Entrevista para a revista Marcela (2023)Entrevista para a revista Marcela (2023)

Ézio: Essa primeira edição da Revista Marcela propõe como tema novas visões sobre o território da pampa. Buscar essas novas visões passa por fugir de estereótipos como do gaúcho, do interiorano desinformado, da história do RS sempre vista a partir da perspectiva bélica e da relação de antagonismo entre urbano e rural. Como você lidou com esses pontos na hora de criar o seu texto e não cair no lugar comum?

Lucio: Vocês partirem da premissa de que eu não caí no lugar comum muito me alivia. Eu mesmo não tenho isso tão certo comigo… E acho que não tenho porque guardo muitas dúvidas se é mesmo possível a quem escreve sobre uma paisagem específica (poderia ser o cerrado, o sertão, a floresta amazônica) fugir ao caldo cultural que a forma e, goste-se ou não, todos são permeados efetivamente por estereótipos e preconceitos endógenos e exógenos. É complicado, penso, estabelecer uma formulação literária que dê conta de um ambiente sócio cultural tão, digamos, sobrecaracterizado. Penso que, no meu caso, me sinto mais feliz quando não descarto a dimensão afetiva e não procuro eu mesmo resolver situações culturais complexas, pois seria fantasioso. Ao longo do tempo que venho escrevendo com o pano de fundo da região pampiana, tenho procurado abordar com respeito situações que conheci, mas que sempre estão se transformando, às vezes sem que possamos percebê-las. De certa maneira, tenho buscado conscientemente desvincular a imagem de violência e brutalidade que se colou à população rural de um modo geral. Não é tão difícil assim, basta desviar o olhar para outros focos poéticos, que há muitos.

Ézio: O que um escritor da sua região pode dizer diferente dos demais do estado do RS?

Lucio: Bom, desde que ele trate de sua localidade e procure representá-la de alguma forma, penso que qualquer autor deva ser fiel a si mesmo, ou seja, procurar ser sincero com a sua compreensão e defender sua liberdade a despeito das muitas coerções culturais existentes. Pensando especificamente na região da qual provenho, a fronteira sudoeste e a região da Campanha, penso que há certo acúmulo de ideias quanto a essa população, mas uma escassa reflexão escrita que parta desse exame mais autônomo. De certo modo, a iniciativa da Revista Marcela é excepcional por permitir que todo esse complexo relacional seja exposto com a atenção e o afeto merecido. Penso que os escritores de um modo geral costumam fazer isso em relação ao lugar de onde provêm ou onde vivem. A questão de isso vir a público, ser lido e debatido é muito benéfica socialmente, ainda que não seja necessária a formação de um consenso homogêneo valorativo. O convívio democrático é sempre de alta exigência.

Ézio:. De que forma você pensa na literatura hoje? Como espera que seu texto atinja os leitores?

Lucio: Penso muitas coisas desconexas, eu acho. Talvez até que aprecie mais a literatura de outros tempos que a “de hoje”. Mas eu realmente não me preocupo muito com os leitores. Acho que cada texto tem seu leitor e, às vezes, a boa sorte acontece deles se encontrarem. Mas realmente não aprecio a escrita que visa agradar aos leitores e, bem, me parece que atualmente é muito praticada, daí minha predileção para quando o leitor não comandava tanto assim a mente dos autores e nem os autores eram tão facilmente comandados pela audiência e etc.

Ézio: Quais são os autores que formaram seu imaginário de leitor e escritor?

Lucio: Na minha idade (rsrs), muita gente. Acho que o mais certo a dizer quanto a isso é que sempre fui um leitor sem preconceitos e que procurou aproveitar o máximo o que me havia de disponível. Tive a boa sorte de ter o hábito de leitura disseminado na família e entre meus amigos desde a adolescência, então meu “método” sempre foi esse: ler de tudo e o máximo possível. Evidentemente tenho preferências, mas mesmo estas não são pela autoria, e sim pelo conteúdo. Então tenho nessa coleção muitos poetas, contistas, romancista e ensaístas. Talvez ficasse enfadonho listá-los, mas, sem dúvida, a leitura da poesia de Fernando Pessoa, dos contos de Kafka, do épico de Érico e as narrativas de Garcia Márquez estão entre as leituras que mais me impactaram quando comecei a ler literatura na adolescência. Antes disso, gostava muito de histórias folclóricas e mitológicas. Bem, continuo gostando muito de tudo isso, fora o que foi sendo agregado nesse meio tempo.

