Artigos,Crítica Para assistir a “Longe da árvore”

Para assistir a “Longe da árvore”

Artigo publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, 19/10/2019.

Clique para ampliar

A não ser em publicações duvidosas, “filosóficas” entre aspas, é muito difícil encontrar-se alguém interessado em escrever honestamente acerca da aceitação humana. Em 2012, ao invés de facilitar as coisas, o jornalista norte-americano Andrew Solomon conseguiu torná-las ainda mais difíceis com a publicação de Longe da árvore: pais, filhos e a busca da identidade. Imenso em tamanho (o livro publicado pela Companhia das Letras em 2013 contém mais de 800 páginas) e incomensurável em conteúdo, Longe da árvore é ainda mais espantoso quando se sabe que resultou do trabalho de uma década em que seu autor esteve envolvido tanto na escuta de centenas de pessoas quanto no exame detalhado da literatura ficcional, científica e documental publicada a respeito das condições e situações existenciais a que ele se propôs investigar.

Ao tratar da trajetória familiar e afetiva de pessoas que cometeram crimes ou daquelas cujos filhos nasceram em decorrência de casos de estupro, ou pessoas que nasceram com deficiência intelectual, autismo, doenças mentais, nanismo, bem como casos de superdotação ou surdez e chegando até as questões de identidade de gênero, Solomon concretizou uma espécie de fenomenologia do afeto. Uma espécie de compêndio informal e demonstrativo do percurso de cada uma das pessoas em afirmar-se num mundo muitas vezes refratário e violento. Ao invés de hipóteses científicas, Solomon confrontou as ideias sociológicas e políticas contemporâneas às diferentes realidades com que se defrontam as pessoas nas suas peculiaridades existenciais. Mais do que uma reportagem extensiva acerca das situações-limite possíveis de experimentar-se, Longe da árvore é um divisor de águas sobretudo por abordar a experiência humana onde ela costuma ser mais invisibilizada.

Finalizado em 2017 e com uma breve passagem no Brasil no Festival do Rio do ano passado, Longe da árvore chega agora aos cinemas brasileiros em documentário homônimo realizado pela produtora e diretora Rachel Dretzin, ativista feminista e realizadora de diversos documentários acerca das questões identitárias nos Estados Unidos. Dentre as muitas pessoas interessadas em adaptar o livro de Solomon para as telas, Dretzin conquistou a confiança do autor ao procurar ampliar ainda mais o alcance do seu livro. Ao invés de simplesmente transferir e buscar as pessoas já entrevistadas por Solomon, ela foi buscar novos depoimentos e então costurar a sua própria versão da ideia original de Solomon. O resultado é um filme tão corajoso e tocante quanto o livro original e que tem sido aplaudido e premiado nos festivais em que vem sendo exibido, como nos recentes RiverRun International Film Festival e Montclair Film Festival’s.

Além de continuar ampliando o reconhecimento do livro original, o documentário realizado por Dretzin consegue por mérito próprio viabilizar a expansão da ideia central de Solomon. Baseado muito em sua própria experiência individual e familiar, de que a aceitação e o amor constituem valores que fundamentam e oferecem sentido à experiência humana, Solomon relata e compara a própria experiência em torno de sua homossexualidade às de pessoas em outras situações em que a diferença migra do sentido de distinção para o de diversidade. Mesmo nas situações mais dramáticas, como as que envolvem famílias de filhos envolvidos em crimes terríveis como os massacres de Columbine e outros semelhantes, Solomon assume a prevalência da afetividade e deixa para trás qualquer noção estigmatizante do ser humano.

