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Todos os livros do mundo

La chair est triste, hélas! et j’ai lu tous les livres.

Stéphane Mallarmé

Todos os livros do mundo estarão a salvo ou serão destruídos. Esse parece ser o impasse dos impasses que se apresenta à história do livro no mundo. A questão foi recentemente colocada em debate no mundo inteiro pela ação da Anthropic, empresa de tecnologia responsável pelo chatbot Claude.

Notável no meio tecnológico por sua capacidade de contextualizar e analisar textos extensos, o chatbot foi flagrado recentemente associado a uma prática controversa conhecida como “digitalização destrutiva”. O processo envolve a obtenção, em larga escala, de livros de diversas partes do mundo para digitalização e posterior treinamento de modelos de aprendizagem de máquina. A prática recebe o adjetivo “destrutiva” porque, durante o procedimento, os exemplares físicos são completamente desmontados e, após a digitalização, eliminados em máquinas trituradoras.

Quando revelado, primeiro por uma reportagem do Washington Post e, mais tarde, por uma sucessão de reportagens ao redor do mundo, o caso não trouxe imagens diretas — trata-se de um projeto sigiloso —, porém a descrição dos procedimentos ganhou na mídia a companhia de imagens aterradoras de cortadoras de lombadas de livros, máquinas trituradoras de papel e depósitos imensos abarrotados de volumes e volumes obtidos mundo afora, numa operação logística que a empresa batizou de “Projeto Panamá”. O caso tornou-se um escândalo mundial pela descrição dos métodos utilizados pela empresa e veio a público quando a Justiça norte-americana retirou o sigilo de parte do projeto em função de uma ação coletiva sobre direitos autorais, que obrigou a gigante tecnológica a um acordo de reparação milionário por uso indevido.

Além das imagens, contribuiu para o escândalo uma declaração das intenções do projeto, encontrada entre os documentos do processo Bartz v. Anthropic PBC, dando conta de que seu objetivo consistia em nada mais, nada menos que digitalizar todos os livros do mundo. A ambição grandiosa teria como objetivo “ensinar” às LLMs (large language models) do chatbot o conteúdo humano disponível, supostamente mais autêntico e relevante do que aquele obtido no scraping da internet e organizado a partir do pensamento autoral de alguém.

Apesar disso, a decisão judicial concorreu para o enquadramento de uso aceitável (fair use) e o caso foi resolvido como mais uma questão patrimonial. O mais importante para os objetivos da empresa, de acordo com as apurações, era de que se tratasse de conteúdo livre dos próprios recursos de inteligência artificial. Nos livros publicados mundo afora, portanto, poderiam ser encontradas informações (ou o conhecimento) que levariam ao aperfeiçoamento da inteligência artificial generativa e, mais que isso, seria evitado que ela sofresse a influência das informações de terceira mão que ela mesma produz (ou recicla).

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Por vias provavelmente tortas, o Projeto Panamá enceta mais uma vez uma jornada frustrada que vem sendo percorrida na história humana desde a Biblioteca de Alexandria. A reunião de uma biblioteca universal que disponibilizasse a qualquer cidadão o acesso a todo o conhecimento do mundo é uma utopia universal e atemporal, dada pela consciência de que, no espaço de uma vida, é impossível ao ser humano ler ou ao menos conhecer e memorizar todos os livros do mundo. Sobre essa possibilidade, desde a Antiguidade, pensadores e cientistas projetaram conceitos grandiosos que, todavia, sempre esbarraram em dificuldades técnicas aparentemente intransponíveis, além de guerras destrutivas.

Em Alexandria, Calímaco de Cirene criou o primeiro catálogo do mundo, de que se serviram centenas de estudiosos. Na Casa da Sabedoria, em Bagdá, Al-Khwarizmi (de cujo nome provém o termo “algoritmo”) liderou o imenso trabalho de tradução das obras gregas dispersas no mundo bizantino reunidas pelo califado abássida. Mais próximo da era moderna, Gutenberg criou a tecnologia que salvou e popularizou o conhecimento de uma forma ainda hoje impactante: o livro impresso. E, a partir dele, muitos outros projetos entenderam nos recursos bibliográficos mais que um encargo de armazenamento: a disponibilidade de um repertório intelectual, pilar do capital cultural tanto de indivíduos quanto de nações.

