Há temposHá tempos

Se vivo fosse, Fernando Brant completaria hoje 80 anos de idade. Sempre pensei que ele fosse belo-horizontino, mas ele nasceu em Caldas, no interior mineiro. Sem olhar o mapa, não tenho ideia de onde fica.

Curiosamente, Fernando e Milton têm uma coleção de canções que remetem ao mês de outubro, sendo “Outubro” justamente o nome de uma delas. Uma composição densa que Milton adensa ainda mais dentro da sua voz irretocável. Mas é por um verso de “O que foi feito devera” que o mês de outubro mais se calcificou na memória musical brasileira, isso graças à interpretação visceral que Elis Regina fez para o álbum duplo Clube da Esquina 2.

Curioso também que ambos sejam nascidos em outubro. Fernando, hoje, 09. Milton é do dia 26. Neste ano, a data cairá um dia depois do segundo turno da eleição.

Releio aqui um texto que escrevei há uns oito anos, também em outro outubro, antes do segundo turno da eleição daquele ano, e me vali da obra de Fernando para espelhar um sentimento geracional que mais vi do que vivi, mas que também não deixei de notar nem sofrer seus efeitos.

Por incrível que possa parecer, no ano de 1988 descobri que havia sido fichado pela polícia militar por supostas atividades políticas. Nem tão supostas atividades, é verdade, mas bem pouco políticas. Meu flerte com o movimento estudantil foi breve, mas eu lembro que fui até o Arquivo Público conferir se era mesmo verdade que quase 10 anos após a Lei da Anistia estava mesmo fichado. Eu, um ninguém na fila da revolução. E estava mesmo.

“O que foi feito devera” me parece ser o maior hino da redemocratização, pelo menos na letra de Fernando Brant. É uma letra muito dura, muito auto exigente, que de certa forma resumia um compromisso ético da geração que logo viria a governar o Brasil em estar sempre atenta a si mesma. Era o que Fernando queria dizer, me parece. Mais vale o que será, mas é preciso “cobrar o que fomos” para se poder crescer, ou seja, não é um canto de esperança, mas de compromisso.

Por vias indiretas, ouvi muito essa e outras letras de Fernando e dos mineiros de um modo geral. Talvez por uma afinidade lírica, é da música popular o que mais se acomodou na minha memória afetiva. Agora, quando Lô Borges partiu, não faz muito, fiquei muito triste. Fernando, que não cantava e pouco subia aos palcos não me deixou tão esvaziado, mas foi como um lastro que cedeu. Mas essas são coisas com as quais precisamos nos acostumar, com essa fatalidade inevitável que logo levará Milton também. E assim sucessivamente.

Muitas vezes eu me sinto uma pessoa desacomodada no tempo. Parece que cheguei no fim de uma festa estranha, uma celebração a um mundo que estava se decompondo e um novo não havia se descortinado ainda. Sinto assim ainda hoje, em relação a muitas coisas, principalmente na minha relação com a literatura. Quando adolesci, já ninguém mais ouvia o Clube da Esquina, mas é impossível a quem se educou por aquela poética entregar seu fabro a outra coisa qualquer.

Em meados dos anos 80, no entanto, a música popular entrou em vertigem. Ao mesmo tempo que não soube se tornar autenticamente pop, o gosto de vanguarda já não comovia a nova geração. Quem embalou a nova geração foram o rock nacional e o pop estrangeiro. Goste-se ou não, foi assim. A poética do rock nacional, porém, já vinha despida do lirismo brasileiro. Era ácida, revoltada, mais influenciada pelo punk do que pelo velho folk de Bob Dylan e o rock hippie dos 70.

Na minha alma, tenho o eco dessas duas coisas. A canção de consciência histórica, profundamente engajada na politização da juventude, e a explosão semi desajustada mais ou menos anti sistema da profusão de bandas que tomaram de assalto rádios, corações e mentes. Fato é que havia um recado a ser dado, mas de renúncia à política que lhes legara uma democracia franqueada e corrompida pelo dinheiro.

Dessa geração eu sou também e hoje consigo finalmente sentir mais falta dos meus contemporâneos que dos oitentões da MPB. Por muito tempo não tinha paciência com o rock nacional e seu aparente descompromisso. Hoje consigo fazer uma linha de continuidade porque, de certo modo, é o que ilustra a própria história da minha vida.

De esperançosos e supostamente compromissados, os jovens dos 80 permitiram-se a estupidez da drogadição e um certo culto à irreverência (que um candidato aí tenta simular). Talvez nada dê em nada mesmo, mas, hoje, ao menos para mim, isso dá mais nome ao mundo. E me é bastante amargo ter esse mundo, com esses nomes, para oferecer aos meus filhos, que não têm nada a ver com isso.

Daqui a dois dias, outubro ainda, faz 30 anos da morte de Renato Russo.

Lá em casa tem um poço, mas a água é muito limpa.

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𝗜𝗺𝗮𝗴𝗲𝗺: 𝗟𝗮 𝗩𝗲́𝗿𝗶𝘁𝗲́ 𝘀𝗼𝗿𝘁𝗮𝗻𝘁 𝗱𝘂 𝗽𝘂𝗶𝘁𝘀, 𝗝𝗲𝗮𝗻 𝗟𝗲́𝗼𝗻 𝗚𝗲𝗿𝗼𝗺𝗲

KomorebiKomorebi

Fiquei sabendo esses tempos, por uma música de uma pianista francesa, que os japoneses têm um palavra para a luz e para a sombra que atravessam as folhas de uma árvore ao vento. A palavra é “komorebi”. Eu fiquei pensando se conhecia, na língua portuguesa, uma palavra que significasse tanta coisa, ou melhor, que procurasse se referir a algo tão impreciso. Não me veio nenhuma em mente. De repente, me passou a sensação de uma obviedade idiomática tão grande… Ou vocabular minha, no caso.