Como uma sociologia às avessas, Longe da árvore é muito mais exemplar do que explicativo e sua força documental decompõe em certa medida as noções de identidade organizadas, por exemplo, em Erving Goffman, onde estão como que consolidadas. A “busca” empreendida em seu livro não se dá pela trajetória de personagens e nem pelo sopesamento de categorias teóricas, mas pela experiência humana como ela é e sem qualquer verniz de fantasia, indulgência ou, principalmente, vitimização. Pelo contrário, trata-se de pessoas que buscam reconstruir-se apesar das expectativas sociais e familiares mais corriqueiras. Não há um drama existencial específico em questão, mas a dramatização da vida social em seu sentido mais amplo.

Longe da árvore é um livro e agora documentário crucial para a compreensão da dimensão de complexidades que atendem a aceitação familiar e a inclusão social e afetiva das pessoas. Para além dos estereótipos, dos preconceitos e dos destinos inescapáveis, sua contribuição reside em alargar a experiência humana das bordas da trivialidade e da previsibilidade. Embora trate apenas indiretamente de pessoas com gigantismo (ele também trata disso), é um livro gigante em todos os aspectos. Se não é possível a ninguém escapar do inesperado, seu trabalho é humanizante em todos os aspectos. Premiado também por O demônio do meio-dia, que aborda a problemática da depressão, e Lugares distantes, no qual trata do drama do desterro das populações migrantes, recentemente também publicou uma série de textos inéditos e conferências sobre a a temática do suicídio. Também professor de psicologia clínica da Universidade de Columbia e consultor de saúde mental LGBT em Yale, com Um crime da solidão Solomon consolidou o seu nome entre os autores mais comprometidos com as questões contemporâneas mais sensíveis.

Por meio de uma promoção do Instituto Alana em parceria com o selo Believe Films, as exibições de Longe da árvore ocorrem desde o dia 19 de setembro em várias cidades brasileiras, em sessões que contarão com todos os recursos de acessibilidade (audiodescrição, libras e legendas em português para surdos usuários da Língua Portuguesa) e com a realização simultânea de debates abertos a respeito do filme e do livro. Além das exibições comerciais, também poderão ser programadas exibições do filme por escolas e entidades a partir de uma plataforma on-line mediante um cadastro simples e orientações que já estão disponíveis na internet.

Leave a Reply

Posts semelhantes

Por que escrever?, de Philip RothPor que escrever?, de Philip Roth

A rigor, é desde a publicação de Nêmesis (Companhia das Letras, 2011) que os leitores brasileiros deixaram de contar com textos inéditos de Philip Roth por aqui. E como parece mesmo que o escritor falecido em 2018 foi definitivo em sua aposentadoria anunciada em 2012 e não deixou nenhuma novela ou romance para publicação póstuma, nos últimos tempos restou apenas aos seus leitores e devotos matar amargamente as saudades do autor por meio das notícias envolvendo o polêmico cancelamento da biografia de Blake Bailey, Philip Roth: The Biography (Skyhorse, 2021), a única entre as disponíveis que efetivamente contou com sua colaboração direta. Na prática, restaram efetivamente apenas as notícias: a tradução do livro em si continua suspensa pela Companhia das Letras, editora brasileira interessada na sua publicação antes da polêmica exposição envolvendo Bailey, acusado no começo de 2021 por diversos crimes sexuais.

Agora, a mesma Companhia das Letras oferece ao público brasileiro uma edição retrospectiva compilando dezenas de ensaios e entrevistas de Roth a respeito de literatura e de seu ofício de escritor. Trata-se de um volumoso livro (568 páginas) intitulado Por que escrever?: Conversas e ensaios sobre literatura (1960-2013). Talvez antecipando a retomada da aguardada tradução, garante-se dessa forma que a editora ao menos ocupará os interessados em Roth com uma boa dose de textos de sua autoria até então inéditos em português. Isso não terá ocorrido sem críticas duras ao gesto de suspensão anterior, pois, afinal, as questões apresentadas referiam-se ao biógrafo de Roth e não a ele mesmo. Enquanto prossegue o embaraço, não custa lembrar que Bailey acabou encontrando nova casa para publicar seu livro nos Estados Unidos e a Dom Quixote, de Portugal, promete lançar sua tradução ainda no primeiro semestre deste ano.

