Artigos Todos os livros do mundo

Todos os livros do mundo

La chair est triste, hélas! et j’ai lu tous les livres.

Stéphane Mallarmé

Todos os livros do mundo estarão a salvo ou serão destruídos. Esse parece ser o impasse dos impasses que se apresenta à história do livro no mundo. A questão foi recentemente colocada em debate no mundo inteiro pela ação da Anthropic, empresa de tecnologia responsável pelo chatbot Claude.

Notável no meio tecnológico por sua capacidade de contextualizar e analisar textos extensos, o chatbot foi flagrado recentemente associado a uma prática controversa conhecida como “digitalização destrutiva”. O processo envolve a obtenção, em larga escala, de livros de diversas partes do mundo para digitalização e posterior treinamento de modelos de aprendizagem de máquina. A prática recebe o adjetivo “destrutiva” porque, durante o procedimento, os exemplares físicos são completamente desmontados e, após a digitalização, eliminados em máquinas trituradoras.

Quando revelado, primeiro por uma reportagem do Washington Post e, mais tarde, por uma sucessão de reportagens ao redor do mundo, o caso não trouxe imagens diretas — trata-se de um projeto sigiloso —, porém a descrição dos procedimentos ganhou na mídia a companhia de imagens aterradoras de cortadoras de lombadas de livros, máquinas trituradoras de papel e depósitos imensos abarrotados de volumes e volumes obtidos mundo afora, numa operação logística que a empresa batizou de “Projeto Panamá”. O caso tornou-se um escândalo mundial pela descrição dos métodos utilizados pela empresa e veio a público quando a Justiça norte-americana retirou o sigilo de parte do projeto em função de uma ação coletiva sobre direitos autorais, que obrigou a gigante tecnológica a um acordo de reparação milionário por uso indevido.

Além das imagens, contribuiu para o escândalo uma declaração das intenções do projeto, encontrada entre os documentos do processo Bartz v. Anthropic PBC, dando conta de que seu objetivo consistia em nada mais, nada menos que digitalizar todos os livros do mundo. A ambição grandiosa teria como objetivo “ensinar” às LLMs (large language models) do chatbot o conteúdo humano disponível, supostamente mais autêntico e relevante do que aquele obtido no scraping da internet e organizado a partir do pensamento autoral de alguém.

Apesar disso, a decisão judicial concorreu para o enquadramento de uso aceitável (fair use) e o caso foi resolvido como mais uma questão patrimonial. O mais importante para os objetivos da empresa, de acordo com as apurações, era de que se tratasse de conteúdo livre dos próprios recursos de inteligência artificial. Nos livros publicados mundo afora, portanto, poderiam ser encontradas informações (ou o conhecimento) que levariam ao aperfeiçoamento da inteligência artificial generativa e, mais que isso, seria evitado que ela sofresse a influência das informações de terceira mão que ela mesma produz (ou recicla).

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Por vias provavelmente tortas, o Projeto Panamá enceta mais uma vez uma jornada frustrada que vem sendo percorrida na história humana desde a Biblioteca de Alexandria. A reunião de uma biblioteca universal que disponibilizasse a qualquer cidadão o acesso a todo o conhecimento do mundo é uma utopia universal e atemporal, dada pela consciência de que, no espaço de uma vida, é impossível ao ser humano ler ou ao menos conhecer e memorizar todos os livros do mundo. Sobre essa possibilidade, desde a Antiguidade, pensadores e cientistas projetaram conceitos grandiosos que, todavia, sempre esbarraram em dificuldades técnicas aparentemente intransponíveis, além de guerras destrutivas.

Em Alexandria, Calímaco de Cirene criou o primeiro catálogo do mundo, de que se serviram centenas de estudiosos. Na Casa da Sabedoria, em Bagdá, Al-Khwarizmi (de cujo nome provém o termo “algoritmo”) liderou o imenso trabalho de tradução das obras gregas dispersas no mundo bizantino reunidas pelo califado abássida. Mais próximo da era moderna, Gutenberg criou a tecnologia que salvou e popularizou o conhecimento de uma forma ainda hoje impactante: o livro impresso. E, a partir dele, muitos outros projetos entenderam nos recursos bibliográficos mais que um encargo de armazenamento: a disponibilidade de um repertório intelectual, pilar do capital cultural tanto de indivíduos quanto de nações.

