Crítica Desbaratando Fernando Pessoa

Desbaratando Fernando Pessoa

De todos os poetas do século XX, a poucos – talvez a nenhum outro – se tenha incorporado tão bem a pecha de incompreendido quanto a Fernando Pessoa. Nele, tudo é ao mesmo tempo corriqueiro e misterioso. É corriqueiro como quem esteve agora mesmo a beber em algum café da baixa, como um transeunte a mais; é misterioso como quem perscrutou o mais difícil dos temas, o conhecimento de si mesmo, aventurando-se por ele em inúmeras tradições culturais e até mesmo no ocultismo. E ainda assim, e a despeito de tudo isso, de alguém que, ao morrer, era um desconhecido “das gentes” e poucos notaram-lhe, em vida, a dimensão do gênio. No ano de sua morte, em 1935, Miguel Torga anotava em seus diários:

Vila Nova, 3 de dezembro de 1935.

Morreu Fernando Pessoa. Mal acabei de ler a notícia, fechei a porta do consultório e meti-me por montes a cabo. Fui chorar com os pinheiros e com as fragas a morte do nosso maior poeta de hoje, que Portugal viu passar num caixão para a eternidade sem ao menos perguntar quem era.

(Miguel Torga, Diário I, página 19)

Toda essa incompreensão e desinformação que, muito por causa de sua heteronímia e também por suas investidas nos domínios do ocultismo parece às vezes até fruto de mais uma de suas maquinações, durante todo o século passado parece ter paulatinamente consolidado uma espécie de aura (e também um estereótipo) do que seria o poeta atormentado por excelência. Some-se isso tudo às escassas fotografias do poeta míope e a uma produção prolífica e complexa e têm-se então, como resultado, texto e imagem de um personagem misterioso, ainda que reconhecidamente ícone inseparável do modernismo de todo o mundo e da proximidade de seus maiores nomes.

É bem por isso também, por esse mistério todo, que um ponto a que fatalmente chega (ou emperra) todo leitor de Pessoa é o de tentar entender quem ele mesmo fora, o ser humano Pessoa; e o de entender qual a voz que ele realmente tinha, se é que tinha apenas uma ou se não era mesmo todas.

Dentre os seus mais de 130 autores fictícios e dos heterônimos mais conhecidos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares – para quem traçara mapas astrais, assinaturas individuais, biografias e a partir de quem inclusive chegava a expedir correspondências – como seria possível saber de quem realmente se trata alguém que diz a respeito de si mesmo: “Eu vejo-me e estou sem mim,/Conheço-me e não sou eu”? E mais, como saber o que é invenção do poeta e onde ele se esconde nos demais, porque afinal é do seu ortônimo “Fernando Pessoa” a célebre Autopsicografia que sugere que aquém e além de tudo, que todo esse universo possa ser mera invenção e “fingimento”?

Seja como for, se já é complicado dar a ver a “alma” de um poeta, mesmo daquele que possivelmente mais tenha mostrado de si mesmo entre todos, o certo é que Pessoa tem dificultado bastante a vida de seus críticos e biógrafos. Mesmo contemporâneos seus, como João Gaspar Simões e Adolfo Casais Monteiro, ambos fundadores da prestigiosa revista Presença, com a qual por volta de 1927 passou a colaborar regularmente, divergem em especulações sobre a poesia de Pessoa e sua despersonalização em muitos. Em carta remetida a Casais Monteiro no ano de sua morte, ele revela concordar com a interpretação que este havia feito de sua heteronímia:

O fenômeno da minha despersonalização instintiva (…) conduz necessariamente a essa definição. Sendo assim, não evoluo: VIAJO. (…) Vou mudando de personalidade, vou (aqui é que pode haver evolução) enriquecendo-me na capacidade de criar personalidades novas, novos tipos de fingir que compreendo o mundo, ou, antes, de fingir que se pode compreendê-lo.