Depois lembrei de que, uma vez, uma poeta pediu que eu ajudasse a tentar organizar um livro de poemas e ela tinha um poema que se chamava “Petrichor”. Um lindo poema, por sinal, e eu lembro que disse a ela que aquele, na minha opinião, deveria ser o primeiro do livro. Petricor, sem o “h” é uma palavra do português, de origem grega, e que dá nome ao aroma característico que a chuva produz ao cair sobre o solo. É maravilhoso isso…

Há muitas palavras abstratas no português, mas há poucas palavras que são como pinturas. Eu acho que a palavra mais bela do português é o coletivo de borboletas, o panapaná, que é de origem tupi. Cafuné é uma palavra linda, com um significado tátil, de origem angolana. E a sempre lembrada “saudade”, que é bastante indefinível e abstrata, mas que também não pode ser representada visualmente.

Dizem que nos livros de Guimarães Rosa podem ser encontrados mais de 5.000 neologismos. Eu acho umas lindezas “circunstreza” e “sagarana” e outras mais que não lembro agora. Mas, tirando Rosa e as “ignoranças” de Manoel de Barros (que fazia mais deformações que neologismos), voltamos ao deserto das obviedades e palavras de único referente.

É verdade que todas as palavras um dia foram um neologismo, mas o que eu notava com a palavra japonesa é que a maioria das palavras são como um muro, uma parede, resumitivas, mesmo quando polissêmicas. E há outras que parecem ter nascido abertas, inapreensíveis. Qualquer coisa que fuja ao óbvio é sempre mais interessante.

Poesia e prosaPoesia e prosa

Às vezes, enquanto leio, penso que a diferença entre a prosa e a poesia pode não ser tanta. Trocando em miúdos, parece que é apenas uma questão de dimensão da metáfora, da capacidade do autor em focá-la.

Nesse raciocínio, a potência que se extrai de um poema pode muito bem ser maior que a de um romance de seiscentas páginas. Nem sempre é, mas é evidente que pode.

Imagino a circunstância de uma casa. Ter de construí-la do zero, situá-la na geografia e na história do mundo, alicerçá-la, colocar seu piso e telhado, entalhar as madeiras dos móveis, observar a incidência da luz dos dias e das diferentes estações e ainda habitá-la com pessoas com uma história de vida: um passado, um presente e, às vezes, um destino.

A casa tem a mesma estrutura de uma novela ou romance, mas o principal dela não é estrutura.

Ela pode ser descrita e narrada de mil maneiras possíveis, pouco importa o estilo adotado por quem se decidiu erguê-la. No entanto, há um evento fundamental que ocorre no transcurso dessa experiência e esse evento sequer precisa ser explicado, pode ser um subtexto (talvez até seja melhor assim), mas definitivamente ele precisa existir, caso contrário não se trata de literatura, mas apenas engenharia e arquitetura.

O evento pode ser mínimo, mas precisa ter consequências máximas, sob pena de ao leitor parecer fútil e perda de tempo. Se o evento ocorrer num momento de graça e puder ser pressentido em sua cosmicidade por quem estiver lendo (nunca por quem o escreveu), então aí sim se poderia dizer que este seria um exemplo de prosa poética, de uma prosa que se permeou com tal intensidade à infiltração da poesia que logrou adquirir a qualidade de uma metáfora e ultrapassou a sua dimensão conceitual e propósitos.

É como se todo o trabalho do narrador se dirigisse ao momento em que, finalmente, fosse aberta uma janela pela qual atravessaria a luminosidade que revelaria de um lado nossa ignorância leitora e, do outro, o abismo da criação que lhe abriu passagem.

Quando penso nisso, me parece que a poesia, justamente, são tentativas de flagrar esses momentos luminosos e por isso exige uma energia de atenção absurda, muito difícil justamente pela concentração envolvida.

Para a poesia, não me parece relevante que se tente e fracasse, ou que se publiquem livros fracassados, mas que é indispensável dirigir a atenção a essa busca.

Para a prosa, o trabalho ainda é mais exigente, porque nem mesmo dinamitando a casa pode-se garantir o vislumbre da luminosidade, que costuma acontecer mesmo é na segunda ou terceira leitura e na condição de que o leitor aceite as chaves oferecidas e também consiga não se enganar de porta.

O que fazer com um gaúcho?O que fazer com um gaúcho?

𝘘𝘶𝘢𝘭 𝘰 𝘮𝘦𝘯𝘰𝘳 𝘤𝘪𝘳𝘤𝘰 𝘥𝘰 𝘮𝘶𝘯𝘥𝘰?
𝘌́ 𝘢 𝘣𝘰𝘮𝘣𝘢𝘤𝘩𝘢 𝘥𝘰 𝘨𝘢𝘶́𝘤𝘩𝘰, 𝘱𝘰𝘪𝘴 𝘴𝘰́ 𝘤𝘢𝘣𝘦 𝘶𝘮 𝘱𝘢𝘭𝘩𝘢𝘤̧𝘰 𝘥𝘦𝘯𝘵𝘳𝘰. (𝘈𝘯𝘰̂𝘯𝘪𝘮𝘰)

Não sei se em razão do atribulado momento jurídico-político, da perspectiva eleitoral iminente ou da dispersão informativa característica desses tempos, mas me parece que neste ano o mês de setembro vai passando praticamente em brancas nuvens no que diz respeito ao gauchismo normalmente associado ao mês em que por aqui se rememoram os eventos da Revolução Farroupilha.

