Até ontem, vivia nessa casa mantida com capricho e cuidado uma vizinha que viveu longos 104 anos de idade.
Quando instalaram numa das lojas do meu condomínio uma lancheria eu fui um dos que não gostou muito da ideia. Questões de higiene me preocupavam, afora um possível incômodo com os transeuntes e frequentadores.
Ela, não.
A Dona Ida estava sempre por ali. Numa mesinha, às vezes acompanhada, às vezes sozinha, quando tinha jogo do Colorado ela sentava-se e bebia uma (ou mais?) cerveja de 600 ml enquanto o time fazia das suas em campo. De acordo com o dono do estabelecimento, era pé quente. Dificilmente o Inter perdia se ela assistia.
Às vezes, eu a via tomando a linha 77, do Menino Deus, e descia poucas paradas adiante, no Zaffari. Fazia suas compras e tomava um táxi de volta para casa.
Ao lado da porta de entrada da sua casa, num banco de madeira, às vezes eu a via sentada com alguma visita. A casa tinha um ar de descanso e só de pousar nela os olhos me acontecia um degelo. Na semana passada ela estava ali, se não me engano. Cuidando com os olhos alguma coisa, um passarinho, a altura da grama, não sei o quê…
Talvez alguém herde ou compre a sua casinha. Não sei se tinha parentes, na verdade falei com ela uma vez apenas, quando num dia de São Cosme e Damião ela postou-se no portão oferecendo balas e doces para as crianças que passavam. Uma vez eu e minha filha passávamos ali e ela lhe ofereceu uma boa porção.
A rua já está bem mais feia sem ela, que gozava da saúde que todo o idoso merecia ter. Decerto não foi de graça e nem por uma benção que ela obteve essa vitalidade centenária. Por isso, para mim ela era uma pessoa paradigmática. Tomar sozinha um ônibus nessa Porto Alegre asselvajada, entornar uma Antártica e ainda por cima torcer para o Colorado, aos 100, não é para qualquer um.
Procurei aqui, mas não encontrei, uma reportagem feita para a tevê com ela. Não encontrei no Google, que já começou a me oferecer – só pode ser por desaforo mesmo – cadeira de vovó e ofertas de casa de repouso.