A custódia de Atlas, 2

Onde estão os presentes,
pergunto ao meu pai
sem entender sua miséria.

Onde o recolho de sua fadiga,
dos dias carregando os couros,
do campo queimado de gelo?

Certa vez eu o vi nu
e chorava como se eu devesse
abraçá-lo – a minha insolência.

A cena era como se Atlas
houvesse jogado fora
o mundo pela janela

e eu nem estava
pensando
nisso.

Às vezes, vejo ainda o seu corpo
lutando com a alma, o maior dos touros,
e pensava como outro animal

prevendo seus passos, linguagem
que não se aprende –
só assimila.

Vejo-o perdendo-se
num acúmulo de tarefas, um galpão
atulhado de futuros

outrora destroçados avisando
de passados que não se concretizaram –
ou foram abandonados.

Há uma ignorância secreta
que não dividimos a ninguém
e nem a temos na memória,

lições extraviadas no tempo
que chegam às vezes
sem mais serventia.

Uma voz não me comanda
e nem me pede mais nada,
como um moinho sem leme.

A verdade é que nunca perguntei
dos presentes
nem nunca imaginei que houvessem.

Só a vida é o bastante.
E alma que ela mantém
sob custódia.

Os presentes estão enterrados.
Não há que buscá-los mais
tão fundo na terra.

No mundo só um lugar existe:
aquele no qual estamos
agora. 

No te olvides – (tetralogia do Paraguai – IV)

Nos pajonales do Chaco, se não tens um tobiano, nadador nato, arisco que nem tarairita, quanto pensas que vai viver? Bebe aqui, paisanito, y mira comigo a polvadeira que vem de lá, do sul, ou vais quedar cego antes que entendas a donde foste parar…

Mas bueno, también podes me fazer um favor – no, não o de salvar esa vida de poca serventia -, pega deste colar de dentes brasileños y entrega ao otro lado del rio. Pero espera un poquito. En Misiones, é semana de Jesus e te carnearão vivo se não levares do maiz vermelho. Os curas apreciam tanto… Toma, guarda en tu bolsilla. Y água fresca, não te esquece.

Yo te lo dije… Desvia de tudo que não se anuncia. Foge da planura, te escapa nos capões, evita as serranias. Bebe outro y me alcanza.

Tolderias? Ninguna! Te banha do gambá que evita os urutuas, yara’rakas. Tisna tu cara. Vás, mas sem tus guaipecás. Dejalos a mi… Con tu abuelo. Evita o vaqueano porque, por detrás do más gentilhombre hay simpere un asesio…

Bebe tu, hasta ele fin, que tendrá sed…

Armas? Guarda teu arco longe da vista, pero al alcance la mano… Y esa faquita amarrada ao pé, para te desembaraçares.

Em mi tiempo, até entre os cherúas tuve amigos. Tiempo bueno… Hoy, no confio em mi sombra… Tu abuela, aun te lembras? Seló mi persecución hasta hoy, que lo cuido… Fugimos. Me encantava tanto..

Estás bonito y fuerte como tu padre. Mas não sejas tolo como ele de morrer em luna llena. La peor face de Jacy.

¿Y que más? Tanto me escapa…

Pero no es preciso que te digas tudo. Não roubes. No mates en vano, Vigia. Duerme negrito, pero no tanto…

O tobiano só obedece se lhe falares em guarani, no ouvido esquerdo. Como um alientito…

¿Ahora te vás?

Ay, mi corazón… No te olvides… ¡No vuelvas más!

La Minuana – (tetralogia do Paraguai – III)

Rente a um cerro que quase se encosta numa das orillas do Rio Negro, do lado uruguaio, hay uma pequena pulperia que brasileños e orientales às vezes frequentam em sus viagens tras los cueros. Aos viajantes, a pulpera, conhecida como La Puma, sempre tem a oferecer pescados frescos. São as traíras mais suculentas que há em léguas e ela serve os trozos do peixe meticulosamente apartados da coluna farta de espinhos. Frita-os constantemente em um grande tacho de ferro que mantém no seu fogão de tijolos com grasita de capinchos. Quem viaja por ali e conhece aquelas bandas, sabe bem que o perfume sentido ao longe, nas coxilhas, é de sua proveniência.

Mas os viajantes que vão dar em La Puma não são apenas os famintos e loucos de sede, embora estes sejam sua maioria. Hay tambien los enfermos de la guerra, soldados o no, igual que yo, que buscan salvar su vida com a ajuda de uma de suas filhas, una hechicera que vive sola nun ranchito más detrás de la pulperia e ali prepara suas soluções, yuyos, preparos e hechizos.

Ao contrário de Teófila, sua filha mais velha, a feiticeira não tem nome. Chamam-na apenas de Minuana e todos que a veem de longe falando sozinha entre os arboles, ou ralhando com uma familia de zorros que mora em sua companhia, apenas procuram-na em caso de risco fatal. Foi em busca dela e não dos fritados da mãe que busquei encontrar naquelas paragens a fim de que me removesse das visceras o pavor da morte y tambien de matarme. Pavor das que causei na campanha do Paraguai e da minha própria, después asombrada por aquellos fantasmas.

Llegué a la noche e La Puma luego me quitó las esperanzas. A filha fuera picada por uma boboka, uma cobra coral, ou deixara-se picar, ela não sabia, e ardia em febre há dias, incapaz de ajudar a quem quer que fosse e, pior, a si misma. Morria a feiticeira e La Puma permitiu que rezasse por ela, perguntando-me: “¿No es cristiano? Entonces… Guarda la pobrecita…”

Dentro do casebre, sentei-me quase ao seu lado, perto a um braseiro que aquecia seu rancho desde dentro, e contemplei sua feição suavizando-se um tanto com a nossa chegada. Quando me encontrava quase no meio do padre-nosso, ela ergueu a mão e, de olhos cerrados, procurou meu rosto detrás da barba crescida de dias e das melenas de meses… Sua mãe tinhas as mãos espremidas e Teófila, a filha mais velha, nos observava do porta do rancho com uma expressão muy desconfiada.

“Abençoa a minha santinha, cristiano, pa’que ela se encontre ao teu Diós…”, implorou e eu continuei a prece iniciada. Ao fim do amém, a jovem de tez cobreada e cabelos longos abriu seus olhos e, por experiência pregressa, vi que não corria risco de vida. Em seus olhos não havia o tom empañado das finaditas, mas até me parecia uma certa satisfação ou o olhar de quem confirmava alguma coisa. Mas… o quê?

