A providência divina

“O melhor é que ela vá a Porto Alegre, buscar recursos. Se ela ficar por aqui, talvez não sobreviva”, o doutor recomendou quase segredando para mim e para o pai, enquanto ela ia ajeitar suas coisas e vestir-se em uma saleta anexa depois do exame demorado que ele fez em seu abdômen intumescido. Olhei para o pai e ele transparecia aflição, mas não dizia nada, olhando a ponta das botas um tanto encardidas contrastando o piso branco e o amarelado desbotado das paredes do pequeno consultório onde o médico nos recebia já pela terceira vez na semana. No meu juízo, ela piorava a olhos vistos e, pelo que vejo, no do médico também. O pai julgava seu estado melhor que o de antes, mas, mesmo contra todas as evidências, ele sempre queria acreditar no melhor, como esses cavalos de carroça a que tapam os olhos com viseiras para que não se assustem com o que está ao redor. No fundo, estava mais assustado do que ela mesma e apenas controlava-se para não transparecer.

O jeito era levá-los assim, administrando o temor dela e os delírios dele. Ir a Porto Alegre eles detestavam por princípio, mas que remédio? Antes de sairmos da saleta, o médico aproximou-se de mim e falou, nem tão baixinho que eles não pudessem ouvir, mas discretamente: “Hoje de tarde, sai um desses micro-ônibus. Se eu fosse vocês, aproveitava…”

A mãe já estava de volta ao consultório e despedia-se do doutor, tão velho quanto ela mesma, segurando suas duas mãos, como se fossem dançar juntos. E ela as sacudia com um pouco de aflição, enquanto o homem tentava disfarçadamente liberar-se daquele adeus demorado, dizendo-lhes coisas que eu nem distinguia porque pensava apenas no que deveríamos fazer; no que dizer aos maninhos; no que levar de roupas; onde pousar; no tempo que isso iria durar. Porém eu não sabia nada e ensaiava apenas fazer uma coisa primeiro e depois a outra, cuidando para não esquecer de nada. Na caminhonete velha do pai, o barulho era tão grande e estávamos tão absortos que no fim aquilo foi um bom pretexto para cada um de nós remoer a ideia de rumar à capital e ir organizando mentalmente tudo o que precisava ser feito. Se tudo der certo, e não há quem possa prever isso, voltamos amanhã bem cedo, pelo menos foi o que nos garantiu o motorista, mas quem há de saber os atrasos que podem acontecer?

Em casa, a melhor maneira de dar a notícia foi não dar muita chance para discussão, acordamos assim. Na chegada, como num édito, a mãe já foi dizendo aos guris: “Vocês não querem a toda hora brincar até não sei que horas com os primos de vocês? Pois então? Aproveitem!” Eles ingenuamente adoraram a ideia, mas sem deixar de ficar com aquele ar curioso de quem não está entendendo direito. Quando ameaçaram empacar, eu atalhei: “Vocês já são grandotes o suficiente para entender que a mãe precisa ir. Se Deus quiser, a mãe volta boa de lá. Torçam, viu?”

O Antônio não fez caso, mas o Miguel saiu de casa com os olhos vermelhos, lacrimejando, mas eu não deixei que a mãe os visse preocupados, peguei-a pelo braço e fomos escolher um vestido e outras roupas em estado decente; o pai foi junto para fazer o mesmo. Para ele, que usava bombachas mais do que calças, foi mais difícil encontrar uma que se ajustasse na cintura, mas não porque estivesse gordo demais, pelo contrário. De repente, não sabia como, todas as suas calças pareciam largas demais. E calças de brim não adiantava nem tentar que ele usasse. “Brim coringa? Deus o livre”, ele sempre dizia como se decretasse uma espécie de proibição. Mesmo assim, colocou uma dessas na bolsa de viagem. E outra de tecido mais leve, além de camisas de mangas curtas, porque a previsão do tempo era de calor intenso. E Porto Alegre no calorão todo o mundo diz que é o inferno.

Com tudo pronto, almoçados, vestidos, crianças despachadas, vamos ao hospital, de onde logo o ônibus partirá. O tio Juvenal nos levou em seu carro e a mãe prometeu trazer a ele um regalito na volta, no que ele respondeu antes de que subíssemos a escadinha do ônibus para nos acomodarmos entre os passageiros: “Só me traga boas noticiais, que está bueno demais…” e ficou por ali, dando voltas no lugar, conversando com um e com outro e depois não vi mais porque ganhamos a estrada.

A mãe e o pai ficaram comentando sobre os passageiros que conheciam. Filho de quem, casado com quem, vizinho de quem… A conversa foi aos poucos pesando em meus olhos e dormi; quando acordei, já havíamos até passado por Pantano Grande e em pouco chegaríamos às pontes sobre o Guaíba. Não sei do que eles falaram no caminho ou se dormiram, mas o ônibus estava lotado sem que eu percebesse de que forma. Acredito que o motorista tenha recolhido pessoas no caminho, só pode ser, ou parado em outra cidade. Talvez isso. Até gente em pé tinha ali dentro, mas todos em relativo silêncio, acredito que em respeito aos mais velhos que tentavam descansar.

