𝘘𝘶𝘢𝘭 𝘰 𝘮𝘦𝘯𝘰𝘳 𝘤𝘪𝘳𝘤𝘰 𝘥𝘰 𝘮𝘶𝘯𝘥𝘰?
𝘌́ 𝘢 𝘣𝘰𝘮𝘣𝘢𝘤𝘩𝘢 𝘥𝘰 𝘨𝘢𝘶́𝘤𝘩𝘰, 𝘱𝘰𝘪𝘴 𝘴𝘰́ 𝘤𝘢𝘣𝘦 𝘶𝘮 𝘱𝘢𝘭𝘩𝘢𝘤̧𝘰 𝘥𝘦𝘯𝘵𝘳𝘰. (𝘈𝘯𝘰̂𝘯𝘪𝘮𝘰)
Não sei se em razão do atribulado momento jurídico-político, da perspectiva eleitoral iminente ou da dispersão informativa característica desses tempos, mas me parece que neste ano o mês de setembro vai passando praticamente em brancas nuvens no que diz respeito ao gauchismo normalmente associado ao mês em que por aqui se rememoram os eventos da Revolução Farroupilha.
A minha impressão é de que este é um fenômeno que vem acompanhando o declínio do poder de influência da mídia no debate público. Eu não acho isso de todo ruim, porque normalmente é um assunto pisoteado tanto no que se refere ao culto quanto à crítica a eventos que, em última análise, parecem ser mais de interesse histórico-literário que propriamente ao tempo de agora. Quero dizer, a Revolução Farroupilha e as farrapiadas*. Mas também não acho essencialmente bom e não tenho uma explicação muito objetiva para esse estranhamento, quer dizer, a explicação que venho esboçando mentalmente também não me satisfaz muito.
À menor atenção da mídia escrita aos debates culturais vem correspondendo um incremento de outras fontes informativas, como influenciadores, podcasters e uma leva de comunicadores que também têm os seus compromissos ideológicos e comerciais. No entanto, o que mais eu tenho visto é informação de baixa qualidade circulando por aí: textos “artificiais” e artificiosos, às vezes sem qualquer respaldo teórico e, em contrapartida, muito efeito retórico. Nesse ponto, é preciso admitir que o debate que acontecia nos jornais era muito mais qualificado. Mas essa é uma página virada e é preciso conviver com essas coisas todas, mantendo-se o discernimento possível.
Mudando de assunto, mas não muito, lembrei de que há não muito tempo uma amiga contou que havia visto um festival de folclore numa cidade do interior e disse ter ficado espantada não com a indumentária feminina, como é mais usual, mas com a masculina. Ela dizia que lhe parecera um despropósito o tamanho e o gasto de tecido nas roupas dos dançarinos. E também não entendia a razão para que os cavaleiros daqui não usassem trajes justos, tais como os utilizados pelas cowboys norte-americanos. Eu não soube o que dizer. Lembrei que minha avó materna trabalhou como costureira em sua cidade natal, a Hulha Negra, e, pelo que me contaram, ela produzia roupas de serviço para os trabalhadores do campo. Bombachas, no caso. Mas desconheço quando as bombachas passaram a ser produzidas industrialmente no Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina, onde foram disseminadas entre a população rural.
Como em relação ao termo “gaúcho”, a origem da bombacha foi também razão de discórdia entre folcloristas no passado, mas a versão mais aceita é que tenha chegado aqui no período da Guerra do Paraguai e teria origem turca. A Guerra do Paraguai, aliás, representou um momento de transição crucial do gaúcho da “era do couro” em direção à modernidade, de caráter capitalista e industrial. Também foi o momento derradeiro do gaúcho livre, bandoleiro, para sua conformação definitiva em peão campeiro, isto é, em trabalhador rural. Isso tanto é real que coexistem no imaginário popular e na representação literária ambos os modos de vida, como se houvessem sido concomitantes, mas o fato é que nunca o foram. Separam-nos, além do tempo propriamente dito, modos de vida bastante diferenciados, inclusive no que diz respeito ao instrumental de trabalho e vestuário.
A Guerra do Paraguai me parece ter sido mesmo um limite, ou melhor, um marco, mas um marco que se estendeu pelo menos até 1923, com as últimas revoltas caudilhistas. Desde aí até após a Segunda Guerra Mundial, ocorreu a primeira grande crise da pecuária rio-grandense do século e o empobrecimento rural conformando um novo tipo humano: o gaúcho despossuído e migrante. Além disso, a cultura norte-americana, vencedora na guerra mundial, tornava-se cada vez mais hegemônica, especialmente por meio do cinema, contribuindo para a anulação das culturas locais.
Logo em 1952, movida pela percepção do horror racista subjacente à guerra e a prevalência do etnocentrismo nas relações culturais entre as nações, a UNESCO encomendou ao antropólogo Claude Lévi-Strauss uma conferência na qual ele estabeleceu o que seriam, mais tarde, os fundamentos da Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural, publicando logo a seguir o livro “Raça e história”. A Declaração, todavia, somente seria adotada em 2001, logo após os atentados de 11 de setembro. Antes disso, em 1971, a UNESCO convocou outra vez o antropólogo, que realizou uma contundente crítica ao que hoje chamaríamos de “globalização” e seus efeitos colaterais. O resultado dessa conferência se encontra por sua vez no livro “Raça e cultura”.
Foi nesse caldo cultural, também composto por um tanto de águas passadas, que se fundou no Rio Grande do Sul o tradicionalismo e foram reestilizadas, vamos dizer assim, as práticas coletivas do povo e uma reinterpretação de sua memória. No centro dessa formulação, todavia, não se encontra um momento ideal e pacífico, um idílio, mas o evento político complexo e conturbado que foi a Revolução Farroupilha. Também ao centro dessa formulação se vai colocar o tipo humano gaúcho e toda uma composição figurativa, inclusive a caricatural indumentária de homens e mulheres.
