Crítica Uma resenha tardia de ‘O filho eterno’

Uma resenha tardia de ‘O filho eterno’

Com fortuna crítica comparável à fortuna obtida em prêmios e vendas, poucos romances como O filho eterno, de Cristovão Tezza, oferecem uma perspectiva tão abrangente a respeito de um conteúdo tantas vezes dramatizado como o da geração que viveu os estertores da ditadura militar brasileira (1964-1985), a democratização e a mentalidade forjada na transição do Brasil subitamente moderno dos anos de Juscelino, os anos mais caóticos e obscuros do período do “milagre” brasileiro chegando ao triunfo e ao conjunto de esperanças populares depositadas na Nova República (1988). De modo muito particular, e porque Tezza é um autor que pensa a si próprio enquanto crítico, O filho eterno toma de um enredo complexo, obtido no plano psíquico, e o transfere exemplarmente para o plano social e crítico.

Ao contrário do que sugere o título, o romance de Tezza, que se inicia em meio à malfadada Copa do Mundo de 1982, tem como personagem central muito mais a figura de um pai e seu psiquismo do que exatamente da condição do filho. Ambos coincidentes com a vida pessoal de Tezza que, assim como seu protagonista anônimo, tem um filho (no livro, Felipe, o único personagem com nome próprio) que nasceu com a alteração genética que determina a síndrome de Down. Sem nunca ocultar o fundo autobiográfico do romance, mas recriado com o distanciamento de quem atravessou uma jornada pessoal bastante tormentosa, o enredo de O filho eterno detrata o drama de consciência de uma geração contestadora e “contracultural” ao defrontar-se com o impasse da diferença in vivo.

Para além do inesperado e dos temores que o nascimento de Felipe e sua condição inata instalam na vida mental do protagonista, um escritor em formação, Tezza irá conduzi-lo ao que talvez seja o maior drama pessoal de todas as pessoas que geram (e recebem) um filho com deficiência intelectual: a aceitação afetiva.

“Ninguém está preparado para um primeiro filho, ele tenta pensar, defensivo, ainda mais um filho assim, algo que ele simplesmente não consegue transformar em filho.” (p. 32)

Na frase acima e em outras nas quais aparece ainda mais evidente o pânico existencial de um adulto (e escritor) em formação diante de uma situação irreversível, a moralidade de toda uma geração que se acreditava o motor de um novo tempo mostra-se numa fragilidade e ambiguidade moral que, se não confere diretamente com o estado de consciência política, descortinam a fragilidade do discurso redentor e revolucionário predominante principalmente na juventude formada em meio à redemocratização brasileira. Valendo-se da experiência pessoal, “o pai” de Tezza representa, de certo modo, um traidor do sonho geracional, antevendo na sua própria sorte a fragilidade das ambições morais e políticas da qual é também, na condição de escritor, um observador privilegiado e intérprete.

Por meio do distanciamento obtido com um narrador onisciente, Tezza observa e conduz esse pai de uma maneira muitas vezes cruel, sem qualquer condescendência e, em que pese o caráter autobiográfico, O filho eterno não oferece uma visão edulcorada ou vale-se do clichê “superacionista”, para finalizar o romance como uma ode redentora à personagem do pai. Longe disso. O filho eterno está muito mais para a denúncia de uma mentalidade geracional do que a particularização de um drama envolvendo reflexões culturais a respeito da condição de deficiência do filho. Prova disso é que a aparição dos demais personagens, mesmo o filho e a mãe, são incidentais. No decurso do seu amadurecimento pessoal, a aceitação ocorre mediante a humilhação daquela prévia arrogância paterna – eis o aspecto mais duro de todo o romance e, certamente, a razão para sua consagração para além da qualidade literária em si mesma, dado que “aquele pai” denuncia o caráter e a fragilidade da ambição humana em estar para as condições inerentes à vida desde um lugar privilegiado que, em efetivo, não existe para ninguém.

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Se até poucos anos atrás as pessoas dependiam quase exclusivamente da seleção e escolha prévias de DJs de estações de rádio FM e do jornalismo cultural praticado por canais especializados em música para descobrir novidades, a expansão do universo da internet e serviços online vem proporcionado que cada vez mais as pessoas passem a criar e a gerenciar seus itinerários sonoros e também a surpreender-se por conta própria. Da mesma forma, é notório para as pessoas habituadas a ouvir música em meio digital que o incremento e a profusão de aplicativos online causaram uma espécie de ruptura no modo de consumir e ouvir música, perdendo-se nesse universo em contínua expansão qualquer senso de orientação a não ser o providenciado por algoritmos de programação, alguma inteligência artificial, meta-tags e, claro, anúncios pagos e patrocinados por selos e gravadoras. Além dos recursos obtidos por meio de módicas assinaturas individuais, é desses anúncios que sobrevivem boa parte dos aplicativos musicais atualmente mais utilizados, como o Spotify, Deezer, AppleMusic, YouTube e Google Play.