“Olha, Maria…”, a mãe disse apontando as construções e prédios esbranquiçados, vistas de longe, que já eram Porto Alegre. “Onde será que vão nos largar?”, perguntou o pai. Um senhor que estava ali próximo, sentado do outro lado do corredor, respondeu: “Vamos ao Hospital das Clínicas… É a primeira viagem de vocês?”. Respondi com um gesto que sim e ele então começou a contar das tantas que já havia feito, dos médicos que o atendiam, da doença que o afetava e parecia, lá pelas tantas, que não pararia mais de falar. A mãe, assustada com o que ele narrava, acabrunhava-se e encolhia-se cada vez mais na poltrona. Eu então comecei a conversar sobre a paisagem e a altura da água no rio, porque já o atravessávamos e finalmente o homem resolveu aquietar-se, mais entretido com o telefone nas mãos do que com o que quer que fosse.

Entramos na cidade passando ao lado da Estação Rodoviária e rumamos direto ao hospital. O pai imaginava que faríamos o caminho do monumento do Laçador, mas não. “Este é o Parque da Redenção, pai, não está lembrado?”, perguntei-lhe. “Ah, é…”, respondeu. Logo deixamos o parque para trás e descemos bem em frente do hospital, meio estropiados pelo tempo que passamos sentados. Tivemos de ajudar a mãe a caminhar, porque um mau jeito a incomodava nas costas. O calor não era tão infernal quanto o imaginado, mas ainda assim bastante quente para fevereiro, talvez mais pela hora e pelo horário de verão que prolonga as tardes e seu próprio itinerário.

O motorista comunicou a todos que poderíamos deixar as bagagens no ônibus e que ele ficaria ali até que voltássemos. Indicou um banheiro público para os que precisassem, os vendedores ambulantes para lanches rápidos e um pequeno restaurante do outro lado da rua que, de acordo com ele, vendia comida honesta por preço honesto; por fim, mostrou o guichê de atendimento, onde haveríamos de esperar pela nossa vez, entre as dezenas de pessoas, o que aconteceria sabe-se lá a que horas do dia ou da noite. Ao ouvir isso, o pai retrocedeu um passo, como se fizesse menção de ir-se dali, mas segurei-o pelo braço e ele entendeu de não me puxar. A mãe pediu-me para levá-la ao banheiro antes de irmos à fila, mas o pai foi tentar encontrar onde sentar. “Preciso estar apresentável”, ela avisou-me no caminho.

“Aquele moço ali cedeu o lugar. E a sua esposa também…”, o pai comentou quando o encontramos no retorno ao grande saguão repleto de gente. Fiquei em pé ao lado deles e o tempo parecia que começava a engatinhar. “Estão com fome?”, perguntei a ambos. O pai fez que não com a cabeça. A mãe só pediu água. “Volto em seguida”, disse-lhes e saí do lugar pensando em respirar melhor e encontrar algo para comer também. O ar do lado de fora era tão denso ou mais até que o de dentro, modulado pelo ar-condicionado. Parecia formar-se uma armação rápida para a chuva. Temporal de verão, pensei comigo mesma.

Ao retornar, percebo que há uma pequena multidão em pé, reclamando e gesticulando. Não posso encontrar os velhos, mas vejo uma fila formando-se em torno do nosso ônibus. Eles estão lá. O motorista e algum funcionário do hospital explicavam a todos que não haveria mais condições de atender a ninguém hoje e, portanto, iríamos a outro hospital; e tentava dizer para que não nos preocupássemos que ele sabia bem o que fazia. O pai estava transtornado já e, ao me encontrar, foi logo esbravejando: “Mas isto é uma barbaridade. Parecemos gado aqui, tchê…”. Não tive o que falar porque concordava, mas não estava tão irritada quanto ele. A verdade é que não tínhamos opção e era o que eu tentava expressar sem dizer uma palavra, para não aumentar o desconforto todo, ampliado pelo calor crescente, prenúncio da chuvarada.

Com alguns dos passageiros decididos a permanecer ou porque tinham consulta ou outra razão que não sei, o ônibus voltou a percorrer as ruas e avenidas, até chegarmos à Santa Casa de Misericórdia, para o que contornamos o parque novamente, cruzando por cima de um viaduto e subindo um declive que o ônibus galgou demoradamente, esfumaçando a avenida. Refizemos o ritual de descer do ônibus, localizar os guichês, sentando quem podia sentar-se e esperar junto a todos os demais. “Agora a fome já está batendo um pouquito”, disse o pai, com o que ela concordou em gesto. Mas como vamos fazer para comer sem perder a vez? Pensei comigo mesma… “Vocês vão no andar de baixo, descendo aquela rampa, e encontrem lá o que comer. Eu fico aqui esperando”, disse depois de raciocinar por um instante. E, de ficar, fui perdendo a noção do tempo, mas provavelmente anoitecia já, porque mesmo com as nuvens densas a escuridão se acentuava rapidamente sob as luzes esbranquiçadas do hospital.