A minha impressão é de que este é um fenômeno que vem acompanhando o declínio do poder de influência da mídia no debate público. Eu não acho isso de todo ruim, porque normalmente é um assunto pisoteado tanto no que se refere ao culto quanto à crítica a eventos que, em última análise, parecem ser mais de interesse histórico-literário que propriamente ao tempo de agora. Quero dizer, a Revolução Farroupilha e as farrapiadas*. Mas também não acho essencialmente bom e não tenho uma explicação muito objetiva para esse estranhamento, quer dizer, a explicação que venho esboçando mentalmente também não me satisfaz muito.

À menor atenção da mídia escrita aos debates culturais vem correspondendo um incremento de outras fontes informativas, como influenciadores, podcasters e uma leva de comunicadores que também têm os seus compromissos ideológicos e comerciais. No entanto, o que mais eu tenho visto é informação de baixa qualidade circulando por aí: textos “artificiais” e artificiosos, às vezes sem qualquer respaldo teórico e, em contrapartida, muito efeito retórico. Nesse ponto, é preciso admitir que o debate que acontecia nos jornais era muito mais qualificado. Mas essa é uma página virada e é preciso conviver com essas coisas todas, mantendo-se o discernimento possível.

Mudando de assunto, mas não muito, lembrei de que há não muito tempo uma amiga contou que havia visto um festival de folclore numa cidade do interior e disse ter ficado espantada não com a indumentária feminina, como é mais usual, mas com a masculina. Ela dizia que lhe parecera um despropósito o tamanho e o gasto de tecido nas roupas dos dançarinos. E também não entendia a razão para que os cavaleiros daqui não usassem trajes justos, tais como os utilizados pelas cowboys norte-americanos. Eu não soube o que dizer. Lembrei que minha avó materna trabalhou como costureira em sua cidade natal, a Hulha Negra, e, pelo que me contaram, ela produzia roupas de serviço para os trabalhadores do campo. Bombachas, no caso. Mas desconheço quando as bombachas passaram a ser produzidas industrialmente no Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina, onde foram disseminadas entre a população rural.

Como em relação ao termo “gaúcho”, a origem da bombacha foi também razão de discórdia entre folcloristas no passado, mas a versão mais aceita é que tenha chegado aqui no período da Guerra do Paraguai e teria origem turca. A Guerra do Paraguai, aliás, representou um momento de transição crucial do gaúcho da “era do couro” em direção à modernidade, de caráter capitalista e industrial. Também foi o momento derradeiro do gaúcho livre, bandoleiro, para sua conformação definitiva em peão campeiro, isto é, em trabalhador rural. Isso tanto é real que coexistem no imaginário popular e na representação literária ambos os modos de vida, como se houvessem sido concomitantes, mas o fato é que nunca o foram. Separam-nos, além do tempo propriamente dito, modos de vida bastante diferenciados, inclusive no que diz respeito ao instrumental de trabalho e vestuário.

A Guerra do Paraguai me parece ter sido mesmo um limite, ou melhor, um marco, mas um marco que se estendeu pelo menos até 1923, com as últimas revoltas caudilhistas. Desde aí até após a Segunda Guerra Mundial, ocorreu a primeira grande crise da pecuária rio-grandense do século e o empobrecimento rural conformando um novo tipo humano: o gaúcho despossuído e migrante. Além disso, a cultura norte-americana, vencedora na guerra mundial, tornava-se cada vez mais hegemônica, especialmente por meio do cinema, contribuindo para a anulação das culturas locais.

Logo em 1952, movida pela percepção do horror racista subjacente à guerra e a prevalência do etnocentrismo nas relações culturais entre as nações, a UNESCO encomendou ao antropólogo Claude Lévi-Strauss uma conferência na qual ele estabeleceu o que seriam, mais tarde, os fundamentos da Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural, publicando logo a seguir o livro “Raça e história”. A Declaração, todavia, somente seria adotada em 2001, logo após os atentados de 11 de setembro. Antes disso, em 1971, a UNESCO convocou outra vez o antropólogo, que realizou uma contundente crítica ao que hoje chamaríamos de “globalização” e seus efeitos colaterais. O resultado dessa conferência se encontra por sua vez no livro “Raça e cultura”.

Foi nesse caldo cultural, também composto por um tanto de águas passadas, que se fundou no Rio Grande do Sul o tradicionalismo e foram reestilizadas, vamos dizer assim, as práticas coletivas do povo e uma reinterpretação de sua memória. No centro dessa formulação, todavia, não se encontra um momento ideal e pacífico, um idílio, mas o evento político complexo e conturbado que foi a Revolução Farroupilha. Também ao centro dessa formulação se vai colocar o tipo humano gaúcho e toda uma composição figurativa, inclusive a caricatural indumentária de homens e mulheres.

Para melhor compreender o movimento de representação cultural, no entanto, é necessário um duplo deslocamento. O mais evidente é o que se pode verificar com os próprios olhos e se dá em relação ao tempo presente e o cada vez maior estranhamento dessa representação diante da realidade sociocultural, além da alienação desse modo de vida das condições reais de experiência das pessoas. O outro, são as águas passadas mencionadas anteriormente e certa objetificação da condição humana usada deliberadamente por aqueles que registram e imaginam a vida, quase sempre com base documental e viés interpretativo.

