Andei ontem no Centro. Sempre que posso, evito andar por lá. E falho sempre. Não sei que tipo de coisa maldita têm aquelas ruas e prédios acanhados, aquela gente sem viço, roupas surradas e comércio decadente que me botam uma tristeza profunda na alma. Parece que estão ali num mostruário de sobreviventes. Por lá eu não penso nunca em humanidade, em sociedade, essas abstrações. É cada qual uma pessoa só e ninguém, absolutamente ninguém, parece-se aos demais. A diversidade verdadeira é uma condição sobre a qual não se poderia abstrair, ela se esboroaria a menor palavra dita ao acaso. Palavra com erro crasso na pronúncia, palavra desviada das conjugações e sotaque indefinido. Não subentende-se nada nas pessoas que andam por ali. Consigo imaginar de que vida vêm, e o destino que terão ao final da sua linha de ônibus. Todas são um livro imenso, ainda por ser escrito. Passo na portaria de um prédio art noveau de uma demolição intacta, que o tempo roeu e desgastou, e o porteiro me examina como se eu fosse entrar ali. Teria algum negócio a saldar, uma joia a empenhar, uma dívida para cobrar ou quitar. Mas não era eu. Eu seguia andando e passei por um negócio de árabes, mulheres usando o hijab. E coreanos vendendo quinquilharias eletrônicas duvidosas. E sudaneses com tapetes estendidos, como seus ancestrais faziam do outro lado do oceano. Seguranças conversavam à frente de uma loja, contando piadas ou aventuras para a atenção dos outros. Quem por ali passasse não seria revistado. O Centro não exije revista, basta que não se destoe muito. Subo à minha consulta de última hora, de um médico que achei por acaso e atendia sorridente quando toda a cidade já fechou as portas, emigrou. O consultório ameno com a música de um saxofone antiquado, eu poderia ficar ali por vários dias. Mas ele pingou uma gota de colírio em meu olho e quando eu vinha de volta nem notei que era quase Natal. A decoração natalina no Centro é perene e seus melhores produtos amanhecem enguiçados. Há uma graça nisso e um tácito acordo de quem compra um presente desses a uma criança. É como se fosse dito “aproveite bem”. É sua única noite de festa. As demais serão iguais, idênticas às anteriores. Uma caravana a qual todos sabem ir. É o que há de ser feito: atravessar as ruas e o tempo de cada um, tempo intransferível, inescrutável sob as retinas. Numa esquina, encontro um táxi e sinto que faria bem se fugisse. A sensação é a de ter colocado o pé numa ratoeira. És o rato, pensas o quê? O que és? Um rato fugindo pelos bueiros a que avança a água subterrânea. O Centro é o disfarce perfeito de uma cidade, e também sua maior nudez. É bom estar aqui. É mau. As sombras dos prédios não permitem sair. A secretária do médico perdeu a casa na enchente e até hoje dorme no consultório, improvisada. Este homem amistoso deveria ser o prefeito, ela conta à substituta do plantão. Neste ano vai viajar ao interior, passar o réveillon com a família. A outra mulher sorri e nada diz. Essa é a verdadeira e única consciência: ouvir. Ouvir o silêncio da cidade, o que ele diz. E também o que ele não diz.
Parolee
Ó deixe essas lágrimas para amanhã..
Os dias de antes, a bebida de muitos,
outros amores vividos já além das mãos,
caminhos distantes também não tocam os pés.
Não vá inventar nada agora, chorar mesmo
de vai nada adiantar, ó deixe
as lágrimas para amanhã, enquanto sente
outra vez que o céu sorri para os demais.
Deixe também as moedas
no fundo do bolso, acaso ainda precise
ou a fome ou a sede retornem.
Não deve esquecer a sorte que teve o cão
ao fugir de casa, dos olhos turvos
do animal mais dócil do mundo esteja livre
e da forma que ele enganava a noite
com seu canto engasgado parecendo
que vinha de outra vida a nascer.
Ainda uma vez, olhe as tábuas do cais
e mais uma vez essa ponte que nunca cai
e o que ao levante do dia foi posto a dormir.
Os velhos e suas sobrancelhas espetadas —
a revolta que há nestes fios, ó entenda,
é mais feroz que a revelação da verdade.