De repente, percebi que eles não retornavam e o tempo continuava a passar, afinal, não é só isso mesmo que ele faz? Parece que em breve será o nosso atendimento, então preciso tomar uma atitude. Decido ir buscá-los. Conto minha história a uma moça que também acompanha seu pai e peço que ela fique atenta se chamarem pelo nome da mãe: “Maria das Graças”, mas não tenho ideia do que ela poderia fazer por nós se não estivermos ali. Provavelmente, perdemos a vez…

No restaurante, nem sombra deles. Nada nos corredores também. E, igualmente, nada nos banheiros. Não sinto pânico, mas raiva pela situação. Onde é que estão os miseráveis? Logo, porém, a ira torna-se preocupação e a preocupação, por sua vez, vai se transformando em pânico. Um assalto, eu já imagino. Ou estão mortos jogados em algum canto aqui, nessa escuridão, onde não se acha nada; ou perderam-se no caminho, é o mais provável. O pai não quer saber de usar óculos e a mãe deve ter se espatifado no chão. As pessoas que passam sequer vão ajudar, provavelmente. Todos uns animais. Gente que perdeu a alma e não sabe. Como pode? Alguém morrer assim, justamente num hospital. Meu Deus do céu, onde se enfiou essa gente?

Saio a andar por tudo, perguntando a quem passa por mim se por acaso viu um casal de idade com jeito de andar perdido. Ela mais lerda que ele; ele tentando suportá-la. Sim, alguém lá pelas tantas disse que viu, mas há dúzias de casais de idade por ali, amparando-se às vezes em um filho, às vezes somente em si mesmos; como saber se seriam mesmo o pai e a mãe? Sinto o cansaço tomar conta do corpo e me ocorre ir até o ônibus. No caminho de ida, dá-se o que custei a imaginar, o pai vem de lá caminhando, quase de braços com um médico ou enfermeiro, não sei, com sua bolsa nas mãos e com uma expressão aliviada, quase sorridente. “Ah, minha filha, onde te enfiaste? Este aqui é o Alexandre, enfermeiro que me ajudou com a tua mãe. Tu já imaginaste que ela teve um princípio de desmaio bem na porta do restaurante? Gritei por ti, mas quem me acudiu foi esse moço aqui. Imaginas que ele conseguiu nem sei como uma internação às pressas?” Ele contava enquanto o tal enfermeiro me cumprimentava apertando os dedos da mão com o cuidado que lhe era possível.

“Vem com a gente”, disse-nos ele, “não temos ainda um quarto, mas vou providenciar um modo de acomodá-la. Seu pai pode ficar, mas não consigo lugar para mais ninguém”. Fomos seguindo-o e o pai respirava com mais confiança, mas sempre com aquele jeito meio lunático. O estado da mãe era grave, disso eu sabia, mas não me atrevia a pensar muito, para evitar de dizer sem querer.

Lá em cima, deixo que o pai acompanhe a mãe até ela sumir sobre a maca dentro dos corredores da sala de cirurgia e fico pensando no que será dela, no que será dele se ela faltar e também no que será de mim. E nos maninhos também, que a essa hora devem estar dormindo ou ouvindo histórias que só o tio Juvenal sabe contar, da sua infância passada toda para fora, na campanha, cavalos e assombrações, histórias que eles adoram mas que, para mim, nunca fizeram muito sentido. Neste cenário, sempre estive dentro de casa, trabalhando sem que ninguém notasse, junto à mãe, mas sem o que ninguém sequer comeria ou então viveriam na imundície. Naquele momento, com o pai ao meu lado, concordo comigo mesma sobre o quanto sou injusta, às vezes. Aqui está um homem que, além de não ser imundo, nunca foi um traste nem um peso na vida da mãe, pelo contrário. E, sem saber direito de que maneira e por que razão, começo a pensar já na volta para casa.

Sem vontade de dizer qualquer coisa, ficamos eu e o pai na janela do imenso corredor esperando notícias da cirurgia, mas o dia é imenso, parece que as horas foram dilatadas. E ficamos… Penso naquela mulher lá dentro e em tudo que perderíamos sem sua presença. Sem a mãe, o carreteiro de charque nunca mais sairia decente e perfumado. Nunca mais os blusões de lã seria retramados, de meada a novelo, de novelo a blusão novamente. O pão caseiro, como deve ser feito de verdade, seria extinto da face da terra. A doçura silenciosa dos seus olhos calaria em algum lugar dentro da gente, mas não a encontraríamos mais na sua residência correta. As paredes da casa pranteariam sua ausência e os olhos do pai e dos maninhos ficariam perdidos como o gado branco na cerração. E eu, eu nem sei o que seria de mim sem ela… No meio desses pensamentos, vejo que a porta do corredor transversal abre-se e surge dali o enfermeiro que continua sorridente. Ele então nos conta que tudo correu bem e que logo o médico virá nos explicar melhor, mas ele logo se vai, sumindo entre uma das infinitas portas do corredor imenso.

