Plumose Anemone

Verdades simples —
não se pode dobrá-las.

São como o óbvio, sem peso,
e, ao mesmo tempo, insuportáveis.

É o que se observa sem dolo
do que é desfeito sem zelo.

Cada qual reporte o seu fardo
e a sua carência de cor.

O tratamento que se dispensa
à memória e ao que passou:

síntese de um sentimento ambíguo
que nunca se esclareceu

no volume de um universo
agora repartido em dois.

2

As pessoas são ramos deitados
que o vento atira à praia,

tapetes de folhas brancas
para o passeio de um deus

que ensina com incômodos
muito mais do que com lições.

3

Seus braços de anêmona
deliram no mar profundo

espumando em bolhas vazias
e esponjas saturadas

(a areia nas profundezas
se reacomoda impalpável

para que volte a arrastar as
notas desse estranho solfejo).

4

Como a música se expande
da mente em direção aos sons,

o silêncio em silêncio percorre
do que se alimenta no chão.

As flores e o mal-estar
dos lugares repletos de gente.

5

Mas aqui só vejo o que escuto.
Há muito troquei os sentidos.

E de tocar o que me desmanchava —
a pele perdeu seus pudores.

Contra a luz

Às vezes, sem o que pensar, procuro imaginar se ao longo da vida conhecerei todos os seus olhos..

Os olhos da tarde, que esperam milagres, incrédulos e entregues. No crepúsculo, o horizonte transformando-se pouco a pouco em passado e memória.

Ao anoitecer, infiltram-se em mim como se atravessa uma tenda. Mas, quando é noite alta, voltam a fechar-se. Parecem saber de tudo, mas tudo lhes é revelado outra vez para que repousem, ainda mais tarde, como estrelas destapadas do céu..

Passará muito tempo, e a vida continuará a mesma. Mas já passou tempo demais, e a vida dói por isso.

Outra vez amanhece. As abelhas bebem o néctar na borda das taças e os dragões dissiparam-se no voo — não há sombras contra o sol.

No mundo, há o que é certo, há o que deve ser e o que não se pode devassar: olhos erguidos contra a luz da manhã, os ramos de avenca, o torso nas mãos..

Ao meio dia, as maxilas destroem um naco de pão e a carne recolhida das brasas.

E, depois, serão vistos à distância no que anseiam e no que lhes impede. Passa ainda mais tempo e sua atenção é reclamada. Assim é todo o dia.

Mais tarde, é hora de voltar ao ermo silencioso, ao que não precisa ser visto, ao tão bem apreendido.

Mas não há regresso desde que fomos enredados.

Apenas mantém-se a consciência de viver nestas mesmas almas, mas desde então em corpos trocados.

Circunstância

Na madrugada, meio breu, dei com aquela estampa do lado de lá da cancela. A cuscada que me avisou, mas, como não se entreveravam com os cachorros do homem, entendi — por isso — que vinha em paz a criatura. Porque as coisas não andam mui buenas, decerto em busca de serviço, pensei. Mas, como não apeava, logo vi que não era disso que se tratava. Do que seria, entonces?

Estava eu recolhido encostado numa lateral do galpão, espiando o homem que batia palmas, ainda avaliando o risco de me apresentar de corpo inteiro assim, a um estranho, mas avancei enquanto procurava distinguir naquela face um reconhecimento. Podia ser um antigo conhecido, talvez um parente, mas um parente não chegaria assim — ou chegaria, vá saber, faz tempo que de cortesia ninguém me aparece, então reserva-se certa distância, a modo de precaução. Ao me ver passar, tirou o chapéu da cabeça (bom sinal) e disse “Bons dias, senhor…”. Tinha a voz serena, o homem, e respondi seu cumprimento indagando no que lhe ajudava. Ele acomodou-se nos arreios que pouco rangeram e, com o chapéu emborcado no peito, pediu orientação. Queria saber como chegava no Passo das Três Marias, lugar muito distante dali de onde estávamos e eu disse apenas: “Baaaahhhh…”, sem me animar a sugerir a lonjura do que ele procurava. Mas que diabos essa criatura tanto se extraviara a ponto de quase ter tomado o sentido oposto do que procurava? “Está mui lejos, compadre…”, informei e logo dei toda a informação cartográfica de que dispunha. Os cachorros dele, arqueando, magrelos, indicavam um trote de dias. Ainda assim, os cuscos eram comportados e aceitaram sem rosnar que os cachorros de casa lhes fossem cheirar. Uns bichos estropiaditos, aqueles, mas, sem dúvida, bem ensinados.

