E R R A T A – p/ Lucio Carvalho Artigos,Crítica Xarqueada ganha edição comemorativa

Xarqueada ganha edição comemorativa

Artigo publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, 24 de fevereiro de 2018.

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A nova biografia de Fernando PessoaA nova biografia de Fernando Pessoa

Revista Parêntese, ed. 160

Bem no final de 2022, num dezembro tomado de assalto pelo noticiário político e pela turbulenta sucessão presidencial brasileira, foi quando finalmente chegou às livrarias nacionais a esperada biografia de Fernando Pessoa que o jornalista Richard Zenith levou mais de uma década para concluir desde que começou a trabalhar no espólio do poeta. O resultado não podia ser menor do que as mais de mil páginas que a Companhia das Letras publicou aqui numa edição vertida do inglês pelo tradutor Pedro Maia Soares. Em maio do mesmo ano, uma versão pela Quetzal foi publicada em Portugal e a versão original em inglês, Pessoa: a biography, saiu em julho de 2021 nos EUA e na Inglaterra, pela Liveright.

Apesar de que a obra pessoana tenha sido vastissimamente estudada desde a segunda metade do séc. XX, inclusive por estudiosos brasileiros, o trabalho de Zenith é efetivamente considerado a segunda grande biografia do poeta notabilizado pela obra monumental e pela forma de organizar o seu trabalho em heterônimos. Na edição portuguesa, o livro, aliás, é iniciado por uma dramatis personae pessoana na qual Zenith “biografa” parte dos heterônimos criados pelo poeta (na brasileira, foi transformada em anexo). Contudo sabe-se que o número de alteregos de Pessoa continua sendo impreciso, dado que para muitos deles mal chegou a esboçar um texto, apenas o registro de um nome, mas é certo que passam de uma centena e surgiram em seu universo mental precocemente, antes dos seis anos de idade. Antes da publicação de Zenith, a mais extensa biografia publicada de Pessoa continuava sendo a realizada pelo seu contemporâneo João Gaspar Simões, em 1950, Vida e obra de Fernando Pessoa: história duma geração

Embora no Brasil a sua obra tenha obtido projeção e leitores a partir de 1960, quando a Nova Aguilar publicou sua Obra poética organizada e anotada pela pesquisadora Maria Aliete Galhoz, é certo que o nome de Pessoa transitava de contrabando entre os modernistas brasileiros de viagem à Europa, muito provavelmente por meio das edições de Orpheu e de Presença, revistas nas quais Pessoa fez desfilar seus principais heterônimos entre os demais modernistas portugueses. Contatos efetivos com os brasileiros não são muito conhecidos, além do fato dele mesmo ter emigrado o seu heterônimo Ricardo Reis para o Brasil, em 1919, e cuja data de falecimento imprecisa serviu de mote para a escrita de O ano da morte de Ricardo Reis, romance em que José Saramago resolve por situá-la em torno de 1936, na iminência do nazi-fascismo europeu. Mas, para que se situe melhor esse reconhecimento, é suficiente o relato do quase-encontro dele com a poeta brasileira Cecília Meireles, em 1934. Cecília era casada com um antigo conhecido de Pessoa, o português Fernando Correia Dias, e marcaram um encontro de gentilezas a que ele acabou falhando. Para compensar a falta injustificada, mais tarde deixou no hotel onde a brasileira se hospedava uma edição autografada de Mensagem, seu único livro publicado em vida. Outra referência aos brasileiros na biografia é uma menção a Ronald de Carvalho, poeta que se integrou bastante ao grupo reunido na Orpheu, especialmente Mário de Sá-Carneiro, e uma declaração de Carlos Drummond de Andrade no ano de centenário de nascimento de Pessoa, em 1985, na qual afirma que Pessoa é um poeta “frio, apenas toca nosso lado intelectual”, e diz preferir Camões a ele.

Embora sua obra fosse muito conhecida dos brasileiros e contasse com diversas publicações segmentadas, a partir de 1985 entrou em domínio público e ocorreu por aqui uma verdadeira explosão pessoana. No entanto, logo uma alteração na legislação da União Europeia sobre direitos autorais adiou o processo, que foi retomado em 1993, com o surgimento de inúmeras edições nuas (sem notas ou comentários) de sua poesia e prosa conhecidas. Por longos anos, a poesia de Pessoa e seus heterônimos foi das mais vendidas no Brasil, e seu(s) nome(s), tão ou mais populares que muitos poetas brasileiros. Na mesma medida, aqui e em muitos lugares do mundo foram sendo criados núcleos de estudo de sua obra em diversas universidades, disseminando para além do mundo lusófono os “estudos pessoanos”, confirmando-se já o interesse universal em sua literatura.