No que importa, o livro que agora chega às livrarias é oportunidade para aqueles mais interessados na literatura de Roth do que nos bastidores da sua intimidade completarem finalmente a sua coleção em língua portuguesa. Com a edição, obtém-se o bônus de enfim desviar a atenção de situações alheias ao escritor que, incompreensivelmente, no último ano tornaram-se mais importantes que a repercussão do seu trabalho autoral. Nesse aspecto, Por que escrever?: Conversas e ensaios sobre literatura não poderia ser mais lapidar.

Desde o ensaio de abertura em que Roth contempla o retrato de Kafka para daí imaginar um destino mais longevo para o escritor tcheco, passando por comentários a respeito de escritores seus contemporâneos, como Philp Guston e Saul Bellow e transcrições de suas conversas com Primo Levi, Isaac Bashevis Singer e Milan Kundera, entre outros, até o capítulo final de “explicações” no qual responde sobre o próprio trabalho, vê-se um Roth que se propunha a oferecer um legado crítico tão relevante quanto sua obra ficcional. E o melhor de tudo: numa ensaística na qual se reconhece imediatamente os traços de sua inteligência e humor. Veja-se, por exemplo, o ensaio como no qual ele enfrenta a Wikipedia a fim de corrigir uma entrada a respeito de A marca humana (Companhia das Letras, 2002) e a enciclopédia não assimila imediatamente a sua observação, exigindo-lhe uma “fonte confiável”. Roth não se dá por vencido e publica a devolutiva na The New Yorker. No livro, o ensaio aparece completo, sem as supressões da revista.

Parte considerável do livro compõe-se também por discursos em premiações recebidas, entrevistas e ensaios que já haviam sido publicados anteriormente em Shop Talk (Mariner Books, 2001), mas a compilação apresenta ainda textos inéditos em relação à edição norte-americana, de 2017. As entrevistas são na realidade homenagens que ele faz a escritores com quem travou relação e enfrentavam dificuldades em seus países de origem, principalmente aqueles provenientes do leste europeu, como Milan Kundera e Ivan Klíma. Os ensaios a respeito de sua própria obra, todavia, tornam o livro mais apetecível para seus leitores habituais.  Para estes, servem como um anexo indispensável o seu ensaio de aniversário de 45 anos de O complexo de Portnoy (Companhia das Letras, 2004) e o discurso sugestivamente intitulado A impiedosa intimidade da ficção, pronunciado nas comemorações dos seus oitenta anos, em 2013, no Museu de Newark. Em síntese, é praticamente um livro de referência que fixa o legado a seu respeito com seus próprios textos.

Por falar em “legado”, inobstante as “ameaças” literárias que sua obra vem sofrendo recentemente em razão de alegada misoginia e sexismo, mais ou menos no mesmo revés de Bailey, críticos, estudiosos e até amigos de Roth passaram a considerar que seu espólio deveria manter-se disponível para que outros biógrafos nele se debruçassem e dessa forma pudessem até mesmo oferecer novas versões de sua biografia. Ao que parece, junto às caixas de correspondência e demais notas, Roth teria entregado a Bailey pelo menos dois manuscritos inéditos justamente contestando o livro de memórias de Claire Bloom, Leaving a Doll’s House: A Memoir (Little Brown and Co, 1998), atriz com quem viveu por cerca de 14 anos. O temor é que esses manuscritos e os documentos que pudessem consistir em novo apanhado ou publicação recebam a destinação que em vida Roth solicitou aos encarregados do seu espólio: a completa destruição. Por ora, trata-se de um drama sem desfecho.