As explicações do médico são gregas, mas entendo que a mãe deverá ficar em observação por  uns dias e que, portanto, será necessário adiar os planos de voltar para casa. “Eu vou ficar”, apressei-me a dizer. “Mas o pai volta logo que der. Alguém tem que dar uma olhada nos maninhos, que ficaram na casa de um tio”, antecipei. O doutor despediu-se do pai, com expressão de quem está tranquilo e orientou o rapaz da enfermagem a guiar-nos até o quarto onde ficaríamos. Era um espaço apertado, mas ainda assim mais amplo que o meu próprio quarto de dormir. Fui até a janela e vi o ônibus lá embaixo, lembrando que minhas roupas estavam ainda lá e pensei que trocá-las seria uma boa ideia, assim como um banho quente. Disse ao pai que desceria e que ele se acomodasse um pouco que eu voltaria num instante.

Antes de sair, através do espelho do banheiro, vi então o rosto que o médico, o enfermeiro e todo o mundo estava vendo em mim. Uma cara de quem parecia louca, cabelos despenteados e sem corte, amarrados de qualquer jeito. Também… A Mariângela nunca tratou tão mal da clientela! Sempre apressada, virou uma espécie de cabeleireira a jato.

Ao voltar, o pai não está lá, mas encontro o enfermeiro nos corredores e ele me informa que o pai teve permissão de ir vê-la na sala de recuperação, em razão da viagem de volta e de seus pedidos insistentes. Não imagino o que ele tenha dito, talvez tenha apenas repetido a expressão de clemência mais ou menos habitual em seus olhos pacatos. Um pouco como os do pai, os olhos dele também me inspiram um tipo de pacificação. E quando ele diz que “Se precisar de qualquer coisa, pergunta pelo Alexandre. Em seguida o pessoal me encontra… Estou sempre por aí…” eu entendo que tudo vai ficar bem, mas é como uma crença mágica.

“Tu só não vai me levar os guris pra fora… Promete? Eles precisam estudar, pai… Deixa eles na casa do tio Juvenal. Fica mais fácil de controlar eles daqui. É só usar o telefone…”, eu digo-lhe quando finalmente retorna. Ele fica um pouco em dúvida e sei que, no fundo, nutre a vontade de que os guris sigam-no como fanáticos que eles são por ele. A verdade é que estar sozinho no meio do campo nessas horas é um pouco assustador, ainda mais que a comunicação é precária. “Compra pilhas pro rádio pro caso de faltar luz e leva os jornais pra ler. Eu vou ficar bem e ela também. Bem melhor aqui do que lá, né?”, eu digo-lhe e ele permanece quieto, mas está aflito por dividir-se entre o desejo de ficar e o ônibus lá embaixo ameaçando partir. “Tá, minha filha… Eu já vou, então…”, disse-me e despediu-se com um beijo em minha testa, como fazia desde que eu era criança, e se foi em busca da escada para descer ao térreo. Eu fiquei encostada à janela esperando vê-lo embarcar e, depois, fazendo nada, esperando a hora da mãe voltar da recuperação.

Como todo mundo sabe, esperar é o que mais se faz num hospital e na doença de uma maneira em geral. Sem nada para ler nem com o que me entreter, tentei ligar a televisão, espremendo-me no cantinho do quarto onde estava o sofá que deveria ser minha cama naqueles dias. No entanto a televisão não ligava e fiquei mexendo nas pilhas do controle remoto. Talvez elas estivessem gastas, assim como estavam bem gastos os botões do dispositivo. Estava naquilo quando o enfermeiro, o Alexandre, apareceu através da porta. “Vim ver se precisa de algo. A sua mãe não deve demorar muito a ser liberada…” Ele olhou no relógio de pulso e continuou: “Agora são quase nove e meia.. Acho que pela madrugada ou amanhã bem cedo.” Eu aproveitei e reclamei do controle remoto e do aparelho mais morto que vivo e ele foi gentil em tentar ajudar; prometeu arranjar pilhas novas que no máximo em meia hora estaria de volta. Dentro do prazo retornou mesmo e, depois de trocar as pilhas, a televisão finalmente pôde ser ligada. Quando foi embora, fiquei pensando em muita coisa, menos na programação do aparelho, que era um filme ou não sei o quê. Na mãe, que logo estaria aqui.; nos maninhos que estavam sem notícia alguma; no pai que estava a caminho; e até no Alexandre esse, que deveria ser um tipo de anjo ou coisa que o valha, apesar da cara meio feiosa, a pele esburacada de uma acne poderosa já cicatrizada e das mãos grosseiras contrastando o avental branco.