Ézio: O que motiva você a escrever com uma multiplicidade de narrativas visuais na atualidade?

Lucio: Competir com o audiovisual vem se mostrando uma tarefa inglória, como se sabe. Por outro lado, mesmo as narrativas visuais tem um texto de fundo e as escritas também podem conformar um estado perceptivo “como se” de um filme. O que talvez ainda seja um campo exclusivo do escrito é capacidade polissêmica, de gerar sentidos múltiplos no lugar dos seriais, ampliando a capacidade subjetiva de interpretação de cada pessoa.

Ézio: Qual tipo de gênero literário você prefere na hora de escrever (Poesia, conto, narrativas longas, dramaturgia)?

Lucio: Bem, me parece que cada ideia pede uma espécie de texto especifico. Uma ideia com um arco mais longo precisa de mais espaço, um conto não costuma ser tão aberto, um poema é uma forma ainda mais sintética. No entanto, a depender de quem escreve e de como escreva, qual seja o gênero o efeito obtido é sempre inesperado. Essa é mesmo a riqueza da literatura, extrapolar de suas recomendações e surpreender o leitor.

Ézio: Na hora de conceber o texto você possui um padrão? Primeiro pensa nos personagens, no cenário, no tema, no final do texto?

Lucio: Penso que “padrão”, não… Nem etapas, nem roteiros… De alguma maneira que não sei explicar, tudo vem um pouco junto e o texto é quem vai organizando os elementos. Sei que existem pessoas que usam técnicas aprendidas em oficinas e guias, mas eu penso que a leitura em si mesma, a leitura mais atenta e analítica, é quem melhor ensina a escrever. Uma boa dica também é conhecer o método de trabalho de grandes escritores, mas, mesmo assim, penso que é mais proveitoso que cada qual descubra como funciona melhor a sua própria concepção e execução.

Ézio: Que sentimentos o aproximam mais da escrita? Você escreve quando está triste, feliz ou isso é indiferente?

Lucio: Acho que seria estranho pensar que é indiferente ou, talvez ainda mais, que buscasse a escrita por um ou em busca de um estado emocional específico. O que me parece é que a escrita traz consigo um sentido de realização que se auto justifica, quer dizer, ele mesmo não resolve um estado emocional, sua capacidade maior é de induzir estados de pensamento capazes de emocionar as pessoas em suas particularidades. O contrário disso é uma escrita com viés sentimentalista e esta, embora funcione em muitos casos, bem, não é exatamente a espécie de escrita que procuro pessoalmente fazer.

O milagre da leituraO milagre da leitura

Nos últimos dias voltei a vasculhar aqui livros antigos, da literatura rio-grandense, e dei com essa edição de Simões Lopes Neto. Por muito tempo tive uma com o texto puro, apenas. Lá pelas tantas, entendi que queria essa pelos paratextos. Eu queria uma que tivese esta introdução, este prefácio e este posfácio. Nem lembro quanto paguei pelo livro, mas não foi pouco. Esta edição hoje não está nem nos sebos, apenas em casas de leilão. Comprei o meu exemplar já meio esbodegado, lombada descosturada e as páginas ainda inteiras no fólio, sem corte. Eu abri para ler o que queria e guardei onde ele estava até hoje cedo, quando fui consultar um trecho das Lendas do Sul.

Eu nunca havia percebido que o livro tinha uma capa impressa tão absolutamente torta, desenquadrada mesmo. E fiquei olhando o livro, enquanto manuseava o papel pesado em que foi impresso, e as palavras passando meio indistintas no folhear.

Ler é uma coisa estranha: as palavras estão ali, mas dependem completamente de alguém que as reordene em sua mente. No livro, são traços apenas. Digo, no objeto livro. Mas o livro em si não contém a obra. A obra é um mistério – é “o” mistério. O livro é apenas um caminho de acesso ao mistério outra vez oculto no livro.

