Acídia ficcional

Há um ano, mais de um ano, dois talvez, fui tomado pela acídia ficcional. Romances não me pegam mais: nem lançamentos premiados, às vezes nem monstros consagrados.

A doença chegou a levar que eu desenvolvesse a teoria da segunda chance, na qual uma pessoa teria uma chance de escrever um romance e outra, definitiva, no verso do mesmo romance. E acabou. Depois disso, gastos cara e coroa da moeda, soaria às esperanças do escritores como que o estridor do corvo de Poe: nunca mais..

A teoria não é injusta, de modo algum, e inclusive daria chance aos novos e incessantes autores. Seria como um ticket literário. Gastou, acabou. A vantagem secundária seria a de que poderíamos conhecer muito mais autores e não nos prenderíamos às garras do bom nome e da reputação. Afinal, mesmo autores de excelentes romances praticaram iniquidades e muitos publicaram às vezes mais por exigências contratuais do que por ânimo sincero.

Ânimo é a palavra, mas desânimo também. Eu sei, entendo que o problema está em mim e não nos livros. Não sempre. Há uma falta de paciência generalizada e essa é sempre uma boa ideia: dividir responsabilidades…

Mas não é isso. O problema também está menos na capacidade estilística dos autores que propriamente nas ideias. O problema são justamente as ideias e romances também são ideias. Às vezes, uma ideia só desenvolvida ao máximo. Mas, se por isso, por que não escrever a ideia simplesmente? Ou, melhor, porque a expressão da ideia não basta e é preciso lançar mão de tantas metáforas, alegorias, enredos?

Pensando bem, às vezes é isso mesmo que tem me atordoado nos romances. Certo exagero de engenhosidade ou, por outro lado, extremo apreço às ideias – tão extremo que se vê bem que sua principal qualidade é serem justamente ideológicos. E cansativos, por essa mesma razão, já que uma ideia apenas oferece o mesmo que um livro de duzentas páginas. Diante disso, é muito difícil que meu demônio do meio-dia não se manifeste. Logo ele (a acídia ficcional) aponta suas garras e toma – não raro para sempre – os livros das minhas mãos. E o pior: eu deixo…

E é tão real essa doença que ela não se verifica com outros gêneros. Livros teóricos, de não ficção (onde cabe o mundo), ou ensaios, ou contos o monstro preserva e leio com prazer, pois também é uma leitura como a da internet, em links e interrupções (talvez aí esteja a chave da questão). E a poesia também, que eu tenho repetido que vai salvar a literatura por sua brevidade de forma – mas também por sua carga concentrada de sentido, às vezes muito maior que toda a lista da ficção mais vendida da semana.

Eu não tenho dúvidas que a doença é minha ou está em mim (é pelo que eu torço – e que ela se vá dia desses). Mas vai se ver na pilha de débitos e livros abandonados de cada um e se poderá perceber que se trate, talvez, de insuspeita pandemia…

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O normal para as pessoas de todas as épocas sempre foi viver num ou noutro período de guerra, em períodos de dificuldade tremenda, de escassez e penúria. Dificilmente uma geração passaria inteira sem atravessar ou vivenciar alguns eventos histórico marcantes. Me basta pensar nos meus pais, por exemplo, que nasceram antes da Segunda Guerra Mundial. Ou dos meus avós. Esses atravessaram duas guerras, pandemias, ditadores de toda a espécie e nem antibiótico tinha. Meus bisavós viveram uma época em que chegar aos cinquenta anos já era longevidade. E nem havia infância para esse pessoal. Eles pulavam direto das calças curtas para a vida adulta, de trabalho sem facilidades e tecnologia rudimentar, morando em lugares sem estrada, num interior sem horizonte e nem tempo certo.

Mas o destino teria me oferecido (por alguma razão mágica) viver nessa paz perpétua, nessa fruição consumista sem dano e nem tragédia à vista. Nem a ditadura militar, o período mais complicado da história recente, eu vivi direito. Quando dei por mim como ser vivente, já estava tudo se encaminhando para Tancredo e a Nova República. E depois, o mundo político foi mais ou menos sempre um levar com o abdômen o status quo, sem grandes mudanças.

