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Poesia prescritiva

Revista Parêntese, ed. 241

Por muito tempo, estudiosos da literatura e da poesia e os próprios poetas têm se dedicado a procurar respostas para a insolúvel questão da finalidade da poesia. Para que serve, afinal, a poesia? Poesia para quê?

Talvez em vista disto, alguns livros recentemente publicados tragam desde a capa a prescrição de sua utilização. É o caso do recente lançamento Feroz (Darkside, 2024), da poeta norte-americana Emily Skaja, que arrematou com o livro o Prêmio Walt Whitman da Academia dos Poetas Americanos no ano de 2018. No Brasil, o livro da jovem poeta de Illinois ganhou um subtítulo explicativo, vindo a chamar-se Feroz: poemas para corações dilacerados (tradução de Luci Collin).

Capas de Mundo dentro, Feroz e Em que a poesia faz pensar?

Mas o seu não é o único caso assim. Em 2002, a editora Sextante, do Rio de Janeiro, publicou da médica paliativista Ana Claudia Quintana Arantes o livro Mundo adentro: poesia de sobrevivência. Já no título, como se vê, consta a descrição da sua motivação criativa e também do uso que se pode fazer do seu conteúdo. Além da coleção de poemas, o livro traz apreciações da própria autora e, ao final, um convite aos leitores para que usem a escrita em versos como um “poder restaurador”, visto que a poesia, de acordo com ela, está “disponível para todo mundo”.

Tudo isso, porém, nem pode ser chamado de novidade. Ao longo do tempo, antes nos jornais e agora provavelmente no Instagram, versos poéticos tem sido veiculados no afã de colaborar com os leitores, de ajudá-los a assimilar as questões da vida e de ser um momento especial de leitura contemplativa capaz de, talvez, levá-los a insights estéticos e existenciais. A bem da verdade, desde a Antologia Palatina, ou seja, da Grécia clássica, formas breves e lancinantes vêm sendo oferecidas ao público sequioso de conforto, sabedoria, elevação espiritual, etc.

Por certo os poetas e autores que determinam a priori o uso que se pode extrair de sua criação saberiam melhor do que ninguém, portanto, a resposta àquela insolúvel questão: para que serve, afinal, a poesia? Poesia, afinal de contas, serve para quê?

Mas não se espere por respostas desse quilate em livros assim. O máximo que eles alcançam é o próprio tamanho. Seja como for, para estas pessoas a sua poesia parece necessariamente abstrair da polissemia, da dúvida e da interpretação. É como se dissessem: esta poesia serve para isto, logo, se não é isto que você procura, ela não lhe servirá. A perspectiva não poderia ser mais fatalista. Nela, não cabe um “talvez”, um “pode ser” e nem a mínima sugestão. Ali, a poesia é que foi decidido de antemão ou não é nada.

Embora seja difícil resistir ao julgamento destas propostas, é preciso fazer mais do que o poeta ou os editores agora deram para exigir aos leitores. Assim como é possível (e desejável) que se busque os poemas de sobrevivência não por uma razão de sobrevivência e não se tenha o coração dilacerado antes de conhecer os poemas de Feroz, o que fica flagrante em ambos os títulos é o precário controle que os poetas têm de sua criação. Não bastasse a interferência de pulsões inconscientes, a ideia bakhtiniana de que a poesia maior se completa na interpretação e não se resume a sua forma original é generosa mesmo com autores tão restritivos.

Desta forma, pode-se aproveitar com deleite tanto os versos livres de Emily Skaja e sua potência juvenil ou as palavras de sabedoria de Ana Claudia Arantes sem que essas prescrições determinem tudo o que se pode extrair da leitura, seja em gozo estético ou percepção intelectual. Assim foi que pelo menos eu li a ambos os livros, sem saber se era para isso mesmo que serviam, e me parece que aproveitei mais do que se seguisse o que me ordenaram.

PS: Para quem desejar, a partir daqui, aprofundar estas questões, lembro da leitura do livro do Prof. Carlos Felipe Moisés, Em quê a poesia faz pensar? A versão digital do livro é livre para download na editora da UFPB.

Poesia para quê

Não foram muitos os críticos (críticos de verdade, com carreira nisso) que comentaram comigo sobre coisas que andei escrevendo nessa última década. Afora estes poucos, recebi de alguns outros até em mais evidência um “gostei”, um “impressionante” e alguns “lindos”, embora estes, para o efeito de crítica, valham muito pouco, se é que valem algo. Mas esses poucos a quem me refiro foram muito especiais. Detiveram-se em mim muito mais que eu merecia e, aparentemente, mais que habitualmente críticos e estudiosos hoje parecem reservar à leitura, haja vista seu afinco e comparecimento nas redes sociais.

