Heterogêneses de Björk

Dos músicos em geral é costume dizer que estão preparando novos discos, mesmo que em boa parte dos casos trate-se, a bem da verdade, em coleções de singles que nem sempre guardam entre si uma sonoridade comum ou identidade. Já quando se fala que é Björk quem está preparando algo novo, não se pode pensar apenas num disco, deve-se alargar de imediato a expectativa sobre esse “algo”, além de procurar-se não classificá-lo prematuramente. Pois Björk está lançando seu novo algo em forma de álbum: é o décimo primeiro de sua discografia. Mesmo sem contar ainda com nome ou capa, a islandesa o anunciou recentemente, no começo de agosto, em suas redes sociais.

Desde o último equinócio de setembro (21/09/2016), ao mesmo tempo em que se preparava para iniciar na Somerset House, em Londres, uma exposição imersiva em realidade virtual de parte do seu repertório, entre 1 e 23 de outubro, Björk subiu ao palco do Royal Albert Hall, também em Londres, para o que talvez fosse melhor chamado por “aparição”, ao invés de um show. Foi quando começaram a desenhar-se algumas das sonoridades que estão prestes a se materializar neste seu novo álbum, ainda inominado.

Ali, como uma sacerdotisa que há tempos logrou por meio dos seus experimentos conceituais unir a um tempo só a mais avançada tecnologia e a mais recôndita biologia, usando uma máscara luminosa e vestindo o que pareceu a Neil McCormick, do Telegraph, uma flor ou uma anêmona marinha, ela cantou músicas do seu mais recente disco, Vulnicura (2015) e também apresentou inéditas acompanhada apenas pela orquestra de cordas “Aurora”, sem mais artefatos tecnológicos. Em Vulnicura, disco no qual registrou os momentos derradeiros de seu relacionamento com o cineasta e artista plástico Matthew Barney, há quase uma liturgia sentimental dando conta de uma experiência demasiadamente humana que colocou em evidência, bem mais que nos trabalhos anteriores, a pessoalidade intrínseca da islandesa. É como se a experiência tivesse minado um pouco do apelo quase extraterreno da estética da cantora e de sua obra.

Neste novo disco, por declarações em entrevistas e em suas redes sociais, Björk parece que investirá em sonoridades mais amenas e introspectivas, reflexo direto do seu novo momento de vida. Ainda assim, ela tem dito que seu processo criativo continua basicamente o mesmo, nascendo de longas caminhadas que empreende nas montanhas da Islândia, sua terra natal. Certo que, por isso mesmo, é possível contar-se desde já com melodias decompostas e tão estranhamente eficazes quanto as de seus discos anteriores. Também não se deve imaginar que ela repetirá no registro de estúdio a fórmula acústica de suas aparições ao vivo. É dessa síntese ambiciosa, aliás, entre a natureza mais intratável e a tecnologia mais virtual, que ela consolidou ao longo das últimas décadas a sua peculiar sonoridade: insuportável para muitos e objeto de veneração para outros tantos.

Não é nenhuma novidade para seus admiradores diletos encontrar na paisagem sonora proposta por Björk argumentos comunicativos ao mesmo tempo áridos e biológicos. Eles estão presentes desde seus tempos mais ligados ao acid e ao trip-hop da banda Sugarcubes e que vão se encontrar, mais tarde, com o que se pode chamar de reestreia da cantora. É com Vespertine (2001) que ela finalmente consolida o casamento entre a sonoridade esdrúxula dos cânticos viscerais do folclore nórdico e as vertentes tecnológicas da música eletrônica no nascente século XXI, emplacando singles (e escândalos) com os clipes de Cocoon e Pagan Poetry (em função de cenas de nudez e de uma possível conotação sexual). Neste mesmo ano, ela e Matthew tiveram a filha Isadora, cuja guarda vem sendo disputada pelo ex-casal desde a separação, em 2013.

Por outro lado, entre seus muitos detratores, há quem acuse a cantora de estar sempre buscando os holofotes da mídia. Isso principalmente desde que, na premiação do Oscar em 2001, surgiu no tapete vermelho trajando um vestido que mimetizava um cisne cujo longo pescoço enlaçava o seu. Também o uso de uma panaceia eletrônica de seus áudios e vídeos é motivo de recorrente simplificação, debitando-se a isso o que poderia ser uma clausura de estilo. Talvez por isso mesmo, para contrariar seus críticos, ela eventualmente lance-se em aparições inteiramente acústicas, como esta recente no Royal Albert Hall. Se há, de fato, uma fetichização do tecnológico em Björk, também é inegável que seu uso não é casual, mas cumpre diversos objetivos estéticos como a fuga ao simples e a constituição de uma performance contínua na qual às vezes ela consegue situar-se no futuro insondável, ao invés de simplesmente adotar a repetição de motivos desgastados e bem conhecidos pelo pop.