Nas aulas de História no colégio eu até ficava pensando em como teria sido viver em situações e momentos terríveis, mas como um exercício mental mesmo. E não é que se vivesse um estado de coisas equilibrado, mas aparentemente estava meio dado que as coisas seriam meio essa pasmaceira. Sem muro de Berlim, as crises seriam sempre apenas marolinhas na boca dos experts e logo a pujança capitalista sanaria – num passe de mágica – dificuldades imensas, heranças terríveis como a escravidão e uma desigualdade econômica incontornável, sem par no mundo civilizado e que alimenta uma sociedade abertamente violenta, só na fachada feliz.

Não me espanta que morram agora 4000 pessoas/dia e nada aponte no cenário que a sociedade possa mudar o rumo das coisas. É claro. É claro que não. Vivemos no show de Truman, no show do Zuckerberg, causando uns aos outros e não queremos acreditar que essa é uma época trágica protagonizada por nós mesmos e que nos pegou infantilizados ao extremo. E quando eu vejo a geração de septuagenários morrendo, octogenários, eu fico meio em pânico porque com a sua memória se vai a lembrança de como era necessário ser bravo para viver.

Dê uma senha de wifi e umas moedas ao povo e está garantido o show de patetas que nós nos tornamos. Nem originalidade temos nas lamúrias todas iguais. É dar Ctrl + C e Ctrl + V e seguir adiante, num scroll-down sem fim. Mas se essa pandemia e esse governo for apenas o começo de uma crise maior, muito maior, nós ainda assim não hesitaremos em mentir aos nossos filhos e netos de que fizemos todo o possível. Na verdade, fizemos nada. Quase menos que salvar a própria pele, andando que nem baratas tontas, tal o nosso estado de desorientação.

Irrecuperáveis, 2Irrecuperáveis, 2

Não é lá muito comum que alguém acuse um insight, uma epifania, em razão de uma coisa banal como uma escova de dentes, mas pode acontecer. Não convém duvidar. A maioria das pessoas é pouco modesta com seus lampejos. Normalmente eles ocorrem em datas especiais, viagens, leituras, filmes, equinócios, etc. Comigo aconteceu numa escovação de dentes. E nem foi comigo, mas com o meu filho que, num belo dia, decidiu aposentar a sua escova de dentes modelo mirim.

(Quem não tem filhos não sabe como o mercado volta-se ao público infantil com uma gana impressionante e de forma cada vez mais precoce. Não é questão de mera oferta, é assédio mesmo. Tudo tem bichinho e personagem. É um universo de simbolização feito na marra, muitas vezes sem qualquer alternativa.

Não fossem inúmeros os casos de crianças que confundem o mundo real com a programação do Discovery Kids, tudo bem. Tratando-se do ser humano, nada muito estranho. Há adultos que acham que a vida é o programa do Datena ou reality shows sem fim. Acontece que, no caso dos infantes, o assédio ocorre cada vez mais precocemente e não adianta que se poste aqui e ali que não se deve, por exemplo, permitir o acesso das crianças ao conteúdo dos apetrechos midiáticos se está todo mundo o tempo inteiro grudado neles. Estamos todos envolvidos pela mão e abraço invisível do mercado de uma forma ou de outra, não adianta.

Além disso, é um tipo peculiar de injustiça a privação das crianças a esse mundo, pois, afinal, o que mais elas querem é compartilhar do modo de vida dos que a cercam e não há nesse desejo crime algum, afinal nós mesmos damos prova o tempo inteiro de que ele é irresistível. As crianças costumam ser as primeiras a notar e observar essa injustiça. Os efeitos disso fazem parte doutra discussão, doutro capítulo da história toda.)