“Es un milagro!”, dizia La Puma e Teófila se ajoelhava aos pés da irmã como se rendesse homenagem a uma divindade que eu não conhecia nem via nem entendia…

“Espera, hijo mio, não sai daqui. Reza otra vez… Pra garantir…”, implorou-me a a mulher como se eu – e não a filha – tivesse poderes de salvação…

“E Teófila, aquenta água pro nosso visitante!”, ordenou a mais velha das irmãs. A filha se foi porta afora e voltou com os apetrechos do mate. Depois foi-se novamente e levou consigo La Puma.

Bueno… Não mentiria se dissesse que a imagem toda me agradava. Andava comendo e bebendo male male. A ideia me parecia esplêndida e a Minuana, não sei explicar, ela tinha uma beleza atroz que parecia me impedir de arredar pé do seu lado. Simplesmente não podia. E quando ela conseguiu recostar-se melhor para tomar um tanto de água, olhou-me como se me conhecesse há muito e disse-me com uma voz sibilante: “Entonces me achaste, patricio… Yo te velava a tanto tiempo…”

No sé que artes ela tinha, apenas conhecia sua fama, mas um hechizo já estava em curso, sin duda. Entonces ela pegou minha mão, fez com que largasse a cuia de mate, e me deixei guiar por baixo do poncho de tecido que a cobria. Não demorei a encontrar o que seria o ferimento da cobra em carne viva, pulsátil, e com sutilezas imperceptibles ella fez com que mergulhasse no que parecia ser o próprio líquido e sinuoso Rio Negro.

Después, no sé quanto fiquei ali. Adormeci e quando acordei-me a Minuana estava sentada ao lado do fogãozinho, preparando algo. Parecia ser um refogado não sei de quê y que perfumava o lugarzinho como se de yerbas verdes, tecidos limpios o madressilvas. Não sei em que momento sua mãe e irmã volvieron, pero luego estávamos os quatro bebendo o cozido em tijelitas de barro. A expressão dolorida do dia anterior dera lugar a sorrisos amenos, mas que continuavam silenciosos. Parecia uma celebração e ninguém se atrevia a dizer nada, até que La Puma dijo em voz trêmula: “La adivinación está cumprida, minha filha… El llegó cuando morrias. Es tu esposo, con la graça de Diós o, que sea, de anhá..”

La Puma levantou-se e desenrolou um presente que havia me trazido: uma pele de cervo prateada e amarrou-a em torno do meu pescoço com um tira de couro. A Minuana tinha uma igual, apenas um pouco mais curta. Por la ventana, vi que el pequeno pueblito que havia en redor da pulperia parecia prestes a abandonar o lugar. La Minuana precipitou-se a falar com seus parentes e me encarou como se indagasse se a seguiria. De imediato pensei que mortes mais encontraria ao lado daquela gente e estremeci. Pero se acaso la muerte me chegasse, ela me salvaria y cierto que yo a ella. Nos fuimos.

¡𝗤𝘂𝗲́ 𝘀𝗲́ 𝘆𝗼!  – (tetralogia do Paraguai – II)

Havia muito que andava e as alpargatas endurecidas agrediam tanto a sola dos pés que até o pastiçal tapado de rosetas e caraguatás parecia mais suave. Logo de cruzar um banhado no qual as tachãs dormiam em silêncio, no entanto, um relvado compareceu à planura. Algo parecia indicar que teria com o que e onde abrigar-me um tanto e logo um capão perdido no horizonte, sob o crepúsculo, parecia ser um adequado lugar onde acampar. Lenha e gravetos não faltariam para que acendesse o fogo, aquentasse um tanto de água e matasse a sede com a yerba seca e guardada na mala de garupa. Também tostaria um pedacito de charque e teria com o que virar-me, pelo menos nessa noite.

La Paraguaya – Juan Manuel Blanes

Não entendo como um mero arvoredo poderia parecer tão acolhedor, mas o fato é que, ao aproximar-me, notei que algo se movia por detrás dos troncos das árvores. Algo que se ocultava, pulava de árvore em árvore e que me observava e que tinha nas mãos uma faquinha curta, de carregar na bota. O vulto esbelto e os cabelos amarrados por uma vincha não me permitiam saber se era um homem ou mulher, mas quase certamente era alguém jovem, se não, não teria aquela delicadeza de gestos.

Ao setentrião, notei um pequeno acampamento. No mais, um montinho de coisas poucas tapadas por um poncho de lã. O que teria ali? Algo de valor? Algo furtado de um galpão ou recolhido de tapera? ¡Qué sé yo! Mas a criatura dava voltas naquele monturo e parecia que me atacaria de verdade se me aproximasse. E, dado o meu cansaço, me estrebucharia em dois tempos porque era ligeira como um lagarto. E tinha olhos de lagarto também, estranhamente pacatos, como de quem não fosse me matar caso eu a deixasse ali, solita, monarca daquele minúsculo reino. Porém a fome me atacava também e decidi ocupar o extremo sul do capão de mato e sentar-me sob sua observação, de mãos nuas, e comecei lentamente a recolher ramagens e folhas do chão com que pudesse causar um pequeno incêndio que me permitisse levar a efeito o que pretendia para aquela noite que começava a pintar no céu límpido de abril.

Sempre em pé, o cuera (ou a cuera) me observava e entendi que era mesmo uma mulher. Tinha algo nos seus gestos que eram fêmeos e, desarmada, não podia ser mesmo soldado egresso, desertor ou mero bandido, se não me houvera matado já. Mas por que diabos ainda não o fizera?

Com meu isqueiro de pedra, o fogo nasceu ligeiro. Num zás. Logo ajeitei a cambona com a água de uma vasilha de rosca e tomei da cuia tropeira e da erva surrada, virada e ressecada. Que importa? Estava louco num mate… No preparo das coisas, vi que ela sentara-se próxima ao seu cocuruto, mas mantinha-me no seu raio de atenção. Não exatamente de frente, mas de modo que num soslaio fiscalizasse meus movimentos. Mas eu não me movia. Observávamo-nos a uma distância hábil ao mesmo tempo de um ataque ou de uma fuga… Vinha do Paraguai, como eu? A Matilda? ¡Qué sé yo!

