37,2 le matin

Um dia, disse a minha filha que no passado eu havia sido um tenorista. Ela perguntou: “Terrorista??” Não, menina, tenorista vem de tenor, de sax tenor. No passado, fui um saxofonista (ou o projeto de um), disse e ela entendeu, claro, porque já havia me escutado tocando nas raras vezes que tenho tirado o tenor do estojo nestes últimos tempos.

Ontem, num post que publiquei no Facebook e comentava dos meus primeiros anos em Porto Alegre, uma amiga desde antes de Porto Alegre lembrou que naquele mesmo ano, nos pátios e corredores do Julinho (o colégio), eu às vezes levava o sax para tocar. Sempre que eu fiz isso foi provocado, nunca foi uma exibição gratuita, embora fosse este um direito a me assistir. Não, não era o caso. Eu não queria “causar” no colégio, mas no Julinho, em 1988, tinha muita gente que tocava um instrumento. Muitos iniciantes que depois estudaram a valer, profissionalizaram-se, etc. Não foi o meu caso. Isso não aconteceu comigo, mas de modo algum eu fui vencido pelo sax. Eu cheguei mesmo a dominar o instrumento, a sentir que podia fazer com ele o que eu bem queria. Aliás, é uma sensação indescritível..

Mas o post me fez lembrar de coisas que aconteceram naquele ano longínquo. Bateu uma nostalgia aqui? Não, talvez um pouquinho só, mas as histórias desse tempo são muito importantes na minha vida, apesar de eu quase nunca tratar dessas memórias. Pelo menos nunca até este momento.

Em 1988, o Julinho (apelido carinhoso do Colégio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre) era uma espécie de laboratório populacional. Gente de todo o tipo e partes da cidade vinham estudar ali, numa escola ainda muito boa e que tinha excelentes professores e uma diversidade invejável de tipos adolescentes. Além das pessoas, o Julinho era uma escola tão politizada ainda que chegava a haver facções sectárias disputando os espaços representativos do colégio: o grêmio estudantil e o centro acadêmico fundado por Leonel Brizola na década de 40 (eu mesmo vi a ata de fundação assinada por ele). Mas, enfim, o Julinho tem muitas histórias e por ali passaram pessoas que começaram coisas decisivas no estado do RS, como o movimento tradicionalista e o movimento ecológico. Mas não foi bem isso que eu encontrei e nem esse é o meu foco aqui.

Quando cheguei ali, eu estava interessado era naquela fauna e fiz amigos entre todos os guetos e subguetos do colégio: do time de basquete aos politizados, dos punks e pré-góticos aos últimos espécimes do bicho-grilismo, do povo do Partenon aos moradores do Bom Fim. Era muito bom… Tinha dias que ia para o colégio de manhã e voltava só pela noite. Nesse meio tempo foi que conheci o pessoal da música. Pessoal ainda hippie no modo de viver, isso em 1988. Gente que fazia artesanato para vender na Praça da Alfândega e muitos deles tocavam violão, guitarra, etc. Foi este o primeiro público do meu velho tenor. Eles queriam porque queriam me ver tocar e, mesmo sendo um iniciante, ok para mim. Desde ali comecei a levar o tenor para o colégio, sem atentar na atração em que isso se transformou..

Quem me alertou quanto a isso foi um bom amigo daqueles dias, chamado Zé, como o da marchinha do Nelson Coelho de Castro. O Zé era uma figura muito especial. Tinha sido presidente do grêmio, depois se afastou, mas ele andava sempre por ali porque o colégio era um ponto de encontro. Igual a mim, o Zé gostava de poesia e escrevia umas coisas, desenhava muito bem, tocava um violão menor que o mediano, mas era uma figura entusiasmada e que queria participar de tudo. Figuras que hoje não encontro mais na vida. Se encontro, nas redes, também quase nunca posso ter certeza.

Eu tentei ensinar o Zé a tocar o tenor. Dizia para ele que um cara negro tinha muito mais a ver com o instrumento do que eu, mas não deu muito certo. O tenor é assim. Requer um adestramento mútuo. O som começa na boca e, antes da boca, na alma. Não dá para “arranhar” o tenor e, até que o som saia “adestrado”, vai um longo tempo de incomodação aos demais. O Zé me devolvia o instrumento e dizia que eu tocasse que as gurias estavam vindo. Na prática, eu era um grande chamariz para o Zé, o pilantra. Só que atraí também os enciumados cabeludos das guitarras.. Fazer o quê? Lamento, quando o senhor tenor chega, não tem para ninguém mais.