De um livro que perdeu a capa (ou se a imprimiu torta ou errada), ou mais que isso, que perdeu partes suas, páginas, capítulos inteiros, pode-se dizer que é uma obra decomposta, destruída? Que deixou de ser obra?

Este livro da imagem, por exemplo, quantas páginas precisamos ler para perceber a sua imortalidade? E por que acontece com outros livros que nós os matamos desde a primeira página, os condenemos a uma mudez definitiva? E às vezes aceitamos inclusive que outros os matem por nós?

A minha conclusão é que é ilusório acessar a verdadeira obra de um livro. O livro sempre diz muito pouco da obra, que é a escrita da mente de alguém. A leitura, eu acho, é a realização improvável desse milagre.

NêmesisNêmesis

Volto ao livro que o mar me devolveu
do ventre escuro daquele monstro raro —

as páginas rotas vieram foi de um inferno
das profundezas azuis, do mais interno,

borradas, desfeitas, inolentes, sem cor.
Ao espelho, o monstro parece inocente.

A pele rasgada era dura como as ostras.
Ele? Cheio d’água, vísceras à mostra..

Ninguém me caça, diz. Ninguém me pesca..
Estar sozinho e quieto é o que ele busca.

Rente ao dorso uma vez só dormiu uma sereia,
mas de encanto quebrado — morta baleia.

Andou por todos os mares, foi o que disseram.
No porto, os marinheiros nunca souberam.

Coxo, arrasta-se na rampa para o acerto final
com outro monstro ainda maior, nêmesis letal

que o afundará em funduras e fissuras. Lá,
o livro morrerá com suas páginas destorcidas:

o fausto de sempre, até emergir noutro, expondo
a tantos queiram o seu fatídico tesouro.

Ibajé e SepéIbajé e Sepé

Existe uma estrofe no “Lunar de Sepé”, poema recompilado por João Simões de Lopes Neto presente desde a primeira edição de “Lendas do Sul”, que eu acho muito curiosa. A passagem envolve uma referência ao momento em que Sepé vai ao extremo sul da estância de São Miguel, imediações da controversa redução de San Andres de los Guenoas, onde teria vivido (ou ainda viveria) um certo cacique Ibajé.

Os versos dizem o seguinte:

“Era a lomba da defesa,
Nas coxilhas de Ibagé,
Cacique muito matreiro
Que nunca mudou de fé;
Cavalo deu a ninguém…
E a ninguém deixou de a pé…”

A essa altura dos acontecimentos de sua breve vida, na posição de alferes, Sepé já tinha conhecimento das mobilizações militares que culminariam primeiro em sua morte e a seguir no massacre de Caiboaté. Lusos e hispânicos dividiam palmo a palmo a nova demarcação que desejavam para a “terra de ninguém” e Sepé foi até lá para ter uma conversa com os ditos demarcadores, da qual teria derivado a famosa declaração que a ele se atribui: esta terra tem dono.

Os relatos desta conversa existem mesmo, apesar de controversos e nebulosos. Estão nos diários da expedição de Gomes Freire, numa anotação de um capitão luso. Também existe a lomba a que se refere Simões. É uma longa região da planura que se escora no escudo rio-grandense, formação geológica que modifica o aspecto geográfico da região pampeana, dobrando seus campos desde Aceguá até além da região de Caçapava do Sul, quase no centro do estado.

Os indígenas valiam-se dessas dobras geológicas (canhadas) para surpreender seus inimigos, pelo menos aqueles incautos que desconheciam sua perícia guerrilheira. Não me parece ser o caso do cacique Ibagé, nativo e conhecedor desses lugares. Sepé era perito nessas táticas de emboscada e, não tivesse o seu cavalo posto a mão numa cova de tatu, não teria sido lanceado da forma que foi. Nicolau Nenguiru, que assumiu a liderança e revanche dos tapes não tinha esse cuidado tático e acabou levando o exército guarani ao doloroso massacre dos indígenas missioneiros, numa batalha em campo aberto.

Mas o meu caso aqui não é o bem conhecido destino de Sepé e das missões jesuíticas. Eu fico curioso é com o “matreiro cacique” que teria dado nome à minha cidade natal.