No terceiro mate enchido, acho que por costume, ergui-lhe a cuia no gesto automático da oferta e vi, então, que ela havia guardado a faquita. Sob o chiripá em frangalhos, em algum lugar ali, desarmou-se. Lentamente, ergueu-se meio que sem caminhar, meio arrastando-se ainda, e veio para junto do fogo. Foi quando pude ver-lhe pela primeira vez a face por completo, imberbe e com um talho cicatrizando ainda, marca feita por mão de gente. Pensei no que lhe dizer e nada me ocorria. Quando me devolveu a cuia, depois de roncar, olhou-me bem dentro nos olhos e parecia querer distinguir algo, talvez o risco que eu representava, que sé yo

Em seguida, afastou-se de volta para as suas coisas, esticou o poncho por cima de si mesma e lá ficou.

De onde eu vinha, a mortandade de guaranis me acostumara à barbaridade da morte, mas, ainda assim, pensei que poderia, se ela permitisse, juntar-me a ela no seu desterro. Dali, iríamos a algum lugar. Qualquer lugar… Que diferença faz? E pensei que, jovem, poderia me dar filhos e eu suportaria o fim dos meus hábitos antigos e me aquietaria consigo num rancho de torrão, faria changas por aí, me aplicaria a aprender um ofício qualquer. Alambrador, carneador, domador… Há tantos. E teríamos o justo: uma vaquita de leite, um tostado para as viagens e um perro para proteger nossa casa. Naquele devaneio, adormeci…

Cedo os barreiros descortinaram o dia, como eles sempre fazem. O primeiro que fiz ao abrir os olhos foi investigar seu paradeiro. Lembrei-me que, absurdo, nem seu nome havia perguntado na noite anterior. Minha educação havia sido perdida nalguma pelea, por certo. A voz também. Mas ela não estava mais lá e nada de encontrá-la, onde quer que eu procurasse. Revirei todo o matinho, atrás de cada árvore e palmilhei o chão em busca de seu rastro. Não pude encontrar. Sem dúvida, andava igual a mim, de pés descalços e o chão, numa benesse da sua natureza, alivia as marcas de quem anda assim. Para onde foi a criatura de olhos negros? ¡Qué sé yo!

Sem nada mais o que fazer ali, pensei que o caminho do nascente me levaria à fronteira, ao povo de Santana, que há de ter um refresco, pouso ou serviço… Para alguém como eu, é a glória possível de sobreviver à guerra. Tomei daquele caminho enquanto mordia o resto do charque duro da noite anterior que havia restado.

No caminho, eu sabia que havia uma sanga forte, um arroio que deveria cruzar. Logo eu o enfrentaria e, de a pé, teria de contar com muita precaução. E enquanto aos poucos me aproximava do passo, notei na margem anterior um vulto acocorado ao chão. De imediato, entendi de quem se tratava. Mas o que fazia ali? Bem, logo me aproximaria o suficiente para entender a situação e, antes que me desse com a cena, finalmente compreendi o que fazia.

Com uma cova aberta com as mãos junto a um barranco, ela depositara ali dentro o que havia mantido sob o poncho. O corpinho de um pagão ou pagã que não sobrevivera. Como ela havia tapado todo o corpo da criança, não pude saber se menino ou menina. Che cuê..

E como ela não tinha forças (ou coragem) de terminar o serviço e olhava paralisada para dentro da sepultura improvisada, agachei-me e terminei a obra também de mãos nuas, enchendo de terra as unhas e de dor o coração…

Ao terminar, coragem me faltava para buscar seus olhos. Evadia-me para qualquer lugar e ela também. Olhamos o arroio passando e a seca havia sido tão grande que passávamos facilmente a pé onde antes nos afogaríamos. Da outra margem, paramos e arrumamos as roupas. Rapidamente nossos olhos cruzaram-se, mas ela os evitou, é claro que numa situação daquelas nada queria comigo. De pronto, tomou de outra direção da que eu planejava para mim mesmo. De pronto, eu também. E fui seguido seus passos, sem ainda termos dito uma palavra e ainda sem sabermos os nossos nomes e nacionalidades. A campanha do Paraguai terminara. O que seria de dois guachos como nós daqui em diante?

¡Qué sé yo…!

Meia pataca – (tetralogia do Paraguai – I)

La siesta bajo el ombu - Prilidiano Puerreydón

Em meio ao gesto automático de enrolar o crioulo nas palhas mantidas junto às patacas do cinturão, o relincho do tostado por um momento fez com que Santiago despertasse do devaneio em que se encontrava. Mesmo sem pensar no que fazia, escolhera a que parecia mais verde entre todas as tiras de palha. O cigarro dessa forma duraria mais tempo aceso e então poderia refletir melhor sobre as casas no pequeno mato no horizonte a nascente, o que lá deixara e a razão de sua partida.

Mais um relincho e o homem percebeu a uma distância relativamente pequena a correria desembestada de uma manada. Por sorte capara ele mesmo o potro um ano antes, caso contrário teria encrenca com o redomão. A fama que tinha nas redondezas, quando cavalo inteiro, era que fosse dos mais ladinos e que até se jogava aos arroios se lhe chegasse às narinas indício do cio das éguas e potrancas orientais, dos campos dos parentes uruguaios de Don Aristides. No meio da fumaça expelida na baforada que parecia condensar-se no ar, Santiago pensava que mesmo com a vista de velho podia contar os animais da manada, no entanto não havia maneira de que lembrasse para qual caminho prosseguir, se havia mesmo comido alguma coisa ou quando e de como se esquecera das lições que na paróquia o padre dispensara aos interessados em aprender a ler e fazer contas. As contas ele ainda sabia fazer, pois praticava todos os dias ao recorrer os campos do patrão, mas as letras agora lhe pareciam apenas desenhos sem qualquer sentido.

Dobrando pela metade o bilhete de Don Aristides e guardando-o de volta junto à guaiaca, tinha noção de que em algum lugar alguém o esperava, mas onde? O mundo agigantado em contraste aos campos cobertos de unhas de gato e outros matagais parecia-lhe incompreensível. A vista oferecida pelos coxilhões era de lonjura para qualquer lado que pudesse escolher e sombras havia pouquíssimas. O cavalo, impaciente, pateava as moscas e bufava; por conhecer o idioma dos animais desde criança, sabia que assim ele acusava sede e estafa. “Te aquieta, matungo…”, disse alto no idioma que, por sua vez, o cavalo ignorava por completo. Talvez pelo tom de voz ou pelo jeito de dizer, a mensagem surtiu efeito e o animal aquietou-se por um tempo mais. Mas ele, continuando a baforar, decidiu que não arredaria o pé dali enquanto não recobrasse a certeza de seu destino.