Um destes “rivais”, hoje um excelente músico e professor, gostava muito de me provocar. Toca isso, toca aquilo, ele dizia. Eu não caía na dele, tocava o que eu queria: especialmente o Love Theme de Blade Runner e a trilha de 37,2 Le Matin, ou simplesmente Betty Blue..

O Zé delirava porque realmente o pessoal chegava para conferir. Ninguém que toque um tenor por aí passa despercebido e eu, nesse época, “me encarnei” no negócio. Tocava em qualquer lugar: na sacada de casa, virado para dentro do armário, no arco da Redenção, no Jardim Botânico.. Onde me tolerassem estava eu tocando a blue note indefectível de Betty Blue e praticando mais coisas que eu mesmo inventava do que o professor me passava. É incomparável, mas não é errado dizer que eu me tornei uma espécie de Sonny Rollins porto-alegrense, praticando incansavelmente da mesma forma que o grande Sonny fazia na ponte de Manhattan, claro, com as devidas proporções..

Enquanto o Zé andava às voltas com as gurias, eu, nessa época, só tinha olhos para uma. Então não é justo que me acusem que eu usava o tenor como um instrumento de sedução. Eu queria tocar mesmo e, com meu esforço solitário e heroico, consegui reunir coragem para desafiar o Jimmy Page do Julinho, que me olhava sempre de cima com um sorrisinho irônico. Numa jam bucólica realizada numa noite daquelas, alguém ficou desmoralizado e não fui eu.. hehe Saí de lá com a minha namorada e com os amigos enquanto o pobre diabo ficou tentando remendar as cordas do seu violão e voltar sozinho para casa igual a um humilhado bluesman. Meses mais tarde, tocamos juntos num bar medonho que haviam inaugurado em Ipanema e fizemos as pazes, mantido o devido respeito.

Não é nostalgia, certo? É, sim.. Eu aproveitei a minha adolescência o quanto pude, mas ela não durou muito mais. Mais alguns anos de idas e vindas e o mundo deu meia volta, tão logo o muro de Berlim veio abaixo. Os anos 90, yuppies e certinhos, extinguiram aqueles tipos de Porto Alegre. De repente, instaurou-se a monotonia consumista que ainda vigora. Embora nesses dias calorentos eu ouvi alguém praticando alguma coisa interessante aqui perto. Se eu cruzo com ele ou ela não me custa pegar do estojo e lustrar um pouquinho o tenor para que ele não faça muito feio.

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Entre a José Montaury e a Rua da Praia, num remoto ponto quase ao centro da Galeria Chaves, há um café no qual uma eterna reunião dos velhinhos do centro está sempre acontecendo.

Ninguém sabe quando o primeiro chegou até ali, mas fato é que o centro de Porto Alegre é gris como a cabeleira dos velhinhos que ainda não a perderam. Às vezes, de passar sem pressa naquele túnel, sento-me perto deles para ouvir-lhes algo. Algo de que os roube para uma crônica e não lhes falte, que não se rouba nada aos velhos. Isso não se faz.

O interessante deles, em sua conversa, é que os fatos políticos fazem confusões como a escalação dos clubes. E ninguém liga. Parece muito natural. Num alvoroço comedido, eles dizem que o Manga não podia ter tomado aquele gol tão fácil assim. Que o Brizola está na Austrália sem o que fazer, podia voltar e agitar a cabeça de quem às vezes nem parece tê-la. E outras sandices que parecem começar numa década, passar por outra e acabar em nenhuma, com seus olhos meio parados lamentando o futuro que não conhecerão.

Hoje cedo passava ali e notei um livro numa livraria nova e parei para olhar melhor. Nas mesas do café, um velhinho só, como um farol à espera de uma fisionomia conhecida. Sempre resta um, eu já disse. Menos quando as portas fecham no fim da tarde e eles somem como uma espécie de fantasmas vivos. Na calada da fatalidade da noite.

É o último dia da livraria, ela diz. Amanhã não estará mais ali. O ponto, diz a vendedora, se tornou caro demais para tão poucos leitores. O lugar é estranho e a vendedora diz que é a última livraria do centro. É a última que tenta vender ainda livros novos, de acordo com ela. Mas me parece que há outras, digo-lhe. Ela não sabe. As outras são sebos nas quais os velhinhos vivem a resvalar os olhos desinteressados em livros que não lerão mais do que o nome na capa e o título, pois eles já leram demais.

