Crônicas Era só o que faltava

Era só o que faltava

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Durante todo o ano de 2016 tive uma companhia que há anos eu vigiava a uma distância respeitosa, mas ainda não tinha para mim: a poesia completa do Mario Quintana. Ele, um gaúcho sem o menor gauchismo, pessoa com um senso de observação do humano atiladíssimo, foi dos primeiros poetas cosmopolitas e verdadeiramente universais destes pagos sulinos, senão o primeiro (ou o único).

Tinha ele uma simplicidade que chegava a ser hermética. E um anti hermetismo total capaz de extrair poesia (para muitos rasa e superficial) do seu contato com a própria superfície das coisas, das pessoas, do tempo, dos lugares e às vezes parece que de quase tudo sobre o que pensava ou colocava os olhos. A poesia nele não era fácil, difícil nele era o que não convertesse em poesia.

Poeta da ironia e da sutileza, Quintana não precisava adentrar na mente alheia para entendê-la. Por outro lado, parecia ter um sentido de revelação que dispensava qualquer caráter invasivo ou colonizador. Não a revelação mágica ou divina, que muitas vezes impõe ritos e hiper interpretação onde muitas vezes nem os há, mas aquela de desvendar os pequenos mistérios da vida e estes para ele eram justamente os maiores: o de notar o traço humano que se oculta na trivialidade cotidiana e a irreverência em apontar que há poesia nisso, e muita.

Hoje, por tudo que leio dos contemporâneos, penso que o Quintana seria um transgressor incompreendido. Mas talvez outros poetas e escritores geniais do passado também o fossem (ou continuassem a ser).

Junto a ele, bem ao lado da sua poesia completa, coloquei a nova edição completa de Adélia Prado e também a poesia de Wislawa Szymborska traduzida e publicada neste ano pela Companhia das Letras, num lindo trabalho de tradução. Os três ali, um pouco mais afastados de outros até mais festejados, mas que me importa? Foram estes os que me acompanharam durante o ano, como se os tivesse colocado a conversar entre si. Até procurei me intrometer na conversa deles, às vezes, em objeções idiotas, só para criar caso. Mas eles insistiram em permanecer naquela perenidade dos já eternizados e, por isso mesmo, não precisaram se ocupar das minhas tolices e advertências, Quintana principalmente. Era só mesmo o que faltava.

1 thought on “Era só o que faltava”

  1. Meu amigo, é possível que alguns não queiram admitir que a poesia faz parte da própria existência humana. Toda ela, nas suas distintas matizes é uma exploração nem sempre relutante sobre experiências que somos, nem sempre possíveis de alegria, mas absolutamente humanas.
    Quintana tinha um talento misterioso, pois quando parecia tornar o mundano elevado, escondia um horizonte de incríveis reflexões. Tal qual um cavalo de Tróia, a poesia deste irresoluto poeta urbano exsurgia como palavras dentro de palavras dentro de palavras em emoções.
    O homem precisa de todo e qualquer auxílio para reafirmar o sentimento na mesma medida em que tem uma incrível vocação para aceitar conviver com o seu sobrestamento. A poesia liberta na medida em que nos esquecemos e, assim, no esquecimento somos novamente poesia. Abraços!

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Então é isso a velhice. Nada de sabedoria, apenas ideias abstrusas do que é feito o mundo e quase nada a respeito do que faz os outros.

Em seu desdém vertical, as árvores do caminho de casa sabem do que estamos dizendo porque são iguais a nós. Para elas, é indiferente a sonoridade das aves que a ocupam. Ou mesmo a plumagem. E a quantidade. Tudo se resume no quanto elas suportam — e parecem suportar muito.

Tu já não suportas tanto…

E mesmo que durem centenas de anos e nós apenas um átimo, as árvores velhas têm uma casca que nos lembra a pele que nos encasaca. E nomes que nos emprestam e caem tão bem: Oliveira, Pereira, Nogueira… Só nunca conheci ninguém de sobrenome Jacarandá. Seria insuperável.

De dentro de um armário, tomas uma peça de roupa que te caía bem, mas agora é provável que te deixe apenas ridículo. É o que pareces pensar enquanto os dedos examinam indecisos a frágil trama do tecido.

Havia ali também um chapéu que te protegeria a calva do sereno da madrugada, mas não está mais, pelo jeito. Tu também já não vais à madrugada.

Pela casa, as molduras das lembranças, perenizadas, parecem te observar. A ti e ao teu próximo esquete. Não caberias em muitas mais, mas, nas poucas ainda possíveis, gostarias de aparecer. E mesmo que naquele momento estejas pensando noutra coisa qualquer, são essas as coisas que fazem sentido.