Sobre uma das raízes robustas e onduladas do ombu sentou-se e mais uma vez puxou do bilhete. Apenas conseguia lembrar-se da primeira letra, igual a um pássaro em voo, e da letra “o”, igual a um caroço, que se repetia de tanto em tanto. Além disso, mais nada. Tinha certeza, no entanto, de que era importante. Ou até mais: vital. Mas o papel, como uma folha qualquer de árvore, ocultava-lhe da mesma forma que um segredo intransponível o que intuía ser um dever importante e para o qual havia recebido de véspera a paga nas novas moedas de bronze cunhadas com o brasão da Coroa, a imagem do Imperador e outras letras que não entendia e que lhe pesava por baixo dos panos do xiripá.

Por sorte, pensava Santiago, que não havia se acompanhado dos perros. Com fome, os animais lhe fariam desembestar a qualquer lugar em busca de comida e então se perderia para sempre do seu destino. Por outro lado, o cavalo bastava soltar-lhe o freio e ele se virava solito a pastar. O problema do cavalo era outro: a sede e o calor que aumentava indicando-lhe que o sol a pino se aproximava. Na guampa que trazia junto aos arreios havia alguma, mas mal dava para si mesmo. Teria de poupá-la e decidir de uma vez por seguir adiante.

Dime, loco… Donde vamos?”, perguntava alto enquanto coçava a bochecha do tostado sem esperar que o animal lhe respondesse, não estava louco a esse ponto, mas, se ele desse uma indicação que fosse, talvez seguisse o conselho do cavalo. Um menear de cabeça, um apontar de orelhas nalguma direção… Por instinto, sabia que dependia muito do cavalo e que lhe confiar a decisão, na zonzeira em que estava, não seria má ideia. Pensando nisso, decidiu desencilhá-lo completamente e deixá-lo livre. Encostou bastos, xergas e pelegos ao ombu e correu com o cavalo dali. O animal, porém, não se afastou muito. Deu uns poucos passos e parou onde uma coxilha se dobrava em duas e principiava um declive mais profundo entre as lacunas verdolengas do campo. Por ali não havia sinal nem de esterco vacum, então era possível que já estivessem bastante longe de San Isidro, sede e residência da família de Don Aristides. Deu um passo mais e olhou em sua direção como se o chamasse, mas Santiago entendeu que o cavalo deseja fazer o caminho de volta à estância.

¿Por qué no te vas, desgraciado?“, gritou com o cavalo e então o outro seguiu aos poucos o caminho que escolhera por conta própria, desparecendo aos poucos no declive que, por certo, o levaria de encontro a uma aguada e, depois, talvez para casa. Ou, talvez, buscasse a manada que vira mais cedo. Quem pode entender o que passa na cabeça de um cavalo?

Aos poucos, o cigarro apagou-se em seus lábios e Santiago encostou-se bem ao lado do tronco da árvore, descansando a cabeça sobre os braços cruzados por detrás da nuca. Olhava o céu e as nuvens enfarruscadas lá em cima, sinal de que o vento dissipava a chuva antes mesmo que se formassem as nuvens mais pesadas. Mas o vento mesmo ficava lá em cima. Onde estava não ventava quase nada e acordou com a roupa encharcada de suor de um sono que nem imaginava o quanto durara. E também não imaginava o que estava fazendo ali, com os aperos arriados na árvore. Nem faca e nem adaga haviam sido roubadas ou tinham marca de sangue, sinal de que houvesse se metido em entreveros. E o tostado? Nem sinal…

Coçando a barba e ajeitando as melenas debaixo do sombrero de feltro em farrapos, Santiago ajeitou-se de pé e enfiou o tecido da camisa para dentro do xiripá, sujeitando o traje com a guaiaca castelhana. Podia estar numa situação miserável, de a pé e louco da cabeça, mas sempre aprumado. Sentiu o peso das moedas e pensava no que conferia la plata. Uma doma? Algum serviço encomendado? De repente, notou o bilhete e puxou-o novamente em direção aos olhos. Que diriam aquelas letras rebuscadas? “Infierno…”, pensou alto e olhou por tudo para tentar localizar movimento nos campos, mas nada. Nem os quero-queros atiçavam os zorros que lhes perseguiam os ninhos ou avisavam de movimento de gente. Haveria de fazer algo, pois Santiago não era do feitio de entregar-se ao devaneio simplório nem de lamuriar-se em vão. Sem ideias e sem esperança de recobrar sequer o próprio nome, tomou do laço e o enrodilhou em torno a um entroncamento robusto do ombu e, subido no amontoado de raízes externas da árvore, forçou-o para avaliar se aguentaria, afinal, o seu peso, porque os galhos não poderiam.

E como se estivesse mais uma vez no Chaco, peleando contra os paraguaios ao lado de seus irmãos orientais, ou brincando com eles de enfrentar um tigre ou simular um duelo, como quando criança, fez pela última vez o que de melhor sabia para ter vivido por tanto tempo: jogou-se adiante. Não chegou a ver o tostado retornar o caminho e partir mais uma vez, na outra manhã. Desta, pela última vez.

Meia-pataca
2017

Sob a sombra
dos galhos secos
de um ombu,

Santiago
olhava nas mãos
o bilhete.

Ao seu lado,
o cavalo arfava
com sede

e pela boca
borbulhava
espessamente.

Sua missão
era nunca
esquecer

o que viera
fazer ali,
mas esquecera.

As letras
nada
lhe diziam

e, em suas costas,
inclemente,
o sol ardia.

Pobre Santiago
que aceitara
a incumbência

de agir
para os outros
sem entender.

Do laço
puxou
e o pendurou

na árvore.
Pensava
mais com os olhos

do que com a mente
entre a distância
de fugir,

a sede do animal
e a vontade
de morrer.

Perto dali
(se bem lembrava) havia
um riacho seco.

Era com o que
o cavalo
teria de se haver.

Livre da carga,
ele o esperava
junto à corda toda esticada.

Santiago,
índio vago
a quem

meia-pataca
contrata
el empleo

de vida
ou de morte
e cuja memória,

depois
de acabado
seu último serviço,

será esquecida
como se tratasse
de ninguém.