No que o ser humano parece ter falhado, a ascensão tecnológica digital primeiro transformou todo o conhecimento em dados binários e, presentemente, uma técnica hábil em absorver e transformar esse conhecimento para os mais diversos propósitos tornou-se viável e acessível. Uma vez que “ler todos os livros do mundo” é impossível ao ser humano, a criação da inteligência artificial permitiu que essa ambição aparentemente se tornasse plausível.

Na Biblioteca do Congresso dos EUA, por exemplo, podem ser encontrados os 6.500 livros que pertenceram ao presidente e polímata Thomas Jefferson (1743–1826), quase todos eles anotados de próprio punho. Tido como um dos grandes leitores da história, todavia, o que representa seu recorde pessoal diante do tamanho descomunal da Biblioteca, estimado atualmente em quase 200 milhões de volumes?

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Reduzir o abismo e a disparidade entre as capacidades intelectivas e biológicas de humanos e máquinas para absorver conhecimento não parece estar por trás, por exemplo, de iniciativas como o Projeto Panamá. E o que decorre do seu método de aprendizagem parece ser, por outro lado, a dissociação entre conteúdo e autoria, ou seja, a despersonalização da escrita e a supressão dos vestígios desse elo primário entre autor e obra. Todavia, é sob o amparo da universalização do acesso e da preservação da memória cultural que a empresa tem realizado sua defesa no caso, com seu método de digitalização destrutiva.

O impasse que se coloca entre a nova tecnologia e os bens culturais é uma derivação cognitiva, não exatamente uma reprodução ou tampouco uma iniciativa de conservação da memória. A conversão digital de conhecimento em dados manipuláveis pela técnica, entretanto, não elimina nem a sua origem nem a noção de propriedade intelectual. Há uma questão de crédito de fundo que ainda precisa ser resolvida. Além disso, de uma questão de autoridade e organização do conhecimento uma nova relação de forças se estabelece no mundo editorial, impactando a indústria do livro, o trabalho de conservação e sistematização das fontes, educação e a geração de novos conteúdos autorais obtidos na combinação das técnicas analógicas, digitais e generativas.

Considerando-se que a literatura universal vem sendo composta digitalmente desde o final do século anterior, é de pressupor que a Anthropic tenha antes suprido seus bancos de dados com essa literatura, mas o que parece à opinião pública é que está envolvida numa escalada cumulativa sem muito critério. É como se tivesse sido confiada ao engenho a capacidade mais elementar na organização de um acervo: a seleção. Da capacidade de criar relações na velocidade da luz, por parte dos chatbots, ninguém mais duvida. Mas e quanto à qualidade dos dados? Se ela mesma evita contaminar-se com o que produz, como seria possível conferir credibilidade às suas associações?

O que parece desconsiderado é que a explosão bibliográfica deve-se mais à profusão de obras repetitivas e de qualidade duvidosa do que a um inesgotável repertório de originalidade renovada. Ainda em 1935, Ortega y Gasset, em sua conferência “Misión del bibliotecario”, notava um excesso torrencial de livros e afirmava, sem receio, que muitos deles eram apenas “inúteis e estúpidos”, servindo de entrave ao progresso do conhecimento. Na mesma época, Robert Musil considerava o acesso ao conhecimento impossível e denominava a biblioteca onde ele mesmo atuava como um “hospício de livros”. No mesmo período da Segunda Guerra Mundial, Jorge Luis Borges publicou “A Biblioteca de Babel”, conto no qual transforma a biblioteca em metáfora de um universo caótico e incompreensível, revelando a incapacidade epistemológica humana de discernir entre ruído e conhecimento.

Do modo como tudo parece estar se encaminhando, a inteligência artificial não apenas suspenderá esse pasmo do homem moderno e pós-moderno diante dessa impossibilidade, como colocará todo esse repertório ao alcance da tela de qualquer pessoa. Isso representa uma mudança significativa nas capacidades cognitivas e também no trato individual com a cultura, ainda mais abrangente do que significou a expansão da internet, porém acompanhada da alienação da regência humana e do esvaziamento da subjetividade. Esta é a preocupação de, entre outros, Giorgio Agamben (On Artificial Intelligence and Natural Stupidity) e Byung-Chul Han (Não-coisas: reviravoltas no mundo da vida).

Seja como for, o que a Anthropic e as empresas que seguem seu exemplo estão realizando é a ultrapassagem de um conceito não resolvido pelas nações quanto ao tratamento de seu patrimônio cultural, seu uso indiscriminado e os direitos e deveres éticos que dele decorrem. Uma ultrapassagem sem aviso prévio nem debate público, apenas flagrada por intermédio do jornalismo investigativo, que tornou pública uma prática em curso há vários anos.