(Carta a Casais Monteiro datada de 20-1-1935)

Já a Gaspar Simões ele diz taxativamente, em dezembro de 1931, entre uma longa explicação sobre a natureza da mesma heteronímia: “Voo outro – eis tudo. (Carta a João Gaspar Simões, datada de 11-12-1931)”. Simões, que havia escrito sobre e poesia de Pessoa durante a vida daquele, continuou mesmo depois da sua morte a preconizar o que Casais Monteiro chegou a chamar de psicologização da obra de Pessoa, ou seja, a interpretar a obra através de elementos da sua vida. Isto era, porém, justamente o que nesta mesma carta Pessoa o advertira a não fazer:

Desde que o crítico fixe, porém, que sou essencialmente poeta dramático, tem a chave da minha personalidade, no que pode interessá-lo a ele, ou a qualquer pessoa que não seja um psiquiatra, que, por hipótese, o crítico não tem que ser. Munido desta chave, ele pode abrir lentamente todas as fechaduras da minha expressão.

Isto posto, parece simples concluir que então talvez seja impossível ser fiel a uma interpretação biográfica ou abordar-se a vida do poeta de uma maneira absolutamente crível. Entretanto, não é exatamente nisto que creem o colombiano Jerónimo Pizarro e o carioca Carlos Pittella-Leite. Com o sugestivo título Como Fernando Pessoa pode mudar a sua vida – primeiras lições (Tinta da China, 2016), os pesquisadores foram buscar na aventura documental o esclarecimento de pequenas “humanidades” do poeta, como se demonstrações cabais e objetivas de que mesmo por detrás de um gênio multifacetado como Pessoa existe obviamente um ser humano tão envolvido em mazelas mundanas quanto todas as demais pessoas.

O livro é o primeiro a trazer para o Brasil novidades do universo pessoano que Pizarro tem investigado anos a fio, sendo o responsável direito ou indireto pelas mais recentes publicações dos inéditos de Pessoa. Para ele, que trabalhou diretamente no espólio do poeta, trata-se de um trabalho para várias gerações, ainda mais que há um percentual do espólio, com anotações e outros originais, que se mantêm em posse dos herdeiros. Ainda assim, Pizarro e Pittella conseguiram reunir e contextualizar muitos documentos inéditos (e inesperados) do grande poeta português e através do livro pode-se saber, por exemplo, que o mesmo autor de Mensagem e de Tabacaria foi o responsável pela criação publicitária de anúncios, entre os quais um da multinacional de refrigerantes Coca-Cola (com a frase “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”…) e fez com que o heterônimo futurista Álvaro de Campos dirigisse um Chevrolet, no que seria, de acordo com eles, o primeiro “product placement da poesia portuguesa”.

Se coisas assim fazem diferença ou não no aspecto qualitativo da poesia de Pessoa, definitivamente não é essa ideia principal de ambos os autores com a publicação, mas a de colaborar na desmistificação e também na popularização da sua obra e biografia. O livro, em tudo semelhante a um curioso almanaque, é bem mais do que isso, na verdade, porque localiza os fatos tanto na biografia quanto na repercussão literária de sua obra.

Nos outros exemplos inusitados da produção de Pessoa, convertidos no livro em aparentes lições de “como fazer”, encontram-se coisas como condutas e “regras” para reinventar o jogo de futebol, sugestões de xingamentos (com um soneto inédito exemplificativo), instruções para interpretar narizes, diversificar bibliotecas, ganhar um concurso em segundo lugar, instruções de como “mentir sinceramente” e outras tantas relativas utilidades às quais o maior gênio literário da língua portuguesa do séc. XX esmerou-se em registrar e que os autores do livro catalogaram e ilustraram na forma de uma espécie de pseudomanual.

Mas nem todas as notícias são boas para os amantes do poeta, pois através do livro pode-se saber que poemas aparentemente em tudo líricos, como o poema Liberdade, não seria senão uma mensagem cifrada dirigida ao presidente Antonio Salazar, a quem ele considerava um financista inculto e a quem dirigira uma série de poemas, como Coitadinho e outros.

Liberdade

(…)

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca…

Sem dificuldades maiores pode-se concluir, ao final do livro, de que é correta a constatação de que mesmo alguém tão inesperadamente multifacetado acaba por deixar muitos vestígios concretos ao longo da vida e que estes registros podem explicar em muito vários aspectos de sua criação e personalidade. No caso de Pessoa, muitos destes vestígios encontravam-se desconhecidos até 2006, ano em que sua obra caiu pela segunda vez em domínio público e veio a conhecimento geral a existência de mais de uma arca de inéditos em posse de herdeiros e, nela, muitos projetos inacabados, rascunhos, livros, revistas, correspondências, fotografias, versões de poemas, etc.