Mais do que me distrair, a televisão acabou servindo mesmo foi de sonífero, porém não demorou muito para que duas moças da enfermagem entrassem escancarando a porta, mas por uma justa razão: a mãe vinha com elas, ainda deitada sobre uma maca e mais dormindo que acordada. “Precisamos que nos ajude com a cama”, disse a mais nova delas e também a mais corpulenta. Arrumei com pressa o que pude e, tomando de seu corpo semidesacordado, conseguimos colocá-la, em gemidos, sobre a cama. As moças não falavam muito, mas instalaram soros e remédios em um cabide de pé e disseram que eu não me preocupasse e procurasse dormir também, porque ela estava medicada e deveria ficar sob o efeito dos remédios até o outro dia. “Qualquer coisa, aperte a campainha”, a enfermeira comentou apontando a tomada pendente do teto ao lado da sua cabeceira.

A mãe resmungava ainda e abriu brevemente os olhos, mas fiz com que ela não falasse tocando de leve em seus lábios. A expressão de cansaço inspirava compaixão, mas não queria que ela pressentisse isso e prometi que conversaríamos pela manhã, tomando o mate que não trouxéramos de casa… Ela gostou da ideia e fechou os olhos para voltar a abri-los somente bem mais tarde, na madrugada, quando a enfermagem voltou para checar o estado dos remédios e inspecionar sua temperatura, pressão e não sei que mais. Uma dor de cabeça insuportável havia se instalado e pedi um comprimido à enfermeira. Custaram tanto a trazer o remédio que acabei dormindo. Apenas vi que deixaram o comprimido sobre a mesa de cabeceira quando vi que deixavam silenciosamente o quarto, cuidando para não fazer muito barulho. Vi a mão puxando a porta e tive certeza que não era nenhuma das moças de antes, mas o Alexandre e suas manoplas.

Não sei bem a que horas foi, porque acordei com a mãe reclamando de dor, mas, ao despertar, percebi que a dor de cabeça havia felizmente passado. Para ela reclamar de alguma coisa, o incômodo deve ser mesmo grande. “Mãe! Tá tudo bem? Quer que eu chame alguém?”, perguntei já em pé a seu lado. Ela espremia as sobrancelhas e procurava minhas mãos, como se tentasse mudar de posição. Tinha passado muito tempo de barriga para cima e aquilo só podia mesmo complicar a situação do ciático. “Me ajuda a virar de lado”, pediu. “E depois abre essa janela. Já é dia, não é?”, perguntou. “Deve ser”, respondi. Com esforço, consegui virá-la um pouco e vi, entre os tecidos grosseiros do avental com que lhe cobriram o corpo, a extensão do curativo. Fiquei assustada e acho que ela percebeu, mas consegui não tocar no assunto. A vidraça estava emperrada e imunda, como se não visse água há muito e muito tempo. Eu tentava erguer inutilmente a folha inferior da janela quando o Alexandre oportunamente apareceu.

“Bom-dia”, ele falou ao mesmo tempo em que batia e abria levemente a porta, porque não precisava de autorização para entrar. “Me salva aqui!”, disse-lhe. “Isso aqui tá uma empacação…”, mostrei a janela e o meu esforço inútil em abri-la. Ele sorriu e pensei que era para a minha situação, mas não era. Ele sorriu para a mãe que, mesmo cheia de dores, queria dar ordens: “Deixa que o menino abre, minha filha”. E bem que eu fiz em obedecê-la, afinal o próprio enfermeiro quase não conseguiu abrir a janela, não fosse eu lhe ajudar. Lado a lado com ele, pareceu muito mais fácil.

Com a janela enfim aberta, ele se aproximou da cama da mãe e perguntou como estava, mas a mãe não se lembrava dele, que foi quem a socorreu no desmaio do dia anterior. Não sei se pela sucessão de noites exaustivas, mas parecia que estávamos naquele hospital há muito mais tempo e a paisagem para o centro da cidade e seus prédios acinzentados fosse ficando a cada dia mais natural. “Estou bem, meu filho. Com fome… Mas bem. Acho que a dor é normal, não é verdade?”, ela respondeu-lhe. Então ele ficou explicando a rotina do hospital, dos serviços de enfermagem, do horário de visitação do médico, dos remédios a ingerir e tudo o mais. Eu, aproveitando sua presença, fui ao banheiro ver em que estado me encontrava.

