Crônicas O anu-branco

O anu-branco

Em madrugadas de primavera chega a parecer que acordo dentro de um conto de João Guimarães. Antes da primeira sirene de ambulância berrar no ar de Porto Alegre, uma sinfonia de aves cantarola, trina, arrulha, assobia, apita, gorgeia e cacareja numa liberdade até desrespeitosa. No breu ainda confiro: são quatro da manhã. Quase sonho que posso ouvir uma queixa de bezerro, ou uma vaca comunicando. Não tem vaca nenhuma, eu sei, mas, se tivesse, não pareceria tão estranho. As aves metropolitanas são músicos desajustados. Integram mesmo a secreta orquestra que executa a mesma sinfonia indiscreta há centenas de anos, indiferente ao que fizemos da natureza, mas com o juízo das horas atordoado, as coitadas. A pandemia aumentou o número de músicos da orquestra e, apesar de me acordarem cedo até para o campo, eu gosto de apontar os cantos que posso distinguir (andavam todos minguando em anos passados). São muitos e sei porque tenho bom ouvido. Na mesma medida sou ruim de nomes, de associar nome e figura. Então não sei quem são direito. Quase sempre me atrapalho, reconheço poucos de nome. Mas mais alto que o melodioso sabiá, num grito selvagem mesmo, o gavionídeo e predador anu branco parece sempre avisar de alguma coisa, na sua trilha de suspense que irrompe como um alarme de dentro do mato. Mas não tem mato (mato queimou). Mas tem, numa agonia de resistir.. Nem que seja dentro de pedaços do seu grito/canto afogueado.

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Uma vizinhaUma vizinha

Até ontem, vivia nessa casa mantida com capricho e cuidado uma vizinha que viveu longos 104 anos de idade.

Quando instalaram numa das lojas do meu condomínio uma lancheria eu fui um dos que não gostou muito da ideia. Questões de higiene me preocupavam, afora um possível incômodo com os transeuntes e frequentadores.

Ela, não.

A Dona Ida estava sempre por ali. Numa mesinha, às vezes acompanhada, às vezes sozinha, quando tinha jogo do Colorado ela sentava-se e bebia uma (ou mais?) cerveja de 600 ml enquanto o time fazia das suas em campo. De acordo com o dono do estabelecimento, era pé quente. Dificilmente o Inter perdia se ela assistia.

Às vezes, eu a via tomando a linha 77, do Menino Deus, e descia poucas paradas adiante, no Zaffari. Fazia suas compras e tomava um táxi de volta para casa.

Ao lado da porta de entrada da sua casa, num banco de madeira, às vezes eu a via sentada com alguma visita. A casa tinha um ar de descanso e só de pousar nela os olhos me acontecia um degelo. Na semana passada ela estava ali, se não me engano. Cuidando com os olhos alguma coisa, um passarinho, a altura da grama, não sei o quê…

Talvez alguém herde ou compre a sua casinha. Não sei se tinha parentes, na verdade falei com ela uma vez apenas, quando num dia de São Cosme e Damião ela postou-se no portão oferecendo balas e doces para as crianças que passavam. Uma vez eu e minha filha passávamos ali e ela lhe ofereceu uma boa porção.

A rua já está bem mais feia sem ela, que gozava da saúde que todo o idoso merecia ter. Decerto não foi de graça e nem por uma benção que ela obteve essa vitalidade centenária. Por isso, para mim ela era uma pessoa paradigmática. Tomar sozinha um ônibus nessa Porto Alegre asselvajada, entornar uma Antártica e ainda por cima torcer para o Colorado, aos 100, não é para qualquer um.

Procurei aqui, mas não encontrei, uma reportagem feita para a tevê com ela. Não encontrei no Google, que já começou a me oferecer – só pode ser por desaforo mesmo – cadeira de vovó e ofertas de casa de repouso.

A mais cruel das artesA mais cruel das artes

A música é a mais cruel das artes. Não se pode enganar a música porque ela te desmente em dois compassos. Não adianta..

Na verdade, nas artes visuais e literárias se dá o mesmo. Apenas que a sensibilidade receptiva é menos exigente. Na música, a inabilidade é gritante e mesmo uma pessoa não instruída musicalmente percebe as falhas de execução e etc. Não existe, simplesmente, o estilo “mal tocado”.

A música nesse sentido é cruel, mas, por outro lado, a destreza técnica permite que a sensibilidade se acentue. E dessa forma composições ganham roupagens, interpretações ganham nuances, melhorias. Nesse aspecto, a literatura é mais cruel. O que está feito, está feito. Ninguém consertará uma obra escrita. Ninguém a reinterpretará e realçará o que ali não existe. É impossível.

Mas a música, se é cruel à primeira audição, é permissiva com que a melhorem.

É isso o que fazem muitos intérpretes e arranjadores. Mas não é por acaso, são músicos que estudam e praticam desde a tenra infância e, se têm algum dom, o aperfeiçoam com trabalho, e não pouco.

Dos artistas, respeito mais os músicos, ainda mais porque sua produção é desvanecente, se evapora no ar, não fica nada.

Dos instrumentos musicais, o violão é o mais cruel. Há que montar o som. O instrumento não está te esperando, está desafiando. A lida com o violão é uma tauromaquia e a vida do guitarrista é ser derrubado e atravessado – eis a crueldade – pelo que ele mesmo consegue extrair do instrumento.

Tenho muitos violonistas que acompanho na internet, do mundo afora. Concertistas, intérpretes impecáveis. Gente que estuda o instrumento desde a tenra idade: 6, 7 anos.

Edith Pageaud é um dessas instrumentistas. Toca violão desde os 6 anos e com 7 já havia sido premiada em recitais nacionais. Dom? Eu acredito que sim, mas dom trabalhado, burilado. O dom pelo dom não necessariamente gera boa arte. É preciso algo mais, enfim, é óbvio.

Nessa interpretação de Piazzolla, Edith altera a execução com timbres e outras técnicas que ela executa à perfeição. No entanto, pelo menos eu ouço assim, o equilíbrio que ela obtém é total, o efeito estético é homogêneo, tempos e contratempos estão tão internalizados que não há forma de se desarmonizarem.

Então, o que acontece é que a música ganha, aumenta. Podemos escutá-la com uma particularidade.

Nas outras artes – eu pouco sei de artes visuais – me parece que isso é impossível. Na literatura, todos os erros e fiascos são em bronze, como dizia o Mario Quintana.

Não sei.

A música é a mais cruel das artes, mas a literatura é mais cruel que a música de muitas mais maneiras.