Quando ainda vivia, Roth havia destinado à biblioteca pública de Newark uma coleção de 7.000 livros anotados, fotografias e documentos pessoais organizados por ele mesmo e algo em torno de 1/5 do seu patrimônio financeiro (cerca de 2 milhões de dólares) para que a biblioteca se reequipasse. Parece que ao aposentar-se com a publicação de Nêmesis, Roth dedicou-se a organizar a eternização de sua memória e seu legado, o que inclui o seu acerto com Bailey. Por meio de sua biblioteca pessoal é possível conhecer suas anotações em Dostoievsky, Colette e Machado de Assis, entre outros. Provavelmente é desse espólio que resultam os ensaios, discursos e apresentação da presente edição de Por que escrever?: Conversas e ensaios sobre literatura (1960-2013).

Daí pode-se presumir, portanto, que a curiosidade literária acerca de Roth será plenamente aplacada com a edição. É claro que isso se confirmaria apenas caso o interesse vulgar na pessoa, fofocas e informações desencontradas preenchessem menos o interesse das pessoas que propriamente sua obra e vida literária. Quanto a isso, é bem provável que Roth soubesse bem que seria algo impossível de deter, narrar ou conduzir com exclusividade. Certamente não a ponto de prever que sua memória fosse embargada por razões esdrúxulas, mas porque seus confrontos com o moralismo fatalmente se chocariam com a contemporânea tara social do cancelamento. Para estes leitores, Por que escrever?: Conversas e ensaios sobre literatura (1960-2013) é excelente oportunidade de conhecer de Roth mais no que ele é interessante, um autor fundamental de sua época histórica e com um talento incomum para narrar. Para os que não morrerão de um pasmo ao saber dos incidentes pessoais da vida do autor, espera-se que a biografia saia de uma vez por todas e suspenda-se a onda de exorcismos pelo menos no que se trata de um monstro literário como ele. Não é algo certo de se esperar, mas nunca custa muito o apelo ao bom senso e à razão.

Da literatura indianista à literatura indígenaDa literatura indianista à literatura indígena

Custou muito tempo para que a representação literária dos povos indígenas superasse aquela formalizada no “indianismo” brasileiro. Trata-se, a bem da verdade, de um processo ainda não concluído. Não é que Gonçalves Dias e José de Alencar tenham sido irrepreensíveis em seu trabalho, mas a marginalização das identidades indígenas brasileiras por mais de um século competiu na manutenção de uma visão estereotipada da realidade e condições de vida dos povos originários. Nesse julgamento, de certo modo fosse mais correto inocentar os autores românticos e denunciar, talvez, o interesse pitoresco da sociedade brasileira para com uma população que, a despeito das mais variadas investidas e violências, atravessou os séculos garantindo sua sobrevivência e autonomia cultural.

Desde a conclusão de O Guarani, provavelmente a obra máxima do indianismo brasileiro, quando a insólita união de um indígena com a filha dos colonizadores acontece de forma mirabolante, parece que certo caráter imobilista veio encerrando (ou encarcerando) a imaginação literária brasileira em respeito ao indígena enquanto motivo literário. Seja como tentativa de concretização artificial de certa visão iluminista, seja como pretensão de desvencilhar os povos indígenas de qualquer relação com a sociedade contemporânea e, nesse sentido, corroborar seu estatuto civil de “incapazes”, desde as últimas décadas do séc. XX esta composição passou paulatinamente a perder força e sentido. Foi com a insurgência de um novo movimento social indígena gestado desde a conformação da chamada Nova República, ou seja, do Brasil a partir da Constituição Federal de 1988, que os povos indígenas passaram a integrar e atuar politicamente de forma mais decisiva e, consequentemente, sua literatura ganhou novos contornos. O marco editorial deste período é o livro Antes o Mundo não Existia, de Umúsin Panlõn & Tolamãn Kenhíri, pertencentes ao povo Desâna, do Alto Rio Negro/AM, considerado o primeiro livro editado de autoria indígena.