Fosse de outra maneira, em muito se dependeria ainda de que alguém apresentasse ou chancelasse o trabalho musical de um intérprete ou músico estreante para que ele se tornasse conhecido. Não mais. Agora, a torrente digital atropela em larga escala qualquer anteparo possível da crítica musical, até mesmo porque a profusão de novos nomes e estilos é igualmente incessante e também porque o ambiente virtual desconhece ou pelo menos não é limitado por qualquer espécie de fronteira. Se isso por um lado dificulta qualquer tentativa de filtragem abrangente, por outro proporciona uma liberdade incomum de transitar-se entre estilos e nomes singulares de qualquer ponto do planeta e vir a conhecer-se, por exemplo, artistas realmente impressionantes como, por exemplo, o cantor inglês Benjamin Clementine.

Não são muitas as pessoas que provavelmente já ouviram com atenção, na infinidade de novidades musicais diárias que publicam-se na internet, a voz de Benjamin Clementine, mas é pouco provável que, após escutá-lo, pudessem tê-lo esquecido. No caso dele, isso seria causado por muitas razões. Em primeiro lugar, pelo timbre e gravidade (tonal e interpretativa) incomuns de sua voz de tenor. Em segundo lugar, pela intensa carga poética e dramática de suas letras, o que também é incomum em se tratando de estreantes na música e, last but not least, porque também na infinidade de estilos e subgêneros musicais seria um tanto complicado decidir onde situar seu álbum de estreia, At Least for Now, registro sequer reportado ou notado no Brasil, lugar do planeta onde Benjamin ainda não colocou os pés, mas para onde felizmente a internet tratou de propagá-lo também.

Apesar de ter uma carreira bastante recente e de ter popularizado-se por cantar nas ruas e metrôs parisienses, quem escuta Benjamin logo pode perceber que ele restabelece o contato com estilos musicais e uma forma interpretativa nem um pouco contemporânea, se é que o tempo contemporâneo conte efetivamente com um estilo específico e não é marcado justamente pela multiplicidade e infinidade de estilos e tendências. Ainda que ele mesmo recuse a influência direta de Nina Simone e refira-se mais a influências do cancioneiro francês, como Jacques Brel, Charles Aznavour e Edith Piaf, por exemplo, é notável a forma com que ele explora a carga e poder da música negra, até mesmo porque é igualmente notável a semelhança do seu timbre vocal com o de Jimi Hendrix. Assistir sua interpretação de “Voodoo Child“, acompanhado somente ao piano, é uma forma simples e rápida de certificar-se disso.

Para além de qualquer necessidade de classificação, interessa mais saber de Benjamin sua intensidade interpretativa e seu estilo “expressionista” de cantar, como ele mesmo já o definiu. De um cantor que se fez literalmente nas ruas (inclusive como um legítimo homeless), como ele demonstra em “Cornerstone”, impressiona sua busca pessoal e sua sonoridade diferenciada, como se um tipo de cantor fora de seu tempo, uma vez que o predomínio repetitivo do pop e do rap parece quase obrigatoriamente limitar a capacidade criativa de novos músicos, pelo menos daqueles que ganham maior notoriedade e as maiores fatias do mercado musical. No caso dele, essa obrigatoriedade não se aplica. Pelo contrário, o que há nele é uma amplificação de estilos num repertório que vai do blues ao gospel, do folk ao erudito, flertando com o jazz e o rock, mas com uma sonoridade atemporal e uma carga poética inaudita, de um compositor que inclusive publicou um livro de poemas e tem para a consistência de suas letras o respaldo de uma vida nem um pouco fácil, passada em internatos e marcada precocemente pelo afastamento da família.

Não lembro exatamente como conheci as composições e interpretações de Benjamin. Creio que por um link ou uma sugestão algorítmica da internet, dessas que costumam dizer “Você também poderia gostar de…”, mas preciso reconhecer que tenho gratidão por quem o colocou no meu percurso de escuta virtual ao invés de outras soluções ou achados às vezes completamente infelizes. Também o ex-beatle Paul McCartney impressionou-se com sua capacidade vocal e interpretativa em uma de suas primeiras aparições ao vivo, em Londres, no ano de 2013, em um programa da BBC. O encontro rendeu, além do registro fotográfico, um estímulo ímpar para que ele insistisse na carreira e viesse em breve a gravar pela primeira vez em grandes estúdios, primeiro os singles de Cornerstone (2013) e Condolence (2014) e, logo a seguir, o álbum At Least for Now (2015).

