A máquina de desaparecer

Foi na casa de uma tia onde me hospedava, criança ainda, que encontrei o primeiro espelho de desaparecer.

A máquina era estática e dependia de que eu a movesse com as mãos: funcionava caso eu acionasse as portinholas laterais. A maior serventia do espelho era fatiar o rosto em reflexos e desvios infinitos, de modo que não fosse possível encontrar o foco a não ser se ele estivesse planificado como uma lagoa, mas aí perdia sua magia e razão de ser.

Era um espelho que permitia o fitar, e cujo maior atrativo mesmo era o de fazer desaparecer. Pelo menos essa parecia ser a sua vontade, embora, por necessidade, servisse também ao propósito do reflexo perfeito.

Foi ali que pela primeira vez levei uma lâmina de barbear à face de menino. A lâmina descartável de um primo quase desconhecido que o instrumento guardava numa das portinholas. Por um momento rápido, a lâmina aproximou vertiginosamente nosso parentesco e o sangue de um e de outro, mesmo que em tempos distintos.

O primo era alguns mais velho do que eu, mas o suficiente para que me tratasse como criança. E quando nos encontrávamos no longo corredor da casa, sempre parecia que era a primeira vez que me via na vida, tornando minha presença estranha ao lugar, a sua família e suas coisas.

Naqueles dias frios de julho, a mãe faria em Porto Alegre uma cirurgia de vida ou morte e eu me enfiava sobre as cobertas sem saber se acordaria órfão ou não. Com as mãos tremendo entre os joelhos e olhos esbugalhados no nada, sentia a presença de uma pequena luz amarela que se movia no escuro do quarto de dormir e só aquilo me acalmava e induzia ao sono. Nada mais me concentrava a atenção.

Todas as manhãs daquela hospedagem involuntária, eu encontrava o espelho já em funcionamento. As portinholas abertas me desviariam para sempre se não as endireitasse.

Eu gostaria de que não me enxergassem nem ali e nem no colégio notassem muito a minha presença e os fiapos de barba que cresciam em meia lua sob os maxilares. Para isso, agora eu tinha de ferir minha própria face, a pele quase imberbe e ainda delicada como a de um anjo tornando-se áspera e os olhos da adultez fulminando a criança que ainda teimava em usar um mero espelho como uma máquina de desaparecimento.

A vida mesmo é outra coisa

Há um tempo já recebi um convite inusitado. Para mim pelo menos, completamente inusitado. Tratava-se de escrever uma biografia de uma pessoa viva. Instantaneamente eu o recusei.

Não que eu considere que os vivos não possam ser biografados, afinal não há nada que impeça isso e biografias de pessoas vivas, especialmente celebridades, são abundantes. Não que eu tivesse pudor de qualquer espécie em saber detalhes íntimos de alguém para realizar uma encomenda assim. Não é nisso que estamos sempre interessados ao querer entender uma pessoa? Entender o que move suas decisões? Seus sentimentos e motivações mais entranhados? Estou querendo dizer que somos todos um pouco fuxiqueiros? Claro que somos!…

Porém não é disso que se trata e a pessoa em questão tem uma história de vida, que conheço en passant, duríssima. Dificílima mesmo. E o primeiro que me veio em mente foi que seria duríssimo para mim também contá-la de qualquer maneira, porque não saberia me desvincular da pessoa biografada. Não tenho essa capacidade de distanciamento de ouvir um relato e não me envolver emocionalmente com ele.

Por isso que prefiro escrever ficção a tratar rigorosamente da realidade. Na ficção, por pior que seja uma situação humana, há uma projeção e uma certeza antecipada de que, terminada a narrativa, nada terá acontecido de real a ninguém. Mesmo na pior tragédia, não restarão mortos e feridos e isso representa um alívio considerável a quem escreve, embora sua intenção possa ser muitas vezes erigir uma vida como se real ela fosse. Felizmente, pelo menos no meu caso, não é. A realidade é intocada pela ficção e a maneira mais efetiva que um escritor pode contatá-la eu acredito que seja, por contraditório que pareça, por meio da poesia. Isso porque a poesia fala diretamente com o real, ainda que de modo simbólico e metafórico, mas num real sentido mais do que aquele vivenciado e partilhado nas narrativas.

