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Tardes de sábado boas mesmo têm de ter o bom e saudável tédio criativo. Esses dias eu vi de um famoso escritor que a pandemia estaria impedindo-o de escrever e ele dizia que precisava caminhar para escrever, então não estava escrevendo mais nada nos últimos tempos. Não é que ele escrevesse caminhando, mas haveria algo no andar à toa que lhe seria fundamental para o pensamento e, lógico, também para a escrita. Eu também acho e gosto muito de andar, principalmente no centro de Porto Alegre. Apesar de que o centro nunca esteve tão depauperado e abandonado, eu gosto, e para mim não há outro lugar em Porto Alegre que me dê tanta vontade de caminhar por caminhar. Sinto falta mesmo.
A pandemia nos roubou a liberdade de caminhar por aí e nos jogou de cabeça no mundo das redes, onde também não há tédio. Não sei como acontecem as antologias da pandemia sem que os escritores possam deambular livremente e o combustível da escrita, o tédio, a sedimentar pensamentos e emoções. Mas há quem consiga e eu fico realmente admirado.
Quando era criança, eu gostava muito de inventar histórias absurdas para os meus amigos. Era uma coisa meio teatral que eu fazia e só me dava por satisfeito quando conseguia convencê-los da minha representação. Não sei em que momento da minha infância me desviei das artes cênicas, mas acho que aquele tédio absoluto das tardes interioranas (e o livre trânsito pelas ruas da Bagé dos anos 70) me compelia a inventar alguma coisa. Qualquer coisa..
Naquelas eras glaciais, a tevê mal pegava e a programação das ruas era bem mais convidativa. Além disso, só na vizinhança havia dezenas de crianças para interagir realmente. E crianças naquela época consistiam um conceito bem mais elástico do que hoje. A adolescência e seus ritos de consumo chegaram por lá mais pro fim dos 80.
Nessa época é que apareceu lá em casa um disco do Kraftwerk, que um dos meus irmãos descobriu não sei de onde. Eu simplesmente surtei com aquilo e andava como um robô pela casa, esticando braços e pernas e endurecendo joelhos, cotovelos e o pescoço que ganhara engrenagens.
Numa tarde daquelas, decidi que um grande amigo e vizinho, crédulo como ele só, ele teria que acreditar que eu realmente me transformara num robô. De cara ele não quis embarcar muito na minha narrativa, mas, pouco a pouco, fui convencendo a ele e saímos pra rua comigo caminhando ainda daquele jeito robótico. Os vizinhos adultos me olhavam com certa desconfiança e como eu não esmorecesse, o meu amigo por fim cedeu – em prantos – quando eu disse que logo à noite um OVNI vinha me buscar a adeus planeta Terra, adeus rua, adeus tudo..
É inacreditável, mas é a mais pura verdade. São todos fatos verídicos, inclusive eu ter me transformado em robô..
Brincadeiras à parte, eu até hoje não entendi como esse amigo conseguia acreditar em mim, já que uma vez por semana eu era uma coisa diferente.. Outras vezes fui vampiro, lobisomem e outras coisas improváveis e ele sempre acreditou. Religiosamente. Quando enfim parei de representar, ele também parou de acreditar em mim. Tinha a convicção de que devia ser criança ainda um tempo mais, mas o meu tempo já havia se acabado. E assim foi que nos afastamos. Quando a primeira transformação de verdade aconteceu, mas só para mim..
La chair est triste, hélas! et j’ai lu tous les livres.
Stéphane Mallarmé
Todos os livros do mundo estarão a salvo ou serão destruídos. Esse parece ser o impasse dos impasses que se apresenta à história do livro no mundo. A questão foi recentemente colocada em debate no mundo inteiro pela ação da Anthropic, empresa de tecnologia responsável pelo chatbot Claude.
Notável no meio tecnológico por sua capacidade de contextualizar e analisar textos extensos, o chatbot foi flagrado recentemente associado a uma prática controversa conhecida como “digitalização destrutiva”. O processo envolve a obtenção, em larga escala, de livros de diversas partes do mundo para digitalização e posterior treinamento de modelos de aprendizagem de máquina. A prática recebe o adjetivo “destrutiva” porque, durante o procedimento, os exemplares físicos são completamente desmontados e, após a digitalização, eliminados em máquinas trituradoras.
Quando revelado, primeiro por uma reportagem do Washington Post e, mais tarde, por uma sucessão de reportagens ao redor do mundo, o caso não trouxe imagens diretas — trata-se de um projeto sigiloso —, porém a descrição dos procedimentos ganhou na mídia a companhia de imagens aterradoras de cortadoras de lombadas de livros, máquinas trituradoras de papel e depósitos imensos abarrotados de volumes e volumes obtidos mundo afora, numa operação logística que a empresa batizou de “Projeto Panamá”. O caso tornou-se um escândalo mundial pela descrição dos métodos utilizados pela empresa e veio a público quando a Justiça norte-americana retirou o sigilo de parte do projeto em função de uma ação coletiva sobre direitos autorais, que obrigou a gigante tecnológica a um acordo de reparação milionário por uso indevido.
