Novembro

Novembro me tirou meia dúzia
de palavras soltas na boca.

Palavras que, pensando bem,
não levariam a nada.

A não ser que me levassem a outro Natal,
esqueci o que faziam ali. E desde aí
inventaram a revolta de lançar-se fora
por conta própria — mas então já era dezembro.

Dezembro, que é mês de esperanças, ciladas
e estranhezas delicadas como esquecer.

Há prazos que pesam nos fatos demais,
as uvas açulando as raposas
com as mesmas mentiras de sempre.

No centro deteriorado do verão
todos dormem ou, antes, partiram.

Cada palavra é uma trinca quimera
que não pode nos escolher.
Nós que a dizemos, diria-se.

E o calendário dependurado apenas
um acaso de víspora, uma pedra cega,
mera orelha de lince o ciclone final.

E agora já nada sobrará
dos famintos aos famintos.
A sede? Suspende-se.. A porta? Sumiu…

No ano que vem, meu bem,
viajaremos antes que se conclua a primavera.

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