Outra coisa a considerar é que um relato é sempre ficcional. Qualquer um que relate um fato ou tente apreender e representar a realidade de outra pessoa irá fatalmente depositar suas impressões ou pelo menos estabelecer um ângulo específico de apreciação. Nem sobre a própria vida é dado ao ser humano, afinal, ser rigorosamente imparcial e sincero. Muito pelo contrário! Quantos, ao falarem de si mesmos, não acabam aplicando-se um lustro exagerado ou sonegando sombras comprometedoras? Talvez, num inquérito policial, ou em juízo, alguém poderia ser totalmente imparcial consigo mesmo e relatar os fatos com concretude total. Ainda assim, ao tratar da motivação humana, toda essa arquitetura realista simplesmente evapora. Sobram impressões, antevisões, tentativas, aproximações, receios, pudores – coisas assim.

Por isso, pelo menos no que diz respeito a mim, a subjetividade dificilmente comporta uma narrativa e fazê-la com competência requer um tipo de empreendimento literário altamente complexo que nem se produz muito hoje, como no Brasil Clarice Lispector ou Lucio Cardoso fizeram tão bem nos anos 50 do séc. XX.

Porque variável por natureza, a subjetividade é o reino da poesia. E, por mais apreço que eu possa ter ou vir a ter para com alguém, jamais me sentiria capaz de subjugar à linearidade narrativa que uma biografia exige a subjetividade de quem quer que seja. Daí a necessidade de expurgar de mim a psicologia dos outros na ficção, porque simplesmente chega um momento em que um personagem não cabe mais dentro da gente (o tal “outro” também não cabe inteiramente a não ser num delírio benevolente ou na santidade), precisa ganhar vida própria, mesmo que uma vida imaginária, e encerrar sua trajetória e calar sua voz dissonante para sempre.

Porque a vida real é muitas vezes insuportável de ser conhecida em detalhe, criou-se talvez a ficção. Para que pudéssemos tomar conhecimento das piores tragédias, mas com a possibilidade de fechar o livro e nunca mais se incomodar com isso. Porque a vida mesma, bem, ela é inteiramente outra coisa.

Novos mares para Mar Becker

Artigo publicado no Caderno DOC do jornal Zero Hora, 24/12/2022.

Pode parecer galhofa, como dizem os portugueses, mas, na falta de uma estimativa (e de qualquer rigor matemático), palpiteiros desocupados arriscam dizer que existem em atividade no Brasil contemporâneo algo em torno na casa dos milhares de poetas. Milhares ou milhões, afirmam os mais entusiasmados.

Considerando-se o Estado do Rio Grande do Sul e sua população estimada em 11 milhões de pessoas, pode-se presumir, portanto, a existência contemporânea de um número não pouco considerável, mantidas as proporções geográficas. Dentre estes, certo é que quase nem um conta ainda com o reconhecimento do nosso maior poeta, Mario Quintana. Lembre-se, por exemplo, da intensa repercussão da descoberta de um inédito seu no início de 2022, quando no Brasil inteirou se discutiu a autenticidade dos versos escritos em 1942, de acordo com a data grafada ao final dos versos de Canção do Primeiro do Ano. Setenta anos mais tarde, a descoberta suscitou o interesse de intelectuais como Antonio Hohlfeldt e Gilberto Schwartsmann, que se dedicaram a autenticar a autoria do poema escrito em papel amarelecido e conservá-lo junto ao acervo mantido pela Casa de Cultura Mario Quintana.

Coisas assim, que acontecem com a obra de Mario Quintana, é muito possível que não se repitam tão facilmente com poetas que lhe são posteriores. Não será por falta de qualidade ou de nomes, mas por uma escassez de reconhecimento diretamente proporcional à profusão de autores e autoras. Isso tanto é real e factível quanto o constrangimento regional do alcance de uma literatura que, todavia, extrapola em muito – e há muito – quaisquer limites, especialmente após a expansão digital das redes sociais, espaço privilegiado de divulgação literária na contemporaneidade. Não seja por isso. Por seus meios e trabalho intenso, poetas contemporâneos têm ampliado sua repercussão e chegado às bordas da publicação intercontinental quase sem que se note. É o que acontece agora com a poeta Mar Becker, que, após vencer o Prêmio Minuano na categoria poesia em 2021 e tornar-se finalista do Jabuti no mesmo ano, prepara-se para lançar em Portugal, pela Assírio & Alvim, um volume que reúne os poemas de Sal, livro lançado por aqui pela mesma editora em 2022, e variações de A Mulher Submersa (2020). Publicado pela Urutau, de São Paulo, foi com A Mulher Submersa que a poeta logrou sua ampla divulgação e os prêmios conquistados em 2021.