O homem ouviu tudo que lhe disse. Passe aqui, vá por ali e tudo o mais. Porém, como eu sabia que o seu destino era um lugar deserto, um povoado abandonado de taperas, por uma questão de bom senso precisei alertá-lo de que nada havia mais lá que se pudesse encontrar. Mas ele não parecia preocupado da distância e olhava no horizonte que se descortinava com a luminosidade do nascente os referentes que lhe dera. Ali uma coronilha solitária no campo, adiante o aramado do vizinho, o passo da sanga menos peligroso, o corredor a seguir, o caminho do lado de lá.

“O senhor é mui gentil”, ele disse. “Vou seguir sua indicação, e agradeço, mas preciso le pedir que tome conta daquele coitado ali.. Não vai mais aguentar..”, indicou com os olhos um tipo de um galgo, esquelético nas últimas. “Mas claro, deixe nomás por aqui mesmo. Ninguém vai le tratar mal…”, garanti e ele sorriu com os olhos, sem mover nada na face coberta pela barba crescida. Enquanto respondia, pensava que na cozinha tinha no tarro um tanto de leite que ia azedando, algumas galletas, um charquezito que não me faria falta e montei mentalmente um farnel que entregaria de bom grado ao viajante, embora ele nada houvesse pedido. “O senhor espere que volto já”, disse e lhe dei as costas. Mas nesse mesmo movimento ouvi o estampido e o regresso súbito da noite.

O homem não desceu do cavalo e fui procurando o seu rosto entre a paisagem cada vez mais turva. Ele continuava no mesmo lugar. O seu cavalo não havia movido um milímetro dos cascos, acostumado decerto com aquilo. E antes que eu pudesse entender o que fosse, a razão daquela loucura, se encomenda, se apenas loucura, pensei em como não desconfiara daquela história do passo mal assombrado, lugar ermo, sem nada. Não podia ser coisa boa, é claro, uma conversa fiada absurda. Pensei se não havia deixado nada no fogo que causasse um incêndio. Nada me passava. E quando ia apagando, desta em definitivo e sabe-se lá se para outra, um segundo estampido cruzou o ar amolecido, como já empapado em sangue. Então merecia dois tiros… No entanto o corpo não acusava nada, nem uma ardência a mais além da primeira, nas costas. Estranho que não me parecia mal, o sujeito. Não me despertou desconfiança, até simpatia. Mas acaso o mal tem face certa? Não, o que o faz é a circunstância, e só. Emborcado no chão, vi que o cachorro estava já liquidado e o homem seguia de volta ao potreiro, a trote, indo sabe-se lá para onde, mas agora ao menos eu sabia para fazer o quê.

Pelos meus cálculos

Três minutos é o tempo que o ar resiste
dentro do corpo, de onde não há escape.
E tudo o que ele atinge, guarda ou conserva
se perde de uma só vez, num disparate.

Leva tempo para se entender algumas coisas,
uma vida às vezes nem é o suficiente
e o que se percebe nem sempre é tão claro,
mas tudo existe em medidas diferentes.

O tempo e suas horas, minutos, segundos.
A sua casa é uma espiral circundante
na qual todos podem inventar de tudo
até que tudo se torne redundante…

Aprendi isso por nada, olhando o céu
e, no chão, o rastro dos pés dos animais.
Meu calculismo é pensar por comparações
até que, por um excesso, fica demais.

Três minutos é muito tempo. Quanto leva
o boi, errando de vereda em vereda?
O bom animal nunca pensa que morreria
tocado pelo homem no cavalo, o que assovia.

Três minutos é muito pouco. Quanto dura
viver a vida em resumo? O que importa
se ganhaste apenas dinheiro? Apenas fama?
Ou vulto? Vale do quê, mesmo, a sabedoria?