De imediato, o que se pode garantir em relação à biografia de Zenith é que ela não se faz interessante apenas por um maior conhecimento de sua vida, mas porque Zenith é um grande conhecedor de sua poética. Uma das grandes felicidades do seu trabalho consiste em nunca despersonalizar o poeta entre seus heterônimos. Zenith busca sobretudo garantir a integridade intelectual do poeta e jogar luzes em sua direção valendo-se inclusive de elementos autobiográficos que Pessoa teria lançado em sua produção literária. Pois então se pode saber que o poeta da Autopsicografia, o assumido “fingidor”, muitas e muitas vezes apresentou, mesmo que de forma distorcida, elementos de sua vida mais corriqueira na sua poesia. Se ele obteve uma dicção sublime em função de elementos às vezes frugais, passagens e situações que de fato viveu ou presenciou, certo que isso mais atesta a sua genialidade criativa.

O premiado trabalho de Zenith (foi finalista do Pulitzer em 2022), no entanto, não vem passando imune a críticas. Por investigar com certa exaustão indícios e questões envolvendo a sexualidade do poeta, tem recebido críticas inclusive da parente mais próxima de Pessoa que é ainda viva. Aos 96 anos de idade, a também escritora e poeta Manuela Nogueira leu e classificou como fantasiosas algumas das dúvidas suscitadas na biografia. Também confirma que a imagem de um Pessoa “macambúzio”, de acordo com ela, não procede e afirma que o tio, embora muito desorganizado, produzia num ritmo que não desejava interromper em razão de nenhuma relação interpessoal, mas que era bem humorado e brincalhão.

A imagem de um poeta sombrio é, aliás, também muito questionada por Zenith. Muito presentes na biografia de João Gaspar Simões, de 1950, que elevou enormemente o interesse em torno do poeta com o seu trabalho biográfico, as características psicológicas (e psicopatológicas) do poeta são centrais na busca de Simões, mas notoriamente permeadas por um excessivo psicologismo desde os estudos do também contemporâneo Adolfo Casais Monteiro. Em muitas situações, Zenith explora outras facetas e informações a respeito do poeta de que certamente Simões não dispunha em 1950. O que se vislumbra é um indivíduo interessado na vida política do seu país e do mundo e que, com maior ou menor sorte, procurou manter boas relações e um círculo de amigos composto pela intelectualidade da época, além de ter também boas relações familiares. Com isso esclarecido, o leitor tem garantido poder voltar sossegado à busca por compreender o sentido mais profundo daquilo que Pessoa guardou a sete chaves durante a vida na sua famosa arca: a obra literária. E, ao passo de sua leitura, a tarefa vai se configurando como uma grande jornada de reconhecimento na qual vida e obra têm, por uma característica sui generis e pessoana, praticamente o mesmo peso e relevância.

A jornada proposta por Zenith, cabe dizer, é muito facilitada pela sua escrita leve e jornalística. Há uma visada simpática sobre o poeta, que se alfabetizou sozinho aos quatro anos de idade, num claro indicativo de altas habilidades. Quando se sabe, por exemplo, da sua dificuldade em manter o foco na conclusão dos inumeráveis projetos iniciados que pipocam em sua mente, ele diz não saber “evitar o ódio que os meus pensamentos têm a acabar seja o que for; uma coisa simples suscita dez mil pensamentos, e destes dez mil pensamentos brotam dez mil inter-associacões”, seria simples associá-lo ao que hoje se conhece como o transtorno de déficit de atenção. Não é por falta de características psíquicas, como se vê, que se dificulta a tarefa de compreendê-lo, mas pela sua abundância. E quando o biógrafo destina um capítulo inteiro do seu livro para demonstrar o esforço espiritual e intelectual de Pessoa em atingir um alto grau de alta exigência estética e psíquica, o que acaba muitas vezes sacrificando a sua estima e deprimindo-o, acaba por conferir ao poeta o que às vezes perdemos ao conhecê-lo: a dimensão de gozo e sofrimento de seu espírito criativo.

Qualquer leitor de Pessoa, mesmo o mais preliminar, logo ao defrontar-se com sua poesia percebe estar diante de um precipício intelectual. É uma experiência muito dissonante de qualquer outra poesia que se possa conhecer. De acordo com Leyla Perrone, uma de suas principais estudiosas no Brasil, a obra de Pessoa impõe um antecedente que todos os poetas de língua portuguesa devem enfrentar na perspectiva de continuar a usar a mesma língua. Depois dele, o sentimentalismo e a facilidade retórica “aparecem como erros imperdoáveis”, e isso é algo que se intui e compreende mesmo à sua leitura direta. O que a biografia de Zenith tem a oferecer para compreensão de Pessoa, no caso, é a confirmação de que esse universo – o mundo “pessoano” – foi, incrivelmente, tarefa de um homem só. E que, a despeito de viver os seus últimos anos de vida num pequeno apartamento da Coelho da Rocha, em Lisboa, ao morrer, de acordo com Miguel Torga, “Portugal viu passar num caixão sem ao menos perguntar quem era”. Nada disso conseguiu impedi-lo de ter engendrado uma das obras poéticas mais impressionantes e complexas de todo o mundo no séc. XX.


