Mas tu não sabes sobre a mãe? Quem era ela, a mulher que às vezes deixava a casa por conta e fiava-se a dormir tardes inteiras e, de noite, quando todos dormiam, ela lia sem parar os poucos livros da casa, descobrindo sob as letras coisas de outras casas e que de alguma forma também nos diziam respeito? A bem dizer, eram casas iguais a nossa, fossem maiores ou mais humildes. Casas são portfolios das mães e a mãe cuidava de tudo, mesmo quando não fosse propriamente ela. Desde que se aposentou, decidiu cuidar dela mesma. Os filhos adultos não lhe deveriam trazer dissabores, mas os filhos são na mesma medida amores e dissabores. Trazem-nos o que são e nos incomoda que se pareçam tanto a nós mesmos, depois que nos percebemos velhos, também quase iguais a nossas mães e pais.
Hoje há esse vento frio soprando na rua e o cão lhe espreita entre os silêncios o ruido da sua chegada. Pensam que os cães sabem pelo faro, mas a verdade é que sabem pelo ouvido. Os tacos no corredor, as chinelas arrastadas no assoalho indicam a ele se passará a tarde só ou em sua companhia. Esse cachorro é da mãe, é seu último filho. Ela o cuida com desinteresse e isso lhe é suficiente. Esses dias o flagrei uivando, coisa de nunca, e entendi que era para ela. Quando cantaste tu para ela pela última vez, se ela te deu todas notas que tinha? Deu tudo, aliás, menos o essencial, é claro, por seu tácito direito.
Mas a mãe nunca foi tua, deixe de bestagem. Ela foi dela e do homem que ela escolheu, nem sei se por toda a vida. O querer não é contínuo, ata-se e desata-se como trocam-se as folhas do calendário, como alternam-se dia e noite, têm-se os olhos abertos ou fechados.
Deixa ela dormir, ingrato. Não a acordes…
Mas é claro que, se a acordares, verás naquelas retinas que nunca envelheceram o mesmo amor reservado e silencioso que ela te dedicou quando tu nem imaginavas, porque isso são coisas de sempre, esse prazo que não se aquilata. Estás para ela como sua corrente sanguínea. A certeza última dos seus dias será essa mesma certeza, a de ter feito o que lhe permitiram, pois todos a solicitavam sempre, como a madona de quem até Jesus se afastou para poder ser Jesus.
Esteja tranquilo que no teu dedo verde, bom de cuidar as plantas, está aquele sangue doce de que vieste, um fardo alegre, nada além disso. E que serviu para lhe dar alegrias tolas de infância e estes são os momentos com que ela sonha, a pobre, quando viver não parece ter tanto sentido.
Deixa ela dormir… Ou aproveita e a acordes. Um instante só, o do reconhecimento, é só o que ela pede agora.