Artigos,Crítica A deficiência como fronteira do contrato social em Martha Nussbaum

A deficiência como fronteira do contrato social em Martha Nussbaum

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Não conheço muitos pensadores contemporâneos, principalmente na filosofia, que tenham se debruçado diretamente sobre questões de interesse às pessoas com deficiência. De forma indireta, há muitos que sem dúvida abordam temas de interesse seja no que diz respeito à vida social quanto às condições existenciais e morais dos indivíduos, no entanto me parece ser uma experiência um tanto incomum encontrar quem os aborde objetivamente e, mais raro ainda, quem apresente uma compreensão abrangente e profunda de seus problemas e não um receituário de soluções consertativas. Isso é o que há de melhor no capítulo que a filósofa norte-americana Martha Nussbaum dedicou às pessoas com deficiência no seu “Fronteiras da justiça: deficiência, nacionalidade, pertencimento à espécie”, publicado no Brasil em 2013, pela Martins Fontes.

Essa ausência, eu não diria exclusão, parece ter mais uma causalidade histórica do que propriamente teórica. A essa altura do séc. XXI, não é segredo para mais ninguém que até o período da Segunda Guerra Mundial praticamente todas as questões relativas às deficiências, especialmente as intelectuais (sobre as quais ela mais se debruça), encontravam-se confinadas ao interesse da medicina e de investigações e intervenções muito tímidas da psicologia, campo que se ampliou e diversificou em muitas ramificações desde então. Seja como for, é pacífico afirmar que até então o interesse científico para com a deficiência intelectual era predominantemente clínico, naquilo que nos estudos da deficiência ficou conhecido como o “modelo médico da deficiência”.

Nussbaum, no entanto, se interessa menos pelos aspectos clínicos da deficiência do que pela sua emergência na esfera pública do séc. XX e em atualizar os estudos contratualistas, principalmente os de John Rawls1, de quem foi aluna em Harvard. No livro, ela esclarece também que muito do seu interesse decorre de uma experiência familiar. Um sobrinho seu, Arthur, diagnosticado com as síndromes de Asperger e de Tourette, percorre o capítulo do livro e ela muitas vezes compara detalhes de sua experiência de vida a de outras pessoas com deficiência, principalmente Sasha, uma jovem com paralisia cerebral grave e profundamente dependente, e Jamie, um garoto que nasceu com a síndrome de Down e cuja vida vem sendo relatada em diversos livros escritos pelo seu pai, o crítico literário Michel Berubé. É, portanto, do confronto de vidas reais às teorias de filosofia política que ela analisa a problemática, tendo como lastro a verificação dos marcos legais norte-americanos e a emergência da cultura inclusiva mundo afora.

Antes de ir um pouco mais além ao que diz respeito às suas ideias propriamente ditas, acho importante dizer que se trata de um livro muito acessível no que se refere ao cuidado com a linguagem e a apresentação dos conceitos políticos empregados. Sem dúvida, é um cuidado pessoal da autora que, como intelectual pública, é muito presente no debate público nos EUA e em todo o mundo, publicando regularmente na imprensa e dialogando com dramas sensíveis do mundo contemporâneo, tais como as questões feministas, globalização, equidade e justiça social.  Junto a Amartya Sen, o “inventor” do índice de desenvolvimento humano, Martha fundou em 2004 a Associação para o Desenvolvimento e Capacidade Humanos. Em dezenas de artigos e livros, ela vem desenvolvendo o que chama de a “teoria das capacidades”, postulado filosófico que, em linhas gerais, pretende obter o desenvolvimento de condições civis que permitam universalizar o conceito de dignidade humana onde é mais negligenciado. Não se trata, portanto, de uma proposição teórica, mas de uma que é dirigida à resolução prática dos problemas que afetam as democracias contemporâneas em todo o mundo.

Como já dito, neste livro Nussbaum parte de um tempo menos remoto àquele tratado na filosofia de Michel Foucault ou Gilles Deleuze, o de institucionalização e controle do espaço público. Foucault2, principalmente em “História da loucura”, analisa exaustivamente os mecanismos de exclusão na modernidade e como isso vem desaguar nos principais conflitos mundiais do século XX, com a naturalização do racismo e eugenismo como crenças morais distintivas. Não é que Nussbaum não os comente ou menospreze, apenas que seu interesse opera muito mais na própria composição das sociedades livres e no contrato social moderno.