Apesar dos passos lentos, os velhinhos do centro desenham itinerários precisos nas ruelas. Mal um foi visto entrando ou saindo da Martins ou da Aurora, outro está atravessando a Praça da Alfândega. Sem sentarem-se, lógico, pois há os assaltos previsíveis e os achaques infalíveis.

Os passos lentos procuram caminhos mais curtos e às vezes somem nos táxis sem mais explicações. Para voltar amanhã, se o futuro assim permitir.

Ainda estrangeiro aqui, depois de tanto tempo, o único destino que me permito sonhar em Porto Alegre é me tornar um velhinho destes. Se é que já não me tornei..

Acídia ficcionalAcídia ficcional

Há um ano, mais de um ano, dois talvez, fui tomado pela acídia ficcional. Romances não me pegam mais: nem lançamentos premiados, às vezes nem monstros consagrados.

A doença chegou a levar que eu desenvolvesse a teoria da segunda chance, na qual uma pessoa teria uma chance de escrever um romance e outra, definitiva, no verso do mesmo romance. E acabou. Depois disso, gastos cara e coroa da moeda, soaria às esperanças do escritores como que o estridor do corvo de Poe: nunca mais..

A teoria não é injusta, de modo algum, e inclusive daria chance aos novos e incessantes autores. Seria como um ticket literário. Gastou, acabou. A vantagem secundária seria a de que poderíamos conhecer muito mais autores e não nos prenderíamos às garras do bom nome e da reputação. Afinal, mesmo autores de excelentes romances praticaram iniquidades e muitos publicaram às vezes mais por exigências contratuais do que por ânimo sincero.

Ânimo é a palavra, mas desânimo também. Eu sei, entendo que o problema está em mim e não nos livros. Não sempre. Há uma falta de paciência generalizada e essa é sempre uma boa ideia: dividir responsabilidades…

Mas não é isso. O problema também está menos na capacidade estilística dos autores que propriamente nas ideias. O problema são justamente as ideias e romances também são ideias. Às vezes, uma ideia só desenvolvida ao máximo. Mas, se por isso, por que não escrever a ideia simplesmente? Ou, melhor, porque a expressão da ideia não basta e é preciso lançar mão de tantas metáforas, alegorias, enredos?

Pensando bem, às vezes é isso mesmo que tem me atordoado nos romances. Certo exagero de engenhosidade ou, por outro lado, extremo apreço às ideias – tão extremo que se vê bem que sua principal qualidade é serem justamente ideológicos. E cansativos, por essa mesma razão, já que uma ideia apenas oferece o mesmo que um livro de duzentas páginas. Diante disso, é muito difícil que meu demônio do meio-dia não se manifeste. Logo ele (a acídia ficcional) aponta suas garras e toma – não raro para sempre – os livros das minhas mãos. E o pior: eu deixo…

E é tão real essa doença que ela não se verifica com outros gêneros. Livros teóricos, de não ficção (onde cabe o mundo), ou ensaios, ou contos o monstro preserva e leio com prazer, pois também é uma leitura como a da internet, em links e interrupções (talvez aí esteja a chave da questão). E a poesia também, que eu tenho repetido que vai salvar a literatura por sua brevidade de forma – mas também por sua carga concentrada de sentido, às vezes muito maior que toda a lista da ficção mais vendida da semana.

Eu não tenho dúvidas que a doença é minha ou está em mim (é pelo que eu torço – e que ela se vá dia desses). Mas vai se ver na pilha de débitos e livros abandonados de cada um e se poderá perceber que se trate, talvez, de insuspeita pandemia…

DedicatóriasDedicatórias

Se tem uma coisa que me deixa atordoado ao comprar livros em sebos é me deparar com pequenos cartões, bilhetes e lembranças alheias dentro dos volumes. Não sinto isso e tenho nada contra anotações, grifos e marcas de leitura. Mesmo pequenos rasgões não me incomodam, mas cartões de hotel, invólucros de chocolates e até mesmo pétalas e folhas pequenas me deixam inquieto, como se estivesse invadindo a intimidade de alguém. Parece que os livros são, na verdade, simples adereços e que existem apenas para enfeitar as pequenas relíquias esquecidas ou deixadas em seu interior.