Marilia, a quem você julga que amou, foi mais doce
com outros antes e você, seu último amor
e que a amparou nos braços ao desfalecer,
nem assim pensou que não aguentaria,
afinal, é para isso e não outra coisa
que há no seu peito o tal músculo, o valentão.
Nunca houve quem defendesse como você.
Esqueceu como defendeu a ofensa de um amigo
igual fosse a si mesmo?
E toque de novo aquela maldita canção
para que a noite resulte alegre e as estrelas
virem-se um momento só em nossa direção.
Estão bem guardadas as coisas acontecidas
para que nunca mais seja preciso revê-las.
E ao lado das vividas, as destruídas
estão apagadas como numa tevê enguiçada
que nunca mais ligou, um rádio velho
preso na mesma e eterna estação.
A essa hora, o olho arde tanto quanto um estômago.
A essa hora, o estômago vira quanto um oceano.
Mágoas ao fundo do mar borbulham
e um resto de vida quer viver, mas nada se pretende
e a portaria está por fechar e é devido
sair em silêncio e que nada indevido aconteça
ainda mais se for chamado “felicidade”.
Os cães fugitivos cumprem um destino melhor..
As portas estão bem fechadas, janelas, chão e paredes.
Os olhos de Marilia, lembre bem, eram mais fundos
que uma prisão e tampouco foi amor de verdade.
Que seja, é o que você pensou.
A parte dos livros? Despeje no pote dos micos..
Assim haverá alguém mais feliz
eliminadas da face do mundo essas tristezas,
essas infâmias, essas pobres parolas.
Mas antes derrame contra o muro a fel amarga
e volte para casa com a alma mais doce..
E sem, é óbvio, muito mais exigências.
Na vida lhe chamaram de tudo, santo, corvo, chacal,
ameba, quadrúpede, besta, pai, animal..
Também noivo da morte, santo, viuvinha —
do fundo do quintal nada disso de flor,
seu erva daninha..
Entre em acordo com o nome que sua mãe deu
(e quase ninguém além dela mesmo conheceu).
Vá até lá, e em paz, ao menos na noite de Natal —
é permitido a quem viveu toda a vida uma condicional.
Errata
Não sei se vocês estão preparados para um sessão de coitadismo de um pobre poeta brasileiro, mas a pessoa ter lucidez quanto a si própria é uma coisa basilar. Sem isso, o indivíduo que vive nos píncaros logo se estrebucha ao duro piso da realidade.
O meu caso é simples. Desde o meu primeiro lançamento em livro, soube que eu seria o antípoda ideal daquele personagem de um coach primevo dos anos 70, Og Mandino. O seu livro, intitulado “O maior vendedor do mundo” encontrou na minha pessoa a sua antítese. Talvez eu não seja o pior vendedor do mundo, mas tudo indica infelizmente que sim..
De modo que lançar um livro — e em pré-venda — é uma coisa que me aflige muito porque, além de não ter um produto a mostrar, como vou convencer as minhas vítimas de que vale a pena a minha oferta? It’s complicated.
Pensando nessas tristezas contingenciais e inépcias naturais da minha personalidade, lembrei que tenho aqui, diante dos olhos, o “boneco” deste livro de poemas que reúne os três últimos anos do que venho escrevendo em versos. Coisas que deram as caras aqui, algumas delas, mas não todas. Em livro, a experiência da leitura se transforma por uma arte combinatória de papel, tinta e olhos..
Esta imagem é um mero amontoado de folhas, não é um livro, mas é o livro antes do livro. O pré-livro. O aspecto da coisa numa antecipação. Agora, se ainda assim lhe parece que este livro (preparado com muito carinho e atenção pelo meu amigo e editor Thomaz Albornoz Neves), possa ser uma boa coisa, faz essa aposta, confia neste vate… ahahahah
Em pré-venda até o final do mês, “Errata” talvez seja meu último livro de poesia. Provavelmente seja. Ele não revê nada do que escrevi antes, não me reviso (apesar do titulo), apenas me acho estranho em divulgar folhas que são tão íntimas que se envergonhariam de mim..
O livro pode ser adquirido neste link e vai com meu agradecimento sincero e autógrafo.
