Um dia, disse a minha filha que no passado eu havia sido um tenorista. Ela perguntou: “Terrorista??” Não, menina, tenorista vem de tenor, de sax tenor. No passado, fui um saxofonista (ou o projeto de um), disse e ela entendeu, claro, porque já havia me escutado tocando nas raras vezes que tenho tirado o tenor do estojo nestes últimos tempos.
Ontem, num post que publiquei no Facebook e comentava dos meus primeiros anos em Porto Alegre, uma amiga desde antes de Porto Alegre lembrou que naquele mesmo ano, nos pátios e corredores do Julinho (o colégio), eu às vezes levava o sax para tocar. Sempre que eu fiz isso foi provocado, nunca foi uma exibição gratuita, embora fosse este um direito a me assistir. Não, não era o caso. Eu não queria “causar” no colégio, mas no Julinho, em 1988, tinha muita gente que tocava um instrumento. Muitos iniciantes que depois estudaram a valer, profissionalizaram-se, etc. Não foi o meu caso. Isso não aconteceu comigo, mas de modo algum eu fui vencido pelo sax. Eu cheguei mesmo a dominar o instrumento, a sentir que podia fazer com ele o que eu bem queria. Aliás, é uma sensação indescritível..
Mas o post me fez lembrar de coisas que aconteceram naquele ano longínquo. Bateu uma nostalgia aqui? Não, talvez um pouquinho só, mas as histórias desse tempo são muito importantes na minha vida, apesar de eu quase nunca tratar dessas memórias. Pelo menos nunca até este momento.
Em 1988, o Julinho (apelido carinhoso do Colégio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre) era uma espécie de laboratório populacional. Gente de todo o tipo e partes da cidade vinham estudar ali, numa escola ainda muito boa e que tinha excelentes professores e uma diversidade invejável de tipos adolescentes. Além das pessoas, o Julinho era uma escola tão politizada ainda que chegava a haver facções sectárias disputando os espaços representativos do colégio: o grêmio estudantil e o centro acadêmico fundado por Leonel Brizola na década de 40 (eu mesmo vi a ata de fundação assinada por ele). Mas, enfim, o Julinho tem muitas histórias e por ali passaram pessoas que começaram coisas decisivas no estado do RS, como o movimento tradicionalista e o movimento ecológico. Mas não foi bem isso que eu encontrei e nem esse é o meu foco aqui.
Quando cheguei ali, eu estava interessado era naquela fauna e fiz amigos entre todos os guetos e subguetos do colégio: do time de basquete aos politizados, dos punks e pré-góticos aos últimos espécimes do bicho-grilismo, do povo do Partenon aos moradores do Bom Fim. Era muito bom… Tinha dias que ia para o colégio de manhã e voltava só pela noite. Nesse meio tempo foi que conheci o pessoal da música. Pessoal ainda hippie no modo de viver, isso em 1988. Gente que fazia artesanato para vender na Praça da Alfândega e muitos deles tocavam violão, guitarra, etc. Foi este o primeiro público do meu velho tenor. Eles queriam porque queriam me ver tocar e, mesmo sendo um iniciante, ok para mim. Desde ali comecei a levar o tenor para o colégio, sem atentar na atração em que isso se transformou..
Quem me alertou quanto a isso foi um bom amigo daqueles dias, chamado Zé, como o da marchinha do Nelson Coelho de Castro. O Zé era uma figura muito especial. Tinha sido presidente do grêmio, depois se afastou, mas ele andava sempre por ali porque o colégio era um ponto de encontro. Igual a mim, o Zé gostava de poesia e escrevia umas coisas, desenhava muito bem, tocava um violão menor que o mediano, mas era uma figura entusiasmada e que queria participar de tudo. Figuras que hoje não encontro mais na vida. Se encontro, nas redes, também quase nunca posso ter certeza.
Eu tentei ensinar o Zé a tocar o tenor. Dizia para ele que um cara negro tinha muito mais a ver com o instrumento do que eu, mas não deu muito certo. O tenor é assim. Requer um adestramento mútuo. O som começa na boca e, antes da boca, na alma. Não dá para “arranhar” o tenor e, até que o som saia “adestrado”, vai um longo tempo de incomodação aos demais. O Zé me devolvia o instrumento e dizia que eu tocasse que as gurias estavam vindo. Na prática, eu era um grande chamariz para o Zé, o pilantra. Só que atraí também os enciumados cabeludos das guitarras.. Fazer o quê? Lamento, quando o senhor tenor chega, não tem para ninguém mais.
Um destes “rivais”, hoje um excelente músico e professor, gostava muito de me provocar. Toca isso, toca aquilo, ele dizia. Eu não caía na dele, tocava o que eu queria: especialmente o Love Theme de Blade Runner e a trilha de 37,2 Le Matin, ou simplesmente Betty Blue..
O Zé delirava porque realmente o pessoal chegava para conferir. Ninguém que toque um tenor por aí passa despercebido e eu, nesse época, “me encarnei” no negócio. Tocava em qualquer lugar: na sacada de casa, virado para dentro do armário, no arco da Redenção, no Jardim Botânico.. Onde me tolerassem estava eu tocando a blue note indefectível de Betty Blue e praticando mais coisas que eu mesmo inventava do que o professor me passava. É incomparável, mas não é errado dizer que eu me tornei uma espécie de Sonny Rollins porto-alegrense, praticando incansavelmente da mesma forma que o grande Sonny fazia na ponte de Manhattan, claro, com as devidas proporções..
Enquanto o Zé andava às voltas com as gurias, eu, nessa época, só tinha olhos para uma. Então não é justo que me acusem que eu usava o tenor como um instrumento de sedução. Eu queria tocar mesmo e, com meu esforço solitário e heroico, consegui reunir coragem para desafiar o Jimmy Page do Julinho, que me olhava sempre de cima com um sorrisinho irônico. Numa jam bucólica realizada numa noite daquelas, alguém ficou desmoralizado e não fui eu.. hehe Saí de lá com a minha namorada e com os amigos enquanto o pobre diabo ficou tentando remendar as cordas do seu violão e voltar sozinho para casa igual a um humilhado bluesman. Meses mais tarde, tocamos juntos num bar medonho que haviam inaugurado em Ipanema e fizemos as pazes, mantido o devido respeito.
Não é nostalgia, certo? É, sim.. Eu aproveitei a minha adolescência o quanto pude, mas ela não durou muito mais. Mais alguns anos de idas e vindas e o mundo deu meia volta, tão logo o muro de Berlim veio abaixo. Os anos 90, yuppies e certinhos, extinguiram aqueles tipos de Porto Alegre. De repente, instaurou-se a monotonia consumista que ainda vigora. Embora nesses dias calorentos eu ouvi alguém praticando alguma coisa interessante aqui perto. Se eu cruzo com ele ou ela não me custa pegar do estojo e lustrar um pouquinho o tenor para que ele não faça muito feio.