Olhando ignorante os degraus da escada,
pensei no que daria por um minuto mais…
Daria tudo, é claro, e corri abaixo
salvando a mim mesmo de forma incidental.

Pelos meus cálculos, não tenho para muito,
e porque a vida não se retém em fotografia,
os pés não param e o olhar nunca repousa.
Nada desdenho, só mal reparo – eis minha escusa.

O bilhete

O novo ano trouxe velhas penitências
bem embrulhadas, como presentes
preparados há tempos, de um antigo banquete.

Há tempos ouvindo a mesma coisa,
tomo cuidado com o que posso escutar.
Não são tantas lascas nas pedras, mas há.

É raro quando o comum se revela estranho.
É uma tempestade que permanece em segredo –
e o que existe se reveste de ausências.

Aperto os joelhos entre os braços, gasto
tempo demais com máquinas quebradas
e coisas arruinadas que nem valem nada.

Os olhos eu abro porque vai começar a chover.
Tudo parece tão limpo.. E, o frio, glacial.
O relógio é que bate cada vez mais cedo…

Desse modo qualquer um pode vir a morrer:
não há o sustento do sol e a noite vindoura
ainda dorme, malgrado lhe envie o bilhete.

O Centro

Andei ontem no Centro. Sempre que posso, evito andar por lá. E falho sempre. Não sei que tipo de coisa maldita têm aquelas ruas e prédios acanhados, aquela gente sem viço, roupas surradas e comércio decadente que me botam uma tristeza profunda na alma. Parece que estão ali num mostruário de sobreviventes. Por lá eu não penso nunca em humanidade, em sociedade, essas abstrações. É cada qual uma pessoa só e ninguém, absolutamente ninguém, parece-se aos demais. A diversidade verdadeira é uma condição sobre a qual não se poderia abstrair, ela se esboroaria a menor palavra dita ao acaso. Palavra com erro crasso na pronúncia, palavra desviada das conjugações e sotaque indefinido. Não subentende-se nada nas pessoas que andam por ali. Consigo imaginar de que vida vêm, e o destino que terão ao final da sua linha de ônibus. Todas são um livro imenso, ainda por ser escrito. Passo na portaria de um prédio art noveau de uma demolição intacta, que o tempo roeu e desgastou, e o porteiro me examina como se eu fosse entrar ali. Teria algum negócio a saldar, uma joia a empenhar, uma dívida para cobrar ou quitar. Mas não era eu. Eu seguia andando e passei por um negócio de árabes, mulheres usando o hijab. E coreanos vendendo quinquilharias eletrônicas duvidosas. E sudaneses com tapetes estendidos, como seus ancestrais faziam do outro lado do oceano. Seguranças conversavam à frente de uma loja, contando piadas ou aventuras para a atenção dos outros. Quem por ali passasse não seria revistado. O Centro não exije revista, basta que não se destoe muito. Subo à minha consulta de última hora, de um médico que achei por acaso e atendia sorridente quando toda a cidade já fechou as portas, emigrou. O consultório ameno com a música de um saxofone antiquado, eu poderia ficar ali por vários dias. Mas ele pingou uma gota de colírio em meu olho e quando eu vinha de volta nem notei que era quase Natal. A decoração natalina no Centro é perene e seus melhores produtos amanhecem enguiçados. Há uma graça nisso e um tácito acordo de quem compra um presente desses a uma criança. É como se fosse dito “aproveite bem”. É sua única noite de festa. As demais serão iguais, idênticas às anteriores. Uma caravana a qual todos sabem ir. É o que há de ser feito: atravessar as ruas e o tempo de cada um, tempo intransferível, inescrutável sob as retinas. Numa esquina, encontro um táxi e sinto que faria bem se fugisse. A sensação é a de ter colocado o pé numa ratoeira. És o rato, pensas o quê? O que és? Um rato fugindo pelos bueiros a que avança a água subterrânea. O Centro é o disfarce perfeito de uma cidade, e também sua maior nudez. É bom estar aqui. É mau. As sombras dos prédios não permitem sair. A secretária do médico perdeu a casa na enchente e até hoje dorme no consultório, improvisada. Este homem amistoso deveria ser o prefeito, ela conta à substituta do plantão. Neste ano vai viajar ao interior, passar o réveillon com a família. A outra mulher sorri e nada diz. Essa é a verdadeira e única consciência: ouvir. Ouvir o silêncio da cidade, o que ele diz. E também o que ele não diz.