Nesse campo (que não é campo, é cultura), a história cultural é debatida sob as mais diversas influências e interesses. Há interesses de classe, étnico-raciais, de gênero, políticos, históricos e assim por diante. O interessante é notar que, para todas as influências, a disponibilidade histórica é a mesma, mas as interpretações se transformam ao longo do tempo mantendo-se algumas moedas de troca: a identidade ao sul, a vizinhança e as relações com o mundo espanhol e, incrivelmente, o temperamento. Eu desconheço cultura que valorize mais o temperamento do que a que se refere aos gaúchos. No caso, de homens e de mulheres.

Embora no mais das vezes sejam valores e comportamento associados à caricatura do machismo, no campo literário me interessa bastante observar como os escritores movimentam a psicologia dos gaúchos e gaúchas, manipulando-as conforme seus enredos exigem. Embora a maioria das representações literárias costume partir dos protótipos românticos, o gaúcho é quase sempre mais descrito como um componente natural do que um personagem trágico. Toda a literatura gauchesca (platina e brasileira) assenta-se em poucos traços psíquicos e morais: a honra, o culto da coragem, a liberdade, a autonomia, a hospitalidade e a solidariedade. Evidentemente, correspondem a estes valores alguns traços negativos, normalmente associados a outros poucos estereótipos e preconceitos inclusive de fundo racial, mas literariamente não me parece que sejam personagens notáveis.

Como em qualquer lugar do mundo, existe no Rio Grande do Sul uma literatura canônica e uma outra mais popular e próxima à linguagem coloquial. Também existe uma historiografia canônica e outra praticada por diletantes, pessoas apenas interessadas nas tramas da identidade que se vinculam a grupos de maior ou menor projeção municipal ou estadual, normalmente veiculadas em produções independentes e de pequena circulação. Mesmo que a tendência acadêmica venha predominando desde os anos 60, mais ou menos, o relacionamento intelectual com essa representação não se altera muito. Há também o Estado e suas instituições e uma exigência simbólica de manter essa relação disponível como objeto de pensamento.

Ao longo do século XX e, agora, no XXI, algumas dezenas ou centenas de títulos e textos foram produzidos debatendo a respeito das características do presente e o passado político-simbólico, especialmente o farrapo. Nos jornais e na mídia, intelectuais de menor ou maior projeção costumavam reacender esse debate, sob os mais diversos vieses. Até meados da década de 60, a Editora Globo ainda reunia e publicava coletâneas de escritores e estudiosos locais interessados em afirmar seu ponto de vista, mas mantendo em mente um foco local preciso. Depois de sua decadência, outras editoras e novos intelectuais mantiveram o costume do debate e o mês de setembro sempre foi o mais propício para que fosse reencenado.

Pensando assim, é por isso que acho que não consigo avaliar bem por que essas discussões (embora muitas sejam repetitivas e cansativas) desapareçam ou sejam substituídas por textos e imagens artificiais, visto que a história cultural por si só tem riquezas tanto em seus momentos felizes quanto nos dramáticos. Perder o vínculo com autores do passado, esquecê-los, simplesmente, é uma espécie de morte cruel que contamina e desenraiza as pessoas da própria condução da sua vida presente, bem como do sentimento coletivo e solidário. Pode ser inevitável, de fato, esse movimento, e a resposta dos anos 50 se encontre superada em muitos aspectos, no entanto penso que talvez seja ainda das poucas oportunidades que temos de pensar a paisagem social para além do que nos traz cada “ecrã” encalacrante.

Eu comecei a minha vida literária com um livro de contos nos quais esse mundo prevalecia ou se relacionava também, um pouco, com a vida contemporânea. Tenho uma relação ambígua e difícil com esses contos, acho alguns fracos literariamente, e até mesmo mal escritos e algo explicativos. Mas o único que me preocupei na época foi em manter o que eu tinha de experiência daquele universo, em mim, e não rejeitá-lo simplesmente, até porque isso não seria possível nem digno. Sem dúvida, eu me reporto ao que li antes, à tradição literária, mas muito mais ao mundo que aprendi por ser o meu mundo imediato, com a paisagem disponível (que nunca se afasta completamente), os animais, as pessoas e suas vidas reais, em sua miséria e beleza e também a linguagem.

À minha amiga, que gostaria de entender por que os gaúchos usam bombachas e não jeans para montar, eu publico uma imagem de mim mesmo. Usava porque era o que estava à mão. Remendada e manchada do uso, nem um pouco parecida com um produto de vitrine. Por que estava ali? Eu nem sei dizer. Da próxima vez que me encontrar com ela, vou lhe perguntar é por que não deveria estar.

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* De acordo com o Michaelis, “farrapiada” é um substantivo feminino que designa os feitos políticos e militares dos rebeldes republicanos (os farrapos) durante a Guerra dos Farrapos (ou Revolução Farroupilha), que ocorreu entre 1835 e 1845 no Rio Grande do Sul. Não é piada de gaúcho.

A sombraA sombra

Pensava que seria mais fácil não mais começar a escrever um verso, na vida. E que seria bem mais fácil resistir a operar esse maquinário com que tenho me havido desde os meus 14 anos, mais ou menos. No entanto, não é.