A partir desse momento histórico do qual emergem os primeiros cursos interculturais de formação entre os povos indígenas e o letramento em português começa a possibilitar-se o registro das tradições orais, cerimoniais, narrativas tradicionais e todo o repertório identitário que vai constituindo aos poucos o que hoje se entende por “literatura indígena”. A consolidação do termo, todavia, ainda é muito debatida e a percepção de mais de 300 idiomas particulares dificulta a tarefa, sobretudo quando se torna possível apenas denominá-la aquele escrita em português, ou seja, aquela acessível ao povo não-índio.

Antes que se fizessem notar pela própria produção cultural, grande parte dos saberes tradicionais dos povos indígenas foi transcriada pelo etnografia e também pelos estudiosos do folclore brasileiro, como Silvio Romero e Câmara Cascudo, no passado, e, mais recentemente, com Claude Lévi-Strauss e Darcy Ribeiro. Na literatura brasileira, desde o período romântico passando-se pelo modernismo e chegando nas manifestações mais contemporâneas, a presença do indígena é quase toda ela meramente incidental. Com exceção de alguns poucos autores, como Mário de Andrade em Macunaíma e Guimarães Rosa com Meu tio o Iauaretê, sempre havia sido necessária a transfiguração do mundo indígena pelo mundo branco, como aponta Luzia Aparecida Oliva dos Santos, no trabalho de doutorado que resultou no livro O percurso da indianidade na literatura brasileira : matizes da figuração, editado pela UNESP no ano de 2009.

Para a pesquisadora, não é por acaso que o indígena compõe os fundamentos da incipiente literatura nacional do séc. XIX, mas por garantir-lhe uma noção de pureza original, fundacional, na qual não cabe a representação da realidade violenta da conquista, mas a cristalização do mito selvagem e da inauguração de uma unidade histórica pacífica idealizada a partir da ótica exclusiva do colonizador português e as escolhas pontuais de uma imagem projetada para ser justamente seminal:

“Ao lado do aparato histórico, marcado pela Independência política do país, o romantismo brasileiro relê a infância da literatura pelo viés histórico-nacionalista, apontando para o futuro da nação a partir de suas raízes, recuperadas nas lendas indígenas e em seus mitos, que deslocam para o eixo tríplice natureza, etnia e língua o espaço de construção do princípio regulador, capaz de instaurar a literatura nacional.” (SANTOS, 2009, p. 149)

Ainda que seja também um livro da tradição etnográfica, A queda do céu, de David Kopenawa e Bruce Albert é um trabalho sem precedentes para o campo antropológico brasileiro dos estudos indígenas e também do literário. Primeiramente escrito em francês e depois traduzido para o português, o livro é a transcriação de um convívio de muitas décadas entre o antropólogo francês e o xamã yanomani no qual é apanhada toda a cosmogonia indígena. Nas três seções e oito capítulos do livro são desveladas a iniciação do xamã, o contato destrutivo com o “povo da mercadoria”, isto é, o homem branco, e as impressões dele a respeito do destino do seu povo e de toda a civilização.

Dentro da emergência de um discurso político indígena, o trabalho de Kopenawa e Albert, além de situar a continuidade social e histórica dá relação povos indígenas e não-indígenas, instaura um campo de subversão simbólica. Nas palavras de Albert, o que se revela é “todo um processo político-cultural de adaptação criativa que gera as condições de possibilidade de um campo de negociação interétnica onde o discurso colonial possa ser contornado ou subvertido” (ALBERT, 1995, p. 4). Toda essa negociação passa, evidentemente, pela superação de qualquer noção teatral do modo de vida da população yanomani. Pelo contrário, o livro é um registro incomparável das formas de resistência subjetiva de uma comunidade tradicional que não apenas não percebe ganhos na relação com a civilização ocidental como ela é vendida, como ousa confrontá-la na sua dimensão destruidora, representada principalmente na persistência de um modelo econômico extrativista de relação com a floresta e os recursos naturais.