Em branco
O que mais tem no mundo hoje é protagonismo. E eu acho estranho que essa ideia prospere tanto nos novos movimentos sociais porque é evidente que ela espelha uma noção competitiva nas relações sociais. Ao invés da busca por reformá-las ou transformá-las, vale aparecer mais, aparecer antes, capitalizar a imagem. A busca por protagonismo é uma nova forma de exploração do individuo pela sua imagem e o sofrimento correspondente a esse processo.
*
Caso a inteligência artificial assuma cada vez mais as funções comunicativas, é de esperar que o indivíduo se aliene completamente nesse self ponderado por algoritmos e disjunções aritméticas. Num mundo de redes de relações proveitosas, ou networks, a exclusão assume formas imponderáveis e inimaginadas no modo como as pessoas de mais de vinte anos de idade foram educadas. Todo o esquema de status pessoal torna-se um produto do sucesso da comercialização do seu ego. A ideia de carreira, de obra ou trajetória sucumbe a uma nova ordem de acumulação simbólica. Mais importante que talento é aferir valor a si mesmo, e vender-se a este preço, num esquema licitatório que seleciona as melhores ofertas de valor ao que o sistema simbólico (cultural) necessita explorar.
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Às vezes, só às vezes, temos noção realista do tempo mal empregado de nossa energia mental e vital. No mais das vezes, por uma espécie parassimpática de proteção, essa percepção nos é vedada. Com ela, saberíamos que a maior parte dessa energia foi simplesmente dispersada. Como uma carga elétrica que se perde num circuito, simplesmente muitas vezes os grande aportes de energia não resultam em nada. Quando muito, choques periféricos sem maiores consequências. E a energia não se armazenou, não constituiu um fundo de aposentadoria, ela simplesmente evaporou. Sumiu. Acabou.
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O maior agente de dispersão de energia são as pessoas. E não é porque elas sejam essencialmente dispersantes, mas porque são necessariamente egoístas. Muitas pessoas pensam que o egoísmo é uma deformação de caráter. Eu discordo. O egoísmo é uma forma elementar de diferenciação do eu ao notar que, para o seu bem estar, é preciso prestar mais atenção a si mesmo do que dispersar sua energia.
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Não estou defendendo o egoísmo, claro que não, mas é fácil constatar que 99% das pessoas vivem dessa forma, priorizando a si mesmas. O egoísmo é a forma mais conservadora de comportamento. É um espécie de acumulação primitiva ahistórica, inarredável por qualquer processo revolucionário. O egoísmo só cessa com a morte do indivíduo.
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O protagonismo é uma espécie de egoísmo da imagem, uma receita simbólica que se origina na comercialização do eu. Uma super projeção do eu, isto é, uma virtualização.
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Dispersante, por outro lado, é o gregarismo, a vida em grupo, o cuidado. Quem dispensa cuidados dispersa sua energia, sua atenção. O benefício que ele tem é o de alienar a sua consciência, o de pensar menos em si mesmo e mais no contexto do que de si depende, mas isso só acontece quando ele o faz sem notá-lo.
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O bem que se sabe bem e que se autodeclara, não é bem, é mera vaidade, disse Hannah Arendt.
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A vida social é desarmônica porque o altruísmo é uma noção intelectualizada de ação política. Quem pratica o altruísmo muitas vezes está mais interessado no benefício moral da ação do que no bem estar coletivo.
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As pessoas que dizem que preferem ajudar a alguém que pode olhar nos olhos ao invés de colaborar com a sociedade anônima computam recompensas que, se ajudassem a um fundo público organizado, traria mais resultados, mas elas então não afeririam benefícios da ação.
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A situação mais vulnerável em que uma pessoa pode estar é a dependência do outro. No entanto é ao viver essa situação que se pode superar a condição do egoísmo. Por essa razão a negligência com as crianças e com os idosos é punível.
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Deixar de fazer algo, abster-se, é mais poderoso que participar, pois se anula o emprego de energia e ela dessa forma não serve a nada nem ninguém.
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Não podem coexistir a ideia inclusiva e o protagonismo. É um paradoxo.
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É isso que agride a sensibilidade contemporânea e nos leva ao fascismo pós-moderno: a ideia de que a nossa melhor energia será de uma forma ou de outra canalizada num esquema competitivo de proveitos simbólicos e políticos. A mesma ideia da vingança, mas delegada.