Além das imagens, contribuiu para o escândalo uma declaração das intenções do projeto, encontrada entre os documentos do processo Bartz v. Anthropic PBC, dando conta de que seu objetivo consistia em nada mais, nada menos que digitalizar todos os livros do mundo. A ambição grandiosa teria como objetivo “ensinar” às LLMs (large language models) do chatbot o conteúdo humano disponível, supostamente mais autêntico e relevante do que aquele obtido no scraping da internet e organizado a partir do pensamento autoral de alguém.
Apesar disso, a decisão judicial concorreu para o enquadramento de uso aceitável (fair use) e o caso foi resolvido como mais uma questão patrimonial. O mais importante para os objetivos da empresa, de acordo com as apurações, era de que se tratasse de conteúdo livre dos próprios recursos de inteligência artificial. Nos livros publicados mundo afora, portanto, poderiam ser encontradas informações (ou o conhecimento) que levariam ao aperfeiçoamento da inteligência artificial generativa e, mais que isso, seria evitado que ela sofresse a influência das informações de terceira mão que ela mesma produz (ou recicla).
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Por vias provavelmente tortas, o Projeto Panamá enceta mais uma vez uma jornada frustrada que vem sendo percorrida na história humana desde a Biblioteca de Alexandria. A reunião de uma biblioteca universal que disponibilizasse a qualquer cidadão o acesso a todo o conhecimento do mundo é uma utopia universal e atemporal, dada pela consciência de que, no espaço de uma vida, é impossível ao ser humano ler ou ao menos conhecer e memorizar todos os livros do mundo. Sobre essa possibilidade, desde a Antiguidade, pensadores e cientistas projetaram conceitos grandiosos que, todavia, sempre esbarraram em dificuldades técnicas aparentemente intransponíveis, além de guerras destrutivas.
Em Alexandria, Calímaco de Cirene criou o primeiro catálogo do mundo, de que se serviram centenas de estudiosos. Na Casa da Sabedoria, em Bagdá, Al-Khwarizmi (de cujo nome provém o termo “algoritmo”) liderou o imenso trabalho de tradução das obras gregas dispersas no mundo bizantino reunidas pelo califado abássida. Mais próximo da era moderna, Gutenberg criou a tecnologia que salvou e popularizou o conhecimento de uma forma ainda hoje impactante: o livro impresso. E, a partir dele, muitos outros projetos entenderam nos recursos bibliográficos mais que um encargo de armazenamento: a disponibilidade de um repertório intelectual, pilar do capital cultural tanto de indivíduos quanto de nações.
No que o ser humano parece ter falhado, a ascensão tecnológica digital primeiro transformou todo o conhecimento em dados binários e, presentemente, uma técnica hábil em absorver e transformar esse conhecimento para os mais diversos propósitos tornou-se viável e acessível. Uma vez que “ler todos os livros do mundo” é impossível ao ser humano, a criação da inteligência artificial permitiu que essa ambição aparentemente se tornasse plausível.
Na Biblioteca do Congresso dos EUA, por exemplo, podem ser encontrados os 6.500 livros que pertenceram ao presidente e polímata Thomas Jefferson (1743–1826), quase todos eles anotados de próprio punho. Tido como um dos grandes leitores da história, todavia, o que representa seu recorde pessoal diante do tamanho descomunal da Biblioteca, estimado atualmente em quase 200 milhões de volumes?
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Reduzir o abismo e a disparidade entre as capacidades intelectivas e biológicas de humanos e máquinas para absorver conhecimento não parece estar por trás, por exemplo, de iniciativas como o Projeto Panamá. E o que decorre do seu método de aprendizagem parece ser, por outro lado, a dissociação entre conteúdo e autoria, ou seja, a despersonalização da escrita e a supressão dos vestígios desse elo primário entre autor e obra. Todavia, é sob o amparo da universalização do acesso e da preservação da memória cultural que a empresa tem realizado sua defesa no caso, com seu método de digitalização destrutiva.
O impasse que se coloca entre a nova tecnologia e os bens culturais é uma derivação cognitiva, não exatamente uma reprodução ou tampouco uma iniciativa de conservação da memória. A conversão digital de conhecimento em dados manipuláveis pela técnica, entretanto, não elimina nem a sua origem nem a noção de propriedade intelectual. Há uma questão de crédito de fundo que ainda precisa ser resolvida. Além disso, de uma questão de autoridade e organização do conhecimento uma nova relação de forças se estabelece no mundo editorial, impactando a indústria do livro, o trabalho de conservação e sistematização das fontes, educação e a geração de novos conteúdos autorais obtidos na combinação das técnicas analógicas, digitais e generativas.
Considerando-se que a literatura universal vem sendo composta digitalmente desde o final do século anterior, é de pressupor que a Anthropic tenha antes suprido seus bancos de dados com essa literatura, mas o que parece à opinião pública é que está envolvida numa escalada cumulativa sem muito critério. É como se tivesse sido confiada ao engenho a capacidade mais elementar na organização de um acervo: a seleção. Da capacidade de criar relações na velocidade da luz, por parte dos chatbots, ninguém mais duvida. Mas e quanto à qualidade dos dados? Se ela mesma evita contaminar-se com o que produz, como seria possível conferir credibilidade às suas associações?