Simões nos diz que o cacique era um infiel (um charrua ou minuano que “nunca mudou de fé”), que provavelmente vivia nos matos em torno do arroio que também leva seu nome (matreiro tem esse significado na região, de quem se esconde nos matos) e que, todavia, não se pode entender qual a atitude teve para com estes ou aqueles.

Cavalo deu a ninguém… / E a ninguém deixou de a pé…

Mas o que significa isso? Primeiro, é claro, que o dito cacique não ajudou a ninguém, não tendo emprestado um cavalo sequer. Segundo, sugere que o chefe indígena teria mesmo é ceifado a vida de muita gente. Mas de quem?

As opções são poucas.

1) teria colaborado com os tapes e matado adversários ibéricos

2) seria aliado dos portugueses e teria matado os guaranis (segundo uma lenda, tendo inclusive participado da morte de Sepé)

3) o indivíduo nunca existiu além da lenda (é o que dizem os historiadores lusitanistas, baseados nas anotações do topógrafo José Saldanha, reiteradas por investigadores de gabinete, como o bajeense Félix Contreira Rodrigues, Aurélio Porto, Mansueto Bernardi e tantos outros. Mansueto (o todo-poderoso da Revista do Globo), num artigo jocoso publicado no Correio do Povo nos anos finais da década de 50, sugere que, “enquanto não se apresente certidão, fé de ofício e atestado de residência, o cacique não passará de um vago e desengonçado lobisomem”.

Um aspecto que prejudica até mesmo a pesquisa historiográfica recente é que ela se vê muitas vezes na situação de valer-se de um conhecimento fixado no começo do séc. XX, tempo no qual foram forjadas interpretações no mínimo complicadas a respeito dos povos indígenas e permedas também por uma espécie de ficção historicista, em páginas muitas vezes abertamente racistas e desumanizantes. Seja como for, foram os primeiros sistematizadores do conhecimento de que hoje dispomos – e que continua sendo escasso, mas felizmete agora atravessado por outras epistemologias.

Sem dúvida, Simões Lopes Neto viveu mais próximo do tempo da tradição oral do que nós vivemos do folclore inventado por ele e a partir dele. O nosso distanciamento é total, apenas quase podemos lidar com o que os outros disseram e escreveram. Isso é bom, por um lado, porque nos obriga a rever os fios desse tramado histórico e examinar a qualidade desses alinhavos. Mas é ruim, porque quebra a nossa imanência com a raiz indígena.

Na literatura, os vestígios desse contato surgem de forma tão extemporânea que se inscrevem sempre numa posição marginal. O indígena não ocupa o centro nem é reconhecido como origem. Seja Sepé ou Ibajé, sua existência aparece invariavelmente em relação ao outro: numa eliminação e no registro de uma negação. Trata-se de uma expropriação de sua memória, de sua evocação e também de seu espírito. Sua identidade, assim, não é afirmada por si mesma, mas constituída por atribuição externa e por uma espécie de descriação simultânea.

A negação de Ibajé é a mesma que se cria quanto a Sepé e se reproduz na mesma querela historiográfica. Inclusive geograficamente, no nome duas cidades. A cidade de Bagé se descaracteriza dos povos que a habitavam originalmente, os guenoa-minuanos. E o município de São Sepé, fundado em 1876 já com esse nome, tem sua designação desvinculada de José Tiaraju, colocando-se uma interposição com uma suposta localidade chamada “San Sepe”.

Este é o mundo político, no qual a literatura pouco intervém. No literário, pelas mãos de Simões Lopes Neto, que diz ter recebido a lenda de uma mestiça (artifício ancestral) felizmente Sepé volta a ser um santo popular do povo missioneiro e de todo o povo gaúcho. E Ibajé, sim, é mais um índio matreiro e minuano cuja história real se perdeu ao mesmo tempo que se fundiu ao vento que leva o seu nome.

BarnaclesBarnacles

Para todos os efeitos, e sem
razão aparente, o mar arrastou
a pedra que estava aqui.
Era onde pousava meus olhos,
pensando se havia sentido
em tanta espera, mas os sonhos
bem se acomodavam no futuro.