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Nada está mais distante do mundo hoje que a ética cristã ou budista. O séc. XX nos serviu para perceber definitivamente o fardo inútil da moral social. O séc. XXI nos vem servindo para dispersar a própria energia mental indefinidamente.
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Um caderno vazio, no qual se projetasse uma forma de vida mais desinteressada, um mundo conscientemente distributivo e reparador, poderíamos ambicionar? Não descreio, mas antes precisaríamos ir até o final do livro que viemos escrevendo. Um livro com protagonistas demais. E um caderno cujo protagonista seria, de forma natural e especial, ninguém.
Não se aconselha a compaixão
Para a Isabel
For every little lie you tell so you can hide
Will grow inside your chest
Your heart will need to rest
So come into my arms
November Ultra
Não se aconselha a compaixão. Isto é o que se deveria dizer em muitos lugares onde ela havia trabalhado. É que as pessoas primeiro olhavam seus braços e pensavam que ela seria um bom guindaste para os velhos que já não levantam mais pelas próprias pernas. Um guindaste humano e de bom coração que, ao tempo em que erguesse pelas axilas alguém sem esperança em sobreviver, sussurraria em seus ouvidos palavras cândidas, inocentes, como se extraídas de uma canção de ninar. Por isso eu digo sem piscar: compaixão ela não tinha. Na verdade, era outra coisa; algo que não entendi por completo, pois também não houve tempo o bastante.
Para quantos não tenham força para viver, deve haver tantos que os ajudem a suportar, a mãe lhe disse ainda uma criança, a única menina entre sete irmãos nascidos em escadinha, ela a mais velha, e que se tornaria responsável pelos demais se a mãe morresse (e ela morreu de droga e bebida, quer dizer, de uma morte quase planejada). Alguém precisa ser o guindaste, a mãe avisou e antes que entendesse outras coisas elementares de uma vida serviu-lhe a lição.
O que a distraiu nestes anos foram os gatos que a mãe havia deixado que se acomodassem em seu pátio. Ela gostava de ficar olhando os animais como se aquilo fosse uma selva particular, um mundo de natureza, ordenado pela natureza e onde, por consequência, apenas aconteciam as coisas que desejava a natureza. Mas um a um os gatos partiram ou morreram e coube a ela enterrá-los junto aos arbustos que foram tomando conta do lugar. Isso tudo uma ordem da natureza, exceto ela, que desde então adquiriu aos olhos dos outros o hábito dos anjos.
“Eu vou comprar comida, algo que você nos prepare para enfrentar o frio. Não demoro…”, o pai disse na última vez em que o viu. Mais tarde, atrás dele foram os três filhos mais velhos, numa tentativa de reencontro que ela nunca soube se malfadada ou bem sucedida. Às vezes, ela estava encostada na porta da enfermaria, fumando, e me parecia que imaginava ainda que os quatros se encontraram, é claro, e agora vivem da pesca numa cidade portuária e nem é preciso que retornem, mas, se um dia retornarem, ela terá arranjado algo do que comeriam todos, como deve ser numa família.
Nos olhos dos seus irmãos nunca houve gratidão e nem ela esperou por isso. “Vive-se”, é o que ela dizia quando os vizinhos indagavam se precisava de algo e ela recusava, dizendo que com o seu trabalho eles tinham o suficiente.
Eu sinto tristeza que nas cidades, todas elas, nunca tenha um monumento a criaturas assim. Imagino que ela recusaria como recusou um pedido de noivado de um sujeito que disse por ela estar apaixonado, mas ela não o entendeu, não entendeu do que se tratava. Menos mal que uma prima entendeu as tentativas dele, subsequentes as que lhe dedicara. E ela entendeu ainda mais porque, de fato, não havia nada disso de paixão. Sabe-se lá o que havia..
