Não há lugar nem mais e nem menos porto-alegrense em Porto Alegre que a Martins. Mesmo tendo atravessado a Riachuelo para o lado de lá, não é por sua peregrinação que ela perdeu algo meio indefinível e inconfundível que ela tem, como um teor só seu: um combinado de ácaro, do papel acartonado das brochuras antigas e de algumas camadas de histórias amalgamadas ao longo de quase 7 décadas de existência, guardadas entre as prateleiras lotadas de livros que, é preciso ser honesto, só se encontram mesmo na “Martins”.
Quando vim morar em Porto Alegre, década de 80, a Riachuelo ainda era conhecida como a rua dos livros. Havia, além da Martins, muitos outros sebos, livrarias e casas editoriais com sede ali, como a Vozes e a Sulina. Hoje ainda há alguns sebos, mas residuais. Bem como as bibliotecas, os sebos adoecem e não é por uma concorrência mais voraz ou por uma tecnologia superveniente, é que o passado sucumbe sem armas pelo desinteresse das pessoas cada vez mais focadas no presente e preocupadas com o futuro.
Mesmo assim, em nenhum outro sebo como a Martins eu sinto algo como uma perenidade. Não sei explicar, mas é diferente dos museus e das bibliotecas e muito, muito diferente das livrarias mais antenadas aos lançamentos. É que ali, se é possível encontrar os livros que por certo só mesmo a “Martins” editaria, também é o lugar onde se pode recuperar um título remoto de uma edição esgotada de meados do séc. XX. Mas não um livro banal, um livro incomum sobre botânica ou a história das ferrovias ou um ensaio remoto sobre um aspecto qualquer da revolução de 23, que a maioria das pessoas jamais saberá que houve.
E ali, vasculhando sem querer a história do município de Tupanciretã ou uma biografia não autorizada de um caudilho qualquer, parece claro (mas não tão claro) que há como um degrau para onde se pode descer um pouco mais numa literatura feita nem sempre por grandes nomes da história literária, mas por estudiosos municipais que, por ócio ou diletantismo, pulicaram até por conta própria textos que revelariam mais do que está posto no “cânon”, por detalhado e envolvido.
Todavia, a Martins não parece nem um pouco provinciana. Parece Porto Alegre mesmo, de um outro paradigma de cosmopolitismo não comum aqui (mais encontrável em Montevideo ou Buenos Aires). De um modo como não se permite a Porto Alegre ser, educada como foi um dia, com as pessoas mais simples do interior que a construíram. É bom ir na Martins nem que seja de passagem. A gente vê ali dentro que o tempo na verdade não acabou e nem vai acabar se nós mesmos não acabarmos com ele.
Vindo a Porto Alegre, não dá pra deixar de conhecer. Nem ponto turístico e histórico é, mas só mesmo porque nós em algum momento nos tornamos uns ingratos. E não adianta ir noutro lugar, história como na Martins não se encontra por aí.
Obs: a imagem é da fachada tal qual eu a conheci, não como é hoje.
19 de agosto de 2021.