El ultimo malón

As pessoas nessas fotos são indígenas da etnia kolla que, em 3 de agosto de 1946, ou seja, há quase 76 anos, foram recebidos por Juan Domingo Perón, após uma peregrinação de quase 2.000 Km durante 60 dias para levar ao governo argentino uma queixa formal a respeito das condições de vida miserável, da usurpação de seus territórios, trabalho escravo nos algodoais do Chaco, Salta e Jujuy, violências físicas e abusos sexuais.

Naquele momento, o recém empossado Perón promove uma recepção apoteótica. Leva-os consigo e deixa-se fotografar abraçado aos indígenas no balcão da Casa Rosada como se o gesto fosse, de fato, uma acolhida os protestos do “Malón de la Paz”, o último dos malones reportados na história argentina.

Malones eram saques organizados pelo indígenas dos desertos contra as populações de colonos nos quais os aborígenes recolhiam o que podiam: gado, cavalos, mantimentos e até mesmo pessoas que raptavam da “civilização”. Na história argentina, são computados às dezenas, de tão frequentes.

A recepção durou pouco e as promessas de reintegração de posse do governo nunca se concretizaram. Nos primeiros dias, os indígenas ganharam chapéus e trajes “urbanos” para melhor trafegarem na capital e inclusive presenciaram ao vivo uma partida de futebol.

Foram alojados num hotel que era destinado aos imigrantes estrangeiros que chegavam a Buenos Aires, mas dali logo expulsos pelas forças militares, menos de um mês após todo aquele calor humano peronista. As mulheres foram arrastadas pelas ruas e as famílias, sob gás lacrimogêneo, espremidas nos trens para retornar às suas terras de origem, que reclamavam.

Os indígenas voltavam, dessa vez sem pompa nem circunstância, a receber o tratamento de selvagens que, desde Facundo, selou a distinção fatal entre nativos e colonos e custodiados sumiram na poeira do último malón, o Malón de la Paz. De celebridades acolhidas por Perón em pessoa estampando as primeiras páginas dos jornais bonaerenses, passaram a figurar nas colunas policiais, como vândalos depredadores. Disseram-nos estrangeiros infiltrados, bolivianos, e o racismo do rio da Prata encontrou na pele de bronze o verniz perfeito a quem perseguir e difamar.

E o que era mito virou lenda e o que era lenda virou rumor. O malón foi esquecido dos jornalistas e apagado da história oficial por pelo menos 60 anos, quando em 2006 uma nova marcha de indígenas se organizou nas províncias. As queixas? As mesmas, como havia advertido aos primeiros em 1948 o cantor e compositor Atahualpa Yupanqui: “Dentro de poco serás el tema pálido de algo de lo mucho que ocurre en el tiempo.”

O céu ainda não está pronto

Não sei o que procuro tão longe,
eu não invento coisas contra a natureza.

Mais estrelas sob o tecido poroso,
alma das nuvens borrifadas,
não invento.

Não olho nem embaixo da cama
e deixo a porta sempre fechada.

Desorganiza-me o universo
e a obsessão dos quasares
onde eles nem desejariam ser vistos.

Não entendo do que adiantaria.

Mas não resisto.

Há muito céu depois e também sobre
os dias desmoronados.

Nós somos incompententes
para sabê-lo, eu sei, mas foste
sem tempo que eu te avisasse
que o céu ainda não está pronto
como tu sempre me mostravas.

Sempre um pássaro, rastros dos aviões,
fiação dos postes, folhas anônimas
de árvores sem autonomia
o importunavam.

Sempre algo imperfeito, telhas
dobradas pelo vento, a imagem silenciosa
de casas, prédios, madeira, alvenaria.

A mão de alguém passando rápido
tocando um cão pela coleira.

Um cão pela coleira.

Eu diria que
havia muito que melhorá-lo,
sinceramente, mas a realidade
é densa e intratável e se afasta
para uma sorte de ignorâncias.

Será menos suportável de agora
em diante porque me dividias
nem que fosse a vez de um suspiro.

Não há outro céu que eu invente
e é com isso que mais me amedronto:
bem como este céu é incompleto
eu também não estava pronto.

Edição do Autor

Não sei se consigo descrever a simpatia que me desperta/causa encontrar estas palavras na folha de rosto de um livro. Acho que tem algo de antiquado, para além do “marginal”, mas também de discrição. Coloque-se um livreto como esse que tenho em mãos ao lado de um calhamaço e parece que um faria imediatamente sombra no outro. Mas isso é totalmente ilusório ou, melhor, uma análise de invólucro ao invés da única que interessa à literatura: aquela que diz respeito ao conteúdo dos livros.

“Cipó” é o segundo livro de poesia que eu tenho do Vitor Simon. Já tinha antes o seu “Cata-vento imóvel”, também de poesia. Ambos são edições do autor, isto é, livros inteiramente produzidos e comercializados por ele próprio. Os seus livros de contos eu não tenho nem conheço.

É um livreto de pequenas dimensões, 15,5 x 10 cm, mas de uma poesia que a mim muito impactou. Gostei muito. Há um salto evolutivo visível entre um e outro dos seus livros e, nesse especificamente, um ganho de vitalidade muito significativo.

MÃE, p. 37

O pó vermelho impregnado
nas solas da alma.
A vogal estiraçada
no final das frases.
Cá estamos, de retorno,
e a criança agora és tu.
Circundando o leito,
tecemos para ti
uma colcha de retalhos
de nossa própria pele.

Quando se lê dois livros de um poeta, e se nesse meio tempo algo de significativo passou-se com ele, é muito difícil não se notar. Não é uma mudança que se dá na forma ou na técnica, mas na perspectiva. Uma inflexão na sensibilidade. Se o “Cata-vento imóvel” denunciava desde o título uma percepção muito auto centrada, com “Cipó” a poesia do Vitor parece ter ganho mobilidade em todos os sentidos. Seus poemas agora são menos especulativos e mais flexíveis. Debruçam-se no tempo histórico, alcançam-no e transferem-se com muito mais liberdade tanto em foco como em percepção.

Embora o nome “Cipó” também remeta a uma espécie de fixidez, seus poemas agora também são menos contemplativos do que no seu primeiro livro. Eles realmente falam do embaraço do poeta com a vida, não são especulações feitas à distância. Por isso, eu diria que é um livro mais sensível e afirmo isso tanto em relação ao seu livro anterior quanto também a uma certa frieza e distanciamento para mim muito presentes na poesia contemporânea de um modo geral. No caso de Vitor, ele parece ter vencido essa distância e os seus novos poemas são como frutos desse seu novo momento.