Benjamin Clementine é inaudito e inesperado como uma de suas principais influências declaradas, a cantora transgênero Anohni, ex-Antony Hegarti, vocalista da banda Anthony and The Johnsons. Sua voz imponente é do tipo que não requer silêncio externo para fazer-se notar, mas que tem o poder de desligar os pensamentos de quem o está ouvindo. É como se ele não precisasse propagar versos irresistíveis ou embarcar em nenhuma espécie de calamidade sonora, mas lograsse suspender o discurso mental do ouvinte, sobrepondo-o com camadas de melodia e poesia a ponto de fazer fluir seu pensamento para os outros, materializando sua expressividade e rompendo a distância regulamentar da apreciação musical sem para isso abusar de recursos extraordinários, mas contando, pelo contrário, apenas com o estabelecimento da cumplicidade de quem conta uma experiência para quem possa estar interessado em entendê-la. Não se trata de ondas sonoras ou de uma produção perfeita, mas do talento comunicando-se de um modo que é praticamente impossível assistir-se ou escutar-se indiferentemente. Isto não costuma acontecer em qualquer sugestão musical da internet, mas é o que acontece quando se é apresentado repentinamente a um verdadeiro criador e cantor excepcional.

Ouça mais de Benjamin Clementine no YouTube, no Spotify, no Deezer e no iTunes.

Por que escrever?, de Philip RothPor que escrever?, de Philip Roth

A rigor, é desde a publicação de Nêmesis (Companhia das Letras, 2011) que os leitores brasileiros deixaram de contar com textos inéditos de Philip Roth por aqui. E como parece mesmo que o escritor falecido em 2018 foi definitivo em sua aposentadoria anunciada em 2012 e não deixou nenhuma novela ou romance para publicação póstuma, nos últimos tempos restou apenas aos seus leitores e devotos matar amargamente as saudades do autor por meio das notícias envolvendo o polêmico cancelamento da biografia de Blake Bailey, Philip Roth: The Biography (Skyhorse, 2021), a única entre as disponíveis que efetivamente contou com sua colaboração direta. Na prática, restaram efetivamente apenas as notícias: a tradução do livro em si continua suspensa pela Companhia das Letras, editora brasileira interessada na sua publicação antes da polêmica exposição envolvendo Bailey, acusado no começo de 2021 por diversos crimes sexuais.

Agora, a mesma Companhia das Letras oferece ao público brasileiro uma edição retrospectiva compilando dezenas de ensaios e entrevistas de Roth a respeito de literatura e de seu ofício de escritor. Trata-se de um volumoso livro (568 páginas) intitulado Por que escrever?: Conversas e ensaios sobre literatura (1960-2013). Talvez antecipando a retomada da aguardada tradução, garante-se dessa forma que a editora ao menos ocupará os interessados em Roth com uma boa dose de textos de sua autoria até então inéditos em português. Isso não terá ocorrido sem críticas duras ao gesto de suspensão anterior, pois, afinal, as questões apresentadas referiam-se ao biógrafo de Roth e não a ele mesmo. Enquanto prossegue o embaraço, não custa lembrar que Bailey acabou encontrando nova casa para publicar seu livro nos Estados Unidos e a Dom Quixote, de Portugal, promete lançar sua tradução ainda no primeiro semestre deste ano.

No que importa, o livro que agora chega às livrarias é oportunidade para aqueles mais interessados na literatura de Roth do que nos bastidores da sua intimidade completarem finalmente a sua coleção em língua portuguesa. Com a edição, obtém-se o bônus de enfim desviar a atenção de situações alheias ao escritor que, incompreensivelmente, no último ano tornaram-se mais importantes que a repercussão do seu trabalho autoral. Nesse aspecto, Por que escrever?: Conversas e ensaios sobre literatura não poderia ser mais lapidar.

