Dia: 16 de agosto de 2017

Heterogêneses de BjörkHeterogêneses de Björk

Dos músicos em geral é costume dizer que estão preparando novos discos, mesmo que em boa parte dos casos trate-se, a bem da verdade, em coleções de singles que nem sempre guardam entre si uma sonoridade comum ou identidade. Já quando se fala que é Björk quem está preparando algo novo, não se pode pensar apenas num disco, deve-se alargar de imediato a expectativa sobre esse “algo”, além de procurar-se não classificá-lo prematuramente. Pois Björk está lançando seu novo algo em forma de álbum: é o décimo primeiro de sua discografia. Mesmo sem contar ainda com nome ou capa, a islandesa o anunciou recentemente, no começo de agosto, em suas redes sociais.

Desde o último equinócio de setembro (21/09/2016), ao mesmo tempo em que se preparava para iniciar na Somerset House, em Londres, uma exposição imersiva em realidade virtual de parte do seu repertório, entre 1 e 23 de outubro, Björk subiu ao palco do Royal Albert Hall, também em Londres, para o que talvez fosse melhor chamado por “aparição”, ao invés de um show. Foi quando começaram a desenhar-se algumas das sonoridades que estão prestes a se materializar neste seu novo álbum, ainda inominado.

Ali, como uma sacerdotisa que há tempos logrou por meio dos seus experimentos conceituais unir a um tempo só a mais avançada tecnologia e a mais recôndita biologia, usando uma máscara luminosa e vestindo o que pareceu a Neil McCormick, do Telegraph, uma flor ou uma anêmona marinha, ela cantou músicas do seu mais recente disco, Vulnicura (2015) e também apresentou inéditas acompanhada apenas pela orquestra de cordas “Aurora”, sem mais artefatos tecnológicos. Em Vulnicura, disco no qual registrou os momentos derradeiros de seu relacionamento com o cineasta e artista plástico Matthew Barney, há quase uma liturgia sentimental dando conta de uma experiência demasiadamente humana que colocou em evidência, bem mais que nos trabalhos anteriores, a pessoalidade intrínseca da islandesa. É como se a experiência tivesse minado um pouco do apelo quase extraterreno da estética da cantora e de sua obra.

Neste novo disco, por declarações em entrevistas e em suas redes sociais, Björk parece que investirá em sonoridades mais amenas e introspectivas, reflexo direto do seu novo momento de vida. Ainda assim, ela tem dito que seu processo criativo continua basicamente o mesmo, nascendo de longas caminhadas que empreende nas montanhas da Islândia, sua terra natal. Certo que, por isso mesmo, é possível contar-se desde já com melodias decompostas e tão estranhamente eficazes quanto as de seus discos anteriores. Também não se deve imaginar que ela repetirá no registro de estúdio a fórmula acústica de suas aparições ao vivo. É dessa síntese ambiciosa, aliás, entre a natureza mais intratável e a tecnologia mais virtual, que ela consolidou ao longo das últimas décadas a sua peculiar sonoridade: insuportável para muitos e objeto de veneração para outros tantos.

Não é nenhuma novidade para seus admiradores diletos encontrar na paisagem sonora proposta por Björk argumentos comunicativos ao mesmo tempo áridos e biológicos. Eles estão presentes desde seus tempos mais ligados ao acid e ao trip-hop da banda Sugarcubes e que vão se encontrar, mais tarde, com o que se pode chamar de reestreia da cantora. É com Vespertine (2001) que ela finalmente consolida o casamento entre a sonoridade esdrúxula dos cânticos viscerais do folclore nórdico e as vertentes tecnológicas da música eletrônica no nascente século XXI, emplacando singles (e escândalos) com os clipes de Cocoon e Pagan Poetry (em função de cenas de nudez e de uma possível conotação sexual). Neste mesmo ano, ela e Matthew tiveram a filha Isadora, cuja guarda vem sendo disputada pelo ex-casal desde a separação, em 2013.