Na adolescência (às vezes, depois de adulto também), escrever em versos foi quase sempre uma muleta catártica. Das poucas vezes que não foi, mantive algumas coisas que no meu juízo sobrevieram e depois até publiquei. São bem poucos e eu consigo ainda gostar deles. Não são traumas juvenis. Mas, há uns anos, destruí uma pasta que mantinha uma pequena coleção daquelas antiguidades.

Comigo não haverá, portanto, um volume póstumo daquelas “pérolas”. Seria um baú de horrores, ao invés de “espantos”. Desses impublicáveis, mantive apenas um em razão do seu contexto, certamente a ninguém mais compreensível, embora eu não goste deste.

Escrever para mim sempre foi um exercício de falta, uma locupletação de um estado de desacomodação mental/espiritual. Se tudo vai bem na vida, a poesia excede. Sendo um excesso, torna-se fútil e dispensável. Prefiro fazer outras coisas.

Mas a verdade é que eu também me habituei a escrever sem a “falta” e, embora poemas assim escritos me pareçam gélidos, de alguns eu gosto também, pelo que eles induzem ou sugerem. O estado melancólico, entretanto, parece que me leva a melhores soluções “líricas”.

Mas é verdade que deposito muitas vezes o meu pessimismo ou faço daquilo uma tela com que diluir minhas próprias sombras. Também é que uso para me consolar e iluminar, mas acho sempre isso mais apelativo que simplesmente assumir a melancolia, embora saiba que esse contágio emocional possa comprometer a intenção.

De modo que, em razão da presença desse estado melancólico, apelei ao verso.. Sim, é uma confissão. Porém, como quem deseja dispensar a muleta catártica, fiquei trabalhando ontem, o dia inteiro, em remover a tristeza que havia neles, talvez com a ilusão de que, se conseguisse, removeria de mim também..

Ao menos naqueles momentos, funcionou bem, como um suspiro terapêutico, um efeito placebo, com o qual dilapidei algumas armadilhas verbais e, por certo, caí em outras. Mas assim é escrever poesia comigo. Sempre foi. Eu não me importo do translúcido na mesma medida em que tento evitar ser plano e óbvio. Acho que consegui remover a tristeza, mas posso ter tido sucesso também em não ter removido inteiramente a melancolia..

𝗔 𝘀𝗼𝗺𝗯𝗿𝗮

Um muro cai dos tijolos.

À sombra das letras,
o rótulo de um vidro
mantinha a atenção derretida
em tudo o que o atravessava
já fora dos pesadelos.

Lírios dolentes sacudiam
o vento pelos pés
levantando a terra despojada.

É muito esperar a manhã
quando a tarde se estende
e a noite se adia.

O que fazia?
Buscava encontrar qualquer coisa
que há de nascer aqui mesmo.

Mas não se pode entender
por que outra vez
o inverno regride
às costas deste outro
que não se conclui.

A primavera adormece
em botões apertados
e um sol compungido.

Imagem: Pacita Abad

Linha de véuLinha de véu

Li esses tempos numa matéria do UOL que um tsunami teria propiciado, no Japão, em 2011, o cruzamento entre duas espécies distintas de peixe-espinho: uma marinha, habitante das águas salgadas, e outra da água doce.

A força do tsunami teria rompido as barreiras naturais e permitido a hibridização das espécies, gerando novos genomas que, mais tarde, acabaram mostrando-se inviáveis. Em cerca de uma década, as espécies originárias “expurgaram” os genes introduzidos e regressaram à estabilidade anterior, mais ou menos num processo de reespeciação.

Mais comum em plantas, esta seria das poucas observações do processo em animais. Na Origem das Espécies, Darwin dedica um capítulo ao processo de hibridização, processo que ele testava in vivo em estufas que mantinha nos fundos de Down House. Foi ele um dos primeiros naturalistas a atestar que híbridos nem sempre são inviáveis ou estéreis e que a evolução não seria um processo inteiramente linear e previsível. Na natureza, há uma margem de liberdade muito grande entre espécies, assim como de inesperado na evolução.

O que acontece livremente na natureza, no entanto, quase nunca encontra par quando se refere às pessoas e o próprio Darwin incorreu em muitos equívocos ao tentar essa aproximação. Apesar de que somos uma espécie apenas, nos dividimos e separamos de muitas maneiras: territorialmente, linguisticamente, politicamente e assim por diante. Mas eu costumo não aproximar questões da vida racional ao que sejam hipóteses biológicas, a não ser quando me pareçam estimulantes. Se a cooperação humana pode intensificar-se mais na adversidade e diante de uma ameaça comum que por iniciativa espontânea, a exclusão e a violência paralelamente também. Qualquer livro de história do ensino fundamental pode comprovar isso.

Às vezes, a sucessão de conflitos e soluções sangrentas parece resumir a história humana, numa espécie de determinismo macabro. Eu sempre fui muito pessimista quanto ao surgimento de um novo homem ou consciência. Se isso acontecer e eu ainda estiver vivo, será para mim uma surpresa. Mesmo assim, a tendência de aproximações e re-estabilizações sociais também é real e talvez seja um traço instintivo de preservação em contextos adversos. Não sei, é apenas um pensamento.

Há um tempo li um artigo de alguns biólogos brasileiros que desenvolveram um conceito que eu achei muito bonito, muito poético, e que se chama “linha de véu”.