Assim como o de muitos outros escritores, o espólio de Pessoa esteve no centro de disputas entre herdeiros e instituições portuguesas, como a Casa Fernando Pessoa e a Biblioteca Nacional. Em 1986, por força da legislação vigente ao seu nascimento, sua obra passou ao domínio público até que, em 1993, por iniciativa de sobrinhos herdeiros (que neste meio tempo leiloaram partes importantes do espólio), uma diretiva ampliou o prazo até 2006, depois do que finalmente decaiu a proteção legal e se multiplicaram no mundo inteiro edições dispersas e incompletas de sua obra.

Se confere com a realidade (e isso pode ser comparado pela leitura de sua correspondência) que o próprio Pessoa procurou algumas vezes esclarecer a natureza da heteronímia e de seus inúmeros personagens, por outro lado a extensão de sua criatividade competiu no que poderia dizer-se como uma espécie de desentendimento entre vida e obra. Isso a ponto de suscitar diversas interpretações, algumas inclusive com inspiração na psicanálise, como as realizadas pela professora e crítica literária Leyla Perrone-Moisés. Dado, porém, que ele mesmo refletiu sobre essa dicotomia entre “ser” e “sentir”, essa compulsão gnóstica e existencial aparece ao longo de toda a sua obra, desde as mais singelas quadras populares até às extensas odes de Álvaro de Campos ou nos seus mais herméticos poemas dramáticos. Como se trata do “proprietário” de um dom rítmico incomum e vocabulário inesgotável, é mesmo uma revelação (no sentido investigativo do termo) o aparecimento do indivíduo entre os seus vários “eus”. É certo que isto não poderia ser feito, sem dúvida, a não ser através da imersão na sua pessoalidade, mesmo que isto possa parecer mero trocadilho.

Talvez Pessoa seja mesmo um poeta incontável, incontabilizável, nem mais nem menos do que isso. Mas o livro de Pizarro e Pittella, mesmo que parecendo um álbum de recortes (e, pelo título, em suas “primeiras lições”), acaba por colaborar e muito em tornar o Pessoa real em alguém finalmente menos misterioso e mais cognoscível. Certamente isso não o diminui em nada em relação a outras abordagens biográficas, pelo contrário. Através dos seus achados cada vez mais fica notável que seu gênio era tamanho a ponto de “sentir” e “fazer” com a mesma intensidade e profundidade, ainda que travestido em distintas formas de dizer.

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Dois filmes produzidos e lançados recentemente retomam um tema ao que tudo indica muito caro à humanidade: o desejo por vingar-se e a perpetração da vingança. Relatos Salvajes e Dracula Untold são, cada um a seu modo, novos blocos do edifício aparentemente infinito da exaltação desse sentimento que parece ser um dos lastros fundamentais da psique humana, ao lado de outros que poderiam ser tomados como mais nobres, caso existisse uma hierarquia organizada para os sentimentos.

A ideia de perpetrar-se a vingança é antiga e tem vigorado inclusive na forma de lei em sociedades mais ou menos primitivas e mais ou menos civilizadas, de outros e também destes tempos. Assim como na longínqua Babilônia do imperador Hamurabi, há culturas que ainda hoje autorizam que vítimas de crimes “devolvam” a “ofensa” na mesma moeda, sendo possível até que assistam ou participem da “reparação” máxima: a pena de morte do outro. Tudo isso parece esdrúxulo e aterrador, mas pode estar acontecendo neste exato instante no Irã mais próximo a você ou até mesmo em lugares supostamente mais civilizados, como o estado do Texas, nos Estados Unidos da América, no qual mais de 500 pessoas já perderam a vida desde a instituição da injeção letal, segundo dados da Anistia Internacional.