Em branco

O que mais tem no mundo hoje é protagonismo. E eu acho estranho que essa ideia prospere tanto nos novos movimentos sociais porque é evidente que ela espelha uma noção competitiva nas relações sociais. Ao invés da busca por reformá-las ou transformá-las, vale aparecer mais, aparecer antes, capitalizar a imagem. A busca por protagonismo é uma nova forma de exploração do individuo pela sua imagem e o sofrimento correspondente a esse processo.

*

Caso a inteligência artificial assuma cada vez mais as funções comunicativas, é de esperar que o indivíduo se aliene completamente nesse self ponderado por algoritmos e disjunções aritméticas. Num mundo de redes de relações proveitosas, ou networks, a exclusão assume formas imponderáveis e inimaginadas no modo como as pessoas de mais de vinte anos de idade foram educadas. Todo o esquema de status pessoal torna-se um produto do sucesso da comercialização do seu ego. A ideia de carreira, de obra ou trajetória sucumbe a uma nova ordem de acumulação simbólica. Mais importante que talento é aferir valor a si mesmo, e vender-se a este preço, num esquema licitatório que seleciona as melhores ofertas de valor ao que o sistema simbólico (cultural) necessita explorar.

*

Às vezes, só às vezes, temos noção realista do tempo mal empregado de nossa energia mental e vital. No mais das vezes, por uma espécie parassimpática de proteção, essa percepção nos é vedada. Com ela, saberíamos que a maior parte dessa energia foi simplesmente dispersada. Como uma carga elétrica que se perde num circuito, simplesmente muitas vezes os grande aportes de energia não resultam em nada. Quando muito, choques periféricos sem maiores consequências. E a energia não se armazenou, não constituiu um fundo de aposentadoria, ela simplesmente evaporou. Sumiu. Acabou.

*

O maior agente de dispersão de energia são as pessoas. E não é porque elas sejam essencialmente dispersantes, mas porque são necessariamente egoístas. Muitas pessoas pensam que o egoísmo é uma deformação de caráter. Eu discordo. O egoísmo é uma forma elementar de diferenciação do eu ao notar que, para o seu bem estar, é preciso prestar mais atenção a si mesmo do que dispersar sua energia.

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Não estou defendendo o egoísmo, claro que não, mas é fácil constatar que 99% das pessoas vivem dessa forma, priorizando a si mesmas. O egoísmo é a forma mais conservadora de comportamento. É um espécie de acumulação primitiva ahistórica, inarredável por qualquer processo revolucionário. O egoísmo só cessa com a morte do indivíduo.

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O protagonismo é uma espécie de egoísmo da imagem, uma receita simbólica que se origina na comercialização do eu. Uma super projeção do eu, isto é, uma virtualização.

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Dispersante, por outro lado, é o gregarismo, a vida em grupo, o cuidado. Quem dispensa cuidados dispersa sua energia, sua atenção. O benefício que ele tem é o de alienar a sua consciência, o de pensar menos em si mesmo e mais no contexto do que de si depende, mas isso só acontece quando ele o faz sem notá-lo.

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O bem que se sabe bem e que se autodeclara, não é bem, é mera vaidade, disse Hannah Arendt.

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A vida social é desarmônica porque o altruísmo é uma noção intelectualizada de ação política. Quem pratica o altruísmo muitas vezes está mais interessado no benefício moral da ação do que no bem estar coletivo.

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As pessoas que dizem que preferem ajudar a alguém que pode olhar nos olhos ao invés de colaborar com a sociedade anônima computam recompensas que, se ajudassem a um fundo público organizado, traria mais resultados, mas elas então não afeririam benefícios da ação.