No que o ser humano parece ter falhado, a ascensão tecnológica digital primeiro transformou todo o conhecimento em dados binários e, presentemente, uma técnica hábil em absorver e transformar esse conhecimento para os mais diversos propósitos tornou-se viável e acessível. Uma vez que “ler todos os livros do mundo” é impossível ao ser humano, a criação da inteligência artificial permitiu que essa ambição aparentemente se tornasse plausível.

Na Biblioteca do Congresso dos EUA, por exemplo, podem ser encontrados os 6.500 livros que pertenceram ao presidente e polímata Thomas Jefferson (1743–1826), quase todos eles anotados de próprio punho. Tido como um dos grandes leitores da história, todavia, o que representa seu recorde pessoal diante do tamanho descomunal da Biblioteca, estimado atualmente em quase 200 milhões de volumes?

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Reduzir o abismo e a disparidade entre as capacidades intelectivas e biológicas de humanos e máquinas para absorver conhecimento não parece estar por trás, por exemplo, de iniciativas como o Projeto Panamá. E o que decorre do seu método de aprendizagem parece ser, por outro lado, a dissociação entre conteúdo e autoria, ou seja, a despersonalização da escrita e a supressão dos vestígios desse elo primário entre autor e obra. Todavia, é sob o amparo da universalização do acesso e da preservação da memória cultural que a empresa tem realizado sua defesa no caso, com seu método de digitalização destrutiva.

O impasse que se coloca entre a nova tecnologia e os bens culturais é uma derivação cognitiva, não exatamente uma reprodução ou tampouco uma iniciativa de conservação da memória. A conversão digital de conhecimento em dados manipuláveis pela técnica, entretanto, não elimina nem a sua origem nem a noção de propriedade intelectual. Há uma questão de crédito de fundo que ainda precisa ser resolvida. Além disso, de uma questão de autoridade e organização do conhecimento uma nova relação de forças se estabelece no mundo editorial, impactando a indústria do livro, o trabalho de conservação e sistematização das fontes, educação e a geração de novos conteúdos autorais obtidos na combinação das técnicas analógicas, digitais e generativas.

Considerando-se que a literatura universal vem sendo composta digitalmente desde o final do século anterior, é de pressupor que a Anthropic tenha antes suprido seus bancos de dados com essa literatura, mas o que parece à opinião pública é que está envolvida numa escalada cumulativa sem muito critério. É como se tivesse sido confiada ao engenho a capacidade mais elementar na organização de um acervo: a seleção. Da capacidade de criar relações na velocidade da luz, por parte dos chatbots, ninguém mais duvida. Mas e quanto à qualidade dos dados? Se ela mesma evita contaminar-se com o que produz, como seria possível conferir credibilidade às suas associações?

O que parece desconsiderado é que a explosão bibliográfica deve-se mais à profusão de obras repetitivas e de qualidade duvidosa do que a um inesgotável repertório de originalidade renovada. Ainda em 1935, Ortega y Gasset, em sua conferência “Misión del bibliotecario”, notava um excesso torrencial de livros e afirmava, sem receio, que muitos deles eram apenas “inúteis e estúpidos”, servindo de entrave ao progresso do conhecimento. Na mesma época, Robert Musil considerava o acesso ao conhecimento impossível e denominava a biblioteca onde ele mesmo atuava como um “hospício de livros”. No mesmo período da Segunda Guerra Mundial, Jorge Luis Borges publicou “A Biblioteca de Babel”, conto no qual transforma a biblioteca em metáfora de um universo caótico e incompreensível, revelando a incapacidade epistemológica humana de discernir entre ruído e conhecimento.

Do modo como tudo parece estar se encaminhando, a inteligência artificial não apenas suspenderá esse pasmo do homem moderno e pós-moderno diante dessa impossibilidade, como colocará todo esse repertório ao alcance da tela de qualquer pessoa. Isso representa uma mudança significativa nas capacidades cognitivas e também no trato individual com a cultura, ainda mais abrangente do que significou a expansão da internet, porém acompanhada da alienação da regência humana e do esvaziamento da subjetividade. Esta é a preocupação de, entre outros, Giorgio Agamben (On Artificial Intelligence and Natural Stupidity) e Byung-Chul Han (Não-coisas: reviravoltas no mundo da vida).