Por outro lado, entre seus muitos detratores, há quem acuse a cantora de estar sempre buscando os holofotes da mídia. Isso principalmente desde que, na premiação do Oscar em 2001, surgiu no tapete vermelho trajando um vestido que mimetizava um cisne cujo longo pescoço enlaçava o seu. Também o uso de uma panaceia eletrônica de seus áudios e vídeos é motivo de recorrente simplificação, debitando-se a isso o que poderia ser uma clausura de estilo. Talvez por isso mesmo, para contrariar seus críticos, ela eventualmente lance-se em aparições inteiramente acústicas, como esta recente no Royal Albert Hall. Se há, de fato, uma fetichização do tecnológico em Björk, também é inegável que seu uso não é casual, mas cumpre diversos objetivos estéticos como a fuga ao simples e a constituição de uma performance contínua na qual às vezes ela consegue situar-se no futuro insondável, ao invés de simplesmente adotar a repetição de motivos desgastados e bem conhecidos pelo pop.

Nessa cruzada, muitas tecnologias passaram pelo seu olhar e pela sua manipulação. Desde filmagens obtidas no interior do seu corpo, como em Mouth Mantra, até a extensa materialização espacial de Oceania sempre com o apoio de referências experimentais, como a poesia do norte-americano E. E. Cummings ou músicos da vanguarda hi-tech, ela agora parece querer ir desaguar seu arsenal criativo no terreno da realidade virtual. Na sua exposição, atualmente em Londres e que deve percorrer cidades da Europa e de outras partes do mundo, óculos de VR são distribuídos aos visitantes que são convidados a imergir hipersensorialmente no seu universo criativo. E, para além disso tudo, há sempre a sua musicalidade inconfundível.

Ao contrário de um tempo em que o avanço tecnológico é um tanto temido por ainda inconcebíveis que pareçam suas possibilidades, o gesto de atirar-se a ele sem freios vem mesmo conferindo cada vez mais a Björk o status de sacerdotisa da tekhnè. Como ela não o recusa, pelo contrário, consegue sempre renascer e ressurgir dentro dessa perspectiva, é como se ela concretizasse o que Pierre Levy chamou no seu Cibercultura de “heterogênese virtual”.

Como poucos outros artistas parecem conseguir, ela vem mantendo em paralelo as duas vidas, como se pertencendo a dois mundos, e conseguindo trazer ao insípido mundo dos bits tantos as dores humanas de uma separação quanto a certeza de que continuaremos sendo sempre seres biológicos. Este talvez seja o grande casamento que ela tem celebrado ao longo de sua prolífica e premiada carreira (além de inúmeros prêmios musicais, ela levou a Palma de Ouro de melhor atriz no ano de 2000, por sua atuação no filme Dançando no Escuro, de Lars Von Trier): o de uma natureza incorrigível e o de uma tecnologia sempre insatisfatória, daí sua permanente renovação.

Ainda que Björk não possa ser ela mesma a síntese dessa união, e é provável que nunca ninguém venha a conseguir isso de forma completa, ela deverá ser ainda por muito tempo o seu maior ícone. É de conferir o que seu próximo disco tem a dizer sobre isso. Como emissária de um tempo ainda mal compreendido e sem contornos precisos, não é necessário a ninguém ser um seu acólito para entender a relevância do seu trabalho para a cultura da virada do milênio, afinal poucos (enquanto muitos entraram em loop) como ela paginaram tão decisivamente a inflexão que a tecnologia vem determinando ao mundo contemporâneo e, mesmo que pareça paradoxal, de forma cada vez mais indelével.

Agua escondidaAgua escondida

Agua Escondida, sem acento, é o nome de um distrito da província de Mendoza, norte da Argentina, quase fronteira com o Chile, beirando o leste da Cordilheira dos Andes. É também o nome de uma zamba composta por uma mulher, Antonieta Paula Pepin Fitzpatrick, a Nenette, esposa do compositor Héctor Roberto Chavero Aranburu, mais conhecido pelo pseudônimo Atahualpa Yupanqui.