Mas não é apenas no mundo mesquinho e doméstico que pensas. Este é um engano que cometem os que pensam em ti sem nada saber do que se passa em tua mente. Pensas em muito, ao inverso dos poucos que pensam em ti. Os arquipélagos que manterão, é óbvio, as ilhas inóspitas e selvagens a salvo dos teus pés. A astronomia que não te permite entender se há mesmo vida superveniente a esta, o que talvez redimisse nossa tamanha precariedade.

Já as rotinas menores, que se fazem dentro de casa, estas consumirão a maior parte do teu tempo e energia. E quando estiveres descansado, e a poltrona cessado seus rangidos, poderás pensar melhor nessas coisas distantes, e nos fatos do jornal dobrado e intacto ali perto, no que deverias fazer pela tarde se não fosse melhor, muito melhor, entregar-se à preguiça que aos devaneios do mundo real.

Se a chuva começa é sempre melhor. É o subterfúgio ideal. Não irás molhar os pés nem as costas. Deves cuidar dessa tosse.

Sentado, lembras que gostavas de ouvir uma gravação de Albeniz, e aquele acento fatal. E filmes de máfia. E crimes de amor. Traições e negociatas. E revanches indefectíveis. Mas a chuva… De onde ela tem esse poder encantatório de nos dar certeza de que fazendo nada se obtém mais?

Súbito, levantas. Essa mania de falar a ti como se fosse outro parece erguer outra pessoa ante teus olhos, mas são teus músculos e ossos que notam o esforço. Então és tu mesmo.

Vais à janela. Em redor, a cidade e suas milhares de rotinas em trânsito. Já estiveste ali como os demais, mas não tens saudade.

Num café próximo, ainda notável pela fachada, neste instante parece estar entrando alguém familiar no modo de andar e subir os degraus e de acenar aos funcionários e tomar da mesa que mais apreciavas para olhar o movimento da rua. Parece que te enxerga, a criatura incômoda, mas deve ser apenas impressão.

A velhice, então, é isso. É poderes fazer e preferir não fazê-lo. É gastar tua atenção no essencial, ainda que te escape o que possa ser isso a essa altura da vida. Apesar de tudo, é bom ter a certeza de que ganhas mais em saber do que não precisas no lugar do que ainda poderias aspirar. Se isso é ruim ou bom, tu não sabes. Nunca soubeste. Teu juízo, sempre particular — e ao mesmo tempo o mais inclemente.

Chamam-te à porta, na campainha. Pelo olho mágico, não vês ninguém. Ainda brincam disso as crianças? Que estranho… Prepara-te para sair à rua para investigar e a poltrona, convidativa, parece te chamar em contrário. Dorme mais um pouco… Vais aonde mesmo? Não. Deixa. Contanto que vás, não é preciso explicar. Eu também não preciso mais entender.

Má conselheiraMá conselheira

Má conselheira é a vigília, mas a noite tem pensamentos muito mais alongados que o dia, encurtados das pressas. Pensamentos que vão mais longe, buscam outros tempos, recolhem palavras dos outros e botam na nossa mente como se fossem nossas.

Nessa noite, não sei que horas, não fui olhar, despertei com os olhos buscando entender pela claridadezinha das janelas se devia ou não pular da cama. Se acordo assim e passou das cinco e meia eu não hesito, levanto para o mate da madrugada, o melhor de todos, cevado num silêncio sem um pio, e fico esperando o momento que o céu se torna uma abóbada alaranjada para o parto do sol. Mas era cedo até para o sol e permaneci deitado, tão quieto quanto possível, e lembrei-me de cenas que vi mundo afora, no oriente, Europa, Itália de meus bisavós maternos.. E do nada, desse vazio, me veio uma palavra que não era minha, mas do meu pai e das pessoas antigas, do campo. Uma palavra terrível, o pior dos agouros do homem campeiro: o tendal.

Vivi uma vez um tendal sem saber que o viveria. Um tendal é uma simples corda esticada onde pendurar o couro dos animais mortos. No entanto, para que se o use, é preciso antes um longo trabalho, o trabalho silente e às vezes atropelado das tragédias.

Não consigo imaginar o que estejam passando os médicos, enfermeiros e trabalhadores italianos nem o que talvez logo passem os brasileiros. Não consigo porque é muito difícil trabalhar com a vida e, sendo humana, eu acho que é coisa para pessoas muito, mas muito especiais. Viver a morte de um ser vivo não é uma coisa banal. E o custo emocional não é também uniformemente distribuído. Por culpa disso, muitos enlouquecem nas guerras, nas grandes secas, nas misérias. E há os que passem ilesos e não são insensíveis por isso, talvez apenas mais resistentes. Mas que não se exija de ninguém esse comportamento. Há as pessoas naturalmente racionalizadoras, e há também as profundamente emocionais. É nestes últimos que tenho pensado mais e, ao menos mentalmente, solidarizo-me totalmente.