Seja como for, o que a Anthropic e as empresas que seguem seu exemplo estão realizando é a ultrapassagem de um conceito não resolvido pelas nações quanto ao tratamento de seu patrimônio cultural, seu uso indiscriminado e os direitos e deveres éticos que dele decorrem. Uma ultrapassagem sem aviso prévio nem debate público, apenas flagrada por intermédio do jornalismo investigativo, que tornou pública uma prática em curso há vários anos.

Não se trata de uma questão irrelevante ou menor; muito pelo contrário. A forma pela qual a inteligência artificial generativa é orientada diz muito respeito ao caráter e à forma de uso que seus proprietários pretendem oferecer ao mundo.

Ainda na primeira década do novo século, intelectuais que pensavam a cultura literária divergiam quanto às cautelas da plena digitalização, um processo no qual o Google é quem estava no centro, com o sempre apelativo projeto de uma biblioteca universal.

Havia quem previsse, naquele momento de transição, um futuro de democracia e acesso universal, como Robert Darnton (A questão dos livros: passado, presente e futuro), e quem fosse bem mais cauteloso, como o historiador Roger Chartier (Os desafios da escrita), que previa o risco da substituição dos suportes e da destruição antes mesmo de iniciativas de “digitalização destrutiva”.

Trata-se de um processo em curso, e um processo crítico que já está transformando a vida de trabalhadores, escritores, escolas e universidades em todo o mundo. Do uso mais banal ao mais sofisticado, a ideia oracular de quem dominasse o conhecimento acumulado pela humanidade e se transportasse num átimo de segundo entre um acervo de milhões de livros é uma ambição atemporal. Todavia a decomposição de livros em dados pode também dissipar definitivamente a “aura” da obra, desvinculando-a do pensamento que a originou. E a sensação de que todos os livros do mundo estejam ao alcance das mãos resultar não no fim do livro, como os historiadores vinham temendo, mas no próprio fim da leitura como vem sendo praticada até aqui.

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O “Ponto-final” de Marcos NobreO “Ponto-final” de Marcos Nobre

Artigo publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, 27/06/2020.

Parte integrante da recém-lançada Coleção 2020 – Ensaios sobre a pandemia, da editora Todavia, o mais recente ensaio de Marcos Nobre, Ponto-final: a guerra de Bolsonaro contra a democracia, é um livreto extraído a quente do momento político brasileiro atual. O autor, que além de professor do Departamento de Filosofia da Unicamp assumiu no ano passado a presidência do cinquentenário Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), é um pensador que, pelo menos desde junho de 2013, vem fazendo a análise política institucional brasileira quase sempre ao tempo dos fatos. Essa característica, se por um lado o torna um tanto quanto vulnerável a precipitações, por outro o coloca na vanguarda do pensamento brasileiro conforme ele se expressa na vida política e intelectual da sociedade. O risco invariavelmente tem valido a pena. São de sua autoria boa parte das análises mais consistentes da política nacional desde aquele junho até o atual, intervalo no qual o cenário de forças e influências transfigurou-se na história recente até chegar à eleição de Bolsonaro em 2018 e a primeira crise política relevante do seu governo, agora em 2020, em meio à pandemia do coronavírus.

Ponto-final parte, portanto, do presente em direção ao passado e também a algumas especulações a respeito de tendências futuras de um governo marcado por auto polêmicas. Num livro breve, de leitura rápida, seu autor procura traçar a rota de racionalidade na qual vem se movendo o presidente, o seu governo e a coalizão de forças que, com a saída do ministro Sérgio Moro, agora parece fraquejar nas suas principais promessas, quais sejam o enfrentamento à corrupção e o afastamento de grupos e figuras políticas que o próprio presidente costumava classificar como pertencentes à “velha política”. Além disso, Nobre examina as características funcionais do governo em sua dinâmica interna, propondo que o governo Bolsonaro seja analisado desde a sua própria concepção e funcionamento. Nisso também ele se distingue de boa parte da crítica que se faz ao governo atual na imprensa e no mundo acadêmico, dado que se trata de uma perspectiva que implica todos os atores políticos num mesmo cenário e não externaliza uma visão sectária.