A inclusão da pessoa com deficiência intelectual na sociedade tem uma história muito breve, ainda. Segundo Nussbaum, os contratualistas clássicos, mesmo Rawls, que faleceu em 2002, fundamentam o contrato social na capacidade que as pessoas têm em cooperar em condições de igualdade visando a vantagem mútua. Nessa perspectiva da teoria da justiça, uma tênue linha de continuidade leva às situações de desigualdade a noção de cuidado especial e altruísmo e, em seu centro, a ideia kantiana do indivíduo como um fim em si mesmo. Nussbaum, além de esmiuçar previamente as teorias do contrato social e considerar que nem sempre oferecem respostas satisfatórias em relação ao que denomina por “fronteiras”, ainda assim considera que é preciso oferecer uma alternativa que nos alce para o tempo futuro. Para tanto, ela se apoia na sua teoria das capacidades e num consenso ampliado de esfera pública no qual as diversidades estejam garantidas, as condições de igualdade permanentemente impulsionadas e a dignidade humana sempre preservada.

Sobre este tripé, Nussbaum vai dialogando com os pensadores modernos sem nunca deixar de observar a realidade, o que a distancia de qualquer visão idealista de justiça. A forma com que avalia o mundo é através das suas instituições fundamentais sociais: a justiça, a assistência e a educação. Apesar de neste livro abordar a educação apenas no que se refere às formas de atendimento as pessoas com deficiência e sua conformação formal e legal, Em outros livros, Nussbaum tem desenvolvido suas preocupações quanto às competências lucrativas e o que chama de educação para as capacidades compreensivas. Num dos seus outros livros traduzidos no Brasil, “Sem fins lucrativos”, ela examina detalhadamente o problema do abandono dos valores humanitários na educação ocidental.

Nussbaum reflete permanentemente sobre o contratualismo e sua ideia de inclusão passa justamente por um esforço em garantir o valor da busca pela igualdade e de uma atenção às dificuldades individuais apesar dos flagrantes desequilíbrios sociais e econômicos. Em seu enfoque das capacidades, o ser humano não pode ser instrumento do outro e sua ideia supera o simples reconhecimento3 através de uma ideia de inclusão como superação da estigmatização4 e obtenção e manutenção do autorrespeito moral de cada pessoa.

Em relação à deficiência, Nussbaum dedica-se especialmente a relacionar o que chama de “ética do cuidado” com o conceito de desenvolvimento de capacidades. Mesmo que o termo remeta ao que se refere ao preconceito contra pessoas com deficiência, o “capacitismo”, sua concepção de “capacidade” é inteiramente oposta ao privilégio de uma capacidade sobre a outra ou de qualquer discriminação competitiva ou qualitativa.

O que ela não deixa de considerar nem menospreza é o fato de que o cuidado é real e dispende recursos humanos, familiares e sociais. Convencer a sociedade da importância de investir na inclusão é, em sua visão, uma forma de convencê-la de que precisa melhorar essencialmente e nas relações humanas amplo senso. Detendo-se longamente em valorizar as condições de vida, assistenciais e educacionais, Nussbaum nunca generaliza as formas de atender as pessoas. Com um princípio em tudo semelhante ao de Ortega y Gasset5 em “O homem e sua circunstância”, ela não propõe um modelo de atenção, mas que a atenção seja a adequada a cada indivíduo e que o social colabore com ele, e não a oposta readequação.

Como crítica do funcionalismo e argumentando contra a ditadura dos “standards”, seu enfoque é o do autorrespeito e da dignidade. No que se refere à escolarização – e para tanto ela se vale dos exemplos já mencionados – critica situações que rompam com a equidade de direitos e a preservação da dignidade. Refutando o procedimentalismo jurídico, Nussbaum insiste que a justiça não se esgota na lei e nem no acesso à justiça, mas na experiência civil, onde o direito ao cuidado e a noção de autorrespeito deveriam preponderar ao direito formal e às convenções sociais. Nesse ponto, ela defende que a educação deva ser heterogênea e o estado responsável por garantir a cada um o que lhe é necessário para conviver em condições de igualdade com os demais. A preocupação com igualdade, ou equidade, aliás, é central tanto no seu pensamento como em todo o contratualismo rawlsiano.

