Dia: 28 de agosto de 2026

RimasRimas

O Lucio de 18 anos não temia rimar. Na verdade, nunca temeu. Mas também nunca se obrigou. Acho que o mais certo é que sempre cedeu — sempre cedi — parando já com essa discursividade a Edson Arantes do Nascimento.

Mas eu sei qual é a origem em mim de às vezes recorrer à rima. Sei e não renego. Minhas primeiras leituras de poesia foram parnasianos e simbolistas. Minha mãe havia comprado de vendedor ambulante uma antologia e, no tomo da poesia, parnasianos e simbolistas ocupavam grande espaço.

Eu lia pela compulsão da leitura (a mesma que mobiliza as pessoas a lerem stories), não era uma escolha, pois não tinha critério algum. Alberto de Oliveira, Bilac e Raimundo Correa estão de certa forma no meu subconsciente. Não tenho paciência hoje, mas não os renego. Mas minha predileção sempre foi Casimiro de Abreu.

Mais romântico do que parnasiano, morreu aos 20 anos, de tuberculose. Sua poesia, jovial e inocente, tem na falta de experiência humana sua maior qualidade. Acho que isso me fascinava nele: a impudicícia dos versos.

Ali pelos 8 anos de idade, movido pela paixão pela professora, copiei os versos de “A Valsa” para ela, pensando em sei lá no quê. Mas desde ali entendi que a poesia é um instrumento mais a serviço da sedução que da persuasão. E que, nisso, os recursos sonoros, lascivos e sibilantes da língua, são como armas do poeta no seu afã de impressionar a quem quer que seja.

Como eu dizia, aos 18 não temia rimar. Mas já minha rima nasceu dessonorizada, atonal e assimétrica. Vem ainda, às vezes vem, insinuante, desconcatenada do metro e da estrofização. Moderna no sentido que Antonio Candido a definiu no “O estudo analítico do poema”: como vassala do ritmo.

Talvez eu pertença a uma das últimas gerações de estudantes que aprendeu a escansão de versos ainda no primário. Mérito das professoras por quem era impossível não se apaixonar.. Mas aprendi e nunca usei. Não é que me orgulhe disso, mas nunca senti a necessidade de aplicar em mim mesmo. De certo modo, aquilo me parecia ser uma dissecação do cadáver poético e eu preferia sentir a poesia como coisa viva e pulsante.

Essa mesma sensação eu experimento quando encontro, recentemente, a profusão de poesia contemporânea metrificada em torno do haiku. Muito raramente não sinto como se estivesse diante de pequenos Frankensteins, meticulosamente montados. Mas esse é outro assunto.

Aqui, me interessa a rima. E Casimiro de Abreu, que, antes dos 20 anos, já praticava versos de 3 sílabas, até duas. Casimiro era um mestre que depois só fui encontrar em Cruz e Sousa e seus sonetos de tormento, sonoros e vaporosos como a noite.

Nunca consegui escrever um maldito soneto na minha vida (talvez um só, de versos brancos). Também não tenho orgulho disso. A questão do soneto me parece como a do haiku, embora a extensão dos versos disfarce isso. Eu não consigo. Um certo senhor tuberculoso, pernambucano, presente lá no fim daquela antologia, cedo na minha vida me perturbou definitivamente, escrevendo como se falasse. Como não ouvir com toda a atenção aquela voz de irmão mais velho?

Depois disso? Sei lá. Já vai ficando difícil se impressionar com qualquer coisa. Tudo parece menos que a vida inteira que podia ter sido e que não foi. No entanto, é uma atenção que encarcera, a de Bandeira. É como se ele dissesse: tem que ser como isso daqui.. Minha poesia com rimas é ruim, eu sei. Mas nunca lutei contra ela. Deixo ela ali, simplesmente. Às vezes, ela me ri, sem muita graça, complacente..