Não se trata de uma questão irrelevante ou menor; muito pelo contrário. A forma pela qual a inteligência artificial generativa é orientada diz muito respeito ao caráter e à forma de uso que seus proprietários pretendem oferecer ao mundo.

Ainda na primeira década do novo século, intelectuais que pensavam a cultura literária divergiam quanto às cautelas da plena digitalização, um processo no qual o Google é quem estava no centro, com o sempre apelativo projeto de uma biblioteca universal.

Havia quem previsse, naquele momento de transição, um futuro de democracia e acesso universal, como Robert Darnton (A questão dos livros: passado, presente e futuro), e quem fosse bem mais cauteloso, como o historiador Roger Chartier (Os desafios da escrita), que previa o risco da substituição dos suportes e da destruição antes mesmo de iniciativas de “digitalização destrutiva”.

Trata-se de um processo em curso, e um processo crítico que já está transformando a vida de trabalhadores, escritores, escolas e universidades em todo o mundo. Do uso mais banal ao mais sofisticado, a ideia oracular de quem dominasse o conhecimento acumulado pela humanidade e se transportasse num átimo de segundo entre um acervo de milhões de livros é uma ambição atemporal. Todavia a decomposição de livros em dados pode também dissipar definitivamente a “aura” da obra, desvinculando-a do pensamento que a originou. E a sensação de que todos os livros do mundo estejam ao alcance das mãos resultar não no fim do livro, como os historiadores vinham temendo, mas no próprio fim da leitura como vem sendo praticada até aqui.

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Observatório da Imprensa

Como qualquer um entre os quase cem milhões de brasileiros usuários de redes sociais, oscilo diariamente entre o desejo abandonar de vez o hábito de consultar o púlpito alheio virtual e o de reconectar-me a ele compulsivamente. Recentemente fui informado de que há rumores dando conta de que, entre a magnitude de adeptos das redes, poderia existir um remotíssimo e obscuro percentual de usuários que conseguiriam, nestes dias de turbulência política, passar infensos à esta bipolaridade. Eu digo com tranquilidade que nunca vi essas pessoas nem na minha timeline nem no meu feed de notícias e isso, pelo menos no meu universo de observação, reforça a ideia de que, diante da atual crise política, todos sucumbiram ao delírio voluntário – ao próprio e ao alheio – ainda que por motivos e em graus diferentes.

Não obstante a possibilidade acima estar mesmo correta, o número de pessoas que não resiste à opção de abandonar o uso das redes sociais ou pelo menos suspendê-lo é cada vez maior, principalmente entre os mais jovens. E isto é tão mais real quanto se pense no Facebook, entre todas a mais usada das redes em todo o mundo. Isso é o que aponta, por exemplo, recente reportagem da Folha de São Paulo, segundo a qual, para além do acirramento político, outros fenômenos parecem competir na ampliação do desinteresse juvenil, tais como a presença dos chamados “textões” e a repetição persistente de conteúdo. Seriam fenômenos que estariam colaborando com o cenário de evasão. A reportagem dá conta de outras explicações também, de natureza mais psicológica, além de apontar a preferência crescente pelo uso de redes de conteúdo mais visual ou expresso, como o Instagram e o Snapchat.

A bem da verdade, esta parece ser uma tendência anterior aos eventos políticos mais recentes, mas que agora se acentua mais ou menos na mesma proporção em que evoluem as repercussões políticas e a subsequente histeria virtual. Não é muito difícil entender as motivações do abandono, uma vez que a temática política, pelo menos a realizada nos moldes tradicionais, é vista com grande desconfiança pelo público adolescente e jovem adulto. Quem imaginar, entretanto, que no principal concorrente do Facebook a situação esteja diferente, pode estar muito enganado. No Twitter, veículo preferencial entre os adultos e o meio político, a pancadaria ideológica e a proliferação da agressividade têm sido predominante e até mesmo as redes baseadas em imagens, como o Instagram, têm sido tomadas de assalto pelos grandes “significantes” das redes: os memes. Para este caso, majoritariamente aqueles com motivos políticos.