Hoje desde cedo me pareceu que seria um dia estranho. Avisaram que ela não viria almoçar conosco, no refeitório. Foi deslocada para outro andar, outro setor, eu imagino. Não quero saber. Para onde ela tiver ido estará um lugar melhor, isso é que é. Haverá risos de histórias angelicais, sem qualquer maldade ou frivolidade, canções cantadas sem pronúncia, em boca chiusa, e seus músculos trabalhando como a mãe ensinou-a a fazer. Haverá alguém sendo ajudado ou então não haverá realmente mais nada. Em dezembro costumam dar folga aos funcionários, é isso que deve ser. A maldita está de folga e eu aqui, sem quem me conte o desfecho de uma história qualquer, dessas que rolam pelos telefones e eu tenho preguiça de ler até ao final. Irá comer os caramelos todos sozinha, não guardará ao menos um para mim. E é assim mesmo que deve ser. Não se aconselha a compaixão.
Todos os outros silêncios
Publicado também na Especiaria.
Não com todos, mas com alguns, raros, a leitura de poesia me traz certa sensação de invasão de privacidade. O poeta confessional decerto é uma pessoa que previamente consente com isso, no entanto a privacidade a que me refiro é mais intrincada do que aquela que dá a ver uma rotina, trajetos, modos, gestos; quero dizer da privacidade do pensamento, este laboratório onde a vida se transforma algumas vezes — não muitas, é verdade — em boa poesia.
Os tempos de hoje são indiscretos. Pouco ou nada se permite de intimidade ao poeta. Muito pelo contrário, a ausência de certa autoevidenciação repercute quase sempre em um correspondente apagamento público. De outro modo, o excesso de evidência repercute igualmente num apagamento, mas então numa forma de dessubjetivação, isto é, por anulação consentida do eu em prol do eu-lírico. Ao mesmo tempo, opera-se uma forma de descompensação entre a criação e a atenção alheias, colando-se ao artista uma película com vida própria e aquilo, externalizado a ele, passa a animar uma performance, raras vezes uma poética. Com a poesia confessional, se dá exatamente o oposto disto. A exposição faz o artista desaparecer e só então pode surgir a pessoa, mas sem uma desassociação, porque esse surgimento se dá ante ao outro, e não antes dele.
Eu ainda estou tentando entender se este livro que tenho em mãos é, de fato, um exemplo de poesia confessional ou não. Seja como for, é um livro que abre uma porta para que se conheça da pessoa esse objeto inapreensível: o seu modo de pensar e de ser.
Todos os outros silêncios, de Lucia Fonseca, é um livro de experiência. Em muitos aspectos, reflexões sobre acontecimentos e sensações de uma vida que são trazidos à superfície do papel pela delicada recomposição da própria vida. São situações no mais das vezes silenciosas, quase ausentes, e para as quais a poesia serve de espécie de elemento de fixação. Não se trata do prosaico ou do casual, mas do narrativo permeado de análise e reflexão, do lírico que emerge do distanciamento de cenas e experiências. Estas poderiam permanecer em silêncio, mas a poeta cede ao poema e permite que sejam vistas sob nova perspectiva pelos leitores. Isto é mesmo uma oportunidade, espécie de um presente. É como eu penso.
Removido o invólucro da poesia, o livro e seus anteparos, de imediato se vê que se está diante de um “eu” dono de sua linguagem, imperativo em sua poética. Em Teia, com uma epígrafe nebulosamente sugestiva de Wislawa Szymborska, a poeta se apresenta mínima, como um detalhe da própria poesia:
Teia
”Sou quem sou,
Inconcebível acaso
como todos os acasos.”
Wislawa Szymborska
Sou quem sou
por obra de deusas e de genes.
Sou quem sou
pelos meus antepassados
pelos acontecimentos.
Se um único gene falhasse
nessa infinita corrente
se da teia que me prende
outras malhas se soltassem
se eu escapasse de mim
me esgueirasse do destino
pelas falhas de algum ontem
se de mim me derramasse;
seria talvez um Outro.
Talvez mancha no assoalho.
Quanto mais se avance no livro, mais o objeto em papel vai se desvanecendo, como um fruto que se descarna. Primeiro, na poesia elegíaca da amorosa seção que ela dedicou ao marido Gabriel, depois em poemas até certo ponto nostálgicos que conversam com a infância, a família e amigos de uma vida. Nestes, a poeta, cada vez mais ciente da própria pessoa, confessa o espanto da vida para uma incógnita Regina, a quem dedica o poema Quando:
Quando
Para Regina
Tenho setenta e sete anos.
Desenho, pinto
mas já não escrevo tão bem.
Há muito, perdi meus pais, meu irmão
perdi meu marido.