Pertencente a um ínfimo percentual de poetas brasileiros que obtiveram a publicação ultramarina, Mar Becker deve lançar âncora em mares portugueses logo no princípio de 2023. Pelo que se sabe por meio de dois dos apresentadores de Sal, os tradutores e também poetas Lawrence Flores Pereira e José Francisco Botelho, sua poesia distingue-se por uma vibração que classificam nada menos que como sublime e inusitada. Por certo o reconhecimento de dois tradutores de Shakespeare não é de menor importância, no entanto o grande reconhecimento de Mar Becker se notabiliza muito mais pela intensidade com que a poeta se apresenta e discute com os seus leitores e leitoras a natureza da sua escrita, seu processo criativo e fontes das quais extrai sua matéria poética ao mesmo tempo tão larga, vasta a ponto de comunicar mundos distantes, quanto aproximar os leitores ao seu universo mais íntimo.

Gaúcha de Passo Fundo, Mar Becker adotou o seu nome de autora a partir da corruptela pela qual é mais conhecida. Se o nome “mar” remete imediatamente à vastidão oceânica, a poeta não se restringe a explorar efeitos secundários de uma auto poetização. Muito pelo contrário. Em Sal e na Canção Derruída, ela empreende uma busca de confirmação de sua origens ao mesmo tempo em que permite ainda mais que se veja da poeta a pessoa. Há quem ache isso impossível ou reprovável, tendo em vista que a persona poética acaba sempre prevalecendo, mas estamos lidando aqui com uma poeta que fala sobretudo com honestidade e que lida com as memórias familiares com o mesmo zelo que se dedica à poesia mais lírica e amorosa. Não é tarefa fácil delimitar a poesia de Mar Becker, mais simples e proveitoso deixar-se levar pelo canto translúcido de ondina que ela entoa com uma naturalidade que espanta a quem quer que lhe dedique a atenção.

Pois em breve serão os portugueses que terão a oportunidade de conhecê-la. Além da publicação em Lisboa, seus poemas vêm sendo vertidos para outros idiomas por poetas e tradutores que não apenas se deixam levar pelo entusiasmo, mas demonstram com seu labor a intensidade dos seus versos e prosa poética. Nada mais justo poderia acontecer, pois Mar Becker é uma poeta em tempo integral, isto quer dizer que é dedicada ao feito poético com tal entrega que, esta sim, se distingue e reconhece de imediato, bem como a sua voz lírica tramada em guinadas potentes e condução impecável.

No futuro, quando for necessário reconhecer uma postagem de Mar Becker no Instagram e creditar-lhe a autoria de um poema, talvez falte o instrumento paleográfico de que se valem os averiguadores de hoje, mas sua poesia saltará aos olhos pelo que tem de mais inconfundível e legítima. Ainda que seja possível falseá-la numa forma semelhante, é bastante improvável que se obtenha o seu efeito, qual o seja de inevitavelmente naufragar, como se numa busca pelo incontornável, como os mares que os navegadores portugueses enfrentaram no passado. A saber, será passível de erro aquele que jogar-se à poesia de Mar Becker. Logo se saberá de quem se trata, pois o reconhecimento é instantâneo e, imaginam assim tantos quanto eu, dos mais duradouros que já partiram daqui.

Wildcat

Ontem assisti a Wildcat, o documentário que eu havia comentado no outro dia, a respeito da sua trilha sonora. Assisti com um nó na garganta porque filmes, livros ou músicas sobre adolescentes “problemáticos” não me causam outra reação.

Mas eu esperava que no filme o “problemático” fosse apenas Harry, o ex soldado britânico que retorna do Afeganistão com sequelas mentais graves, entre as quais a síndrome de stress pós-traumático e uma depressão profunda, com tentativas de suicídio. Porém a pesquisadora que ele encontra na profunda Amazônia peruana, Samantha, não é menos traumatizada. Ela, no caso, pelo convívio com um pai alcoolista e violento que a fez desde criança preferir o convívio com os animais aos adultos humanoides.