No espelho a imagem me era conhecida, mas fiquei por um instante pensando em como parecia aos outros. Com o cabelo preso, sentia-me pronta para qualquer coisa e, embora eu soubesse que haveríamos de ficar ainda uns dias ali, se fosse preciso levantar acampamento e voltar para casa imediatamente, eu estaria a postos. Mas logo o Alexandre me desanimou da ideia, porque antes de voltar a sair pela porta e nos deixar sozinhas mais uma vez, alertou: “Não esqueça que a senhora ainda está em recuperação. Não se vire sozinha na cama e vocês sabem que é só tocar a campainha que um de nós vem ver o que há. Tudo bem?” Eu não agradeci porque já estava vendo que acabaríamos ficando mais do que eu imaginava, mas a mãe agradecia ao enfermeiro como se ele a tivesse operado, numa gratidão incontida. “Muito obrigado, meu filho…”, ela disse ao vê-lo saindo. Ele mantinha o sorriso no rosto e ainda olhou rapidamente para mim antes de encostar a porta e sair apressado.

“Um menino assim é que eu queria pra ti, minha filha”, ela quase segredou, talvez temendo que ele ainda estivesse próximo à porta e pegou minha mão, fazendo com que sentasse a seu lado, naquela cadeira dura e de encosto quebrado que era o que de melhor havia para sentar, porque o sofá-cama tinha o estofado rendido e conseguia ser ainda mais duro que a cadeira. Eu nem pensei em respondê-la porque isso não passava pela minha cabeça, mas ela continuou: “Tenho tanto medo, minha filha, que teus dias terminem iguais aos meus…”, mas então a interrompi: “E daí que terminem assim, mãe? Não é hora de pensar nisso… Além do mais, ele até é simpático, mas não é feioso demais…?” Ela riu e desistiu do assunto.

Ficamos naquela situação silenciosa de quem não tem sequer um radinho para escutar e, de manhã, televisão é horrível… Pelo que entendi a mãe não teria café da manhã ainda, mas eu já sentia uma fome descomunal e pensava que deveria dar um jeito nisso, porque roía-me por dentro. Então, parece que antevendo o que acontecia, o Alexandre voltou a abrir a porta do quarto e ofereceu-se para ficar com ela, enquanto eu poderia ir ao térreo, onde ficava o restaurante, e comer alguma coisa. “Obrigado”, eu disse quase sem olhar em seus olhos, mas ele já estava começando a conversar com a mãe, contando notícias que havia lido no jornal que trazia sob o braço e agora desenrolava sobre as pernas cruzadas, sentado na cadeira do encosto quebrado. Com um olhar rápido, parece que tentava dizer-me para que me apressasse.

Era mesmo meio feio o coitado, mas um feio expressivo. O Alexandre tinha isso que eu só conhecia com gente da família: olhares com quem me entendia com facilidade. Fui descendo e ao mesmo tempo pensava no que eles estariam conversando. Consegui um lugar para sentar e com uma xícara de café com leite bem diante de mim, o telefone começou a tocar, tremendo no bolso da calça jeans. Era o Miguel, com aquela voz de criança pequena. Percebi que estava louca de saudade dos guris, apesar do tanto que eles incomodam. Mas o Miguel não conseguia falar muito e logo passou o telefone para o pai. Eles viriam de uma vez, hoje ainda. O pai queria saber de tudo, mas consegui convencê-lo que o café esfriava diante de mim e acho que por isso ele encerrou a conversa.

No saguão do hospital, o movimento só aumentava e as filas começavam a se formar no balcão, no caixa, nos guichês e nos ônibus e vans que estacionavam ali perto, trazendo mais gente do interior para atendimento. Talvez porque notasse em mim mesma, percebo como é fácil reconhecer quem é de Porto Alegre e quem não é. Há um certo sobressalto de atenção nos olhares, como pessoas que estivessem em território hostil. Será mesmo que haveria esse olhar em mim também? Talvez sim, e só por isso inspirasse a piedade das pessoas; do Alexandre principalmente. Ainda pensando nele, acabo meu café de uma vez e subo de volta ao quarto, galgando os degraus de granito da escada sem corrimãos. O Alexandre tem uma bandeja móvel e serve na boca da mãe um pote com gelatina amarela, provavelmente de abacaxi. Ela tem uma expressão tranquila de quem parece que estava rindo até há pouco. E ele também.

“O pai vem hoje, mãe… E diz que quer trazer os guris”, eu digo-lhe logo ao chegar. O Alexandre me observa quieto e não faz menção de levantar da cadeira, então eu preciso insinuar que eu tomo conta dela, que agradeço muito. Ele finalmente levanta-se e verifica os medicamentos que gotejam veia adentro, certificando-se de coisas que não entendo bem, mas pela expressão parece que está tudo bem.