Nessa cruzada, muitas tecnologias passaram pelo seu olhar e pela sua manipulação. Desde filmagens obtidas no interior do seu corpo, como em Mouth Mantra, até a extensa materialização espacial de Oceania sempre com o apoio de referências experimentais, como a poesia do norte-americano E. E. Cummings ou músicos da vanguarda hi-tech, ela agora parece querer ir desaguar seu arsenal criativo no terreno da realidade virtual. Na sua exposição, atualmente em Londres e que deve percorrer cidades da Europa e de outras partes do mundo, óculos de VR são distribuídos aos visitantes que são convidados a imergir hipersensorialmente no seu universo criativo. E, para além disso tudo, há sempre a sua musicalidade inconfundível.

Ao contrário de um tempo em que o avanço tecnológico é um tanto temido por ainda inconcebíveis que pareçam suas possibilidades, o gesto de atirar-se a ele sem freios vem mesmo conferindo cada vez mais a Björk o status de sacerdotisa da tekhnè. Como ela não o recusa, pelo contrário, consegue sempre renascer e ressurgir dentro dessa perspectiva, é como se ela concretizasse o que Pierre Levy chamou no seu Cibercultura de “heterogênese virtual”.

Como poucos outros artistas parecem conseguir, ela vem mantendo em paralelo as duas vidas, como se pertencendo a dois mundos, e conseguindo trazer ao insípido mundo dos bits tantos as dores humanas de uma separação quanto a certeza de que continuaremos sendo sempre seres biológicos. Este talvez seja o grande casamento que ela tem celebrado ao longo de sua prolífica e premiada carreira (além de inúmeros prêmios musicais, ela levou a Palma de Ouro de melhor atriz no ano de 2000, por sua atuação no filme Dançando no Escuro, de Lars Von Trier): o de uma natureza incorrigível e o de uma tecnologia sempre insatisfatória, daí sua permanente renovação.

Ainda que Björk não possa ser ela mesma a síntese dessa união, e é provável que nunca ninguém venha a conseguir isso de forma completa, ela deverá ser ainda por muito tempo o seu maior ícone. É de conferir o que seu próximo disco tem a dizer sobre isso. Como emissária de um tempo ainda mal compreendido e sem contornos precisos, não é necessário a ninguém ser um seu acólito para entender a relevância do seu trabalho para a cultura da virada do milênio, afinal poucos (enquanto muitos entraram em loop) como ela paginaram tão decisivamente a inflexão que a tecnologia vem determinando ao mundo contemporâneo e, mesmo que pareça paradoxal, de forma cada vez mais indelével.

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“Como podemos nos entender (…), se nas palavras que digo coloco o sentido e o valor das coisas como se encontram dentro de mim; enquanto quem as escuta inevitavelmente as assume com o sentido e o valor que têm para si, do mundo que tem dentro de si?”

Luigi Pirandello – Seis Personagens À Procura de Um Autor (1921)

Talvez por um distanciamento ainda muito tênue, tudo o que tem se dito (e se diz muito, o tempo inteiro) a respeito da comunicação após o advento das redes sociais é bem menos relevante do que as ciências sociais e a filosofia disseram sobre comunicação de um modo geral antes desse grande divisor de águas que fundou como se uma nova internet dentro da internet. Aqui estou dizendo das modernas redes sociais, das redes comerciais como Twitter, Facebook, Instagram e não as redes de conhecimento e inteligência social tal como começaram a pipocar no mundo inteiro em torno da década de 80, apogeu do Telnet, do Alternex e quando os primeiros navegadores da incipiente world wide web penavam para carregar as primeiras imagens e fotografias de um meio até então restrito exclusivamente aos textos e aos infindáveis comandos exigidos pela sintaxe pré-Macintosh.

Então, embora presentemente diga-se muito a respeito de coisas como identidade, sociedade de massas e conectividade, uma visita rápida aos trabalhos de Jean Baudrillard, de Pierre Lévy e até mesmo dos seminais Erving Goffman e Marshal McLuhan pode ser muito reveladora sobre fenômenos que na aparência são recentes, mas que, na verdade, podem apenas estar representando a continuidade dos sistemas de comunicação que vêm se estruturando ao longo de todo o séc. XX, desembocando na profusão da concomitância de tudo, na massificação digital de um modo geral, como esta com a qual lidamos agora.