A casa do filósofo está a queimarA casa do filósofo está a queimar

Artigo publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, 24/07/2021.

Não foram poucos os pensadores do mundo contemporâneo com alcance global que, desde janeiro do ano passado, emitiram opiniões quanto ao impacto da pandemia no mundo político e no mundo das ideias. De Edgar Morin, a Bertrand Brasil (Record) publicou em 2020 “É hora de mudarmos de via: as lições do coronavírus”. Yuval Harari, autor do best-seller Sapiens, teve seus artigos compilados pela Companhia das Letras em “Notas sobre a pandemia”. Slavoj Žižek projetou a reinvenção do comunismo em lançamento da Boitempo: “Pandemia: Covid-19 e a reinvenção do comunismo”. Judith Butler analisou a questão do luto e do acesso desigual à saúde com o seu “Vida precária: os poderes do luto e da violência” (Autêntica). Mas Alain Badiou, Byung Chul-Han, Angela Davis, Theodore Dalrymple, David Harvey, Bruno Latour e outros nomes menos difundidos por aqui também publicaram artigos e movimentaram a vida mental do planeta enquanto o vírus se espalhava em suas mutações, além dos próprios autores brasileiros. Entre todos, todavia, ninguém como o italiano Giorgio Agamben se expôs tanto e foi tão combatido em suas polêmicas. É dele que a Âyiné publica agora “Quando a casa queima”, obra na qual o pensador italiano leva ao expoente máximo a sua compreensão biopolítica (e filosófica) do momento.

Quando um filósofo oferece ao mundo a sua compreensão de um assunto, não há garantia alguma de que será compreendido, bem recebido ou sequer tolerado. Pensar o mundo requer tanto uma visão abrangente quanto um potencial de leitura do qual cada vez mais as pessoas têm abdicado em prol dos filtros que a leitura por meio da internet canaliza às pessoas em suas convicções ou preferências, a depender de como se queira denominá-las. E pensar a contemporaneidade parece cada vez mais requerer um atestado de frequência escolar, mesmo que alguém como o centenário Edgar Morin não se furte nem a pensá-lo e nem a emitir suas impressões sobre o tempo de agora e, como visionário, também o mundo do futuro. Essa, porém, é uma ressalva improdutiva dado que o pensamento acompanha a vida e pode ser dado como sua grande fonte de energia. Ao longo dos últimos anos, Agamben vem se notabilizando pela cimentação de um edifício teórico baseado na ideia do estado de exceção, confluência da biopolítica foucaultiana e das técnicas de controle de Estado cada vez mais amparadas pela indústria tecnológica. A crise do coronavírus e suas medidas de contenção caíram como uma luva, portanto, para que ele desenvolvesse os pensamentos mais polêmicos entre todos os que vêm refletindo quanto à crise e seu enfrentamento.

Embora seja injusto afunilar o trabalho de Agamben unicamente em direção aos seus escritos mais recentes a respeito da pandemia, seu gesto em prol de uma defesa da autonomia da vontade caiu malissimamente mal na opinião púbica planetária porque justamente ao mesmo tempo em que a Itália (e logo depois o mundo inteiro) mesma se via na dificuldade extrema com a crise sanitária, mal tendo como dar conta de seus mortos. Após a publicação do seu polêmico texto inaugural a respeito da crise, A invenção de uma pandemia, o mundo ficou um tanto chocado com as opiniões do italiano ao classificar as medidas de contenção da vírus como “irracionais” e “imotivadas”. Lido com o distanciamento de ano e meio transcorrido e um saldo de quatro milhões de mortes, o artigo soa escandaloso, pois mesmo uma reclamação à liberdade factual foi generalizada como se a pandemia pudesse resumir-se num subterfúgio dos governantes para limitar e condicionar a experiência da vida social sem qualquer prazo ou transigência.

O rigor que Agamben aplicou na interpretação do decreto-lei do governo italiano que deu providências em relação ao surto do coronavírus na Itália, em fevereiro de 2020, por sua vez foi aplicado de volta ao seu próprio artigo. Apesar de que Žižek tenha cogitado inicialmente seguir um caminho semelhante de análise, Agamben não parou de refletir e publicar a respeito do assunto em sua editora, a Quodlibet, e dali espalhar-se ao mundo. Se o caráter suspensivo da pandemia atingiu aos demais pensadores ou levou-os a considerar outros aspectos e derivações do problema, nele se radicalizaram.