“Mas por que ele vai trazer as crianças?”, ela pergunta. “Não sei mãe, sabe como é o pai. Quando bota uma coisa na cabeça…”, respondi-lhe. O Alexandre demorava-se mas não dizia nada, em absoluto. Quando terminamos de conversar, aí sim ele me ofereceu para ficar com o jornal e avisou que depois das onze mudaria o turno, mas que confiássemos plenamente na senhora que cuidaria do quarto. “A dona Sandra é nossa madrinha aqui. A mais experiente entre todos. E o doutor já terá prescrito novos exames, provavelmente”, falou com a porta aberta, completando que o chamássemos para qualquer coisa, e enfatizou bastante esse qualquer, como se estivesse a nossa disposição para tudo. Ele estaria revisando os quartos e ajudando no banho dos mais comprometidos, mas viria o mais rápido possível.

Quando saiu, a mãe falou me olhando de lado: “Não é um anjo esse menino?” Eu olhei para ela e respondi: “É feio pra diabo, mas até que serve pra anjo…” E rimos juntas um pouco, até que um pontaço, ou alguma coisa interna começasse a doer e ela, sem queixa, mas com a expressão concentrada, se acomodou numa posição mais confortável. “Vou descansar um pouco, minha filha. Se eu dormir, me acorde se o doutor chegar…”, comentou. Eu também tratei de acomodar-me e peguei do jornal que o Alexandre havia deixado, mas não consegui ler nada com atenção e fiquei zanzando no quarto, olhando o centro de Porto Alegre pela  janela e as pessoas lá embaixo, no térreo, parecendo-se a formiguinhas.

O médico não chegou e a mãe já estava acordada quando a porta voltou a abrir e o Alexandre entrou com a tal dona Sandra, a mais antiga na enfermagem. Ela tinha uma cara redonda sobre um corpo redondo, parecendo um grande número oito, e uma expressão serena e confiante, mais ou menos como a que tinha o Alexandre. Talvez ele imitasse a dela, quem sabe? Ou se espelhava nela como um exemplo.

“Esta é a dona Sandra, que vai ficar cuidando da senhora até a noite. Tudo que eu faço, ela faz duas vezes melhor que eu…”, o Alexandre disse e a mulher cerrava os lábios como dizendo que estava acostumada com os exageros dele. A dona Sandra contou que talvez liberassem a dieta da mãe e olhava o prontuário na tabela que trazia em uma prancheta, através dos pesados óculos que lhe arredondavam ainda mais a fisionomia. “Eu daqui a pouco saio para o almoço…”, disse o Alexandre num tom meio evasivo como se fosse continuar a falar. As duas estavam em silêncio, como se estivessem entendido que a sua afirmação teria uma continuação, e ele continuou mesmo: “…pensei se não gostaria de sair um pouco…”, disse olhando-me bem mais fixamente que o normal e não deixou que eu esboçasse qualquer reação, continuando: “… aqui pertinho, do lado do parque, tem um restaurantezinho bem bom. Modesto, mas caprichado… Não quer vir comigo?”

A dona Sandra arregalou os olhos como se estivesse diante de um milagre e a mãe tinha uma cara apatetada, mas foi quem apoiou a ideia dele. “Vai, minha filha. Aproveita. Eu vou ficar bem. E vocês não vão demorar, não é verdade?”, ela perguntou e ele rapidamente tranquilizou-a. “Capaz! É um instante só e a comida do hospital hoje tá um castigo que eu já vi…”, ele disse sorrindo. A informação sobre a comida ou talvez o insólito do convite me desarmaram e consultando de novo a mãe, só pelo olhar, concluí que podia mesmo ir. Não seria má ideia comer um prato direito e a companhia do Alexandre me dava, preciso admitir, um tipo de segurança que nunca experimentara, além de curiosidade. Isso nunca tinha me acontecido na vida, de sair com estranhos, mas a concordância da mãe me encheu de coragem. Se ele quer minha companhia, por que irei frustrar quem tem sido, afinal de contas, um verdadeiro anjo? Um anjo dos mais feios, mas ainda assim um anjo.

“Tá bom”, disse-lhe e ele sorriu um sorriso bem mais aberto que o normal, aquele quase angelical. A mãe e a dona Sandra se entreolhavam meio boquiabertas, mas tinham uma expressão serena. Quando ele se foi e fui ao banheiro para pentear os cabelos e trocar de roupa, ouvi-as cochichando, mas não entendi do que falavam. Ao sair, a dona Sandra já tinha ido e a mãe estava com a cabeça erguida, com os cabelos repartidos ao lado presos por um prendedor e me olhava de cima abaixo, como se tentasse ver na minha figura o que havia despertado o interesse do enfermeiro. “Vem aqui, minha filha. Tenho uma coisa pra ti. Alcança dali a minha bolsa…” E apontou para o sofá. De lá de dentro, tirou uma pequena caixa onde guardava fotos dos maninhos e outros objetos pequenos, inclusive um anel que quase nunca eu via em sua mão. “O que é isso, mãe? Enlouqueceste?”, indaguei a ela. Porém ela segurou com força a minha mão e colocou ela mesma o anel no meu dedo anelar, sem me dar chance de recusar porque ela fechou a minha mão de modo que eu não pudesse abri-la. Mesmo contrariada e não entendendo o seu objetivo com aquilo, deixei-a prosseguir, mas apenas por sentir em seus olhos que ela via importância nisso. Por mim mesma, jamais que eu faria ou procuraria isso. Não gosto dessas coisas, nunca antes tinha usado e, por mim, continuava tudo igual, mas aceitei mais para não contrariá-la do que por qualquer outra coisa.

