Crônicas O milagre da leitura

O milagre da leitura

Nos últimos dias voltei a vasculhar aqui livros antigos, da literatura rio-grandense, e dei com essa edição de Simões Lopes Neto. Por muito tempo tive uma com o texto puro, apenas. Lá pelas tantas, entendi que queria essa pelos paratextos. Eu queria uma que tivese esta introdução, este prefácio e este posfácio. Nem lembro quanto paguei pelo livro, mas não foi pouco. Esta edição hoje não está nem nos sebos, apenas em casas de leilão. Comprei o meu exemplar já meio esbodegado, lombada descosturada e as páginas ainda inteiras no fólio, sem corte. Eu abri para ler o que queria e guardei onde ele estava até hoje cedo, quando fui consultar um trecho das Lendas do Sul.

Eu nunca havia percebido que o livro tinha uma capa impressa tão absolutamente torta, desenquadrada mesmo. E fiquei olhando o livro, enquanto manuseava o papel pesado em que foi impresso, e as palavras passando meio indistintas no folhear.

Ler é uma coisa estranha: as palavras estão ali, mas dependem completamente de alguém que as reordene em sua mente. No livro, são traços apenas. Digo, no objeto livro. Mas o livro em si não contém a obra. A obra é um mistério – é “o” mistério. O livro é apenas um caminho de acesso ao mistério outra vez oculto no livro.

De um livro que perdeu a capa (ou se a imprimiu torta ou errada), ou mais que isso, que perdeu partes suas, páginas, capítulos inteiros, pode-se dizer que é uma obra decomposta, destruída? Que deixou de ser obra?

Este livro da imagem, por exemplo, quantas páginas precisamos ler para perceber a sua imortalidade? E por que acontece com outros livros que nós os matamos desde a primeira página, os condenemos a uma mudez definitiva? E às vezes aceitamos inclusive que outros os matem por nós?

A minha conclusão é que é ilusório acessar a verdadeira obra de um livro. O livro sempre diz muito pouco da obra, que é a escrita da mente de alguém. A leitura, eu acho, é a realização improvável desse milagre.

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Ao contrário do déjà vu, às vezes me acontece uma estranha sensação do inédito. Estou vendo isso aqui, mas de repente isso aqui não me parece ser o que me parecia até ontem ou mesmo há um instante.

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Decerto é um truque perceptivo que o cérebro nos causa para que suportemos a repetição dos dias, itinerários, paisagens e tudo o mais que se repete ou que precisamos refazer.

Sonoramente, é como se os ouvidos fossem subitamente destamponados. Visualmente, é como se o tisnado opaco que borra a tudo do nada acordasse limpo. Literariamente, é como se o o texto nos mostrasse o seu subconsciente, e do que ele tenta nos dissuadir com seus mil artifícios estéticos e retóricos, mas que está ali, a psicologia do autor, ao alcance dos olhos de qualquer um, como uma espécie de nudez invertida.

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GigantismoGigantismo

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Poemas que não colhem da natureza nem nela interferem, mas a nutrem com a sua tormenta em que sonho e realidade se mesclam, pensamento e sentimento se confundem, verdade e beleza se complementam..

Não é que despreze os epigramáticos e os minimalistas, eu os admiro, mas a minha natureza é de falar até esgotar dentro de mim qualquer queixa que se abre sem que eu a possa dominar.

Os poemas que viram a página e se remendam e se retalham e se remendam novamente. E assim indefinidamente. E ainda viram outra página.

Em absoluto, nada contra os fragmentos, os elementos óptico-visuais ou a percepção sumária.

Em absoluto, nada contra os flagrantes nas asas das mariposas, mas, nesse mesmo momento, um vulcão derramou magma por todo um continente. Me entenda..

Enfrentar a brevidade é um desejo incontrolável de prolongar a noite e postergar o amanhecer. Não render-se ao tempo nem constranger-se ao espaço. Ao menos nas palavras — só onde parece possível —, extravasá-los. Deixá-los de lado ou para trás.

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E depois que todos já estiverem exaustos, o poema os reavivará, pois é cedo, sempre é precoce demais o tempo da sua morte..

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Para meu proveito, é claro, porque não me passa convencer a ninguém de que estou certo ou tenho razão.

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