Quem não tem filhos com alguma deficiência intelectual, como o meu, que nasceu com a síndrome de Down, dificilmente valorizaria um acontecimento banal como esse. É que isso é uma coisa um pouco mais complicada quando você ouviu por anos a fio que ele seria uma eterna criança, e leu livros que confirmavam isso e ouviu isso de médicos e chegou a pensar que, afinal, nada mais haveria a ser feito quanto a isso, quanto a qualquer coisa. Isso é bastante terrível do ponto de vista comportamental e emocional, mas principalmente enganoso, pois a infância não é um intervalo mental, mas temporal. Não dá para ser criança a vida inteira sob nenhum aspecto. A adolescência é disruptiva. Basta que se deixe a pessoa expressar sua potência hormonal, seu desejo social, sua curiosidade natural.

Mas acontece que, num extremo, alguém inventou (provavelmente um vendedor) que a adolescência é um fenômeno cultural. Que um dia se é criança e, no outro, adulto. No outro, que é meramente biológico. Antes a pessoa não reproduzia, agora reproduz. Numa zona cinza e imprecisa entre estes dois pólos talvez haja alguma verdade. Só que, quando se trata de alguém que tem uma deficiência intelectual, opera-se a magia do congelamento e da negação do desenvolvimento. Na verdade não é magia nenhuma, mas apenas violência e coerção.

Quando eu falo em livros, não estou pensando aqui na literatura ficcional porque acho que sua nuance é outra, mas na literatura científica mesmo. Na literatura que achou de dar ao nome de “idade mental” a um determinado apanhado das capacidades cognitivas das pessoas. A um tracejado numa escala.

Sem dúvida o psicólogo francês Alfred Binet nunca imaginou que sua terminologia fosse resumida cerca de um século depois de sua criação num amontoado de xingamentos. Binet foi o cientista que cunhou os termos “idiota”, “imbecil” e “débil mental” para designar scores de um teste que, noves fora, não é muito melhor que um nametest desses que todos os dias circulam nas redes sociais. É científico na mesma medida em que toda a ciência depende de um comportamento autônomo e imprevisível. Tornar a inteligência previsível e presumível em seu potencial era o seu objetivo, além de determinar o quociente de “educabilidade” de cada pessoa. Seu estudo foi bem mais elaborado que o de Francis Galton, o “pai” da eugenia, mas sem dúvida alicerçou-se nele e nas crenças comuns à época. Em outros lugares do mundo, estes estudos tiveram como objetivo a elaboração e execução de políticas de saúde com base em seleção negativa. Binet não tem culpa nisso, mas lançou bases conceituais e terminológicas que ainda hoje perduram. E isso sim é demonstrativo de certa estagnação.

Muita água rolou desde Binet, mas o legado ficou. E seus termos também, com exceção do “débil” que em meados dos anos 60 os psicólogos e estudiosos da mente conseguiram evoluir para “retardo”. Hoje, usam-se ambos na mesma acepção: como xingamento. Para efeito prático, quase nada mudou e mesmo autores difundidos na atualidade fundamentam-se em modelagem, reprogramação e condicionamento, travestindo de novos conceitos práticas bem conhecidas há décadas, tudo por conquistar uma “mente suficientemente boa” e diminuir o estranhamento social de terceiros, nem que para isso se lance mão de correção plástica.

No meu modo de entender, a psicologia, a psicanálise e a psiquiatria fizeram muito pouco pela deficiência intelectual, quase nada, a não ser a recriação de testes e espaços de clausura e estranhamento, presumivelmente “científicos”. Muito mais fizeram os próprios pais e mães com a ajuda principalmente de uma gama de profissionais e terapeutas via de regra menosprezados. Na minha opinião, trata-se de pessoas que merecem muito mais do que costumam receber de reconhecimento. Mas não são “doutores”, então costumam estar numa escala de importância diminuída. Bem, não no meu conceito. Para mim, são os verdadeiros experts e eu os respeito imensamente.
Toda essa explicação certamente não explica o porquê da epifania da escova de dentes, mas eu fico muito feliz em ter na minha casa a comprovação de que o conceito de “idade mental” é mais uma convenção infeliz da ciência. E isso porque foi banalizado ao extremo e deturpado quando empregado para denominar o comportamento humano.