Significa algo como uma dificuldade taxonômica e uma margem de imprevisibilidade biológica na qual poderiam surgir novas variações e mutações para além da capacidade humana em percebê-las. De acordo com eles, a floresta amazônica abrigaria, em seu interior, centenas ou milhares desses processos, inclusive hibridizações entre espécies diferentes que estão sempre a ponto de conformar uma possibilidade inédita de vida e sobrevivência das espécies. Quer dizer: possibilidades que escapam ao nosso catálogo, demonstrando que às vezes não temos radar suficiente para perceber a biodiversidade.

Trazendo a ideia para a vida dos homens, seria muito surpreendente se, afinal, um novo homem surgisse em meio à história que estamos escrevendo, uma história calcada em processos violentos. Mas eu não ficaria triste se isso acontecesse, porque o homem atual é um ser esgotante em quase todos os sentidos.

Mas é uma especulação à toa, essa. Para a racionalidade mais usual, o encobrimento das mudanças é tomado usualmente como uma ameaça, algo a ser repelido e evitado. A fixação em torno de alienígenas exterminadores não me deixa mentir, é uma projeção extremada desse instinto agressivo. Uma vez assisti a um vídeo do Stephen Hawking no qual ele afirmava ser impossível haver evolução tecnológica sem a correspondente Nêmesis. Se chegassem extraterrestres por aqui, seria inevitavelmente um processo de colonização e expropriação.

Engraçado é que, mesmo que não haja evidências de que isso um dia tenha acontecido, vivemos nos preparando para isso, para revidar e agredir. A tradição ordena reputar como ameaça a possibilidade de intercambiar valores e ocupar o mesmo espaço sem uma razão de vantagem direta, como bem atestam as experiências coloniais. Quer dizer, não gostamos da pecha de darwinistas sociais, mas ainda recorremos a lógicas de competição e vantagem, como no séc. XIX. Por muito pouco rasgamos o véu da alteridade sem dó nem piedade. Daí à violência aberta é um passo só. E breve..

No meu último livro de poemas, “Errata”, escrevi um poema inspirado nesse conceito biológico.

𝗟𝗶𝗻𝗵𝗮 𝗱𝗲 𝘃𝗲́𝘂

Numa de nossas casas venta demais,
noutra ele não passa.

Numa um cofre aprisiona silêncios:
os naquela reclamados;

noutra sempre é o anoitecer —
ainda amanhece.

À janela, um pássaro bateu.
Soprou, empurrou, entrou.

Ele nunca reagiu ou soube,
mas a casa o colou às paredes

e tudo o que foi sonhado —
o apalpado às pressas,

o corpo ao inverso,
roupas retidas sob a linha de véu.

Numa, o vento o expôs a tudo.
Noutra, irreconhecível, viveu.

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Imagem: Pacita Abad

Dyal ThakDyal Thak

Uma vaca pastando em uma colina seca com uma mulher vestindo um robe ao fundo, sob um céu azul e uma lua cheia visível.

Há dias, não, meses, que tenho esta imagem guardada comigo.

Tomei-a de uma revista de fotografia pensando que um dia escreveria um poema a partir dela.

Há poucos dias (não, meses), compreendi também que não escreveria mais poesia.

Algo em mim havia se tornado impermeável. Fracassava qualquer desejo de mostrar o que não está posto, tentar essa revelação a frio, a seco, que há em oferecer sentidos a mais, outra perspectiva ao óbvio de uma imagem bidimensional.

Nada posso acrescentar a essa imagem. Não posso colocar a lua no céu, ela já está lá. O animal pastando é uma constância, estará sempre assim. E o olhar da mulher, indefinido, eu o reconheço: é o mesmo meu.

Sinto em mim, em relação à poesia, uma fadiga como a dos metais. O aço que estourou mesmo sem nada suportar, como se fosse ao mesmo tempo o vórtice do mundo real.

Deste vórtice eu me afastei sem sentir tristeza por isso, apenas um pouco de saudade de quando sentia que conseguia ainda vivificar as imagens do pensamento. Era uma sensação muito poderosa, indescritivelmente poderosa, mas da qual, agora, guardo uma distância imprecisa e respeitosa.

A poesia requer, eu acho, uma ingenuidade incompatível com o ponto de vista de quem observa e analisa. O poeta observa para ver melhor e entrega o que vê de uma forma que cause espanto aos demais a cegueira em que ele mesmo se encontra. Ele entrega o que tateia e, por isso, temos sempre uma relação de admiração piedosa com estas pessoas. Eles não sabem e sabem que não sabem, pois estão sempre em busca desta confirmação.

Seja como for, e eu não sei mais do que isto, estou tranquilo com a lua no céu e sua desproporção. Estou tranquilo com o bovino matando a sua fome. Estou tranquilo como a paisagem que a mulher olha e não podemos saber o que é.

O que eu desejaria escrever em poesia é como essa paisagem: é o que eu não sei, o que não foi me dado ver. E, sabendo que é isso, apenas, e tudo que me importa, então tudo está dito.

A fotografia é de autoria de Kin Coedel, de uma séria intitulada Dyal Thak (termo em tibetano que significa “laços mútuos” ou “conexão”) 

La Minuana, agora em edição revista e acrescidaLa Minuana, agora em edição revista e acrescida

Esta segunda edição de La Minuana tem caráter comemorativo e é publicada no ano em que se celebram, no Rio Grande do Sul, os quatrocentos anos das Missões Jesuíticas. A novela histórica que compõe este livro permanece inalterada em relação à edição anterior, pela qual recebeu, em 2024, o prêmio da Associação Gaúcha de Escritores. O ensaio que originalmente a acompanhava sob a forma de prólogo, no entanto, foi revisto e ampliado, passando agora a estruturar-se em novas seções, com o objetivo de aprofundar a reflexão em torno do tema central da narrativa: o desenlace das etnias pampianas no encontro com as populações colonizadoras do sul do continente. Além do prólogo original, as seções correspondem a observações variadas que foram elaboradas ao tempo da pesquisa realizada para a escrita da novela.