Os elementos ou requisitos fundamentais de uma sociedade menos excludente e desigual são, para Martha, o apoio mútuo, a cooperação e a ideia de uma democracia pluralista. Citando exemplos de cidadãos norte-americanos que obtiveram da justiça daquele país as garantias de acesso adequado à saúde e educação, ela avança da seara dos direitos formais ao apoio e consideração das diversas habilidades e critica duramente o sistema educacional norte-americano, segundo ela quase todo voltado ao mercado competitivo e valores de consumo, assim como a decadência no financiamento das escolas públicas.

Sobre assistência, Nussbaum dedica um longo arrazoado sobre a a vida real das pessoas com deficiência, seus cuidadores e as dificuldades legais sobre acesso à renda e serviços acessíveis e de qualidade. Centrando-se muito na questão das mulheres, como feminista que é, Nussbaum denuncia severamente as sociedades que sobrecarregam sem desonerar de nenhuma forma famílias de baixa renda e sustentadas pelo trabalho feminino. Nesse ponto especificamente, volta a fortalecer a ideia de compromisso social coletivo em torno às dificuldades e custos reais e na necessidade de um contrato social que preveja a diversidade de condições sem, no entanto, deixar de fomentar o desenvolvimento social, econômico e cultural de cada pessoa.

Para além das questões sobre deficiência, Nussbaum ainda aborda em seu livro duas outras situações bastante complexas. Trata-se das desigualdades globais (e consensos internacionais) e, por fim, os direitos que atendem aos animais não humanos. Como filósofa interessada especialmente na ética e na justiça global, Nussbaum se vê muito a vontade com o legado de Rawls e devota à educação dos sentimentos o capítulo final de seu livro. Mesmo considerando que a demanda por melhorar as condições objetivas do mundo passa necessariamente por melhorar as condições subjetivas, seu livro é um reforço considerável nas esperanças de quem propõe o ser humano mais como agente da benevolência do que do do egoísmo. Para ela, as fronteiras da justiça continuam a requerer reflexão e novas soluções. E a curiosidade intelectual e a coragem imaginativa benevolente, como propõe, poderão continuar a nos encorajar contra o cinismo e o desespero que às vezes bate à porta.

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1 Rawls, John. Uma teoria da justiça. São Paulo: Martins Fontes, 2016. 816 p.

2 Foucault, Michel. História da loucura. São Paulo: Perspectiva, 2014. 560 p.

3 Honneth, Axel. A luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais. São Paulo: Editora 34, 2009. 291 p.

4 Goffman, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. 158 p.

5 Ortega y Gasset, J. El Quijote en la escuela. El espectador III. Obras completas. 3ª reimpresión. v. II. Madrid: Alianza, 1998.

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IHU on-line

Foi a leitura de um breve trecho do recente Uma história da literatura brasileira contemporânea (Todavia, 2026), de Regina Dalcastagnè, que há pouco me fez retomar a antiga impressão de que a história literária do Rio Grande do Sul pode não refletir tantos traços, como queremos crer, da experiência das Missões Jesuíticas Guaranis e da presença indígena. Ao examinar a ficção histórica produzida no estado, cuja diversidade e amplitude atribui ao “espaço de maior fricção entre colonizadores portugueses e espanhóis”, em seu livro a professora organiza esse conjunto de obras em três grandes eixos: a presença dos colonos europeus e a nostalgia da ocupação territorial, os conflitos urbanos e migratórios e, por fim, os embates armados, guerras e revoluções. Embora mencione a extensão da obra de Érico Veríssimo, sua síntese da ficção histórica gaúcha praticamente não contempla os quase dois séculos da experiência missioneira nem a presença indígena, que passam despercebidos no breve panorama dedicado aos livros e autores destacados.

Da leitura do parágrafo resulta uma sensação (não inédita) de estranhamento. Na historiografia literária rio-grandense, as Missões e o elemento indígena raramente comparecem em sua formação, cuja origem costuma ser situada nos limites da Revolução Farroupilha. A sensação agora se amplifica porque ocorre justamente no ano em que se comemoram os 400 anos das reduções jesuíticas, quando o tema tem sido objeto de intenso investimento publicitário no Rio Grande do Sul, servindo de atrativo para a realização de eventos de toda ordem, em uma iniciativa de fomento promovida pelo governo do Estado. Cumpre dizer que, apesar dessa visibilidade simbólica, pouco dessa mobilização foi incialmente projetada para repercutir nas condições de vida das comunidades indígenas, fato que motivou inclusive a intervenção do Ministério Público Federal no sentido de restabelecer a participação das comunidades e alterar a destinação dos recursos. A sensação de descompasso, portanto, não se limita à literatura e tampouco é uma novidade: a assimilação da experiência missioneira e da presença indígena no Rio Grande do Sul de um modo geral é permeada por um histórico de conflitos, disputas e impasses.

