Poesia Dyal Thak

Dyal Thak

Uma vaca pastando em uma colina seca com uma mulher vestindo um robe ao fundo, sob um céu azul e uma lua cheia visível.

Há dias, não, meses, que tenho esta imagem guardada comigo.

Tomei-a de uma revista de fotografia pensando que um dia escreveria um poema a partir dela.

Há poucos dias (não, meses), compreendi também que não escreveria mais poesia.

Algo em mim havia se tornado impermeável. Fracassava qualquer desejo de mostrar o que não está posto, tentar essa revelação a frio, a seco, que há em oferecer sentidos a mais, outra perspectiva ao óbvio de uma imagem bidimensional.

Nada posso acrescentar a essa imagem. Não posso colocar a lua no céu, ela já está lá. O animal pastando é uma constância, estará sempre assim. E o olhar da mulher, indefinido, eu o reconheço: é o mesmo meu.

Sinto em mim, em relação à poesia, uma fadiga como a dos metais. O aço que estourou mesmo sem nada suportar, como se fosse ao mesmo tempo o vórtice do mundo real.

Deste vórtice eu me afastei sem sentir tristeza por isso, apenas um pouco de saudade de quando sentia que conseguia ainda vivificar as imagens do pensamento. Era uma sensação muito poderosa, indescritivelmente poderosa, mas da qual, agora, guardo uma distância imprecisa e respeitosa.

A poesia requer, eu acho, uma ingenuidade incompatível com o ponto de vista de quem observa e analisa. O poeta observa para ver melhor e entrega o que vê de uma forma que cause espanto aos demais a cegueira em que ele mesmo se encontra. Ele entrega o que tateia e, por isso, temos sempre uma relação de admiração piedosa com estas pessoas. Eles não sabem e sabem que não sabem, pois estão sempre em busca desta confirmação.

Seja como for, e eu não sei mais do que isto, estou tranquilo com a lua no céu e sua desproporção. Estou tranquilo com o bovino matando a sua fome. Estou tranquilo como a paisagem que a mulher olha e não podemos saber o que é.

O que eu desejaria escrever em poesia é como essa paisagem: é o que eu não sei, o que não foi me dado ver. E, sabendo que é isso, apenas, e tudo que me importa, então tudo está dito.

A fotografia é de autoria de Kin Coedel, de uma séria intitulada Dyal Thak (termo em tibetano que significa “laços mútuos” ou “conexão”) 

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Para todos os efeitos, e sem
razão aparente, o mar arrastou
a pedra que estava aqui.
Era onde pousava meus olhos,
pensando se havia sentido
em tanta espera, mas os sonhos
bem se acomodavam no futuro.

Agora, onde piso, o chão se desfaz.
Onde aponto, a porta é fechada.
Volto para dentro de mim
e o silêncio das vagas é rumor
deposto em vão. Em palavras
que avançam sem direção
e levam consigo essa voz.

A liberdade? Encarcerou-se
num lugar distante. Mas, através dela,
refugo ao horror e o desassossego
que fracassa a força dos braços,
dobra joelhos e drena os olhos
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e por quem pouco me apego.

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e a quase tudo eu previa —
até mesmo de olhos fechados.
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apenas vivido,
e o que é falso se revela
sob qualquer ponto de vista.

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Tudo pode inclinar-me
W. B. Yeats
(13/06/1865 – 28/01/1939)

Tudo pode inclinar-me a que me afaste deste ofício do verso:
Antes já havia sido o rosto de uma mulher, ou pior —
As fúteis exigências do meu país regido por tolos;
Agora nada de melhor vem à minha mão
Do que este trabalho habitual. Quando eu era mais jovem,
Não daria um centavo por uma canção
Que o poeta não cantasse de modo
Que parecesse ter uma espada a postos nos seus aposentos;
Mas hoje seria, cumprido o que desejo,
Algo mais gelado e incomunicável que um peixe.