Não em todos, mas em muitos poetas que li e conheci, os mortos há muito e os que estão vivos agora e leio aqui, e apesar dos estilos muitas vezes diferentes, tenho uma sensação repetitiva de que são pessoas que desejariam por meio da escrita tocar a sensibilidade dos leitores. Alterá-la de alguma forma. O Vitor não me parece ser um poeta assim. Outros me passam a sensação de que desejam fazer como a imagem de Jesus e apontar o próprio coração, como uma espécie de auto devoção. Como se o sentimento do poeta pudesse providenciar significados aos sentimentos dos demais. Também dessa sensação o Vitor me livra, felizmente, e de doutrinações sentimentais.

Ainda que não visando necessariamente o imediato, escrever é sempre um esforço comunicativo. Por certo desembaraçamento da realidade imediata e pelo uso de metáforas mais ou menos adesivas, a poesia parece mesmo um discurso livre e por essa razão é sempre complexo apontar-se o valor disso e daquilo, especialmente porque a liberdade formal obtida no decorrer do séc. XX pressupõe inumeráveis e incomparáveis formas expressivas.

O máximo que como leitor de poesia me atrevo a dizer de um livro é “gostei”, ou seja, este livro parece ter me alcançado a sensibilidade e ganhado em mim um leitor, quer dizer, uma porção da minha atenção apta a concatenar-se ao escrito. Para os que acreditam que a poesia é essencialmente a linguagem do belo ou do espantoso, eu lamento, mas não concordo inteiramente. A poesia do Vitor, em “Cipó”, eu não sinto que queira me mostrar a beleza nem me assombrar, mas mostrar o poeta e a sua forma de perceber o mundo e a si mesmo.

Talvez eu tenha ou sinta um parentesco com a sua poesia, é bastante provável, mas seu livro é bom pelo seu próprio valor. Como disse, eu gostei e esse parece ser o limite do que posso dizer. Todavia não é o limite do que o livro pode dizer e dirá aos demais que o conhecerem.

Ninguém é mais escravo do que aquele que pensa que é livre sem realmente sê-lo

Ainda não entendo bem como, mas eu já estive num lugar que não existe. Estive com o meu filho quando ele tinha, talvez, três ou quatro anos. Mais provável que quatro.

Ficava o lugar num desses sobradinhos que têm ali quase no final da Venâncio Aires, perto do Pronto-Socorro. Um consultório num sobrepiso que alcançamos por uma escada guarnecida por apenas um corrimão, do lado direito. O outro, do esquerdo, parecia ter sido removido. Isso dava para ver pelo desgaste na parede. Era tão estreita a passagem que precisávamos passar um diante do outro e deixei que ele a subisse em minha frente, assim poderia cuidar de que não tropeçasse e evitaria qualquer acidente.

Alguém havia nos indicado uma médica que atendia ali e poderia nos ajudar com ele, que se atrasava em seu desenvolvimento e com quatro anos falava apenas sílabas. Eu tinha realmente uma loucura por ouvir a sua voz pronunciando uma palavra por inteiro e por isso a qualquer promessa que nos acenassem eu o levaria. Não penso que tivesse alternativa a não ser essa e a indicação de um amigo também confiável me bastou.

Fomos lá num dia que eu não lembro mais se fazia sol como o dessa fotografia ou se estava nublado, mas não chovia. Disso lembro-me bem. Subimos sem pressa porque morávamos relativamente perto dali. Desde que vivo em Porto Alegre, sempre morei perto da Redenção; é como estar próximo a um pulmão, ainda mais se vemos o parque do alto de um prédio. Subimos a escadaria de madeira e não havia ninguém numa sala onde espalhavam-se algumas cadeiras e pinturas decorativas a óleo de paisagens marinhas. Sob os quadros, a parede com uma cor para mim indefinida entre o amarelo e o azul. No meu daltonismo, eu a via um tanto dourada, mas é claro que não era essa sua cor real, apenas uma distorção promovida pela minha condição genética.

Para o meu filho, a genética promoveu outras surpresas. Um gen a mais no cromossomo 21 e talvez outras combinações imperceptíveis do seu genoma. Mesmo que a gente não saiba bem tudo o que pode haver escrito nele, em seus olhos a síndrome era evidente e indisfarçável. Acho que quando a doutora finalmente apareceu na sala de espera para nos receber ela demorou muito pouco para entender a ele e sua situação. O diagnóstico pelo fenótipo é o mais rápido entre todos: é como ter a pele negra ou amarela ou vermelha. Basta um exame de olhos e está pronto. Eu também percebi que ela tinha ascendência germânica pelo tom de pele e pelo sotaque carregado nos erres. Seu nome era Gerlinda Ehrenberg. Sehr geehrte Frau Ehrenberg e seu sorriso de Mona Lisa mais indecifrável que o código genético de um indescoberto faraó do Egito.

Dra. Ehrenberg, assim ela se apresentou quando finalmente entramos no consultório, um lugar tão vazio quanto a sala de espera e todo aquele andar do simpático sobradinho.

“O menino nasceu assim, eu já perrrcebi, senhorrrr Carrrvalho. Mas nós vamos corrigirrrr isso, fique trrranquilo”, anunciou e, ao contrário daquilo me apaziguar, senti um desconforto absoluto. Ela alternava o olhar para ele e para mim sem parar, parecendo uma tentativa de evitar o contato visual.

“Vamos operrrá-lo”, falou; e naquele momento ele pulou do meu colo correndo para dentro do corredor com suas pernas gordinhas, o tênis Bibi e o cabelo de capacete.

A mim, no entanto, ela bloqueava a passagem e então eu vi, saídos não sei de onde, dois soldados usando a Parteiadler e a cruz de ferro que logo tomaram-me pelos braços. Ela o seguiu pelo corredor cor de neve dormida e colocou a mão em sua cabeça. Ele não debatia-se, parecia aceitar a situação como se fossem dois antigos conhecidos, professores ou parentes.

Frau Ehrenberg insistia em me dizer “Fique trrranquilo, senhorrr Carrrvalho” e mais alguma coisa em alemão aos soldados que imediatamente pararam ao ouvir o que ele sem explicação alguma começou a gritar: “Warten, warten, warten!”

Ela agachou-se para ficar na mesma altura do meu filho e ele, que nunca havia dito uma palavra por completo, falou com a maior clareza possível: “Niemand ist mehr Sklave als der sich für frei hält ohne es zu seyn.”