Que o cinema parece querer às vezes funcionar como escape à trivialidade e miserabilidade cotidianas não é nenhuma novidade; muitas vezes seus argumentos são projeções e sublimações evidentes de sentimentos comuns às pessoas os quais a vida corriqueira nem sempre pode abordar, isso por uma questão de acordo social, e que ali estão transformados em produto cultural. Minha primeira dúvida, neste caso, reside em procurar entender se as pessoas que se regozijaram com as vinganças perpetradas nestes dois filmes e na série interminável de outros filmes sobre a vingança (o site Cinema 10 elenca uma lista de 219 filmes sobre vingança) estão ali realmente para sublimar esse sentimento dado como dos mais vis, digno de figurar entre os pecados capitais, sob o pecado “ira”, ou se são por eles conduzidas a isso. Minha segunda dúvida seria entender se esse sentimento pode restar sublimado ou não ao final da exibição.

As seis histórias curtas de Relatos Salvajes, por flertar com o tragicômico, aproximam muito os espectadores das situações narradas. São situações envolventes mostrando o ser humano corriqueiro no apogeu do uso da sua flutuação moral. Os desfechos insólitos e absurdos, por outro lado, transformam as histórias em alegorias, livrando-as da dureza da realidade. O filme de Damián Szifron, produzido por Quentin Tarantino (dos igualmente vingativos Kill Bill, Django Unchained e Inglourious Basterds), aposta alto na sublimação pelo absurdo e, tomando-se em conta o imenso sucesso de bilheteria, parece que acertou muito bem no alvo proposto, embora nenhum dos desfechos possa ser descartado ou dado totalmente como inverossímil.

A dúvida em saber se aqueles que se divertiram bastante, como eu mesmo, das situações narradas por Szifron pelo menos adiaram suas intenções e anseios vingativos mais íntimos e velados ainda assim permanecerá em aberto. Talvez seja mesmo impossível saber o quanto a linguagem cinematográfica é capaz de conduzir e elaborar o pensamento individual, se é que ela pode pretender ser em si mesma mais do que mais uma fonte, entre tantas, de lazer e prazer intelectual. É certo que muitos cineastas não gostariam que sua obra fosse reduzida a mero objeto de consumo, disso tenho certeza absoluta, mas nem todos pensam assim e, dessa forma, o cinema se mantém atingindo muitas e muitas pessoas, ao contrário de outras artes e produções culturais mais elitizadas.

Dracula Untold é, por sua vez, um filme de ação projetado para ser exatamente um objeto de consumo, na esteira de uma extensa fila recente de filmes sobre vampiros, sobre um roteiro que busca as origens do Drácula de Bram Stoker, mas não tem para com este nenhum compromisso. O tom é épico e busca recriar a atmosfera bélica entre romenos e turcos, quando Vlad Tepes, o empalador, ajudou a Europa a deter o avanço do império Otomano, no séc. XIV, isso de acordo com os livros de História.

No filme, Vlad busca forças sobrenaturais para defender seu povo e executar sua vingança pessoal e as encontra através de uma criatura amaldiçoada, um vampiro com remotas origens greco-romanas. Mesmo sabendo do risco de tornar-se ele mesmo um outro vampiro, no filme Vlad não vê outra alternativa e une em si mesmo o desejo de vingança política e pessoal, sacrificando sua própria humanidade. A vingança para Vlad parece não ser uma questão de escolha, mas sua sede insaciável por revanche converte-se como em uma espécie de pensamento obsessivo, não muito distinto daquele que embota a razoabilidade das pessoas que desejam aniquilar a contrariedade e costumam clamar pela morte alheia como tábua de salvação de alguns males mundanos, sejam de ordem política ou pessoal.

Entre a tolerância e a vingança, até mesmo no cinema a distância parece ser descomunal. Se é possível encontrar listas imensas de filmes que enfocam a vingança e lembrar qualquer um destes títulos não exige grande esforço, a tolerância enquanto argumento cinematográfico parece não viver seus melhores dias. Na internet, onde há listas e rankings para praticamente qualquer assunto, não só não é nada fácil encontrar listas evocativas em relação à tolerância como nas redes sociais as fanpages destinadas à vingança e suas formas e fórmulas são extremamente populares, ao passo em que as que tratam da tolerância e de suas variantes quase nem existem; e, quando existem, costumam ser desérticas em termos de seguidores e compartilhamento.