De deputado do baixo-clero a candidato outsider e daí a presidente da República, para Marcos Nobre a trajetória do presidente Bolsonaro está intimamente relacionada à crise do presidencialismo de coalizão que governou o Brasil a partir do centro político desde a instauração da Nova República, representado principalmente no MDB de José Sarney. Precisamente em 2013, véspera da eleição presidencial que reconduziu Dilma Rousseff ao poder, de acordo com ele o sistema político colapsava e acenou insegurança em responder às demandas desuniformes da população passando a agir de forma autofágica justamente quando o enfraquecido PT governava o país e podia ser sacrificado pelo sistema político em prol da salvação de grupos que não viam problema nisso, desde que salvassem a própria pele no processo de impeachment de Dilma Rousseff.

Situado à margem do processo de instauração do impeachment e afastado do centrismo destroçado pela Lava-Jato, Bolsonaro teria, de acordo com Nobre, aproveitado a dissolução do sistema para reunir em torno da sua candidatura setores também marginais e descontentes com o projeto de coalizão do governo petista. Dessa forma, com o apoio de classes subalternizadas na máquina pública, como militares de baixa patente, pequenos empresários, agricultores e, sobretudo, o baixo clero do Congresso, ele teria finalmente saído vencedor nesse levante contra o sistema político. Nobre diz ainda que estes setores representariam a parcela inarredável de apoio com que o presidente Bolsonaro vem se mantendo principalmente após a crise ministerial e o abalo da chegada do coronavírus ao país e a respectiva crise sanitária.

Tendo vencido o candidato “improvável”, na eleição mais caótica que o país poderia ter, de acordo com Marcos Nobre o presidente Bolsonaro jamais teve interesse em apaziguar o país – o que seria quase o mesmo que acariciar o arranjo contra o qual foi eleito. Mesmo em meio à pandemia, quando seria razoável manter-se uma equipe estável e um projeto de contenção sanitária, a desestabilização institucional continuou sendo o regime ao lado de uma crescente militarização do executivo expressando o desejo de implementação de uma hierarquização cada vez mais vertical na estrutura do Estado. No terremoto constante do seu governo, apenas as figuras incontestavelmente identificadas com essa postura poderiam guarnecer o presidente. Nesse sentido, a demissão dos ministros Sérgio Moro e de Luiz Henrique Mandetta representariam muito mais o descarte de ameaças à integridade do governo do que a popularidade do presidente, como foi aqui e ali aventado.

Assentado no que denomina ser um “governo de guerra”, Marcos Nobre defende a ideia de que a governabilidade de Bolsonaro está calcada na manutenção de um estado de beligerância constante, o que ele chama de “método do caos”. A ideia consistiria na geração incessante de conteúdo ideológico e na permanente desqualificação da esfera pública, na qual a imprensa apareceria como adversário central ao seu projeto de governo. Além disso, a crise da pandemia ao tempo em que teria desgastado sua gestão militarizada da coisa púbica acabou por fortalecer a figura de um personagem político em luta eterna contra o sistema e o aparelho jurídico representado principalmente no STF. Em sua recente guinada em direção ao centrão do Congresso Nacional, elemento central de detratação de sua campanha eleitoral, o presidente administra agora uma parceria insólita com figuras como Roberto Jefferson e Valdemar Costa Neto, desagradando o setor militar e tornando mais nebulosa a retomada da normalidade, que dirá o “novo-normal” necessário à superação da crise sanitária e econômica.

Concorde-se mais ou menos com suas avaliações, de qualquer forma é muito relevante que as análises políticas, tais como as propostas por essa coleção da Todavia, venham a púbico neste momento e sirvam ao propósito de fermentar o debate público, muitas vezes nebuloso e deprimido. O que Marcos Nobre procura fazer, e que não se encontra tão facilmente entre analistas e comentaristas em geral, é pensar o Brasil para além da agenda na qual os políticos tentam forjá-lo (visando normalmente eleições). A tarefa requer um tanto de sangue frio. No entanto, poucas pessoas como ele têm essa frieza e não se deixam levar pela comoção ou por conveniências narrativas, selecionando apenas elementos de análise que o favoreçam. Se a sensatez caracterizasse o tempo presente, mesmo o governo e seus apoiadores poderiam refletir mais e melhor a respeito da forma de conduzir o Brasil o mais longe possível do precipício que 2020 parece estar se transformando.

Instinto e estigma no regionalismoInstinto e estigma no regionalismo

Artigo publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, 20/03/2021.