Do ponto de vista da memória cultural, a sensação é de um estranhamento ainda maior: ao menos por um momento, parece ainda prevalecer a ideia de que a história das Missões não nos pertence integralmente e diz mais respeito aos domínios espanhóis que luso-brasileiros. Reitero o “ainda” porque, em torno desse antecedente, erigiu-se e predominou por longo tempo a estranha ideia de uma província nascida politicamente apenas nos limiares do séc. XIX, precisamente em 1801, data em que a região foi definitivamente incorporada aos domínios luso-brasileiros após um processo de violência e expropriação dos povos originários.

A ideia fundamentou grande parte da historiografia rio-grandense produzida ao longo do séc. XX, estimulando um intenso debate público que, em muitos momentos, colocou em oposição intelectuais divergentes e governantes. No que diz respeito à literatura, isso me ocorreu especialmente pela ausência, no trecho mencionado, de qualquer referência às obras literárias dedicadas às Missões e à presença indígena — e ainda mais porque essa ausência não corresponde inteiramente à realidade. Há, pelo menos, dois romances que, além de expressivo sucesso editorial, desempenharam papel relevante nas discussões culturais rio-grandenses: trata-se de Tiaraju (Livraria do Globo, 1948), de Manoelito de Ornellas e Sepé Tiaraju: romance dos sete povos das Missões (Sulina, 1978), escrito por Alcy Cheuiche.

Ainda que não figure como um dos troncos da ficção histórica propostos pela professora Delcastagné, a história missioneira tem sido pródiga na proliferação literária. É uma produção, aliás, notavelmente diversa e compreende desde romances e novelas históricos até a poesia e o cancioneiro popular. No centro dessa intensa representação, localiza-se o guarani Sepé Tiaraju, santo popular desde o registro de João Simões Lopes Neto e figura ao mesmo tempo humana e mítica que encarnou a indianização da cultura popular como um ícone atrativo e identitário. Para muitos pesquisadores, como Eliana Inge Pristch e Ceres Karam Brum, foi justamente a literatura que conformou o mito, transformou a violência da morte de Sepé em martírio e o consolidou na memória e ancestralidade cultural dos gaúchos.

Se, contemporaneamente, o debate em torno das vertentes lusitanista e hispanista da história política e cultural do Rio Grande do Sul pode ser dado como superado, o mesmo não se pode dizer do legado missioneiro, que permanece como um campo simbólico aberto para os debates culturais, exploração turística e disputas políticas. Na literatura, vale dizer que isso se deve menos às referências ao passado do que à produção contemporânea de autoria indígena. Obras de autores como Luciana Vãngri Kaingang e Gerônimo Morinico Franco, por exemplo, vêm expressando, com crescente autonomia, os valores culturais e as questões próprias das comunidades, estabelecendo novas formas de continuidade com o passado colonial. Além da literatura, a reflexão sobre essas relações também está presente em diversas produções acadêmicas e realizações culturais, acompanhando o processo contemporâneo de afirmação da autoria indígena e sua atuação intelectual.

No que se refere ao passado, é preciso lembrar que as relações dos escritores com a representação dos indígenas estiveram, por muito tempo, influenciadas por um processo de racialização e subalternização que acabou por situar a identidade e os antecedentes indígenas, simultaneamente, no centro e à margem dos processos culturais. Há uma espécie de estigmatização que convive com o culto heroico. Em um processo identitário marcado pela indefinição da nacionalidade, pelo desejo de distinção em relação ao mundo hispânico, pela natureza da miscigenação e pela caracterização e permanência da memória cultural, impasses recentes acabam por mimetizar os antigos: velhos preconceitos são reciclados e traduzidos em formas de apagamento tanto no campo cultural quanto no político.