O que parece desconsiderado é que a explosão bibliográfica deve-se mais à profusão de obras repetitivas e de qualidade duvidosa do que a um inesgotável repertório de originalidade renovada. Ainda em 1935, Ortega y Gasset, em sua conferência “Misión del bibliotecario”, notava um excesso torrencial de livros e afirmava, sem receio, que muitos deles eram apenas “inúteis e estúpidos”, servindo de entrave ao progresso do conhecimento. Na mesma época, Robert Musil considerava o acesso ao conhecimento impossível e denominava a biblioteca onde ele mesmo atuava como um “hospício de livros”. No mesmo período da Segunda Guerra Mundial, Jorge Luis Borges publicou “A Biblioteca de Babel”, conto no qual transforma a biblioteca em metáfora de um universo caótico e incompreensível, revelando a incapacidade epistemológica humana de discernir entre ruído e conhecimento.
Do modo como tudo parece estar se encaminhando, a inteligência artificial não apenas suspenderá esse pasmo do homem moderno e pós-moderno diante dessa impossibilidade, como colocará todo esse repertório ao alcance da tela de qualquer pessoa. Isso representa uma mudança significativa nas capacidades cognitivas e também no trato individual com a cultura, ainda mais abrangente do que significou a expansão da internet, porém acompanhada da alienação da regência humana e do esvaziamento da subjetividade. Esta é a preocupação de, entre outros, Giorgio Agamben (On Artificial Intelligence and Natural Stupidity) e Byung-Chul Han (Não-coisas: reviravoltas no mundo da vida).
Seja como for, o que a Anthropic e as empresas que seguem seu exemplo estão realizando é a ultrapassagem de um conceito não resolvido pelas nações quanto ao tratamento de seu patrimônio cultural, seu uso indiscriminado e os direitos e deveres éticos que dele decorrem. Uma ultrapassagem sem aviso prévio nem debate público, apenas flagrada por intermédio do jornalismo investigativo, que tornou pública uma prática em curso há vários anos.
Não se trata de uma questão irrelevante ou menor; muito pelo contrário. A forma pela qual a inteligência artificial generativa é orientada diz muito respeito ao caráter e à forma de uso que seus proprietários pretendem oferecer ao mundo.
Ainda na primeira década do novo século, intelectuais que pensavam a cultura literária divergiam quanto às cautelas da plena digitalização, um processo no qual o Google é quem estava no centro, com o sempre apelativo projeto de uma biblioteca universal.
Havia quem previsse, naquele momento de transição, um futuro de democracia e acesso universal, como Robert Darnton (A questão dos livros: passado, presente e futuro), e quem fosse bem mais cauteloso, como o historiador Roger Chartier (Os desafios da escrita), que previa o risco da substituição dos suportes e da destruição antes mesmo de iniciativas de “digitalização destrutiva”.
Trata-se de um processo em curso, e um processo crítico que já está transformando a vida de trabalhadores, escritores, escolas e universidades em todo o mundo. Do uso mais banal ao mais sofisticado, a ideia oracular de quem dominasse o conhecimento acumulado pela humanidade e se transportasse num átimo de segundo entre um acervo de milhões de livros é uma ambição atemporal. Todavia a decomposição de livros em dados pode também dissipar definitivamente a “aura” da obra, desvinculando-a do pensamento que a originou. E a sensação de que todos os livros do mundo estejam ao alcance das mãos resultar não no fim do livro, como os historiadores vinham temendo, mas no próprio fim da leitura como vem sendo praticada até aqui.
Foi a leitura de um breve trecho do recente Uma história da literatura brasileira contemporânea (Todavia, 2026), de Regina Dalcastagnè, que há pouco me fez retomar a antiga impressão de que a história literária do Rio Grande do Sul pode não refletir tantos traços, como queremos crer, da experiência das Missões Jesuíticas Guaranis e da presença indígena. Ao examinar a ficção histórica produzida no estado, cuja diversidade e amplitude atribui ao “espaço de maior fricção entre colonizadores portugueses e espanhóis”, em seu livro a professora organiza esse conjunto de obras em três grandes eixos: a presença dos colonos europeus e a nostalgia da ocupação territorial, os conflitos urbanos e migratórios e, por fim, os embates armados, guerras e revoluções. Embora mencione a extensão da obra de Érico Veríssimo, sua síntese da ficção histórica gaúcha praticamente não contempla os quase dois séculos da experiência missioneira nem a presença indígena, que passam despercebidos no breve panorama dedicado aos livros e autores destacados.
Da leitura do parágrafo resulta uma sensação (não inédita) de estranhamento. Na historiografia literária rio-grandense, as Missões e o elemento indígena raramente comparecem em sua formação, cuja origem costuma ser situada nos limites da Revolução Farroupilha. A sensação agora se amplifica porque ocorre justamente no ano em que se comemoram os 400 anos das reduções jesuíticas, quando o tema tem sido objeto de intenso investimento publicitário no Rio Grande do Sul, servindo de atrativo para a realização de eventos de toda ordem, em uma iniciativa de fomento promovida pelo governo do Estado. Cumpre dizer que, apesar dessa visibilidade simbólica, pouco dessa mobilização foi incialmente projetada para repercutir nas condições de vida das comunidades indígenas, fato que motivou inclusive a intervenção do Ministério Público Federal no sentido de restabelecer a participação das comunidades e alterar a destinação dos recursos. A sensação de descompasso, portanto, não se limita à literatura e tampouco é uma novidade: a assimilação da experiência missioneira e da presença indígena no Rio Grande do Sul de um modo geral é permeada por um histórico de conflitos, disputas e impasses.