“Não é o certo te deixar sozinha aqui, mãe…”, tentei argumentar, mas ela colocou os dedos na minha boca, fazendo que “não” com a cabeça. “O certo é que tu descanses um pouco. Esse rapaz gosta de ti. O “certo” é que tu não desprezes ele. Ou pensa que a vida inteira haverá alguém para te enxergar?”, ela perguntou-me mesmo sabendo que eu não tinha respostas. Não tinha vivência de nada, salvo um namoro infantil com o José Américo, que até meio parente era. Mas isso foi há tanto tempo já que nem contava; para todos os efeitos, era quase como se fosse numa outra vida.

“A dona Sandra me ajuda a comer e o médico hoje não vem mais. Acabou-se há tempos a hora do plantão dele. Talvez, amanhã cedo… Então deixa disso e vai. Há muito passou o teu tempo de criança, minha filha… E, talvez, seja isso que te falte para tomar coragem para tentar a vida por aqui… O que pensa que vai ser de ti em São Gonçalo? Vai acabar no salão da Mariângela, como aquelas infelizes que só o que fazem é cuidar da vida dos outros…”

Eu tentava não chorar enquanto ela dizia aquilo, mas não consegui. Meu rosto cru, sem maquiagem alguma, sequer registrou as lágrimas e a mãe prontamente as secou ela mesma, antes de tentar continuar, mas o meu telefone tocou e ela suspendeu seu aconselhamento: era o pai e ele avisava que os guris não viriam, mas que ele já estava indo à rodoviária com o tio Juvenal para tomar o próximo ônibus. Tudo correndo bem, no fim da tarde ele estaria conosco. Teríamos de arranjar um meio de acamparmos todos ali… “Diz para ele trazer o mate… E um rádio!”, ela orientou-me a dizer enquanto o Alexandre abria a porta e entrava, indo conferir o soro e os medicamentos aplicados diretamente na embalagem. A ligação arruinou-se de vez e acabei desligando.

Ele, sem o avental branco, até que disfarçava bem. Os cabelos parece que estavam mais ajeitados também. Não sei, parece que ele havia tomado providências sobre a aparência. “A dona Sandra logo vai trocar o seu remédio”, comentou. A mãe estava impaciente e nos mandou ir de uma vez: “Pois vão de uma vez! Logo ela vem, que eu sei… Deixem ligada a televisão e me abram mais essa cortina…” Quando eu o fiz, uma luz apagadiça invadiu o quarto e, embora se pudesse ver através da parte alta da janela que o céu estava bem azul, a sujeira dos vidros parecia quase filtrar a luminosidade; ao longe, porém, havia nuvens de chuva e o ar morno de viração insinuava-se pelas frestas laterais da veneziana. Beijei sua testa enrugada e ela logo virou-se em direção ao aparelho; parecia até interessada na programação, mas acho que apenas para dar a entender que se sentia tranquila.

Passei pela porta que o Alexandre segurava num gesto cheio de cavalheirismo e mais ou menos fui seguindo seus passos pelo corredor. As faxineiras e outros funcionários do hospital nos olhavam de longe, mal entendendo aonde íamos e o que se passava. De fato, nada se passava. Apenas o Alexandre devia estar vendo que eu estava exausta e precisava descansar um pouco. A mãe é que ficava imaginando coisas. As mães sempre imaginam coisas. Pouco antes de virarmos à esquerda para descer a escadaria, vimos a dona Sandra vindo em nossa direção, carregando uma bandeja de metal com bolsas de soro, antibióticos, remédios e apetrechos de enfermagem. Um dos quartos que ela visitaria seria o da mãe, mas só viemos a saber que ela se enganou nos medicamentos ao voltarmos. Eu, logo depois do almoço. E o Alexandre, somente quando voltou ao seu plantão e teve de dar a notícia do derrame ao pai ele mesmo, porque os médicos já estavam atendendo outras emergências. Nesse momento, eu estava na capela do hospital clamando pela providência divina, mas ela talvez pulassse o meu clamor sem solenidade alguma, furtasse as esperanças que o Alexandre declarara em meio ao burburinho do bufê e me colocasse no caminho de volta para o interior para tomar conta da vida dos maninhos como eu pudesse e da mãe, se ela sobrevivesse. É que alguém sempre precisa tomar conta das pessoas.

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