Desde a popularização dos computadores pessoais ou, desde mais cedo, da proliferação desembestada de dispositivos portáteis, soube-se que o mundo como era conhecido antes nunca mais seria o mesmo. O mesmo já havia acontecido com outros marcos comunicativos anteriores, como o advento da televisão, do rádio, dos jornais, da imprensa de Gutenberg e assim por diante. E embora esse pareça ser apenas mais um lugar-comum, o pingo de verdade que há em dizer que o mundo nunca é o mesmo é sempre ao mesmo tempo alentador e assustador. Alentador porque a mudança e a novidade sempre podem se encontrar na perspectiva positiva da esperança. Mas assustador porque temos nos acostumado a pensar o futuro como se condenados a distopias nas quais o humano costuma estar fora de controle do próprio humano e a tecnologia, divinizada, determinando ao seu bel prazer a nossa sorte enquanto espécie. A literatura de ficção, o cinema e mais recentemente os seriados veiculados em streaming media aí estão para não me deixar mentir.

Ocorre que, sem o surgimento das redes sociais, a internet não seria muito mais do que um citoplasma impreciso cujos elementos internos mal se comunicariam ou então o fariam de forma bastante precária e ocasional. Faltava injetar-se no interior dessa célula algum elemento de aderência, pois a instantaneidade por si só não caracteriza um potencial comunicativo, mas apenas um estado de pré-disposição. Pois a escalada das redes sociais no ambiente internet ocorreu, como se sabe, de forma galopante e incorporou com a mesma velocidade com que se expandiu essa função aderente, passando-se rapidamente dos obscuros fóruns e listas de e-mail até o escancaramento total do Facebook, incluindo aí outras plataformas de maior ou menor durabilidade, muitas hoje extintas ou decrépitas, como o Orkut, por exemplo.

E o mundo realmente parece ter mudado bastante a partir do apogeu do Facebook entre as redes, embora seu fundador, Mark Zuckerberg, costume exagerar bastante nos poderes que sua trademark tem per se. Recentemente, num manifesto (ou textão de Facebook), ele chegou a cogitar que sua iniciativa comercial poderia incidir decisivamente para resolverem-se problemas com que historicamente a humanidade tem se debatido, tais como a paz global, a fome, a pobreza, o progresso científico, ou seja, praticamente tudo o que importa, revigorando a já um tanto combalida ideia mcluhaniana de aldeia global.  Para ele, o valor da rede de sua propriedade já teria alterado inclusive seu próprio status inicial: não se trataria mais de uma mera rede sustentada por anúncios, mas de uma comunidade global, supranacional, colaborativa, solidária e altruísta. Bem como uma imagem distorcida, mas autobenevolente, o mundo como o conhecemos estaria, segundo Zuckerberg, rumando para uma nova etapa na qual o trivial “like” (ou melhor: 4,5 bilhões like/dia) propulsionaria o que há de melhor na natureza humana em prol das melhores intenções e realizações. Isso sem falar na ajudinha providenciada pelos robots e algoritmos a serviço da inteligência artificial e, por que não dizer? Até mesmo do seu conteúdo patrocinado e colaboradores…

A questão de embutir no futuro do seu empreendimento o caráter de uma utopia solidária, além de um marketing poderoso, é provável que cumpra também a função de dar a entender que os males do mundo tal como ele é poderão mesmo resolver-se assim: de forma remota e impessoal. É uma ideia que vem muito a calhar com pessoas cada vez mais apartadas dos espaços públicos e confinadas em espaços privados. Mas é a respeito desse caráter impessoal que o Facebook se mostra extrememente eficiente em aparentemente contorná-lo e colaborar em “humanizar” seus usuários, pois através das suas específicas subredes (para não usar o surrado termo “bolhas”) de confirmação, estimula-se pelo menos de forma verbal a convergência de ideias, de intenções e até de ideologias, mesmo que elas venham a converter-se rapidamente em objetos de consumo nas suas diversas formas e fenômenos “compartilháveis”: sejam simples memes, longos textos de fontes influenciadoras ou outros subprodutos.

De um modo um pouco diferente da distopia de Aldous Huxley, o admirável mundo novo da informação das redes sociais é uma ficção que não nos aperta muito os calos, muito pelo contrário, chega a ser prazeroso, pelo menos para aqueles que conseguem manter-se a salvo da crescente onda de dependência tecnológica, fenômeno que fez proliferar mundo afora as até há pouco inimagináveis rehabs digitais. Ocorre que, após as redes sociais, o virtual tornou-se por excelência o mundo da representação, como se um pano de fundo no qual cada um é livre para montá-lo com as peças e links que lhe estão disponíveis e de acordo com a sua preferência.

É de ficção ou de uma série embaralhada de muitas ficções que, portanto, é feito o mundo virtual. Ao contrário de engajamentos reais onde bens ou moedas são trocados, a dinâmica preponderante no ramo das redes comerciais é essencialmente declarativa (e será para sempre gratuita). E é até irônico que, no jargão do Facebook, “engajamento” signifique tão somente o produto de likes, shares e visualizações de determinado conteúdo. Por outro lado, não existe qualquer meio de certificação sobre a qualidade do empenho de um pensamento ou de um gesto de seus usuários, quaisquer que sejam eles. Assim como a intenção de confirmação, o livre falsear está franqueado e, para ampará-lo, uma poderosa indústria noticiosa (onde se incluem fake news e agentes comunicativos de segunda e terceira ordens) fornece o combustível permanente de hiperinformação, sem falar nos grandes vórtices de formulação: formadores de opinião e fontes assentadas na credibilidade, como a mídia tradicional, indústria de entretenimento e agentes institucionais.