O que isso prova? Não tenho a menor ideia. O fato inegável é que as pessoas parecem comprazer-se mais em testemunhar atos vingativos do que em demonstrações do que se poderia compreender como elementos de uma “cultura de paz”. Uma outra explicação seria de que o desejo de vingança poderia ser um tipo de reação natural frente ao sentimento de injustiça enquanto que a tolerância implicaria em algum investimento cultural e moral, notadamente em baixa nestes tempos em que a linguagem da violência parece prosperar e manifestar-se com bastante veemência.

Também há que se considerar que a tolerância impõe por ela mesma um tipo de paradoxo, dado que exigiria sua aplicação inclusive no que se refere às manifestações do seu anverso, a intolerância, porque ela mesma não poderia ter um valor seletivo senão fracassaria em sua própria formulação. De outro modo a vingança parece mesmo ser um “prato” que, mesmo frio, cumpriria a função de alimentar e saciar aquele que é vingado. Talvez não seja mesmo possível concluir se o cinema requenta a fórmula vingativa porque ela é mesmo psiquicamente desejada ou se é ele que a oferece como prato preferencial, colaborando para um público adicto e ainda mais crente nas soluções belicosas para os impasses morais de toda a ordem. Seja como for, no olho por olho e no dente por dente, pelo menos no cinema a “cultura de paz” parece estar levando a pior. No mundo real talvez se dê o mesmo.

Todos os outros silênciosTodos os outros silêncios

Publicado também na Especiaria.

Não com todos, mas com alguns, raros, a leitura de poesia me traz certa sensação de invasão de privacidade. O poeta confessional decerto é uma pessoa que previamente consente com isso, no entanto a privacidade a que me refiro é mais intrincada do que aquela que dá a ver uma rotina, trajetos, modos, gestos; quero dizer da privacidade do pensamento, este laboratório onde a vida se transforma algumas vezes — não muitas, é verdade —  em boa poesia.

Os tempos de hoje são indiscretos. Pouco ou nada se permite de intimidade ao poeta. Muito pelo contrário, a ausência de certa autoevidenciação repercute quase sempre em um correspondente apagamento público. De outro modo, o excesso de evidência repercute igualmente num apagamento, mas então numa forma de dessubjetivação, isto é, por anulação consentida do eu em prol do eu-lírico. Ao mesmo tempo, opera-se uma forma de descompensação entre a criação e a atenção alheias, colando-se ao artista uma película com vida própria e aquilo, externalizado a ele, passa a animar uma performance, raras vezes uma poética. Com a poesia confessional, se dá exatamente o oposto disto. A exposição faz o artista desaparecer e só então pode surgir a pessoa, mas sem uma desassociação, porque esse surgimento se dá ante ao outro, e não antes dele.

Eu ainda estou tentando entender se este livro que tenho em mãos é, de fato, um exemplo de poesia confessional ou não. Seja como for, é um livro que abre uma porta para que se conheça da pessoa esse objeto inapreensível: o seu modo de pensar e de ser.

Todos os outros silêncios, de Lucia Fonseca, é um livro de experiência. Em muitos aspectos, reflexões sobre acontecimentos e sensações de uma vida que são trazidos à superfície do papel pela delicada recomposição da própria vida. São situações no mais das vezes silenciosas, quase ausentes, e para as quais a poesia serve de espécie de elemento de fixação. Não se trata do prosaico ou do casual, mas do narrativo permeado de análise e reflexão, do lírico que emerge do distanciamento de cenas e experiências. Estas poderiam permanecer em silêncio, mas a poeta cede ao poema e permite que sejam vistas sob nova perspectiva pelos leitores. Isto é mesmo uma oportunidade, espécie de um presente. É como eu penso.

Removido o invólucro da poesia, o livro e seus anteparos, de imediato se vê que se está diante de um “eu” dono de sua linguagem, imperativo em sua poética. Em Teia, com uma epígrafe nebulosamente sugestiva de Wislawa Szymborska, a poeta se apresenta mínima, como um detalhe da própria poesia:

Teia

”Sou quem sou,
Inconcebível acaso
como todos os acasos.”