Tenho três filhos e três netos.
Quando fico triste
lembrando os ausentes
abro a gaveta da copa:
panos de bandeja cercados de renda
pequenas toalhas de linho bordadas.
Fico olhando muito tempo para eles
admirada
como diante de anjos.
Mais adiante há uma sorte de poemas que são como retratos, que se valem da experiência estética de outros artistas e obras, como a pintura de Paul Klee e a literatura de Fernando Pessoa, Proust, Borges e Clarice Lispector. São referências, é verdade, mas que transfiguram-se em sua poesia menos como homenagem e mais como um retratismo. Poemas cuja narratividade que são quase prosas-em-poema, mas dos quais nunca se ausenta o olhar lírico e afetivo da poeta, como se pode ver em Pose para retrato:
Pose para retrato
A moça e seus filhos parados e sérios diantes das lentes
cercados de céu.
Seus olhos miram planetas, constelações, galáxias.
Mas eles não sabem nada
não sabem nada.
Como nós, como todos nós.
Quase ao final do livro, na seção intitulada Canções, a paisagem natural desdobra-se como um diorama interno ao livro, onde, talvez, resida o núcleo de sua atenção manifestando-se num olhar afetivo sobre o mundo e suas coisas. É onde a poeta diz ainda mais de si mesma. Desta seção, não convém destacar um poema a fim de não prejudicar a integridade da obra. É preciso cercar-se de cuidado, pois o nível de exposição é tamanho que, fragmentado, pareceria afetar a apreensão dessa poesia terna e ao mesmo tempo nada autocomiserativa que Lucia produz em relação a si mesma, no que talvez seja o ponto mais alto do livro, pelo menos no seu viés mais confessional.
Ao final da leitura de Todos os outros silêncios, não pude deixar de me perguntar a respeito de como uma poeta de tal consistência havia me passado em brancas nuvens por tanto tempo. Para quem se pretende um leitor atento ao gênero, me parece criminoso, pois este é o primeiro livro de sua autoria que conheci e sua trajetória vem ativa pelo menos desde os anos 80.
Trato de investigar a situação e não demoro a compreendê-la. Já um poeta que se faz notar pela sua qualidade não encontra, infelizmente, o mesmo reconhecimento que se dedica, na cultura de consumo visual destes tempos, a quem se coloca permanentemente em evidência. Não se trata de julgar a situação, apenas de constatá-la. O que se pode julgar, no entanto, é a incapacidade persistente da percepção crítica em relação aos poetas contemporâneos e sua visada de vitrine, sem a menor profundidade. No entanto, se as referências quanto ao seu trabalho são restritas, a obra felizmente é vasta e irei com certeza dela me ocupar, com bom proveito, ainda por muito tempo dos seus demais livros, que indesculpavelmente ignorava.
Lucia Fonseca é autora de pelo menos dez livros de literatura. Ao mesmo tempo deste Todos os outros silêncios, lançou o livro de contos A menina que me visita, ambos pela 7Letras. No website Vestígios (https://www.vestigios.net.br) disponibiliza alguns de seus livros para donwload, além de uma generosa seleção de contos e poemas.
Santa Marta em Tarascón
Hoje é dia de Santa Marta de Betânia, irmã de Lázaro e Maria Madalena, que ressuscitou um homem afogado como se fosse um deus e enfrentou com um frasco de água benta uma fera descrita como “um dragão metade animal, metade peixe, mais gordo que um boi, mais comprido que um cavalo, com dentes cortantes como espada e pontiagudos como cornos, munido de cada lado por dois escudos”, gerado pela “união do Leviatã com o Onachus”.
Essa santa prodigiosa teria sido a mártir que converteu os primeiros francos ao cristianismo, numa região também governada pelos romanos no século primeiro depois de Cristo, a quem ela hospedou.
O dragão de Tarrasque é uma besta medonha pela descrição que é feita nas lendas medievais. Ao invés de cuspir fogo como um dragão ordinário, ele inflama tudo com os seus excrementos que são como bolas de fogo que arremessa longíssimo. Vivia a fera num covil próximo à floresta escura onde hoje é a comuna de Tarascón, devorando todos aqueles que ousassem invadir a mata densa.