As relações entre etnias e parcialidades no contexto missioneiro foram complexas e atravessadas por sucessivas transformações. Desde os primeiros contatos marcados pela hostilidade, passando pelo comércio, pela conversão religiosa e pela assimilação de costumes, até os confrontos finais que envolveram guaranis e outros povos indígenas já integrados às reduções jesuíticas e franciscanas, trata-se de uma história que se modifica no tempo sem nunca dissolver por completo as diferenças culturais ancestrais.

Se a historiografia e a literatura dedicadas aos povos guarani são relativamente extensas, o mesmo não se pode dizer das etnias pampianas — em especial charruas e guenoa-minuanos. O nomadismo desses grupos retardou a estabilização do contato com religiosos e colonizadores, resultando em um conjunto reduzido de fontes sobre seus modos de vida e organização social. Esse silêncio documental, contudo, não impediu a formação de um imaginário cultural persistente em torno desses povos.

Narrada em primeira pessoa por um desertor da Guerra do Paraguai, a novela adota uma linguagem híbrida, em que se mesclam, de modo irregular, elementos do português e do espanhol. O registro aproxima-se mais do vocabulário dos criollos e paisanos do campo do que da linguagem urbana, e a narrativa transcorre quase inteiramente em campo aberto, com as cidades surgindo apenas como referências distantes. A opção dialoga com a descrição feita por Teodoro Vilardebó da linguagem dos toldos charruas, marcada pela mistura de idiomas indígenas e europeus, de caráter expansivo e pouco normatizado.

Os termos provenientes do guarani e aqueles recuperados do Códice Vilardebó (anotações que o médico Teodoro Vilardebó sistematizou entre 1841 e 1842 a partir de entrevistas a um sargento desertor e a uma indígena da etnia charrua) — notadamente sua breve coleção de vocábulos charrua — aparecem igualmente mesclados, sem uma estrutura gramatical fixa. À época evocada, seu uso já se encontrava diluído. A imprecisão linguística decorre, deste modo, tanto da ausência de registros escritos quanto das limitações inerentes a qualquer tentativa de transposição literária desse universo.

Este livro não se pretende obra de historiografia ou de antropologia, mas de ficção histórica. Volta-se ao passado e a seus vestígios menos para fixar uma interpretação do que para sugerir o caráter instável e transitório da história. Seus limites são, portanto, os do conhecimento e da imaginação do autor. Os personagens, em sua dimensão quase mítica, carregam tanto resíduos das culturas originárias quanto as marcas das experiências e dos olhares com que se cruzaram ao longo do tempo.

Na narrativa, um pequeno clã remanescente das etnias originárias do sul do Brasil busca sobreviver em um mundo em rápida transformação. Atravessado por contingentes populacionais dominantes, oriundos tanto do universo espanhol quanto do brasileiro, torna-se difícil determinar com precisão a quais parcialidades ou etnias pertenciam — se é que não resultavam justamente do encontro e da sobreposição de muitas delas, como indicam diversos registros históricos.

É a partir desses antecedentes e de suas reverberações históricas e culturais que se desenvolvem a narrativa de La Minuana e os ensaios que a acompanham, reunidos nesta segunda edição.

A 2ª ed. de La Minuana pode ser encontrada em bibliotecas públicas brasileiras e de outros países. Uma parte pequena dos seus exemplares pode ser adquirida por meio de livrarias associadas a Estante Virtual.

RimasRimas

O Lucio de 18 anos não temia rimar. Na verdade, nunca temeu. Mas também nunca se obrigou. Acho que o mais certo é que sempre cedeu — sempre cedi — parando já com essa discursividade a Edson Arantes do Nascimento.

Mas eu sei qual é a origem em mim de às vezes recorrer à rima. Sei e não renego. Minhas primeiras leituras de poesia foram parnasianos e simbolistas. Minha mãe havia comprado de vendedor ambulante uma antologia e, no tomo da poesia, parnasianos e simbolistas ocupavam grande espaço.

Eu lia pela compulsão da leitura (a mesma que mobiliza as pessoas a lerem stories), não era uma escolha, pois não tinha critério algum. Alberto de Oliveira, Bilac e Raimundo Correa estão de certa forma no meu subconsciente. Não tenho paciência hoje, mas não os renego. Mas minha predileção sempre foi Casimiro de Abreu.

Mais romântico do que parnasiano, morreu aos 20 anos, de tuberculose. Sua poesia, jovial e inocente, tem na falta de experiência humana sua maior qualidade. Acho que isso me fascinava nele: a impudicícia dos versos.

Ali pelos 8 anos de idade, movido pela paixão pela professora, copiei os versos de “A Valsa” para ela, pensando em sei lá no quê. Mas desde ali entendi que a poesia é um instrumento mais a serviço da sedução que da persuasão. E que, nisso, os recursos sonoros, lascivos e sibilantes da língua, são como armas do poeta no seu afã de impressionar a quem quer que seja.