Pode parecer uma estranheza – ou não – encontrar dois adolescentes abdicando da vida social no que é o momento de seu apogeu para viver em um território inóspito e com vida selvagem real, cercados de feras e criaturas humanas mais ameaçadoras que as próprias feras, e que partilham do mesmo território apenas para conquistá-lo e depredá-lo.

Na prática, o filme aborda um processo de reabilitação dos mais complicados. Ao mesmo tempo, Harry trabalha na readaptação à vida selvagem de uma jaguatirica e na sua própria reabilitação emocional. Como num documentário não cabem escapismos à fantasia, o que se pode ver é que o processo está longe de ser uma jornada de superação. Muito mais se vê da tensão absurda que a depressão deita às costas e reserva à mente de um jovem com vinte anos de idade.

Depois de assisti-lo, não me espanta saber a reação emocional que sua exibição tem causado mundo afora. Ao unir dois universos sensíveis, adolescência e relação homem x natureza, sabe-se como a jaguatirica se reintegra ao mundo da floresta, mas permanece a dúvida quanto a adaptação do ser humano. Àqueles que pensam que viver entre feras é experiência terrível, o filme é instrutivo do quão desestruturante pode ser a vida entre os homens.

Evernia Prunastri

Mais nada ataca a árvore
quando a casca lhe excreta a seiva.

E os galhos que estendem as mãos
às unhas que a arranharam.

No vale, dez outras iguais
curvam-se ao sabor do vento

ou morrem de um raio, de uma
tormenta. Mas ela, não.

Ela sangrou cinquenta vezes
ou até mais. O que me dizes?

Se a visses bem, entenderia
o que a suporta: a sombra escassa

com que acalenta… E a chuva escorre
só o necessário. Das folhas

que se desprendem não morre mais.
Ela suspira.

Poesia de María Zambrano

María Zambrano Alarcón (1904 – 1991 ) foi uma intelectual, filósofa e ensaísta espanhola. Foi aluna de Ortega y Gasset e também de Xavier Zubiri e de Manuel García Morente. Sua extensa obra apenas foi reconhecida na Espanha no último período do século XX , após um longo exílio. Já idosa, recebeu os dois maiores prêmios literários concedidos na Espanha: o Prêmio Príncipe das Astúrias, em1981, e o Prêmio Cervantes, em 1988. No Brasil, tem uma única obra publicada, o livro Filosofia e Poesia, pela editora  Moinhos, em 2021. As traduções a seguir basearam-se na edição preparada por Javier Sánchez Menéndez para a Ediciones de la Isla de Siltolá, de Sevilha, em 2018.

QUE TUDO se pacifique como uma lamparina.
Como quando o mar sorri,
como o teu rosto, se de repente esqueces…
Esqueces porque eu já esqueci tudo. Não sei de nada.
Nada a teu respeito.
Nada sob tua sombra amarela, semente da árvore do esquecimento.
E tudo será como antes.
Quando nem tu e nem eu havíamos nascido.
Mas… Nascemos?… Talvez não, ainda não.
Nada, ainda nada. Nunca nada.
Somos o agora sem pensamentos.
Lábios sem suspiros, mar sem horizonte,
como uma lamparina que sobrevive ao esquecimento.

QUE TODO se apacigüe como una luz de aceite.
Como la mar si sonríe,
como tu rostro si de pronto olvidas.
Olvida porque yo he olvidado ya todo. Nada sé.
Cerca de ti nada sé.
Nada sé bajo tu sombra, amarilla simiente del árbol del olvido.
Y todo volverá a ser como antes.
Antes, cuando ni tú ni yo habíamos nacido.
Pero, ¿nacimos acaso?… O tal vez, no, todavía no.
Nada, todavía nada. Nunca nada.
Somos presente sin pensamientos.
Labios sin suspiros, mar sin horizontes, como una luz de aceite se ha extendido el olvido.