Trata-se de um embaralhamento difícil de mensurar e do qual emergem narrativas tão múltiplas e assimétricas como inequiparáveis, realizadas ao bel prazer de qualquer pessoa. E assim, galgando-se o meio virtual através da sucessiva e infinita proliferação de informações, percebe-se às vezes muito claramente o ruído imenso que é gerado através da reverberação continuada do entrechoque das ideias e também do prolongamento da propagação de ideias idênticas, mesmo se formuladas de diferentes maneiras, reformuladas ou remixadas.

Da confluência do ruído proveniente deste intenso êxtase comunicativo (bem como Jean Baudrillard previu em meados dos anos 80, em As Estratégias Fatais) é um tanto quanto inevitável que se evidenciem sinais de exaustão do próprio modelo, porque nele não é registrado o tempo da escuta e o da leitura (que não são percebidos na interlocução), mas apenas o da expressão deliberada e, em sua ausência, um grande vazio de percepção e de sentido. É que aí está o ônus da comunicação escrita: uma precariedade de formato, de ilocução e de formas de avaliação e comparação, travadas pelas formas comunicativas do meio. Formas nas quais nunca é dado aos interlocutores avaliar a integralidade do efeito das trocas intersubjetivas. Isso porque, em última análise, é de subjetividades que se está a falar, pelo menos enquanto não se considerar o aporte e intervenções diretas de mecanismos de inteligência artificial.

Dado que qualquer convencimento extremado pode muito rapidamente transformar-se em aborrecimento continuado e as estratégias de persuasão, principalmente aquelas dirigidas aos conteúdos comportamentais e políticos, converterem-se em policiamento do outro embutido de propósitos colonizadores, a intenção comunicativa apenas cumpre seu objetivo na medida em que os interlocutores compartilhem, além do mesmo repertório, a mesma perspectiva, compreensão e significantes. Em caso contrário, o que prospera é o efeito adverso do conflito e o consequente dissenso. Além disso, é preciso considerar que os indivíduos conformam seus repertórios a partir de necessidades e interesses muito particulares, evitando-se quaisquer outras perspectivas e proposições que possam contradizer a identidade ideológica do indivíduo e dos acertos coletivos que ele tem para com sua rede de contatos. Nesse ponto é interessante notar o quanto as redes sociais comercias são pouco transparentes, pois se não se pode saber nada a respeito do que um indivíduo “não curte” ou “discorda”, pode-se conhecer, por outro lado, todo o seu histórico assertivo. Há, portanto, um sem número de informações negativas não computadas nem registradas, mas evidentemente percebidas na “comunidade”.

Tomando-se, por exemplo, o mais fragoroso dos debates do mundo virtual, o debate político, é notável a pouca permeabilidade de opiniões e a intensa evasão de informações que se pratica e exprime, principalmente ao deliberar-se por enunciar um ponto de vista sempre empedernido, pétreo mesmo, o qual pouco se dá a dialogar, embora sempre muito a confirmar. Segundo o professor George Loewenstein, especialista em consumo e comportamento da Universidade Carnegie Mellon (EUA), a opção “seletiva” não significaria outra coisa que um processo de garantia do bem estar, pois seria bem mais natural e seguro manter-se a salvo dentro de uma zona de conforto do que arriscar-se aos debates. Daí a deliberadamente evitar-se informações contraditórias é um passo dos menores e que requer pouco ou nenhum esforço; basta, como ele diz, “evadir-se”. O que interessa observar em seu estudo é que, nessa dinâmica de comportamento, o encapsulamento das redes acaba por competir no esvaziamento do potencial comunicativo e numa dinâmica comunicativa viciada que pode inclusive tornar as pessoas menos capazes de conviver com ideias e opiniões diferentes.

Bem, apenas por isso, todo o arrazoado de Zuckerberg, bem como as ideias de muitos teóricos que desejariam ver nas redes o substrato e a trama de uma nova política, mais transparente e acessível, fica bastante comprometido. Manuel Castells, sociólogo espanhol que esteve muitas vezes no Brasil divulgando suas ideias a respeito da sociedade em rede e autor de uma dezena de livros sobre o assunto, já disse algumas vezes acreditar que a sociabilidade humana se encontra a salvo por causa da internet. Segundo ele, a dinâmica comunicativa da internet contribuiria inclusive para diminuir efeitos nocivos da vida contemporânea, como o stress e a depressão.