Como eu dizia, aos 18 não temia rimar. Mas já minha rima nasceu dessonorizada, atonal e assimétrica. Vem ainda, às vezes vem, insinuante, desconcatenada do metro e da estrofização. Moderna no sentido que Antonio Candido a definiu no “O estudo analítico do poema”: como vassala do ritmo.

Talvez eu pertença a uma das últimas gerações de estudantes que aprendeu a escansão de versos ainda no primário. Mérito das professoras por quem era impossível não se apaixonar.. Mas aprendi e nunca usei. Não é que me orgulhe disso, mas nunca senti a necessidade de aplicar em mim mesmo. De certo modo, aquilo me parecia ser uma dissecação do cadáver poético e eu preferia sentir a poesia como coisa viva e pulsante.

Essa mesma sensação eu experimento quando encontro, recentemente, a profusão de poesia contemporânea metrificada em torno do haiku. Muito raramente não sinto como se estivesse diante de pequenos Frankensteins, meticulosamente montados. Mas esse é outro assunto.

Aqui, me interessa a rima. E Casimiro de Abreu, que, antes dos 20 anos, já praticava versos de 3 sílabas, até duas. Casimiro era um mestre que depois só fui encontrar em Cruz e Sousa e seus sonetos de tormento, sonoros e vaporosos como a noite.

Nunca consegui escrever um maldito soneto na minha vida (talvez um só, de versos brancos). Também não tenho orgulho disso. A questão do soneto me parece como a do haiku, embora a extensão dos versos disfarce isso. Eu não consigo. Um certo senhor tuberculoso, pernambucano, presente lá no fim daquela antologia, cedo na minha vida me perturbou definitivamente, escrevendo como se falasse. Como não ouvir com toda a atenção aquela voz de irmão mais velho?

Depois disso? Sei lá. Já vai ficando difícil se impressionar com qualquer coisa. Tudo parece menos que a vida inteira que podia ter sido e que não foi. No entanto, é uma atenção que encarcera, a de Bandeira. É como se ele dissesse: tem que ser como isso daqui.. Minha poesia com rimas é ruim, eu sei. Mas nunca lutei contra ela. Deixo ela ali, simplesmente. Às vezes, ela me ri, sem muita graça, complacente..

Eu, robôEu, robô

Tardes de sábado boas mesmo têm de ter o bom e saudável tédio criativo. Esses dias eu vi de um famoso escritor que a pandemia estaria impedindo-o de escrever e ele dizia que precisava caminhar para escrever, então não estava escrevendo mais nada nos últimos tempos. Não é que ele escrevesse caminhando, mas haveria algo no andar à toa que lhe seria fundamental para o pensamento e, lógico, também para a escrita. Eu também acho e gosto muito de andar, principalmente no centro de Porto Alegre. Apesar de que o centro nunca esteve tão depauperado e abandonado, eu gosto, e para mim não há outro lugar em Porto Alegre que me dê tanta vontade de caminhar por caminhar. Sinto falta mesmo.

A pandemia nos roubou a liberdade de caminhar por aí e nos jogou de cabeça no mundo das redes, onde também não há tédio. Não sei como acontecem as antologias da pandemia sem que os escritores possam deambular livremente e o combustível da escrita, o tédio, a sedimentar pensamentos e emoções. Mas há quem consiga e eu fico realmente admirado.

Quando era criança, eu gostava muito de inventar histórias absurdas para os meus amigos. Era uma coisa meio teatral que eu fazia e só me dava por satisfeito quando conseguia convencê-los da minha representação. Não sei em que momento da minha infância me desviei das artes cênicas, mas acho que aquele tédio absoluto das tardes interioranas (e o livre trânsito pelas ruas da Bagé dos anos 70) me compelia a inventar alguma coisa. Qualquer coisa..

Naquelas eras glaciais, a tevê mal pegava e a programação das ruas era bem mais convidativa. Além disso, só na vizinhança havia dezenas de crianças para interagir realmente. E crianças naquela época consistiam um conceito bem mais elástico do que hoje. A adolescência e seus ritos de consumo chegaram por lá mais pro fim dos 80.

Nessa época é que apareceu lá em casa um disco do Kraftwerk, que um dos meus irmãos descobriu não sei de onde. Eu simplesmente surtei com aquilo e andava como um robô pela casa, esticando braços e pernas e endurecendo joelhos, cotovelos e o pescoço que ganhara engrenagens.

Numa tarde daquelas, decidi que um grande amigo e vizinho, crédulo como ele só, ele teria que acreditar que eu realmente me transformara num robô. De cara ele não quis embarcar muito na minha narrativa, mas, pouco a pouco, fui convencendo a ele e saímos pra rua comigo caminhando ainda daquele jeito robótico. Os vizinhos adultos me olhavam com certa desconfiança e como eu não esmorecesse, o meu amigo por fim cedeu – em prantos – quando eu disse que logo à noite um OVNI vinha me buscar a adeus planeta Terra, adeus rua, adeus tudo..

É inacreditável, mas é a mais pura verdade. São todos fatos verídicos, inclusive eu ter me transformado em robô..

Brincadeiras à parte, eu até hoje não entendi como esse amigo conseguia acreditar em mim, já que uma vez por semana eu era uma coisa diferente.. Outras vezes fui vampiro, lobisomem e outras coisas improváveis e ele sempre acreditou. Religiosamente. Quando enfim parei de representar, ele também parou de acreditar em mim. Tinha a convicção de que devia ser criança ainda um tempo mais, mas o meu tempo já havia se acabado. E assim foi que nos afastamos. Quando a primeira transformação de verdade aconteceu, mas só para mim..