Marta jogou umas gotas de água benta no monstro e mostrou-lhe um crucifixo. Foi o bastante para o monstro deixar-se aprisionar pela cinta das vestes da santa e por ela foi levado ao vilarejo, onde foi espancado até a morte pelos aldeões.
Após este feito, a mirófora Marta, que teria sido também oradora admirável, foi ganhando a fé de todos ao redor e naquela terra de crendices ergueu uma basílica em homenagem à mãe de Jesus, a virgem Maria.
Desde a época medieval ocorre na região uma procissão a que se consagrou em 2008 o estatuto de Patrimônio Cultural da Humanidade. Na procissão, repete-se a chegada de Marta e o dragão carregado pelo cinto sendo atacado pela população. Na Espanha e na Bélgica, a procissão costuma acontecer junto à celebração de Corpus Christi.
Santa Marta é a padroeira dos cozinheiros e em algumas representações ela aparece enfrentando o dragão com uma concha de madeira ou colher de pau.
Existem muitas interpretações do encontro das duas criaturas, mas eu não vou tão longe. Melhor deixar essas coisas para quem estuda. O máximo que fiz foi escrever uns versos. Mas não para a santa, para a vilipendiada besta..
As aspas são da Legenda Áurea, de Jacopo de Varazze.
Santa Marta em Tarascon
2017
Eu levo quem vem e vai
ao fundo de todas as águas.
Sou o último à passagem
entre a natureza e a cidade,
para matar-me não basta coragem.
É preciso ser como ela.
Vencer todos os medos,
ter o milagre aos dedos.
ferrões de todas as abelhas,
grilhões de tecido e seda.
A julgar por minha aparência,
o solaço da primavera
neste ano chegará mais tarde,
como um exército de covardes
trepida ante minha couraça.
Há muitos tipos de morte
que eu tenho a oferecer.
Depois de ser trucidado
ninguém haverá de invocar-me
como a Lázaro, o ressuscitado.
Abaixo do som das palavras,
a minha voz somente ameaça
os tolos, os fúteis e os vis.
As bestas eu deixo que passem
pois elas são seres sutis.
Engulo-os pelos pés e das mãos,
seus medos, anseios, fedores.
Não lhes basta o próprio espelho
pois poucos sobreviveriam
em face dos próprios horrores.
Qual o teu nome monstro?
Ela indagou olhando meus olhos.
Nenhum, eu disse, ou jamais
e ela de pronto entendeu
desfazer dos meus ancestrais.
Pior que a própria Medusa,
ela ergueu sua mão para o alto
e numa língua confusa
entornou o silêncio dos jarros
até retirar-me do lodo.
Iludiu-me com vinho e promessas,
levou-me a um redemoinho.
Febril, pedi-lhe compressas
e ela, falando baixinho, disse-me:
monstro, como és mansinho..
Leva-me, que a vida me farta
e não posso ser compreendido.
Serei o exemplo perfeito
do que deve ser combatido;
e à morte levou-me indefeso.
O povo saudou com festa e pranto
a sua salvadora. Santa Marta
do meu sangue livrou-se,
mas eu, de sua memória,
nem tanto…
A mais cruel das artes
A música é a mais cruel das artes. Não se pode enganar a música porque ela te desmente em dois compassos. Não adianta..
Na verdade, nas artes visuais e literárias se dá o mesmo. Apenas que a sensibilidade receptiva é menos exigente. Na música, a inabilidade é gritante e mesmo uma pessoa não instruída musicalmente percebe as falhas de execução e etc. Não existe, simplesmente, o estilo “mal tocado”.
A música nesse sentido é cruel, mas, por outro lado, a destreza técnica permite que a sensibilidade se acentue. E dessa forma composições ganham roupagens, interpretações ganham nuances, melhorias. Nesse aspecto, a literatura é mais cruel. O que está feito, está feito. Ninguém consertará uma obra escrita. Ninguém a reinterpretará e realçará o que ali não existe. É impossível.
Mas a música, se é cruel à primeira audição, é permissiva com que a melhorem.
É isso o que fazem muitos intérpretes e arranjadores. Mas não é por acaso, são músicos que estudam e praticam desde a tenra infância e, se têm algum dom, o aperfeiçoam com trabalho, e não pouco.
Dos artistas, respeito mais os músicos, ainda mais porque sua produção é desvanecente, se evapora no ar, não fica nada.