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A situação mais vulnerável em que uma pessoa pode estar é a dependência do outro. No entanto é ao viver essa situação que se pode superar a condição do egoísmo. Por essa razão a negligência com as crianças e com os idosos é punível.

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Deixar de fazer algo, abster-se, é mais poderoso que participar, pois se anula o emprego de energia e ela dessa forma não serve a nada nem ninguém.

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Não podem coexistir a ideia inclusiva e o protagonismo. É um paradoxo.

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É isso que agride a sensibilidade contemporânea e nos leva ao fascismo pós-moderno: a ideia de que a nossa melhor energia será de uma forma ou de outra canalizada num esquema competitivo de proveitos simbólicos e políticos. A mesma ideia da vingança, mas delegada.

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Nada está mais distante do mundo hoje que a ética cristã ou budista. O séc. XX nos serviu para perceber definitivamente o fardo inútil da moral social. O séc. XXI nos vem servindo para dispersar a própria energia mental indefinidamente.

*

Um caderno vazio, no qual se projetasse uma forma de vida mais desinteressada, um mundo conscientemente distributivo e reparador, poderíamos ambicionar? Não descreio, mas antes precisaríamos ir até o final do livro que viemos escrevendo. Um livro com protagonistas demais. E um caderno cujo protagonista seria, de forma natural e especial, ninguém.

Não se aconselha a compaixão

Para a Isabel

For every little lie you tell so you can hide
Will grow inside your chest
Your heart will need to rest
So come into my arms

November Ultra

Não se aconselha a compaixão. Isto é o que se deveria dizer em muitos lugares onde ela havia trabalhado. É que as pessoas primeiro olhavam seus braços e pensavam que ela seria um bom guindaste para os velhos que já não levantam mais pelas próprias pernas. Um guindaste humano e de bom coração que, ao tempo em que erguesse pelas axilas alguém sem esperança em sobreviver, sussurraria em seus ouvidos palavras cândidas, inocentes, como se extraídas de uma canção de ninar. Por isso eu digo sem piscar: compaixão ela não tinha. Na verdade, era outra coisa; algo que não entendi por completo, pois também não houve tempo o bastante.

Para quantos não tenham força para viver, deve haver tantos que os ajudem a suportar, a mãe lhe disse ainda uma criança, a única menina entre sete irmãos nascidos em escadinha, ela a mais velha, e que se tornaria responsável pelos demais se a mãe morresse (e ela morreu de droga e bebida, quer dizer, de uma morte quase planejada). Alguém precisa ser o guindaste, a mãe avisou e antes que entendesse outras coisas elementares de uma vida serviu-lhe a lição.

O que a distraiu nestes anos foram os gatos que a mãe havia deixado que se acomodassem em seu pátio. Ela gostava de ficar olhando os animais como se aquilo fosse uma selva particular, um mundo de natureza, ordenado pela natureza e onde, por consequência, apenas aconteciam as coisas que desejava a natureza. Mas um a um os gatos partiram ou morreram e coube a ela enterrá-los junto aos arbustos que foram tomando conta do lugar. Isso tudo uma ordem da natureza, exceto ela, que desde então adquiriu aos olhos dos outros o hábito dos anjos.

“Eu vou comprar comida, algo que você nos prepare para enfrentar o frio. Não demoro…”, o pai disse na última vez em que o viu. Mais tarde, atrás dele foram os três filhos mais velhos, numa tentativa de reencontro que ela nunca soube se malfadada ou bem sucedida. Às vezes, ela estava encostada na porta da enfermaria, fumando, e me parecia que imaginava ainda que os quatros se encontraram, é claro, e agora vivem da pesca numa cidade portuária e nem é preciso que retornem, mas, se um dia retornarem, ela terá arranjado algo do que comeriam todos, como deve ser numa família.

Nos olhos dos seus irmãos nunca houve gratidão e nem ela esperou por isso. “Vive-se”, é o que ela dizia quando os vizinhos indagavam se precisava de algo e ela recusava, dizendo que com o seu trabalho eles tinham o suficiente.