Porque ninguém é imortal ou faraó do Egito antigo, já comprei livros em sebos de pessoas conhecidas. Até mesmo de escritores famosos. Às vezes assinados, noutras autografados e dedicados, precisavam de um destino e, mesmo não sabendo que seriam as minhas mãos e olhos, sei que fizeram longas, inimagináveis viagens até que eu flagrasse seus nomes ali dentro. A sensação (absurda, eu sei) é de uma espécie estranha de furto, como se estivesse me intrometendo na memória alheia, reduto último da individualidade. Muitos escritores e colecionadores têm grandes bibliotecas e às vezes, por falta de outra opção, seus livros acabam indo parar nos sebos.

Aqui, em Porto Alegre, já comprei livros que foram de Laci Osório, Manoelito de Ornellas e Caio Fernando Abreu. Também tenho alguns livros com um carimbo não identificado que muito me intriga. Um ex-libris com uma frase em latim e uma criatura mitológica que desconheço. Mas o mais estranho que já me aconteceu foi ter comprado um livro provavelmente presenteado a alguém e que tinha uma dedicatória apaixonadíssima não endereçada e nem assinada. No lugar dos nomes, apenas as iniciais “M L” no cabeçalho e uma única letra “D” no rodapé. Entre um e outro, uma declaração de amor eterno, é claro, e um convite para um encontro num banco de praça, “sob a paineira encachopada”.

Acho que comprei o livro mais pela dedicatória que pelo conteúdo, é provável que sim… Logo ao sair do sebo e procurar o caminho de casa e depois de tanto ficar ali dentro, precisava fumar (nessa época ainda fumava) e, de preferência, acompanhado de um bom café. Ali perto não havia onde encontrar o café, mas a carteira de cigarros consegui comprar numa tabacaria modesta. Pensava em quando teria disposição para abandonar o vício, andava pensando muito nisso naqueles dias, mas não seria naquele momento. “Um dia desses eu paro”, era como eu me auto enganava sobre a resolução, sempre adiada.

Com o cigarro entre os lábios e fumaceando a avenida, decidi atalhar pela Redenção. Ganharia uns bons quinze minutos se o fizesse e ainda aproveitaria o restinho do sol da tarde de inverno. Já não havia tanto por ali namorados fazendo hora, mas, à direita do meu caminho, notei que havia um casal bem jovem que brigava amargamente, entre lágrimas, gestos e as costumeiras e inúteis reparações discursivas. A cena lamentável, de amargar, chegava a pedir que tentasse ajudá-los a encontrar um acordo, mas o bom senso mantinha-me à distância. Se tivesse apressado o passo, poderia tê-la escutado dizer qualquer coisa antes de dar as costas ao jovem e partir rumo a Osvaldo Aranha de onde eu viera. Mesmo assim, o chão de terra teria abafado o impacto de um livro que ela deixou no chão e ele não sabia se a seguia ou se pegava o volume do chão. No fim das contas, não se agachou e foi atrás dela até um pedaço do caminho sem, no entanto, alcançá-la. Depois, parecendo ter caído em si, parou e tomou a direção oposta. Rumo ao chafariz central ou além.

Desacelerando o passo, observei a cena o quanto pude. Os dois caminhos distintos, os destinos de um e de outro também. No meu trajeto, ficara apenas o livro abandonado e, por força do hábito, agachei-me para pegá-lo do chão, quase ao pé de uma árvore de tronco espinhento que havia ali (não posso dizer se uma paineira, porque não guardo nome de árvores). Julgando-o pela capa, não parecia valer mais que o jornal do dia. Mesmo assim, folheei rapidamente sem saber o que fazer com a brochura. Jogaria ao lixo? Correria atrás de um deles para devolvê-lo? Atrás dele? Dela? Não, melhor nada. Talvez o livro fosse aproveitável, porque nenhum livro deve ser julgado pela capa, não é mesmo? Levaria comigo. Algum espacinho haveria para guardá-lo em casa. Na verdade, já tinha tudo planejado: guardaria o comprado junto ao encontrado e leria a ambos, um dia desses, com o mesmo cuidado, pelo menos até onde fosse possível… Mais cedo ou mais tarde eu perceberia que ilustravam um e outro a mesma dedicatória, apesar de outras iniciais. Sem dúvida não se tratava das mesmas pessoas, mas nenhuma dúvida que do mesmo amor.