Wislawa Szymborska

Sou quem sou
por obra de deusas e de genes.
Sou quem sou
pelos meus antepassados
pelos acontecimentos.

Se um único gene falhasse
nessa infinita corrente
se da teia que me prende
outras malhas se soltassem

se eu escapasse de mim
me esgueirasse do destino
pelas falhas de algum ontem
se de mim me derramasse;
seria talvez um Outro.
Talvez mancha no assoalho.

Quanto mais se avance no livro, mais o objeto em papel vai se desvanecendo, como um fruto que se descarna. Primeiro, na poesia elegíaca da amorosa seção que ela dedicou ao marido Gabriel, depois em poemas até certo ponto nostálgicos que conversam com a infância, a família e amigos de uma vida. Nestes, a poeta, cada vez mais ciente da própria pessoa, confessa o espanto da vida para uma incógnita Regina, a quem dedica o poema Quando:

Quando

Para Regina

Tenho setenta e sete anos.
Desenho, pinto
mas já não escrevo tão bem.
Há muito, perdi meus pais, meu irmão
perdi meu marido.
Tenho três filhos e três netos.

Quando fico triste
lembrando os ausentes
abro a gaveta da copa:
panos de bandeja cercados de renda
pequenas toalhas de linho bordadas.
Fico olhando muito tempo para eles
admirada
como diante de anjos.

Mais adiante há uma sorte de poemas que são como retratos, que se valem da experiência estética de outros artistas e obras, como a pintura de Paul Klee e a literatura de Fernando Pessoa, Proust, Borges e Clarice Lispector. São referências, é verdade, mas que transfiguram-se em sua poesia menos como homenagem e mais como um retratismo. Poemas cuja narratividade que são quase prosas-em-poema, mas dos quais nunca se ausenta o olhar lírico e afetivo da poeta, como se pode ver em Pose para retrato:

Pose para retrato

A moça e seus filhos parados e sérios diantes das lentes
cercados de céu.
Seus olhos miram planetas, constelações, galáxias.
Mas eles não sabem nada
não sabem nada.
Como nós, como todos nós.

Quase ao final do livro, na seção intitulada Canções, a paisagem natural desdobra-se como um diorama interno ao livro, onde, talvez, resida o núcleo de sua atenção manifestando-se num olhar afetivo sobre o mundo e suas coisas. É onde a poeta diz ainda mais de si mesma. Desta seção, não convém destacar um poema a fim de não prejudicar a integridade da obra. É preciso cercar-se de cuidado, pois o nível de exposição é tamanho que, fragmentado, pareceria afetar a apreensão dessa poesia terna e ao mesmo tempo nada autocomiserativa que Lucia produz em relação a si mesma, no que talvez seja o ponto mais alto do livro, pelo menos no seu viés mais confessional.

Ao final da leitura de Todos os outros silêncios, não pude deixar de me perguntar a respeito de como uma poeta de tal consistência havia me passado em brancas nuvens por tanto tempo. Para quem se pretende um leitor atento ao gênero, me parece criminoso, pois este é o primeiro livro de sua autoria que conheci e sua trajetória vem ativa pelo menos desde os anos 80.

Trato de investigar a situação e não demoro a compreendê-la. Já um poeta que se faz notar pela sua qualidade não encontra, infelizmente, o mesmo reconhecimento que se dedica, na cultura de consumo visual destes tempos, a quem se coloca permanentemente em evidência. Não se trata de julgar a situação, apenas de constatá-la. O que se pode julgar, no entanto, é a incapacidade persistente da percepção crítica em relação aos poetas contemporâneos e sua visada de vitrine, sem a menor profundidade. No entanto, se as referências quanto ao seu trabalho são restritas, a obra felizmente é vasta e irei com certeza dela me ocupar, com bom proveito, ainda por muito tempo dos seus demais livros, que indesculpavelmente ignorava.


Lucia Fonseca é autora de pelo menos dez livros de literatura. Ao mesmo tempo deste Todos os outros silêncios, lançou o livro de contos A menina que me visita, ambos pela 7Letras. No website Vestígios (https://www.vestigios.net.br) disponibiliza alguns de seus livros para donwload, além de uma generosa seleção de contos e poemas.