Numa época em que a presença feminina na música argentina, especialmente a de cunho folclórico, era impensável, a pianista e compositora Paula Pepin dividiu com o marido inúmeras composições que foram celebrizadas através de suas gravações e interpretações, além de seus muitos outros intérpretes. Luna tucumana, Chacarera de las piedras, El alazán, Guitarra dímelo tú entre outras zambas, vidalas e chacareras são obras de ambos, criadas a quatro mãos.

Paula Pepin, todavia, por vezes compôs sozinha também. Assinando sob o pseudônimo Pablo del Cerro (Cerro Colorado é o local onde viveram e hoje encontra-se a Fundación Atahualpa Yupanqui – o pseudônimo alude ao lugar), ela criou algumas composições que o marido gravou também, entre elas esta Agua escondida, zamba especialmente delicada, como costumam ser as zambas, em que é notável como o andamento e a harmonia parecem dar a entender a presença de uma melodia subjacente, exatamente como água escondida.

Originalmente, as zambas são ritmos de acompanhamento à dança folclórica e seu nome deriva do quéchua zamacueca. No Chile, o nome do estilo que permaneceu foi a cueca enquanto que norte argentino consolidou-se a zamba. Outra possibilidade de explicação para o nome estaria em que as composições eram dirigidas às mulheres do norte argentino, cuja pele matizada pela cor indígena remeteria ao jambo. As zambas poderiam ser, nesse caso, corruptelas do termo.

De um ou outro modo, o ritmo é um dos mais populares da Argentina. Yupanqui, sendo um dos principais recompiladores das tradições populares, teria em suas viagens pelo interior encontrado diversas delas cantadas popularmente. Além de recompilá-las, Yupanqui também criou outras tantas, contribuindo assim para imortalizar as tradições populares locais, como era seu objetivo.

Uma confusão bastante comum que se faz a respeito das zambas é traduzi-las como se fossem o samba argentino. Exceto pela popularidade, os ritmos são muito diferentes entre si. O que pode ser apontado de comum entre uma forma e outra talvez seja a delicadeza harmônica, os arpejos alongados e contrapontos silenciosos. Mas a semelhança, neste caso, é mais perceptível com o choro do que com o samba propriamente dito. Além do mais, o acento hispânico está muito marcado no estilo, assim como em todos os demais ritmos argentinos, gatos, malambos, estilos, milongas, habaneras… Ainda que um pouco menos que nas vidalas, mesmo assim é notável o silêncio entoado da música indígena, mal soprada em queñas ou cantadas quase a boca fechada.

As zambas, portanto, estabelecem uma espécie de confluência entre a música dos gauchos do pampa e a dos indígenas e seus descendentes moradores dos desertos de Tucumán, Santiago del Estero e Cachamarca, províncias onde o ritmo prolifera abundantemente. E também importa dizer que não são uma criação de Yupanqui, já que, além dele, inúmeros instrumentistas celebrizaram o estilo em solo argentino e mundo afora, notadamente com Abel Fleury, Roberto Lara, Tito Francia, Eduardo Falu, Cacho Tirao, entre tantos outros.

Sobre Paula Pepin, ou “Pablo del Cerro”, tudo indica que não compunha ao violão, mas ao piano. Sua formação, iniciada na França e completada na Argentina, aconteceu justamente em meio a uma época de florescimento da música folclórica, do qual o futuro marido viria a ser o principal expositor.

Ela mesma, sendo um tipo de “agua escondida” sob um nome masculino, criou por si própria músicas que viriam a fixar-se mais tarde como clássicos da música popular argentina. Esta Agua escondida, nesse caso, oculta-se entre suas muitas composições; embora, em minha opinião, é a mais notável delas, tanto se executada ao piano (neste link com Hilda Herrera) ou “a las seis cuerdas“, como se pode ver na execução do violonista Carlos Roldan.