NEM BRISA nem sombra.
Por que, morte, te escondes assim?
Sai, salta, solta-te desse abismo!
Foge! Quem te segura?
Por que não apagas o universo com o teu olhar?
Por que não desfaz as pedras
com a tua sombra, com a tua morte, só com tua sombra,
com a mão vazia,
com teu rosto de estátua,
presença nua a quem nada resiste?
Ensina, mostra teu rosto para os mundos,
já não há mais espaço
sem céu, sem vento, sem palavras.
Eu só quero afundar no silêncio.

NI BRISA ni sombra.
¿Por qué, muerte, así te escondes?
Sal, salte, sácate de tu abismo, escápate tú, ¿quién te retiene?
¿Por qué no borras con tu mirada el universo?
¿Por qué no deshaces las piedras con tu sombra, muerte, sólo con tu sombra, con tu mano desnuda,
con tu rostro de estatua, desnuda presencia a quien nada resiste?
Enseña, muestra tu cara a los mundos, que ya no haya espacio,
ni cielos, ni viento, ni palabras.
Quiero hundirme en el silencio.


AO MEU ANJO

… Não há mistério,
apenas trabalho, tristeza,
e essa erva amarga.
Mas me conduzes
sem que eu te peça nada.
Sim, eu quero ser as tuas asas
despencadas, derramando
chuva de lágrimas por mim.
Porque tu me lamentas,
lamentas pelo meu ser,
porque sentes o meu amor contigo.
Sou tua feiura, a estranha
impotência a ti confiada.
Como eu te peso,
eu, a invisível,
sou tua pedra,
o óleo que unge tuas asas,
sou teu arrasto
e, nos instantes infinitos,
teu desespero.

Ó Anjo!
Serei eu teu inferno?
Eterno retorno
da tua leveza que aprisionei.
De uma forma obscura
eu me ponho a teus pés
para ser queimada, esfumada,
vítima necessária da tua liberdade.
Não me deixe existir,
é o que te peço.
Avalia bem,
sou tu, mas irredutível.
Até quando vai
a tua condenação?

A MI ÁNGEL

… Y no hay misterio
sólo trabajos, pesadumbre,
y esa amarga yerba.
Pero tú me conduces
y nada te pido.
Sí, quiero ser tus alas
caídas, ahora, llanto,
lluvia de lágrimas por mí.
Porque tú me lloras,
lloras mi no ser
porque me sientes amantísima a tu lado.
Soy tu fealdad, tu impotencia
extranjera a ti confiada.
Cómo te peso,
yo, la invisible,
soy tu piedra,
el aceite que unta tus alas,
tu rémora
y, en instantes infinitos,
tu desesperación.

¡Oh, Ángel!
¿Seré tu infierno?
Eterno retorno
de tu ligereza por mí aprisionada.
Como una oscura cosa
me ofrezco a tus pies
para ser quemada, ahumada,
víctima necesaria de tu libertad.
No me dejes existir, pues que te
peso.
Tú me mides,
soy tu irreductible,
¿hasta cuándo?,
tu condena.


FALA UMA PEDRA

Porque me olharam, porque fui levada, possuída, deixei de viver.
Enfeitiçada, sou apenas um apoio, mas nada me sustenta.
Sempre aqui,
súdita do espaço.
Onde está agora o olhar que me fascinara?
Precisavas de mim para ser tua sombra?
Possuidora, és tão frágil que só com mágica te estabeleces.
Tu, aquela que nasceu assustada, a inválida,
tu me amaste para então cair sobre mim.
O amor que indicas, me diz, é isso?
Eu era luz, reflexo, mas e tu? Diz,
não podias
revelar-te a mim?
Mas não; eu sou o teu ser, eu, teu suporte.
Eu, enterro do meu ânimo e prova do teu não-ser.
Agora, estás longe.
E andas, mendiga, em busca de comida.
Feitiços de alma, gestos do Senhor.
Novos amigos, ainda invisíveis, virão me procurar.
Não, eles cairão, cairão para que tu te ergas, levantes.
Tu virás me procurar, já sem me conhecer, sem saber.
Mas eu sei. Eu não sei de nada.
Eu sou a memória
acusadora, que nada trai, resistente, adversária.
Eu, peso de tua história.
Eu, também a tua calma.
O lugar maleável
e hostil que não se opõe a ti.
Tu poderás?
E também sou tua calúnia, a mentira já lançada, e não me temas.
Tu me nomeias: matéria.
Nada mais.
Mas tu voltas, alienada, cúmplice, derrotada.
Como és ignorante… a sábia.