Do ponto de vista da memória cultural, a sensação é de um estranhamento ainda maior: ao menos por um momento, parece ainda prevalecer a ideia de que a história das Missões não nos pertence integralmente e diz mais respeito aos domínios espanhóis que luso-brasileiros. Reitero o “ainda” porque, em torno desse antecedente, erigiu-se e predominou por longo tempo a estranha ideia de uma província nascida politicamente apenas nos limiares do séc. XIX, precisamente em 1801, data em que a região foi definitivamente incorporada aos domínios luso-brasileiros após um processo de violência e expropriação dos povos originários.
A ideia fundamentou grande parte da historiografia rio-grandense produzida ao longo do séc. XX, estimulando um intenso debate público que, em muitos momentos, colocou em oposição intelectuais divergentes e governantes. No que diz respeito à literatura, isso me ocorreu especialmente pela ausência, no trecho mencionado, de qualquer referência às obras literárias dedicadas às Missões e à presença indígena — e ainda mais porque essa ausência não corresponde inteiramente à realidade. Há, pelo menos, dois romances que, além de expressivo sucesso editorial, desempenharam papel relevante nas discussões culturais rio-grandenses: trata-se de Tiaraju (Livraria do Globo, 1948), de Manoelito de Ornellas e Sepé Tiaraju: romance dos sete povos das Missões (Sulina, 1978), escrito por Alcy Cheuiche.
Ainda que não figure como um dos troncos da ficção histórica propostos pela professora Delcastagné, a história missioneira tem sido pródiga na proliferação literária. É uma produção, aliás, notavelmente diversa e compreende desde romances e novelas históricos até a poesia e o cancioneiro popular. No centro dessa intensa representação, localiza-se o guarani Sepé Tiaraju, santo popular desde o registro de João Simões Lopes Neto e figura ao mesmo tempo humana e mítica que encarnou a indianização da cultura popular como um ícone atrativo e identitário. Para muitos pesquisadores, como Eliana Inge Pristch e Ceres Karam Brum, foi justamente a literatura que conformou o mito, transformou a violência da morte de Sepé em martírio e o consolidou na memória e ancestralidade cultural dos gaúchos.
Se, contemporaneamente, o debate em torno das vertentes lusitanista e hispanista da história política e cultural do Rio Grande do Sul pode ser dado como superado, o mesmo não se pode dizer do legado missioneiro, que permanece como um campo simbólico aberto para os debates culturais, exploração turística e disputas políticas. Na literatura, vale dizer que isso se deve menos às referências ao passado do que à produção contemporânea de autoria indígena. Obras de autores como Luciana Vãngri Kaingang e Gerônimo Morinico Franco, por exemplo, vêm expressando, com crescente autonomia, os valores culturais e as questões próprias das comunidades, estabelecendo novas formas de continuidade com o passado colonial. Além da literatura, a reflexão sobre essas relações também está presente em diversas produções acadêmicas e realizações culturais, acompanhando o processo contemporâneo de afirmação da autoria indígena e sua atuação intelectual.
No que se refere ao passado, é preciso lembrar que as relações dos escritores com a representação dos indígenas estiveram, por muito tempo, influenciadas por um processo de racialização e subalternização que acabou por situar a identidade e os antecedentes indígenas, simultaneamente, no centro e à margem dos processos culturais. Há uma espécie de estigmatização que convive com o culto heroico. Em um processo identitário marcado pela indefinição da nacionalidade, pelo desejo de distinção em relação ao mundo hispânico, pela natureza da miscigenação e pela caracterização e permanência da memória cultural, impasses recentes acabam por mimetizar os antigos: velhos preconceitos são reciclados e traduzidos em formas de apagamento tanto no campo cultural quanto no político.
No terreno do imaginário, do qual a literatura ainda pode exercer um poder gerador de sentidos, a situação é tênue como são as atuais condições de vida dos descendentes dos povos indígenas. Mobilizar a atenção das pessoas cada vez mais conectadas ao mundo global para as particularidades locais exige aumentar um pouco o distanciamento para com o presente, e melhor ver o passado. Certo é que a literatura pode servir a esse propósito e a constatação da anulação da ausência dos indígenas no campo literário pode servir de termômetro cultural. Apesar disso, como escreveu certa vez o recém-falecido historiador italiano Carlo Ginzburg, não devemos exigir verossimilhança da literatura, mas aceitar a sutileza do seu suporte. O mais simples será sempre banalizarmos o conhecimento do passado e suspendermos o diálogo que podemos estabelecer com ele, mas à literatura é suficiente o reconhecimento do seu potencial de estranhamento. Quando nos diz respeito, estranhar a ausência desse reconhecimento torna-se também uma questão de sobrevivência.
Não há lugar nem mais e nem menos porto-alegrense em Porto Alegre que a Martins. Mesmo tendo atravessado a Riachuelo para o lado de lá, não é por sua peregrinação que ela perdeu algo meio indefinível e inconfundível que ela tem, como um teor só seu: um combinado de ácaro, do papel acartonado das brochuras antigas e de algumas camadas de histórias amalgamadas ao longo de quase 7 décadas de existência, guardadas entre as prateleiras lotadas de livros que, é preciso ser honesto, só se encontram mesmo na “Martins”.