Ao passo em que se multiplicaram os estudos antropológicos e literários em torno da obra de Kopenawa e Albert, muitos outros autores indígenas ganharam nitidez no mercado editorial e estudos acadêmicos[1]. Além de Kopenawa, outros autores indígenas têm publicado seus livros com grande repercussão na crítica e no mercado editorial. Dentre muitos, pode-se citar Daniel Munduruku, Cristino Wapichana e Eliane Potiguara. No entanto, poucos como Ailton Krenak têm estado tão evidentes.

Líder político dos krenak de Minas Gerais, povo recém vitimado pelo desastre da barragem de Mariana, Ailton Krenak é jornalista e ambientalista de longa data. Ficou conhecido nacionalmente ao defender os direitos indígenas na Assembleia Constituinte de 1988, pintando o rosto com tinta jenipapo ao tempo em que discursava. Seu mais recente livro, editado pela Companhia das Letras e intitulado Ideias para adiar o fim do mundo, também busca fazer uma tentativa de alerta para toda a sociedade brasileira quanto ao risco ambiental. Em um vídeo gravado para o Itaú Cultural há poucos anos, Krenak realiza um questionamento vital a respeito da literatura indígena. Para Krenak, até aqui o interesse social em torno da temática indígena tem sido muito semelhante àquele indianista, do período romântico, idealizado e inocente. Para ele, é chegado o momento de desafiar a história e a contemporaneidade com dados mais realistas a respeito dos povos indígenas e descolonizar (sic) a cultura nacional.

Se a literatura é um campo simbólico privilegiado no qual traços culturais e valores são contrabalanceados, tendo em vista que a própria sobrevivência de tribos e nações inteiras está sempre em jogo, a presença indígena consegue ser no tempo atual das mais impactantes. Mais do que isso, segundo palavras do próprio Krenak, os indígenas não procuram lutar por sua terra, mas pela terra e pela sobrevivência de todos, de todas as dimensões da natureza. A despeito da história brutalizante de violência sobre violência, a literatura indígena é um sopro de vitalidade e esperança em meio a um tempo que se anuncia cada vez mais breve, antes que o céu desabe, como diz Kopenawa. Na ausência de um consenso sobre o bem estar da sociedade, é imprescindível conhecer a literatura indígena e não por uma questão de identidade, mas cada vez mais pela necessidade de aprendizado para a sobrevivência.

Referências

ALBERT, Bruce. O ouro canibal e a queda do céu: uma crítica xamânica da economia política da natureza. Série Antropologia, 174. Brasília: UNB, 1995. 33 p.

CASTRO, Eduardo Viveiros de Castro. Perspectivismo e multinaturalismo na América indígena. In: A inconstância da alma selvagem., p. 301-346.

KOPENAWA, David; ALBERT, Bruce. A queda do céu. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. 729 p.

KRENAK, Ailton. Ecologia Política. Ethnoscientia, [S.l.], v. 3, n. 2, ago. 2018. ISSN 2448-1998. Disponível em: <http://www.ethnoscientia.com/index.php/revista/article/view/193>. Acesso em: 17 Jul. 2019. doi:http://dx.doi.org/10.22276/ethnoscientia.v3i2.193.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo : Companhia das Letras, 2019. 98 p.

Literatura indígena brasileira contemporânea: criação, crítica e recepção [recurso eletrônico] / Julie Dorrico; Leno Francisco Danner; Heloisa Helena Siqueira Correia; Fernando Danner (Orgs.) – Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2018. 424 p.

SANTOS, Luzia Aparecida Oliva dos. O percurso da indianidade na literatura brasileira: matizes da figuração. São Paulo : UNESP, 2009. 447 p.

[1] Uma boa ideia dessa produção literária e ao mesmo tempo militante pode ser obtida no livro Literatura indígena brasileira contemporânea: criação crítica e recepção, publicação da Editora Fi/Acesso aberto, de 2018.