Para melhor compreender o movimento de representação cultural, no entanto, é necessário um duplo deslocamento. O mais evidente é o que se pode verificar com os próprios olhos e se dá em relação ao tempo presente e o cada vez maior estranhamento dessa representação diante da realidade sociocultural, além da alienação desse modo de vida das condições reais de experiência das pessoas. O outro, são as águas passadas mencionadas anteriormente e certa objetificação da condição humana usada deliberadamente por aqueles que registram e imaginam a vida, quase sempre com base documental e viés interpretativo.
Nesse campo (que não é campo, é cultura), a história cultural é debatida sob as mais diversas influências e interesses. Há interesses de classe, étnico-raciais, de gênero, políticos, históricos e assim por diante. O interessante é notar que, para todas as influências, a disponibilidade histórica é a mesma, mas as interpretações se transformam ao longo do tempo mantendo-se algumas moedas de troca: a identidade ao sul, a vizinhança e as relações com o mundo espanhol e, incrivelmente, o temperamento. Eu desconheço cultura que valorize mais o temperamento do que a que se refere aos gaúchos. No caso, de homens e de mulheres.
Embora no mais das vezes sejam valores e comportamento associados à caricatura do machismo, no campo literário me interessa bastante observar como os escritores movimentam a psicologia dos gaúchos e gaúchas, manipulando-as conforme seus enredos exigem. Embora a maioria das representações literárias costume partir dos protótipos românticos, o gaúcho é quase sempre mais descrito como um componente natural do que um personagem trágico. Toda a literatura gauchesca (platina e brasileira) assenta-se em poucos traços psíquicos e morais: a honra, o culto da coragem, a liberdade, a autonomia, a hospitalidade e a solidariedade. Evidentemente, correspondem a estes valores alguns traços negativos, normalmente associados a outros poucos estereótipos e preconceitos inclusive de fundo racial, mas literariamente não me parece que sejam personagens notáveis.
Como em qualquer lugar do mundo, existe no Rio Grande do Sul uma literatura canônica e uma outra mais popular e próxima à linguagem coloquial. Também existe uma historiografia canônica e outra praticada por diletantes, pessoas apenas interessadas nas tramas da identidade que se vinculam a grupos de maior ou menor projeção municipal ou estadual, normalmente veiculadas em produções independentes e de pequena circulação. Mesmo que a tendência acadêmica venha predominando desde os anos 60, mais ou menos, o relacionamento intelectual com essa representação não se altera muito. Há também o Estado e suas instituições e uma exigência simbólica de manter essa relação disponível como objeto de pensamento.
Ao longo do século XX e, agora, no XXI, algumas dezenas ou centenas de títulos e textos foram produzidos debatendo a respeito das características do presente e o passado político-simbólico, especialmente o farrapo. Nos jornais e na mídia, intelectuais de menor ou maior projeção costumavam reacender esse debate, sob os mais diversos vieses. Até meados da década de 60, a Editora Globo ainda reunia e publicava coletâneas de escritores e estudiosos locais interessados em afirmar seu ponto de vista, mas mantendo em mente um foco local preciso. Depois de sua decadência, outras editoras e novos intelectuais mantiveram o costume do debate e o mês de setembro sempre foi o mais propício para que fosse reencenado.
Pensando assim, é por isso que acho que não consigo avaliar bem por que essas discussões (embora muitas sejam repetitivas e cansativas) desapareçam ou sejam substituídas por textos e imagens artificiais, visto que a história cultural por si só tem riquezas tanto em seus momentos felizes quanto nos dramáticos. Perder o vínculo com autores do passado, esquecê-los, simplesmente, é uma espécie de morte cruel que contamina e desenraiza as pessoas da própria condução da sua vida presente, bem como do sentimento coletivo e solidário. Pode ser inevitável, de fato, esse movimento, e a resposta dos anos 50 se encontre superada em muitos aspectos, no entanto penso que talvez seja ainda das poucas oportunidades que temos de pensar a paisagem social para além do que nos traz cada “ecrã” encalacrante.
Eu comecei a minha vida literária com um livro de contos nos quais esse mundo prevalecia ou se relacionava também, um pouco, com a vida contemporânea. Tenho uma relação ambígua e difícil com esses contos, acho alguns fracos literariamente, e até mesmo mal escritos e algo explicativos. Mas o único que me preocupei na época foi em manter o que eu tinha de experiência daquele universo, em mim, e não rejeitá-lo simplesmente, até porque isso não seria possível nem digno. Sem dúvida, eu me reporto ao que li antes, à tradição literária, mas muito mais ao mundo que aprendi por ser o meu mundo imediato, com a paisagem disponível (que nunca se afasta completamente), os animais, as pessoas e suas vidas reais, em sua miséria e beleza e também a linguagem.
À minha amiga, que gostaria de entender por que os gaúchos usam bombachas e não jeans para montar, eu publico uma imagem de mim mesmo. Usava porque era o que estava à mão. Remendada e manchada do uso, nem um pouco parecida com um produto de vitrine. Por que estava ali? Eu nem sei dizer. Da próxima vez que me encontrar com ela, vou lhe perguntar é por que não deveria estar.
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* De acordo com o Michaelis, “farrapiada” é um substantivo feminino que designa os feitos políticos e militares dos rebeldes republicanos (os farrapos) durante a Guerra dos Farrapos (ou Revolução Farroupilha), que ocorreu entre 1835 e 1845 no Rio Grande do Sul. Não é piada de gaúcho.