Dia: 13 de julho de 2026

O milagre da leituraO milagre da leitura

Nos últimos dias voltei a vasculhar aqui livros antigos, da literatura rio-grandense, e dei com essa edição de Simões Lopes Neto. Por muito tempo tive uma com o texto puro, apenas. Lá pelas tantas, entendi que queria essa pelos paratextos. Eu queria uma que tivese esta introdução, este prefácio e este posfácio. Nem lembro quanto paguei pelo livro, mas não foi pouco. Esta edição hoje não está nem nos sebos, apenas em casas de leilão. Comprei o meu exemplar já meio esbodegado, lombada descosturada e as páginas ainda inteiras no fólio, sem corte. Eu abri para ler o que queria e guardei onde ele estava até hoje cedo, quando fui consultar um trecho das Lendas do Sul.

Eu nunca havia percebido que o livro tinha uma capa impressa tão absolutamente torta, desenquadrada mesmo. E fiquei olhando o livro, enquanto manuseava o papel pesado em que foi impresso, e as palavras passando meio indistintas no folhear.

Ler é uma coisa estranha: as palavras estão ali, mas dependem completamente de alguém que as reordene em sua mente. No livro, são traços apenas. Digo, no objeto livro. Mas o livro em si não contém a obra. A obra é um mistério – é “o” mistério. O livro é apenas um caminho de acesso ao mistério outra vez oculto no livro.

De um livro que perdeu a capa (ou se a imprimiu torta ou errada), ou mais que isso, que perdeu partes suas, páginas, capítulos inteiros, pode-se dizer que é uma obra decomposta, destruída? Que deixou de ser obra?

Este livro da imagem, por exemplo, quantas páginas precisamos ler para perceber a sua imortalidade? E por que acontece com outros livros que nós os matamos desde a primeira página, os condenemos a uma mudez definitiva? E às vezes aceitamos inclusive que outros os matem por nós?

A minha conclusão é que é ilusório acessar a verdadeira obra de um livro. O livro sempre diz muito pouco da obra, que é a escrita da mente de alguém. A leitura, eu acho, é a realização improvável desse milagre.