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Pelo menos aparentemente, não há muitos pontos de contato entre as influências e matizes musicais dos dois países, Brasil e Argentina. Os gêneros pelos quais são mais conhecidos, por exemplo, não poderiam ser mais distantes e antagônicos. O samba, no caso brasileiro e o tango, do lado de lá do Rio da Prata, são quase como água e azeite. É quase impossível encontrar-se algum registro que unifique os estilos.

O baiano Caetano Veloso bem que tentou, em O samba e o tango, mas não chegou a deslocar-se do ritmo brasileiro e o resultado, se não foi completamente infeliz quanto seria una pareja de Maradona com Pelé, por exemplo, não chega a ser emocionante, apesar de ser uma bela homenagem.

Então talvez fosse melhor, desde já, impetrar uma divisória cultural arbitrária entre os dois países, da mesma forma pela qual a geográfica foi imposta através de tratados forjados em guerras de fronteira. Acontece que essa tentativa também seria arbitrária e impediria de antemão que se pudesse perceber alguns elementos coincidentes na música de lá e de cá.

No Rio Grande do Sul, pelo menos, a influência mútua dos países ocorreu de forma bem mais natural do que em estados mais acima, como seria previsível. Mesmo considerando que a faixa de fronteira é pequena, há um Uruguai entre ambos os paises que, ao mesmo tempo, unifica paisagem e cultura locais. Trata-se do pampa, a planura que se estende das encostas do planalto médio que divide o Rio Grande do Sul praticamente ao meio e vai até quase ao centro da Argentina, onde começa a apontar, mais ao sul, a Patagônia.

A fronteira do Brasil com a Argentina, portanto, se delimita ao norte do Rio Grande do Sul, no contato que se dá entre o estado e as províncias de Corrientes e Misiones. E a música, nesta região específica, tem outros matizes diferentes da música do pampa, remetendo mais às influências guaraníticas comuns também a um terceiro país que está mais ou menos nas mesmas latitudes, o Paraguai. A música do Paraná e do Mato Grosso, especialmente, guarda bem mais em comum com as guaranias e chamamés dos correntinos e paraguaios que a feita no Rio Grande do Sul.

Quando conheceu a Argentina, o multinstrumentista Hermeto Paschoal declarou que se tratava de um dos únicos países com tantas variedades e estilos musicais capaz de disputar quantitativamente com o Brasil. Evidentemente, a formação étnica de ambos os países é distinta e, ao passo em que o Brasil absorveu a intensa musicalidade da herança africana matizada com a música europeia, os argentinos obtiveram dos espanhóis e dos povos indígenas locais o fermento para a sua expressividade sonora, já que a presença africana por lá sempre foi reduzida, comparando-se ao Brasil.

Assim, de forma muito elementar, é possível dizer que é por essa razão, por essa influência diversa, que mesmo a música contemporânea dos dois países não costuma encontrar-se com frequência. Com exceção de alguns nomes internacionais como Fito Paez, Charly Garcia ou Pedro Aznar (ou de Mercedes Sosa, que gravou o repertório de muitos compositores da música popular brasileira nas décadas de 1970 e 1980 e tornou-se uma espécie de ícone continental), não é tarefa das mais fáceis constatar essa aproximação.

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Acompanhante preferencial da música popular, o violão conta, tanto lá quanto aqui, com excepcionais expositores e isso no que diz respeito tanto ao que se refere à execução como à composição, evidentemente que mantidas as diferenças estilísticas de cada um.

Se no Brasil foram o samba e o choro que notabilizaram o virtuosismo de gênios das seis cordas como Dilermando Reis, Baden Powell, Raphael Rabello e tantos outros, a guitarra criolla alcançou sua máxima expressividade, sobretudo nos gêneros folclóricos que, a partir da década de 1940, foram objeto de intenso trabalho de recompilação histórica. Isso aconteceu não somente na Argentina, mas também no Chile e Uruguai, chegando ao sul do Brasil mais ou menos na mesma época, mas não necessariamente com as mesmas influências.