No terreno do imaginário, do qual a literatura ainda pode exercer um poder gerador de sentidos, a situação é tênue como são as atuais condições de vida dos descendentes dos povos indígenas. Mobilizar a atenção das pessoas cada vez mais conectadas ao mundo global para as particularidades locais exige aumentar um pouco o distanciamento para com o presente, e melhor ver o passado. Certo é que a literatura pode servir a esse propósito e a constatação da anulação da ausência dos indígenas no campo literário pode servir de termômetro cultural. Apesar disso, como escreveu certa vez o recém-falecido historiador italiano Carlo Ginzburg, não devemos exigir verossimilhança da literatura, mas aceitar a sutileza do seu suporte. O mais simples será sempre banalizarmos o conhecimento do passado e suspendermos o diálogo que podemos estabelecer com ele, mas à literatura é suficiente o reconhecimento do seu potencial de estranhamento. Quando nos diz respeito, estranhar a ausência desse reconhecimento torna-se também uma questão de sobrevivência.

Uma resenha tardia de ‘O filho eterno’Uma resenha tardia de ‘O filho eterno’

Com fortuna crítica comparável à fortuna obtida em prêmios e vendas, poucos romances como O filho eterno, de Cristovão Tezza, oferecem uma perspectiva tão abrangente a respeito de um conteúdo tantas vezes dramatizado como o da geração que viveu os estertores da ditadura militar brasileira (1964-1985), a democratização e a mentalidade forjada na transição do Brasil subitamente moderno dos anos de Juscelino, os anos mais caóticos e obscuros do período do “milagre” brasileiro chegando ao triunfo e ao conjunto de esperanças populares depositadas na Nova República (1988). De modo muito particular, e porque Tezza é um autor que pensa a si próprio enquanto crítico, O filho eterno toma de um enredo complexo, obtido no plano psíquico, e o transfere exemplarmente para o plano social e crítico.

Ao contrário do que sugere o título, o romance de Tezza, que se inicia em meio à malfadada Copa do Mundo de 1982, tem como personagem central muito mais a figura de um pai e seu psiquismo do que exatamente da condição do filho. Ambos coincidentes com a vida pessoal de Tezza que, assim como seu protagonista anônimo, tem um filho (no livro, Felipe, o único personagem com nome próprio) que nasceu com a alteração genética que determina a síndrome de Down. Sem nunca ocultar o fundo autobiográfico do romance, mas recriado com o distanciamento de quem atravessou uma jornada pessoal bastante tormentosa, o enredo de O filho eterno detrata o drama de consciência de uma geração contestadora e “contracultural” ao defrontar-se com o impasse da diferença in vivo.

Para além do inesperado e dos temores que o nascimento de Felipe e sua condição inata instalam na vida mental do protagonista, um escritor em formação, Tezza irá conduzi-lo ao que talvez seja o maior drama pessoal de todas as pessoas que geram (e recebem) um filho com deficiência intelectual: a aceitação afetiva.

“Ninguém está preparado para um primeiro filho, ele tenta pensar, defensivo, ainda mais um filho assim, algo que ele simplesmente não consegue transformar em filho.” (p. 32)

Na frase acima e em outras nas quais aparece ainda mais evidente o pânico existencial de um adulto (e escritor) em formação diante de uma situação irreversível, a moralidade de toda uma geração que se acreditava o motor de um novo tempo mostra-se numa fragilidade e ambiguidade moral que, se não confere diretamente com o estado de consciência política, descortinam a fragilidade do discurso redentor e revolucionário predominante principalmente na juventude formada em meio à redemocratização brasileira. Valendo-se da experiência pessoal, “o pai” de Tezza representa, de certo modo, um traidor do sonho geracional, antevendo na sua própria sorte a fragilidade das ambições morais e políticas da qual é também, na condição de escritor, um observador privilegiado e intérprete.

Por meio do distanciamento obtido com um narrador onisciente, Tezza observa e conduz esse pai de uma maneira muitas vezes cruel, sem qualquer condescendência e, em que pese o caráter autobiográfico, O filho eterno não oferece uma visão edulcorada ou vale-se do clichê “superacionista”, para finalizar o romance como uma ode redentora à personagem do pai. Longe disso. O filho eterno está muito mais para a denúncia de uma mentalidade geracional do que a particularização de um drama envolvendo reflexões culturais a respeito da condição de deficiência do filho. Prova disso é que a aparição dos demais personagens, mesmo o filho e a mãe, são incidentais. No decurso do seu amadurecimento pessoal, a aceitação ocorre mediante a humilhação daquela prévia arrogância paterna – eis o aspecto mais duro de todo o romance e, certamente, a razão para sua consagração para além da qualidade literária em si mesma, dado que “aquele pai” denuncia o caráter e a fragilidade da ambição humana em estar para as condições inerentes à vida desde um lugar privilegiado que, em efetivo, não existe para ninguém.