Eu realmente não entendo qual a dificuldade em assumir que trazemos em nós mesmos todas as idades e que precisamos brincar na mesma medida em que precisamos comer, dormir e tudo o mais. E que estamos sempre sendo seduzidos por imagens e simbolizações com forte apelo infantil. Essa nova interface do Facebook, por exemplo, é autoilustrativa. De mais a mais, não conheço muitos voluntários ao trabalho maçante, muito mais ao ócio recreativo. Exceções há, de quem faça exclusivamente o trabalho que preferiria, mas é uma proporção ridícula.

É muito difícil para qualquer adulto não ter de lidar com a própria criança, suas expectativas, frustrações, birras, traumas, etc. A maior parte do comportamento adulto, aliás, é embrionária da primeira infância – e é provavelmente daí que algumas pessoas se preocupem mais que outras a respeito da importância dos efeitos da virtualidade na infância. E outros se preocupem mais até com a virtualidade do que com o real.. Ao custo de transformar o mundo virtual numa versão digital do pátio do colégio onde estão todos a puxar os cabelos uns dos outros, maldizer, formar guetos, paparicar e maltratar, o que eu vejo são crianças grandes por tudo, e nada disso tem a ver com “idade mental”, mas por escolhas em tese refletidas. Em tese.

Há exatos quatro anos eu escrevi um texto que eu lembro que na época impressionou muita gente. Nele eu comentava, entre outras coisas, que meu filho não tinha noção de que tinha nascido com a síndrome de Down. Isso porque, em primeiro lugar, eu não tinha segurança de “como” e “se” devia explicar isso a ele. Segundo, porque achava que ele não entenderia e nem precisava entender esse conceito clínico. A questão da trissomia do gen 21 e também os efeitos disso na sua vida mental, comportamental, etc. Continuamos na mesma aqui e, por mim, assim permanecerá.

Amigos e pessoas próximas chegaram a tentar me dizer que eu “tinha de”, que era meu dever explicar a ele no que consistiam seus limites e dificuldades cognitivas. E que isso seria benéfico para ele. Eu fico pensando em porquê teria de explicar a ele somente os “dele” mesmo. É um tipo de reforço positivo que me escapa? E os meus limites? E os de todo o mundo? Não é preciso? Não. Não vou mesmo!

Assim como a adolescência que aposenta escovas de dentes de bonequinhos, os próprios bonequinhos e outras infantilidades, o que mesmo vou dizer a ele a esse respeito? De que desista de crescer? Mas o que ele fará então com seu corpo, com sua mente, com a sua imensa energia vital? Querem que, terapeuticamente, eu o detenha no chiqueirinho dos bebês? Isso parece mesmo possível? E outra, quem é que vai combinar com os russos, isto é, com ele mesmo? Negativo. Eu fora.

Convivam os outros com suas dificuldades de assimilação. Eu sempre tive certeza de que minha única função em sua vida não seria melhor do que a de um frentista, e serviria apenas para lhe injetar combustível e dissolver o quanto possível, do para-brisa, a fuligem do mundo, que é imensa e definitivamente não lhe pertence.

Primeiro foram os super heróis guardados numa caixa, e esquecidos. Mais tarde, as músicas de criança, os brinquedos, as roupas, tudo.. Eu já nem me apego mais nisso. Não tenho mais saudade do molequinho.

Como aquele antropoide de Oliver Stone que, em “2001” joga para o alto o fêmur de uma fera, libertando-se da condição animalesca e adentrando no território do homo sapiens, o meu guri tascou longe a escova de dentes do Mickey Mouse e junto dela foi-se o teste de QI. Agora só quer ouvir rock and roll (ele acha que Ed Sheeran e Justin Bieber são roqueiros, mas tudo bem), que não lhe mandem tomar banho e que não encham o saco desnecessariamente com coisas menos importantes. Ele não quer mais saber. E nem eu.

Laranja mágicaLaranja mágica

Quando eu tinha acho que uns oito ou nove anos, mais provável que nove, fiz amizade com um menino muito pobre, de uma família que consistia nele apenas e sua mãe.