A profusão de estilos folclóricos e as características geográficas e humanas argentinas fazem do país um imenso universo musical, apesar de que o tango portenho tenha sido alçado como exemplo por excelência de sua musicalidade. Acontece que mesmo o tango tem origem nos arrabaldes de Buenos Aires (e de Montevideo também), para onde foram viver pessoas do interior do país, trazendo seus sotaques, motivos e sonoridades. A milonga, gênero tipicamente pampeano, pode-se até dizer que contribuiu em cerca de 70% na formação do tango. Os outros 30% talvez digam mais respeito à influência europeia, sobretudo a italiana, além das próprias transformações que o estilo sofreu ao transformar-se em símbolo internacional, principalmente pela voz e imagem de Carlos Gardel.

No tango, porém, a guitarra criolla é praticamente secundária, quando não ausente. Foram o bandoneon, o piano e até o violino que acabaram por definir sua entonação mais conhecida; principalmente o bandoneon, marca evidente da influência europeia, que universalizou-se em um segundo momento através da obra magistral de Astor Piazzolla. Apesar disso, em muitas composições, é o violão o instrumento de composição, principalmente naqueles tangos compostos popularmente.

Encontrar choros igualmente delicados como a zamba de Paula Pepin, Agua Escondida, também é tarefa de relativa simplicidade. Talvez o próprio Delicado, de Waldir Azevedo, seja o exemplo perfeito para isso, mas este foi criado para cavaquinho. Mas é facílimo lembrar também dos clássicos choros de Ernesto Nazareth, João Pernambuco, Garoto, Pixinguinha e a lista interminável de compositores do ritmo brasileiro. Mesmo que sejam ambas tradições musicais que se mantém através de novos instrumentistas, não são muitas as novas gravações, principalmente no caso do choro brasileiro.

Coincidentemente, é um gaúcho, o violonista Yamandu Costa, que vem fazendo a seu modo a ponte entre os estilos, mesclando tanto as influências platinas quanto o samba e o choro. O resultado nem sempre é suave e delicado, pois como se sabe, Yamandu é um instrumentista vigoroso. O que importa saber é que um violonista do seu porte está fazendo justamente o que me propunha a fazer pelas palavras, ou seja, a aproximação entre duas tradições musicais tão distintas quanto identificadas com as seis cordas.

No disco Mafuá, na faixa título, Yamandu mostra a exuberância de sua técnica em um choro desgovernado. Em outro mais recente, Continente, há inclusive uma homenagem a Atahualpa, na faixa Don Atahaulpa. Além de evidenciar uma influência já sabida, é um momento em que se pode perceber de onde vem a suavidade que há, também um pouco escondida, no violão de Yamandu. É quando ele deixa de ser um pouco violão e soa, talvez, um pouco mais como guitarra.

Não costumo fazer disputa entre minhas preferências musicais, como se gostasse “mais” disso que daquilo. Para mim, a graça da música é justamente a diversidade estilística e a proliferação de melodias e harmonias encontradas pela expressividade de compositores e instrumentistas. Resumir essa riqueza como se a uma disputa de seleções, mesmo que entre Brasil e Argentina, é o mesmo que fechar os olhos para a evidência de que tanto os hermanos compõem com delicadeza quanto os brasileiros exageram, às vezes, no riscado.

Só não deixa de ser curioso que a zamba Agua Escondida tenha sido composta por uma mulher que precisou inclusive ocultar-se em meio a uma cultura eminentemente masculina para divulgar seu trabalho. Evidentemente, não é essa a razão de sua preciosidade, mas isso serve, de certo modo, para demonstrar que, mesmo sob culturas dominantes, criam-se preciosidades. O violão ou a guitarra criolla, lá ou aqui, por ser o instrumento popular por excelência, parece mesmo talhado a entoar o inaudito e o secreto entre o intenso e inevitável ruído ao redor.