Curioso é que as duas pessoas em questão, os professores Cícero Galeno Lopes e Carlos Felipe Moisés, leram coisas diferentes. O prof. Cicero leu minha prosa, meus contos rurais, enquanto que o prof. Carlos Felipe Moisés leu minha poesia, a primeira versão dos poemas de Falso Alarde. Trágico, mas não curioso, é o fato de que meu diálogo com eles foi brutalmente interrompido pela morte de ambos, fatos que aconteceram num período relativamente curto, de poucos meses, no ano de 2017. Certamente não perdi apenas eu com sua partida, mas para mim foram muito impactantes, ainda mais porque a ambos fiquei devendo respostas que, por minha demora, não lhes chegaram nunca.

No Rio Grande do Sul, o professor Cícero estudava – como pouco se estuda hoje – a vertente literária que trata do mundo rural do interior do estado. E eu só posso restar agradecido, senão espantado, porque ele não apenas leu como entendeu o propósito daqueles contos tão sentimentais que reuni em A aposta. E notou, como eu havia notado por outros caminhos, a ausência paulatina tanto de uma aproximação temporal ao presente (e um consequente congelamento histórico), quanto do preconceito crítico e acadêmico quanto aos temas rurais e do interior, fundantes (e de repente abandonados) da literatura rio-grandense.

De outro lado, o professor Carlos Felipe Moisés tinha (como eu tenho) preferência declarada e manifesta a respeito da poesia mais subjetiva, não tão voltada ao mundo da concretude e objetividade. Além disso, tinha ele um dos estudos mais consistentes a respeito da poesia de Fernando Pessoa no Brasil, talvez comparável apenas ao da professora Leyla Perrone Moisés. Eu, como diletante admirador da obra pessoana, pude ter uma nesga da sua compreensão a respeito de Pessoa e, por felicidade empírica, muitas impressões coincidentes. No entanto, para além disso e ao contrário do que aconteceu com Cícero, a interrupção brutal de nossa correspondência pode ser continuada pela leitura de seus livros de teoria literária. O mais recente deles, este do qual quero comentar um trecho e vai a capa anexa, foi lançado em 2019 pela editora da UNESP, uma editora fabulosa mesmo, talvez hoje a melhor do Brasil em humanidades.

Eu não tinha ideia de que também compartilhava com ele um sentimento dúbio, dúbio de duvidoso, na relação entre poesia e sua “presença” virtual, nas redes sociais. Apesar de seu livro ocupar-se de outras coisas, como as questões políticas e sociais da poesia e suas peculiaridades, de alguns temas já tradicionais como a “inspiração” e a sobrevivência da poesia e suas linguagens, mas é a respeito da leitura, do momento da leitura, que ele decide fazer um voto de desconfiança em relação ao substrato de permanente diluição das redes sociais, no qual pelo ralo temporal fundem-se todas as qualidades de texto e de metáforas, conformando um todo avassalador baseado muito mais na excitação alterada do que na reflexão, muito mais em pensamentos descartáveis que em fluxos de consciência.

Se eu houvesse combinado com ele de unirmos impressões, provavelmente o resultado não seria mais coincidente, mas nunca tratamos desse assunto. Eu ainda hoje não sei dizer se sinto mais estranheza ou complacência quando vejo poesia circulando nas redes sociais. Não é que pense que não possam ou devam poetas deitar seus versos no fluxo contínuo das redes, mas sempre isso me acaba acusando a sensação de anulação do ritmo poético, de dissolução mesmo. Já não se trata mais de uma pesca sem isca, mas de outra ainda mais efêmera, sem linha, sem anzol, só mesmo uma aparência do que de fato é. E isso, todo esse potencial, acaba sempre soterrado pela digressão hostil, pelo sarcasmo e, não raro, pelo escárnio, uma espécie de anti-poesia essencial. É um convívio impossível e cada vez mais doloroso esse.

Também não é só a poesia que é agredida nesse meio ambiente, isso é evidente. A própria comunicação interpessoal acaba reduzida a um ritual simbólico elementar no qual a palavra, a palavra mesmo, é no mais das vezes dispensável. A reação emocional vale mais e é mais visível em seus likes, smiles e loves. A significação empobrece e as relações são diluídas e às vezes simplesmente perdidas no vácuo virtual. Não me espanta que tanto o professor Cícero quanto Carlos Moisés fossem pessoas não afeitas às redes. Mas gastavam e gostavam de gastar muitas e muitas palavras para se fazer entender e isso numa oferta desinteressada.

Essa “coisa”, que é uma coisa rara e ao mesmo tempo poética e prosaica vai se transformando com a internet, é isso que eu sinto, assim como a leitura paciente, demorada e que cumpria a tarefa de nos ensinar a perceber como se da primeira vez, o nunca imaginado nem sentido, como ponderava Carlos Felipe Moisés. Agora é reforço sobre reforço no próprio viés de confirmação. Like sobre like, love sobre love. Há de haver bons poetas nesse mundo assim, sem tempo, certamente há, mas vai ser muito mais difícil para eles nessa disputa interminável pelo mais novo, quando já não há mais opção entre durar e não durar se tornou para a poesia o único tempo possível.