Por outro lado (aqui no afã de preservar-se a opinião discordante), o historiador israelense Yuval Nohal Harari, autor dos sucessos de vendas Sapiens – Uma História da Humanidade e Homo Deus – Uma Breve História do Amanhã , traz um opinião bastante diferente. Entre as muitas especulações que Harari faz em seu mais recente livro, ele que não possui sequer uma conta no Facebook, considera que a idolatria da informação pode vir a ser a dinamite fatal do humanismo, principalmente na substituição do humano pelas tecnologias de inteligência artificial e por uma nova reconfiguração da natureza humana, do saber e das relações. Para ele, a internet ser inteiramente benéfica não é outra coisa que a ficção preferencial do tempo atual, assim como outras ficções já serviram a propósitos específicos na história da humanidade. O que mais chama a atenção nas suas ponderações é, de outro modo, o esfarelamento da noção de livre arbítrio e o quanto a tecnologia poderia cumprir o papel de arregimentar as pessoas através de seus inúmeros dispositivos, ludibriando os sentidos e alterando e modificando inclusive as consciências.

O mais interessante de todo o debate em torno dos potenciais da tecnologia e da comunicação tem residido, talvez, é mesmo na disposição mais subjetiva e intrínseca do ser humano. Estejam certas ou equivocadas as suposições de todos os interessados no assunto (é bem possível que não estejam inteiramente certas nem inteiramente equivocadas), o fundamento essencial é o indivíduo e a sua capacidade de interagir e incidir em relação à informação e a outros seres humanos, para além do mundo material ou do virtual. Se as redes comerciais serão mesmo utilizadas para um ainda maior confinamento de ideias e pessoas, além da elaboração de um arsenal infinito de big data com finalidade imprecisa ou, por outro lado, poderá ser o substrato ideal para que se propiciem soluções para os males que a humanidade enfrenta e ainda enfrentará, cria-se um paradoxo dos mais cruciais: o de que as pessoas acabem tornando-se apenas umas o espetáculo das outras e não mais o seu objeto de interesse efetivo e de ação, interditados pelo distanciamento intersubjetivo.

Por outro lado, de posse da certeza de que a efetividade da comunicação se dá bem mais pela vontade das pessoas, pela prontidão de seu aparato perceptivo e por suas capacidades emissivas e interpretativas do que exatamente por uma disponibilidade dos meios, é bastante possível que os problemas comunicativos de hoje sejam muito semelhantes aos de nossos antepassados. E se é possível que se possa mesmo, como alguns temem, virmos a rumar a qualquer momento a uma espécie de colapso comunicativo, isso deverá ocorrer bem menos em função do choque de opiniões do que por uma tendência natural do ser humano em simplesmente não dar o braço a torcer, principalmente em face de prejuízos morais ou ideológicos.

Caso um meio, seja ele analógico ou digital, tenha sido tramado para favorecer valores individuais e aspectos, digamos, mais egotistas do ser (o que seria uma timeline se não esse repositório de autorreferências?), da união de vários indivíduos em torno dessa forma comunicativa inadvertidamente pode advir justamente uma comunidade de seres autocentrados e, paradoxalmente, pouco comunicativos. Como em uma rede ou em qualquer contexto coletivo não está em ninguém individualmente dosar a oferta de informações, o único que resta possível é admitir-se que o ato de comunicar pode ter sido e ainda vir a ser muito facilitado pela tecnologia e seus recursos, mas a comunicação em si mesma ainda depende de mútuo entendimento e o mínimo de consideração pelas diferenças culturais dos envolvidos.

Prova um pouco que essa tendência é muito anterior às redes sociais o registro dessa dificuldade comunicativa ao longo da história. Se filósofos e cientistas sociais eventualmente debruçaram-se direta ou indiretamente sobre estas questões, escritores também o fizeram, mesmo que sob formas literárias. Entre tantos na história da literatura, o próprio autor da epígrafe desse texto, o italiano Luigi Pirandello, já notara no começo do séc. XX que, bem como a comunicação e a incomunicabilidade, o individualismo e a bisbilhotice também são essencialmente humanos.

As redes sociais comerciais, enfim, também estão aí para que cada um possa confirmar isso (ou não) e evitar que especulações como essas pareçam mentira deslavada ou franco delírio. Isso pelo menos até que outro modelo de rede tome o lugar das atuais (e isso fatalmente deverá acontecer uma hora dessas). Um requisito interessante, neste caso, talvez fosse o de qualificar o próprio engajamento comunicativo e afetivo, pois da aprendizagem das redes o que mais se tem podido depreender são informações deturpadas, engajamento precário, um certo culto à indiferença e um pendor mal disfarçado à evasão de informações. De qualquer forma, é bem interessante pensar que, sendo isso tudo apenas uma radiografia do comportamento humano contemporâneo, talvez ainda haja muito a ser feito em prol da comunicabilidade e das próprias pessoas que não apenas mais e mais mediação tecnológica.