Mais que a constatação tácita da reprodução massiva de memes e do irrefreável potencial discursivo das redes, interessa notar que o arsenal argumentativo individual costuma valer-se também de fontes externas ou, como querem os sociólogos, de discursos de autoridade ou “produtores de interesse”. Desta prática diária, constante, costumam desfilar regularmente no meu feed de notícias e no de qualquer pessoa com um mínimo de diversidade de conexões pessoais, fontes bastante heterogêneas. São fontes que costumam ir desde veículos consagrados de imprensa, passando por fontes menos usuais, como blogues e até mesmo opiniões de intelectuais e artistas que emitem opiniões na rede. O festival de opiniões costuma ser farto e enlouquecedor, principalmente porque mixam-se nele as opiniões mais ou menos elaboradas das próprias pessoas.

Embora presentemente exista uma polarização evidente entre o que se poderia chamar de “governismo” e “oposição”, o leque de nuances no campo das opiniões é muito maior do que essa divisão oferece. A “opinião formada” das redes costuma partir da reprodução comentada de crenças políticas consolidadas e fontes identificadas com meios formais, partidos políticos ou movimentos organizados, enquanto que o dissenso é essencialmente anárquico. É natural: há quem diga, por exemplo, que não existiria Facebook sem o “compartilhar” nem o Twitter sem o “retweet”.

Ainda assim, é nesse caldeirão de ideias emprestadas e opiniões desencontradas que vem ganhando cada vez mais forma uma visão multifacetada, ou rashomônica, da realidade e da história presente. Porém, assim como no célebre conto de Akutagawa ou mesmo no filme de Akira Kurosawa, é necessário ao espectador antever na narrativa de cada um que deseja oferecer sua versão dos fatos, uma forma peculiar de dizer a verdade e, ao mesmo tempo, de deliberadamente falseá-la.

“Dentro de um bosque”  (Yabu no Naka), o conto que deu origem ao Rashomon de Kurosawa, resume-se na história de um assassinato mal explicado que é debatido através de uma sucessão de flashbacks dos personagens, que acabam desmontando-se e remontando-se consecutivamente, como se num puzzle interminável. Trata-se de uma narrativa que evoca as escassas possibilidades de buscar-se a verdade dos fatos, a verdade filosófica, a partir de relatos de pessoas diretamente interessadas, mas que também não se furta a investigar e esclarecer o caráter que move as decisões humanas.

Evidentemente ninguém espera atualmente encontrar a natureza humana vagando entre os memes das redes sociais e suas opiniões cabais, mas, olhando bem, como naquele templo, as “armas” empunhadas para muitos dos debates acalorados de agora às vezes também parecem, aos olhos de quem quer que seja, feitas de pura mentira e invencionice, ao invés do aço desejável dos samurais. Por isso há tantos que consideram que os debates virtuais são “falsos debates” e deles procurem se afastar como o diabo foge da cruz. É um comportamento a que, lógico, ninguém cabe recusar, mas sobre o qual podem recair dúvidas e para o qual alguns questionamentos tornam-se possíveis.

Talvez bem mais simples fosse adotar a interpretação do recém falecido Umberto Eco, que afirmou no recebimento de uma de suas últimas condecorações que as “mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel”. Mais simples, menos sério e possivelmente mais sem graça. Afinal, o atrativo dos debates online reside no mais das vezes na possibilidade de sublimação dos conflitos reais e no fornecimento de um simulacro de um embate real já que, pelo menos até prova em contrário, a vida se dá do lado de fora da tela e não no de dentro.Todavia os efeitos, mesmo que num campo simbólico, são reais, dizem respeito às pessoas e suas formas de expressão e comunicação.

A teoria das Bolhas Ideológicas

Possivelmente, em sua declaração, Eco tenha acertado mais do que previra inicialmente, mas sem perceber que as mídias sociais não deixam mesmo de ser uma espécie de “bar’ em que misturam-se professores e alunos, patrões e empregados, cada qual na sua esfera de interferência, mas igualmente visibilizados e visíveis. Se a teoria da “bolhas ideológicas” e do encapsulamento de zonas de interesse nas redes sociais é real e perceptível, também é real a sua condição de transparência e publicidade e a preponderância da colaboração individual em sua formação. Isso significa que, a menos entre pessoas muito desavisadas, todos sabem muito bem que estão sendo vistos e justamente a exposição é que é buscada, jamais o contrário.

