Poesia Novembro

Novembro

Novembro me tirou meia dúzia
de palavras soltas na boca.

Palavras que, pensando bem,
não levariam a nada.

A não ser que me levassem a outro Natal,
esqueci o que faziam ali. E desde aí
inventaram a revolta de lançar-se fora
por conta própria — mas então já era dezembro.

Dezembro, que é mês de esperanças, ciladas
e estranhezas delicadas como esquecer.

Há prazos que pesam nos fatos demais,
as uvas açulando as raposas
com as mesmas mentiras de sempre.

No centro deteriorado do verão
todos dormem ou, antes, partiram.

Cada palavra é uma trinca quimera
que não pode nos escolher.
Nós que a dizemos, diria-se.

E o calendário dependurado apenas
um acaso de víspora, uma pedra cega,
mera orelha de lince o ciclone final.

E agora já nada sobrará
dos famintos aos famintos.
A sede? Suspende-se.. A porta? Sumiu…

No ano que vem, meu bem,
viajaremos antes que se conclua a primavera.

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Edna St. Vincent Millay (1892-1950)
trad. do inglês

Não aceito que vão abaixo, à terra dura, os corações afáveis.
Eu sei que é assim, tem sido assim, desde sempre:
Vão-se de uma vez só sábios e amáveis. Coroados
Com louros e lírios, partem; mas não me peçam que aceite.

Amantes e pensadores, todos ao fundo da terra!
Unam-se ao indistinto, à poeira, ao pó.
Um trecho ou dois é o que resta
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Eles se foram. Para o alimento das rosas curvilíneas. Elegantes
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Dyal ThakDyal Thak

Uma vaca pastando em uma colina seca com uma mulher vestindo um robe ao fundo, sob um céu azul e uma lua cheia visível.

Há dias, não, meses, que tenho esta imagem guardada comigo.

Tomei-a de uma revista de fotografia pensando que um dia escreveria um poema a partir dela.

Há poucos dias (não, meses), compreendi também que não escreveria mais poesia.

Algo em mim havia se tornado impermeável. Fracassava qualquer desejo de mostrar o que não está posto, tentar essa revelação a frio, a seco, que há em oferecer sentidos a mais, outra perspectiva ao óbvio de uma imagem bidimensional.

Nada posso acrescentar a essa imagem. Não posso colocar a lua no céu, ela já está lá. O animal pastando é uma constância, estará sempre assim. E o olhar da mulher, indefinido, eu o reconheço: é o mesmo meu.

Sinto em mim, em relação à poesia, uma fadiga como a dos metais. O aço que estourou mesmo sem nada suportar, como se fosse ao mesmo tempo o vórtice do mundo real.

Deste vórtice eu me afastei sem sentir tristeza por isso, apenas um pouco de saudade de quando sentia que conseguia ainda vivificar as imagens do pensamento. Era uma sensação muito poderosa, indescritivelmente poderosa, mas da qual, agora, guardo uma distância imprecisa e respeitosa.

A poesia requer, eu acho, uma ingenuidade incompatível com o ponto de vista de quem observa e analisa. O poeta observa para ver melhor e entrega o que vê de uma forma que cause espanto aos demais a cegueira em que ele mesmo se encontra. Ele entrega o que tateia e, por isso, temos sempre uma relação de admiração piedosa com estas pessoas. Eles não sabem e sabem que não sabem, pois estão sempre em busca desta confirmação.

Seja como for, e eu não sei mais do que isto, estou tranquilo com a lua no céu e sua desproporção. Estou tranquilo com o bovino matando a sua fome. Estou tranquilo como a paisagem que a mulher olha e não podemos saber o que é.

O que eu desejaria escrever em poesia é como essa paisagem: é o que eu não sei, o que não foi me dado ver. E, sabendo que é isso, apenas, e tudo que me importa, então tudo está dito.

A fotografia é de autoria de Kin Coedel, de uma séria intitulada Dyal Thak (termo em tibetano que significa “laços mútuos” ou “conexão”)