Dia: 19 de agosto de 2026

Missões: entre memória e esquecimentoMissões: entre memória e esquecimento

IHU on-line

Foi a leitura de um breve trecho do recente Uma história da literatura brasileira contemporânea (Todavia, 2026), de Regina Dalcastagnè, que há pouco me fez retomar a antiga impressão de que a história literária do Rio Grande do Sul pode não refletir tantos traços, como queremos crer, da experiência das Missões Jesuíticas Guaranis e da presença indígena. Ao examinar a ficção histórica produzida no estado, cuja diversidade e amplitude atribui ao “espaço de maior fricção entre colonizadores portugueses e espanhóis”, em seu livro a professora organiza esse conjunto de obras em três grandes eixos: a presença dos colonos europeus e a nostalgia da ocupação territorial, os conflitos urbanos e migratórios e, por fim, os embates armados, guerras e revoluções. Embora mencione a extensão da obra de Érico Veríssimo, sua síntese da ficção histórica gaúcha praticamente não contempla os quase dois séculos da experiência missioneira nem a presença indígena, que passam despercebidos no breve panorama dedicado aos livros e autores destacados.

Da leitura do parágrafo resulta uma sensação (não inédita) de estranhamento. Na historiografia literária rio-grandense, as Missões e o elemento indígena raramente comparecem em sua formação, cuja origem costuma ser situada nos limites da Revolução Farroupilha. A sensação agora se amplifica porque ocorre justamente no ano em que se comemoram os 400 anos das reduções jesuíticas, quando o tema tem sido objeto de intenso investimento publicitário no Rio Grande do Sul, servindo de atrativo para a realização de eventos de toda ordem, em uma iniciativa de fomento promovida pelo governo do Estado. Cumpre dizer que, apesar dessa visibilidade simbólica, pouco dessa mobilização foi incialmente projetada para repercutir nas condições de vida das comunidades indígenas, fato que motivou inclusive a intervenção do Ministério Público Federal no sentido de restabelecer a participação das comunidades e alterar a destinação dos recursos. A sensação de descompasso, portanto, não se limita à literatura e tampouco é uma novidade: a assimilação da experiência missioneira e da presença indígena no Rio Grande do Sul de um modo geral é permeada por um histórico de conflitos, disputas e impasses.

Do ponto de vista da memória cultural, a sensação é de um estranhamento ainda maior: ao menos por um momento, parece ainda prevalecer a ideia de que a história das Missões não nos pertence integralmente e diz mais respeito aos domínios espanhóis que luso-brasileiros. Reitero o “ainda” porque, em torno desse antecedente, erigiu-se e predominou por longo tempo a estranha ideia de uma província nascida politicamente apenas nos limiares do séc. XIX, precisamente em 1801, data em que a região foi definitivamente incorporada aos domínios luso-brasileiros após um processo de violência e expropriação dos povos originários.

A ideia fundamentou grande parte da historiografia rio-grandense produzida ao longo do séc. XX, estimulando um intenso debate público que, em muitos momentos, colocou em oposição intelectuais divergentes e governantes. No que diz respeito à literatura, isso me ocorreu especialmente pela ausência, no trecho mencionado, de qualquer referência às obras literárias dedicadas às Missões e à presença indígena — e ainda mais porque essa ausência não corresponde inteiramente à realidade. Há, pelo menos, dois romances que, além de expressivo sucesso editorial, desempenharam papel relevante nas discussões culturais rio-grandenses: trata-se de Tiaraju (Livraria do Globo, 1948), de Manoelito de Ornellas e Sepé Tiaraju: romance dos sete povos das Missões (Sulina, 1978), escrito por Alcy Cheuiche.

Ainda que não figure como um dos troncos da ficção histórica propostos pela professora Delcastagné, a história missioneira tem sido pródiga na proliferação literária. É uma produção, aliás, notavelmente diversa e compreende desde romances e novelas históricos até a poesia e o cancioneiro popular. No centro dessa intensa representação, localiza-se o guarani Sepé Tiaraju, santo popular desde o registro de João Simões Lopes Neto e figura ao mesmo tempo humana e mítica que encarnou a indianização da cultura popular como um ícone atrativo e identitário. Para muitos pesquisadores, como Eliana Inge Pristch e Ceres Karam Brum, foi justamente a literatura que conformou o mito, transformou a violência da morte de Sepé em martírio e o consolidou na memória e ancestralidade cultural dos gaúchos.

Se, contemporaneamente, o debate em torno das vertentes lusitanista e hispanista da história política e cultural do Rio Grande do Sul pode ser dado como superado, o mesmo não se pode dizer do legado missioneiro, que permanece como um campo simbólico aberto para os debates culturais, exploração turística e disputas políticas. Na literatura, vale dizer que isso se deve menos às referências ao passado do que à produção contemporânea de autoria indígena. Obras de autores como Luciana Vãngri Kaingang e Gerônimo Morinico Franco, por exemplo, vêm expressando, com crescente autonomia, os valores culturais e as questões próprias das comunidades, estabelecendo novas formas de continuidade com o passado colonial. Além da literatura, a reflexão sobre essas relações também está presente em diversas produções acadêmicas e realizações culturais, acompanhando o processo contemporâneo de afirmação da autoria indígena e sua atuação intelectual.