Poesia, sua desgraçadaPoesia, sua desgraçada

Para mim é triste lembrar isso, mas conheci o nome de Orides Fontela acho que em uma referência a ter sido “mais um poeta a morrer na pobreza”, não me lembro exatamente onde, pois é tema dos mais recorrentes. Embora muita gente pense nessa combinação com certa reverência, a mim sempre invade uma tristeza muito grande quando me deparo com essa associação. Mais ainda quando referida antes do que a qualidade de uma obra poética magistral como a de Orides.

Ela, que há alguns poucos anos (porém mais de uma década após a sua morte) recebeu da Ed. Hedra uma edição à altura da sua obra completa (org. por Luis Dolhnikoff), ganhou também um volume biográfico (por Gustavo de Castro) que, mesmo entrevendo a vida bastante dura que teve, o fez com muita delicadeza e competência. Além disso, acompanha o volume biográfico uma coleção de inéditos da poeta, o que é um deleite à parte, além do que parece ser sua única anotação filosófica a respeito da poesia, reproduzida bem ao final do volume.

Os poucos poemas dela que eu conhecia, publicados em meados dos anos 70, muito haviam me impressionado anteriormente, mas como só recentemente editoras têm voltado a realizar a compilação e publicação de obras completas de poetas (para a desgraça dos bibliófilos pobres como eu), pude colocá-la ao lado de outros poetas contemporâneos seus de quem gosto muito e, provavelmente por ignorância minha, só agora percebo a força e a imensidão de sua obra.

Que outros poetas por quaisquer outras razões não tenham precisado enfrentar suas mesmas condições de vida só me faz pensar que são exceções neste país que costuma remunerar muito melhor outras opções e vocações, além de práticas escusas, criminosas ou vexaminosas. Por alguma razão que não compreendo bem, isso em algum momento foi se tornando aceitável e naturalizando-se como incontornável, quando se trata em absoluto de uma opção consagrada pela classe política e avalizada periodicamente por toda a cidadania. Isso só torna, aliás, tudo ainda mais incrível e inacreditável.

Apenas que a mim há muito tempo soa insuportável a associação e uma certa mitologia a respeito da poesia e dos poetas com a vida desgraçada, com a pobreza, com o alcoolismo, com a drogadição, a loucura e assim por diante. Quando deixa de ser suficiente (ou sai de moda) o desregramento dos sentidos, começa-se a precisar então do desgraçamento biográfico, como se dele dependesse a qualificação da obra ou isto sempre a ela se antepusesse. Não fosse esse reconhecimento costumeiramente póstumo, bem como a atenção editorial, estaria tudo bem. Porém, antes que tudo isso aconteça, a desgraça precisa estar completa.

Esse é uma espécie de apreciação da poesia que eu considero um tanto quanto doentia. E eu até tento, mas não encontro outra palavra mais adequada. É como se, antes de conhecer a poesia e a própria pessoa, por alguma razão fosse fundamental certificar-se de que se trata de alguém desgraçado o bastante ou que isso fosse, sabe-se lá por que razão, relevante investigar.

Se não duvido nem um pouco que uma vida atribulada no plano psíquico ou material possa realmente conferir maior densidade existencial a um trabalho artístico, tal relação não pode ser arbitrária e nem muito menos constituinte do aspecto criativo/expressivo de quem quer que seja. Há sem dúvida um interesse quase místico nessa associação, mas o caso de Orides é revelador nesse sentido. Ao morrer, Orides era professora primária aposentada e isso, no Brasil, representa muito mais uma condenação às dificuldades financeiras do que propriamente a poesia conseguiria. Como se sabe bem, na história brasileira a poesia ocorreu também entre carreiras públicas menos desafortunadas, tais como a diplomacia, o ensino superior e outras mais. O mesmo vale para as atribulações da vida como, por exemplo, a dependência alcoólica. Entretanto nestes casos menos afetados pela pobreza, isso curiosamente é bem menos lembrado e evocado.

De minha parte, no caso de Orides, considero algo pusilânime associar-se às condições precárias da sua vida à poesia. Como qualquer um pode imaginar, não existe comprovada relação entre dinheiro e poesia, a não ser para quem pense sustentar-se justamente com os menos vendidos entre todos os livros. Mesmo que isso não fosse uma má ideia de todo, parece cada vez mais improvável que venha a acontecer algum dia de pelo menos um poeta sequer conseguir manter-se com o produto do seu trabalho. Como é típico nas culturas rudimentares, a poesia, mesmo que não seja literalmente punida como em Brodsky por Kruschev, inacreditavelmente ainda é associada à vadiagem. Daí que dizer que um poeta morrer pobre parece ter se tornado ao longo do tempo uma espécie macabra de tautologia. Mas será que não se percebe que isso compete em uma ainda maior desvalorização generalizada do fazer poético? E o que dizer da insinuação tácita de que a criação poética ocorre sob a desgraça, como se decorresse dela e não pudesse ser por si só um momento de realização ou felicidade?