Quando vim morar em Porto Alegre, década de 80, a Riachuelo ainda era conhecida como a rua dos livros. Havia, além da Martins, muitos outros sebos, livrarias e casas editoriais com sede ali, como a Vozes e a Sulina. Hoje ainda há alguns sebos, mas residuais. Bem como as bibliotecas, os sebos adoecem e não é por uma concorrência mais voraz ou por uma tecnologia superveniente, é que o passado sucumbe sem armas pelo desinteresse das pessoas cada vez mais focadas no presente e preocupadas com o futuro.
Mesmo assim, em nenhum outro sebo como a Martins eu sinto algo como uma perenidade. Não sei explicar, mas é diferente dos museus e das bibliotecas e muito, muito diferente das livrarias mais antenadas aos lançamentos. É que ali, se é possível encontrar os livros que por certo só mesmo a “Martins” editaria, também é o lugar onde se pode recuperar um título remoto de uma edição esgotada de meados do séc. XX. Mas não um livro banal, um livro incomum sobre botânica ou a história das ferrovias ou um ensaio remoto sobre um aspecto qualquer da revolução de 23, que a maioria das pessoas jamais saberá que houve.
E ali, vasculhando sem querer a história do município de Tupanciretã ou uma biografia não autorizada de um caudilho qualquer, parece claro (mas não tão claro) que há como um degrau para onde se pode descer um pouco mais numa literatura feita nem sempre por grandes nomes da história literária, mas por estudiosos municipais que, por ócio ou diletantismo, pulicaram até por conta própria textos que revelariam mais do que está posto no “cânon”, por detalhado e envolvido.
Todavia, a Martins não parece nem um pouco provinciana. Parece Porto Alegre mesmo, de um outro paradigma de cosmopolitismo não comum aqui (mais encontrável em Montevideo ou Buenos Aires). De um modo como não se permite a Porto Alegre ser, educada como foi um dia, com as pessoas mais simples do interior que a construíram. É bom ir na Martins nem que seja de passagem. A gente vê ali dentro que o tempo na verdade não acabou e nem vai acabar se nós mesmos não acabarmos com ele.
Vindo a Porto Alegre, não dá pra deixar de conhecer. Nem ponto turístico e histórico é, mas só mesmo porque nós em algum momento nos tornamos uns ingratos. E não adianta ir noutro lugar, história como na Martins não se encontra por aí.
Obs: a imagem é da fachada tal qual eu a conheci, não como é hoje.
Quem não gosta de poema gigante bom sujeito não é.
Nada tenho contra os que se afeiçoam às formas breves, mas eu sou da tribo dos poemas gigantes.
No futuro, ainda irei fazer uma coletânea pessoal dos melhores poemas gigantes da literatura.
Dos poemas que não economizam a língua, mas a exploram com um túnel infinito, uma “casa louca” sem fim nem destino..
Eu gosto dos poemas que vão revirando o leitor por dentro, como se fossem extinguir de dentro do cliente o seu fôlego final, e que o derrubam não diante de si e seus poderes, mas do verbo e seus particulares, indefiníveis significados.
Poemas que não colhem da natureza nem nela interferem, mas a nutrem com a sua tormenta em que sonho e realidade se mesclam, pensamento e sentimento se confundem, verdade e beleza se complementam..
Não é que despreze os epigramáticos e os minimalistas, eu os admiro, mas a minha natureza é de falar até esgotar dentro de mim qualquer queixa que se abre sem que eu a possa dominar.
Os poemas que viram a página e se remendam e se retalham e se remendam novamente. E assim indefinidamente. E ainda viram outra página.
Em absoluto, nada contra os fragmentos, os elementos óptico-visuais ou a percepção sumária.
Em absoluto, nada contra os flagrantes nas asas das mariposas, mas, nesse mesmo momento, um vulcão derramou magma por todo um continente. Me entenda..
Enfrentar a brevidade é um desejo incontrolável de prolongar a noite e postergar o amanhecer. Não render-se ao tempo nem constranger-se ao espaço. Ao menos nas palavras — só onde parece possível —, extravasá-los. Deixá-los de lado ou para trás.
O poema sinfônico, inconsolável, que as reticências conduzem de andante a adagio e daí para outra coisa e são longos demais, como a vida.
E depois que todos já estiverem exaustos, o poema os reavivará, pois é cedo, sempre é precoce demais o tempo da sua morte..
Se poderia ter dito isso em três versos, três sílabas? Sim, mas eu levei três dias..
Para meu proveito, é claro, porque não me passa convencer a ninguém de que estou certo ou tenho razão.
No dia dos escritores, cada qual é a quintessência do seu quintal, e ninguém tem nada com isso.
Acho lindo um quintal modesto, de cultivados, mas não invejo.. Que posso fazer se o meu quintal é do tamanho de um universo?.
Ézio: Essa primeira edição da Revista Marcela propõe como tema novas visões sobre o território da pampa. Buscar essas novas visões passa por fugir de estereótipos como do gaúcho, do interiorano desinformado, da história do RS sempre vista a partir da perspectiva bélica e da relação de antagonismo entre urbano e rural. Como você lidou com esses pontos na hora de criar o seu texto e não cair no lugar comum?