No que se refere ao passado, é preciso lembrar que as relações dos escritores com a representação dos indígenas estiveram, por muito tempo, influenciadas por um processo de racialização e subalternização que acabou por situar a identidade e os antecedentes indígenas, simultaneamente, no centro e à margem dos processos culturais. Há uma espécie de estigmatização que convive com o culto heroico. Em um processo identitário marcado pela indefinição da nacionalidade, pelo desejo de distinção em relação ao mundo hispânico, pela natureza da miscigenação e pela caracterização e permanência da memória cultural, impasses recentes acabam por mimetizar os antigos: velhos preconceitos são reciclados e traduzidos em formas de apagamento tanto no campo cultural quanto no político.

No terreno do imaginário, do qual a literatura ainda pode exercer um poder gerador de sentidos, a situação é tênue como são as atuais condições de vida dos descendentes dos povos indígenas. Mobilizar a atenção das pessoas cada vez mais conectadas ao mundo global para as particularidades locais exige aumentar um pouco o distanciamento para com o presente, e melhor ver o passado. Certo é que a literatura pode servir a esse propósito e a constatação da anulação da ausência dos indígenas no campo literário pode servir de termômetro cultural. Apesar disso, como escreveu certa vez o recém-falecido historiador italiano Carlo Ginzburg, não devemos exigir verossimilhança da literatura, mas aceitar a sutileza do seu suporte. O mais simples será sempre banalizarmos o conhecimento do passado e suspendermos o diálogo que podemos estabelecer com ele, mas à literatura é suficiente o reconhecimento do seu potencial de estranhamento. Quando nos diz respeito, estranhar a ausência desse reconhecimento torna-se também uma questão de sobrevivência.

Uma passadinha pela MartinsUma passadinha pela Martins

Não há lugar nem mais e nem menos porto-alegrense em Porto Alegre que a Martins. Mesmo tendo atravessado a Riachuelo para o lado de lá, não é por sua peregrinação que ela perdeu algo meio indefinível e inconfundível que ela tem, como um teor só seu: um combinado de ácaro, do papel acartonado das brochuras antigas e de algumas camadas de histórias amalgamadas ao longo de quase 7 décadas de existência, guardadas entre as prateleiras lotadas de livros que, é preciso ser honesto, só se encontram mesmo na “Martins”.

Quando vim morar em Porto Alegre, década de 80, a Riachuelo ainda era conhecida como a rua dos livros. Havia, além da Martins, muitos outros sebos, livrarias e casas editoriais com sede ali, como a Vozes e a Sulina. Hoje ainda há alguns sebos, mas residuais. Bem como as bibliotecas, os sebos adoecem e não é por uma concorrência mais voraz ou por uma tecnologia superveniente, é que o passado sucumbe sem armas pelo desinteresse das pessoas cada vez mais focadas no presente e preocupadas com o futuro.

Mesmo assim, em nenhum outro sebo como a Martins eu sinto algo como uma perenidade. Não sei explicar, mas é diferente dos museus e das bibliotecas e muito, muito diferente das livrarias mais antenadas aos lançamentos. É que ali, se é possível encontrar os livros que por certo só mesmo a “Martins” editaria, também é o lugar onde se pode recuperar um título remoto de uma edição esgotada de meados do séc. XX. Mas não um livro banal, um livro incomum sobre botânica ou a história das ferrovias ou um ensaio remoto sobre um aspecto qualquer da revolução de 23, que a maioria das pessoas jamais saberá que houve.

E ali, vasculhando sem querer a história do município de Tupanciretã ou uma biografia não autorizada de um caudilho qualquer, parece claro (mas não tão claro) que há como um degrau para onde se pode descer um pouco mais numa literatura feita nem sempre por grandes nomes da história literária, mas por estudiosos municipais que, por ócio ou diletantismo, pulicaram até por conta própria textos que revelariam mais do que está posto no “cânon”, por detalhado e envolvido.

Todavia, a Martins não parece nem um pouco provinciana. Parece Porto Alegre mesmo, de um outro paradigma de cosmopolitismo não comum aqui (mais encontrável em Montevideo ou Buenos Aires). De um modo como não se permite a Porto Alegre ser, educada como foi um dia, com as pessoas mais simples do interior que a construíram. É bom ir na Martins nem que seja de passagem. A gente vê ali dentro que o tempo na verdade não acabou e nem vai acabar se nós mesmos não acabarmos com ele.

Vindo a Porto Alegre, não dá pra deixar de conhecer. Nem ponto turístico e histórico é, mas só mesmo porque nós em algum momento nos tornamos uns ingratos. E não adianta ir noutro lugar, história como na Martins não se encontra por aí.

Obs: a imagem é da fachada tal qual eu a conheci, não como é hoje.

19 de agosto de 2021.