O tendal que eu vivi foi de certo modo causado por mim mesmo, por minha imperícia. Eu tinha por volta de dezoito anos e estava passando aquele ano inteiro no meio rural do interior do RS, na campanha. “Pra fora”, como se diz. Último filho de cinco, era o último a decidir o que iria fazer da vida, estudar o quê, fazer o vestibular. Depois de um ensino médio tortuoso ao extremo, havia me recolhido no interior de Bagé, às bordas do rio Camaquã, onde meu pai trabalhara a vida inteira e naquele momento vivia.

Por um ano inteiro estive lá e, por incrível que pareça, não sentia falta de nada. Para as notícias, tínhamos um rádio e uma tevê cuja imagem era imprestável, um borrão em movimento com vozes entrecortadas. E livros. E almanaques que haviam sido do meu avô. E jornais velhos, de notícias usadas e também imprestáveis. Coisas de galpão.. Servia-me muito bem de uma vida espartana, quase ascética, e aproveitava os fins de semana na cidade. Naqueles dias, tinha muitos amigos em Bagé. Foi a tevê, a porcaria da tevê, que na verdade deu causa ao que nos aconteceu.

Pois andava naqueles dias um vendedor de antenas parabólicas prometendo o milagre da tevê no meio rural. Para quem havia estado anos a fio sem nem luz elétrica, parecia um consolo a possibilidade e, dessa forma, encomendou-se o serviço. Meu pai resolveu fazer ele próprio, como bom one man band que sempre foi, o pedestal para tal antena e assim ficamos dois ou três dias envolvidos na “construção” e a espera do instalador enquanto que, imperceptivelmente, de uma chuvarada da primavera, o carrapato aproveitou-se para infestar parte dos animais que criávamos ali. Imperceptivelmente para os meus olhos destreinados que mal interpretaram o risco de adiar o banho dos animais porque, enfim, o “homem da tevê” estava sempre por chegar e chegou efetivamente, absorvendo nosso tempo e atenção.

Naquela noite, conseguíramos assistir do começo ao fim o telejornal, a novela e até um pedaço de um filme qualquer. A imagem nebulosa e desconstruída ganhara nitidez como se pincelada e meu pai estava muito feliz por conseguir aquilo depois de tantos anos. Eu penso que, principalmente, porque também desejava me seduzir a ficar ali, com ele, e não fosse dali me embora, do que também não me impediria (e não impediu). A tevê seria um argumento nesse sentido, ele parecia silenciosamente sugerir.

No outro dia, cavalos encilhados, voltamos ao que deixáramos alguns dias antes, mas não estava o mesmo. Em determinado potreiro, os animais não mantinham seu hábito e, mal cruzáramos a divisa do aramado, ele percebeu que algo estava muito errado. No cocho de sal, uma vaca mugia lamuriosamente, talvez chamando o seu bezerro. Numa pequena canhada, um declive, o terneiro se acompanhava de outros animais, mas, ao longo dos nossos olhos, outras vacas e também terneiros estavam prostrados, incapazes de erguerem-se sozinhos, pelas próprias forças.

“A tristeza…”, disse o pai. “É a tristeza.. Mas tu não viste o carrapato?”, e indagou-me porque eu havia estado ali um dia antes, pela tarde, e o carrapato se recorre é pela manhã, quando está de barriga cheia do sangue dos pobres bichos que estiveram a dormir. E então ele disse a palavra: “isso vai ser um tendal!”, e apeou do cavalo para tentar aprumar uma vaca erguendo-a pela cola, no que eu tentava inutilmente ajudar. Ela não sairia por conta própria. Um bom número delas, segundo ele, sequer chegariam vivas até o banheiro onde livrá-las dos parasitas. E assim foi.

Dali em diante, levamos ao banho aqueles que conseguiram chegar lá. Os terneiros jogávamos com as mãos para dentro do remédio e da água e com um gancho puxávamos para a fora, com dificuldade. Os mais frágeis, carregávamos  empurrando com o corpo, dando a volta da escadaria e lavando-os praticamente a mão. Essa manhã durou pelo menos até o meio da tarde, quando fomos socorrer os restantes. Sobre o reboque do trator, erguemos e amontoamos vacas e crias desparceiradas, muitas que já não reclamavam mais do incômodo. E outras ficaram por ali mesmo, aguardando a fome insana de corvos, caranchos, sorros e os outros animais da noite.

Na volta “pras casas”, quietos, atordoados, meu pai, gaúcho que se recusava a usar uma faca contra um animal vivo, me disse que eu não precisava ficar com ele e que nem ele ficaria ali, se pudesse. Herdeiro de antigos estancieiros, escravo involuntário da sua genealogia, disse-me para que não fosse como ele, um prisioneiro do chão. E não disse com tristeza, mas com uma raiva imensa daquilo tudo. Uma raiva que não era daquele momento só.

De noite, a morte dos animais não nos permitiu comer. E, apesar da parabólica finalmente instalada, também não ligamos a tevê.