Moravam os dois numa casinha porta e janela de uma transversal da nossa rua, num prolongamento de chão batido que margeava o arroio morto e alagadiço do Povo Novo, em Bagé. Um lugar sempre úmido e que, nos meses de inverno, parecia de um frio ártico, mas, na realidade, era ainda um pouco mais frio que isso, porque lá a geada chegava antes.

Lá eu estive pela primeira vez a seu convite porque seria o “dia da laranja mágica” e como eu havia lhe emprestado a minha bicicleta para ele dar duas voltas no quarteirão sem pedir de volta, ele disse que seria sempre meu amigo e que, pela minha amizade, dividiria a única laranja mágica daquele ano comigo.

Era um anúncio estranho porque, afinal, para mim, laranja era tudo igual. Não entendia como poderia haver uma que fosse mágica do modo que eu entendia as coisas mágicas, isto é, soltando raios e etc.

Na sua casa, atravessamos um corredorzinho tão estreito que quase precisamos passar caminhando de lado e chegamos a um portão que parecia dar para um pátio, mas um pátio sem fim, sem muros, sem margens, como fosse a campanha. A menos de dois passos, uma laranjeira quase nua, com os galhos tomados de parasitas, limo e líquen e uma barba de ancião. Árvore anã que alcançaríamos mal estendendo o braço e na qual uma laranja só, uma única laranja de tamanho normal, aparência levemente ruim, cascarrenta mesmo, parecia dormir na árvore miserável. Eu entendi que era ela a laranja mágica, mas respeitosamente silenciei quando ele ergueu o braço, arrancou o fruto e o depositou em minhas mãos.

Eu estava tocando o seu umbigo quando ele me chamou com um “Vem!” para dentro de casa. Disse mais com o gesto de cabeça do que com o convite e fui seguindo seus passos até dar numa pequena cozinha na qual cabia apenas uma mesa de fórmica e duas cadeiras, um armário de chão, o fogão a lenha e uma geladeira que devia regular de idade com a árvore.

“Onde tá tua mãe?”, perguntei-lhe intrigado com a casa totalmente aberta, sem chaves, com apenas a porta encostada. “Limpando”, explicou e entendi que estava fazendo isso a trabalho, mas não perguntei mais nada. Sentados um de frente para o outro, com a laranja posando como um troféu dentro de um prato Duralex, ele disse para que eu me preparasse e, mais rápido que eu entendesse, ele como que enrolou e desenrolou a laranja das mãos voltando completamente descascada, branca como uma lua nova, sem uma rugosidade, sem um naquinho de casca.

“Prova!”, ordenou, e colocou-a de volta no prato.

“Anda, come toda!”, impacientou-se. “Come duma vez!”, repetiu como se estivesse bravo e eu obedeci. Como um favo de mel, o fruto drenou para dentro da minha boca e eu percebi que tinha uma sede imensa, ancestral, que a laranja me saciava e era como eu sentisse a sede morrendo e o bem estar da fruta me inundava e, então, engoli toda aquela laranja enquanto ele ria, ria a não poder mais, como se eu lhe providenciasse um espetáculo insólito, uma bestificação.

De volta ao pátio, a noite fria de inverno, escura, anunciava-se tenebrosa ali, pois a rua não tinha iluminação pública. Pela vidraça, notamos que sua mãe regressara e já acendera a luz da cozinha. Sem mais frutos, a laranjeira parecia estéril e nua como o contorno da lua nova no céu marinho.

Minha hora de voltar estava chegando e eu não sabia o que dizer ao meu novo amigo, mas precisava voltar para casa. Olhei a bicicleta encostada junto à porta e passei por ela sem remorso, não a levei comigo. Minha casa não era tão longe que eu não chegasse a pé e logo haveria um Natal que o pai me desse outra, se tudo andasse bem no colégio. Que me custava andar? Diria ao pai que a perdera numa aposta, uma questão de honra incontornável. Eu já ia pra dez anos dali a um pouco, uma boa idade pra sentar o juízo.