a dizer SIM ou NÃO após ouvir o bip e tudo estaria para sempre resolvido. Na hora, subitamente emocionado, disse o que estava entalado na minha garganta por meses a fio. Disse um comprido NÃO. Representado graficamente, saiu mais ou menos assim: NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO! E, por um momento absolutamente descontrol, continuei: NÃO, EU NÃO SOU O LEVI, NÃO SOU, NUNCA FUI, NÃO CONHEÇO, ODEIO, QUERO MATAR!!

Houve olhares. Algum estranhamento também. Mas logo expliquei expressamente a minha situação, no afã de ser compreendido, e não foi com pouca surpresa que meus interlocutores revelaram que tinham, cada qual, o seu equivalente ao Levi. Nem digo que fiquei aliviado, mas serviu sim de consolo saber que, afinal de contas, não sou apenas eu o condenado à chateação telefônica. Somos todos ou, pelo menos, um bom número…

De resto, serviu-me o aprendizado com o meu amigo Levi a desconsiderar solenemente ligações que não sejam do meu mais restrito círculo de conhecidos. Eu até continuo oferecendo de bom grado meu número. E agora sem nenhum cuidado, para qualquer farmácia e padaria que quiser me cadastrar sabe-se lá com que objetivos, eu informo. Não vou atender mesmo… Então, já sabem, se quiserem falar comigo, não me liguem. Depois do Levi, todos são potenciais Levis. E, sinceramente, um já me foi o bastante pela vida inteira.