Agora, onde piso, o chão se desfaz.
Onde aponto, a porta é fechada.
Volto para dentro de mim
e o silêncio das vagas é rumor
deposto em vão. Em palavras
que avançam sem direção
e levam consigo essa voz.

A liberdade? Encarcerou-se
num lugar distante. Mas, através dela,
refugo ao horror e o desassossego
que fracassa a força dos braços,
dobra joelhos e drena os olhos
dessa alma velha, fluida,
e por quem pouco me apego.

No passado, fui outra pessoa,
e a quase tudo eu previa —
até mesmo de olhos fechados.
Mas viver não pode ser pensado,
apenas vivido,
e o que é falso se revela
sob qualquer ponto de vista.

O mar, imenso por analogia,
termina onde a vista alcança;
a pedra, um edifício precário
que submerge e borbulha;
o tempo, que tudo movimenta
sem interesse em nada ou ninguém,
nunca reparte sua energia.

Porto Alegre, 10Porto Alegre, 10

Sentado um instante num banco do parque,
notei algo em que havia pisado mais cedo
e que continua engastado nos pés —
uma pedrinha que encontrou um sulco
onde enfiar-se, como uma felpa
se acomoda na pele, incomodando,
e queremos de uma vez arrancá-la.

De que rua eu a trouxe?, penso,
e já não tenho certeza onde estive.
Ultimamente tenho trocado, sem perceber,
nomes de ruas por nomes de gente.

Foi, talvez, onde antes encontrei
um cachorro magro de dar pena
e que se defendia dos passantes
tão feroz quanto um lobo.

Há muitos animais que rondam aqui,
uns de inacreditável memória
(isso bem ao contrário de mim
que me desencontro de ti
como se estivesse chegando
sempre pela primeira vez).

Mais cedo eu andava com tanta pressa
que outra vez não percebia
que é sempre uma corrida em vão.

Já havia perdido a hora e então me dei ao direito
de sentar um momento num dos bancos vazios
e lembrar de quantas vezes o fizera.
Mas sempre há algo de novo no cenário,
nem que seja uma árvore tombada
que subitamente a memória acusa
e que à vista não se revela.

Ou pode ser uma criança nascida quase em 2026
e que o pai decidiu que aprenderia a andar
nessa areia dos passeios do parque
porque nisso deve haver
uma forma especial de aprendizagem.

Talvez ali uma pedra também encontre
aquele pequeno corpo
e se inscreva numa cicatriz,
dessas que são imunes ao esquecimento.

PortfolioPortfolio

Mas tu não sabes sobre a mãe? Quem era ela, a mulher que às vezes deixava a casa por conta e fiava-se a dormir tardes inteiras e, de noite, quando todos dormiam, ela lia sem parar os poucos livros da casa, descobrindo sob as letras coisas de outras casas e que de alguma forma também nos diziam respeito? A bem dizer, eram casas iguais a nossa, fossem maiores ou mais humildes. Casas são portfolios das mães e a mãe cuidava de tudo, mesmo quando não fosse propriamente ela. Desde que se aposentou, decidiu cuidar dela mesma. Os filhos adultos não lhe deveriam trazer dissabores, mas os filhos são na mesma medida amores e dissabores. Trazem-nos o que são e nos incomoda que se pareçam tanto a nós mesmos, depois que nos percebemos velhos, também quase iguais a nossas mães e pais.

Hoje há esse vento frio soprando na rua e o cão lhe espreita entre os silêncios o ruido da sua chegada. Pensam que os cães sabem pelo faro, mas a verdade é que sabem pelo ouvido. Os tacos no corredor, as chinelas arrastadas no assoalho indicam a ele se passará a tarde só ou em sua companhia. Esse cachorro é da mãe, é seu último filho. Ela o cuida com desinteresse e isso lhe é suficiente. Esses dias o flagrei uivando, coisa de nunca, e entendi que era para ela. Quando cantaste tu para ela pela última vez, se ela te deu todas notas que tinha? Deu tudo, aliás, menos o essencial, é claro, por seu tácito direito.

Mas a mãe nunca foi tua, deixe de bestagem. Ela foi dela e do homem que ela escolheu, nem sei se por toda a vida. O querer não é contínuo, ata-se e desata-se como trocam-se as folhas do calendário, como alternam-se dia e noite, têm-se os olhos abertos ou fechados.