Lucio: Vocês partirem da premissa de que eu não caí no lugar comum muito me alivia. Eu mesmo não tenho isso tão certo comigo… E acho que não tenho porque guardo muitas dúvidas se é mesmo possível a quem escreve sobre uma paisagem específica (poderia ser o cerrado, o sertão, a floresta amazônica) fugir ao caldo cultural que a forma e, goste-se ou não, todos são permeados efetivamente por estereótipos e preconceitos endógenos e exógenos. É complicado, penso, estabelecer uma formulação literária que dê conta de um ambiente sócio cultural tão, digamos, sobrecaracterizado. Penso que, no meu caso, me sinto mais feliz quando não descarto a dimensão afetiva e não procuro eu mesmo resolver situações culturais complexas, pois seria fantasioso. Ao longo do tempo que venho escrevendo com o pano de fundo da região pampiana, tenho procurado abordar com respeito situações que conheci, mas que sempre estão se transformando, às vezes sem que possamos percebê-las. De certa maneira, tenho buscado conscientemente desvincular a imagem de violência e brutalidade que se colou à população rural de um modo geral. Não é tão difícil assim, basta desviar o olhar para outros focos poéticos, que há muitos.
Ézio: O que um escritor da sua região pode dizer diferente dos demais do estado do RS?
Lucio: Bom, desde que ele trate de sua localidade e procure representá-la de alguma forma, penso que qualquer autor deva ser fiel a si mesmo, ou seja, procurar ser sincero com a sua compreensão e defender sua liberdade a despeito das muitas coerções culturais existentes. Pensando especificamente na região da qual provenho, a fronteira sudoeste e a região da Campanha, penso que há certo acúmulo de ideias quanto a essa população, mas uma escassa reflexão escrita que parta desse exame mais autônomo. De certo modo, a iniciativa da Revista Marcela é excepcional por permitir que todo esse complexo relacional seja exposto com a atenção e o afeto merecido. Penso que os escritores de um modo geral costumam fazer isso em relação ao lugar de onde provêm ou onde vivem. A questão de isso vir a público, ser lido e debatido é muito benéfica socialmente, ainda que não seja necessária a formação de um consenso homogêneo valorativo. O convívio democrático é sempre de alta exigência.
Ézio:. De que forma você pensa na literatura hoje? Como espera que seu texto atinja os leitores?
Lucio: Penso muitas coisas desconexas, eu acho. Talvez até que aprecie mais a literatura de outros tempos que a “de hoje”. Mas eu realmente não me preocupo muito com os leitores. Acho que cada texto tem seu leitor e, às vezes, a boa sorte acontece deles se encontrarem. Mas realmente não aprecio a escrita que visa agradar aos leitores e, bem, me parece que atualmente é muito praticada, daí minha predileção para quando o leitor não comandava tanto assim a mente dos autores e nem os autores eram tão facilmente comandados pela audiência e etc.
Ézio: Quais são os autores que formaram seu imaginário de leitor e escritor?
Lucio: Na minha idade (rsrs), muita gente. Acho que o mais certo a dizer quanto a isso é que sempre fui um leitor sem preconceitos e que procurou aproveitar o máximo o que me havia de disponível. Tive a boa sorte de ter o hábito de leitura disseminado na família e entre meus amigos desde a adolescência, então meu “método” sempre foi esse: ler de tudo e o máximo possível. Evidentemente tenho preferências, mas mesmo estas não são pela autoria, e sim pelo conteúdo. Então tenho nessa coleção muitos poetas, contistas, romancista e ensaístas. Talvez ficasse enfadonho listá-los, mas, sem dúvida, a leitura da poesia de Fernando Pessoa, dos contos de Kafka, do épico de Érico e as narrativas de Garcia Márquez estão entre as leituras que mais me impactaram quando comecei a ler literatura na adolescência. Antes disso, gostava muito de histórias folclóricas e mitológicas. Bem, continuo gostando muito de tudo isso, fora o que foi sendo agregado nesse meio tempo.
Ézio: O que motiva você a escrever com uma multiplicidade de narrativas visuais na atualidade?
Lucio: Competir com o audiovisual vem se mostrando uma tarefa inglória, como se sabe. Por outro lado, mesmo as narrativas visuais tem um texto de fundo e as escritas também podem conformar um estado perceptivo “como se” de um filme. O que talvez ainda seja um campo exclusivo do escrito é capacidade polissêmica, de gerar sentidos múltiplos no lugar dos seriais, ampliando a capacidade subjetiva de interpretação de cada pessoa.
Ézio: Qual tipo de gênero literário você prefere na hora de escrever (Poesia, conto, narrativas longas, dramaturgia)?
Lucio: Bem, me parece que cada ideia pede uma espécie de texto especifico. Uma ideia com um arco mais longo precisa de mais espaço, um conto não costuma ser tão aberto, um poema é uma forma ainda mais sintética. No entanto, a depender de quem escreve e de como escreva, qual seja o gênero o efeito obtido é sempre inesperado. Essa é mesmo a riqueza da literatura, extrapolar de suas recomendações e surpreender o leitor.
Ézio: Na hora de conceber o texto você possui um padrão? Primeiro pensa nos personagens, no cenário, no tema, no final do texto?