Muitas pessoas se queixam, nas próprias redes sociais, de uma excessiva bipolaridade no campo político e, desde os movimentos de junho de 2013 e das últimas eleições presidenciais, contatos (ou “amigos”) exigem-se condutas e posicionamentos. A isenção é tolerada, mas também mal vista nas redes sociais. Muito mais que uma divisão entre “governistas” e “oposição”, ricos ou pobres, brancos ou pretos, homens ou mulheres, a aposta na dicotomia de opiniões muitas vezes é um artifício pelo qual os indivíduos angariam aprovação dos demais, mas a cisão de opiniões políticas, diferentemente da opinião esportiva ou religiosa, implica sempre num jogo de confiança e desconfiança. Racionalmente, se diante de um caso crítico, por exemplo envolvendo crimes penais ou administrativos, uma pessoa não é capaz de posicionar-se claramente, é muito difícil para ela conseguir sustentar uma imagem de isenção dali em diante.

Erving Goffman, sociólogo canadense falecido em 1982 e que nunca estudou as redes sociais, matou esta charada 70 anos atrás, quando publicou, em 1959, o seu <em>A representação do eu na vida cotidiana</em>. Para ele, a projeção que uma pessoa faz ao atrelar-se a um grupo social identificado sob uma opinião predominante, mesmo que obsequiosamente, resume para aquele momento em toda a sua identidade individual.

“Devemos carregar no nosso íntimo algo da doce culpa dos conspiradores(*)”, ele diz. É possível que tenhamos mesmo este dever, mas no caso das redes sociais, onde as identidades são essencialmente flutuantes, quantos estão mesmo dispostos a assumir e mostrar tudo o que isso envolve? A mim parece que uma minoria. Mas há quem pareça procurar assentar-se na credibilidade, e talvez daí surjam referências interessantes, dado o cenário já inocultável de desmoronamento de referências históricas e abundantes fontes de aluguel.

Não é de estranhar que as redes sociais refletissem de alguma maneira esse aspecto da natureza humana, além de outros, afinal o entendimento humano é certamente tão antigo quando o desentendimento. Ainda assim, é melancólico contatar que um sistema de comunicação propicie tantos desencontros de opinião, se bem que, de outra forma, seriam apenas não sabidos. No meu feed de notícias e na minha timeline, por exemplo, a cada episódio ou cartada política da atual crise política brasileira, desfilam dezenas de conversas diretas e indiretas dando conta da faxina de “amigos”. São pessoas que se orgulham de escavar até mesmo em conversas (sic) e postagens pregressas nas redes razões para desfazer amizades, relacionamentos e, às vezes, até eliminar graus de parentesco, num espetáculo dissociativo.

De minha parte, prefiro acreditar que essas relações já não existiam e que aquele nome na lista de dezenas, centenas ou milhares de nomes já não representava praticamente nada ou muito pouco, do ponto de vista individual, e que o reconhecimento moral e afetivo entre as pessoas já se encontrava rompido, embora ali polidamente conservados. Se for isso mesmo, menos pior, porque aproximações e distanciamentos são absolutamente verdadeiros na vida real. Por que na virtual não seriam? Há que se acostumar com esse aspecto da vida virtual também. Só do que eu não duvido é que nem mesmo em casos de mútuo afastamento as pessoas forneçam a mesma explicação, isso também rashomonicamente. Já a hermenêutica rashomônica seria o outro lado desta mesmo moeda, só que margeando as fronteiras opostas das possibilidades comunicativas na época da virtualização, que dizem respeito à compreensão de cada um a partir da leitura e sua interpretação.

Guimarães Rosa, provavelmente um leitor de Akutagawa, em seus contos eventualmente lançava algumas sentenças (às vezes eram certezas) estonteantes. Há poucos dias procurei reler, quando a Editora Nova Fronteira relançou, ente outras obras as suas “Estas histórias” e ali, naquele  “Bicho mau”, conto sobre uma cascavel e seis lavradores, muito antes das redes sociais, da internet, da televisão e até da luz elétrica, ao invés de amarrar forçosamente um ser humano no outro, ele explicava as forças dissociativas com a simplicidade devastadora tão comum em sua ficção: “Natureza das pessoas é caminho ocultado, no estudo de se desentender.” Não fica muito melhor explicado?

(*) “Uma vez que todos nós participamos de equipes, devemos carregar no nosso íntimo algo da doce culpa dos conspiradores. E desde que cada equipe está empenhada em manter a estabilidade de algumas definições da situação, escondendo ou depreciando certos fatos a fim de consegui-lo, pode-se esperar que o ator continue vivendo sua carreira de conspirador com certa dissimulação.”

GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. 19ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013. p. 11