Frau Ehrenberg ficou paralisada ao ouvi-lo e os soldados imediatamente desmaiaram, como se estivessem encantados por sua voz, pela frase de Goethe ou por ambas as coisas. Aproveitando o lapso, alcancei-os e empurrei com toda a força a médica para o lado e tomei a escada quase desabando. O filho no colo brincava de enfiar os dedos no meu nariz e ria.

Na rua, o movimento era intenso, mas corríamos sem olhar para trás. Quando pareceu seguro virar o rosto, vi Frau Ehrenberg tomando a rua também, mas atravessou-a sem olhar para os lados. Uma ambulância que saía do Pronto Socorro em alta velocidade engoliu sua imagem rígida dentro do casaco cinza e o penteado armado em laquê. Eu apenas torcia para que o acidente a tivesse matado.

No lugar onde estivéramos pouco antes, já não havia mais aquele sobrado. Em seu lugar, um novo, quadrado como um bloco, servia de estacionamento a outro prédio com jeito de recém construído. Nem os soldados acudiam Frau Ehrenberg, levada às pressas pela mesma ambulância. Talvez eles tenham ficado lá dentro dormindo encantados, como os soldados da Bela Adormecida. Eu não preciso que morram igual a Frau Ehrenberg, mas espero que seja assim que eles continuem para sempre.

Caminhos do livro no Rio Grande do Sul

Revista Parêntese, ed. 133

Há pelo menos vinte anos, o governo do Estado do Rio Grande do Sul declarava em forma de lei, entre outras coisas, o desejo de converter-se em centro editorial capaz de competir no mercado. Expressa desde a promulgação da Lei do Livro (Lei nº 11.670 de 19/09/2001), a ambição foi resultante da ação e empenho de muitos vetores: do próprio Poder Executivo, dos editores representados pelo Clube dos Editores e pela Câmara Riograndense do Livro e, pela parte das bibliotecas públicas, do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas e do Centro do Livro e Bibliotecas Escolares, também organizadas no âmbito do executivo por meio da Secretaria de Educação.

A publicação ocorreu ainda no governo de Olívio Dutra, com um texto que mais buscava planejar o setor do que discipliná-lo. Denominava-se como Política Estadual do Livro, mas apenas dois anos após sua publicação é que começou a ser regulamentada. A forma escolhida pelo governo estadual já sob o comando de Germano Rigotto foi a edição de um decreto (DEC 43.036 de 20/04/2004) que, por sua vez, estipulou que a política fosse organizada em planos anuais. 

Um rápido corte de cena e quase uma década mais tarde vai encontrar-se, no ano de 2013, a informação de que, no âmbito do Poder Executivo, já no governo Tarso Genro, iniciou-se um novo plano estadual. Debatido e organizado desde 2012, agora em consonância com o Plano Nacional do Livro, o PELLL (Plano Estadual do Livro, Leitura e Literatura) contou com a participação dos mesmos setores que haviam se organizado pela política de 2001, pela Lei do Livro, ao menos em tese ainda vigente. Nesse movimento, os planos anuais foram substituídos pelos planos setoriais da cultura instituídos pela lei do Sistema Estadual de Cultura do Estado do Rio Grande do Sul (Lei 14.310 de 30/09/2013).

Entre idas e vindas legislativas e tempo despendido no qual muitas vezes os objetivos abstratos dos planejamentos setoriais são levados a efeito por iniciativas pessoais, quem efetivamente tem colocado o livro no mercado e nas mãos dos leitores vêm sendo mesmo as bibliotecas e os editores de livros, dado que cerca de dois terços dos municípios do interior não contam com livrarias. Dentre estas, um número significativo não conta com dotação orçamentária e é dependente de doações diretas dos autores ou de livros obtidos por meio do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas ou do Instituto Estadual do Livro (IEL).

As dificuldades orçamentárias são imensas. E o governo busca suprir também o mercado editorial de forma indireta, aplicando um tanto do previsto de fomento na política de 2001 por meio de linhas de crédito especiais, de longo prazo, por intermédio de seus bancos de fomento: Banrisul, Badesul e BRDE. A busca por tais recursos, no entanto, é pouco expressiva, e atualmente apenas a editora L&PM beneficia-se por meio do projeto Pró-Biblioteca

Para os editores, todavia, as dificuldades são ainda maiores. Quase permanentes se lembrarmos, por exemplo, do que na década de 30 do séc. XX José Bertaso já advertia ao filho Henrique, conforme narra Érico Veríssimo em Um certo Henrique Bertaso (1973), de que era preciso considerar “o problema de distribuição, da prestação de contas de remotas livrarias, a fatal devolução de livros consignados, quase sempre em mal estado de conservação”. Quando se percebe que a crise da indústria papeleira ainda afeta o ramo como antes da Segunda Guerra Mundial, quando Monteiro Lobato fazia um lobby quase solitário ao governo de Getúlio Vargas, é de espantar o ânimo de quem ainda se atreve no setor.

Pese-se mais ou menos positivamente o valor dos incentivos estatais, o negócio editorial tem uma gestão e sobrevivência extremamente exigentes, e atender aos requisitos e formalidades exigidas pelo sistema financeiro, ao mesmo tempo conservando-se as contas saudáveis, implica muitas vezes em manter-se o mais possível longe dele. É uma aposta pela autonomia que, se não seduz aos investidores por uma promessa de lucros, garante-se um tanto mais pela estabilidade. E caso se pense que são iniciativas concentradas na capital, onde a circulação dos bens culturais é maior, incorre-se em erro. No interior do Rio Grande do Sul o setor não apenas sobrevive como se reorganiza em face do novo momento cultural e tecnológico.

Editando desde o interior

Trabalhar sem um grande fluxo de caixa, mas de forma sustentável, é o desafio da maioria dos recentes negócios editoriais. Para Mônica Canto, da Ballejo Cultura & Comunicação, as políticas públicas para a leitura são deficitárias e as edições dependem de parcerias com os autores até o processo final de divulgação. Com a boa receptividade do lançamento recente de “Escaler: quando o Bom Fim era nosso, Senhor”, apenas agora a editora começa a buscar incentivos públicos para ampliar o catálogo de livros infanto-juvenis.