Lucio: Penso que “padrão”, não… Nem etapas, nem roteiros… De alguma maneira que não sei explicar, tudo vem um pouco junto e o texto é quem vai organizando os elementos. Sei que existem pessoas que usam técnicas aprendidas em oficinas e guias, mas eu penso que a leitura em si mesma, a leitura mais atenta e analítica, é quem melhor ensina a escrever. Uma boa dica também é conhecer o método de trabalho de grandes escritores, mas, mesmo assim, penso que é mais proveitoso que cada qual descubra como funciona melhor a sua própria concepção e execução.
Ézio: Que sentimentos o aproximam mais da escrita? Você escreve quando está triste, feliz ou isso é indiferente?
Lucio: Acho que seria estranho pensar que é indiferente ou, talvez ainda mais, que buscasse a escrita por um ou em busca de um estado emocional específico. O que me parece é que a escrita traz consigo um sentido de realização que se auto justifica, quer dizer, ele mesmo não resolve um estado emocional, sua capacidade maior é de induzir estados de pensamento capazes de emocionar as pessoas em suas particularidades. O contrário disso é uma escrita com viés sentimentalista e esta, embora funcione em muitos casos, bem, não é exatamente a espécie de escrita que procuro pessoalmente fazer.
Nos últimos dias voltei a vasculhar aqui livros antigos, da literatura rio-grandense, e dei com essa edição de Simões Lopes Neto. Por muito tempo tive uma com o texto puro, apenas. Lá pelas tantas, entendi que queria essa pelos paratextos. Eu queria uma que tivese esta introdução, este prefácio e este posfácio. Nem lembro quanto paguei pelo livro, mas não foi pouco. Esta edição hoje não está nem nos sebos, apenas em casas de leilão. Comprei o meu exemplar já meio esbodegado, lombada descosturada e as páginas ainda inteiras no fólio, sem corte. Eu abri para ler o que queria e guardei onde ele estava até hoje cedo, quando fui consultar um trecho das Lendas do Sul.
Eu nunca havia percebido que o livro tinha uma capa impressa tão absolutamente torta, desenquadrada mesmo. E fiquei olhando o livro, enquanto manuseava o papel pesado em que foi impresso, e as palavras passando meio indistintas no folhear.
Ler é uma coisa estranha: as palavras estão ali, mas dependem completamente de alguém que as reordene em sua mente. No livro, são traços apenas. Digo, no objeto livro. Mas o livro em si não contém a obra. A obra é um mistério – é “o” mistério. O livro é apenas um caminho de acesso ao mistério outra vez oculto no livro.
De um livro que perdeu a capa (ou se a imprimiu torta ou errada), ou mais que isso, que perdeu partes suas, páginas, capítulos inteiros, pode-se dizer que é uma obra decomposta, destruída? Que deixou de ser obra?
Este livro da imagem, por exemplo, quantas páginas precisamos ler para perceber a sua imortalidade? E por que acontece com outros livros que nós os matamos desde a primeira página, os condenemos a uma mudez definitiva? E às vezes aceitamos inclusive que outros os matem por nós?
A minha conclusão é que é ilusório acessar a verdadeira obra de um livro. O livro sempre diz muito pouco da obra, que é a escrita da mente de alguém. A leitura, eu acho, é a realização improvável desse milagre.
Existe uma estrofe no “Lunar de Sepé”, poema recompilado por João Simões de Lopes Neto presente desde a primeira edição de “Lendas do Sul”, que eu acho muito curiosa. A passagem envolve uma referência ao momento em que Sepé vai ao extremo sul da estância de São Miguel, imediações da controversa redução de San Andres de los Guenoas, onde teria vivido (ou ainda viveria) um certo cacique Ibajé.
Os versos dizem o seguinte:
“Era a lomba da defesa, Nas coxilhas de Ibagé, Cacique muito matreiro Que nunca mudou de fé; Cavalo deu a ninguém… E a ninguém deixou de a pé…”
A essa altura dos acontecimentos de sua breve vida, na posição de alferes, Sepé já tinha conhecimento das mobilizações militares que culminariam primeiro em sua morte e a seguir no massacre de Caiboaté. Lusos e hispânicos dividiam palmo a palmo a nova demarcação que desejavam para a “terra de ninguém” e Sepé foi até lá para ter uma conversa com os ditos demarcadores, da qual teria derivado a famosa declaração que a ele se atribui: esta terra tem dono.
Os relatos desta conversa existem mesmo, apesar de controversos e nebulosos. Estão nos diários da expedição de Gomes Freire, numa anotação de um capitão luso. Também existe a lomba a que se refere Simões. É uma longa região da planura que se escora no escudo rio-grandense, formação geológica que modifica o aspecto geográfico da região pampeana, dobrando seus campos desde Aceguá até além da região de Caçapava do Sul, quase no centro do estado.
Os indígenas valiam-se dessas dobras geológicas (canhadas) para surpreender seus inimigos, pelo menos aqueles incautos que desconheciam sua perícia guerrilheira. Não me parece ser o caso do cacique Ibagé, nativo e conhecedor desses lugares. Sepé era perito nessas táticas de emboscada e, não tivesse o seu cavalo posto a mão numa cova de tatu, não teria sido lanceado da forma que foi. Nicolau Nenguiru, que assumiu a liderança e revanche dos tapes não tinha esse cuidado tático e acabou levando o exército guarani ao doloroso massacre dos indígenas missioneiros, numa batalha em campo aberto.