HABLA UNA PIEDRA

Porque he sido mirada, porque fui tomada, poseída, cesé de vivir.
Hechizada, sólo soy un soporte, mas nada me sostiene.
Aquí, siempre
súbdita del espacio.
¿Adonde estás, ¡ah!, mirada que me fascinaste?
¿Me necesitabas para ser tu sombra?
Poseedora, tan frágil que necesitas hechizar para erigirte.
Tú, la que naciste asustada, la inválida,
me amaste para caerte en mí.
El amor que nombras, dime, ¿es eso?
Era yo luz, reflejo, ¿y tú? Di,
¿no podías
revelarme tu ser?
Pero no; yo soy tu ser, Yo, tu soporte.
Yo, sepultura de mi aliento y prueba de tu no-ser.
Estás ahora lejos.
Andas, pordiosera, en busca de alimentos.
Hechizas alma, gestos del Señor.
Nuevos compañeros, ya invisibles, vendrán a buscarme.
No, caerán, solamente esos caerán para que tú te erijas, te levantes.
Tú vendrás a buscarme, tú, ya sin conocerme, sin saber.
Pero yo sé. Yo sé nada.
Yo soy memoria
acusadora, delatora nada, resistente memoria, adversaria.
Yo, peso de tu historia.
Yo, también tu calma.
Yo, el lugar manejable[7]
y el hostil no que se te opone.
¿Podrás?
Soy también tu calumnia, tu mentira ya arrojada, y no me temas.
Me nombras: materia.
Nada más.
Pero vuelves, enajenada, cómplice, vencida.
Ignorante tú, la sabia.


ESTOU MUITO exausta para escrever, muito ocupada. Só podia mesmo fazer poesia, porque poesia é tudo e nela não é preciso dividir-se. Pensar divide a pessoa; de outro modo, o poeta é sempre um. Daí a angústia indescritível, e daí a força e a legitimidade da poesia.

ESTOY DEMASIADO rendida para escribir, demasiado poseída. Sólo podría hacer poesía, pues la poesía es todo y en ella uno no tiene que escindirse. El pensar escinde a la persona; mientras el poeta es siempre uno. De ahí la angustia indecible, y de ahí la fuerza y la legitimidad de la poesía.

Inclusão em pauta (3ª ed.)

Nos últimos dias, estive revisando (e revisitando) os textos e trabalhos que, no longínquo 2015, resultaram na edição de um e-book e depois de um livro impresso no qual procurei registrar e conservar um trabalho de quase 10 anos que realizei com muitos amigos e parceiros do movimento social pela inclusão da pessoa com deficiência.

É meu livro de militância e tenho um carinho muito especial pelo que vai nele.

Seria muito normal, talvez, que eu me arrependesse de qualquer coisa (ou muita coisa) escrita há mais de uma década ou desejasse editar o conteúdo publicado no portal e revista Inclusive, além de artigos e ensaios publicados em diversas outras mídias.

Para a minha felicidade, não quero. Nem me parece que o livro precise de uma edição ou maquiagem para se mostrar vívido.

A Inclusive foi um projeto que muito me orgulhou editar com a minha amiga Patricia Almeida e a colaboração de dezenas de pessoas, entre profissionais e ativistas do movimento social das pessoas com deficiência. São pessoas de quem hoje não estou mais tão próximo, mas de quem nunca me sinto afastado.

A sensação, se consigo mesmo interpretá-la, é de que o conjunto de ideias políticas e culturais em torno da inclusão vive uma estagnação nos últimos anos e o esforço necessário ao aperfeiçoamento de políticas públicas e educacionais não será pequeno a partir de agora. Certamente será ainda mais complexo e por essa razão é preciso transformar a apoplexia em oportunidade. Esse é o tamanho do desafio em vista e não se refere apenas ao Estado, mas na forma com que a sociedade encontra para se relacionar com sua força sempre avassaladora.

Que os desafios continuem os mesmos ou tenham se aprofundado, isso me fez rever esse trabalho em outro momento e circunstância da minha vida e do meu interesse na temática. Em sua 3ª edição, o livro “Inclusão em pauta” continua sem fins lucrativos agora poderá ser acessado e consultado integralmente por meio do Google Books, sem custo, como forma de constituir um ponto de encontro de muitas reflexões ao que me parece agora ainda mais necessárias.