Embora eu nunca tenha ouvido falar a respeito de algum poeta notável pela ambição financeira ou autodeclarado amante da acumulação, é possível, sim, que em algum lugar exista ou tenha existido. Quanto a Orides, importa saber que seu despojamento foi muito além das questões materiais. Seu interesse e filiação ao zen-budismo não comprova outra coisa que um desejo profundo por limpidez e desbastamento do desnecessário. Seus motivos silenciosos de quem vivera acostumada a longos períodos de solidão fizeram-na como um sopro de vento acontecendo lado a lado ao rumor de escolas, movimentos e tendências poéticas que se estabeleceram na história literária quase como fenômenos sociais autônomos.

Ao fim de tudo, restou a sua poesia mais que um manifesto ou mesmo uma declaração da poeta em prol de uma estética ou, vá lá, cosmogonia. A pobreza, e isso só pode acontecer mesmo é na poesia, é mero detalhe que nunca chegou perto do imenso tesouro de tenazes delicadezas que Orides criou e publicou ao longo de sua vida. Seus poemas, frutos talvez de sua intimidade para com a filosofia, têm uma simplicidade avassaladora e uma musicalidade interna à palavra, essencial, como se proveniente mais de seu miolo do que da casca externa das metáforas, hipérboles e demais figuras com que se costuma encobrir os significados poéticos.

Para quem a criação poética era mais fruto de uma opção do que uma intercorrência, Orides sabia melhor do que ninguém e porque a pobreza lhe acontecera. Disse ela em entrevista reproduzida no volume biográfico:

Uma mulher, professora primária, pobre, sem marido, poeta, neste país, não é possível. (…) Tive que escolher o menor dos males. O menor mal possível é ser pobre e sozinha. E o maior bem possível sempre foi a poesia.” (Castro, Gustavo de. O enigma Orides. São Paulo: Hedra, 2015. p. 47

Quem desejar confundir isso ao seu legado e fizer questão de erigir antes de qualquer outra essa memória, afinal só pode mesmo estar obcecado por entender a vida e a obra de um poeta como curiosidade de almanaque. A estes, eu apontaria sem grande dificuldade muitas outras situações onde a pobreza é responsável por obras tais como a violência, a miséria humana e horrores tais. E, aproveitando a ocasião, perguntaria por que tanta obsessão em imbricar poetas e a criação poética a uma ou muitas espécies de necessários destinos trágicos. Eu penso que não teria maiores dificuldades em apontar uma coisa de cada vez. Aqui, a poesia. Acolá, a pessoa. E o destino, ora, infelizmente o destino não existe. No mais das vezes e ainda que isso seja uma advertência das mais tardias, ele costuma ser a expressão do desejo ou de projeções alheias. Nada que efetivamente interesse à poesia, muito menos à límpida poesia que Orides Fontela nos deixou.

_________________________________
Alguns dos poemas do livro.

ERRÂNCIA  – p. 223

Só porque
erro
encontro
o que não se
procura

só porque
erro
invento
o labirinto

a busca
a coisa
a causa da
procura

só porque
erro
acerto: me
construo.

Margem de
erro: margem
de liberdade.

O ANTI-CÉSAR – p. 246

Não vim.
Não vi.
Não havia guerra alguma.

GATHA – p. 255

O vento, a chuva, o Sol, o frio
tudo vai e vem, tudo vem e vai.
Tenho a ilusão de estar sonhando.
Tenho o manto de Buda, que é nenhum.

Myosen Xingue
(Meu nome como leiga zen-budista)

DRAGÃO – p. 274

Do amor sem
fundo
– do
___inominável –

o dragão: raio
__________densa
__________energia
__________ascende

e ao
sacro
ímpeto
que amor
resiste?

Rasgam-se os
véus
do inominado.

No clinch, com Eliane BrumNo clinch, com Eliane Brum

meusdes

Há livros que jamais deveriam ser resenhados, principalmente aqueles que tratam da subjetividade de seus autores. Além de não existir forma possível ou tamanha de abordar a subjetividade de quem quer que seja, há livros que parecem ser exclusivos para a leitura. Deveriam ser apenas lidos e os leitores deveriam dar-se por satisfeitos em apenas receber o seu conteúdo, seja ele um afago ou um cruzado no queixo. E abster-se de comentá-lo, pelo menos tanto quanto possa. Poucas horas depois de conhecer o novo livro de Eliane Brum, Meus desacontecimentos – a história da minha vida com as palavras, entretanto, já me sabia traído em minhas próprias ressalvas e crenças.