Um risco que os escritores nascidos nos vizinhos Uruguai e Argentina nunca correrão é o de abordarem a sua população do interior e verem suas obras guardadas na gaveta taxonômica do “regionalismo”. Para os escritores do Rio Grande do Sul, isso poderia até suscitar inveja se o contraste não constituísse um espelho privilegiado pelo qual se pode notar o distanciamento cada vez mais radical que é travado no campo literário quanto ao impasse da representação rural na literatura rio-grandense, seus temas e dilemas.

Para o Rio Grande do Sul, trata-se de uma caracterização inescapável cujos personagens vão sendo obliterados na literatura aqui produzida. O fenômeno não é recente, vem de algumas décadas, e o desaparecimento paulatino de enredos interioranos ou rurais na ficção rio-grandense se acompanha por outros fenômenos, como a preponderância do meio audiovisual no lazer urbano desde os anos 60, a hegemonia tradicionalista da representação popular e o crescente deslocamento para temáticas cosmopolitas, com o recalque da representação rural aos conteúdos históricos.

Esse desvio vem acontecendo numa perspectiva conflitiva na qual a literatura local ora se debate entre o acesso ao “instinto de nacionalidade”, conforme proposto por Machado de Assis em 1873, ora em sua refutação pela identificação com a literatura do Prata. Considere-se ainda que as relações políticas entre província e metrópole desde 1835 nunca foram das melhores. Tudo isso nunca competiu, todavia, em que os autores rio-grandenses procurassem alijar-se do sentimento nacional, apenas que desejavam manter seus traços culturais e históricos a salvo de uma alienação que, ao fim e ao cabo, foi confirmar-se um século mais tarde, no desenlace contemporâneo desse processo.

Presente desde quando Alcides Maya defendeu na Academia Brasileira de Letras a tese do “federalismo literário”, tal ruptura nunca se confirmou e, no decurso do séc. XX, produziu-se aqui uma literatura motivada na vida rural, do interior, e outra cosmopolita, sediada nos bairros de Porto Alegre, conformada por interioranos emigrados. Apesar de que se consolidasse uma crônica de costumes de tom saudosista, no plano editorial a convivência era pacífica e a redescoberta da obra de Simões Lopes Neto elevou a um patamar superior a dicção rio-grandense, descolando-se a partir daí do criollismo platino.

Nos anos que antecederam a Segunda Guerra, ao passo em que se confirmava um campo literário pelo empenho da Editora Globo e seus articuladores, o eco modernista se fez presente numa geração (a de 30) que apenas mais tarde seria revista. No longo período entre as décadas de 20 e de 60, o apogeu e o ocaso da Globo confundiu-se com o próprio destino da literatura rio-grandense e a fixação do seu “regionalismo” se deu com edições de luxo e populares de autores que inventariavam o seu “instinto regional”. A Coleção Província, sucesso comercial sem precedentes, foi o casamento perfeito de uma necessidade de afirmação identitária, autores produtivos e sistema azeitado.

No entanto, logo a confluência da expansão da televisão, a crise da guerra fria e o interesse crescente da crítica e dos estudiosos em desconstruir o discurso nacionalista vitorioso encontrou no ethos da geração de 60 o ambiente perfeito para frutificar em crise. De posse do instrumental estruturalista e materialista, conforme relembra Alfredo Bosi em Entre a literatura e a história, intelectuais empreenderam a recuperação da crítica presente na geração de 30: Cyro Martins, Pedro Wayne, Ivan Pedro de Martins e Aureliano de Figueiredo Pinto. Suas obras, tributárias da geração de Maya e Simões, revelaram o modernismo rio-grandense com uma forte tintura realista e denúncia social, bem ao gosto dos anos 60.

Nesse momento parecia claro que os autores locais haviam criticado a sociedade de uma forma muito menos idealizada e ufanista como hoje costumam se interpretar o seu trabalho. E mais: mesmo Maya e Simões, os dois principais sustentáculos da estética sulista, haviam mantido o olhar crítico para as condições sociais e políticas pelas quais o poder se organizava no Rio Grande do Sul, numa literatura que o professor Antonio Hohlfeldt veio identificar como mais centrada na figura do peão que na do estancieiro.