Mas o meu caso aqui não é o bem conhecido destino de Sepé e das missões jesuíticas. Eu fico curioso é com o “matreiro cacique” que teria dado nome à minha cidade natal.
Simões nos diz que o cacique era um infiel (um charrua ou minuano que “nunca mudou de fé”), que provavelmente vivia nos matos em torno do arroio que também leva seu nome (matreiro tem esse significado na região, de quem se esconde nos matos) e que, todavia, não se pode entender qual a atitude teve para com estes ou aqueles.
Cavalo deu a ninguém… / E a ninguém deixou de a pé…
Mas o que significa isso? Primeiro, é claro, que o dito cacique não ajudou a ninguém, não tendo emprestado um cavalo sequer. Segundo, sugere que o chefe indígena teria mesmo é ceifado a vida de muita gente. Mas de quem?
As opções são poucas.
1) teria colaborado com os tapes e matado adversários ibéricos
2) seria aliado dos portugueses e teria matado os guaranis (segundo uma lenda, tendo inclusive participado da morte de Sepé)
3) o indivíduo nunca existiu além da lenda (é o que dizem os historiadores lusitanistas, baseados nas anotações do topógrafo José Saldanha, reiteradas por investigadores de gabinete, como o bajeense Félix Contreira Rodrigues, Aurélio Porto, Mansueto Bernardi e tantos outros. Mansueto (o todo-poderoso da Revista do Globo), num artigo jocoso publicado no Correio do Povo nos anos finais da década de 50, sugere que, “enquanto não se apresente certidão, fé de ofício e atestado de residência, o cacique não passará de um vago e desengonçado lobisomem”.
Um aspecto que prejudica até mesmo a pesquisa historiográfica recente é que ela se vê muitas vezes na situação de valer-se de um conhecimento fixado no começo do séc. XX, tempo no qual foram forjadas interpretações no mínimo complicadas a respeito dos povos indígenas e permedas também por uma espécie de ficção historicista, em páginas muitas vezes abertamente racistas e desumanizantes. Seja como for, foram os primeiros sistematizadores do conhecimento de que hoje dispomos – e que continua sendo escasso, mas felizmete agora atravessado por outras epistemologias.
Sem dúvida, Simões Lopes Neto viveu mais próximo do tempo da tradição oral do que nós vivemos do folclore inventado por ele e a partir dele. O nosso distanciamento é total, apenas quase podemos lidar com o que os outros disseram e escreveram. Isso é bom, por um lado, porque nos obriga a rever os fios desse tramado histórico e examinar a qualidade desses alinhavos. Mas é ruim, porque quebra a nossa imanência com a raiz indígena.
Na literatura, os vestígios desse contato surgem de forma tão extemporânea que se inscrevem sempre numa posição marginal. O indígena não ocupa o centro nem é reconhecido como origem. Seja Sepé ou Ibajé, sua existência aparece invariavelmente em relação ao outro: numa eliminação e no registro de uma negação. Trata-se de uma expropriação de sua memória, de sua evocação e também de seu espírito. Sua identidade, assim, não é afirmada por si mesma, mas constituída por atribuição externa e por uma espécie de descriação simultânea.
A negação de Ibajé é a mesma que se cria quanto a Sepé e se reproduz na mesma querela historiográfica. Inclusive geograficamente, no nome duas cidades. A cidade de Bagé se descaracteriza dos povos que a habitavam originalmente, os guenoa-minuanos. E o município de São Sepé, fundado em 1876 já com esse nome, tem sua designação desvinculada de José Tiaraju, colocando-se uma interposição com uma suposta localidade chamada “San Sepe”.
Este é o mundo político, no qual a literatura pouco intervém. No literário, pelas mãos de Simões Lopes Neto, que diz ter recebido a lenda de uma mestiça (artifício ancestral) felizmente Sepé volta a ser um santo popular do povo missioneiro e de todo o povo gaúcho. E Ibajé, sim, é mais um índio matreiro e minuano cuja história real se perdeu ao mesmo tempo que se fundiu ao vento que leva o seu nome.
Para todos os efeitos, e sem razão aparente, o mar arrastou a pedra que estava aqui. Era onde pousava meus olhos, pensando se havia sentido em tanta espera, mas os sonhos bem se acomodavam no futuro.
Agora, onde piso, o chão se desfaz. Onde aponto, a porta é fechada. Volto para dentro de mim e o silêncio das vagas é rumor deposto em vão. Em palavras que avançam sem direção e levam consigo essa voz.
A liberdade? Encarcerou-se num lugar distante. Mas, através dela, refugo ao horror e o desassossego que fracassa a força dos braços, dobra joelhos e drena os olhos dessa alma velha, fluida, e por quem pouco me apego.
No passado, fui outra pessoa, e a quase tudo eu previa — até mesmo de olhos fechados. Mas viver não pode ser pensado, apenas vivido, e o que é falso se revela sob qualquer ponto de vista.
O mar, imenso por analogia, termina onde a vista alcança; a pedra, um edifício precário que submerge e borbulha; o tempo, que tudo movimenta sem interesse em nada ou ninguém, nunca reparte sua energia.