Eu sinto tristeza que nas cidades, todas elas, nunca tenha um monumento a criaturas assim. Imagino que ela recusaria como recusou um pedido de noivado de um sujeito que disse por ela estar apaixonado, mas ela não o entendeu, não entendeu do que se tratava. Menos mal que uma prima entendeu as tentativas dele, subsequentes as que lhe dedicara. E ela entendeu ainda mais porque, de fato, não havia nada disso de paixão. Sabe-se lá o que havia..

Hoje desde cedo me pareceu que seria um dia estranho. Avisaram que ela não viria almoçar conosco, no refeitório. Foi deslocada para outro andar, outro setor, eu imagino. Não quero saber. Para onde ela tiver ido estará um lugar melhor, isso é que é. Haverá risos de histórias angelicais, sem qualquer maldade ou frivolidade, canções cantadas sem pronúncia, em boca chiusa, e seus músculos trabalhando como a mãe ensinou-a a fazer. Haverá alguém sendo ajudado ou então não haverá realmente mais nada. Em dezembro costumam dar folga aos funcionários, é isso que deve ser. A maldita está de folga e eu aqui, sem quem me conte o desfecho de uma história qualquer, dessas que rolam pelos telefones e eu tenho preguiça de ler até ao final. Irá comer os caramelos todos sozinha, não guardará ao menos um para mim. E é assim mesmo que deve ser. Não se aconselha a compaixão.

Todos os outros silêncios

Publicado também na Especiaria.

Não com todos, mas com alguns, raros, a leitura de poesia me traz certa sensação de invasão de privacidade. O poeta confessional decerto é uma pessoa que previamente consente com isso, no entanto a privacidade a que me refiro é mais intrincada do que aquela que dá a ver uma rotina, trajetos, modos, gestos; quero dizer da privacidade do pensamento, este laboratório onde a vida se transforma algumas vezes — não muitas, é verdade —  em boa poesia.

Os tempos de hoje são indiscretos. Pouco ou nada se permite de intimidade ao poeta. Muito pelo contrário, a ausência de certa autoevidenciação repercute quase sempre em um correspondente apagamento público. De outro modo, o excesso de evidência repercute igualmente num apagamento, mas então numa forma de dessubjetivação, isto é, por anulação consentida do eu em prol do eu-lírico. Ao mesmo tempo, opera-se uma forma de descompensação entre a criação e a atenção alheias, colando-se ao artista uma película com vida própria e aquilo, externalizado a ele, passa a animar uma performance, raras vezes uma poética. Com a poesia confessional, se dá exatamente o oposto disto. A exposição faz o artista desaparecer e só então pode surgir a pessoa, mas sem uma desassociação, porque esse surgimento se dá ante ao outro, e não antes dele.

Eu ainda estou tentando entender se este livro que tenho em mãos é, de fato, um exemplo de poesia confessional ou não. Seja como for, é um livro que abre uma porta para que se conheça da pessoa esse objeto inapreensível: o seu modo de pensar e de ser.

Todos os outros silêncios, de Lucia Fonseca, é um livro de experiência. Em muitos aspectos, reflexões sobre acontecimentos e sensações de uma vida que são trazidos à superfície do papel pela delicada recomposição da própria vida. São situações no mais das vezes silenciosas, quase ausentes, e para as quais a poesia serve de espécie de elemento de fixação. Não se trata do prosaico ou do casual, mas do narrativo permeado de análise e reflexão, do lírico que emerge do distanciamento de cenas e experiências. Estas poderiam permanecer em silêncio, mas a poeta cede ao poema e permite que sejam vistas sob nova perspectiva pelos leitores. Isto é mesmo uma oportunidade, espécie de um presente. É como eu penso.

Removido o invólucro da poesia, o livro e seus anteparos, de imediato se vê que se está diante de um “eu” dono de sua linguagem, imperativo em sua poética. Em Teia, com uma epígrafe nebulosamente sugestiva de Wislawa Szymborska, a poeta se apresenta mínima, como um detalhe da própria poesia:

Teia

”Sou quem sou,
Inconcebível acaso
como todos os acasos.”

Wislawa Szymborska

Sou quem sou
por obra de deusas e de genes.
Sou quem sou
pelos meus antepassados
pelos acontecimentos.