Não é de hoje que filósofos que causam escândalo conseguem às vezes serem mais interessantes do que aqueles que simplesmente surfam na opinião pública. Neste caso, Agamben pode ser considerado o único a tomar de uma onda gigante como o surto pandêmico e refletir, diante disso, quanto ao desnudamento total do ser humano em relação ao mundo político. Assim, mesmo que contestado, ele demonstra que o pensamento é sempre uma atividade de risco. O fato de ele jogar-se a um risco não calculado poderia inicialmente tê-lo detido em suas reflexões, porém isso também não aconteceu. Ao longo de 2020 e 2021, ele publicou quase duas dezenas de outros artigos em que prosseguiu discutindo as implicações da pandemia e suas medidas de controle, culminando neste “Quando a casa queima”, que a editora Âyiné agora traduz para o público brasileiro.

Com um título que remete à fábula budista da “casa em chamas”, Agamben desvela um mundo de pessoas conformadas e amedrontadas por um estágio derradeiro do estado de exceção que ele já vinha pensando desde o seu Homo Sacer, de 1995, no qual as pessoas teriam sacrificado voluntariamente a liberdade em prol da sobrevivência mais elementar. E mais drástico é que não haveria nesse sacrifício qualquer recompensa a não ser perdurar. Agamben é o filósofo que afirma que a história não oferece saídas e que o mundo, tal como a casa em chamas da parábola, oferece vida e morte na mesma receita.

Lido rapidamente, o texto de Agamben se parece mais a um esboço poético, uma sublimação extremada do espírito, que a um conjunto pragmático de soluções renovadoras para as condições de vida das pessoas no mundo pós-pandêmico. Essa imaginação, aliás, também já suspensa em vista da obtenção de um controle relativo do surto decorrente mais da técnica das vacinas do que exatamente de uma contenção autônoma das pessoas. O espanto da negligência com a vida só faz sentido quando a vida é mais valorizada que as coisas.

Este é bem o espanto de ver a menos valia que as pessoas parecem dar ao autocuidado e isso não se dá por uma disputa consciente no nível dos conceitos biopolíticos, como quer o italiano, mas pelo que cada um tolera como suportável do controle que o outro, ou o Estado, procura exercer, seja por meio da coerção legal, da reprovação moral ou do cancelamento social. Agamben sem dúvida corre o risco do cancelamento e de receber os qualificativos negativos que já recebeu, mas, por meio do livro em questão, poderá se concluir se ele vai ser consumido pela própria alegoria ou, então, surfar no topo da onda de uma liberdade de pensamento que há tempos os pensadores e humanos mortais vêm penhorando em troca da sobrevivência.

O radinho da Simone: espalhado Brasil adentroO radinho da Simone: espalhado Brasil adentro

Assim como há música que são como calçadas, espalhadas Brasil adentro, onde se encontra de tudo – e isso é uma benção de poucos lugares – há músicas que parecem que encontramos nas ruas, como um vizinho antigo, uma fachada intacta ou lugares que mudaram, aqueles que nos últimos tempos puderam mudar pra melhor.

Assim é o radinho da Simone, que encontrei quase sem querer pipocando de lá pra cá, nessa chapa quente que é a internet. A Simone de quem falo é a Simone Guimarães, a cantora que tem a voz do Brasil de dentro por dentro de si e que, quando bota isso pra fora, faz a gente sair procurando onde está o Brasil dentro de nós. E ela nos diz (sem mesmo saber) que ele está onde esteve sempre esteve, lá, ali, aqui, um pouco aos nossos pés, um pouco oculto e inacessível, mas ainda assim inteiramente nosso.

No radinho da Simone há coisas gravadas há bastante tempo, desde os tempos miraculosos de Piracema até os trabalhos mais recentes, não menos miraculosos, de Casa de Oceano ou Flor de Pão, registrados pela Biscoito Fino. Há também coisas pra descobrir: letras antigas de um Cacaso, canções plantadas no leito de um rio, na borda de uma janela em flor ou noutras jóias e pepitas desse pequeno grande tesouro esperando ser descoberto…

Sempre resta uma dúvida ao escutar a Simone: é preciso decidir rapidamente se as suas escolhas foram feitas pensando em sua voz ou se sua voz é que foi forjada por suas escolhas. Como a resposta não está escrita em lugar nenhum, o jeito é botar o radinho pra tocar mais uma vez. E tentar decidir jamais.
Com licença, por obséquio, que eu preciso ouvir esse radinho aqui um pouco mais.