Desde o ensaio de abertura em que Roth contempla o retrato de Kafka para daí imaginar um destino mais longevo para o escritor tcheco, passando por comentários a respeito de escritores seus contemporâneos, como Philp Guston e Saul Bellow e transcrições de suas conversas com Primo Levi, Isaac Bashevis Singer e Milan Kundera, entre outros, até o capítulo final de “explicações” no qual responde sobre o próprio trabalho, vê-se um Roth que se propunha a oferecer um legado crítico tão relevante quanto sua obra ficcional. E o melhor de tudo: numa ensaística na qual se reconhece imediatamente os traços de sua inteligência e humor. Veja-se, por exemplo, o ensaio como no qual ele enfrenta a Wikipedia a fim de corrigir uma entrada a respeito de A marca humana (Companhia das Letras, 2002) e a enciclopédia não assimila imediatamente a sua observação, exigindo-lhe uma “fonte confiável”. Roth não se dá por vencido e publica a devolutiva na The New Yorker. No livro, o ensaio aparece completo, sem as supressões da revista.

Parte considerável do livro compõe-se também por discursos em premiações recebidas, entrevistas e ensaios que já haviam sido publicados anteriormente em Shop Talk (Mariner Books, 2001), mas a compilação apresenta ainda textos inéditos em relação à edição norte-americana, de 2017. As entrevistas são na realidade homenagens que ele faz a escritores com quem travou relação e enfrentavam dificuldades em seus países de origem, principalmente aqueles provenientes do leste europeu, como Milan Kundera e Ivan Klíma. Os ensaios a respeito de sua própria obra, todavia, tornam o livro mais apetecível para seus leitores habituais.  Para estes, servem como um anexo indispensável o seu ensaio de aniversário de 45 anos de O complexo de Portnoy (Companhia das Letras, 2004) e o discurso sugestivamente intitulado A impiedosa intimidade da ficção, pronunciado nas comemorações dos seus oitenta anos, em 2013, no Museu de Newark. Em síntese, é praticamente um livro de referência que fixa o legado a seu respeito com seus próprios textos.

Por falar em “legado”, inobstante as “ameaças” literárias que sua obra vem sofrendo recentemente em razão de alegada misoginia e sexismo, mais ou menos no mesmo revés de Bailey, críticos, estudiosos e até amigos de Roth passaram a considerar que seu espólio deveria manter-se disponível para que outros biógrafos nele se debruçassem e dessa forma pudessem até mesmo oferecer novas versões de sua biografia. Ao que parece, junto às caixas de correspondência e demais notas, Roth teria entregado a Bailey pelo menos dois manuscritos inéditos justamente contestando o livro de memórias de Claire Bloom, Leaving a Doll’s House: A Memoir (Little Brown and Co, 1998), atriz com quem viveu por cerca de 14 anos. O temor é que esses manuscritos e os documentos que pudessem consistir em novo apanhado ou publicação recebam a destinação que em vida Roth solicitou aos encarregados do seu espólio: a completa destruição. Por ora, trata-se de um drama sem desfecho.

Quando ainda vivia, Roth havia destinado à biblioteca pública de Newark uma coleção de 7.000 livros anotados, fotografias e documentos pessoais organizados por ele mesmo e algo em torno de 1/5 do seu patrimônio financeiro (cerca de 2 milhões de dólares) para que a biblioteca se reequipasse. Parece que ao aposentar-se com a publicação de Nêmesis, Roth dedicou-se a organizar a eternização de sua memória e seu legado, o que inclui o seu acerto com Bailey. Por meio de sua biblioteca pessoal é possível conhecer suas anotações em Dostoievsky, Colette e Machado de Assis, entre outros. Provavelmente é desse espólio que resultam os ensaios, discursos e apresentação da presente edição de Por que escrever?: Conversas e ensaios sobre literatura (1960-2013).

Daí pode-se presumir, portanto, que a curiosidade literária acerca de Roth será plenamente aplacada com a edição. É claro que isso se confirmaria apenas caso o interesse vulgar na pessoa, fofocas e informações desencontradas preenchessem menos o interesse das pessoas que propriamente sua obra e vida literária. Quanto a isso, é bem provável que Roth soubesse bem que seria algo impossível de deter, narrar ou conduzir com exclusividade. Certamente não a ponto de prever que sua memória fosse embargada por razões esdrúxulas, mas porque seus confrontos com o moralismo fatalmente se chocariam com a contemporânea tara social do cancelamento. Para estes leitores, Por que escrever?: Conversas e ensaios sobre literatura (1960-2013) é excelente oportunidade de conhecer de Roth mais no que ele é interessante, um autor fundamental de sua época histórica e com um talento incomum para narrar. Para os que não morrerão de um pasmo ao saber dos incidentes pessoais da vida do autor, espera-se que a biografia saia de uma vez por todas e suspenda-se a onda de exorcismos pelo menos no que se trata de um monstro literário como ele. Não é algo certo de se esperar, mas nunca custa muito o apelo ao bom senso e à razão.