Deixa ela dormir, ingrato. Não a acordes…

Mas é claro que, se a acordares, verás naquelas retinas que nunca envelheceram o mesmo amor reservado e silencioso que ela te dedicou quando tu nem imaginavas, porque isso são coisas de sempre, esse prazo que não se aquilata. Estás para ela como sua corrente sanguínea. A certeza última dos seus dias será essa mesma certeza, a de ter feito o que lhe permitiram, pois todos a solicitavam sempre, como a madona de quem até Jesus se afastou para poder ser Jesus.

Esteja tranquilo que no teu dedo verde, bom de cuidar as plantas, está aquele sangue doce de que vieste, um fardo alegre, nada além disso. E que serviu para lhe dar alegrias tolas de infância e estes são os momentos com que ela sonha, a pobre, quando viver não parece ter tanto sentido.

Deixa ela dormir… Ou aproveita e a acordes. Um instante só, o do reconhecimento, é só o que ela pede agora.

Plumose AnemonePlumose Anemone

Verdades simples —
não se pode dobrá-las.

São como o óbvio, sem peso,
e, ao mesmo tempo, insuportáveis.

É o que se observa sem dolo
do que é desfeito sem zelo.

Cada qual reporte o seu fardo
e a sua carência de cor.

O tratamento que se dispensa
à memória e ao que passou:

síntese de um sentimento ambíguo
que nunca se esclareceu

no volume de um universo
agora repartido em dois.

2

Pessoas são ramos deitados
que o vento atira à praia,

tapetes de folhas brancas
para o passeio de um deus

que ensina com incômodos
muito mais do que com lições.

3

Seus braços de anêmona
deliram no mar profundo

espumando em bolhas vazias
e esponjas saturadas

(a areia nas profundezas
se reacomoda impalpável

para que volte a arrastar as
notas desse estranho solfejo).

4

Como a música se expande
da mente em direção aos sons,

o silêncio em silêncio percorre
do que se alimenta no chão.

As flores e o mal-estar
dos lugares repletos de gente.

5

Mas aqui só vejo o que escuto.
Há muito troquei os sentidos.

E de tocar o que me desmanchava —
a pele perdeu seus pudores.

Contra a luzContra a luz

Às vezes, sem o que pensar, procuro imaginar se ao longo da vida conhecerei todos os seus olhos..

Os olhos da tarde, que esperam milagres, incrédulos e entregues. No crepúsculo, o horizonte transformando-se pouco a pouco em passado e memória.

Ao anoitecer, infiltram-se em mim como se atravessa uma tenda. Mas, quando é noite alta, voltam a fechar-se. Parecem saber de tudo, mas tudo lhes é revelado outra vez para que repousem, ainda mais tarde, como estrelas destapadas do céu..

Passará muito tempo, e a vida continuará a mesma. Mas já passou tempo demais, e a vida dói por isso.

Outra vez amanhece. As abelhas bebem o néctar na borda das taças e os dragões dissiparam-se no voo — não há sombras contra o sol.

No mundo, há o que é certo, há o que deve ser e o que não se pode devassar: olhos erguidos contra a luz da manhã, os ramos de avenca, o torso nas mãos..

Ao meio dia, as maxilas destroem um naco de pão e a carne recolhida das brasas.

E, depois, serão vistos à distância no que anseiam e no que lhes impede. Passa ainda mais tempo e sua atenção é reclamada. Assim é todo o dia.

Mais tarde, é hora de voltar ao ermo silencioso, ao que não precisa ser visto, ao tão bem apreendido.

Mas não há regresso desde que fomos enredados.

Apenas mantém-se a consciência de viver nestas mesmas almas, mas desde então em corpos trocados.

CircunstânciaCircunstância

Na madrugada, meio breu, dei com aquela estampa do lado de lá da cancela. A cuscada que me avisou, mas, como não se entreveravam com os cachorros do homem, entendi — por isso — que vinha em paz a criatura. Porque as coisas não andam mui buenas, decerto em busca de serviço, pensei. Mas, como não apeava, logo vi que não era disso que se tratava. Do que seria, entonces?