Dos instrumentos musicais, o violão é o mais cruel. Há que montar o som. O instrumento não está te esperando, está desafiando. A lida com o violão é uma tauromaquia e a vida do guitarrista é ser derrubado e atravessado – eis a crueldade – pelo que ele mesmo consegue extrair do instrumento.
Tenho muitos violonistas que acompanho na internet, do mundo afora. Concertistas, intérpretes impecáveis. Gente que estuda o instrumento desde a tenra idade: 6, 7 anos.
Edith Pageaud é um dessas instrumentistas. Toca violão desde os 6 anos e com 7 já havia sido premiada em recitais nacionais. Dom? Eu acredito que sim, mas dom trabalhado, burilado. O dom pelo dom não necessariamente gera boa arte. É preciso algo mais, enfim, é óbvio.
Nessa interpretação de Piazzolla, Edith altera a execução com timbres e outras técnicas que ela executa à perfeição. No entanto, pelo menos eu ouço assim, o equilíbrio que ela obtém é total, o efeito estético é homogêneo, tempos e contratempos estão tão internalizados que não há forma de se desarmonizarem.
Então, o que acontece é que a música ganha, aumenta. Podemos escutá-la com uma particularidade.
Nas outras artes – eu pouco sei de artes visuais – me parece que isso é impossível. Na literatura, todos os erros e fiascos são em bronze, como dizia o Mario Quintana.
Não sei.
A música é a mais cruel das artes, mas a literatura é mais cruel que a música de muitas mais maneiras.
Quando fores bem velhinha
William Butler Yeats
(13/06/1865 – 28/01/1939)
Quando fores bem velhinha, já grisalha e, exausta de sono,
Pestanejares junto ao fogo da lareira, toma este livro,
Lê com calma, e sonha com o olhar um pouco mais vivo,
Como o que tiveste outrora, sem as sombras do abandono;
Quantos, falsos ou verdadeiros, amaram a encantadora
E fugaz beleza da juventude, quando era simples e fácil,
Mas um homem só amou com efeito a peregrina em tua alma,
E amou em teu rosto as sombras que podes ver agora;
E curvando-te em direção às chamas incandescentes,
Resmunga, tristonha, de qualquer amor distante
Que sobrepassou colinas e montanhas adiante
Desaparecendo igual a estrelas cadentes.
§
When you are old and grey and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;
How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;
And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars.
Me dá meu chapéu
A Cidade Baixa não tem desses cafés do Bom Fim, onde os velhos sentam para tomar um pingado e aproveitar o sol do outono, como uns gatos desalojados da vida doméstica. O comércio da Cidade Baixa é essencialmente etílico, salvo uns bistrozinhos de preços, acho eu, completamente desproporcionais. São poucos desses café de calçada, e os que se mantém em sua maioria são envidraçados. A razão disso é óbvia e não é meu assunto aqui.
O bom desses cafés nem é o café, mas essa companhia de cãs e calvas. Tem quem fuja com medo de ser confundido, mas se é uma vaidade (ou tolice) que nunca tive na juventude, não vai ser agora. É que se a idade traz o desconforto da proximidade cada vez mais breve para com a visitante fatal, por contrapartida traz uma espécie de tranquilidade. Tranquilidade que é um pouco cansaço também, mas sobretudo falta de pressa. De pressa e de surpresa.
É que é muito diferente conversar com alguém que só viu, por exemplo, os governantes deste milênio mal parido e com quem tem na memória os ecos de uma Segunda Guerra Mundial. Há uma forma diferente de sopesar as coisas, é isso que digo, que é algo tranquilizante. Para mim, é. Porque hoje vivemos a era do escândalo e da obscenidade e essas pessoas conhecem espécie de bem e de mal muito menos óbvios que, obviamente, não se extinguiram.
Eu ainda não fiz isso, mas um dia vou simplesmente pedir o meu pingado e tomar meu assento, não mais vou sentar à distância. Se me estranharem, digo simplesmente “ué, me esqueceram?”, e como ninguém vai querer acusar um lapso de memória, vão fazer de conta que conhecem, claro, e me recomendar que eu tire a cabeça do sol porque esqueci do chapéu. Eu, que não uso chapéu..