Para estar efetivamente no mercado, o negócio editorial exige ao menos a constituição de pequenas empresas ou empreendimentos individuais. Ao passo que a constituição de personalidade jurídica é cada vez mais facilitada, essa presença envolve mais do que colocar livros à venda. Implica também em ter onde colocá-los e encontrar um nicho de leitores dispostos a adquiri-los – isso contando-se de antemão com a concorrência inclemente das mídias digitais, como se pode verificar nas pesquisas do Instituto Pró-Livro que apontam o incremento de acesso às mídias digitais em detrimento da leitura de livros físicos. Mesmo assim, novas iniciativas editoriais não deixam de aparecer, mesmo no interior do estado, especialmente pelo espaço de comunicação aberta da internet.

Criada há cinco anos pelo escritor Daniel Gruber, a editora O Grifo é um exemplo de uso da convergência digital e independência. Apesar de já contar com livros expostos em livrarias de São Paulo, Porto Alegre e Novo Hamburgo, onde é sediada, a editora faz um uso intenso das mídias digitais e financia-se inteiramente com o envolvimento direto dos leitores em campanhas de financiamento. Daniel a caracteriza como uma editora independente e aponta a dificuldade da ausência de uma mídia literária que valorizasse os empreendimentos locais. Quanto ao governo e suas políticas, não demonstra maior interesse, apenas que “valorize o livro ao invés de persegui-lo”.

Sediada em Passo Fundo, região do planalto, a Physalis editora, por outro lado, diz ter boa relação com a imprensa local e, em função de um catálogo predominantemente infanto-juvenil, vale-se de iniciativas municipais voltadas à educação. De acordo com seu proprietário, o escritor Pablo Morenno, vem mantendo-se com recursos próprios obtidos pelas vendas de edições anteriores. A concorrência de grandes editoras e facilidade que podem oferecer na divulgação é o que, de acordo com Pablo, dificulta uma maior visibilidade da editora que, inclusive, vem recebendo prêmios importantes no município e no estado. Ele também aponta que uma política governamental de compras voltada às bibliotecas ajudaria muito a sua e outras editoras do estado.

Em Santa Maria, no centro do estado, a Rio das Letras é uma editora com pouco mais de uma década e um catálogo composto quase inteiramente por autores locais. Jorge Ubiratã da Silva Lopes, ou Byrata, como é mais bem conhecido na cidade, aponta que também nunca sua editora contou com recursos públicos e que deseja sobretudo ampliar sua presença no mundo digital para tornar-se mais atrativa para autores e leitores.

Não muito distante, em Santana do Livramento, na fronteira sudoeste, Thomaz Albornoz Neves há dois anos passou a editar o que chama de projeto conceitual, uma coleção com livros que partilham o mesmo desenho gráfico e que têm em comum pertencerem a autores do interior do Rio grande do Sul e do Uruguai. Presentes nas livrarias locais, os livros da TAN editorial são tiragens limitadas e produzidas numa iniciativa não lucrativa e aposta inteiramente na internet para vendas e divulgação. Thomaz considera a distribuição e as margens de consignação impostas pelas livrarias impraticáveis para pequenos negócios como o seu.

Re-re-planejando 

Em levantamento realizado em 2006 pelo Clube dos Editores, no Rio Grande do Sul existiriam em atividade 453 livrarias. Presentes em 118 dos 497 municípios do estado, a aritmética simples indica que 380 municípios gaúchos não contam com livrarias. Já as editoras no estado não passam de uma centena. O único número efetivamente de encher os olhos é o de bibliotecas públicas. De acordo com o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas, apenas um município do estado não contaria com uma biblioteca pública municipal, num total de 535 instituições.

Mais recentemente, em 2020, em nota técnica realizada pelo Departamento de Economia e Estatística da Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão do governo estadual, a cadeia produtiva do livro foi novamente reexaminada. No escopo da nota, entende-se por “cadeia editorial”, o longo processo de realização industrial do livro desde o autor até o leitor final ou, para os efeitos da nota, o consumidor. Entre um polo e outro, o conjunto de pessoas e ramos de atividade envolvidos desde a composição até a venda final dos livros. O documento propõe-se a diagnosticar o impacto tecnológico no setor, evolução, dificuldades e identificar tendências futuras.

Comparar-se a nota à legislação e planos já desenvolvidos para o setor é no mínimo embaraçoso. Não há qualquer referência aos impactos nem da Lei do Livro nem do decreto de sua regulamentação e tampouco do Plano Estadual do Livro, Leitura e Literatura, de 2013. Para os efeitos de análise de impacto, resta a conclusão de que o setor faz-se por conta própria. Para toda a problemática levantada pela nota, resta sempre a necessidade de um novo planejamento, novas necessidades e muitos verbos no infinitivo, tais como naqueles outros documentos: identificar, fortalecer, trabalhar, construir, etc.

O resultado exasperante da preocupação política com o setor editorial talvez peque justamente por um sentido de permanente desconexão com a situação presente. A ideia da nota para a sobrevivência das livrarias, por exemplo, é de que elas se convertam ou assumam funções quase idênticas as de bibliotecas, isto é, cumpram a função de aglutinação e espaço cultural. É uma ideia de certo modo eficiente, até porque desloca da própria biblioteca pública essa missão e, assim, justifica-se para estas um estoque permanente de baixo investimento.

Embora pareça preparar-se logo para uma nova rodada de planejamentos promovida pelos sucessivos governos, o setor subsiste mesmo é pelas estratégias editoriais que enfrentam tanto um cenário de burocratização tremenda como o avanço de uma logística superior, como a proposta e executada, por exemplo, pela multinacional Amazon, mas também por livrarias do centro do país, como a Martins Fontes, que vêm explorando o mercado com valores cada vez mais competitivos e logística de alta eficiência.

Converter o Estado do Rio Grande do Sul em centro editorial, com condições de competir no mercado, era o desejo da Lei de Livro, em 2001. Além disso, outras missões tão nobres quanto: criar novas bibliotecas, preservar o patrimônio cultural, promover o hábito da leitura e assim por diante. A dificuldade de materialização das leis e planos, no entanto, parece repetir a baixa adesão ao Art. 13 da lei, que prevê o depósito legal e do qual ainda se tem infelizmente pouca notícia. Do mesmo modo, é de se lamentar que a utopia da preservação da memória venha sendo adiada, assim como outras ambições do setor livreiro e da sociedade. Não será por falta de planos, leis e boas intenções. Disso, como se vê, o estado vai muito bem. Vinte anos depois, somam-se às dificuldades do setor os desafios da tecnologia que batem a porta. Talvez, para atingir-se outro patamar, seja necessário parar de repetir-se e dar mais chance ao novo do que ao mesmo.