Ainda assim, por uma pecha inarredável, os escritores rio-grandenses muitas vezes são localizados no que seria um regionalismo agônico. Porque duvidou-se do afastamento total da literatura rio-grandense em relação ao enfoque proposto no regionalismo romântico, a própria designação adquiriu, pelo menos no caso gaúcho, certa conotação pejorativa. E seus autores também. É algo complexo, pois, se analisada na materialidade, nem Érico nem seus antecedentes colaboraram no recalque ou sublimação dos traços sociais da população. Pelo contrário, basta que se os releia para verificar o quanto trataram seu tempo de forma crítica e realista.

Um pouco por animosidade externa ou pelo crescente desejo por um “instinto de globalização”, aos poucos o que era particularidade, um “regionalismo” inocente, foi se transformando em estigma e o tipo humano da região perdendo a aura heroica para dar vez a uma série de tipos cômicos que a popularização de certa vertente tradicionalista contribuiu muito em consagrar, contagiando o métier literário.

Com a crise cultural fixada na universidade, a presença de um movimento cultural hegemônico e uma caracterização desfigurada, transformada em estereótipo, o pior do homem do campo passou a ser dinamizado como essência representativa e todos os preconceitos afiliados, como o machismo, sexismo, misoginia, etc., elevados à condição de um “novo” pitoresco. Já num cenário de intensa exploração midiática, como um produto cultural exótico sobretudo ao Brasil, a literatura rio-grandense viu-se na situação de obliterar a imagem às vezes reduzida ao grotesco do gaúcho rural. Exemplo dessa caracterização se pode ver no Analista de Bagé, personagem de Luís Fernando Veríssimo e sucesso comercial dos anos 80.

Da década de 60 em diante, em que pese o esforço de casas como a Movimento, a Mercado Aberto, a Tchê e a L&PM, os motivos rurais ou decaíram para o segundo plano ou foram preteridos por enredos desenraizados. Alie-se isso à perda sistemática de relevância da região fronteiriça na economia local e a migração simbólica para a zona industrial e serrana, o panorama literário local fez apenas seguir as inclinações de mercado, excetuando-se os momentos que representam inflexões históricas.

Contraposta à historiografia, a literatura confere com a visada de um momento histórico e realidade, mas sempre sujeita a releituras. Teóricos importantes como Erich Auerbach, Roger Chartier e Paul Ricouer atestam que o valor literário é mais simbólico que factual, um bem cultural que preenche lacunas compreensivas. De período à escola, de estética a projeto, de projeto à pecha, muito se tem confundido entre o que seja um viés regionalista político, como o reiterativo separatismo e, outro, cultural, dado pelas realizações artísticas. Talvez porque os autores rio-grandenses tenham inserido as questões políticas em seus enredos, as duas pareçam situações inextrincáveis. É uma confusão recorrente e que mereceria atenção redobrada dos estudiosos e leitores.

De uma forma natural, pois literatura e história inquirem-se o tempo todo, o “regionalismo” rio-grandense tornou-se cada vez mais um fantasma, como aponta a professora Regina Zilberman, e emblemático de uma crise complexa. Se abandonar a memória e as pessoas que continuam no interior é de uma violência atroz, não é menos violento caracterizá-las pela lente exclusiva da decadência: é evidente que são pessoas que vivem experiências comuns a todas as demais. Se o “regionalismo” pode ser considerado a tábua de salvação dos maus escritores, também costuma ser muito mais exigido no que se refere à originalidade. Autores contemporâneos deveriam pensar muito nisso ou, ainda melhor, não levar os preconceitos assim tão a sério.

Da mesma forma que na vida prática, na leitura faz-se necessário superar a intuição do já visto, do conhecido, para só então obter-se simpatia pelas coisas e por sua narração. Superada a negação inicial, a recompensa reside não na confirmação do esperado, mas no flagrante do próprio espanto. Certo que isso exige o trabalho da atenção, mas o atordoamento que se segue ao descortinar um mundo desconhecido é o trunfo principal da boa literatura. A dificuldade maior reside em que as mediações já consolidadas impõem uma série de preconceitos que encobrem o humano e o reconhecimento que a literatura pode propiciar. Ocorre que os estereótipos competem num estreitamento mental e superá-los requer uma leitura desimpedida ou ao menos esclarecida quanto a essa realidade. Enquanto o caminho orientado ideologicamente conduz à recompensa da confirmação, a boa arte costuma ser a que desorienta o previsível e propicia tanto a reorganização da memória social quanto do auto conhecimento.