Ficções La Minuana, agora em edição revista e acrescida

La Minuana, agora em edição revista e acrescida

Esta segunda edição de La Minuana tem caráter comemorativo e é publicada no ano em que se celebram, no Rio Grande do Sul, os quatrocentos anos das Missões Jesuíticas. A novela histórica que compõe este livro permanece inalterada em relação à edição anterior, pela qual recebeu, em 2024, o prêmio da Associação Gaúcha de Escritores. O ensaio que originalmente a acompanhava sob a forma de prólogo, no entanto, foi revisto e ampliado, passando agora a estruturar-se em novas seções, com o objetivo de aprofundar a reflexão em torno do tema central da narrativa: o desenlace das etnias pampianas no encontro com as populações colonizadoras do sul do continente. Além do prólogo original, as seções correspondem a observações variadas que foram elaboradas ao tempo da pesquisa realizada para a escrita da novela.

As relações entre etnias e parcialidades no contexto missioneiro foram complexas e atravessadas por sucessivas transformações. Desde os primeiros contatos marcados pela hostilidade, passando pelo comércio, pela conversão religiosa e pela assimilação de costumes, até os confrontos finais que envolveram guaranis e outros povos indígenas já integrados às reduções jesuíticas e franciscanas, trata-se de uma história que se modifica no tempo sem nunca dissolver por completo as diferenças culturais ancestrais.

Se a historiografia e a literatura dedicadas aos povos guarani são relativamente extensas, o mesmo não se pode dizer das etnias pampianas — em especial charruas e guenoa-minuanos. O nomadismo desses grupos retardou a estabilização do contato com religiosos e colonizadores, resultando em um conjunto reduzido de fontes sobre seus modos de vida e organização social. Esse silêncio documental, contudo, não impediu a formação de um imaginário cultural persistente em torno desses povos.

Narrada em primeira pessoa por um desertor da Guerra do Paraguai, a novela adota uma linguagem híbrida, em que se mesclam, de modo irregular, elementos do português e do espanhol. O registro aproxima-se mais do vocabulário dos criollos e paisanos do campo do que da linguagem urbana, e a narrativa transcorre quase inteiramente em campo aberto, com as cidades surgindo apenas como referências distantes. A opção dialoga com a descrição feita por Teodoro Vilardebó da linguagem dos toldos charruas, marcada pela mistura de idiomas indígenas e europeus, de caráter expansivo e pouco normatizado.

Os termos provenientes do guarani e aqueles recuperados do Códice Vilardebó (anotações que o médico Teodoro Vilardebó sistematizou entre 1841 e 1842 a partir de entrevistas a um sargento desertor e a uma indígena da etnia charrua) — notadamente sua breve coleção de vocábulos charrua — aparecem igualmente mesclados, sem uma estrutura gramatical fixa. À época evocada, seu uso já se encontrava diluído. A imprecisão linguística decorre, deste modo, tanto da ausência de registros escritos quanto das limitações inerentes a qualquer tentativa de transposição literária desse universo.

Este livro não se pretende obra de historiografia ou de antropologia, mas de ficção histórica. Volta-se ao passado e a seus vestígios menos para fixar uma interpretação do que para sugerir o caráter instável e transitório da história. Seus limites são, portanto, os do conhecimento e da imaginação do autor. Os personagens, em sua dimensão quase mítica, carregam tanto resíduos das culturas originárias quanto as marcas das experiências e dos olhares com que se cruzaram ao longo do tempo.

Na narrativa, um pequeno clã remanescente das etnias originárias do sul do Brasil busca sobreviver em um mundo em rápida transformação. Atravessado por contingentes populacionais dominantes, oriundos tanto do universo espanhol quanto do brasileiro, torna-se difícil determinar com precisão a quais parcialidades ou etnias pertenciam — se é que não resultavam justamente do encontro e da sobreposição de muitas delas, como indicam diversos registros históricos.

É a partir desses antecedentes e de suas reverberações históricas e culturais que se desenvolvem a narrativa de La Minuana e os ensaios que a acompanham, reunidos nesta segunda edição.

A 2ª ed. de La Minuana pode ser encontrada em bibliotecas públicas brasileiras e de outros países. Uma parte pequena dos seus exemplares pode ser adquirida por meio de livrarias associadas a Estante Virtual.

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