Pelos meus cálculos

Três minutos é o tempo que o ar resiste
dentro do corpo, de onde não há escape.
E tudo o que ele atinge, guarda ou conserva
se perde de uma só vez, num disparate.

Leva tempo para se entender algumas coisas,
uma vida às vezes nem é o suficiente
e o que se percebe nem sempre é tão claro,
mas tudo existe em medidas diferentes.

O tempo e suas horas, minutos, segundos.
A sua casa é uma espiral circundante
na qual todos podem inventar de tudo
até que tudo se torne redundante…

Aprendi isso por nada, olhando o céu
e, no chão, o rastro dos pés dos animais.
Meu calculismo é pensar por comparações
até que, por um excesso, fica demais.

Três minutos é muito tempo. Quanto leva
o boi, errando de vereda em vereda?
O bom animal nunca pensa que morreria
tocado pelo homem no cavalo, o que assovia.

Três minutos é muito pouco. Quanto dura
viver a vida em resumo? O que importa
se ganhaste apenas dinheiro? Apenas fama?
Ou vulto? Vale do quê, mesmo, a sabedoria?

Olhando ignorante os degraus da escada,
pensei no que daria por um minuto mais…
Daria tudo, é claro, e corri abaixo
salvando a mim mesmo de forma incidental.

Pelos meus cálculos, não tenho para muito,
e porque a vida não se retém em fotografia,
os pés não param e o olhar nunca repousa.
Nada desdenho, só mal reparo – eis minha escusa.

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Eu ontem beijei teus lábiosEu ontem beijei teus lábios

Pedro Salinas (1891-1951)
trad. do espanhol

Foi ontem que beijei tua boca.
Os lábios, a tensão
rubra. Foi um beijo tão curto,
durou mais que um raio,
mais que um milagre. Depois disso
não quis mais nada
e também nada havia pretendido antes.
Começou e terminou nele.

Hoje estou beijando um beijo;
e só, só com a minha boca.
Tocar a sua com meus lábios,
não, não mais …
– Como fui perder isso? –
Eu os coloquei
no beijo que te dei,
ontem, com as bocas juntas
do beijo que eles beijaram.
E esse beijo dura mais tempo
que o silêncio, que a luz.
Porque não é mais a carne
nem a boca o que eu beijo,
tudo isso foge de mim.
Não. Mas o beijo de
agora está durando mais.

Quando o mais puro morreQuando o mais puro morre

Michel Houllebecq (1956 -)
trad. do francês

Quando o mais puro morre
é invalidada toda a alegria.
Resta um buraco no peito
e sombras onde quer que se olhe.

Demora tão pouco
para desfazer o mundo…

Também vai-se a crença
E o que ela ajuda a construir.
Para ser e idolatrar,
vivemos na ausência.

Então a visão some em meio
às pessoas mais próximas.

Circular UrcaCircular Urca

(13.11.2020 – 28.11.2025)

Ela tinha um cabelão
e contei uma história
que não lembrava mais
de um pássaro que se moldou
em meio aos seus miolos moles
uma vez.

Num tempo cheio de horas vagas,
de quando não havia no que gastar
dinheiro que também não existia
(éramos iguais às sombras
encostadas sob a marquise
à espera do ônibus, na volta
circular Urca).

Ela tinha uns olhos verdes
em que nunca mergulhei —
nunca teria mergulhado.
Com minha sombra
eu protegia do solaço
a pele branca, por inteiro,
que mormaço..

E tinha um entusiasmo
que era gigante.
Cantava comigo qualquer coisa,
sem melodia, sem letra.
Nada que é bom
a gente na hora
pensa que presta

(nessas horas
há um silêncio sempre
que vai se acordando
ao mesmo tempo
abafando tudo –
hoje esse estrondo).

Se eu passar ao seu lado
outra vez,
não soe alarmes.
Deixa quieto,
fica na tua,
mas não se afaste..

Enquanto há tempo
a manhã perdura —
enquanto há tarde,
noite que baste.

Com ela o atraso
era um breve torpor.
Depois acordava e, quando se viu,
passou rápido demais.

Foi menos grave ao seu lado
e mais eu sonho por isso
dos sinos que batem
sem muito alarde.
Apenas nos seus olhos
eu fiquei sempre acordado.