Imagine por um instante que você é um fã de boxe e lhe oferecessem a oportunidade de encarar os golpes de um Mike Tyson ou um Muhammad Ali, por exemplo. Qual atitude tomar? Fintar? Esgueirar-se? Tremer de medo? Fugir? Bem, se o exemplo fosse transposto ao papel de um leitor diante de um livro, meu desejo seria o de justamente procurar receber, na carne, os melhores golpes possíveis. Nada menos que isso. Mesmo que isso acontecesse inadvertidamente ou, melhor, principalmente nesses casos.

Se a leitura jornalística é muitas vezes indolor, sem falar de quando é apenas insípida, a literatura – especialmente a de cunho biográfico e subjetivo – tem outra característica. Conheço poucos escritores de quem nunca li um texto insípido e Eliane Brum é uma dessas pessoas. Não sei se conscientemente ela procurou afastar-se dessa qualidade de texto, mas minha intuição diz que o logrou apenas por não ter evitado a dor e por ter sabido reconhecê-la nas situações mais periclitantes – de quem se despoja realmente para conhecer a vida dos outros – e também nas mais comezinhas, de quem se aproxima o suficiente das pessoas para distinguir a beleza da mera tolice.

Desde o lançamento de seu primeiro romance, Uma duas, venho dizendo que Eliane é um autora boxeur, cuja perícia reside principalmente em jamais fustigar o leitor, mas em levá-lo de forma imperceptível ao colapso do reconhecimento. De posse desta informação e de minha teoria particular, julguei que seria simples encarar seu novo livro. Depois de anos acompanhando sua trajetória, da Zero Hora ao El País, parecia que poderia antever, num lance de olhos, seus movimentos, o jogo de pés, a velocidade dos jabs e o momento assombroso (e por que não desejado?) do knock-out. Uns dirão que isso beira o masoquismo ou a veneração, mas não é nem uma coisa nem outra. É que não se pode esperar de um dragão que se comporte como um camelo. Ou um golfinho. Um dragão “é” o dragão e a expectativa pelo fogo que adormece dentro de sua garganta será sempre mais poderosa que as chamas e labaredas expostas a público.

Pelo menos de forma aparente, um boxeur tem sempre sua estratégia, suas armas e golpes fatais. Até que os coloque em prática, entretanto, é como se estivesse em cena pela primeira e última vez. Muitos deles procuram revisar ensaios ou praticar ao espelho. Ou aos sacos de areia, até. No caso dos escritores, é preciso também fazer opções e Eliane não se furtou a fazê-las, mesmo tendo diante de si uma ameaça do seu mesmo porte. Sua opção, em Meus desacontecimentos, foi por encarar a si própria, colocando a subjetividade nas luvas e usando os punhos com o mesmo empenho que encarasse o mundo externo. Ao reencontrar-se com o passado, o que Eliane permite é que se veja mais do que comumente se vê nas pessoas. Aos poucos se pode reconhecer o estilo, os movimentos, os olhos por trás das mãos e, com a luta suspensa, já sem as luvas, as próprias mãos. Os cruzados não devem demorar, nem os ganchos, mas eles acontecem em direções insólitas e, ao invés de atingir a alvos específicos, distendem um conhecimento que se dirige cada vez mais para dentro.

Sabendo de tudo isso, abri o livro. E não fechei até terminá-lo. O que encontro é mais ou menos como o visto mais cedo, na sessão de autógrafos. São pessoas estranhas a mim, lembranças muito remotas e particulares, algumas imagens fugazes de lugares do passado e a boxeur ali, em um dos cantos do quadrado. Dentro e fora do livro, a luta não começa, desacontece. Alguns leitores, quero dizer, pessoas da plateia, dizem que viram-na ensaiando golpes no ar, como se contra um adversário imaginário. Por um instante temo por sua integridade, adversários imaginários são imprevisíveis. Mil vezes encarar um Mike Tyson, claro, de preferência se aposentado…

Mas a noite é de autógrafos, não de sacrifícios. Eliane não está na lona, muito menos submersa nela. Pelo contrário, aparece livre de qualquer coisa que lembre artefatos de luta. Nem imagino em que ringues e sobre o que ela deitará as mãos no futuro, mas graças a Meus desacontecimentos percebo com mais nitidez o que a faz assim, como a digo, uma boxeur. É que boxeurs não esperam passar ilesos pela vida nem conhecê-la de raspão. Boxeurs não são especialistas da sobrevivência, mas da entrega. Enquanto não chega meu momento de pegar o autógrafo, avalio de longe sua figura e fico muito tranquilo por constatar que está inteira ali, sem exibir seus hematomas como troféus, mas nem por isso, imagino, que incólume… Feliz por vê-la sorridente encontrando seus leitores e por abraçá-los fora de um clinch.