Se um único gene falhasse
nessa infinita corrente
se da teia que me prende
outras malhas se soltassem

se eu escapasse de mim
me esgueirasse do destino
pelas falhas de algum ontem
se de mim me derramasse;
seria talvez um Outro.
Talvez mancha no assoalho.

Quanto mais se avance no livro, mais o objeto em papel vai se desvanecendo, como um fruto que se descarna. Primeiro, na poesia elegíaca da amorosa seção que ela dedicou ao marido Gabriel, depois em poemas até certo ponto nostálgicos que conversam com a infância, a família e amigos de uma vida. Nestes, a poeta, cada vez mais ciente da própria pessoa, confessa o espanto da vida para uma incógnita Regina, a quem dedica o poema Quando:

Quando

Para Regina

Tenho setenta e sete anos.
Desenho, pinto
mas já não escrevo tão bem.
Há muito, perdi meus pais, meu irmão
perdi meu marido.
Tenho três filhos e três netos.

Quando fico triste
lembrando os ausentes
abro a gaveta da copa:
panos de bandeja cercados de renda
pequenas toalhas de linho bordadas.
Fico olhando muito tempo para eles
admirada
como diante de anjos.

Mais adiante há uma sorte de poemas que são como retratos, que se valem da experiência estética de outros artistas e obras, como a pintura de Paul Klee e a literatura de Fernando Pessoa, Proust, Borges e Clarice Lispector. São referências, é verdade, mas que transfiguram-se em sua poesia menos como homenagem e mais como um retratismo. Poemas cuja narratividade que são quase prosas-em-poema, mas dos quais nunca se ausenta o olhar lírico e afetivo da poeta, como se pode ver em Pose para retrato:

Pose para retrato

A moça e seus filhos parados e sérios diantes das lentes
cercados de céu.
Seus olhos miram planetas, constelações, galáxias.
Mas eles não sabem nada
não sabem nada.
Como nós, como todos nós.

Quase ao final do livro, na seção intitulada Canções, a paisagem natural desdobra-se como um diorama interno ao livro, onde, talvez, resida o núcleo de sua atenção manifestando-se num olhar afetivo sobre o mundo e suas coisas. É onde a poeta diz ainda mais de si mesma. Desta seção, não convém destacar um poema a fim de não prejudicar a integridade da obra. É preciso cercar-se de cuidado, pois o nível de exposição é tamanho que, fragmentado, pareceria afetar a apreensão dessa poesia terna e ao mesmo tempo nada autocomiserativa que Lucia produz em relação a si mesma, no que talvez seja o ponto mais alto do livro, pelo menos no seu viés mais confessional.

Ao final da leitura de Todos os outros silêncios, não pude deixar de me perguntar a respeito de como uma poeta de tal consistência havia me passado em brancas nuvens por tanto tempo. Para quem se pretende um leitor atento ao gênero, me parece criminoso, pois este é o primeiro livro de sua autoria que conheci e sua trajetória vem ativa pelo menos desde os anos 80.

Trato de investigar a situação e não demoro a compreendê-la. Já um poeta que se faz notar pela sua qualidade não encontra, infelizmente, o mesmo reconhecimento que se dedica, na cultura de consumo visual destes tempos, a quem se coloca permanentemente em evidência. Não se trata de julgar a situação, apenas de constatá-la. O que se pode julgar, no entanto, é a incapacidade persistente da percepção crítica em relação aos poetas contemporâneos e sua visada de vitrine, sem a menor profundidade. No entanto, se as referências quanto ao seu trabalho são restritas, a obra felizmente é vasta e irei com certeza dela me ocupar, com bom proveito, ainda por muito tempo dos seus demais livros, que indesculpavelmente ignorava.


Lucia Fonseca é autora de pelo menos dez livros de literatura. Ao mesmo tempo deste Todos os outros silêncios, lançou o livro de contos A menina que me visita, ambos pela 7Letras. No website Vestígios (https://www.vestigios.net.br) disponibiliza alguns de seus livros para donwload, além de uma generosa seleção de contos e poemas.

