Circunstância

Na madrugada, meio breu, dei com aquela estampa do lado de lá da cancela. A cuscada que me avisou, mas, como não se entreveravam com os cachorros do homem, entendi — por isso — que vinha em paz a criatura. Porque as coisas não andam mui buenas, decerto em busca de serviço, pensei. Mas, como não apeava, logo vi que não era disso que se tratava. Do que seria, entonces?

Estava eu recolhido encostado numa lateral do galpão, espiando o homem que batia palmas, ainda avaliando o risco de me apresentar de corpo inteiro assim, a um estranho, mas avancei enquanto procurava distinguir naquela face um reconhecimento. Podia ser um antigo conhecido, talvez um parente, mas um parente não chegaria assim — ou chegaria, vá saber, faz tempo que de cortesia ninguém me aparece, então reserva-se certa distância, a modo de precaução. Ao me ver passar, tirou o chapéu da cabeça (bom sinal) e disse “Bons dias, senhor…”. Tinha a voz serena, o homem, e respondi seu cumprimento indagando no que lhe ajudava. Ele acomodou-se nos arreios que pouco rangeram e, com o chapéu emborcado no peito, pediu orientação. Queria saber como chegava no Passo das Três Marias, lugar muito distante dali de onde estávamos e eu disse apenas: “Baaaahhhh…”, sem me animar a sugerir a lonjura do que ele procurava. Mas que diabos essa criatura tanto se extraviara a ponto de quase ter tomado o sentido oposto do que procurava? “Está mui lejos, compadre…”, informei e logo dei toda a informação cartográfica de que dispunha. Os cachorros dele, arqueando, magrelos, indicavam um trote de dias. Ainda assim, os cuscos eram comportados e aceitaram sem rosnar que os cachorros de casa lhes fossem cheirar. Uns bichos estropiaditos, aqueles, mas, sem dúvida, bem ensinados.

O homem ouviu tudo que lhe disse. Passe aqui, vá por ali e tudo o mais. Porém, como eu sabia que o seu destino era um lugar deserto, um povoado abandonado de taperas, por uma questão de bom senso precisei alertá-lo de que nada havia mais lá que se pudesse encontrar. Mas ele não parecia preocupado da distância e olhava no horizonte que se descortinava com a luminosidade do nascente os referentes que lhe dera. Ali uma coronilha solitária no campo, adiante o aramado do vizinho, o passo da sanga menos peligroso, o corredor a seguir, o caminho do lado de lá.

“O senhor é mui gentil”, ele disse. “Vou seguir sua indicação, e agradeço, mas preciso le pedir que tome conta daquele coitado ali.. Não vai mais aguentar..”, indicou com os olhos um tipo de um galgo, esquelético nas últimas. “Mas claro, deixe nomás por aqui mesmo. Ninguém vai le tratar mal…”, garanti e ele sorriu com os olhos, sem mover nada na face coberta pela barba crescida. Enquanto respondia, pensava que na cozinha tinha no tarro um tanto de leite que ia azedando, algumas galletas, um charquezito que não me faria falta e montei mentalmente um farnel que entregaria de bom grado ao viajante, embora ele nada houvesse pedido. “O senhor espere que volto já”, disse e lhe dei as costas. Mas nesse mesmo movimento ouvi o estampido e o regresso súbito da noite.

O homem não desceu do cavalo e fui procurando o seu rosto entre a paisagem cada vez mais turva. Ele continuava no mesmo lugar. O seu cavalo não havia movido um milímetro dos cascos, acostumado decerto com aquilo. E antes que eu pudesse entender o que fosse, a razão daquela loucura, se encomenda, se apenas loucura, pensei em como não desconfiara daquela história do passo mal assombrado, lugar ermo, sem nada. Não podia ser coisa boa, é claro, uma conversa fiada absurda. Pensei se não havia deixado nada no fogo que causasse um incêndio. Nada me passava. E quando ia apagando, desta em definitivo e sabe-se lá se para outra, um segundo estampido cruzou o ar amolecido, como já empapado em sangue. Então merecia dois tiros… No entanto o corpo não acusava nada, nem uma ardência a mais além da primeira, nas costas. Estranho que não me parecia mal, o sujeito. Não me despertou desconfiança, até simpatia. Mas acaso o mal tem face certa? Não, o que o faz é a circunstância, e só. Emborcado no chão, vi que o cachorro estava já liquidado e o homem seguia de volta ao potreiro, a trote, indo sabe-se lá para onde, mas agora ao menos eu sabia para fazer o quê.

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