Follow the link: https://play.google.com/store/books/details?id=kbafEAAAQBAJ&pli=1

Um lugar para ficar

Nick Drake
trad. do inglês

Quando eu era jovem, ainda mais do que agora
Nunca vi a verdade pendurada na porta
E agora estou mais velho, vejo isso em meu rosto
E agora preciso levantar, limpar este lugar

Eu era verde, mais verde que os montes
Onde as flores crescem e o sol ainda brilha
Agora estou mais escuro que o mar mais profundo
Então apenas me aceite, me dê um lugar para ficar

E eu era forte, forte como o sol
E pensei que o veria quando o dia acabasse
Agora estou mais fraco que o azul mais pálido
Oh, tão fraco nessa espera por você

Autenticidade poética

Se alguém procurasse recuperar o que de relevante se passou na poesia rio-grandense no ano de 2022, dificilmente poderia deixar de registrar a descoberta de um poema inédito de Mario Quintana no interior de um dos 5.000 exemplares obtidos de uma coleção particular por um livreiro de Porto Alegre.

Jornais e leitores de todo o país correram para anunciar a descoberta, assim comprovando a vitalidade e o interesse que o poeta ainda desperta Brasil afora, quase 30 anos após a sua morte.

Apesar de trazer sua assinatura ao final do poema, logo se procurou verificar sua autenticidade. Fizeram-no o professor e diretor do Theatro São Pedro, Antônio Hohlfeldt, e Gilberto Schwartzmann, escritor e presidente da Associação de Amigos da Biblioteca Pública Estadual do RS. Uma vez “certificado” o original, o poema foi adquirido pela associação para daí ser doado ao acervo da Biblioteca e exposto na Casa de Cultura Mario Quintana entre outros manuscritos e objetos do poeta.

Fico eu pensando: mas não bastaria bater os olhos nos versos do poeta para saber-se que não é uma falsificação?

E penso mais: como é que se poderá daqui a 30, 50 ou 70 anos investigar a autenticidade de um inédito de quem quer que seja? Como é que se poderá saber que um poema corresponde a uma autoria quando somos inundados por deep-fakes inacreditáveis de tão perfeitas? E o que dizer da imensidão de adulterações, repetições e falsificações que trafegam internet afora sem qualquer certificação?

Por uma “dicção” particular não será. Sabemos pelo exemplo de Quintana, que é um poeta dos que se costuma denominar por “inconfundível”.

Neste ponto, vivemos num tremendo impasse. Por um lado, não se imagina que se possa refrear a pulsão informativa das redes, muito menos filtrá-la. Uma iniciativa desse porte exigiria o emprego de inteligência artificial e, até onde eu sei, não há como se programar o gosto estético do que é puramente técnica, ou garantir sua incorruptibilidade. Por outro, a noção de materialidade da obra escrita esboroou-se, tornando impossível sua organização; isto significa que as bibliotecas não têm mais condições de comportar tudo o que é escrito e os meios dissolvem-se na tentativa vã de abarcar o aluvião digital.

Mesmo com isso, o impasse da autenticidade permanece.

Tudo o que poetas de todos os tempos sempre aspiraram foi a ambição de não serem confundidos com ninguém, mas aí, de repente, se faz necessária uma investigação.

A bem da verdade, ninguém aceita muito bem a despersonalização de um estilo, nem sua generalização. Todavia a vida digital assim exige. É uma imposição do meio que todo o publicado seja automaticamente liquidificado. E a todos se exige uma espécie de self adaptável, como o os oferecidos pelos apps de “desenho” inteligente.

Como vai ser isso no futuro, é no que eu fico pensando. Alguém comprará um poema inédito de alguém para expor aonde? Numa biblioteca? Biblioteca de que espécie? De postagens do Instagram?

¿Que sé yo?

Trânsfuga, 2

Como se ontem estivesse aqui
essa parede que não estava

e onde subi a encosta
e busquei romper o silêncio.

Como é imenso atravessar o tempo,
morrer em suas mãos..

O mais são certezas vãs, meio loucas,
empobrecidas, adulteradas.

E a noite que faz convites
com sonhos que não pretende cumprir.