Santa Marta em Tarascón

Hoje é dia de Santa Marta de Betânia, irmã de Lázaro e Maria Madalena, que ressuscitou um homem afogado como se fosse um deus e enfrentou com um frasco de água benta uma fera descrita como “um dragão metade animal, metade peixe, mais gordo que um boi, mais comprido que um cavalo, com dentes cortantes como espada e pontiagudos como cornos, munido de cada lado por dois escudos”, gerado pela “união do Leviatã com o Onachus”.

Essa santa prodigiosa teria sido a mártir que converteu os primeiros francos ao cristianismo, numa região também governada pelos romanos no século primeiro depois de Cristo, a quem ela hospedou.

O dragão de Tarrasque é uma besta medonha pela descrição que é feita nas lendas medievais. Ao invés de cuspir fogo como um dragão ordinário, ele inflama tudo com os seus excrementos que são como bolas de fogo que arremessa longíssimo. Vivia a fera num covil próximo à floresta escura onde hoje é a comuna de Tarascón, devorando todos aqueles que ousassem invadir a mata densa.

Marta jogou umas gotas de água benta no monstro e mostrou-lhe um crucifixo. Foi o bastante para o monstro deixar-se aprisionar pela cinta das vestes da santa e por ela foi levado ao vilarejo, onde foi espancado até a morte pelos aldeões.

Após este feito, a mirófora Marta, que teria sido também oradora admirável, foi ganhando a fé de todos ao redor e naquela terra de crendices ergueu uma basílica em homenagem à mãe de Jesus, a virgem Maria.

Desde a época medieval ocorre na região uma procissão a que se consagrou em 2008 o estatuto de Patrimônio Cultural da Humanidade. Na procissão, repete-se a chegada de Marta e o dragão carregado pelo cinto sendo atacado pela população. Na Espanha e na Bélgica, a procissão costuma acontecer junto à celebração de Corpus Christi.

Santa Marta é a padroeira dos cozinheiros e em algumas representações ela aparece enfrentando o dragão com uma concha de madeira ou colher de pau.

Existem muitas interpretações do encontro das duas criaturas, mas eu não vou tão longe. Melhor deixar essas coisas para quem estuda. O máximo que fiz foi escrever uns versos. Mas não para a santa, para a vilipendiada besta..

As aspas são da Legenda Áurea, de Jacopo de Varazze.


Santa Marta em Tarascon
2017

Eu levo quem vem e vai
ao fundo de todas as águas.
Sou o último à passagem
entre a natureza e a cidade,
para matar-me não basta coragem.

É preciso ser como ela.
Vencer todos os medos,
ter o milagre aos dedos.
ferrões de todas as abelhas,
grilhões de tecido e seda.

A julgar por minha aparência,
o solaço da primavera
neste ano chegará mais tarde,
como um exército de covardes
trepida ante minha couraça.

Há muitos tipos de morte
que eu tenho a oferecer.
Depois de ser trucidado
ninguém haverá de invocar-me
como a Lázaro, o ressuscitado.

Abaixo do som das palavras,
a minha voz somente ameaça
os tolos, os fúteis e os vis.
As bestas eu deixo que passem
pois elas são seres sutis.

Engulo-os pelos pés e das mãos,
seus medos, anseios, fedores.
Não lhes basta o próprio espelho
pois poucos sobreviveriam
em face dos próprios horrores.

Qual o teu nome monstro?
Ela indagou olhando meus olhos.
Nenhum, eu disse, ou jamais
e ela de pronto entendeu
desfazer dos meus ancestrais.

Pior que a própria Medusa,
ela ergueu sua mão para o alto
e numa língua confusa
entornou o silêncio dos jarros
até retirar-me do lodo.

Iludiu-me com vinho e promessas,
levou-me a um redemoinho.
Febril, pedi-lhe compressas
e ela, falando baixinho, disse-me:
monstro, como és mansinho..

Leva-me, que a vida me farta
e não posso ser compreendido.
Serei o exemplo perfeito
do que deve ser combatido;
e à morte levou-me indefeso.

O povo saudou com festa e pranto
a sua salvadora. Santa Marta
do meu sangue livrou-se,
mas eu, de sua memória,
nem tanto…