Estava eu recolhido encostado numa lateral do galpão, espiando o homem que batia palmas, ainda avaliando o risco de me apresentar de corpo inteiro assim, a um estranho, mas avancei enquanto procurava distinguir naquela face um reconhecimento. Podia ser um antigo conhecido, talvez um parente, mas um parente não chegaria assim — ou chegaria, vá saber, faz tempo que de cortesia ninguém me aparece, então reserva-se certa distância, a modo de precaução. Ao me ver passar, tirou o chapéu da cabeça (bom sinal) e disse “Bons dias, senhor…”. Tinha a voz serena, o homem, e respondi seu cumprimento indagando no que lhe ajudava. Ele acomodou-se nos arreios que pouco rangeram e, com o chapéu emborcado no peito, pediu orientação. Queria saber como chegava no Passo das Três Marias, lugar muito distante dali de onde estávamos e eu disse apenas: “Baaaahhhh…”, sem me animar a sugerir a lonjura do que ele procurava. Mas que diabos essa criatura tanto se extraviara a ponto de quase ter tomado o sentido oposto do que procurava? “Está mui lejos, compadre…”, informei e logo dei toda a informação cartográfica de que dispunha. Os cachorros dele, arqueando, magrelos, indicavam um trote de dias. Ainda assim, os cuscos eram comportados e aceitaram sem rosnar que os cachorros de casa lhes fossem cheirar. Uns bichos estropiaditos, aqueles, mas, sem dúvida, bem ensinados.

O homem ouviu tudo que lhe disse. Passe aqui, vá por ali e tudo o mais. Porém, como eu sabia que o seu destino era um lugar deserto, um povoado abandonado de taperas, por uma questão de bom senso precisei alertá-lo de que nada havia mais lá que se pudesse encontrar. Mas ele não parecia preocupado da distância e olhava no horizonte que se descortinava com a luminosidade do nascente os referentes que lhe dera. Ali uma coronilha solitária no campo, adiante o aramado do vizinho, o passo da sanga menos peligroso, o corredor a seguir, o caminho do lado de lá.

“O senhor é mui gentil”, ele disse. “Vou seguir sua indicação, e agradeço, mas preciso le pedir que tome conta daquele coitado ali.. Não vai mais aguentar..”, indicou com os olhos um tipo de um galgo, esquelético nas últimas. “Mas claro, deixe nomás por aqui mesmo. Ninguém vai le tratar mal…”, garanti e ele sorriu com os olhos, sem mover nada na face coberta pela barba crescida. Enquanto respondia, pensava que na cozinha tinha no tarro um tanto de leite que ia azedando, algumas galletas, um charquezito que não me faria falta e montei mentalmente um farnel que entregaria de bom grado ao viajante, embora ele nada houvesse pedido. “O senhor espere que volto já”, disse e lhe dei as costas. Mas nesse mesmo movimento ouvi o estampido e o regresso súbito da noite.

O homem não desceu do cavalo e fui procurando o seu rosto entre a paisagem cada vez mais turva. Ele continuava no mesmo lugar. O seu cavalo não havia movido um milímetro dos cascos, acostumado decerto com aquilo. E antes que eu pudesse entender o que fosse, a razão daquela loucura, se encomenda, se apenas loucura, pensei em como não desconfiara daquela história do passo mal assombrado, lugar ermo, sem nada. Não podia ser coisa boa, é claro, uma conversa fiada absurda. Pensei se não havia deixado nada no fogo que causasse um incêndio. Nada me passava. E quando ia apagando, desta em definitivo e sabe-se lá se para outra, um segundo estampido cruzou o ar amolecido, como já empapado em sangue. Então merecia dois tiros… No entanto o corpo não acusava nada, nem uma ardência a mais além da primeira, nas costas. Estranho que não me parecia mal, o sujeito. Não me despertou desconfiança, até simpatia. Mas acaso o mal tem face certa? Não, o que o faz é a circunstância, e só. Emborcado no chão, vi que o cachorro estava já liquidado e o homem seguia de volta ao potreiro, a trote, indo sabe-se lá para onde, mas agora ao menos eu sabia para fazer o quê.